Navegar é preciso…

Neste imenso mar de blogs, a ampla navegação está cada vez mais difícil de dominar, mas os encontros virtuais, pelo menos para mim, continuam sendo pequenos e delicados toques de carinho.
Apesar da minha inconstância aqui, e também nas páginas daqueles que eu visito de vez em quando, os sinais que tenho recebido desde imenso oceano têm sido sempre tão encantadores como quando éramos apenas um diminuto lago nesse vasto planeta cibernético.
Outro dia eu publiquei um fragmento de texto cuja autoria estava creditada a Fernando Pessoa. Eu o encontrei enquanto estava à deriva, num destes passeios cegos que fazemos e não sabemos nem de onde vínhamos nem onde chegamos. Só sei que ele estava em uma página espanhola e precisei traduzí-lo, pois em Português não aparecia por nenhuma busca realizada.
Após alguns dias, dois amigos blogueiros comentaram comigo que o fragmento poderia não ser do poeta português, pois a Internet está inundada por poesia e prosa de outros, atribuídos a ele. Confesso que também eu comecei a duvidar da autoria, pois entre meus livros de prosa de F. Pessoa não encontrei o tal fragmento.
Acontece que me doía que não o fosse e cada vez que o lia, reconhecia um tom, um algo,um sussurro que soprava dentro do ouvido e que era um som reconhecido, dele e meu, de alguma época de meu passado, remoto tempo em que eu fiquei sem deus, sem mãe, nem pai, nem irmão, nem amigo… abandonada por mim mesma dentro de um poço.
O texto era tão “ele” que ainda resisti a retirar a assinatura, até que um dia pensei que era minha obrigação retirá-la, porque as pessoas que por acaso acessassem o blog poderiam enganar-se como eu havia me enganado.

Uma bela manhã destas, um suave toque na caixa de comentários me devolvia o sorriso. Que alegria! Um navegante desconhecido enviava-me uma mensagem, uma garrafa-mail com um singelo bilhetinho. Avisava-me que o texto era de Fernando Pessoa, mais específicamente do seu semi-heterônimo, Bernardo Soares. Segundo ele, o texto publicado fazia parte do fragmento 88 do Livro do Desassossego.
Êba! Eu tenho! Eu sabia! Eu sabia!!!!
Extremamente feliz, agradeci e fui correndo buscá-lo na estante. Contei os fragmentos um a um, pois em meu livro eles estão separados por um pequeno símbolo. Não o encontrei… como assim?
Pronto… agora o que fazer com essa agulha enfiada na garganta?
Enviei ao novo amigo navegante, Luiz Madureyra, um SOS pedindo um detalhe maior,. Minha edição organizava os fragmentos por temas e em capítulos, o que significa que os textos estavam dispostos ao gosto de seu editor. Que desassossego!


Apesar de possuir o livro desde 1986 e ter sido um dos poucos que eu pude trazer do Brasil, fazia já um bom tempo que não o tomava nas mãos.
Reencontrá-lo foi um presente delicioso…mas foi também um exercício de memória e dor que eu não esperava fazer agora.
Enquanto buscava e buscava, encontrei-me outra vez com a impressionante linguagem do guardador de livros, sua tristeza, sua solidão… suas conversas com as ruas de Lisboa, com os livros das entantes, com um deus que o deixava entregue à própria sorte, com o cinismo triste de quem não tinha esperanças, nem para si nem para o mundo e sem sequer saber onde buscá-las.
Pois sim…
Delicadamente, Luiz Madureyra respondeu que encontraria uma maneira de ajudar-me. Ele entrou em contato com Bill, outro navegante desses estranhos e enigmáticos mares… que enviou-me outra garrafa, (moderna e antiga forma de trocar informações) com um link de um site maravilhoso, onde eu poderia localizar essa obra e muitos outros artigos.
Fantástico, não é?
Obrigada aos dois. Por me ajudarem a confirmar a autoria do texto e também por fazerem com que eu voltasse ao Livro do Desassossego e pudesse novamente desfrutar de reflexões tão fortes e tão profundas!
Bill também tem dois outros blogs, um deles dedicado a Fernando Pessoa e outro dedicado a Florbela Espanca.
Que grande achado! Estou louca para mergulhar neles!
Aos amigos blogueiros Meg e Manoel Carlos também agradeço pelo toque delicado da dúvida, só assim foi possível desenlaçar o nó e consolidar a autoria do fragmento.
Que bom poder contar com vocês, sempre!
Então…
Aproveitando o assunto… penso que se todos nós fizéssemos o esforço de confirmar a autoria de determinadas mensagens que recebemos por e-mail, poderíamos minimizar a quantidade de falsificações literárias que correm pela Internet.


Já recebi tantos Fernando Veríssimo, Neruda e Garcia Marques cuja simples observação do estilo e do vocabulário já descartaria que tivessem sido escritos por um desses escritores!
Neruda então, vem cada uma!
Também tenho recebido textos de anônimos assinados por jornalistas conhecidos e famosos que, claro, nunca os escreveram, assim como notícias truncadas sobre circunstâncias da política ou da economia brasileira que já foram desmentidas ou apenas são interpretações manipuladoras dados fatos.
Vou atrás, investigo, pergunto. Na maioria das vezes dá para descobrir a verdade ( ou a mentira ), outras não, mas sempre procuro ler e analisar com bom senso e jamais passá-las adiante no impulso e no calor da hora.
Aborto a corrente aqui mesmo.
Sei que isso não muda em nada o panorama das redes do ” vamos jogar no ventilador que ninguém confere mesmo a veracidade das informações que recebe” mas pelo menos faço a minha parte.
Faço questão de não contribuir para aumentar o seu alcance através dos meus contatos.

Tenho meus próprios filtros para spams e com eles eu vou ainda mais longe.
Vejo-os como se fossem os vírus que vêm por meio de links e frases de efeito… e apago-os todos (ou quase todos) antes de ser infectada.
Há tantas maneiras de adoecer…

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Categorias: Mundo Virtual | Tags: , , , | 2 Comentários

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2 opiniões sobre “Navegar é preciso…

  1. Nora querida, há meses não venho aqui, e se te disser como foi que passou tanto tempo, não sei explicar. O tempo passa como um vento, mal registrei o que andei fazendo nesses meses. Mas a verdade é que a saudade bateu, vendo teu link e lembrando teu bom papo, as notícias de você que não tenho tido. Vejo que está tudo bem e fico feliz. Um beijo grande e saudade idem.

  2. Eu que agradeço pois da mesma forma que tu, me perdi novamente nesse livro fabuloso que os remete a tantos pensamentos.
    Quanto as mensagens que recebemos, é cada vez maior o numero de texto com escritores trocados, ficamos literalmente a ver navios.
    Grato e tenha um ótimo fim de semana
    (=

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