Cicatrizes da Alma

Alive Inside. Nossa memória musical é imborrável.

Outro dia  fiz uma maldade comigo. Assisti Still Alice .           

Em português é Simplesmente Alice. A história de uma professora universitária que desenvolve um tipo de Alzheimer precoce e agressivo. Se eu já morro de medo desse bicho, naquela noite não dormi. No dia seguinte estava triste, sem energia. É uma doença tão cruel!

Quando a minha mãe foi virando casca, eu tentava conversar contando-lhe suas proprias histórias. Escolhia as boas, as engraçadas, as que ela sempre repetia. Ela reagia, no início.

Depois, quando ela foi apagando, eu cantava. ” Onde você estiver, não se esqueça de mim… eu quero apenas estar no seu pensamento. Por um momento pensar que você pensa em mim…”  E botava as músicas que ela gostava de ouvir. Rachmaninoff, Mozart, Paganini.

Sua expressão mudava. Eu via, mas nesta época ela já estava muito longe e atravessar o túnel era muito difícil. Eu achava que a música chegava onde ela se escondia, mas não estava segura. Agora estou. Me alegro por ter dado a ela seus últimos momentos consigo mesma. Um amigo me indicou um documentário maravilhoso chamado Alive Inside. Não deixem de ver!

Desde que o vi, fiz minha lista. Vou dar a meu irmão, a Pepe e a minha filha, por se acaso me esqueço de mim. Que Deus me proteja!

E você, qual seria sua lista? Faça uma.

Alive Inside. Nossa memória musical é imborrável.

(Click e veja um pequeno vídeo)

 

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E por falar em Depressão…

” Quando a alegria se vai”.

Faz tempo que eu li esse post. Me enamorei das ilustrações.551

Todo mundo já sabe que a minha depressão, que durou 2 anos, mudou a minha vida para sempre. Já vi que isso aconteceu com muita gente. Às vezes, para melhor. Outras, nem tanto.

Vou guardar aqui essa jóia. Clique  neste link abaixo e se maravilhe com as imagens, com os sentimentos. É simplesmente espetacular.

Não perca. Você pode , um dia, precisar ajudar a si mesmo ou a outro.

Clique neste link abaixo e leia. Prometo que vai gostar.

http://lm.facebook.com/l.php?u=http%3A%2F%2Fwww.gluckproject.com.br%2Fquando-a-alegria-se-vai%2F%23.UsqO7GRDt2R&h=YAQGiJffB&enc=AZM3_bAiE13tnGRU_fa7vpA3CslQCHPXGVKGdESanuQvRc73_7xyXZSwKozzRwktaRQ&s=1

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Solidão a dois…

casal
Dia desses estava no Leite de Cobra, o blog da Kenia, lendo um post sobre um casal que almoça em um shopping de Recife, sempre na mesma mesa e sempre em silêncio completo. Ele concentrado em seu alimento. Ela concentrada em si mesma. Ambos indiferentes à presença um do outro. Vale a pena ler o post Está muito bom.
Enquanto estava comentando, a memória me trouxe imagens de mil anos atrás. Recordei uma antiga história da minha vida.
Eu tinha menos de trinta anos, um casamento com menos de três, e uma filha de dois.
Todos os finais de semana nos juntávamos a um grupo de animados amigos para fazer um churrasco, comer caranguejos ou sair por aí, pelos bares da vida, com os violões. Eu gostava deles, me divertia sempre.
Não tem nada demais isso. Acho muito saudável ter amigos, sair com eles e farrear. Tínhamos filhos pequenos e eram programas que começavam cedo para terminar a tempo de podermos dormir um pouco antes que as criaturinhas começassem a pedir atenção.
Um sábado, não sei porque cargas d´água, houve um desencontro de informações e quando chegamos ao bar da vez eles não estavam. Saímos de bar em bar para ver se os encontrávamos e nada. Depois da terceira ou quarta tentativa, sugeri que ficássemos sós, que não era absolutamente necessário estar com outros, que podíamos estar só nós dois. Ele olhou-me como se eu fosse um ET. “Soooó nós dois? Qual é a graça?” Perguntou.
Respondi que se ele não via graça em sair só comigo o que estávamos fazendo casados?
Ele riu. ” Lá vem você com essas conversas.” Eu também ri, mas insisti em ficar ali. Recusei-me a passar a noite de lá para cá.
Tá. Ele acedeu.
Sentamos numa bar bonito, à beira-mar, e pedimos algo para beber. Ele estava um tanto irritado por não haver encontrado a turma. Eu não… afinal estávamos sós, como há muito tempo não estávamos.
Para descontrair, de brincadeirinha, eu disse: ” Por que você não finge que não me conhece e aproveita para me paquerar?”
“Tá doida, é?” Foi a resposta desconcertada.
Não pude rir. Emudeci. Olhei em volta e vi um casal, uns dez anos mais velhos que nós, calados e olhando em volta com umas caras de enfado. Ele tomava um whisky, ela um coquetel qualquer. Ela maquilada e vestida com “vontade de ficar bonita”, mas estava feia.Tinha olhos tristes. Ele vestia um jeans velho, camiseta e um tênis. Parecia que estava vestido para ver um jogo na televisão, em casa de um amigo. Acho que era o que ele gostaria de estar fazendo. Ela parecia querer sair para dançar, namorar… e ambos, coitados, tinham cara de “que é que estamos fazendo juntos”.
caminhar Olhei de volta para meu estranho ao lado. Tive vontade de me levantar e sair andando pela noite, sem olhar para trás. Acho que foi isso que minha alma fez, enquanto corpo ficava ali, como uma casca. A solidão é fera… a solidão devora. ( E o primeiro bocado é justamente a auto estima.)
Nesta noite eu tive mais uma prova de que meu casamento tinha os dias contados. Na verdade eu tive muitas provas…
E contei cada uma das muitas noites de solidão a dois… até que dei o passo definitivo, tropecei nas pernas… mas fui andando para longe daquele futuro.
Ainda tive outras noites de solidão… mas sozinha foi mais fácil de suportar.

