Arquivo do mês: junho 2008

Tentações…Bolo de Chocolate Express!

Nem só de música vive o meu espírito!

Essa coisinha tão linda é um bolo. Simpático não é????
E a foto está maravilhosa! Dá vontade de ir imediatamente à cozinha e começar a fabricar um. Ainda mais quando se sabe que ele vai ficar pronto em aproximados 3 minutos!
Três miseráveis minutinhos… para uma dose maciça de serotonina nos neurônios sofridos de uma ex-tranquila mulher, atacada covardemente por uma TPM fora de hora e de lugar!
Claro… estou aqui lutando para não ceder à chantagem da foto, que quase dá para a gente sentir o gosto do bolo. E por cima a receita, simples, fácil, leve e rápida é absolutamente irresistível!
Aí vai a danada…
Enquanto vocês lêem, eu vou ali na cozinha…beber água.

BOLO NA CANECA

(Por Anna Aurich)
Encontrada no blog da Angela Maria. Copiei tal qual.
bolo na caneca em 3 min.
Então… Imagine uma cozinha gostosa, uma boa música tocando no IPod… e de repente você resolve tomar um chocolatezinho básico e quente, antes de ir dormir. Pensamento razoável em tempos de TPM menopausico!
( Já sei que os homens também tem menopausa, chama-se andropausa e eles resolvem com uma cervejinha, um jogo e o controle remoto da TV. )
Tá bom, supondo que a foto também inspire os representantes do genero masculino adeptos ao chocoserotoninalate…. seguimos.
Agora você decide dar asas à sua imaginação, pega uma bela caneca de 300ml e alguns ingredientes no armário. Aí vc bate os ingredientes na própria caneca c/ um garfo e põe no microondas por 3 minutos. A felicidade lhe invade imediatamente porque você já sabe o que vem pela frente.
OH GOD! OH YES!

INGREDIENTES

– 1 ovo pequeno
– 4 colheres (sopa) de leite
– 3 colheres (sopa) de óleo
– 2 colheres (sopa) rasas de chocolate em pó
– 4 colheres (sopa) rasas de açúcar
– 4 colheres (sopa) rasas de farinha de trigo
– 1 colher (café) rasa de fermento em pó

MODO DE PREPARO

Coloque o ovo na caneca e bata bem c/ garfo.
Acrescente o óleo, o açúcar, o leite, o chocolate e bata mais.
Acrescente a farinha e o fermento e mexa delicadamente até incorporar.
Leve por 3 minutos no microondas na potência máxima.
OBS.A massa crua é mais mole q a de um bolo normal mas é assim mesmo. Não aumente a farinha ou terá um bolo duro!
Esta fórmula em dobro dá para três canecas de 300 ml.

DICAS

– A caneca deve ter capacidade de 300ml.
– 2 min e 30 seg. na potência máxima são suficientes.
– A medida de colher é sempre rasa.
– Vc pode servir este bolo c/ coberturas, caldas, castanhas e sorvete.
E pode comer quente!
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Imaginou???
Repetindo uma amiga pernambucana quando veio à Madrid em plena dieta:

“Chocolate podje… Água não podje!”

Oh, jesuscristinho…me proteja das tentações!

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Uma Cigarra Espanhola…

Ele canta. E canta maravilhosamente!

Essa interessante criatura chama-se Diego,” El Cigala”.
Bonito não é. Mas tem um charme inegável quando se apresenta. Diego é um dos grandes nomes do Flamenco cantado em todo o mundo.
O Flamenco é um gênero musical que espelha perfeitamente a personalidade espanhola: dramática e passional.
Graças aos traços fortemente marcados pela passagem árabe e cigana na Península Ibérica, a Espanha possui essa riqueza cultural que esbanja por todas as suas expressões artísticas.
Comecei a gostar da música flamenca escutando Paco de Lucía, no Brasil.
Depois que cheguei em Madrid, fui escutando outros, entre eles Camarón de la Isla, um mestre do gênero. Agora sou uma enamorada do canto, da dança e do toque flamencos. Estrella Moriente é uma das minhas favoritas. Escreverei sobre ela em outra ocasião.
Pois sim…
Diego é um apaixonado pelo Flamenco. Vive, chora e canta Flamenco por todos os poros. Eu adoro como ele se transforma enquanto está cantando…

