Avistando África… desde Tarifa.


* Escrevi este post nos últimos dias de Abril. Mas só pude publicar agora.

Estou em Tarifa. Um privilégio, eu sei. Todos aí em plena jornada de trabalho e eu aqui, nesse maravilhoso rincão do planeta, aproveitando esses mares e a extraordinária luz do pueblo mais meridional da Europa enquanto assisto a recuperação do tornozelo quebrado do meu pirata, depois de mais de um mês imobilizado num gesso até o meio da perna.
Saímos todos os dias pela manhã para andar à beira mar na Playa de los Lances de forma a fortalecer a articulação e restituir à musculatura da sua perna direita a flexibilidade de sempre.
Não há ninguém na praia a essa horas, a água dói de tão gelada, o vento sopra sem piedade, uivando como um lobo assustado. As gaivotas, que em outras circunstâncias pousam na areia molhada em busca de pequenas delicias, tampouco são muitas por aqui. Uma ou outra mais atrevida arrisca planar sobre nossas cabeças mas logo desiste do esforço se vai para a Isla de las Palomas, ligada ao povoado por um estreito caminho de pedras que tem o Mar Mediterrâneo de um lado e o Oceano Atlântico do outro ou seguem para a Punta del Santo, bem na entrada do pequeno porto.
Além delas e de nós na paradisíaca paisagem apenas os grandes navios que cruzam o Estreito de Gibraltar, a beleza do brilho prateado do sol sobre a água encrespada e, sob nossos pés, as espetaculares correntes de areia fina que deslizam pelo solo até o mar empurradas por rachas de um vento infernal.
Aqui o vento tem o protagonismo que merece. Ninguém sai de casa sem informar-se sobre ele. E quem está pelas ruas não tem assunto melhor que esse para começar uma boa conversa de pé na esquina. Com o sotaque cantadinho, como o dos pernambucanos, o tarifenho cumprimenta com um ” ái…el levante parece que afloja esa tarde” e outro responde “ná…parece que vá seguir hasta maña…” Eles não terminam as palavras, nunca. Se é para dizer nada dizem ; todo, dizem cansado é cansao, e pronunciar o S é quase impossível. Fastidiado é faftidiao…e por aí vai.
É preciso uma atenção redobrada para entendê-los, tanto na pronúncia quanto no vocabulário, enquanto contam sobre os ventos que assolam a cidade.
O fato de ser poente ou levante faz uma enorme diferença, mas a violência com que o vento sopra é que dá as ordens. Um levante muito forte pode deixar todo mundo dentro de casa. Os barcos pesqueiros não saem ao mar. E se dura demasiado tempo as pessoas tem dores de cabeça, enjôos, mal humor.
Mas cuidado! um poente forte é muito pior. Além de causarem todos os outros efeitos, a intensidade dele e o tempo que perdura, dizem, pode levar à loucura.
Pois deve ser verdade…
Eu fico quase louca com ambos. Agora é levante, dos medianamente fortes. A areia entra pelos buracos da minha cara, o cabelo dá nós impossíveis de desfazer, uma irritação na boca do estômago, uma vontade de não-sei-o-quê.
Sair de casa é enfrentar o vento e perder a batalha. Ficar em casa é pior.
Minha sogra fecha todas as portas e janelas, a pressão atmosférica oprime minha cabeça e meu peito, fico sem lugar e sem vez. Na televisão os programas variam de novelas a novelas, de novelas a novelas ( ela assiste todas ) e os filmes de fim de noite já passaram milhares de vezes. O novo livro que eu trouxe ainda não me atracou, a Internet não funciona…Murakami já acabou! ( Por sinal, amei o Tokio Blues).
Prefiro sair por aí. Enrolo um lenço na cabeça, como as muçulmanas, óculos escuros, jeans e tenis. Vaya figurinha! Se vou a favor, o vento me ajuda . Se é para ir contra ele, custa viu! Mas eu vou.
Descobri um cyber legal. Vende cadernos maravilhosos, agendas lindas, livros, lápis, canetas, papéis de carta, envelopes…tenho que me conter para não arrasar de comprar, sou fanática por tudo isso. Ah… e dez computadores em WiFi. Yesss! Esse seria um negócio que eu gostaria de levar.
A “fauna” tarifenha que frequenta o lugar já seria um boa distração. Cada figura! Ficaria ali mais do que o necessario, desde que não tivesse que pagar por minuto…
Entoncesss… me voy. Só de pensar em voltar para a casa fechada a cal e canto, com o vento silvando como louco pelas frestas da janela, sigo andando pelos becos do pueblo, entrando em todas as lojas, futucando os belíssimos anéis de prata, os braceletes coloridos, as roupas alternativas que eu adoro.
Em Tarifa ninguém se veste como em sua própria cidade. Aqui todo mundo veste como em Porto de Galinhas, com a diferença de mais um poquinho de frio. Acho que os dois pueblos têm a mesma característica. Gente de toda parte vive aqui. Gente de toda parte passa por aqui. Isso altera muito a personalidade do lugar e ele vai ganhando um jeito próprio de ser, falar e vestir. Gente que faz tranças rastafari no cabelo, que usa roupas coloridas, rendas de algodão, sandálias de couro com desenhos originais e tecidos rústicos, pedras artesanais. Gente com cara de gringo , vestido de qualquer jeito caminha por todos os becos, por toda parte, mas que importa? A cidade vive disso. Dos campeonatos de kitesurf, windsurf, cinema africano, música flamenca.
Algumas marcas de roupas nascidas aqui são famosas por toda a Espanha.
Gosto das camisetas da El Niño ( originalmente moda masculina e agora, devido ao imenso sucesso , unisex ) e da moda divertida da Mala Mujer, mas esta … tcs.tcs…só é divertida para jovens magras. Como sempre, as prendas sao fabricada para as sílfides e além disso as que podem mostrar a barriga. Tudo coladjinha e curtchinha, tá! . Tamanho G é 40 de largura e 38 de altura. Tóin! Tem graça não, viu!
Bueno… também são um tanto caras. Parei numa vitrina para ver uma túnicazinha leve de algodão, mas quando vi que custava 91 euros, desisti. Resmunguei um comentário para mim mesma… “noventa-e-um euros, vaya!” e a dona, que estava por perto escutou. Com prepotência e cara feia me encarou dizendo que “dentro tinha coisas mais caras”… hahaha!
Sorri para ela. Tá bom, mujer. Que fique com tudjin
Tarifa é tão linda, que basta que o vento relaxe para o bom humor me acompanhe a toda parte!