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El Albergue de Las Mujeres Tristes…


Li este livro com uma sensação de estar vendo um álbum de fotografias. Um álbum estranho, onírico, onde estavam pregadas as caras, minha e de muitas de minhas amigas, cujos nomes estavam trocados pelos dos personagens criados por Marcela Serrano*, mas que possuíam as mesmas expressões de susto, desesperança e tristeza nos olhos, o mesmo ricto amargo nos cantos da boca, as mesmas rugas de cansaço por trás de sorrisos diplomáticos. Em muitos momentos da narrativa perdi-me em longos devaneios, retomando imagens, sentimentos, medos e questionamentos vindos dos recônditos mais profundos de minha alma. Recordações que eu acreditava desaparecidas na minha larga história de mulher “independente ” e triste no final do século XX e início do XXI.
O livro me chegou às mãos meio por acaso. Eu estava querendo uma novela suave, para ler nas férias. Meu marido foi na estante do fundo do corredor e o escolheu dizendo que sabia que eu iria gostar. Aceitei a sugestão de imediato só pelo título, mesmo sabendo que apesar der ser uma novela pequena, não seria assim tão leve… A cicatriz que levo na alma é grande e tem voz própria quando o tema é tristeza. Nunca me esquecerei dos tempos em que ela quase me matou.
Viajei dentro do ônibus com Floreana – personagem principal da novela – até o albergue da ilha de Chiloé, no sul do Chile, com um frisson dentro do peito, assim como sabendo exatamente o que era buscar um lugar muito distante de tudo como única possibilidade para sobreviver à dor, ao medo, ao desencontro consigo mesma.
Ali, ela e eu nos encontramos com as outras. Ela com uma atriz, uma milionária, uma bordadeira, uma artesana de bonecas, uma psiquiatra, uma economista, entre outras mulheres do albergue dispostas a deixarem-se curar, a compartir tarefas e histórias por três meses. Eu, com uma artesana de bijuterias, uma médica, uma secretária, uma psicóloga, uma advogada, uma dona-de-casa, uma administradora, entre outras mais.
Cada uma das mulheres do albergue levava consigo seus próprios personagens, agarrados como crostas às suas cicatrizes…
Eu e as minhas amigas levávamos também os nossos…
Claro, minha Constanza não era economista, nem se chamava Constanza, mas era tão parecida com ela que se confundiam as duas.Tanto que eu podia usar a cara de uma ou de outra quando as escutava, fosse no livro ou na minha lembrança.
Na verdade, os relatos daquelas mulheres nos desnudavam a todas e, por deixarem assim expostas as suas feridas, estas já não eram apenas suas, já não eram feridas individuais… eram as chagas de todas as mulheres do planeta, vivessem em Santiago do Chile ou em São Paulo, em Nova York ou em Madrid, estivessem no mercado laboral ou em suas casas.
Muitas vezes eu resisti a fechar o livro e ir-me porque sabia o quanto de mim ficaria preso entre suas páginas. Outras resisti a abri-lo para não encontrar-me.
Mas não resisti a continuar a leitura… e continuar me encontrando com todas elas, ou ainda outras já desaparecidas como a Princesa, minha mãe, ou minha bela amiga de infância que morreu de câncer, ou outras amigas perdidas num mundo de desamor e traição, cansaço e medo.
A autora também faz um contraponto a esses relatos femininos com a presença de dois personagens masculinos: um médico e um escritor de contos eróticos. Ambos entraram na vida de Floreana ( e nas nossas ) com suas teses sobre as mulheres e sobre o papel masculino no mundo contemporâneo, suas dúvidas, seus temores, seus desconcertos.

As questões sobre o amor, o sexo, a amizade, a família e o trabalho são inesgotáveis dentro da literatura. E Marcela Serrano*, esta bela escritora chilena as reune nesta novela levantando ainda mais poeira sobre esses temas.
Para onde vai o relacionamento amoroso com o deslocamento das mulheres rumo à independência financeira e emocional?
O que sentem as mulheres quando percebem que o preço a pagar pela independência e a liberdade de seus desejos e ações quase sempre é a solidão?
O que sentem os homens? Porque eles têm medo de amar essas novas mulheres?

Bom, só refletir sobre isso já faz de El Albergue de Las Mujeres Tristes um livro para ser lido, discutido, conversado. Sugiro que o leiam. Homens e mulheres.
Ho ho… voltei bem, heim?!
* Marcela Serrano

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Ela Não Se Chamava Emília…

Há quase meio século atrás, Cabelinho de Espiga de Milho tinha o mesmo tamanho e a mesma idade que eu.
E, enquanto eu era morena e tinha os cabelos muito curtos, maltratados pelo mesmo barbeiro que pelava meus irmãos como se eles fossem soldados em vias de serem enviados à guerra mais próxima, ela tinha belos, longos e lisos cabelos da cor dos raios de sol, olhos azuis e sobrenome inglês. Era quase igual às bonecas das vitrines da Lojas 4.400, a loja rainha da Rua da Imperatriz de minha infância.
Mas ela não era uma bonequinha de loja, nem de livro. Era real e definitivamente a rainha da rua. Falava a língua do P com perfeição, xingava quando perdia no jogo, atirava pedras, roubava frutas das árvores alheias, dava ordens aos meninos que lhe seguiam por toda parte. Era mais autoritária que qualquer Imperatriz. E eu gostei dela.
Quando chegamos em Casa Forte, Cabelinho de Espiga de Milho transformou-se em minha melhor amiga. Inseparável amiga. Tínhamos 5 anos.
Éramos diferentes das outras meninas da rua. Enquanto elas brincavam de bonecas e comidinhas, nós fazíamos guerra de bolas de lama, lutas de mocinho e bandido, campeonatos de bola de gude, queimado e gamão, criávamos teatros de marionetes, fomentávamos as corridas de bicicleta pelas ruas do bairro…
Estávamos sempre entre os meninos.
Enquanto passavam os anos e eu deixava os cabelos crescerem em indomáveis e fartos cachos castanhos, ela ia cortando os raios de sol cada vez mais curtos. Eu chegando ao metro e setenta, ela parando a pouco mais do metro e meio. Eu romantizando a vida. Ela racionalizando-a. Eu escrevendo cadernos de poesias. Ela lendo novelas policiais. Eu lenta e desarrumada. Ela diligente e ativa. Era a melhor ajudante da mãe para criar os quatro irmãos que nasceram depois dela. Mas continuávamos inseparáveis. Éramos como irmãs e nos apresentávamos, com todo orgulho, assim: “Somos gêmeas, idênticas. Não vêem as semelhanças?”
Estudamos juntas até a entrada na faculdade, quando a vocação de cada uma nos separou. Eu fui estudar Psicologia, ela Engenharia. Mas a amizade continuou para sempre.
Quando tínhamos 19 anos, caiu a bomba sobre nós. Cabelinho de Espiga de Milho estava com câncer.
Eu me debulhei em lágrimas infelizes. Ela se preparou para a luta.
Seu cabelo caiu todinho, fez mil e uma cirurgias investigativas. O tratamento foi violentíssimo, mas ela ganhou. Nunca deixou que a doença tomasse conta do seu espírito. Era indomável.
Depois disso, o cabelo cresceu mais escuro, os olhos ficaram mais duros e determinados, mas ela deu a volta por cima e sem perder uma prova da faculdade, formou-se e transformou-se numa excelente profissional. Sua capacidade de mando continuou por toda a vida. Sua força vital também. Ganhou mais duas batalhas contra a doença, que insistia em dobrá-la. Nunca o conseguiu.
Casou-se. Adotou um menininho lindo como filho querido, já que a capacidade de ser mãe estava limitada pelas muitas radiações que tomou na vida.
Depois, não sei precisar exatamente quando, as contingências da vida de cada uma, profissionais e pessoais foi nos afastando da convivência diária, dos programas sociais…
Apesar de vivermos na mesma cidade, víamos-nos tão pouco! Falávamos por telefone e prometíamos encontros nunca marcados.
Meses atrás, por casualidade, estive com seu irmão em Madri. Ele disse que o câncer havia voltado e que desta vez a luta estava mais acirrada, a miserável tinha tomado conta de seu ponto mais forte: o cérebro.
Não havia mais nenhuma saída.
Recebi um e-mail de sua sobrinha uns dias atrás… Nele uma foto de minha amiga de toda a vida, com cabelos curtos e escuros (talvez postiços) ao lado de um texto de despedida com data de nascimento e de morte.
Enquanto eu fazia mechas de luz nos cabelos castanhos para comemorar os 50 anos, exatamente no dia 15 de setembro passado, minha querida e lutadora amiga, faltando apenas dois meses para cumpri-los também, adormeceu para sempre.
Minha primeira e eterna amiga morreu no dia do meu aniversário de 50 anos!
Há uma semana a lembrança de seu cabelinho de milho, sua voz, seu sorriso, o encanto de seus olhos azuis de boneca me acompanham por toda a casa… e nessas lembranças não temos os cinquenta anos que já vivemos, juntas ou separadas…
Temos os cinco anos de quando nos encontramos pela primeira vez, numa rua de barro e lama de Casa Forte.
E esta é e será a minha eterna saudade…

