Arquivo do mês: dezembro 2007

Um Presente…

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Que Paraíso é Esse?


A primeira conversa:
-Oi, sou Eva.
-Hã ???
-Meu nome é E-v-a. Sou tua companheira aqui no édem.
-Hã ???
-Alouuuu!!!! Tem alguém aí ? …Sou Eva, mulher, linda e necessária, estou aquí (com um dedo mostrando a cabeça).
-Hã !!!! onde estou ???
-No édem, meu docinho. O paraíso, nossa casa.
-Como cheguei aqui?
-Foi Deus quem mandou. (Olhando pra cima, com “aquele” olhar)
-Que dia é hoje ?
-Domingo. O último dia da criação. Deus te criou pra me fazer companhia. Ele me disse que havia alguns defeitos, mas acho que ele exagerou. Vem cá, Adam, acho que você está com fominha, come essa maçã aqui, come.
-Agora ??? Acabei de acordar, estou com um jornal na boca e nú. Vou tomar um banho. (Pensando…Meu Deus, o que foi que eu bebi ontem, onde eu estava, o que foi que eu fiz ?????)
Deus sorrindo escondido, com seu sutil senso de humor, criou o almoço de família, futebol, praia, chopinho, bigbrother, fantástico, tudo aos domingos.
* Publicado por Sérgio Borges, no finado blog Pirata da Rua. Saudades dele!

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Para que no me olvides (2)…

Para que no me olvides é um livro forte. Muito forte.
E, apesar de tê-lo abandonado à própria sorte num banco de uma estação de trem, não pude esquecê-lo.
Dia após dia eu recordava Blanca como se ela fosse uma amiga que precisava ser escutada e a quem eu, inadvertidamente, havia traído.
Escutar… estranha palavra em se tratando de Blanca.
Ela não podia falar. Também não podia escrever, nem pintar ou desenhar, sequer usar a mímica para fazer-se compreender. Apenas a expressão de seus olhos deixava transparecer os seus sentimentos. Nos comunicávamos por telepatia. Ela pensava e eu entendia. E Marcela Serrano, a autora, era o veículo pelo qual passavam suas emoções antes de chegar a mim. E já me tocou um ponto sensível quando começou sua história. Primeiro com esta frase:
“A mulher fugiu para a solidão, onde tinha um lugar preparado por Deus.” Apocalipse 12, versículos 6-7
E depois com este prólogo:
“Minha avó me ensinou a ler. Minha avó me apresentou os livros e me transmitiu seu amor por eles. Não tive eleição, foi sua herança.
Ela me disse me disse que com os livros eu nunca estaria só. Me ensinou a cuidar dos meus olhos apoderando-me deles como o lugar mais valioso, o mais nítido.
Me explicou que se alguma vez falhassem os ouvidos, não seria tão grave, pouco me perderia, tudo o que valia escutar se havia escrito e o resgataria com meus olhos.
Me disse que se alguma vez falhasse a voz, não seria o fim. Receberia o som exterior sem devolvê-lo e ninguém sentiria falta, menos eu. Estavam as palavras para ser executadas: por meus ouvidos as que já estavam concebidas, por minhas mãos as que quisesse inventar.
Ao final, sem mencionar sequer outras carências como o olfato ou o gosto, minha avó me disse que ignorasse a surdez y a mudez se chegassem a acometer-me, que a única falta total era a cegueira.
Que cuidasse de meus olhos. Só com eles poderia ler. Só eles me salvariam da solidão.”

Discordei veementemente dessa avó. Como viver sem a música? Seguramente eu sofreria imensamente!
Até que entrei na vida de Blanca e duvidei de todas as minhas certezas.
Sua estranha enfermidade lhe impedia de articular a linguagem. Não era uma mudez da voz. Era afasia com o agravante da alexia, agrafia e acalculia. Isso significava uma incapacidade na expressão da linguagem em qualquer forma. Era como se seu cérebro tivesse cortado qualquer possibilidade de comunicação com o mundo exterior. Entretanto, a linguagem interna permanecia, a compreensão de tudo que escutava permanecia. Entendia o que falavam com ela, mas era incapaz de responder. Sabia a resposta, mas esta não podia sair de dentro dela. Estava absolutamente sozinha com as suas idéias e os seus sentimentos.
Que coisa tão triste! Nas imensas horas do dia, só podia refletir ou recordar. Nem livros, nem agulhas de croché, nem tintas, nem palavras cruzadas, nem costuras, nem receitas de cozinha, nem nada.
Estava condenada a uma prisão sem grades e sem cadeados. Uma prisão branca e invisível.
Pois sim. Cheia de horror entrei em seu mundo pelas mágicas mãos desta maravilhosa escritora chilena e me deslumbrei. Senti sua dor, suas dúvidas, seu terror, sua impotência. Acompanhei sua vida, seus amores, suas angústias. Conheci suas ânsias e também sua fragilidade. Conheci Victoria, Sofia e também O Gringo e a história escura do Chile. Tudo através de sua memória.

E vai que eu, distraída por um fim de tarde cheio de anônimos, esqueçi Blanca sobre um banco de uma estação de trem de Madrid.
Consegui calá-la um tanto mais, justo quando ela estava quase terminando sua história?
Como pude?
Uma semana depois fui à Madrid e comprei outro livro. Fantasiei que quando o abrisse, a história, como numa mágica feliz, se modificaria.
Mas não. Era a mesma Marcela Serrano invisível, transmitindo ao meu mundo o silêncio dolorido e cheio de significados de Blanca.
Era a mesma Blanca e sua incomensurável solidão. Ela sempre estará ali dentro, fazendo a gente a refletir sobre a vida, sobre a fragilidade da vida. Nós é que mudamos depois de encontrá-la.
Espero que outra amiga a tenha encontrado…

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