Arquivo do mês: maio 2008

Ai…Ai…

Ando tão cansada da luta constante contra esse trocinho infeliz que marca o peso das pobres pessoas! Se é tão simples ser feliz com um pedaço razoável de queijo curado, um bom vinho tinto e um pão chapata quentinho!
E aquele sujeito franzino me manda substituir a felicidade por abacaxi e espargos?!

E eu ainda pago para tomar umas pílulas coloridas de fibra ( natural?) que me deixam entupida, ansiosa e triste?!

Quem mandou dar tanto poder a um desconhecido magrelo, branquelo, com menos de trinta anos e, arrisco inclusive a dizer,  com pouquíssima experiência de perdas e ganhos, para que acione o maldito equipamento que detecta qualquer deslize feliz cometido durante uma mísera semana!!
gordinha test
Eu preciso acreditar que é só por um tempo… que é só até poder vestir um maiô e não ter vontade de entrar embaixo da cama e ficar ali até o verão passar.

Amanhã tem branquelo e balança… tóin!

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Soube um dia destes que as calorias são uns bichinhos transparentes que vivem dentro dos armários e, durante a noite, apertam as roupas das pessoas. Rá!
Estou deixando a roupa fora do armário por um tempo… por se acaso!

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Porque hoje chove…

Porque eu tenho um café quente na caneca azul…porque eu choro quando estou cheia daquelas saudades sem nome.. porque eu amo quando Tom Waits enche a casa com essa voz … E porque hoje é sexta e eu queria um whisky com os amigos na casa com cheiro de jasmim de Casa Forte.
Eu ouço e derreto.

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Avistando África… desde Tarifa.


* Escrevi este post nos últimos dias de Abril. Mas só pude publicar agora.

Estou em Tarifa. Um privilégio, eu sei. Todos aí em plena jornada de trabalho e eu aqui, nesse maravilhoso rincão do planeta, aproveitando esses mares e a extraordinária luz do pueblo mais meridional da Europa enquanto assisto a recuperação do tornozelo quebrado do meu pirata, depois de mais de um mês imobilizado num gesso até o meio da perna.
Saímos todos os dias pela manhã para andar à beira mar na Playa de los Lances de forma a fortalecer a articulação e restituir à musculatura da sua perna direita a flexibilidade de sempre.
Não há ninguém na praia a essa horas, a água dói de tão gelada, o vento sopra sem piedade, uivando como um lobo assustado. As gaivotas, que em outras circunstâncias pousam na areia molhada em busca de pequenas delicias, tampouco são muitas por aqui. Uma ou outra mais atrevida arrisca planar sobre nossas cabeças mas logo desiste do esforço se vai para a Isla de las Palomas, ligada ao povoado por um estreito caminho de pedras que tem o Mar Mediterrâneo de um lado e o Oceano Atlântico do outro ou seguem para a Punta del Santo, bem na entrada do pequeno porto.
Além delas e de nós na paradisíaca paisagem apenas os grandes navios que cruzam o Estreito de Gibraltar, a beleza do brilho prateado do sol sobre a água encrespada e, sob nossos pés, as espetaculares correntes de areia fina que deslizam pelo solo até o mar empurradas por rachas de um vento infernal.
Aqui o vento tem o protagonismo que merece. Ninguém sai de casa sem informar-se sobre ele. E quem está pelas ruas não tem assunto melhor que esse para começar uma boa conversa de pé na esquina. Com o sotaque cantadinho, como o dos pernambucanos, o tarifenho cumprimenta com um ” ái…el levante parece que afloja esa tarde” e outro responde “ná…parece que vá seguir hasta maña…” Eles não terminam as palavras, nunca. Se é para dizer nada dizem ; todo, dizem cansado é cansao, e pronunciar o S é quase impossível. Fastidiado é faftidiao…e por aí vai.
É preciso uma atenção redobrada para entendê-los, tanto na pronúncia quanto no vocabulário, enquanto contam sobre os ventos que assolam a cidade.
O fato de ser poente ou levante faz uma enorme diferença, mas a violência com que o vento sopra é que dá as ordens. Um levante muito forte pode deixar todo mundo dentro de casa. Os barcos pesqueiros não saem ao mar. E se dura demasiado tempo as pessoas tem dores de cabeça, enjôos, mal humor.
Mas cuidado! um poente forte é muito pior. Além de causarem todos os outros efeitos, a intensidade dele e o tempo que perdura, dizem, pode levar à loucura.
Pois deve ser verdade…
Eu fico quase louca com ambos. Agora é levante, dos medianamente fortes. A areia entra pelos buracos da minha cara, o cabelo dá nós impossíveis de desfazer, uma irritação na boca do estômago, uma vontade de não-sei-o-quê.
Sair de casa é enfrentar o vento e perder a batalha. Ficar em casa é pior.
Minha sogra fecha todas as portas e janelas, a pressão atmosférica oprime minha cabeça e meu peito, fico sem lugar e sem vez. Na televisão os programas variam de novelas a novelas, de novelas a novelas ( ela assiste todas ) e os filmes de fim de noite já passaram milhares de vezes. O novo livro que eu trouxe ainda não me atracou, a Internet não funciona…Murakami já acabou! ( Por sinal, amei o Tokio Blues).
Prefiro sair por aí. Enrolo um lenço na cabeça, como as muçulmanas, óculos escuros, jeans e tenis. Vaya figurinha! Se vou a favor, o vento me ajuda . Se é para ir contra ele, custa viu! Mas eu vou.
Descobri um cyber legal. Vende cadernos maravilhosos, agendas lindas, livros, lápis, canetas, papéis de carta, envelopes…tenho que me conter para não arrasar de comprar, sou fanática por tudo isso. Ah… e dez computadores em WiFi. Yesss! Esse seria um negócio que eu gostaria de levar.
A “fauna” tarifenha que frequenta o lugar já seria um boa distração. Cada figura! Ficaria ali mais do que o necessario, desde que não tivesse que pagar por minuto…
Entoncesss… me voy. Só de pensar em voltar para a casa fechada a cal e canto, com o vento silvando como louco pelas frestas da janela, sigo andando pelos becos do pueblo, entrando em todas as lojas, futucando os belíssimos anéis de prata, os braceletes coloridos, as roupas alternativas que eu adoro.
Em Tarifa ninguém se veste como em sua própria cidade. Aqui todo mundo veste como em Porto de Galinhas, com a diferença de mais um poquinho de frio. Acho que os dois pueblos têm a mesma característica. Gente de toda parte vive aqui. Gente de toda parte passa por aqui. Isso altera muito a personalidade do lugar e ele vai ganhando um jeito próprio de ser, falar e vestir. Gente que faz tranças rastafari no cabelo, que usa roupas coloridas, rendas de algodão, sandálias de couro com desenhos originais e tecidos rústicos, pedras artesanais. Gente com cara de gringo , vestido de qualquer jeito caminha por todos os becos, por toda parte, mas que importa? A cidade vive disso. Dos campeonatos de kitesurf, windsurf, cinema africano, música flamenca.
Algumas marcas de roupas nascidas aqui são famosas por toda a Espanha.
Gosto das camisetas da El Niño ( originalmente moda masculina e agora, devido ao imenso sucesso , unisex ) e da moda divertida da Mala Mujer, mas esta … tcs.tcs…só é divertida para jovens magras. Como sempre, as prendas sao fabricada para as sílfides e além disso as que podem mostrar a barriga. Tudo coladjinha e curtchinha, tá! . Tamanho G é 40 de largura e 38 de altura. Tóin! Tem graça não, viu!
Bueno… também são um tanto caras. Parei numa vitrina para ver uma túnicazinha leve de algodão, mas quando vi que custava 91 euros, desisti. Resmunguei um comentário para mim mesma… “noventa-e-um euros, vaya!” e a dona, que estava por perto escutou. Com prepotência e cara feia me encarou dizendo que “dentro tinha coisas mais caras”… hahaha!
Sorri para ela. Tá bom, mujer. Que fique com tudjin
Tarifa é tão linda, que basta que o vento relaxe para o bom humor me acompanhe a toda parte!

