Zaragoza.


Eu tenho uma cunhada que vive nesta linda cidade.
É uma pena que a gente não aproveite mais sua proximidade com Madrid para visitá-la mais amiúde. São coisas que passam, quando a gente se deixa tragar pela rotina dos dias e dos compromissos sociais.
Quando eu vivia no monte e não conhecia ninguém por aqui, viajava mais.
Tudo tem seu preço…

Zaragoza ( a pronúncia do nome é linda, linguodental… eu gosto ) é uma das mais antigas cidades da Espanha e fica a apenas duas horas de Madrid, de carro.
Vale a pena visitá-la.
Além de bela, tem muito o que contar sobre a história da Espanha, pois foi um importante centro político e cultural da Península Ibérica durante várias civilizações.
Quando habitada pelos íberos, chamava-se Salduba. Quando entraram os romanos, foi transformada por César Augusto em uma colônia militar e chamou-se Césaraugusta. Quando chegaram os árabes, rebatizaram-na com o nome de Sarakosta e finalmente, quando voltaram os cristãos, Zaragoza. Mais bonito, heim?!
Em qualquer destas circusntâncias, ela foi importante.

Às margens do rio Ebro, a cidade mostra o perfil fidalgo de seus palácios e casario, sua catedral e igrejas, com orgulho e paixão. E eu, com meu enamoramento incurável pelos rios e pontes, poderia ficar um dia diante deste… ouvindo seus cantos e prantos, reconhecendo as músicas que todos os rios conhecem e sabem cantar.
Mas, quando a gente não está sozinho tem que acompanhar os passos e as ânsias dos moradores, que querem mostrar tudo de uma só vez. E para muitos, mostrar os monumentos é mais importante do que mostrar o rio. Não sabem que vivi quase toda a minha vida em cumplicidade com um deles… e que isso ajudou a construir minha sensibilidade.
Assim, segui meus guias na minha primeira visita, uns anos atrás, mas internamente prometi voltar lá, só para sentar perto do rio, render minha homenagem a ele… ouvi-lo. Escutar o ruídos guardados na ponte romana, seus ecos e suas lendas misturados ao barulho constante da água que corre.
Voltei em Setembro, para ver a Expo Zaragoza 2008, uma exposição mundial justamente sobre a água do planeta e fiquei encantada com as obras de recuperação das margens do Ebro. Parece que o povo redescobriu o rio.
Mas isso eu conto depois, pois quero aproveitar o post e recuperar algo do vi na primeira visita, principalmente as fotos, que são lindas.
Então…
Abandonei o rio e ao dobrar uma esquina e atravessar uma cortina de vento, dei de cara com uma enorme praça. A maior de toda a Espanha. E fiquei muda com a beleza da Plaza del Pilar.
Caminhar lentamente pela praça é uma delícia, tudo em volta é lindo.

Naquele dia só pude visitar a Basílica del Pilar e depois descansar um pouco na praça admirando suas fontes e esculturas.
A Basílica del Pilar é consagrada a uma virgem que, segundo contam, apareceu ao Apóstolo Santiago, 40 anos depois da morte de Cristo. Era uma figura pequena mas possuía uma aura extremamente brilhante e estava sobre um “pilar”. Quando desapareceu deixou o pilar para que Santiago construísse aí um templo que fosse um símbolo da fé aragonesa.
Li em algum lugar que foi a mãe de Cristo, em carne e osso, que veio de Jarusalém para incentivar o trabalho do Apóstolo que evangelizava por essas terras. E que o pilar presenteado por ela serviria de pedra fundamental para a construção do primeiro templo marianista da cristandade.
Aposto que se for lendo mais por aí aparecem mais explicações.
Não importa… não conheço nenhuma história contada duas vezes que seja a mesma. Imaginem depois de quase dois mil anos!
Hoje, a imagem da Virgem del Pilar, esculpida em madeira, repousa sobre um pilar de jaspe de 2 metros de altura.
Sua capela, de estilo neoclássico, é impressionante e a adoração de seus fiéis também. A cada hora se reza uma missa. E está sempre lotada.
Por trás do altar está seu camarim, suas jóias e seus mantos. Pinturas de Goya adornam o teto e peças de ouro e prata seu altar.
E sabem qual é o nome de mulher mais comum nesta cidade?
Tá. Eu sabia que era fácil.
Basílica del Pilar-Cúpulas de cerâmica
O primeiro templo foi construído para substituir um templo visigótico e foi destruído por um incêndio no ano de 1434, do qual salvou-se – por milagre – a imagem da Virgem. Durante o século XVI foi restaurado e novamente derrubado no século XVII, para dar lugar a atual construção.
A Basílica é absolutamente grandiosa.
Por fora se vê as dez cúpulas de azulejos coloridos, a cúpula central e as quatro torres.
Por dentro as enormes colunas, os tetos abobadados, o coro e seus tronos trabalhados, o antigo órgão…
Basílica del Pilar- Interior