Mas o interessante é que ele conquistou meu coração justamente quando gravou, junto com o extraordinário pianista cubano Bebo Valdez, um CD encantado: Lágrimas Negras.
Não é um disco de Flamenco, mas ele interpreta as músicas com seu jeito chorado de dizer as canções, que eu adoro.
Ai, meu Deus… é de arrepiar!
Ele, inclusive, interpreta Eu Sei Que Vou Te Amar, de Vinícius de Moraes, com uma participação especial de Caetano Veloso recitando a letra de Coração Vagabundo em vez da poesia de toda a vida, O Soneto da Fidelidade
Comprei e ouvi todos os dias… até poder cantarolar com ele todas as músicas do CD.
E atualmente é um dos meus melhores CDs de música popular. *Qualquer dia destes eu faço uma “apresentação” dos meus preferidos aqui.
A paixão foi tão grande que levei-o como presente para todas as amigas pernambucanas. Depois de um tampo eu vi que o projeto ganhou muitos prêmios internacionais e transformou-se num grande êxito em concertos por todo o mundo. Quem me dera ver um!
Por um tempo o show ficou em cartaz no Calle 54, em Madrid. Mas eu não pude ir.
Na época publiquei no Impressões, meu antigo e desaparecido blog, um post sobre ele. Vou fazer melhor agora. Vou deixar aqui uma marca mais forte. Um vídeo onde Diego e Bebo interpretam a música título do CD.

Boas Notícias!!! El Cigala acaba de lançar seu mais novo trabalho. Chama-se Dos Lagrimas.
Segundo li no jornal, é uma continuação do Lágrimas Negras. Claro que eu vou comprar JÁ!

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Bolo de Noiva (Cap 23)

À pedidos, vou publicar a receita do bolo de noiva , estilo pernambucano, que eu mesma fiz, aqui em Santorcaz.
Claro que, para o casamento, eu contratei duas tortas maravilhosas na pastelaria artesanal perto de casa. Uma de damasco e outra de nozes. Deliciosas!
Pero…O paladar dos madrilenos para doces é muito diferente do meu. Eu gosto de doce que leva açúcar. Doce, doce. Aqui as sobremesas são meio “sosas“, falta açúcar. Em compensação, eles gostam de muita gordura e os cremes e natas abundam. Puff..
pastel de la boda Então… como o casamento era MEU, eu queria um bolo de noiva pernambucano. Pronto.
Liguei para a boleira mais maravilhosa do mundo, minha cunhada, bruxa das boas, já disse aqui. Anotei passo a passo suas recomendações e resolvi arriscar-me.
Mas decidi fazer um bolo pequeno e apoiar a sobremesa oficial nas tortas que havia encomendado, pois não queria impor meu gosto aos convidados
Tá bom,tá bom… para ser muito sincera, também não quis arriscar fazer uma merreca de bolo. Eu sou um tanto perigosa na cozinha… e mais quando o assunto é pão ou bolo.

Eles queimam, suicidm-se, murcham, viram pedra… ou papa. Em quase 90% das tentativas. É uma estatística ” de peso”!
Mas não desisti da ideia…
Acertei nos 10%. Ficou ótimo! E não sobrou nem um pedacinho pra guardar no congelador por um ano, como manda a tradição.
Bueno, nada é perfeito… valeu ter feito, acertado e compartilhado com todos minha obra de arte culinária!
Aí vai a receita…

BOLO DE NOIVA

INGREDIENTES:
– 150 gr. de passas s/caroço
(Obs. deixar de molho em 1/4 copo de vinho doce na véspera)
150 gr. de frutas cristalizadas picadas
(Obs. deixar de molho em 1/4 copo de vinho doce na véspera )
– 300 gr. de ameixas s/ caroço
(Obs: fazer um doce dessa ameixa com 2 x. de água e 1 x. de açúcar na véspera. )
-300 gr. de manteiga
-300 gr. de farinha de trigo peneirada
-3 c/sopa rasas de fermento em pó
– 3 x. de açúcar
– 6 ovos
– 1 pitada de sal
– 1 pitada de noz moscada
– 1 x. de chocolate amargo
– 3 copos de vinho doce ( moscatel )

