Agostos…


Mais um verão.
Desta vez, como em todas as outras, o que parece igual é tão diferente!
Em agosto de 2003 a temperatura parecia não ter limites, chegava a roubar-me o humor, o prazer de existir.
Naquele agosto a saudade do inverno já havia sentado na sala com um leque na mão a abanar-se, a desejar as praias nordestinas, perdida na absoluta falta de memória que o afeto provoca quando se está tão longe dos lugares que ajudaram a construir a própria pele. Quem se lembrava das chuvas e dos mosquitos dos antigos agostos do Janga ou de Toquinho? Nem eu nem ela.
Todos os agostos as agências de viagens espanholas tomam conta da metade dos principais jornais e enganam a todos fingindo que é verão em todas as partes do mundo, como se essa fosse a única estação do ano em que é possível ser feliz.
Voe para o paraíso… Quem disse que verão com calor abrasador é paraíso? Nunca foi. Para mim se não é o inferno, chega bem perto.

Mas o verdadeiro inferno daquele agosto foi encontrar-me com o inesperado medo de haver-me equivocado, o terror de haver inventado um amor. Um agosto em que as noites insones eram maiores que os dias, os cigarros eram a falsa companhia no silêncio de uma sala vazia enquanto o coração tentava ancorar-se nas lembranças do agosto anterior, quando o único que eu desejava era que a saudade se deixasse morrer e me permitisse ficar aqui para o que desse e viesse, sem praia sem nada, mas dormindo todas as noites, absurdamente feliz, as pernas entrelaçadas e o rosto a meio centímetro de uma barba perfumada.
Novamente é agosto. E desta vez, como em todas as outras, o que parece igual é tão diferente. Em outro agosto, toda chuva do mundo caiu dentro do peito. Foi o mês mais frio que já passou minha alma.
Seis anos atrás a Princesa se foi, justo ao primeiro dia, e o mundo passou a ter outros significados. Frio deixou de ser oposto ao calor e passou a ser vazio, oco, falta, medo, dor, morte… de uma forma como nunca havia sabido ser. Nem mesmo aquela outra, de muitos anos antes, também uma dor de agosto, e que veio junto com a certeza de que a separação era inevitável…
Desta vez, como em todas as outras, o mesmo agosto é tão diferente. No ano passado eu estava em prantos na sala, com uma roupa escolhida com cuidado e na mão uma pasta azul cheia de papéis com os prazos de validade quase vencidos e acabando de chegar de uma terceira frustrada tentativa de entregá-los ao registro civil de uma cidade onde ninguém pode casar-se nestas datas. Neste país, o mundo sai de férias todos os agostos, por mais iguais ou diferentes que eles sejam…
Pois sim…
É agosto e o mundo saiu de férias. Estamos de novo sós com nossa história.

Desta vez, como em todas as outras, o que parece igual é muito diferente. Agora o calor não parece insuportável e deixa entrar umas brisas refrescantes que transformam as noites claras em verdeiras delícias. Além do mais, um veleiro de madeira, antigo e cheio de histórias, nos aguarda em Galícia, onde por dez dias vou realizar outro dos meus quase impossíveis sonhos: navegar à vela com olhos-de-mar-azul.
Figa!
Por se acaso…

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13 opiniões sobre “Agostos…

  1. Nem sei como vim parar por aqui, estive navegando e encontrei este porto, lindo e formoso ! Parabéns, seu blog é muito lindo ! Visite o meu se puder.Beijos, Adri

  2. Oi, Nora, vim aqui te ler. Me sinto super bem nesse espaco maravilhoso onde ler significa viajar no tempo, espaco,como uma boa melodia que chega ao coracao.
    Sinto-me orgulhosa por ter compartilhado minha infancia com alguem tao especial quanto voce.

  3. so para corrigir o endereco do meu blog que saiu incorreto no comentario abaixo.

  4. Socorro

    Querida Nora
    Hoje, dia dos pais aqui no Brasil, relembro com este teu texto a minha relação com o mês de agosto. Cresci no meio do sertão da Bahia ouvindo meu pai falar sobre os desgostos de agosto. E como ele era, para mim, o mais sábio dos seres, claro que aquilo se tornou uma grande verdade. Quando ele morreu, eu tinha 13 anos. No último dia de um mês de agosto. Hoje, mais de 30 agostos se passaram e a única lembrança que eu tenho desse mês, tão nítida como se estivesse marcada na minha alma, é a dor da partida dele.

  5. Inazio

    Para mim…o unico verao e o que existe en Anápolis, em uma linda casa rodeada de plantas verdes e onde por a tarde cae chuva muito forte. Eu estou sonhando con isa casa y com a princesa que mora dentro. Dizembro ja está muito perto.

  6. Que lindo Nora, fiquei emocionada!!

  7. oi Nora,
    é sempre tão bom te ler!
    adorei e vivi cada recuerdo teu de tantos agostos…
    fazia muito tempo que não passava por aqui.
    desejo tudo de bom e velas ao vento!

  8. oi Nora,
    é sempre tão bom te ler!
    adorei e vivi nesse post cada recuerdo teu de tantos agostos…
    fazia muito tempo que não passava por aqui.
    desejo tudo de bom e velas ao vento!

  9. Nora, “miga”, saudades de ti e das nossas conversas. Espero que esteja curtindo muito sua viagem. Quando voltar me liga. Beijos

  10. Olá, NORA.
    Se isso te consola, para o passado, pra mim também os agostos, guardadas as diferenças gigantes entre España e Goyaz tem tais contraditórios.
    A diferença é que não há nenhum veleiro à espera, só as agruras do comércio.
    Pra mim a saudade da chuva “já sentou na sala de estar com um leque à mão” (*por sinal, que bela imagem!).
    Espero que o veleiro tenha sido o paraíso. E que nos conte tudo…
    Amitiés,
    Beto, no escaldante agosto goyano.

  11. Que lindo, Nora.
    Vc se supera.
    Beijos enormes

  12. Oh minha linda de alma poética… esse veleiro dá água na boca…rs… me diz uma coisa: de 17 a 20 de setembro vcs vao estar em casa ou na Andalucía com os teu amigos??? Beijus

  13. Cleide

    Nora, queriiiida! que lindas suas imagens de Agosto! Meu pai sempre dizia que agosto é mes de cachorro louco… mas a mim me parece mais o calorzao sentado na sala de leque na mao! amei! Saudades de conversar tete a tete com vc e com Pepe!!!! Beijos

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