 

Escrevi esse post para Cristina Gatis Soares.

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Anjo de Si Mesmo…( Falando de Depressão)

Eu olhava no espelho e via outra mulher. Na verdade não era outra, mas também não era a mesma. Não era mais aquela da foto que estava pregada na porta da geladeira, com um brilho inocente no olhar e o sorriso auto suficiente de mulher independente e bem resolvida.
E apenas um ano me separava dela!
Também não era mais aquela rota e amarrotada criatura que vivia sem viver, com olhar embrumado e olheiras profundas, oca de alegria, murcha de energia, emudecida pela total falta de ganas de expressar em palavras qualquer sentido para a vida.
Agora, dia após dia, o que via no espelho era uma mulher que começava a experimentar uma nova forma de ver o mundo e de relacionar-se com ele. Agora os olhos no espelho eram mansos, doces, condescendentes. Parecia-me que era mais humana, mais real e verdadeira com meus sentimentos, meus sonhos, meus desejos.
Uma das transformações que percebi em mim foi que eu não corria mais atrás do tempo, andava mais lentamente, fazia as coisas mais simples ou mais complexas com mais intensidade e consciência, quero dizer, não mecanicamente como antes de adoecer, nem com tanta tensão.
Deixei de explorar-me e passei a realizar com calma e tranquilidade aquilo que o dia e minhas forças me permitiam.
Não mais assumia mil e uma responsabilidades, nem compromissos com prazos impossíveis ou metas inalcançáveis.
Deixei de ser escrava de minha auto-crítica e de meu perfeccionismo.
Permiti-me ser também o anjo de mim mesma.
Exigia menos de mim e então descobria que o dia era mais produtivo e saboroso.
Descobri naqueles nove meses de tratamento que precisar não diminui ninguém, muito ao contrário. Ajuda a crescer. Precisar é uma aula de humildade.
Clarice Lispector disse que “a solidão é não precisar”. E que “não precisar deixa um homem muito só, todo só.”
Para mim é a mais pura verdade.
Não só aceitei a ajuda desinteressada daqueles que me deram apoio sem que eu o pedisse formalmente, como também aprendi a pedir.
Saber receber é uma virtude. Nem todos sabem. Os muito independentes e auto suficientes não sabem receber. Sentem-se até mesmo ofendidos quando alguém tenta ajudá-los.
E saber pedir?
Ah… isso é uma violência para os solitários.
Além de acreditar que “não precisam”, quando descobrem que isso é falso, trocam de crença para “não quero incomodar ninguém com meus problemas!”
Mas é lindo aprender a pedir. Difícil, mas lindo.
Pedi companhia, pedi paciência, pedi colaboração… pedi o que achava que precisava.
Nem sempre fui atendida, é verdade. Algumas pessoas, inclusive dentro de minha própria família, simplesmente não compreenderam nunca o que estava se passando comigo. E justamente porque era comigo.
A rota e amarrotada criatura não combinava com a imagem que sempre tiveram de mim e talvez por isso nunca conseguiram vê-la… Continuavam vendo-me como lhes parecia que eu era. Acreditavam que a melhor “ajuda” era não admitir minha doença, minha mudança, minhas novas e, para eles, inacreditáveis necessidades.
Alguns chegaram ao ponto de criticar a medicação dizendo que eu não estava louca e só quem estava doido precisava desses remédios.
Acabei entendendo que eles também não tinham culpa disso.
Paguei todos os preços pela desorganização em que havia transformado a minha vida. Para acertar todas as dívidas, tive que fazer muitas mudanças, desfazer-me de muitas coisas, desprender-me de algumas pessoas e aproximar-me mais de outras.
Recebi muitíssima ajuda nesses momentos e finalmente entendi que saber receber também é dar. Porque a gente está devolvendo amor, confiança, respeito. E isso também faz feliz aos nossos anjos.
Tomei algumas decisões muito importantes naqueles meses: preservar-me mais do stress do “mundo moderno”, escolher melhor as pessoas com quem trocar afeto, retomar meus sonhos mais profundos, cuidar mais de mim aceitando e respeitando minhas limitações, não correr atrás de um futuro idealizado, nem pessoal nem profissional mas, “passo à passo”, ir construindo um presente mais saudável, mais tranquilo e feliz.
Aproveito a oportunidade para dizer às pessoas que sofrem algum tipo de depressão que tirem suas máscaras e peçam ajuda, ou apenas aceitem que seus anjos se aproximem. Eles estão aí por perto…
Não se escondam mais… não lutem sozinhos. Não tenham vergonha de assumir seriamente um tratamento para não serem taxados de “maluquinhos”, “pobrezinhos”, “coitadinhos”. O sofrimento crônico de adiar uma decisão de curar-se não vale a pena.
Não me envergonho de contar o que passei porque considero que, apesar de terrível, foi uma imensa aprendizagem. Renasci melhor. E não sou eu apenas que pensa assim.
Também a experiência de perder a Princesa, minha mãe, vítima da Síndrome de Alzheimer, apenas dois anos depois, mostrou-me muito cruamente e cruelmente que valores são realmente importantes na vida: a saúde mental e física, a paz de espírito e o amor.
O resto é resto.
……………………
Ps: Espero ter respondido com este post os maravilhosos comentários que recebi nos anteriores. E, talvez, ter ajudado alguns a encontrar um fio de luz dentro de suas penumbras.