MODO DE FAZER:
Bater o açúcar com a manteiga, o sal e as gemas. Acrescentar a farinha de trigo, o fermento e a noz moscada. Juntar aos poucos o vinho e por fim o chocolate.
Acrescentar as frutas e passas umedecidas com o resto do vinho e finalmente juntar o doce de ameixa.
Untar uma forma com manteiga e polvilhar com farinha de trigo. Pré aquecer o forno por 10 minutos à temperatura de 170·.
obs. Eu usei uma forma retangular, mas acho mais bonito em duas formas redondas para que se possa montar o bolo.
Manter o bolo nesta temperatura por +- 1 hora.
Verificar a consistência com um palito. Não deixar secar demasiado. Deixar esfriar antes de retirar da forma.
Obs: Se o forno for muito forte, deixar uma vasilha com água em baixo da grade, para criar um pouco de umidade.

COBERTURA
Eu polvilhei açúcar glacê sobre o bolo frio. Mas o bolo VERDADEIRO leva uma cobertura de açúcar maravilhosa que ELA sabe fazer… Um dia eu aprendo!

*A foto é do bolo que Jacyra fez para nós quando fomos comemorar o casamento em Recife. ( Receita de Jacyra, uma boleira pernambucana. Quem quiser encomendar! )

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Finalmente, num belo e frio inverno…( Cap 22)

Segunda feira, 4 de Dezembro. O casamento estava marcado para o sábado 9, ao meio dia. Diferente do evento primaveril que imaginamos a princípio, estávamos entrando num belo e frio inverno madrileño. Mais de cem convidados, vindos de toda parte da Espanha. Amigos e familiares sem outro compromisso que não fosse estar conosco no bendito dia D. Todos confirmados…TODOS! E juro que era para ser o mais simples almoço em família. Juro! Não sei como, a lista foi crescendo sozinha, todo dia e toda noite…

