Zaragoza II

Da seguinte vez que estive em Zaragoza já pude dedicar-me ao rio… e por algum tempo fiquei perto dele, escutando sua música e suas histórias.
Gosto de descobrir as lendas que vivem entranhadas nas cidades.
arca de noé
O rio Ebro tem muitas.
Numa delas, estudiosos bíblicos garantem que ele foi a via que seguiu Tubal, neto de Noé, depois do grande dilúvio.
Dizem que, quando se pode pisar terra firme, Tubal foi fundando colônias ao longo do Ebro.
Zaragoza é uma dentre tantas outras.

Além disso, são inúmeras as aparições de imagens católicas flutuando sobre suas águas: Nuestra Señora de la Ola, Santa Madrona, Santa Paulina, Santa Susana ou Santa María de la Muela.

Eu gostei da história do sino. Vou contar…
Uma vez apareceu um sino sobre as águas do rio, navegando contra a corrente. Foi retirado e colocado na igreja de San Nicolás, na capital aragonesa. Dizem que desde então ele tocava sozinho para anunciar grandes tragédias.
Prometi ir vê-lo… e mais uma vez não me deu tempo. Terei que voltar.
Só não quero que ele soe enquanto eu estiver ali. Ho ho ho!
A Ponte Romana também tem suas histórias e conta com a ajuda da crença popular para mantê-las vivas.

Dizem que junto a terceira arcada, perto da margem da Basílica del Pilar, há um temido poço, sem fundo “conhecido”, chamado Pozo de San Lázaro.

Ele traga para sempre os pobres desgraçados que caem aí. É, inclusive, o lugar eleito pelos suicidas para darem fim às suas vidas.

Contam os ventos que um casal de namorados afundou nele, unidos pelos pescoços atados com o mesmo lenço de quadros, o conhecido e tradicional “cachirulo zaragozano” e que seus corpos jamais foram encontrados.


Mas ela também nos conta seus dias de lutas pela liberdade de seu povo. Grandes batalhas foram travadas em Zaragoza.
Mas eu não gosto de falar em guerras. Ponto.
É bela, a ponte. Belíssima!
Também é bela a Catedral de Zaragoza. Consagrada a Cristo, el Salvador, o templo é um caso de amor da cidade. E eu entendo esse amor perfeitamente.

La Seo foi construída sobre o mesmo local onde havia um dos mais importante templos romanos de Hispânia. Com a queda do Império Romano e a chegada dos visigodos, o templo pagão foi transformado em cristão e consagrado a San Vicente.
Mas este período durou pouco e o local foi logo substituído por uma mesquita muçulmana, após a invasão árabe à Península Ibérica.
Acho que já falei isso aqui. A desculpa era que aquele lugar simbolizava uma terra sagrada, mas na minha opinião o verdadeiro motivo era tentar “apagar” a religião e a cultura passada, destruindo os seus lugares de reunião e culto.
Uma pena para a arte.
De vez em quando, durante alguma reforma, ainda se encontram peças de uma dessas antigas construções.
Nesta tivemos sorte, pois muito dos belos traços mudejar, isto é, o estilo utilizado nas mesquitas, permanece nos muros, entradas e tetos… e graças ao bom senso de alguns construtores continuam a enfeitiçar os visitantes da Catedral del Salvador.

La Seo, como é chamada, é um conjunto arquitetônico impressionante!
Esteve fechada ao público por muitos anos, devido a uma dessas reformas onde os achados arqueológicos exigem a presença, não de simples pedreiros e sim de renomados especialistas que custam muito caro e levam uma eternidade soprando pozinhos e passando pincéis por mil anos de pedrinhas.
Um trabalho encantador, diga-se de passagem.
A história da construção deste templo é enorme e se remonta ao ano 1140. Nem pretendo contá-la aqui. Deixo a missão para outros.

Acho interessante saber a história de uma construção, mas geralmente esqueço os nomes e datas, os tipos de arcadas, etc. Esse tipo de relato é mais importante para arquitetos, estudantes de arte e por aí.
Eu sou só amante.
Procuro ler sobre ela “in loco”, durante a visita. Vou lendo e acompanhando com os olhos o que me explicam os textos. É diferente de ler aqui.
Essa história a gente vai “sentindo” e aprendendo a medida que vai visitando, muitas e muitas vezes, suas naves e capelas e, pouco a pouco reconhecendo os estilos ( românico, mudejar, gótico, renascentista e barroco ) que convivem naquele templo.
É incrível ver essas mudanças na construção, de acordo com a moda do século, o dinheiro investido, a intenção de deslumbrar dos arquitetos e dos responsáveis pela obra.
Cimborrio de La Seo ( interior )
La Seo é uma verdadeira aula de arquitetura sacra. Para qualquer lugar que se olhe a gente aprende.
Gostei principalmente das capelas de alabastro, repletas de translúcidas figuras que parecem roubar a alma do artista para dentro dos corpos esculpidos.
Mas deslumbrei também com os tetos, lindos como este.
E então, vale a pena ficar aí dentro por umas duas horas, não é?
Depois disso tudo… o melhor é parar, respirar fundo e sair agradecido por ter podido estar ali.
Ir descansar na praça ou entrar em algum bar de tapas para comer qualquer das muitas delícias de Aragón é uma excelente ideia.
Nada de sair correndo para ver outra igreja ou outro monumento. É preciso parar, deixar que ela se implante em sua memória.
Aproveite o relax para saborear o jamon de-li-ci-o-so, o vinho tinto, os caracoles, as migas, o cabrito…
O bom é que em Zaragoza, como em toda a Espanha “se come de maravilha!”
Quem sabe vale a pena trazer uma receitinha de novo… faz tanto tempo que não publico algo de comer por aqui!
Ah.. mas antes tenho que escrever sobre a Expo2008. Não, não pretendo contar como foi a exposição, depois de tanto tempo. Dela o que mais recordo são as filas intermináveis e que quase morri de calor!
Quero contar sobre um acontecimento especial que tive a oportunidade de presenciar quando estive ali.
Estou escrevendo sobre isso.
No próximo post.

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Categorias: Cicatrizes da Mirada | Tags: , , , | 1 Comentário

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Uma opinião sobre “Zaragoza II

  1. Pronto! Mal acabei de ler este post e já tô esperando pelo próximo!!
    Sou curiosa!! Heheheh!

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