Arquivo do mês: outubro 2007

No Trem…

“Se você não se calar AGORA, vai chorar com motivo”. Sibila entre os dentes, com impaciência patente, uma mulher jovem e bonita que está sentada bem atrás de mim. O bebê já choramingava há um tempo, num monótono tom persistente, um choro cansado, quase desistido. Ele estava deitado e amarrado pelas correias de segurança num carrinho negro e cheio de compartimentos úteis. Devia ter mais de dois anos, mas estava deitado como se fosse um bebê de meses. A ameaça da mãe saiu em Português e minha surpresa foi ainda maior. Uma brasileira que está perdendo seu traço mais forte, a expressão de carinho, o jeito de abraçar? Estará se europeizando.
Já estou acostumada a ver mães e pais europeus viajarem acompanhados de crianças de qualquer idade mas comportando-se como se os filhos não estivessem com eles. Os pequenos podem chorar, vomitar, gritar, morrer… e eles impávidos, com cara de não é comigo, nem estou ouvindo nada. Claro que nós, os outros passageiros, vemos e escutamos tudo, exceto os que viajam com os auriculares do Ipod enfiados nos ouvido.
Outra criança, um pouco maior do que o bebê que chorava de dar dó – cuja mãe era incapaz de mover-se para tomä-lo nos braços, fazer um carinho, sussurrar no seu ouvido uma canção – passeia pelo trem, joga-se como um mamulengo vivo sobre a sua poltrona, fica de cabeça para baixo soltando gritos finos e insuportáveis. O velho que senta bem em frente a ele lê o jornal, ou seja, tenta ler o jornal. De vez em quando afasta-se aborrecido das botas sujas do menino em seus joelhos e fulmina com um olhar reprovador a mãe que olha para o nada pela janela do trem, distante e perdida em reflexões filosóficas, fazendo de conta que não sabe o que ocorre ao seu lado. E mais, nem conhece aquele monstrinho fazendo macaquices e importunando as pessoas à sua volta. Tenho vontade de levantar e tentar distraí-lo, contar-lhe uma história, conversar sobre a paisagem. Mas sei que serei eu a fulminada pela mãe no mesmo momento em que me aproxime do bichinho abandonado no vagão. Epa! Que faz essa imigrante morena junto ao meu menino!
De repente ela se dá conta que os gritos estão cada vez mais altos e descobre que é a mãe da criatura. Pega-o grosseiramente pelos bracinhos finos e joga-o sentado na cadeira. Shhhh! Põe um dedo sobre a boca franzida, vira-se de novo para a janela e mergulha nos seus pensamentos. O menino fica por um segundo e meio mais ou menos quieto, confuso, toma o queixo da mãe com as duas mãozinhas e gira o rosto dela em sua direção. Ela desvencilha-se dele e volta a ignorá-lo. Aí ele começa tudo outra vez. Como um malabarista sem controle, pula para um lado e outro e grita na sua voz esganiçada de macaquinho. Oh! meus Deus, que insuportável! é o que se pode ler nas caras dos passageiros mais próximos.O homem velho se levanta e vai em busca de outro assento onde possa concentrar-se nas notícias.

A brasileira atrás de mim ameaça de novo seu bebê com uma raiva assustadora e olha-nos um tanto envergonhada porque ele existe e é seu, apesar de todo o esforço para ignorá-lo. Não está lendo, nem olhando pela janela, nem fazendo nada. Apenas não pretende retirá-lo daquela posição incômoda de onde só pode avistar o teto do trem. Ela precisa estar sozinha, para quê eu não sei. Fico me imaginando tomando-o nos braços e perguntando-lhe porque chora, mostrando-lhe as árvores lá fora, pegando seus dedinhos e cantando “dedo mindinho, seu vizinho, fura bolo, cata piolho… cadê o gato que estava aqui?” e escutando sua risada enquanto se encolhe com as cócegas. Imagino seu bracinho de pele suave segurando meu pescoço e perguntando o por quê da coisas de um livro cheios de figuras coloridas que eu tiro da bolsa para estimular seu cérebro e fazer-lhe companhia.
Mas não me atrevo a mover-me. Como uma pessoa estranha vai fazer o que deveria fazer a mãe? E mais assim, em público, diante de todos? Também sei que ela não deixaria nem que eu me aproximasse do carrinho, exceto se fosse para conversar com ela! E eu não queria conversar com ela, nem ouvir suas explicações, nem socializar com uma conterrânea. Queria apenas embalar o seu bebê, estar com ele nos braços, fazê-lo sentir-se bem.
O trem para na estação e a mãe desce com seu filho, deitadinho, o pobre. Sei que ela vai subir e descer escadas com o enorme carrinho no braço, de saco cheio por ter que sair de casa com aquele pedacinho de carne barulhento. O menino vai seguir vendo apenas os tetos, talvez os cantos altos das paredes nuas da estação, ouvindo vozes que ele não conhece e que vêm de todas as partes acima de sua cabeça. Quem sabe pare de chorar quando veja o céu lá adiante do caminho! A mãe ele não pode ver. Ela caminha atrás da capota negra do bólido utilitário, com cara de enfado, empurrando seu incômodo pacote vivo.
Fico com os olhos cheios de lágrimas. Ando sensível.
A porta se fecha e o trem segue seus trilhos. O menino saltimbanco acaba de levar um beliscão. Agora ele também chora, além de gritar. A mãe olha para o vazio…
A próxima estação é a minha. Saio do vagão andando devagar, pensando no menino-macaquinho que ficou no trem, no seu desejo que sua mãe olhasse para ele, conversasse com ele, lhe contasse uma história de fadas e dragões de jorram fogo pela boca e salvam princesas encantadas dos castelos…
Quem o salvará da solidão?