Tudo bem, nós gostamos de um bocado de gente, a verdade é essa. E nosso casamento, depois da inusitada e romântica  história que vivemos, havia se transformado em um evento imperdível. As pessoas queriam estar dentro dela também. Acho que elas queriam ser testemunhas oculares do que estávamos vivendo há quatro anos. Que era possível realizar os sonhos. Ser feliz era uma possibilidade real. Muitos deles, enquanto estavam em nossa casa em alguma ocasião durante esses anos, sentiam-se mais amorosos com seus pares, demonstravam mais carinho uns com os outros. Diziam que nossa harmonia os inspirava.
Não é que assinar um pedacinho de papel fosse acrescentar amor ao nosso convívio, mas aqui na Espanha o estado civil faz muita diferença na interpretação que as pessoas fazem de um relacionamento. Nosso casamento significava, principalmente para a ala mais conservadora do nosso entorno, que estávamos “confirmando” social e juridicamente nossa intenção de seguirmos juntos. À vera!
Pois sim… no dia seguinte já estaria aqui a única representante da turma de amigos pernambucanos.
Mas nada de documentos. E sem eles não haveria casamento.
O homem do Registro Civil havia prometido de pés juntos, depois de assumir seu erro, que resolveria tudo em uma semana. Os dias passaram, acabou o prazo dele… e nada.
Olhos-de-mar-azul disfarçava seu nervosismo e tentava convencer-me que fingir uma assinaturazinha num livro falso era menos criminoso do que desmarcar tudo e avisar às pessoas que “nada, que estava tudo bem mas que podiam ir comer com a sogra que aqui não ia haver nadica de boda.”
Tá. Neguei-me. Neguei-me às duas alternativas, fingir ou desmarcar, e escolhi uma terceira: negar o problema. Saí de casa no dia seguinte para comprar uma camiseta de seda e rendas para vestir por baixo da blusa, decidida a me fazer de louca diante das bruxas..larita… laritaaa… Se elas vissem que eu não estava com medo ou arrancando os cabelos de histeria, quem sabe perdessem a graça da brincadeira de mal gosto.
Rodei por todas as lojas buscando uma simples camiseta interior para uma cinquentona gordinha – mas noiva – e com direitos iguais aos das outras noivas jovens e magras: algo sexy e bonito no dia do seu casamento.
A tarefa não era fácil. Assunto mais do que batido aqui. Já viram as camisetinhas das pessoas “maiores”? Elas parecem um babador. Arredondadas no pescoço, sem desenho nem corte. E renda? Aqui, “renda” se diz “encaje”. Encaixar pra que? Quanto mais discretas melhor, de alças largas e cor da pele, no máximo com um lacinho central, sem graça, que é para ninguém olhar duas vezes.
Mas eu achei uma. Uau! Linda. Branca, rendas finíssimas, alcinhas delicadas e fazendo jogo com umas calcinhas perfeitas, bonitas e inteiras. Nada dessa coisa sem traseiro, quase fio-dental que é moda sexy atual.( Requisito absolutamente dispensado por mim desde sempre. Não sei como as mulheres aguentam aquilo! )
Comprei o conjunto, feliz da vida. A-do-rei!
No mesmo momento em que saí da loja com um sorriso estampado na cara, soou o celular. Era o prometido.
Já tinha os papéis na mão.
Yesssss! Oh!… sim… sim…SIM!
Suspirei fundo e me senti taaaaaão feliz que não podia mais fechar a boca. Sabe cara de louca, riso de louca? E nem tchum para quem estivesse com medo de mim! Ahahahahhahah! Que foi?
Ok. Ok… eu sabia que já eram duas da tarde do dia 5 de Dezembro. Expediente encerrado. E dia 6 seria feriado. Mas isso a gente resolvia, nem que fosse invadindo a casa do prefeito em pleno Dia de La Constituición.
Ele não estava, mas tudo bem, calma… ainda tínhamos o dia 7, dia normal. Esperávamos que não tivessem declarado “puente” na prefeitura. Imprensar aqui é fácil como no Brasil.