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Um Anjo Torto no Espelho…(Falando de Depressão )

Ela disse que já fazia um tempo que pensava em mim. Acordava pensando, almoçava pensando, depois esquecia e voltava a pensar antes de dormir…
A cada amanhecer se prometia procurar-me, mas a promessa perdia-se no decorrer dos afazeres do cotidiano. Quando finalmente ligou e escutou a minha voz já sabia que algo não estava bem. Disse-me segura e firme: “Espere-me. Estou chegando.”
Pois sim…esperei ali mesmo, quase sem mover-me. Estava exausta!
Em menos de 20 minutos ela tocava a campainha da porta com pão, queijo e salada.
E foi assim que a primeira mão- ou asa, porque parece que estamos falando de anjos – se estendeu para ajudar-me a encontrar uma fresta naquela bruma que envolvia minha alma.
Durante o almoço improvisado, contou-me sua experiência de morte. A cada palavra sua, eu me reconhecia. Era como se ela fosse minha imagem no espelho.
Palavras que pareciam só minhas estavam na sua boca. Expressões como “alma cansada” ,”falta de luz interior”, “silencios recolhidos”, “pensamentos confusos”, saiam de uma boca que não era a minha, mas que adivinhava meu pulsar, dava nomes a tudo que eu sentia.

Que estava fazendo ali aquela figura no espelho? De quem era mesmo aquela boca que se movia se eu sabia que estava muda e encolhida, assustada que pudesse ler assim as minhas entranhas?
Eu olhava para ela e me via. Era sua ou minha a boca trêmula, os olhos marejados, a voz vagarosa que contava o que era sentir vontade de desaparecer sem deixar vestígios, dissolver-se no éter, não dar qualquer explicação a ninguém? Não a tinha, mesmo!
Ninguém a pediria até que fosse já muito tarde. E então, quem sabe criariam as suas próprias versões? Nenhuma delas teria mais qualquer importância.
Ela falava e eu assentia com a cabeça, muda, profundamente agradecida que sua boca fizesse o papel da minha.
Quando ela limpou a mesa e fez o café, olhou-me como se eu fosse uma foto antiga de um álbum de seu passado. E era…
Então, com muita calma disse-me que eu era ela, só que há um ano atrás. Agora, já estava quase curada.
Explicou-me por alto o processo químico da depressão. Disse que eu não tinha que tentar sair sozinha dessa armadilha, os riscos eram altos demais. O desgaste de energia era excessivo para quem já estava sem forças. Pediu-me para que me deixasse ser ajudada.
Sim! Por favor, sim…
Telefonamos para meu médico e marcamos a consulta para o mesmo dia. Ela disse que era urgente e ele acreditou. Eu também.
Estava entregue às suas asas…
E esse foi o primeiro passo para o processo de ressurreição. Um pequeno grande passo.
Muitas vezes me perguntei como e porque uma pessoa que eu não via há tanto tempo conectou-se comigo à distância, “sentiu” que precisava saber de mim. E justamente uma pessoa que sabia o que dizer-me porque já havia vivido algo semelhante.
Ela foi o primeiro dos muitos anjos da guarda que me cuidaram por aqueles tempos.
Saber o que era depressão de verdade e por experiência própria fez muita diferença. Foi muito importante…
Mas só descobri isso depois de um tempo, quando espalhei a notícia que estava doente.
O mundo não está preparado para receber essa notícia, descobri rapidamente. O mundo pode aceitar que você pegue uma virose ou uma hepatite e precise de um tempo para recuperar-se. Até pode conviver facilmente com uma pressão alta ou uma diabete, que talvez vá necessitar uma medicação específica para toda a vida. Normal. Que bom poder contar com a medicina avançada, não é?
Mas a depressão não é vista da mesma maneira. Ela é percebida como uma doença de fracos, um comportamento histérico para chamar a atenção, uma maneira preguiçosa de ser ou uma forma de “chantagem emocional” para não assumir as responsabilidades da vida moderna.
Além desse preconceito, a maioria das pessoas não sabe o que é a verdadeira depressão. Confunde-a com uma tristeza passageira ou uma sensibilidade exacerbada de TPM, algo que pode ser freado por um Lexotan, um Frontal ou uma noitada de euforia regada a uns drinques. A maioria não sabe do componente orgânico da doença, do desequilíbrio químico no organismo. Querem uma explicação psicológica e não bioquímica. Buscam um motivo externo, uma grande tragédia.
Nem sempre esse grande desencadeador existe.
O meu mundo também pensava assim. E as primeiras reações estavam baseadas nessa ignorância. Alguns me olhavam com pena e me incentivavam a tirar férias e viajar. Outros me diziam que eu tinha que sair de casa, conhecer pessoas novas, procurar me divertir, não me entregar. Ainda algum aconselhou-me a arranjar um “macho” para uma boa trepada. “Cura certeira.” Garantiu.
Descupem-me a baixaria, mas os termos foram mesmo esses.
Eu nem respondia. Sorria e mudávamos de assunto. Era um tema incômodo para elas e precisavam achar uma solução imediata. Melhor que acreditassem que aceitar os seus conselhos era o melhor que eu podia fazer para curar-me.
E se não fosse assim, é que eu queria mesmo “fazer o papel de vítima” e ser a “coitadinha”. Mais uma frustrada para o rol.
Outra descoberta é que o mundo não tem tempo para cuidar da gente. Todo mundo está sempre muito ocupado e cheio de compromissos. As agendas das pessoas estão repletas de afazeres e o que sobra é para o lazer. Como usar esse tempo com uma pessoa apagada, sem brilho, sem vontade, sem prazer, cheia de pensamentos negativos? E ainda por cima que não aceita os seus conselhos tão simples e maravilhosos!
Argh! Toc-toc…
Se você estivesse acidentada, operada, realmente doente, sim. Claro, amigo é para essas coisas também.
Mas depressão? Melhor te apresentar um amigo do amigo do ex marido e sair para dançar… eu, heim?! Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima, mulher!

