Arquivo do mês: janeiro 2013

Pirineus aragoneses.

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A fronteira entre a Espanha e a França é marcada por uma larga e famosa cadeia de montanhas: Os Pirineus.
E quase no meio destas montanhas está Jaca.Foi aí que passei alguns dias das minhas férias…
E não riam quando falo em férias, só porque estou desempregada. Uma coisa nada tem a ver com a outra!
Sair de casa sem hora para nada, sem saber onde, nem o que iria comer, andar perambulando pelas ruas, um mapa nas mãos em busca de coisas belas…e ainda mais, nas montanhas dos Pirineus Aragoneses… isso é igual a férias.
Estar em casa, lavando e passando roupas, lutando bravamente com as aranhas, limpando e guardando coisas… isso é igual a estar desempregada…
Entenderam?
Pois é…

Jaca, España

Jaca, España


Jaca fica em plena rota do Caminho de Santiago. É uma cidade cuja história remonta ao primeiro milênio ANTES de Cristo. Seus primeiros habitantes eram pastores e guerreiros. Dormiam no chão e em covas dentro das pedras, comiam carne de cabra, bebiam algo semelhante à cerveja e bailavam ao som de flautas. As escavações arqueológicas confirmam restos de cerâmica, espadas e instrumentos musicais correspondentes ao século II a.C.
Os romanos, no ano 194 a.C, invadiram e conquistaram Jaca com uma armadilha. Puseram um tradicional inimigo, o povo sussetano , diante de suas muralhas e quando os jacetanos saíram para lutar com eles, foram surpreendidos pelos exércitos romanos.
Muito tempo depois, já no século X, uma Jaca empobrecida, de muros caídos, foi anexada aos domínios de um conde aragonês e a partir daí voltou a desenvolver-se, chegando a ser capital do reino e residência dos Reis Aragoneses durante largas temporadas.

Jaca é uma cidade simples e tranquila… e sua maior riqueza é a sua localização. É ponto de partida de caminhos que levam a pequenos e belíssimos povoados, que ainda conservam suas ruas e casas no estilo medieval, suas igrejas românicas, suas tradições culturais e uma gastronomia fascinante.
As trilhas que levam à Garganta do Diabo são procuradas por toda gente, jovens e não tão jovens, para esportes de risco… que eu gosto de ver, mas não tenho a menor vontade de fazer…
Só de olhar de cima para o que as pessoas faziam entre as grandes frestas abertas nas montanhas, sentia um nó no umbigo. Acho que minha adrenalina é muito sensível para divertir-me com esses programas. Minha índole é mais contemplativa e meu lado Rambo um tanto atrofiado.

Pirineus

Pirineus


Preferi buscar um lugar na sombra, deitar numa pedra fria, numa das margens do rio, onde havia uma grande árvore quase deitada sobre as águas… e tranquilamente escutar o ruído magnífico que fazem enquanto escorrem com força entre pedras de todos os tamanhos.
Depois, comer uma ” bocata” de atum com tomate, e litros de água fresca, para suportar a volta sob o sol inclemente, nas pequenas e tortuosas trilhas que sobem e descem em torno das enormes ” peñas”( rochedos), sem misericórdia para a minha falta de preparo físico.
Rutas

Rutas


O caminho é belíssimo, pois costea toda a garganta, acompanhando os passos com barulho de água corrente e cheiro de mato…
Sofri um pouco… mas gostei muito.

Uma observação imprescindível à beleza de todos os lugares que visitei: a limpeza.
Nada de lixo pelas trilhas…NADA!
Águas limpíssimas, fontes de água potável por toda parte, onde os caminhantes podem encher suas garrafas sem medo.
Sinalizações precisas para aqueles que estão à caminho de Santiago de Compostela, ou apenas querendo conhecer suas paragens, seus miradores, sua flora e sua fauna.

Puente de la Reina

Puente de la Reina


Jaca fica justo na rota de Santiago.
E em Puente de la Reina, um povoado perto da cidade, muitos caminhantes se encontram, em direção a região de Navarra.

