Mudaram as Estações…

Passou. Já passou. Tudo passa…
O inferno astral existe, aviso. Mas passa…
Meu tempo de viver aqui no paraíso também acabou. Estou de mudança para o centro de Madrid. Uma mudança que de tanto ser adiada, cada vez está mais desejada!
É verdade, preparei meu espírito para sair daqui na primeira semana de Setembro, mas não pôde ser. Nem na segunda… nem na terceira… nem em todo Setembro.
O verão acabou… e o outono vem se insinuando entre as frestas das árvores, com uns dias nublados e um friozinho nas pontas do dia. Pela manhã a bruma envolve a casa , o frio gela os lençois da cama, eu procuro abraçar umas costas quentinhas e, desde o limbo do quase-desperta-quase-dormida, tomo total e absoluta consciência da felicidade e da sorte.
Depois, durante o dia, a boa sensação se esvai quando uma atmosfera abafada e úmida toma conta da casa, fazendo pesada a solidão e o silêncio de um lugar já com cara de passado… até que o sol se deita. Então o frio volta… e com ele meu abraço quentinho e a deliciosa companhia a que me acostumei nesses seis anos de Espanha.

Hoje, o último pedaço de Setembro se esvai nas brumas de um dia que não faz sol nem chove…só abafa.
A casa vai, pouco à pouco, se transformando numa coisa amorfa, que nem é mais a que eu encontrei quando vim viver aqui, nem mantém a aura que tinha até menos de um mês atrás.

Algumas plantas eu já presenteei. As redes eu já enrolei, as luminárias de latão que eu trouxe do Brasil já estão desencaixadas de seus nichos e guardei cuidadosamente alguns objetos, pois não quero arriscar que alguma outra pessoa os embalem sem suspeitar de seus significados.
Minha casa- Don Quijote y Sancho Panza
Meus marionetes de madeira, Don Quixote e Sancho Pança , comprados numa deliciosa viagem à Zamora já não pendem da estante de livros da sala, nem o lindo Caboclo de Lança pernambucano guarda os meus DVD´s de música brasileira.
Os instrumentos musicais estão numa caixinha à parte. Nem posso imaginar um sujeito que faz mudanças tendo a paciência e o amor necessários para com minúsculos violinos de madeira, delicadas flautas e trombones de mentira.
Também não confiaria a desconhecidos a sopeira que foi da minha mãe ou uma escultura de ébano e marfim que foi do Lorde.
Para eles o valor da sopeira é algo que o seguro cobre. Para mim não há dinheiro que pague.
Minha casa-instrumentos musicais
Muitas vezes me lembrei de uma carioca que estava interessada em comprar meu apartamento em Recife, justamente quando eu estava tentando enfiar minha vida em quatro malas.
Quando ela soube que eu pretendia vir viver na Espanha deu-me um conselho valioso. Ela disse: “deixe as roupas e sapatos…disso leve apenas o indispensável. Mas escolha algumas coisas significativas na sua história e meta-as na sua bagagem como for. Esses serão seus referenciais, são insubstituíveis. As roupas a gente compra novas, mas a história não. ”
Foi o que fiz.
Desfiz-me de metade das roupas das malas e trouxe quadros, livros, objetos, fotografias. Poucos, mas importantes.
E não me arrependi, nunca!
Uso o mesmo conselho agora. Enquanto escolho o que vai e o que fica, removo seis anos de vida na Espanha. Esvazio gavetas, estantes, armários… encho sacos de plástico negro com roupas que já não nos servem, encontro coisas perdidas, descubro porcarias tão bem guardadas que nem me lembrava que ainda existiam.
Mudo móveis de lá para cá, organizo caixas… e as espalho por toda parte. Quem disse que é fácil organizar caixas de história?
Sei que a mudança vai ser boa para nós. Adoro a ideia de investigar e conhecer Madrid como habitante de suas ruas e não apenas como visitante em dias de passeio.
Sei que sair de uma casa maravilhosa como essa para ocupar um dois quartos minúsculo exige praticidade e organização na hora de escolher o que vai, mas já me conheço de outros Carnavais. Sou capaz de adaptar-me a uma cesta de gato.
O problema é só a nostalgia que me acompanha no momento da “passagem” de um estado para outro. Fico com saudade antecipada do canto dos rouxinóis enamorados na janela do quarto, da enorme lua dos campos, das amapolas que invadem todos os cantinhos onde há verde e pintam de vermelho a vida e enchem os meus sorrisos de felicidade. Elas me animam, me encantam, me fazem rir no meio da rua e falar com elas, como louca. Velha e louca, eu fiquei aqui.
Minha casa-um esquilo
Sinto uma saudade das noites diante da lareira, com música bem alta e um bom vinho! De sair para o jardim enrolada na manta de lã para ver um eclipse ou apenas para buscar as constelações do hemisfério norte, as velhas estrelas de meu novo céu.
Na cidade a gente tem cinema, teatro, bares e restaurantes… mas nadica de estrelas.
Lá a gente tem transportes rápidos e fáceis, pessoas por toda parte, muito para observar, muito o que explorar… mas nada de raposas esquivas pelos sendeiros ou rubros esquilos engraçados buscando nozes no meu jardim , nada de velhas senhoras coelhas entrando pelo portão, sempre aberto, em busca de algo para seu café da manhã… e menos esse silêncio que acompanha um por de sol diferente a cada entardecer.
O campo tem uns encantos que só quem vive nele tem tempo de descobrir…
Quando cheguei, era pleno Inverno. Lindíssimo inverno. Pouco a pouco fui reconhecendo cenas em “deja vú” de antigos sonhos infantis. Enquanto descansava sob os prunos, fazia um bolo escutando ópera ou lia diante da lareira, parecia que já havia vivido isso em algum outro momento da minha vida. Nunquinha da silva tive tempo de viver isso. Mas creio que tive tempo de sonhar nos escondidos dos desejos impossíveis. Descobri aqui que estava no lugar certo, na hora certa, fazendo o que queria estar fazendo… por dias e dias. Isso me deu uma serenidade feliz impressionante.