No dia 7, às 9 da manhã estávamos em Santorcaz com tudo na mão para entregar a Florentino. Ah, Florentinozinho, por favor… não invente problemas, tá? Ele sorriu e disse que já estava pensando que havíamos desistido!
Ho ho ho! Ni muerta
Pronto. Tudo pronto.
Aproveitei a paz da manhã para fazer um bolo de noiva, como é costume no nordeste brasileiro. É feito com vinho doce e frutas cristalizadas, ameixa e passas. Uma delícia! Aqui não existe este costume. O bolo de noiva é comum, só com aquela cobertura especial e lisinha. Isso não sei fazer, mas o bolo sim. E fiz um. Cobri com açúcar fininho e pus numa bandeja. Em vez de flores, frutas ou bonequinhos de plástico, decidi fazer uma brincadeira. Enfeitei a bandeja com um barco de madeira que comprei para “concretizar” o sonho de um dia fazer uma grande viagem num veleiro, com meu lobo do mar. O barco está atracado há anos em cima da estante, junto ao farol azul. Sonhar faz bem, não é?
Para completar, juntei um marinheiro barbudo, de gesso, que havia recebido dele, por surpresa, em Recife, muitos anos atrás. Eu o deixava na sala e às vezes conversava com ele, como se pudesse realmente ouvir-me, naqueles tempos de louca e apaixonada por uma “ilusão”.
Gostei que ele pudesse estar conosco na mesa em vez de um objeto qualquer que não tivesse qualquer papel na nossa história. E, como sua parceira, uma boneca de barro, “a peituda”, sua companheira na estante desde que vim morar na Espanha. Pronto. Estava engraçadinho mesmo.
Em casa já estavam alguns dos convidados. A festa havia começado. Todo mundo achava que já que estava aqui, bem que podíamos começar, né não?
Nãooooooo! Imagine, começar a beber e comer dois dias antes! No dia mais importante estaríamos inchados, cansados e de ressaca!? Eu tinha que estar sequinha pra vestir a roupa cereja e não parecer uma!!
mafalda música
Mas o vizinho decidiu ajudar. E fez a festa na casa dele. Chamou todo mundo para um almoço de aniversário. Como assim? De repente estava todo mundo lá, bebendo, comendo, fumando, bebendo, bebendo… e bebendo.
Apareci por uma horinha, agradeci o convite e voltei para casa. Queria descansar, finalmente poder relaxar, curtir uma música suave, receber uma massagem no pé… ( de quem? ) mas tinha que conferir a arrumação do salão, levar as plantas, o som, as cortinas, contar novamente as pessoas e reorganizar as listas das mesas. Nunca entendi porque ela mudava todos os dias. A gente organizava as pessoas nas mesas e guardava o papel. No dia seguinte, ao conferi-la, estava diferente. Parecia uma mágica. De repente, descobríamos um casal fora de lugar, uma cadeira vazia. Saco! Como é que eu ia levar as plantas para o salão sozinha? E o som? Como assim SOZINHA? Essa turma que chegou antes não vinha para ajudar?! Como assim festinha na casa do vizinho?
Pois sim… todo mundo lá, inclusive o prometido. E era quinta-feira. Quinta! Eu não queria fazer TUDO justamente no dia anterior e depois aparecer no sábado com dor nas costas, pernas pesadas e cara de cansada.
A velocidade com que eu pensava tudo isso não estava lá muito saudável. Respirei fundo. Tomei um banho demorado, organizei a sala super bagunçada pela presença das bolsas e sapatos dos filhos e todos os seus objetos imprescindíveis espalhados por todas as mesas, sofás e tapetes. Quem mandou querer fazer festa de casamento! Quem mandou querer todo mundo em volta!
Em busca de um momento zen, escolhi uma música, recostei no sofá e dormi enquanto esperava que chegassem do tal almoço. Nada. Sete da noite e nada.