Algumas amigas quando souberam que eu estava deprimida, me telefonaram e me deram um senhor “puxão de orelha”.
Mais ou menos assim:
“O que é isso? Uma mulher como você??? Não admito que tendo sido sempre tão forte, tão cheia de vida, inteligente, bonita, etc e tal diga-me que está deprimida! Isso não pode ser! Eu não posso aceitar isso de você?”
Como assim? Por que eu tinha que ser um modelo para alguém?
Ainda bem que algumas delas não perguntaram nada, não aconselharam nada. Simplesmente fizeram algo.
Nos primeiros dias da medicação, não vi qualquer alteração para melhor. Pelo contrário, sentia-me muito pior! No décimo dia parei de tomar o remédio sem avisar meu médico!
Falha nossa. Nem ele avisou-me que os resultados só apareceriam partir de 15 ou 20 dias, nem eu o chamei para avisar que estava pior.
Nesse dia telefonei para uma das minhas melhores amigas e perguntei o que ela ia fazer aquele final de tarde. Ela respondeu que estava no carro indo para uma reunião de trabalho. Pedi-lhe que me ligasse quando a reunião terminasse e desliguei. Dez minutos depois ela estava diante de minha porta, tirando a jaqueta de trabalho e os sapatos, indo para cozinha fazer um café…enquanto eu tomava uma ducha que lavasse as setecentas e trinta e duas mil lágrimas que salgavam o meu corpo.
Passou meia hora escutando-me. E antes de sair para a sua reunião, avisou-me que viria mais tarde. Para dormir.
Oh! belo anjo da guarda!
Pude suportar aquele por-de-sol vermelho-impossível porque sabia que ela voltaria. Naquela tarde aquela amiga se transformou para sempre na melhor das melhores amigas. E graças a Deus pude retribuir seu afeto e cuidado em outros momentos de nossas vidas, em que a necessitada foi ela.
Voltou muitas vezes com um filme, queijo e vinho. Ou apenas para convidar-me a fazer o supermercado. Ou passava logo pela manhã cedo só para tomar um café antes de ir trabalhar. Ela simplesmente ficou por ali, cercando-me, como se vivesse na porta da frente da minha casa desde sempre. Mais. Como uma irmã.
Como conseguiu que parecesse simples ter tanto tempo para mim?
Pois sim… ela ensinou-me uma lição inolvidável: “Quando uma amiga está precisando de ajuda porque está morrendo de tanta tristeza, jogue a “agenda” fora e escreva outra em que ela é a prioridade 1.”
Foi o que ela fez.
Voltei ao médico e iniciei outra medicação, prometendo telefonar a cada três ou quatro dias para dar-lhe um feedback dos resultados. Muitas vezes ele mesmo telefonava-me e conversávamos um pouco. Visitava-o frequentemente.
Tive muitas reações físicas no processo de ressurreição. Taquicardias, suores, diarréias incontroláveis no meio da rua, que me faziam voltar correndo para casa. Acho que eram defesas para não arriscar-me a sair da concha. Mas isso foi passando e passando, cada vez menos freqüentes e mais leves.
Ampliei minha coleção de anjos da guarda com minha cunhada, meu irmão – anjos antigos a quem eu amava à distância porque nunca tinha tempo para eles – e meu amigo francês, que convidou-me para trabalhar com ele num projeto de consultoria espetacular e que, finalmente, acordou minha motivação profissional, antes mergulhada num sono profundo.
Ressuscitar leva tempo… é tão manso como adoecer.
O antídoto para o veneno que impregna o corpo e a alma da gente está dentro das pilulazinhas minúsculas… mas para a recuperação total é preciso contar com a compreensão e o amor incondicional das pessoas que nos cercam.
Ressuscitar não é voltar a ser quem a gente era. Nunca mais seremos os mesmos.
A noção de profundidade dos sentimentos, a consciência plena do privilégio da vida, a total lucidez do que é felicidade são ganhos intrínsecos a quem escapa da morte.
A mudança de valores é profunda. O desprendimento, a compaixão, a tolerância, a paciência, a noção do que é liberdade, respeito por si mesmo e pelo outro… tudo ganha uma dimensão nova.
Parece que a gente fica uma pessoa melhor. Muito mais perto de ser o anjo ocasional de outros…
Depois de alguns anos, curada e profundamente transformada, despertei com a notícia de que um dos meus queridos anjos, contaminado pelo mesmo veneno, não teve a sorte que eu tive…
Sozinho e perdido na espessa bruma, corroído pela dor sem lugar e a tristeza sem nome, não conseguiu salvar-se.
Com um tiro no peito, quitou-se a vida.
Era o meu médico…
É verdade que resumi muitíssimo o que se passou desde a morte sem morte até a vida plena que vivo hoje em dia…
Mas o blog é apenas um caderno de notas e elas vão e voltam ao sabor da inspiração.
Quem sabe o que vou escrever da próxima vez?
Ps. Este post está dedicado com muito carinho aos meus anjos e também a Adelaide Amorim, Katia de Carli e Jussara Bellote. Cada uma delas por um motivo especial…
Elas o sabem.

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Viver … e Contar.

Não sei como agradecer os comentários deixados no post anterior. Acho que dizer obrigada é pouco.
Pensei que falar das Cicatrizes e como elas se produziram, além de gerar um bom assunto para conversar no blog, ajudaria algumas pessoas a identificarem sintomas seus, passados ou presentes.
Em vez de escrever sobre depressão usando um texto técnico, poético ou subjetivo, escolhi contar uma história. Esse é meu ponto forte.
Gostaria de saber fazer diferente e escrever como alguns blogueiros que eu visito e que admiro pela classe e estilo, mas não sei. Eu sei contar histórias.
Enquanto pensava em como expressar em palavras o que havia vivido, li alguns textos fortes sobre o mesmo assunto em outros blogs que me ajudaram muito. Excelentes posts, como o poema que li na Helô ou como o texto da Adelaide Amorim, que gentilmente concordou em que eu o utilizasse como ponto de apoio.
Cada um usa suas ferramentas. Eu usei as minhas.
Fácil não foi. Mas o difícil existe para ser superado.

Desvelar-me não constitui um problema para mim. Não mais.
Exige um tanto de coragem, é verdade. Mas esta eu herdei da Princesa, como disse num dos posts anteriores. E tenho meus filtros… nem tudo está escrito aqui.
Eu sei que a exposição pode, às vezes, trazer consequências desagradáveis. Entretanto, tive a sorte de que a esmagadora maioria dos que estiveram nesta página durante estes dois anos e pouco ( tanto os que deixaram seus comentários quanto os que calaram suas opiniões ) terem sido, no mínimo, educadas e maduras. Algumas delas já considero amigos, tal a atenção e afeto que expressam e que eu retribuo.
Também recebi inúmeros e-mails durante todo esse tempo. Alguns sentiram-se como se estivéssemos juntos, conversando no sofá da sala ou confortavelmente instalados na mesa da cozinha, tomando um café na caneca azul, esperando os biscoitos perfumados saírem do forno. E contaram-me também suas histórias.
Sobre o curto-cicuito, escreveram-me pedindo que continuasse o assunto, pois precisavam saber como sair de suas penumbras.
O mesmo aconteceu antes, com a minha história de amor em capítulos, que muitos acompanharam cheios de esperança renovada de que era possível sonhar e viver um amor de verdade, outros porque se divertiam, viam poesia ou simplesmente gostavam de minha forma de escrever.
Creio que o tema central do Língua de Mariposa é esse: cumplicidade de sentimentos. Sejam eles dolorosos, nostálgicos ou bem humorados.
Tento comparti-los com honestidade, transparência e boa vontade.
Escrever é meu vício.
“Viver Para Contar”, diz García Marquez.
“Confesso que Vivi”, disse Neruda
Não sou escritora, nem poeta… mas vivo.
E confesso que gosto de contar.
Com toda intensidade.