Acho que foi fantástico ter podido estar aqui esse tempo, consolidar minhas escolhas, amadurecer a relação de amor com meu pirata, conhecê-lo melhor e fazer-me conhecer ao vivo e a cores, sem pressa.
Agora chegou a hora de sair do ninho do monte e ir viver no meio do mundo. De aventurar por uma cidade que promete ser encantadora… mesmo sem lareira, sem cheiro de mato e sem amapolas.
Aprenderei a admirar as luzes das maravilhosas fontes, as fachadas neoclássicas de seus edifícios, os ruídos das crianças em seus inúmeros parques, os concertos de música clássica, as peças de teatro, os cinemas espalhados por toda parte… as cafeterias, os bares de tapa…a confusão de gente de todas as raças cruzando as belas ruas e bulevares da cidade.
Faltam apenas 17 dias…
A lá vou eu arrumar mais uma caixinha…

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Categorias: Cicatrizes da Mirada | Tags: , , | 15 Comentários

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15 opiniões sobre “Mudaram as Estações…

  1. Prezada Nora,
    Quando cheguei no meio do post uma lágrima já rolava pelo rosto,nostalgia pura, porque foi justamente isso que vc está fazendo agora que fiz há 1 ano atrás quando saí de minha casa na montanha de Petrópolis e que por tanto tempo fui feliz, vendo também esquilos, cantos de pássaros, meus cães Akitas no convívio diário, minhas plantas e jardim e um clima frio e delicioso nos invernos com lareira e fondue.
    Por motivo de trabalho do marido, vim para Niterói, cidade do outro lado da Baía de Guanabara, com vista espetacular do RJ, quente, cheia de gente, lojas, shoppings, cinemas e teatros. Enfim, uma vida completamente diferente da que levei em 17 anos na montanha.
    Como tudo na vida, a gente se acostuma, se adequa quando preciso e vai levando, principalmente se a gente tem costas quentinhas para abraçar.
    A minha sorte é que mantenho aquele refúgio e é prá lá que corro de 2 em 2 semanas para reabastecer a alma, o espírito e descansar a cabeça.
    Tenho certeza de que vc será como eu – uma observadora misto deslumbrada-chocada com a urbanidade à minha volta.
    Desejo-lhe muita sorte nesta nova empreitada, afinal vc está indo para um belíssimo lugar neste planeta e que muitos gostariam de ir também, inclusive euzinha.
    Tudibom prá você e seu marido.
    beijos cariocas

  2. Ai Nora… fiquei sem palavras… mas… acho que nem preciso dizer nada… a tua luz vai brilhar sempre, esteja onde vc estiver… é vc quem traz a felicidade para o espaço onde vive, e nao o contrario… vai ser um lar “zipado”, mas isso significa mais amor por m2… e isso nao é bom??rs… beijo no coraçao e cuidate mucho

