Arquivo do mês: novembro 2007

Gente…

Sempre tive uma fascinação pelos anônimos, muito mais do que pelos famosos.
Geralmente não sinto curiosidade pelas revistas de assuntos do coração (como chamam aqui as revistas de fofocas), nem gosto de cascavilhar a vida das pessoas que conheço. Isso não significa que não sinta interesse por elas e sim que tenho um grande respeito por suas intimidades. As pessoas só me contam o que querem contar. Gosto de escutá-las quando falam de suas vidas e contam suas histórias, mas nunca faço-lhes perguntas indiscretas sobre o que não desejam comentar.
Com os desconhecidos é diferente.
Sento num banco da estação de trem nas proximidades de Madrid e quase imediatamente me sinto tragada pela vida da gente que me rodeia. Observar as pessoas é algo que me distrai imensamente. E mais agora que vivo fora da cidade.
Pode ser apenas uma mulher que passa com um penteado absurdo ou uma jovem com um vestido apertado sobre uns jeans rasgado equilibrando-se nos saltos, finos como agulhas, dos sapatos cor-de-rosa-choque. Onde vai vestida assim e correndo tanto?

Sinto uma enorme empatia por uma mulher, quase anciã, que lê um livro tão velho quanto ela, cujas páginas amareladas parecem terem estado guardadas numa arca escondida no fundo de um escuro porão. Imagino se é a primeria vez que o lê ou se já leu muitas vezes a mesma história… ou quem sabe apenas tomou-o emprestado de alguma biblioteca empoeirada de um bairro distante e o faz respirar e reviver em suas mãos um tanto trêmulas.

Quero saber mais sobre o músico que toca uma balada conhecida numa esquina fria enquanto os passantes mais sensíveis jogam uma moeda dentro da caixa de seu instrumento, ou sobre um mendigo que passa falando sozinho empurrando um carrinho de supermercado cheio de objetos escondidos atrás de um cobertor… ou ainda sobre um sujeito com cara de professor que está sentando num banco da praça com os olhos cheios de lágrimas…
Ah! como me impressionam as lágrimas do anônimo sujeito!
E sigo eu perdida, por um tempo incontável, imaginando histórias para suas vidas, de onde vêm, para onde vão, quem são seus seres queridos, como ocupam seus dias e noites.
Outro dia foi assim…tanto viajei na imaginação e me deslumbrei com ela que tive que sair correndo para não perder o trem. No banco deixei o livro que levava, sem abri-lo sequer. Outra novela de Marcela Serrano, dedicada e assinada pela autora. Faltava-me ler apenas dez ou quinze páginas para terminá-lo.
Ainda pude avistá-lo de longe, abandonado no banco da estação, enquanto o trem se afastava lentamente. Era impossível abrir a porta e descer. Precisava esperar a seguinte estação e voltar em outro trem para tentar recuperá-lo. Um tempo demasiado longo. Possivelmente ele não mais estivesse ali. Era noite e eu estava voltando para casa. Voltar podia significar mais de uma hora de atraso. Deixei-o ali. Triste e calada segui meu rumo.
Imaginei quem iria encontrá-lo, quem teria coragem de ficar com ele. Na capa, um copo que cai e espalha um líquido rubro sobre um tudo que não se vê..
O título? Para que não me olvides.
Sorri com o inusitado do acontecido. Um livro esquecido numa estação de trem, que sussurra para quem passa : Para que não me esqueças…

Categorias: Baú de Cultura | Tags: , , , | 6 Comentários

Mais um outono e mais história.( Cap 21)


