No Trem…

“Se você não se calar AGORA, vai chorar com motivo”. Sibila entre os dentes, com impaciência patente, uma mulher jovem e bonita que está sentada bem atrás de mim. O bebê já choramingava há um tempo, num monótono tom persistente, um choro cansado, quase desistido. Ele estava deitado e amarrado pelas correias de segurança num carrinho negro e cheio de compartimentos úteis. Devia ter mais de dois anos, mas estava deitado como se fosse um bebê de meses. A ameaça da mãe saiu em Português e minha surpresa foi ainda maior. Uma brasileira que está perdendo seu traço mais forte, a expressão de carinho, o jeito de abraçar? Estará se europeizando.
Já estou acostumada a ver mães e pais europeus viajarem acompanhados de crianças de qualquer idade mas comportando-se como se os filhos não estivessem com eles. Os pequenos podem chorar, vomitar, gritar, morrer… e eles impávidos, com cara de não é comigo, nem estou ouvindo nada. Claro que nós, os outros passageiros, vemos e escutamos tudo, exceto os que viajam com os auriculares do Ipod enfiados nos ouvido.
Outra criança, um pouco maior do que o bebê que chorava de dar dó – cuja mãe era incapaz de mover-se para tomä-lo nos braços, fazer um carinho, sussurrar no seu ouvido uma canção – passeia pelo trem, joga-se como um mamulengo vivo sobre a sua poltrona, fica de cabeça para baixo soltando gritos finos e insuportáveis. O velho que senta bem em frente a ele lê o jornal, ou seja, tenta ler o jornal. De vez em quando afasta-se aborrecido das botas sujas do menino em seus joelhos e fulmina com um olhar reprovador a mãe que olha para o nada pela janela do trem, distante e perdida em reflexões filosóficas, fazendo de conta que não sabe o que ocorre ao seu lado. E mais, nem conhece aquele monstrinho fazendo macaquices e importunando as pessoas à sua volta. Tenho vontade de levantar e tentar distraí-lo, contar-lhe uma história, conversar sobre a paisagem. Mas sei que serei eu a fulminada pela mãe no mesmo momento em que me aproxime do bichinho abandonado no vagão. Epa! Que faz essa imigrante morena junto ao meu menino!
De repente ela se dá conta que os gritos estão cada vez mais altos e descobre que é a mãe da criatura. Pega-o grosseiramente pelos bracinhos finos e joga-o sentado na cadeira. Shhhh! Põe um dedo sobre a boca franzida, vira-se de novo para a janela e mergulha nos seus pensamentos. O menino fica por um segundo e meio mais ou menos quieto, confuso, toma o queixo da mãe com as duas mãozinhas e gira o rosto dela em sua direção. Ela desvencilha-se dele e volta a ignorá-lo. Aí ele começa tudo outra vez. Como um malabarista sem controle, pula para um lado e outro e grita na sua voz esganiçada de macaquinho. Oh! meus Deus, que insuportável! é o que se pode ler nas caras dos passageiros mais próximos.O homem velho se levanta e vai em busca de outro assento onde possa concentrar-se nas notícias.

A brasileira atrás de mim ameaça de novo seu bebê com uma raiva assustadora e olha-nos um tanto envergonhada porque ele existe e é seu, apesar de todo o esforço para ignorá-lo. Não está lendo, nem olhando pela janela, nem fazendo nada. Apenas não pretende retirá-lo daquela posição incômoda de onde só pode avistar o teto do trem. Ela precisa estar sozinha, para quê eu não sei. Fico me imaginando tomando-o nos braços e perguntando-lhe porque chora, mostrando-lhe as árvores lá fora, pegando seus dedinhos e cantando “dedo mindinho, seu vizinho, fura bolo, cata piolho… cadê o gato que estava aqui?” e escutando sua risada enquanto se encolhe com as cócegas. Imagino seu bracinho de pele suave segurando meu pescoço e perguntando o por quê da coisas de um livro cheios de figuras coloridas que eu tiro da bolsa para estimular seu cérebro e fazer-lhe companhia.
Mas não me atrevo a mover-me. Como uma pessoa estranha vai fazer o que deveria fazer a mãe? E mais assim, em público, diante de todos? Também sei que ela não deixaria nem que eu me aproximasse do carrinho, exceto se fosse para conversar com ela! E eu não queria conversar com ela, nem ouvir suas explicações, nem socializar com uma conterrânea. Queria apenas embalar o seu bebê, estar com ele nos braços, fazê-lo sentir-se bem.
O trem para na estação e a mãe desce com seu filho, deitadinho, o pobre. Sei que ela vai subir e descer escadas com o enorme carrinho no braço, de saco cheio por ter que sair de casa com aquele pedacinho de carne barulhento. O menino vai seguir vendo apenas os tetos, talvez os cantos altos das paredes nuas da estação, ouvindo vozes que ele não conhece e que vêm de todas as partes acima de sua cabeça. Quem sabe pare de chorar quando veja o céu lá adiante do caminho! A mãe ele não pode ver. Ela caminha atrás da capota negra do bólido utilitário, com cara de enfado, empurrando seu incômodo pacote vivo.
Fico com os olhos cheios de lágrimas. Ando sensível.
A porta se fecha e o trem segue seus trilhos. O menino saltimbanco acaba de levar um beliscão. Agora ele também chora, além de gritar. A mãe olha para o vazio…
A próxima estação é a minha. Saio do vagão andando devagar, pensando no menino-macaquinho que ficou no trem, no seu desejo que sua mãe olhasse para ele, conversasse com ele, lhe contasse uma história de fadas e dragões de jorram fogo pela boca e salvam princesas encantadas dos castelos…
Quem o salvará da solidão?

