Mais um outono e mais história.( Cap 21)


Faltava menos de um mês para o casamento.
A roupa já estava no armário, completinha e linda, mas… o resto estava cada dia mais complicado. A lista de convidados crescia todas as noites quando os amigos e familiares confirmavam a presença acompanhados de sua prole completa.
Todo dia tínhamos que refazer a conta e eu já estava ficando nervosa que uma pequena e enxuta lista de cinquenta já estivesse perto de noventa.
Com os nervos à flor da pele e as bruxinhas dando voltas sobre o telhado de minha casa, briguei com olhos-de-mar-azul por tudo e por nada. Eu nem me recordo agora por que coisas me irritei pro-fun-da-men-te! O fato é que cheguei ao ponto de questionar se era mesmo para casar… mas fui em frente.
O plano era fazer uma cerimonia simples e aconchegante, depois umas copas e um almoço. Dançar se todos quisessem. Simplíssimo.
O responsável pela cozinha tomaria conta de organizar a comida e a bebida e nisso eu estava mais do que tranquila. Fiquei de resolver apenas sobre o bolo, as flores e a decoração. Estava no papo. Sou prática : muitas plantas pelos cantos, cestas de frutas naturais sobre as mesas e tchum. Resolvido.
Ah! Queria um arranjo de flores sobre a mesa onde Florentino ( oh! nomezinho querido!) iria fazer-me a imensa pergunta: ” Nora, aceita este homem…etc…etc…” Ui, que nervoso!
Todo mundo se ofereceu para ajudar na arrumação e tal e qual. Que maravilha!
Só que isso significava que “todo mundo” teria que chegar antes da data. Me explico: dia 9 de Dezembro era um sábado seguinte ao feriado da Virgem de la Concepción. Festa nacional. Acontece que o dia 6 era outro feriado. Dia da Constituição Espanhola. Entonces… dia 7 era puente e muita gente não ia trabalhar. Parecia bom para quem vinha de fora, mas para quem tinha que organizar, comprar, contratar, ir buscar… era o inferno. Tudo estaria fechado!
Tá bom. Tá bom! Quem morava fora de Madrid queria aproveitar o feriadão e chegar antes. E hospedar-se? Hum, aqui mesmo!
Heim? Como assim?
Então… na mesma semana do casamento eu teria que organizar quartos, banheiros, lençóis e toalhas para todo mundo. Café-almoço-jantar para todo mundo!? Siiiim? Jura? Fiiz bico.
Pois sim. “Lé com lé, cré com cré…um sapato em cada pé.” Comecei a cantar umas músicas do arco da velha, que nem me lembro como estavam guardadas na memória!
Deixei este problema para resolver mais perto do dia D, porque havia um outro muito mais sério: podia ser que não houvesse casamento. Rá!
Por causa das brigas eu estava novamente com medo que as coisas entre nós mudassem drasticamente e de repente eu me transformasse naquela esposa das piadas machistas.
Sabem qual é a figura mais menosprezada da família, depois da sogra? A esposa! Como a minha mãe já morreu, eu estaria no pódio. Em primeiríssimo lugar.
Parece engraçado, mas não é. Nunca achei engraçado as piadinhas que mostravam as mulheres como histéricas ridículas, loucas para casar. E menos ainda que tivessem que lutar com unhas e dentes por este status com um noivo medroso e parecendo estar indo para a forca.
Pode ser que eu tenha um trauma. Meu primeiro noivo,quando me pediu em casamento parecia muito mais estar querendo botar um selo de garantia de posse na mulher que sería SUA, um dia qualquer do futuro distante, do que realmente apaixonado. Na verdade, cada vez que se falava em enxoval e casamento ele parecia que estava com a cabeça na guilhotina. Toda vez que perguntavam quando sería a data do casamento ele respondia que “estava todo arrepiado só de pensar” ou então “quem sabe será na semana santa, só não sei de que ano”, dizia com uma enorme gargalhada, o idiota! E eu, com cara de pateta ao lado, morta de vergonha.