A via de peregrinação até Santiago de Compostela colocava em comunicação toda a Europa e converteu a arte românica na primeira “arte internacional”.
A Catedral de Jaca é considerada um dos monumentos mais importantes da arte românica espanhola. Espelha o intercâmbio dessas pessoas, produtos e idéias, em um momento histórico preciso em que os reinos cristãos espanhóis lutavam contra a invasão muçulmana e avançavam lentamente desde a montanha até o vale, deixando ao seu passo testemunhos de uma fé católica restabelecida.

Catedral

Catedral


O que mais me surpreendeu nela foi que o coro e o órgão estão por trás do altar maior, em vez de estar no centro da nave principal.

Nas dependências do claustro pude visitar o Museu Diocesano de Jaca , considerado pelos experts como a “capilla sixtina de la pintura românica”.
E é absolutamente impressionante.

Os murais de frescos de várias pequenas igrejas da região, assim como suas imagens datadas dos séculos XI, XII e XIII , foram transportados para o museu, a fim de protege-los dos saques e da espoliação do patrimônio espanhol.

Uma das salas compreende a História da Humanidade, desde a criação de Adão e Eva até o sacrifício de seu redentor.
É de tirar o fôlego…

Muitas de suas figuras estão deterioradas e as partes vazias não são “restauradas” para não parecerem uma maquiagem. O que permanece visível tem mais de mil anos e isso vale a preservação de seu estado atual.

Museu Diosesano de Jaca

Museu Diosesano de Jaca

Um dos tesouros de Jaca é “La Ciudadela.” Um castelo-fortaleza que protegia o Reino de Aragon do assédio francês, construído entre os séculos XVI e XVII .
Contava com hortas e água abundante, de forma que podia considerar-se autônomo por muito tempo caso precisasse defender a cidade e a região. Tem a forma de um pentágono, com fosso e tudo. Atualmente o fosso é habitado por cervos.

O paradoxo é que única vez que entrou numa batalha foi durante a Guerra da Independência, com os franceses dentro e os espanhóis fora de suas muralhas.

Essa é uma história interessante, que contarei só um pedacinho. Quando Napoleão queria invadir Portugal , pediu permissão para passar pela Espanha com suas tropas… e ficaram. Invadiram e tomaram a Espanha e nomearam José I, irmão do Imperador francês, como Rei da Espanha…
Graciosos, os franceses, não?

Ciudadela

Ciudadela


Bom… atualmente a Cidadela funciona como quartel e permite a visitação em parte de suas dependências….com hora marcada e guia específico, naturalmente.
À noite e iluminada ela é mais linda que de dia…

Há ainda uma outra antiga fortaleza, no alto de uma montanha, chamado Fuerte de Rapitán. Atualmente foi convertido de ponto defensivo em salão de luxo para visitantes ilustres, desde os Reis da Espanha a Presidentes. E guarda o Museu de Miniaturas Militares , uma das exposições de soldadinhos de chumbo mais importantes do mundo. Não pude vê-la, pois estava sendo transladada para a Cidadela.

Rapitan

Rapitan


Mas pude assistir desde o alto de suas muralhas a um concerto de jazz, com uma banda importada diretamente das ruas de New Orleans , tomando um whiskinho e cantando a todo pulmão… pois esta subida eu fiz de ônibus, já que os carros são proibidos de subir pela escarpada montanha e sua estreita e sinuosa estrada…

Enquanto cantava e respirava o ar puro das montanhas pensava nas voltas que a vida dá… e no inusitado que é para mim estar vivendo e podendo apreciar as belezas deste país.

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Cicatrizes da Mirada

Queridos, um dia desses eu descobri que um amigo virtual, que vive em Petrópolis, no Brasil, havia guardado num arquivo, meus primeiros posts, escritos em 2003. Ele teve a delicadeza de me enviar um CD para que eu não os perdesse para sempre. Não é lindo isso? Não é maravilhoso esse laço que nos envolve através da escrita?