Faltava menos de um mês para o casamento.
A roupa já estava no armário, completinha e linda, mas… o resto estava cada dia mais complicado. A lista de convidados crescia todas as noites quando os amigos e familiares confirmavam a presença acompanhados de sua prole completa.
Todo dia tínhamos que refazer a conta e eu já estava ficando nervosa que uma pequena e enxuta lista de cinquenta já estivesse perto de noventa.
Com os nervos à flor da pele e as bruxinhas dando voltas sobre o telhado de minha casa, briguei com olhos-de-mar-azul por tudo e por nada. Eu nem me recordo agora por que coisas me irritei pro-fun-da-men-te! O fato é que cheguei ao ponto de questionar se era mesmo para casar… mas fui em frente.
O plano era fazer uma cerimonia simples e aconchegante, depois umas copas e um almoço. Dançar se todos quisessem. Simplíssimo.
O responsável pela cozinha tomaria conta de organizar a comida e a bebida e nisso eu estava mais do que tranquila. Fiquei de resolver apenas sobre o bolo, as flores e a decoração. Estava no papo. Sou prática : muitas plantas pelos cantos, cestas de frutas naturais sobre as mesas e tchum. Resolvido.
Ah! Queria um arranjo de flores sobre a mesa onde Florentino ( oh! nomezinho querido!) iria fazer-me a imensa pergunta: ” Nora, aceita este homem…etc…etc…” Ui, que nervoso!
Todo mundo se ofereceu para ajudar na arrumação e tal e qual. Que maravilha!
Só que isso significava que “todo mundo” teria que chegar antes da data. Me explico: dia 9 de Dezembro era um sábado seguinte ao feriado da Virgem de la Concepción. Festa nacional. Acontece que o dia 6 era outro feriado. Dia da Constituição Espanhola. Entonces… dia 7 era puente e muita gente não ia trabalhar. Parecia bom para quem vinha de fora, mas para quem tinha que organizar, comprar, contratar, ir buscar… era o inferno. Tudo estaria fechado!
Tá bom. Tá bom! Quem morava fora de Madrid queria aproveitar o feriadão e chegar antes. E hospedar-se? Hum, aqui mesmo!
Heim? Como assim?
Então… na mesma semana do casamento eu teria que organizar quartos, banheiros, lençóis e toalhas para todo mundo. Café-almoço-jantar para todo mundo!? Siiiim? Jura? Fiiz bico.
Pois sim. “Lé com lé, cré com cré…um sapato em cada pé.” Comecei a cantar umas músicas do arco da velha, que nem me lembro como estavam guardadas na memória!
Deixei este problema para resolver mais perto do dia D, porque havia um outro muito mais sério: podia ser que não houvesse casamento. Rá!
Por causa das brigas eu estava novamente com medo que as coisas entre nós mudassem drasticamente e de repente eu me transformasse naquela esposa das piadas machistas.
Sabem qual é a figura mais menosprezada da família, depois da sogra? A esposa! Como a minha mãe já morreu, eu estaria no pódio. Em primeiríssimo lugar.
Parece engraçado, mas não é. Nunca achei engraçado as piadinhas que mostravam as mulheres como histéricas ridículas, loucas para casar. E menos ainda que tivessem que lutar com unhas e dentes por este status com um noivo medroso e parecendo estar indo para a forca.
Pode ser que eu tenha um trauma. Meu primeiro noivo,quando me pediu em casamento parecia muito mais estar querendo botar um selo de garantia de posse na mulher que sería SUA, um dia qualquer do futuro distante, do que realmente apaixonado. Na verdade, cada vez que se falava em enxoval e casamento ele parecia que estava com a cabeça na guilhotina. Toda vez que perguntavam quando sería a data do casamento ele respondia que “estava todo arrepiado só de pensar” ou então “quem sabe será na semana santa, só não sei de que ano”, dizia com uma enorme gargalhada, o idiota! E eu, com cara de pateta ao lado, morta de vergonha.