E a gente perde o fôlego diante do Altar Maior.
Esculpido em alabastro por Damián Forment a princípios do século XVI é uma das poucos obras que se conservam da antiga igreja gótica.
Fiquei muda outra vez. O alabastro dá uma sensação de transparência… e parece que a gente pode, ao tocar na pedra, atravessá-la… sentir a vida por dentro da obra.
A cor é extraordinária, porque absorve a luz e depois espalha-a por todo o recinto.
Bárbaro!

Não posso dizer nada, nem é necessário…
A música ambiente era um canto gregoriano suave e persuasivo, aturdindo a gente como um mantra.
É incrível o que se pode sentir num templo como este.

Dá vontade de rezar, chorar, meditar.
Dá vontade até de ir para o céu… se ele for assim tão artístico.
Acho que esta é uma das intenções dos templos. E conseguem, viu!
A gente sai com vontade de ficar.

 

Lá fora o rio cantava e a praça encantava com seus pombos, suas crianças coloridas, seus velhos de guarda chuva, sua atmosfera de vida terrena… tão artística quanto…
Mas parece que a gente leva a música dentro do coração e ela continua soando, soando…trazendo com ela um silêncio que abafa os ruídos da rua.

 

Fiquei por ali, sentindo o vento e aproveitando a paz que havia se instalado por debaixo da pele.
Parece que quando a gente se sente assim, o mundo inteiro fica mais bonito.

* As fotos são retiradas da Internet, mas podem ser vistas em tamanho maior dando um click sobre elas.

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Categorias: Cicatrizes da Mirada | Tags: , , | 6 Comentários

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6 opiniões sobre “Zaragoza.

  1. rosangela

    Delícia de viagem eu fiz agora. Dá vontade de seguir seus passos. 🙂
    Você tinha razão. Escrever me faz falta.
    Abraço pra você.

  2. Suas descrições da Espanha encantam, pois você une a informação, inclusive histórica, à emoção do seu próprio deslumbramento.

  3. Pois é, Nora, como você pode ver, eu não tenho muita vergonha na cara, hehehe.
    Mas vou reformar, aquilo lá tá muito branco, muito vazio, e eu me sinto sozinha lá e acabo indo ler blogs alheios em vez de trazer as pessoas para ler o meu.
    Um dia ainda vou à Espanha, não demora, pode escrever (eu tenho parentes em Madrid). Aí a gente se encontra pra tomar um café. Sei que ainda tenho muito a aprender com você.
    Lindo seu texto. Um grande beijo!
    Flávia

  4. Oie Nora…que linda essa cidade, já deu vontade. Mas parece que o destino me levará para passar uns em Tarragona e Barcelona, você já esteve nessas cidades? Estou bem animada, mas ainda não confirmamos esta viagem. Adoro o país que você vive. Bjks

  5. nora borges

    Meus amigos, obrigada pela visita e comentários.
    Ro, tenho arquivos sobre Barcelona, vou procurar. Tarragona eu não conheço, ainda!
    Flávia, força aí, menina. Escreve de novo!
    Manoel, que bom te ver aqui!

  6. Americo

    Adorei as fotos.
    Retornei de Zaragoza no dia 13 deste mes, minha camara fotografica apresentou problemas e eu não tinha nenhuma foto. Grato

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