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E Por Falar Em Cicatrizes…( Falando de Depressão)

Adelaide disse assim:“Ela vem e senta nos teus movimentos… um peso branco que te trava todo e nem te dá vontade de morrer, razão pela qual você continua vivo, mas assim, a contragosto…
Aliás, ela é contragosto mais do que desgosto.”

E eu disse assim: “Morrer, o que se diz morrer mesmo, não morri. Mas morri assim mesmo.”

Enquanto contava a história dos encontros e desencontros que me trouxeram até aqui, mencionei algumas vezes um período de minha vida em que perdi-me de mim mesma.
Há algum tempo venho tentando escrever sobre isso.
Cortázar diz que ” é mais fácil falar de coisas tristes que das alegres” e que ” dos bons sentimentos nasce a má literatura… que a felicidade é somente de um, em troca a desgraça parece ser de todos”.
Não para mim. Escrever sobre esse mergulho no poço profundo da dor sem lugar e sem sentido foi muito difícil. Desvelar-me não. Já fiz isso muitas vezes. Mas, desvelar o estar escondida na penumbra da alma e não saber como encontrar de novo a luz, foi como bordear o precipício por onde se caiu…
Pois esse post pretende contar um pouco, só um pouco, o que foi esse curto-circuito na minha vida.
Acho que o texto publicado no Umbigo do Sonho deu-me um ponto de apoio, um fio condutor.
Há mais ou menos 8 anos atrás, nesta mesma galáxia (acho!), minha alma adoeceu.
Não sei bem como começou, mas fazendo um esforço de memória recordo um sono quase incontrolável em horários não muito comuns, um desânimo em relação ao trabalho, uma vontade de parar o mundo e descer…
Parecia impossível acompanhar a velocidade da vida e eu estava tão cansada!
Fui deixando algumas atividades… não me dava tempo ir, me exigiam uma energia que eu não tinha.
Depois, também não sei quando, uma tristeza sem nome foi se instalando, se insinuando por baixo da pele, transformando o sorriso em ação rara, apagando do olhar o brilho, freando os impulsos do prazer.
Eu tentava reagir. Buscava a companhia dos amigos de sempre. Mas, no meio do encontro, perguntava-me o que estava fazendo ali, que conversa era aquela, porque não ia para casa e ficava sozinha escutando música e lendo alguma coisa? “Para não me divertir, melhor não ir!”
Voltava para casa e não queria a música, nem o livro. Ligava a televisão e não via nada… deixava o telefone tocar mil e duas vezes sem atendê-lo.
Um dia saí de casa e deixei, sem perceber, a torneira do banheiro aberta. Eram épocas de racionamento de água e haviam horas certas para o abastecimento. Quando cheguei a casa estava inundada. Essa foi só a primeira vez…
Num outro, botei um pedaço de pizza para esquentar no forno, peguei a bolsa e saí de casa. Quando voltei, a cozinha era um verdadeiro inferno pela fumaça e pelo calor que vinha do fogão. Os azulejos já estavam negros na parede atrás dele. Não sei como o incêndio não havia ainda começado!
Depois,deixei o computador ligado, o ferro de passar, a janela da sala aberta, pronta para que qualquer chuva entrasse livre-leve-e-solta, banhando o tapete e as almofadas, que eram meu sofá.
Contava esses casos rindo amarelo (ainda) de mim mesma. Não percebia que eram sinais de que algo em mim estava acontecendo. E que era um algo muito perigoso.
Depois que se repetiram, deixei de contá-los. Não tinham mais graça alguma!
Assim fui deixando mansamente de ir, de contar, de querer, de falar, de desejar, de ser.Tudo muito mansamente…
Tive que escrever uma lista de coisas a fazer antes de sair de casa e pregar na porta da sala.
-Desligar TUDO que estiver ligado.
-Fechar as janelas.
-Levar o lixo para fora.
-Fechar as torneiras.
-Check list da bolsa: chaves, carteira, contas, e todas as quinquilharias que eu achava que precisaria todos os dias.
Parecia engraçado, mas não era. A lista crescia todo dia.
As madrugadas me viam absorta na janela de um 15 andar, acompanhada de uma lua tardia. Tão solitária como eu. Pensava que ambas éramos românticas, mas sempre estávamos sós. Estávamos tão perto de tudo e esse tudo era tão inalcançável! Pensei que era porque ambas éramos desertas…
Contava a ela e a mim mesma os fracassos da vida. Não gostava mais do trabalho que sempre me havia encantado. Só tinha podido ter uma filha e nem sabia se tinha sido a mãe que ela precisava! Não sabia administrar minha própria casa, nem a vida afetiva: um noivado desfeito, uma casamento fracassado, namoros superficiais, algum amante proibido que esvaziava mais do que preenchia minhas carências. E agora nem isso! Insegurança profissional e financeira. Tanto estudo para nada! Trabalhava um horror de horas para poder pagar as contas e olhe lá!
Era isso viver?
E ainda por cima gastava em discos quando nem havia pago ainda a conta da luz, do condomínio, do IPTU… e tudo, e tudo. Comprava sete discos de uma vez e os escondia na prateleira. Escondia-os de mim mesma…da culpa. E nem sequer os escutava. Pela culpa. Melhor não.
Agora nem música, nem livros, nem televisão…
Sentia como se estivesse imersa em um silêncio interno, morno, pegajoso, cansado. Quando ele me vencia, dormia entre sonhos de desassossego.
Despertar era um esforço imenso, como se tivesse que lutar para desenterrar a cabeça de um buraco no fundo da terra…
“Reaja!” Eu me dizia. “Você está virando uma ameba!”
Escolhi umas fotos em que estava bonita e sorridente e prendi na porta da geladeira, para lembrar de quando eu era feliz! Não queria esquecer quem eu era!
Com a ajuda de um despertador, forçava-me a sair da cama, beber um copo de água e me jogar para fora de casa.
Comecei a caminhar na praia pelas manhãs. Precisava manter algum exercício físico já que não ia mais à academia. Sair era o pior momento, mas depois, “estar diante do mar seria um bálsamo”, pensei.
Isso durou alguns dias… só alguns.
Em pouco tempo, encarar a luz do dia me fazia mal. Olhar o mar me fazia chorar… a solidão parecia maior.