Pois eu cansei. Mandei o rapaz casar com outra porque enchi o saco daquele papel de mocinha-virgem-esperançosa-e-feliz por ter conseguido um jovem-macho-tão-bonito-e-cuidadoso, de boa família… loucamente ciumento, por quem eu tería que esperar dez anos, no mínimo, antes que ele “concordasse ” em marcar uma data para o “enforcamento” e passasse o resto da vida queixando-se de seu destino.
Quando amadureci um pouco dei o pira deste cenário “paradisíaco” e fui viver minha vida. Também é novelesca a segunda experiência com noivado e casamento…
Mas essas são outras histórias, quem sabe um dia eu conto.
Mas agora eu era uma mulher madura, apaixonada e correspondida por um homem maduro e convicto de sua vontade. Meu prometido desta vez era Ele, seguramente o homem com quem eu queria viver a minha vida, amava-me de verdade e queria casar-se comigo, sem medo e sem dúvidas.
Oh, meu deuzinho do céu! havíamos superado tantos obstáculos! Eu precisava acreditar que, de uma vez por todas, era possível despertar um amor real, forte, profundo e duradouro em um homem maravilhoso. E casar não iria mudar isso. Ponto. Acalmei meu juízo como pude… e segui adiante.
Então… mais uma coisa aconteceu. As bruxas nunca deixaríam a coisa fácil e tivemos que travar mais uma luta com elas…

Descobrimos por onde elas iam atacar! Os papéis!
No dia 13 de Novembro ainda não tínhamos recebido nenhum comunicado sobre os documentos… tcs…tcs… Tá. Normal, será ao largo da semana.
Não foi.
Apenas no dia 23 ficamos sabendo que o tal gnomo que nos havia prometido tudo pronto em dois meses havia se enganado.
Como assim? Como assiiiiimmmmm?
Assim… ele havia mandado nossos papéis para Madrid dois dias atrás, 21 de Novembro. Só agora os dois meses seríam contados!
Disse que receberíamos o chamado em Janeiro do ano seguinte e então poderíamos marcar a data.
– Heim?
Havíamos contado dois meses a partir do dia 13 de Setembro. O casamento já estava marcado para o dia 9 de Dezembro. Dentro de 16 dias!
Ainda bem que eu não estava lá na hora pois não sei o que teria feito com o tal sujeito.
Entretanto…a fada madrinha deve ter escutado a conversa porque de repente a criatura levantou-se, serviu um cafezinho, fez umas chamadas… e pediu desculpas pelo seu erro. Pediu nosso telefone dizendo que iria resolver tudo pessoalmente. Qualquer problema era só mudar a data, vale? Ele nos telefonaria.
– Era para rir?
Não telefonou.
Enquanto isso, os preparativos em marcha e eu descobrindo outras coisinhas. Um arranjo de flores simples para a mesa podia custar entre 80 a 120 euros ( já estávamos no inverno ) mas se você dissesse que era para um casamento, mesmo caseiro e sem pompa, o preço saltava para 400 euros.
Eu queria um ramo simples na mão. Pois se era para uma noiva ele valia três ou quatro vezes mais caro.
Um bolo “de noiva” seguia a mesma regra, apesar de não haver por aqui nenhuma tradição de bolo como no Brasil, feito com frutas cristalizadas e vinho. Era um bolo normal, com uns cremes que eu detesto, com enfeites de bonequinhos. E desse eu não queria. Ora bolas, que absurdo! Resolvi mentir… disse que era uma comemoração caseira para os 25 anos de casada. Funcionou. Consegui tudo simples, bonito e com preços justos.
No final do mês estava tudo pronto e organizado, apesar das muitas outras gracinhas das bruxas. Uma delas é que tive que ir encomendar as sobremesas montada numa ambulância. Não, claro que não foi preciso apitar o tuim-tuimmmmmmm! Mas pareceu muito estranho à senhora que nos atendeu na pastelaria artesanal do pueblo mais próximo que eu tivesse chegado ali acompanhada por um enfermeiro de bata branca, com ambulância e tudo. Quase o mesmo que chegar de vassoura, né?
Talvez por isso ela tenha exigido o pagamento adiantado. Hahhahahahah!
Nesta época eu ainda estava rindo…
Aí… o sujeitinho da cozinha, justo aquele que resolveria tudo da comida, veio aqui e disse que não poderia coordenar o “evento” porque sua mulher estava para dar a luz a qualquer momento e poderia ser justamente naquele sábado.
Hum. Tá . Já sabíamos que não se podia garantir nada nessa minha história! Tínhamos dois dias para resolver o problema e vivemos no campo, longe DE TUDO. A lista de convidados já havia engordado para 110 pessoas, sentadas, querendo comer e beber. TODOS confirmaram, ninguém tinha qualquer impedimento!
Bom, claro que eu queria que viessem e estava feliz com isso, mas a festa estava muito maior do que havíamos imaginado no início e precisaríamos de mais ajuda.
Conseguimos três jovens que se ofereceram para trabalhar no sábado, mas seria necessário gente na cozinha no dia anterior. Feriado nacional, já disse! Tóin!
Pois sim… lá estariam as cunhadas e amigas hospedadas em casa. Não queriam ajudar? Ho ho ho… que tal?
Mas aí eu já estava com um motorzinho ligado dentro do peito e o riso soava completamente trêmulo. As lágrimas saíam com muito mais facilidade!