O que se pode fazer? Comprar uma shilaba ( túnica árabe ) dessas largas e gostosas de vestir. São lindas e custam entre vinte a trinta e cinco euros…
Vou fazer isso da próxima vez.
* Mais sobre Tarifa AQUI

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Categorias: Cicatrizes da Mirada | Tags: , , | 4 Comentários

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4 opiniões sobre “Avistando África… desde Tarifa.

  1. Claudia Neves

    Nora,
    Já é a terceira vez que escrevo um comentário e não consigo postar……
    Adorei estar novamente em Tarifa…A Janela!! Ó apito do ferry, Uau!!!!
    Que saudade mulher!
    Beijos

  2. Fiquei imaginando esse lugar enquanto lia teu post. A sensação de viver perto da praia é tão boa…pessoas bem a vontade, chinelo, frutas frescas, a brisa, o barulho do mar…Porto de Galinhas, eu conheço, mas Tarifa, nunca tinha ouvido algo…blogs são tão informativos. Obrigada!

  3. Quando vejo e “leio lugares” descritos como fazes, Nora, eu penso “Quem sabe um dia…”
    PS: Se gostas tanto de cadernos, lápis e papel talvez queiras conhecer o meu restaure.
    outra beijoca, raquel

  4. Olá Nora, estou adorand visitar o seu blog, muito lindo os lugares com voce, ainda melhor descrevendo os lugares, a mae de minha netinha deve ir para MALLORCA neste mes de Junho vai fazer uma complementação no doutorado, ficará 30 dias creio, já conheço por aí mas Tarifa, não estive, nas Baleeares estivemos em 1992 amei mas achei IBIZA MUITO MOVIMENTADO, prefiro Mallorca, passei por Gilbaltar, fomosro morrocos e até o sul da Africa, adoramos,
    estou refazendo tudo atraves de
    você
    saudades

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