Quando despertei e olhei o relógio, a mulher zen do cochilo evaporou-se rapidamente e em seu lugar apareceu uma criatura em transe raivoso. Às oito e meia decidi telefonar para o celular do prometido.
“Quiéquitutáfazendoaí!!!! AINDA!” Pelo tom da minha voz ele percebeu que algo estava fora do normal e veio. ( Vê como é bom poder falar no próprio idioma nessas horas?!)
Chegou preocupado e encontrou o prototipo da mulher insuportável. Agora sim, ele ia desistir mesmo. Eu estava simplesmente horrorosa!

A cara inchada, o nariz vermelho, falando enquanto chorava com a boca enorme igual a de Mafalda, os cabelos idem, arrepiados por ter dormido com eles molhados, andando pela casa e guardando coisas nos armários, que fechava com uma força desmedida, odiando a mim mesma, sentindo-me ridícula por estar me comportando assim, por desejar ser o centro de suas atenções, que estivesse comigo conferindo os últimos preparativos e não bebendo e comendo na casa dos outros, sem mim e… e… eu estava explodindo!
Finalmente toda a tensão dos meses anteriores começou a sair por todos os poros. Comecei a enjoar e corri para o banheiro. Vomitei. Eca! como é que o cara vai querer casar com esse troço de gente!? Chorei mais e mais. Enquanto lavava o rosto me olhei no espelho. Oh! meu Deus! solucei.Tenho que parar de chorar antes de sábado!
Quando apareci na cozinha ele segurava um copo de água fresca, abraçou-me e tentou acalmar-me. “Pronto. Já está. Amanhã faremos tudo. Você descansa”, prometeu. “Eu vou ficar aqui. Que quer que eu faça?” perguntou. “Nada, a essa hora mais nada”, respondi. “Só que fique comigo.” Tá. Mais calma, cortei e pintei as unhas, ainda fungando, enquanto ele, mais uma vez, conferia e corrigia a lista das pessoas nas mesas.
Duas horas depois chegaram os festeiros e o vizinho, cantando felizes e cheios de vinho. Mas eu já estava refeita.
No dia seguinte chegaram outros hóspedes. Cada um com seus horários! Um tal de ir e vir que só vendo.
Enquanto meu pirata tranquilão terminava de organizar as bebidas, as plantas e mesas e as mulheres da família recebiam ordens da cozinheira, etc. descobri que havíamos esquecido de comprar as frutas que iriam ornamentar as mesas. Inferno! Dia 8 de Dezembro. Feriado nacional. Nada aberto. Nada! Como assim!!! Como pude esquecer isso????
Esqueci. Pronto!
Desisti da ornamentação. Ia ficar meio feio ver as mesas brancas e nuas, mas eu não podia mais brigar com as bruxas. Desta vez elas ganharam! pensei.
Que nada! Minhas amigas podiam. Rá! Uma pernambucana que não falava Espanhol e uma espanhola que não falava Português, duas artistas e tanto, uniram-se na empreitada e armadas de facas e tesouras desapareceram nas trilhas em volta da casa. Voltaram com nozes e amêndoas e improvisaram umas cestas fantásticas com frutos secos, fitas e plantas invernais. Ficou lindo e super natural!
Pronto. Tudo ok.
Só teria que livrar-me das ideias adolescentes da cunhada que queria jogar açúcar na minha cama, para adoçar nossa última noite de solteiros e tudo sairia bem. Prometi arrancar-lhe o olho esquerdo se tentasse a gracinha e … já. Esquecido o assunto.
Será que ela acreditou mesmo? Deve ter ficado no mínimo na dúvida. Uma sul americana pode ser muito perigosa, né não? Ho ho ho! E uma que vem de Pernambuco, lá onde o vento faz a curva… nunca se sabe!
Salvei-me da doce noite!
Então… Organizei a roupa sobre o aparador do quarto, provei tudo de novo, escolhi uma correntinha de ouro que ganhei de presente de minha mãe no meu aniversário de dezoito anos e uns brincos que foram dela. Na corrente decidi pendurar uma medalha que foi da minha avó, outra que usei toda a minha infância e uma pequena e lindíssima figa de ébano que também era da Princesa. Queria um pedacinho de cada uma das mulheres que amaram até as últimas consequências das suas vidas, perto de mim. Quando estava tentando enfiar a corrente no pequeno aro da figa, ela se quebrou em duas, na minha mão. Ó…ó!
A figa não é um símbolo de proteção!? Como assim a danadinha se parte bem na véspera do meu casamento!? Ui, que mêda!!
Sem dizer nada a ninguém fui buscar uma cola super-hiper-rápida no armário da cozinha, mas não encontrei. Eu não sou muito shsssss….supersticiosa, hahahaha, dizendo bem baixinho… mas com essas bruxas voando sobre o telhado era melhor não dar bobeira!