Quanto mais dificuldades enfrentamos, mas criativos nos tornamos, não é?
Pois sim. Um dia olhos-de-mar-azul acordou pela manhã com uma ideia. “Se os papéis não estiverem na minha mão hoje, vamos fingir que casamos. Falamos com Florentino e ele nos faz assinar um livro de mentirinha… e depois vamos lá e casamos de verdade.” “Que piensas de eso?”
Ele estava alucinando!? Como? Que loucura! Como vou fingir que estou casando? Como eu ia assinar um livro de mentirinha? Fingir diante da mãe dele, uma senhora de 85 anos, dos tios, irmãos e amigos que vinham de todas as partes da Espanha para um casamento de verdade?
Imaginei a cena do “Sim, eu aceito…” e me vi dando umas gargalhadas de engasgar, com os olhos rasos de lágrimas – VERDEIRAS! Que ridículo! Estaríamos representando! E pior, fazendo todo mundo de idiota.
NÃO! Assim não caso!
Mas era dia 4 de Dezembro e nada de papéis.

Categorias: Coisas de Amor | Tags: , , | 15 Comentários

Ela voltou…

Laura me chamou para jogar e eu fiquei feliz da vida só por ela estar querendo brincar comigo e voltar ao seu blog. Ela é uma das primeiras pessoas com quem eu fiz contato em meu primeiríssimo blog, em maio de 2003.
Laura, junto com Milton Ribeiro, Chico Sena, Zadig, Angela Lemos,Tomaz Magalhães, entre outros poucos leitores que eu tinha na época do Impressões, foram os grandes incentivadores para que eu seguisse escrevendo apesar dos boicotes da Globo e do Mblog.
Ela é uma querida e, mesmo que nunca tenhamos nos encontrado, sabemos que será bárbaro quando aconteça. Vou agradeçer ao Zadig e ao Chico por trazerem-na de volta o Pensamentos de Laura.
Aí, vai a brincadeira.
1ª) Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);
2ª) Abra-o na página 161;
3ª) Procurar a 5ª frase completa;
4ª) Postar essa frase em seu blog;
5ª) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6ª) Repassar para outros 5 blogs.


O livro: Dicionário de Citações.
A frase é de Cicerón: “ No hay fase en la vida, pública o privada, libre de deveres” ( Não há fase na vida, pública ou privada, livre de deveres )
Só não vou repassar para outros 5 blogs porque eu também passei um bocado de tempo longe daqui e nem sei para quem ofereçer a brincadeira. Perdão.
Mas…se você quer brincar tome o exemplo acima e faça o mesmo. Depois venha me buscar que eu vou lá no seu blog ler, está bem assim?
PS. Estou morrendo de vontade de fazer a brincadeira diferente.
Quero escolher o livro e a frase. Ho ho ho!

Categorias: Mundo Virtual | Tags: , | 7 Comentários