Para meu desfrute pessoal, vou guardá-los aqui e talvez compartilhá-los com novos leitores.

O blog começou como Impressões depois passou a ser Cicatrizes da Mirada. Esse é meu primeiro post.

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Meus amigos.

Encontrei uma forma de repartir com vocês minhas impressões sobre a experiência maravilhosa que estou vivendo. Descobri o mundo dos blogs!

A Espanha surpreende em cada esquina…

Eu vou tentar escrever sobre as cidades, os museus, as histórias, a culinária… quer dizer, sobre o que me der vontade.
É mais ou menos como um e-mail coletivo!

Espero que gostem!

 
Quinta-feira, Março 27, 2003

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Vem menina, vem…

740_10151198882352607_1227432150_nEu prometo que vou cuidar de você.  Prometo nunca mais te dizer as coisas que eu te digo quando estou assim, confusa. Prometo não  te tratar mal. Prometo que não vou mais te deixar sozinha, nem fingir que tu não existes, só porque eu estou cada dia mais lenta, mais pesada,  mais insegura…

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Maldito Karma, de David Safier.

maldito karmaGanho de presente e logo na primeira página descubro que Kim vai morrer no final do dia. Merda! Eu bem que estou querendo coisinhas mais leves do que mortes anunciadas. Mas… quando Kim renasce formiga… a coisa começa a ficar gostosa…

Esta é uma estória para a gente contar na rede, às crianças. Sim. Sim. Elas vão amar o Maldito Karma, de David Safier.

Eu disfrutei como uma criança apesar de que o livro foi escrito para adultos. As crianças tendem a  crer na magia do pensamento, mas eu aproveitei  e me vi sendo formiga, porquinho-da-índia, vaca… que destinos! A gente fica realmente um pouco mais budista e empatiza mais com os animais.  Sim.

Pimenta nos olhos dos outros  não é refresco!

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Dez anos…

mala-e-cuiaDez anos atrás eu desembarquei na Espanha de mala e cuia… os saltos das botas se desfazendo pelo aeroporto, o coração dando pulos de felicidade, disposta a reconstruir minha vida num caminho completamente novo.Era o exílio… mas eu estava segura de que seguia meus sonhos mais importantes e que jamais estaria sozinha. Dez anos é tempo grande, sim. Dá para muita estória. Algumas eu já contei pelos blogs anteriores, outras se perderam do registro e ficaram apenas na memória. Demorei tempo demasiado em escrevê-las… uma pena.  Tantas outras se espalharam por dentro de mim, transformaram a minha vida devagarzinho, dia a dia… mas eu seria incapaz de recordar uma a uma agora.

Durante alguns anos eu escrevi sobre as viagens, sobre as cidades de Espanha, sobre os caminhos de terra de Santorcaz. Era um tempo bom, de paz e serenidade, vivendo no campo, com horas a mais todos os dias. Dava para aprender a mexer no computador, criar um blog e ainda por cima escrever um ou dois posts por semana. Fiz tantas viagens lindas, aprendi tanto sobre a história desse país, seus personagens extraordinários, sua arquitetura e sua gastronomia exuberantes… me apaixonei mais,cada dia mais… por tudo que agora fazia parte da minha vida.

Me apaixonei mais  também por olhos-de-mar-azul e isso me surprendeu muito. Como era possível amar tanto?

“Sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando, mas quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois.” Guimarães Rosa.

Às vezes eu sentia um medo de que algo passasse. Era beleza demais para ser “ a vera” E eu sentia pânico em imaginar que se acabaria de repente _ puft, se acabou, era de mentirinha uhhuuuuu!  Quando a idéia me pegava de surpresa, eu parava de respirar, olhava em volta…esperava… e nada. Tudo seguia de verdade.  Por quanto tempo ainda, se nada é para sempre?   Arregalava o olho no meio da noite, contava as estrelinhas pregadas no teto do quarto, sem luz, apagadinhas… olhava para ele dormindo ao lado, ressonando de leve … e sorria. Que delícia! As vezes eu ria de mim mesma. Se todas as mulheres do mundo se queixam que seu homens ressonam, porque eu gosto? Será que só eu sinto essa sensação de “lar”, de cumplicidade morna e doce? Aff… tô cada dia mais brega, pensava. E pior… isso deve ser muito perigoso!