Cascavilhei a caixa de jóias da Princesa e encontrei outra figa, esta de marfim. Com todo cuidado enfiei-a na corrente e guardei a quebrada dentro de um chumaço de algodão. Pedi proteção a todos os bons fluidos do universo, incluindo minha mãe e minha avó, e dormi com ela pendurada no pescoço.
No dia seguinte, tan-tan-tan-aaannnnnn… que nervoso, meu jesuscristinho! Todo mundo acordou cedo. Uns de ressaca, obviamente. Uma confusão de gente para comer e tomar banho e tal e qual. Gente se vestindo no escritório, as mulheres de roupão, maquiando-se pela casa… secadores soprando ares quentes em todos os cômodos, eu sendo requisitada para saber quem estava bem, quem estava mal ( todas estavam maravilhosas ) e então…
O grande-e-carinhoso-noivo-dono-do-melhor-dos-corações foi buscar seu irmão mais velho na estação de trem mais próxima, a meia hora daqui. Saiu às 10 horas da manhã. Uma hora para ir e voltar. Tá. Voltaria às onze, sem falta. E às doze e meia estaria lavado, perfumado e vestido, me esperando lá na Câmara dos Oficiais, onde celebraríamos a cerimônia.Tá.
Às doze ele ainda não estava aqui. O portão quebrou. O portão e-lé-tri-co da base pifou, fodeu, morreu… sei lá o que. Não abria e pronto!
Estava fazendo um frio de rachar a alma, como em nenhum dos dias até aquele. As bocas tiritando do lado de fora do carro, todos os soldados tentando resolver o problema e nada do portão abrir. Depois de um tempo escutando as risadas assustadoras das narigudas ( tinham que ser elas ) um técnico improvisado convocado às pressas conseguiu abrir o pesado portão de ferro e o carro entrou.
Ele chegou em casa correndo mas sorrindo, como sempre. Tem um humor fantástico esse meu pirata!
Não sei como ele consegue essas coisas, mas de banho tomado, perfumado e vestido, às doze e meia em ponto ele estava na Câmara, me esperando. A criatura é capaz de aprontar-se completamente em menos de dez minutos.
Agora já estavam todos lá. Só faltava eu. O padrinho prontinho na sala, esperando… e eu ainda de roupão. Olhei a tal roupa cereja sobre a cama com satisfação. Valeu a pena o suplício que passei para encontrá-la em pleno outono-inverno madrileño. Simples e elegante, era justo o que eu queria. E então… comecei a vestir-me… e a suar. Na cara, no cabelo, no pescoço, nas pernas… Já tentou vestir uma meia fina com as pernas úmidas? Hã? ( Pergunta só para mulheres, sim?) A meia furou no meio do caminho da segunda perna. Plano B. Meia suplente na gaveta. Auto comandos mentais. Calma. Tudo bem, tenho outra meia. Essa não pode furar. E eu suando… queria outra ducha ( Jorro de água dirigido sobre o corpo de alguém, com fins terapêuticos ou higiênicos, segundo Aurélio ) queria um ar condicionado, queria não suar!
Só estando louca! Um frio de morte lá fora e eu morrendo de calor. Pense. Pense. Ar condicionado do lado de fora. Abrir a janela, JÁ!! Escancarei a janela do quarto e fiquei ali, contando até dez. Em menos de segundos eu estava perfeitamente gelada. E seca. Recomecei com calma. Fui me vestindo olhando para o jardim e levando um bafo gelado por todo o corpo. Que boa ideia! Quando terminei, peguei o ramo, o braço do meu amigo e padrinho… e lá fui eu casar com olhos-de-mar-azul. Atrasei meia hora justa. Normal. Não sou da marinha nem tive qualquer treinamento militar em toda a minha vida. E depois, para quem esperou tanto… bem que podiam esperar-me uma meia horinha!
Quando entrei na sala, estavam todos ali mas eu só olhei para ele. Quando nossos olhos se encontraram e ele sorriu daquele jeito tarja-preta, confirmei o que soube desde o primeiro encontro há tantos anos: nasceu para mim esse sujeito. Onde estava? Por que demorou tanto, tanto!
Daí em diante, nem bruxas, nem duendes, nem nada. Eu e ele. Juntos. De mãos dadas. Em volta de nós as palmas, o adágio de Benedetto Marcello tocado maravilhosamente pelo filho músico, o olhar feliz da minha filha, os olhares úmidos dos amigos emocionados, as palavras de Florentino, o livro onde assinar de verdade… as minhas lágrimas misturadas com um enorme sorriso, os abraços e beijos dos amigos, o brinde com cava espanhola, a paella gostosa, os olhares cúmplices que trocávamos, a felicidade estampada em nossas caras.
Todo o resto a nossa volta foi lindo… mas o realmente especial era que o inacreditável para muitos, até para nós no início dessa história, estava realmente acontecendo. Havíamos superado todos as dificuldades, um oceano… e estávamos juntos.
Quase doze anos depois daquele primeiro e frustrado encontro na festa do Juan Sebastian Elcano em Recife, estávamos casados!
Incrível! Mas aconteceu mesmo!