Aquela figura embaçada que eu era, caminhando contra o vento marítimo, molhada de lágrimas, era patética demais. Melhor não ir.
A janela da sala agora permanecia fechada, com as cortinas cerradas. O sol me doía dentro do coração.
Começava coisas que nunca terminava… tinha pelo menos 5 livros iniciados espalhados pela casa. Um deles – Bom dia, Angústia, de Sponville – obrigatório para um curso que estava fazendo, me arrepiava de medo só pelo título. Olhava para ele como quem descobre uma cascavel entre os lençóis da cama, sempre desfeita. Pânico!
Me exigiam também um resumo comentado de O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro. A cada página lida, uma raiva surda que me subia das entranhas! Imaginava a fogueira que eu iria fazer no meio sala com o livro, assim que acabasse de lê-lo. Mas nunca terminava… nunca terminava… ele crescia em páginas a cada tentativa minha de avançar. Era mágico! O desgraçado ficava mais grosso todo dia!
Eu chegava atrasada a todos os compromissos. Talvez porque não quisesse mesmo ir. “Melhor não ir”, pensava.
Mas ia. Depois de rodar pela casa vestindo todas as roupas que não gostava, tirando tudo de dentro do armário e não encontrando justamente aquela que me deixaria pelo menos apresentável, guardando a escova de cabelo dentro da geladeira, comendo em pé no meio da cozinha, esquecendo de levar pastas importantes (mais coisas para a lista) e depois, o pior…
Perdia-me!
A cidade era a mesma de sempre, mas eu me perdia. Entrava em ruas desconhecidas, dobrava a esquerda quando deveria ir pela direita, ia para uma casa que não era mais a minha…
Não lembro o que pensava enquanto dirigia. Um perigo! Por duas vezes cruzei sinais vermelhos jurando que haviam ficado verde. É que estava olhando para o sinal contrário à minha direção. Alguma vez parei o carro em pleno sinal verde. Também só vi o vermelho fechado para o sentido contrário. Sentido? Que sentido?
Parava o carro às vezes e me perguntava para onde estava indo? Eram apenas segundos de dúvida, mas podiam levar-me por avenidas enormes onde tinha que dirigir quilômetros até encontrar uma forma de voltar. Voltar para onde?
Outras vezes saía disposta a visitar uma amiga. Desistia no meio do caminho e decidia ir ver minha mãe. Desistia disso também e resolvia voltar para casa. E perdia-me outra vez. Parava muitas vezes chorando por alguma música que tocava no rádio… “Eu nem sei, porque me sinto assim… vem de repente uma anjo triste perto de mim…”
Preferia que nada tocasse no rádio. Desligava.
Mesmo assim, chorava.
Perdi o sentido. Perdi todos os sentidos!
A verdade é que a cidade não era mais a mesma. Parecia desconhecida.
Gostava mais dos dias de chuva agora… sentia-me mais acolhida, encolhida, abraçada.
Gostava? Não sabia mais o que era gostar de alguma coisa. Mas pelo menos não havia um sol brilhante a me ferir a pele e os olhos, nem céu azul, nem rebuliço de gente feliz pelas ruas. Como podiam rir aquelas pessoas com aquele sol e calor?
A chuva era fresca. A chuva chorava. A chuva pintava a cidade de cinza. Tudo ficava da minha cor. Cinza.
Por que não chovia todos os dias? Era tão mais fácil viver!
Então, dormir foi ficando impossível… tinha fantasias de morte. Pensava que morrer não seria tão mal assim. Já havia vivido o melhor e o pior da vida. Achava que seria apenas fechar o olho e não abri-lo nunca mais. Mas tinha tanto medo! Melhor não dormir!
Mas estava tão cansada!
Por uns dias, parei com todas as atividades “obrigatórias” e resolvi contar tudo a minha mãe. Fiquei indo lá sempre que podia e era em sua cama o único lugar em que descansava. Ela me dava um suco ou um café, eu deitava e dormia. Ali não morreria!
Ela me dizia que eu tinha que reagir… que eu tinha tudo para ser feliz, que não entendia porque me queixava, se era livre, independente e dona do meu destino! Era tudo que ela não havia podido ser…
Fiquei com vergonha. Deixei de ir lá e disse-lhe que já estava melhor.
Comecei a frequentar a casa de uma amiga que trabalhava com bijou.Ela trabalhando e eu dormindo no sofá… uns quatro ou cinco dias.
Depois fiquei com vergonha…
E não ia mais a lugar nenhum, exceto aos lugares “obrigatórios”.
Ali ficava, como uma sombra… ninguém notava nada. Se alguém percebia algo estranho e me perguntava se estava bem, eu respondia que não, mas que era passageiro. Já ia passar! E ficava por isso mesmo. Ninguém percebia que eu não estava ali. Era só a casca de mim que perambulava pelo mundo!Eu era uma replicante.
Descobri um trabalho para ficar em casa. Selecionar cenas de filmes para ilustrar as habilidades de liderança. Era só alugar fitas de vídeo, assistir, anotar e gravar. Quatro dias por semana sem obrigação de ir mais longe que a locadora mais perto. Perfeito!
Sofria nos filmes violentos, sofria nos filmes tristes, invejava os felizes.
Comia desreguladamente. Nem lembro o que comia. Coisas congeladas, eu acho. Sorvetes, pipocas, jujubas.
E aí fui diminuindo por dentro e crescendo por fora.
E chorava… e chorava…
Isso durou mais ou menos três meses, embora hoje eu saiba que começou antes de que eu mesma pudesse perceber.
Um dia, sentei para fazer xixi e fiquei ali por um tempo indefinido…
Quando o telefone tocou e me levantei para atendê-lo, caí sem sentir as pernas. Estavam completamente adormecidas…
Tentei “nadar” até a sala, mas quando cheguei lá, chorava tanto que não atendi.
Alguns minutos depois, o telefone tocou outra vez…
Levantei-o do gancho, tremendo. Era uma amiga que eu não via há mais ou menos dois anos.
Ao escutar meu rouco e sussurrado “alô”, perguntou: “O que você tem?”
Respondi ” não sei, acho que morri…”

Adelaide disse assim: “… desmorona num vazio de dentro… até cair feito fantoche sem ninguém pra mover os fios, boneco de ventríloquo sem o amo pra falar por ele…
E eu? Eu não disse mais nada…
Entreguei os pontos.

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Estou bem… É Primavera!