Pois eu cansei. Mandei o rapaz casar com outra porque enchi o saco daquele papel de mocinha-virgem-esperançosa-e-feliz por ter conseguido um jovem-macho-tão-bonito-e-cuidadoso, de boa família… loucamente ciumento, por quem eu tería que esperar dez anos, no mínimo, antes que ele “concordasse ” em marcar uma data para o “enforcamento” e passasse o resto da vida queixando-se de seu destino.
Quando amadureci um pouco dei o pira deste cenário “paradisíaco” e fui viver minha vida. Também é novelesca a segunda experiência com noivado e casamento…
Mas essas são outras histórias, quem sabe um dia eu conto.
Mas agora eu era uma mulher madura, apaixonada e correspondida por um homem maduro e convicto de sua vontade. Meu prometido desta vez era Ele, seguramente o homem com quem eu queria viver a minha vida, amava-me de verdade e queria casar-se comigo, sem medo e sem dúvidas.
Oh, meu deuzinho do céu! havíamos superado tantos obstáculos! Eu precisava acreditar que, de uma vez por todas, era possível despertar um amor real, forte, profundo e duradouro em um homem maravilhoso. E casar não iria mudar isso. Ponto. Acalmei meu juízo como pude… e segui adiante.
Então… mais uma coisa aconteceu. As bruxas nunca deixaríam a coisa fácil e tivemos que travar mais uma luta com elas…

Descobrimos por onde elas iam atacar! Os papéis!
No dia 13 de Novembro ainda não tínhamos recebido nenhum comunicado sobre os documentos… tcs…tcs… Tá. Normal, será ao largo da semana.
Não foi.
Apenas no dia 23 ficamos sabendo que o tal gnomo que nos havia prometido tudo pronto em dois meses havia se enganado.
Como assim? Como assiiiiimmmmm?
Assim… ele havia mandado nossos papéis para Madrid dois dias atrás, 21 de Novembro. Só agora os dois meses seríam contados!
Disse que receberíamos o chamado em Janeiro do ano seguinte e então poderíamos marcar a data.
– Heim?
Havíamos contado dois meses a partir do dia 13 de Setembro. O casamento já estava marcado para o dia 9 de Dezembro. Dentro de 16 dias!
Ainda bem que eu não estava lá na hora pois não sei o que teria feito com o tal sujeito.
Entretanto…a fada madrinha deve ter escutado a conversa porque de repente a criatura levantou-se, serviu um cafezinho, fez umas chamadas… e pediu desculpas pelo seu erro. Pediu nosso telefone dizendo que iria resolver tudo pessoalmente. Qualquer problema era só mudar a data, vale? Ele nos telefonaria.
– Era para rir?
Não telefonou.
Enquanto isso, os preparativos em marcha e eu descobrindo outras coisinhas. Um arranjo de flores simples para a mesa podia custar entre 80 a 120 euros ( já estávamos no inverno ) mas se você dissesse que era para um casamento, mesmo caseiro e sem pompa, o preço saltava para 400 euros.
Eu queria um ramo simples na mão. Pois se era para uma noiva ele valia três ou quatro vezes mais caro.
Um bolo “de noiva” seguia a mesma regra, apesar de não haver por aqui nenhuma tradição de bolo como no Brasil, feito com frutas cristalizadas e vinho. Era um bolo normal, com uns cremes que eu detesto, com enfeites de bonequinhos. E desse eu não queria. Ora bolas, que absurdo! Resolvi mentir… disse que era uma comemoração caseira para os 25 anos de casada. Funcionou. Consegui tudo simples, bonito e com preços justos.
No final do mês estava tudo pronto e organizado, apesar das muitas outras gracinhas das bruxas. Uma delas é que tive que ir encomendar as sobremesas montada numa ambulância. Não, claro que não foi preciso apitar o tuim-tuimmmmmmm! Mas pareceu muito estranho à senhora que nos atendeu na pastelaria artesanal do pueblo mais próximo que eu tivesse chegado ali acompanhada por um enfermeiro de bata branca, com ambulância e tudo. Quase o mesmo que chegar de vassoura, né?
Talvez por isso ela tenha exigido o pagamento adiantado. Hahhahahahah!
Nesta época eu ainda estava rindo…
Aí… o sujeitinho da cozinha, justo aquele que resolveria tudo da comida, veio aqui e disse que não poderia coordenar o “evento” porque sua mulher estava para dar a luz a qualquer momento e poderia ser justamente naquele sábado.
Hum. Tá . Já sabíamos que não se podia garantir nada nessa minha história! Tínhamos dois dias para resolver o problema e vivemos no campo, longe DE TUDO. A lista de convidados já havia engordado para 110 pessoas, sentadas, querendo comer e beber. TODOS confirmaram, ninguém tinha qualquer impedimento!
Bom, claro que eu queria que viessem e estava feliz com isso, mas a festa estava muito maior do que havíamos imaginado no início e precisaríamos de mais ajuda.
Conseguimos três jovens que se ofereceram para trabalhar no sábado, mas seria necessário gente na cozinha no dia anterior. Feriado nacional, já disse! Tóin!
Pois sim… lá estariam as cunhadas e amigas hospedadas em casa. Não queriam ajudar? Ho ho ho… que tal?
Mas aí eu já estava com um motorzinho ligado dentro do peito e o riso soava completamente trêmulo. As lágrimas saíam com muito mais facilidade!