Ps. A “peituda” foi roubada no dia seguinte ao casamento. Não posso nem imaginar quem possa ter feito isso. Quando estive em Pernambuco, tentei encontrar uma igual, mas não consegui. Ainda não me conformei!
Ps2: A figa de ébano já está coladíssima!

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Antônio Nóbrega em Madrid.

Esta cidade me dá cada alegria!
Um vez me deu de presente uma noite com Vinicius de Moraes através de um belo filme chamado Quem Pagará o Enterro E As flores Se Eu Morrer de Amores. Chorei como uma “Madalena” enquanto escutava todas as canções de minha adolescência, mas voltei para casa com a alma lavada.
Tem choro que não causa dano, hidrata.

Essa semana fui mais longe. O contato foi de terceiro grau! Tive o enorme prazer e sorte de poder participar de uma oficina musical com o artista brasileiro Antonio Nóbrega. Assim, carne e osso, pertinho, numa classe quase particular de cultura brasileira onde se repartiu altas doses de talento, carisma e grande conhecimento da história da nossa música.
Por duas manhãs inteiras pude participar ativamente da oficina, rir e chorar, cantar e conversar com Antonio e seus músicos. Lula,na sanfona; Gabriel, na bateria; Pitoco no sax, clarinete; e Edmilson, no violão e cavaquinho. Antonio com voz, violino, bandolin, violão e a dança. Tudo e todos na mesma empreitada: explicar os fundamentos da musica brasileira, contar um pouco da sua formação, tocar e cantar o mais emblemático dela. Coisa mais linda, meu Deus!
Eu, como Nóbrega, sou de Recife, Pernambuco. Só de ouvir um Baião, um Xote…um Frevo rasgado, meu coração dá cambalhotas. Agora imagine ouvir essas músicas tocadas em seu violino, interpretadas por suas mãos mágicas e acompanhadas por movimentos de dança que só ele sabe fazer. Não é que outros não possam reproduzir seus passos. Mas é que a forma como ele dança é só sua.
Como a gente reconhece o andar de Chaplin, a gente reconhece a postura de Antonio Nóbrega quando ele toca, canta e dança. Ele não apenas dança…ele flutua.
Só ele faz como ele. Antonio é único.
Um amigo espanhol disse que ele é capaz de dançar sobre uma moeda, referindo-se ao pouco espaço que o artista tinha no palco para mover-se e a beleza com que o fazia, apesar dos limites.
Por sinal, meu amigo também disse que se Antonio dançasse e cantasse pelo mundo a fora, poderia não terminar com a fome, mas com certeza acabaria com toda a tristeza. Eu concordo. Ele é de uma alegria contagiante.
Entretanto, para mim, também estimula a nostalgia, a emoção reflexiva… e a saudade, pois traz em sua bagagem artística obras de antigos compositores e as músicas que os fizeram imortais.

Ele tem uma marca registrada: seus chapéus. Desde que eu me lembro, e fazem muitos anos, ele se apresenta de chapéu. As calças são frouxas e ele dedica um tempo a levantá-las com as mãos, numa forma a mais de compor seu estilo.
Cada movimento de braços e pernas, de caras e bocas, de saltos e paradas mais um toque nordestino à sua singela figura.
Agora eles estão indo para Barcelona, repetir a dose lá. Dias 9 e 10 de Junho.
E eu fico aqui, com a linda lembrança destes dois dias, a enorme saudade de Pernambuco…e o coração hidratado.
Hoje passei o dia escutando o CD que ganhamos de presente na última visita ao Brasil, 100 Anos de Frevo, e depois já emendei com Luís Gonzaga, Alceu Valença, O Bloco da Saudade…
Ai, ai… saudade. Saudade tão grande…

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Profano

Sofia estranhou aquela consistência. Meteu os dedos na massa e levou-os à boca só para constatar que o gosto também fugia ao comum. O comum era não ter gosto. Entretanto seguira à risca os ensinamentos da mãe.
Padre Rafael apareceu na porta no momento em que ela lambia os dedos. De bermudão. Sofia enrubeceu. ‘Algo errado?’ Perguntou ele se aproximando. Sem esperar resposta, tomou a mão da moça, enfiou-a de novo na massa, lambeu cada um dos seus dedinhos e sentiu o estremecimento do seu corpo. ‘Não se preocupe, filha, estas hóstias ainda não estavam consagradas.’
Leila Silva
Ps. Leila é dona do excelente blog Cadernos da Belgica.

Adoro seus contos.

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