O que se pode fazer? Comprar uma shilaba ( túnica árabe ) dessas largas e gostosas de vestir. São lindas e custam entre vinte a trinta e cinco euros…
Vou fazer isso da próxima vez.
* Mais sobre Tarifa AQUI

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Um presente casual…

Ontem me preparava para postar sobre Tarifa, onde estive por 15 dias, quando escutei uma música africana belíssima vinda da TV. Corri para ver o que era… E que presente! assim, de graça… só porque eu estava precisando!
Benditas casualidades cósmicas! Justamente naquele momento estava começando Assédio, de Bernardo Bertolucci.
Impossível perdê-lo. Esse está na lista dos que a gente deve ter.
Vi esse filme há muitos anos, em Recife. Me enamorei dele e da música e por muito tempo tentei comprar a trilha sonora mas jamais a encontrei.Tampouco pude assistir o filme nunca mais!
Ontem à noite ele me surpreendeu dentro de casa, assim, sem aviso prévio, de surpresa.
Interessante é que os filmes do Van Damme e Segall – que aqui passam quase todos os dias – são anunciados milhares de vezes. Mas uma pérola de Bertolucci vem sem anúncio, na surdina!
Adoro ver uma e outra vez os filmes da minha vida. Assédio é um deles. É uma história de desejo e amor, numa dose maciça de arte e beleza.
Imagens cuidadosamente trabalhadas entre sombras e luz, regadas por uma música que atua como um dos personagens principais.
O filme de Bertolucci é de uma fineza de detalhes, uma perfeição de luzes e cores, um espetáculo de música, de delicada sensualidade…
Um filme para se ver de mãos dadas, encolhida no fundo de um sofá cor de laranja, com a chuva madrilena molhando os cristais da janela do invernadeiro. Foi melhor vê-lo agora que na primeira vez.
É bom também deixar o som muito alto para que o piano de Mr. Kinsky inunde a sua casa junto com o sorriso doce e infantil de Shandurai.
Quem sabe essa dose maciça de arte possa remendar qualquer alma ferida pela crua e enferma grosseria da realidade televisiva dos últimos tempos.

“ASSÉDIO” (Besieged), Itália/França, 1998, 92 min. Dirigido por: Bernardo Bertolucci. Com: Thandie Newton, David Thewlis, Claudio Santamaria.
Filmes de Bernardo Bertolucci

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