Eu achava tão, tão, tão improvável esse negócio de amor à primeira vista, de reconhecer o sujeito no mesmo primeiro minuto… de amar mais cada dia. Eu achava que isso era mentira. Se voce ama, ama. Pronto. Já está. Que história é essa de sentir que está amando mais? Mas estava. Estava.

Bom…seis ou sete anos pasamos naquela casa. Dando voltas pelos caminhos de  areia e bosques de pinheiros, alimentando esquilos no jardim, recebendo os amigos, novos ou antigos, escutando música bem alto nas noites de lua, de chuva ou de neve, aprendendo a cozinhar e a compartir a vida e os sentimentos como nunca antes. Era tão forte que eu acho que ajudamos  um bocado de gente a ser mais feliz só sendo feliz junto deles…

Isso é bonito de contar. As pessoas diziam que se sentiam bem em nossa casa. Sentiam uma harmonia tranquila, um amor contagiante. Lá eles sentiam vontade de dançar, abraçar, conversar  sobre seus sonhos. Lá eles se beijavam mais. Uma vez uma das visitas disse que em uma semana em nossa casa havia beijado seu marido mais do que  o beijou nos ultimos dois anos… hahahhaha! A gente ria… mas era verdade.  As pessoas refletiam sobre suas vidas e seus sonhos. Alguns tomaram decisões importantes de mudanças porque começaram a acreditar que era possível ser feliz e que não era nada de outro mundo, nada de mágica transcendental… era só acreditar. E  agir. Viver.

456661_10151283467431893_1283091419_oPois… agora estou contando dez anos de Espanha. Dez anos com olhos-de-mar-azul. Ainda parece impressionante a nossa estória. Ainda conto às pessoas que me perguntam, _ “ versão curta ou versão longa?”_  com  a voz embargada e o sorriso de louca perdida. E eles ainda se surpreendem. De tudo. Do antes e do agora. Tanto se surpreendem com o que nos aconteceu antes que eu tenha vindo para viver uma vida tão diferente da minha no Brasil, quanto que tenhamos ido comemorar os dez anos juntos numa casa rural perdida nas montanhas, num lugar  quase desconhecido chamado La Coma y la Piedra, um pueblo minúsculo, em Lérida.  Se surpreendem que tenhamos passeado de mãos dadas pelos caminhos de neve, sozinhos, depois de 10 anos! Nós não. Para nós estar sozinhos no meio do mato é terreno conhecido, é repetir os primeiros tempos em Santorcaz, é confirmar quanto é natural estar um com o outro.

Um dia desses, eu estava tentando fazer um comentário no blog de Carolina, Una Vuelta del Destino,   e não entendi porque o WordPress me pedia um password. Mandei uma mensagem para o site e recebi uma nova senha. Surpresa! O blog Lingua de Mariposa estava todo aqui. Sem as fotos, mas com todos os textos e comentários.Consegui recompor as fotos dos posts e salvar tudo. Descobri também que um amigo brasileiro tem os arquivos do Cicatrizes da Mirada e que vai me mandar por correio. Quem sabe eu possa juntar os dois aqui. Eu gostaria.

Eu sei que a época brasileira dos blogs está meio fora de moda, desde que o Facebook e o Twiter entraram no cotidiano das pessoas, mas fiquei com uma pena danada de acabar com este.. Era tão bom escrever, guardar, ler depois…

Então acho que vai ser assim, como era bem no comecinho. Eu escrevia só para mim e  para alguns gatos pingados que me seguiam. Vou fazer isso… e vamos ver se ele consegue sobreviver, mais uma vez.

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