  3. Que coisas mais lindas você escreve mulé! Continua sempre, porque escrever assim é um dom que nao se deve descuidar!
    Sim, a “passagem” é difícil, mas será um tempo diferente e muito rico, tenho certeza. As cidades também nos seduzem! Acho que agora nos veremos mais vezes. Espero que o tempo nos ajude e que a gente possa caminhar e fazer algumas coisas juntas pelos madriles! Beijos

  4. Desejo tudo de melhor em sua nova fase, aguardo, ansiosa, os relatos das suas descobertas por Madri. Como todas já disseram seus textos são realmente lindos, estou encantada com eles desde o relato da sua história de amor. 🙂 Bjs

  5. Voce vai amar viver em Madrid e Madrid vai amar ter você. Eu lembro muito de vocês aqui. Tem barcos (grandes e miniaturinhas lindas) em todo canto. Lembro da coleçao que o seu pirata tem e já sei que vou ter levar um qdo for a Madrid! E fico vendo cada coisa legal pra regalar a quem vai pra uma casa nova…rs. Enfim. Muitos motivos pra lembrar de vocês!
    A sua árvore é tudo. Nao vi em dia lindo de inverno, mas rosinha de outono tb é linda e eu tenho uma foto maravilhosa pra provar…rsss
    Beijos, minha amiga. Serenidade virou a minha palavra favorita da língua portuguesa 😉
    Beijos de novo

  6. Estava voando pela blogosfera e pousei em seu BLOG. Gostei muito e se me permite será adicionado aos meus favoritos.
    Também sou brasileira, uma goiana que mora na Bahia.
    Sou professora de música e tenho o BLOG Metamorfose, pois me identifico muito com as borboletas.
    http://alegoiana73.blogspot.com/
    Boa sorte em sua nova fase. Assim como as mariposas, vc está em metamorfose. Faz bem à alma.

  7. Oiii! Tudo bom? Primeira vez que apareço no seu catinho.. e olha. eut e entendo muito bem… Eu não sei se adoro mudar ou se detesto, mas sei que a cada vez é como se nunca tivesse mudado antes… Se bem que todas as vezes que mudei, passsava horas relembrando os momentos ao encontrar uma boneca velha, ou um livro antigo.Passava horas espirrando debruçada nas coisas que escrevia há anos e nos comentários e cartas dos amigos. E também jogava muita coisa fora , que não fazia mais sentido, que teria que dar lugar a um mundo totalmente novo! Ai que sensação!!!
    Daqui a uns meses sairei de marília, odne estudo, para voltar para santos, de onde sou realmente… fim da faculdade! E daaqui a mais uns meses, parto pra holanda.. vixe quanta mudançaaaa ^^

  8. Mudança é sempre difícil, né? Dói. Mas passa.;)
    Um beijo desse nosso Recife.

  9. Oi Nora!Que post lindo, me senti passeando aí e vendo toda essa beleza natural que você descreveu tão bem.
    Desejo a você muita felicidade no novo lar!
    bjos

  10. Ah essa mudanças todas…elas carregam a gente junto…os meus velhos sapatos usados no Brasil continuam novos por aqui e já desceram para o porão, não tive nem tempo e nem verão para usar na estação do sol e calor. Bjks e boa mudança!

  11. Nora, tenho certeza que serás muito feliz em Madri.
    Beijos.

  12. Feliz casa nova para você e os seus. O blog continua bacana e gostoso de ler.
    Abraço

  13. Amei o post!
    Desejo que seja muito feliz em Madrid e aproveite para ir muito ao teatro e fazer coisas que antes não fazia, porque estava no campo.
    Eu sei que o encanto de morar num lugar como esse é meio que insubstituível, porque também adoro acordar com canto de passarinhos e outros bichinhos pelo quintal de casa, mas pense bem: Madrid tem lá suas recompensas.
    Beijos e boa-viajem!

  14. Amei o post!
    Boa viagem e aproveite o que Madrid tem de bom a oferecer!

  15. “Descobri aqui que estava no lugar certo, na hora certa, fazendo o que queria estar fazendo… por dias e dias. Isso me deu uma serenidade feliz impressionante.”
    Encha a mala e o coração desta serenidade e seja muito feliz com teu Pirata! Em qualquer lugar!
    Beijo!

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