El Albergue de Las Mujeres Tristes…


Li este livro com uma sensação de estar vendo um álbum de fotografias. Um álbum estranho, onírico, onde estavam pregadas as caras, minha e de muitas de minhas amigas, cujos nomes estavam trocados pelos dos personagens criados por Marcela Serrano*, mas que possuíam as mesmas expressões de susto, desesperança e tristeza nos olhos, o mesmo ricto amargo nos cantos da boca, as mesmas rugas de cansaço por trás de sorrisos diplomáticos. Em muitos momentos da narrativa perdi-me em longos devaneios, retomando imagens, sentimentos, medos e questionamentos vindos dos recônditos mais profundos de minha alma. Recordações que eu acreditava desaparecidas na minha larga história de mulher “independente ” e triste no final do século XX e início do XXI.
O livro me chegou às mãos meio por acaso. Eu estava querendo uma novela suave, para ler nas férias. Meu marido foi na estante do fundo do corredor e o escolheu dizendo que sabia que eu iria gostar. Aceitei a sugestão de imediato só pelo título, mesmo sabendo que apesar der ser uma novela pequena, não seria assim tão leve… A cicatriz que levo na alma é grande e tem voz própria quando o tema é tristeza. Nunca me esquecerei dos tempos em que ela quase me matou.
Viajei dentro do ônibus com Floreana – personagem principal da novela – até o albergue da ilha de Chiloé, no sul do Chile, com um frisson dentro do peito, assim como sabendo exatamente o que era buscar um lugar muito distante de tudo como única possibilidade para sobreviver à dor, ao medo, ao desencontro consigo mesma.
Ali, ela e eu nos encontramos com as outras. Ela com uma atriz, uma milionária, uma bordadeira, uma artesana de bonecas, uma psiquiatra, uma economista, entre outras mulheres do albergue dispostas a deixarem-se curar, a compartir tarefas e histórias por três meses. Eu, com uma artesana de bijuterias, uma médica, uma secretária, uma psicóloga, uma advogada, uma dona-de-casa, uma administradora, entre outras mais.
Cada uma das mulheres do albergue levava consigo seus próprios personagens, agarrados como crostas às suas cicatrizes…
Eu e as minhas amigas levávamos também os nossos…
Claro, minha Constanza não era economista, nem se chamava Constanza, mas era tão parecida com ela que se confundiam as duas.Tanto que eu podia usar a cara de uma ou de outra quando as escutava, fosse no livro ou na minha lembrança.
Na verdade, os relatos daquelas mulheres nos desnudavam a todas e, por deixarem assim expostas as suas feridas, estas já não eram apenas suas, já não eram feridas individuais… eram as chagas de todas as mulheres do planeta, vivessem em Santiago do Chile ou em São Paulo, em Nova York ou em Madrid, estivessem no mercado laboral ou em suas casas.
Muitas vezes eu resisti a fechar o livro e ir-me porque sabia o quanto de mim ficaria preso entre suas páginas. Outras resisti a abri-lo para não encontrar-me.
Mas não resisti a continuar a leitura… e continuar me encontrando com todas elas, ou ainda outras já desaparecidas como a Princesa, minha mãe, ou minha bela amiga de infância que morreu de câncer, ou outras amigas perdidas num mundo de desamor e traição, cansaço e medo.
A autora também faz um contraponto a esses relatos femininos com a presença de dois personagens masculinos: um médico e um escritor de contos eróticos. Ambos entraram na vida de Floreana ( e nas nossas ) com suas teses sobre as mulheres e sobre o papel masculino no mundo contemporâneo, suas dúvidas, seus temores, seus desconcertos.

As questões sobre o amor, o sexo, a amizade, a família e o trabalho são inesgotáveis dentro da literatura. E Marcela Serrano*, esta bela escritora chilena as reune nesta novela levantando ainda mais poeira sobre esses temas.
Para onde vai o relacionamento amoroso com o deslocamento das mulheres rumo à independência financeira e emocional?
O que sentem as mulheres quando percebem que o preço a pagar pela independência e a liberdade de seus desejos e ações quase sempre é a solidão?
O que sentem os homens? Porque eles têm medo de amar essas novas mulheres?

Bom, só refletir sobre isso já faz de El Albergue de Las Mujeres Tristes um livro para ser lido, discutido, conversado. Sugiro que o leiam. Homens e mulheres.
Ho ho… voltei bem, heim?!
* Marcela Serrano

Anúncios
Categorias: Cicatrizes da Alma, Livros | Tags: , , , , | 3 Comentários

Navegação de Posts

3 opiniões sobre “El Albergue de Las Mujeres Tristes…

  1. Queria saber porque somos assim… mulheres tristes.
    Mesmo que os filhos estejam bem, que não falte comida farta, que até tenhamos amor, há um quê de tristeza que nos marca… qual marca de ferro em brasa… não some nunca.
    Feliz com sua volta
    beijo

  2. Claudia Neves

    Lendo seu post, me lembrei de nossa conversa sobre esse livro e do comentário do meu já amigo livreiro quando lhe pedi que encomendasse para mim este título: “É muita tisteza num livro só!”
    Será?
    Li hoje um texto de Danuza Leão que vou lhe passar por email , sobre a contabilidade de momentos de nossa vida.
    Os tristes parecem mais longos, fortes e maiores…Lógico doem mais, marcam mais.
    Os alegres, aqueles das alegrias simples e diária nos escapam na contagem.
    Adorei abrir seu blog e vê tanta coisa escrita.Maravilhoso como sempre.
    Beijos

  3. Uau, que maravilha de post! Já achei no submarino (em português,uma pena) e vou encomendar.
    Obrigada pela dica. Preciosa!!!
    Beijos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s