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El Albergue de Las Mujeres Tristes…


Li este livro com uma sensação de estar vendo um álbum de fotografias. Um álbum estranho, onírico, onde estavam pregadas as caras, minha e de muitas de minhas amigas, cujos nomes estavam trocados pelos dos personagens criados por Marcela Serrano*, mas que possuíam as mesmas expressões de susto, desesperança e tristeza nos olhos, o mesmo ricto amargo nos cantos da boca, as mesmas rugas de cansaço por trás de sorrisos diplomáticos. Em muitos momentos da narrativa perdi-me em longos devaneios, retomando imagens, sentimentos, medos e questionamentos vindos dos recônditos mais profundos de minha alma. Recordações que eu acreditava desaparecidas na minha larga história de mulher “independente ” e triste no final do século XX e início do XXI.
O livro me chegou às mãos meio por acaso. Eu estava querendo uma novela suave, para ler nas férias. Meu marido foi na estante do fundo do corredor e o escolheu dizendo que sabia que eu iria gostar. Aceitei a sugestão de imediato só pelo título, mesmo sabendo que apesar der ser uma novela pequena, não seria assim tão leve… A cicatriz que levo na alma é grande e tem voz própria quando o tema é tristeza. Nunca me esquecerei dos tempos em que ela quase me matou.
Viajei dentro do ônibus com Floreana – personagem principal da novela – até o albergue da ilha de Chiloé, no sul do Chile, com um frisson dentro do peito, assim como sabendo exatamente o que era buscar um lugar muito distante de tudo como única possibilidade para sobreviver à dor, ao medo, ao desencontro consigo mesma.
Ali, ela e eu nos encontramos com as outras. Ela com uma atriz, uma milionária, uma bordadeira, uma artesana de bonecas, uma psiquiatra, uma economista, entre outras mulheres do albergue dispostas a deixarem-se curar, a compartir tarefas e histórias por três meses. Eu, com uma artesana de bijuterias, uma médica, uma secretária, uma psicóloga, uma advogada, uma dona-de-casa, uma administradora, entre outras mais.
Cada uma das mulheres do albergue levava consigo seus próprios personagens, agarrados como crostas às suas cicatrizes…
Eu e as minhas amigas levávamos também os nossos…
Claro, minha Constanza não era economista, nem se chamava Constanza, mas era tão parecida com ela que se confundiam as duas.Tanto que eu podia usar a cara de uma ou de outra quando as escutava, fosse no livro ou na minha lembrança.
Na verdade, os relatos daquelas mulheres nos desnudavam a todas e, por deixarem assim expostas as suas feridas, estas já não eram apenas suas, já não eram feridas individuais… eram as chagas de todas as mulheres do planeta, vivessem em Santiago do Chile ou em São Paulo, em Nova York ou em Madrid, estivessem no mercado laboral ou em suas casas.
Muitas vezes eu resisti a fechar o livro e ir-me porque sabia o quanto de mim ficaria preso entre suas páginas. Outras resisti a abri-lo para não encontrar-me.
Mas não resisti a continuar a leitura… e continuar me encontrando com todas elas, ou ainda outras já desaparecidas como a Princesa, minha mãe, ou minha bela amiga de infância que morreu de câncer, ou outras amigas perdidas num mundo de desamor e traição, cansaço e medo.
A autora também faz um contraponto a esses relatos femininos com a presença de dois personagens masculinos: um médico e um escritor de contos eróticos. Ambos entraram na vida de Floreana ( e nas nossas ) com suas teses sobre as mulheres e sobre o papel masculino no mundo contemporâneo, suas dúvidas, seus temores, seus desconcertos.

As questões sobre o amor, o sexo, a amizade, a família e o trabalho são inesgotáveis dentro da literatura. E Marcela Serrano*, esta bela escritora chilena as reune nesta novela levantando ainda mais poeira sobre esses temas.
Para onde vai o relacionamento amoroso com o deslocamento das mulheres rumo à independência financeira e emocional?
O que sentem as mulheres quando percebem que o preço a pagar pela independência e a liberdade de seus desejos e ações quase sempre é a solidão?
O que sentem os homens? Porque eles têm medo de amar essas novas mulheres?

Bom, só refletir sobre isso já faz de El Albergue de Las Mujeres Tristes um livro para ser lido, discutido, conversado. Sugiro que o leiam. Homens e mulheres.
Ho ho… voltei bem, heim?!
* Marcela Serrano

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