Quanto mais dificuldades enfrentamos, mas criativos nos tornamos, não é?
Pois sim. Um dia olhos-de-mar-azul acordou pela manhã com uma ideia. “Se os papéis não estiverem na minha mão hoje, vamos fingir que casamos. Falamos com Florentino e ele nos faz assinar um livro de mentirinha… e depois vamos lá e casamos de verdade.” “Que piensas de eso?”
Ele estava alucinando!? Como? Que loucura! Como vou fingir que estou casando? Como eu ia assinar um livro de mentirinha? Fingir diante da mãe dele, uma senhora de 85 anos, dos tios, irmãos e amigos que vinham de todas as partes da Espanha para um casamento de verdade?
Imaginei a cena do “Sim, eu aceito…” e me vi dando umas gargalhadas de engasgar, com os olhos rasos de lágrimas – VERDEIRAS! Que ridículo! Estaríamos representando! E pior, fazendo todo mundo de idiota.
NÃO! Assim não caso!
Mas era dia 4 de Dezembro e nada de papéis.

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15 opiniões sobre “Mais um outono e mais história.( Cap 21)

  1. OBA! Voltou com a história do casamento 🙂 Já aguardo a continuação. Beijinhos

  2. Adoro suas histórias!! Sei bem o que é uma lista de convidados. Meu filho se casou agora em setembro e a lista inicial de 200, apertanto de todos os lados acabou em quase 300! Uma doideira!
    Vou esperar a continuação.
    Beijo,

  3. Nora, se eu desconhecesse suas histórias, acreditaria tratar-se de ficção, com direito a drama, humor e muita imaginação.
    Depois de vinte anos de casados, nós nos casamos de papel passado, como você já sabe. Desistimos de festa, casamos apenas na presença de filhos e padrinhos. E mesmo assim, eu também ouvi coisas do tipo: – acho que é uma grande bobagem; não sei onde eu estava com a cabeça quando pensei nisto; você demonstra que não quer casar, por que não disse logo?

  4. Cacau Neves

    Norita,
    Engraçado que você tenha postado contado essa história. Tenho me lembrado constantemente desses dias.
    E ontem almocei com a Galega e Rino, e lógico passei uma tarde na Espanha.Quando cheguei fui rever todas as fotos, incluindo as do casamento.
    O fundo musical foi um Cd maravilhoso de musicas que voce me mandou.
    Ui….o peito apertou….
    Saudadissíssimas..
    Com amor,
    Cacau
    PS: Tem um texto para vocês no matilde,
    Bjs

  5. Como eu já conheço o final da história nem fico nervosa. Mas SEMPRE adoro ouvir. SEMPRE. Nao cansa nunca pq sua historia é linda e finais felizes sao maravilhosos.
    Beijos, saudade.

  6. Como eu já conheço o final da história nem fico nervosa. Mas SEMPRE adoro ouvir. SEMPRE. Nao cansa nunca pq sua historia é linda e finais felizes sao maravilhosos.
    Beijos, saudade.

  7. Querida, história mais do que interessante. Saudades.
    Beijocas

  8. linkei vc pra poder vir aqui sempre, linda historias rsrs…beijos, saudações lancinantes, Adri

  9. Tu tens o dom da palavra, Nora. Tô esperando o final da história. Bjs.

  10. adriana cavalcante

    Nora,
    Só posso dizer que sempre que venho por aqui é uma delícia de momentos que perduram mesmo quando simplesmente “vou embora”. Obrigada. Bjs

  11. Mas no final deu tudo certo né? O meu casamento também teve uma ronda das bruxas, mas a pajé dentro de mim foi mais forte que elas.

  12. Norinha, voltou com tudo né? Que delicia suas historias!!!
    Beijos meus, vou fazer a brincadeira sim… hehehe

  13. Nora,
    Voltando para reler, além do texto, adorei o noivo sendo “arrastado”.
    Beijo,

  14. Nora,
    Uma delícia, o texto! Prende a gente desde o começo. : )
    Espero que esteja tudo bem. Saudades.
    Beijos.

  15. Oi Nora, como você mesma disse, “a navegação está cada vez mais difícil de dominar.” Dei uma parada, mas passei aqui para matar a saudade e ler seus textos, sempre recheados de sensibilidade e poesia. Beijos.

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