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12 opiniões sobre “No Trem…

  1. linda crônica, Nora! até eu, que não tenho lá muitos pendores paternais, fiquei com vontade de estar por perto desses piás do post. um beijo!

  2. Triste cena, com certeza. Só discordo da sua certeza de que mães brasileiras são mais carinhosas. Tenho visto e sabido de casos terríveis de maustratos a crianças por parte das mães. E leio no jornal também: crianças espancadas, crianças jogadas num rio… Quando vejo campanhas sobre violência contra mulheres, penso imediatamente. Mulheres são adultas, têm como se queixar. E as crianças?

  3. Nora Borges

    Sonia, infelizmente o maltrato às crianças acontece em todos os países do planeta, você tem razão. Aqui eu quis fazer uma diferença entre o comportamento europeu que tenho visto nos últimos 5 anos de uma forma ” generalizada” como um tanto mais seco que o dos brasileiros. Mas há muitas exceções, com certeza.
    O que abordei na crônica foi o descaso, a indiferença…
    Obrigada pela visita e volte sempre, ok?
    Ps: Estou INAUGURANDO meu sistema de resposta! Iupiiii!

  4. Oi Nora! Há quanto tempo eu não te visito!
    Eu não me controlo em brincar com crianças e pelo que meu cunhado americano disse, isso é meio que proibido nos EUA e Europa! Vixe, eu não consigo. Mesmo que for de longe eu tenho que brincar. É tão bom, né! Agora, imagina que adulto essas crianças se tornarão? Deus proteja.
    Beijos para vc.

  5. Nora querida,
    Obrigada por suas palavras sempre tão gentis. Adorei sua crônica! Você tem razão, preciso aprender a escrever cenas do cotidiano, coisa que você faz tão bem.Volto amanhã para ver sua resposta à minha brincadeira. Quanto aos comentários, há muito colocaram para mim e não sei tirá-los.
    Beijo,

  6. Pôxa que triste… o pior é que acontece em qualquer lugar do mundo. Bom final de semana!!!

  7. Nora
    Você me deu um soco no estômago…
    Fez-me lembrar de mim mesma, jovem demais para ser mãe (o que não é desculpa), ainda querendo ser apenas filha e tendo que encarar a maternidade não planejadam não esperada, não tudo…
    Meu Deus! Quantas vezes devo ter feito o mesmo?
    Ou não… o pior é qe não me lembro…
    Só sei que está doendo em mim a dor da mãe e a dor do filho…
    beijo

  8. Adoro o seu jeito de escrever, já não é a primeira vez que venho aqui, nas primeiras vezes li os arquivos para entender um pouquinho da sua história, adorei a parte que você conta sua história de amor, senti falta da continuação sobre a roupa do casamento e a cerimônia em si, será que vc chegou a escrever… estava adorando parecia um livro, um romance para não parar de ler. Parabéns!

  9. Sonja

    Oi Nora,
    Vc continua a mesma de sempre. E eh verdade que as maes brasileiras sao diferentes das daqui. Aonde vc ja viu lugar que vc sorri para um bebe e ele fecha a cara? So aqui mesmo. Nunca vi um bebe sorrindo para estranhos…
    Beijos querida. Tenho um “presente” para vc. Esta com a Liv que esta esperando seu endereco que nao sei aonde esta….
    Saudades de voce e Pepe.

  10. adriana cavalcante

    Nora, um Chaplin da vida o salvará quem sabe? É que vi “O Garoto” agora há pouco e fiquei comovida tanto quanto li o teu texto agora…bjos

  11. Elena

    Monstros maternos que nao deveriam ser mae. 😦

  12. luisars

    Norita, eu nem me imagino nao brincando, nao confortando, nao embalando minha filha em qualquer situação!!! Da peninha… Muito bacana por aqui, voltarei! =)

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