Não se preocupem comigo. Eu continuo feliz.
O que aconteceu é que eu estava tentando escrever sobre dores passadas e comecei com o post Curto-Circuito…
Não consegui dar seguimento.
Não pensava que olhar para dores perdidas no tempo podia assustar-me ainda e tanto.
Descobri que pode! E muito! Talvez eu demore a tocar nelas…
Não tenho pressa.
Por isso pedi a ajuda de F. Pessoa. O texto dele pede um adiamento do agora mas também diz muito dos sentimentos que eu tinha quando a minha chama apagou e a alma perdeu-se na penumbra…
Era no amanhã que eu pensava, porque o hoje era insuportável.
Obrigada pela companhia e pelo carinho dos comentários.
Aproveitando os belos dias de primavera, fui à Segóvia lamber a cria. Fui dar e receber dengos.
Tão bom!

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Adiamento…E Poesia. (Depressão)

Pois…
Sento-me aqui, em frente à folha em branco do word e escrevo reticências…
É tão difícil descrever o que é sentir-se ameba!
Como encontrar palavras para expressar uma morte simbólica, o medo, a penumbra da alma?
Pedi ajuda a um velho amigo.
O poema de Fernando Pessoa é assinado por Álvaro de Campos.
Eu, assim como ele, queria ter ( ou ser ) heterônimos. Não tive.
Assim que, por favor, esperem que me refaça das dores que as lembranças causam.
Permitam-me que seja reticente…
Há dores que mesmo quando passam, voltam a doer só de olhar para elas.
………………………………….
Adiamento
Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã…
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não…
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico…
Esta espécie de alma…
Só depois de amanhã…
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte…
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos…
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã…
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro…

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã…
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância…
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital…
Mas por um edital de amanhã…
Hoje quero dormir, redigirei amanhã…
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo…
Antes, não…
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã…
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã…
Sim, talvez só depois de amanhã…
O porvir…
Sim, o porvir…

Álvaro de Campos

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Curto-Cicuito…( Depressão)

Precisava aprender a viver sozinha.
E jurava de pés juntos que conseguiria. Era o sonho dourado de qualquer mulher moderna. Ser livre, segura, independente. Única dona de mim mesma.
Caro. Era muito caro.
E não eram só as contas que eu tinha que administrar. Era a vida.
De repente, as exigências de ser uma cidadã do mundo atual me asfixiaram.
Tinha que estar em dia com o pagamento da luz, do telefone, do cartão, da academia, das aulas de música, do IPTU, IPVA, INSS, CP e todas as siglas que inventaram por aí para sacar qualquer cristão de seu juízo perfeito. Ainda tinha o aluguel, o imposto de renda e a assistência médica. Um roubo!
Mas é que eu tinha que estar em dia com todos os istas:ginecologista, oftalmologista, dentista, dermatologista, este um ogro que me arrastava no chão cada vez que o via!
Tinha que estar em dia com a roupa suja para lavar, a limpa para passar, a limpeza e o abastecimento da geladeira, o banheiro cheirando a lavado, o tapete aspirado, os quadros espanados e alinhados corretamente, os discos organizados em suas respectivas caixas, os livros desempoeirados e arrumados por tema, as camas bem forradas, as plantas regadas, o lixo ecologicamente separado e pronto para ser levado aos lixeiros públicos, o carro lavado, abastecido e assegurado! Como se faz tudo isso de uma vez?
Tinha que ir regularmente ao ginásio e suar feito uma vaca pulando em aulas de aeróbica absurdamente impossíveis de seguir e sentir-me como a mais débil mental de todas as mulheres, indo sempre para o lado contrário ao resto da classe, desejando envelhecer logo para poder parar com aquele suplício de tentar manter um corpo sano em mente sana. Mentirinha que toda mulher conta. Queria mesmo era ficar desejável. E não envelhecer nunca.
Uff!
E por falar em mente sana, tinha que estudar ainda e sempre Freud. E também Cris Argyris e também preparar as aulas para o pós da Universidade e também as palestras e os cursos de proficiência em hotelaria. Afinal a gente também tem que contribuir para o social, ou não?
Também.
Tinha que estar feliz e ser agradável com toda a gente: do trabalho, dos cursos, e principalmente com a filha. Dessa tinha que cuidar de amar. Toda. Inteira.
Tinha que visitar a mãe constantemente ou pelo menos ligar todo dia. E contar coisas boas e aprazíveis, para não preocupá-la demasiado. Preocupada ela sempre estava.
Ah…e não esquecer das amigas, comprar presentinhos de aniversário sem esquecer absolutamente nenhum. Os da família, nem pensar em esquecer.
Tinha que ler os jornais para estar informada e ver os noticiários da televisão. Saber o que se passava nas novelas da moda ou não entendia quase nada das conversas de corredores do trabalho ou das festinhas de aniversário das crianças.
Sangue de Cristo tem poder!
Difícil para quem estudava ou ensinava à noite.
Mas quando não havia aula…
E tinha também que ler algo de filosofia, arte, poesia. Um clássico ou uma boa biografia. Isso era imprescindível à alma.
Assistir todos os filmes imperdíveis. E ainda conseguir comprar música boa e barata. Mas a boa quase sempre era caríssima!
Ler as cartas das revistas assinadas. Dar uma passadinha nos artigos da Época e da Super Interessante. Incentivar a filha nas artes da leitura, música e fotografia.
Aprender a cozinhar resultava impossível, mas tentava. Errava até nas sopas de pacote. Desistia todos os dias!
Tinha que ter um namorado que fosse pouco presente, apenas o suficiente para ativar os hormônios e alisar o ego. Então escolhia um caso para só ver de vez em quando.
E devia estar sempre alegre e contente feito um parque de diversões, senão por qual motivo eu estava ali?
Tinha que ser leoa, vaca, coruja, passarinha. Tinha que ser sereia, formiguinha, cigarra e vaga-lume.
Tinha que ser A MULHER.
Pois de repente me senti ameba.
Morrer, assim o que se diz morrer mesmo, não morri.
Mas morri assim mesmo.
E então, nada ficou no lugar…
Mas isso eu conto outro dia.

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Voz no Vento…

Abriu a janela lentamente, com um esforço brutal, temendo debruçar-se e não resistir ao chamado do vento. Acendeu um cigarro… para ganhar tempo.
Debruçou-se, apesar do medo.
Quanto tempo dura um cigarro? Quanto tempo ele retirava de sua vida?
Aquele durou o suficiente para mostrar-lhe uma cena: muitos andares abaixo do seu apartamento, decorado com cuidado e bom gosto, estava a favela. Assim era aquele bairro. Os edifícios de 15 andares colados com pequenas “manchas” de barracos.
No quintal de um deles, uma mulher dobrava o corpo diante da bacia prateada pelo sol. Vestia blusa sem mangas, decotada, vermelho-paixão. A saia estampada entrava por entre as pernas entreabertas. Os pés descalços – unhas pintadas de rubro – eram duas fortes patas de águia prendendo a mulher ao chão.
A seu lado, a lata enferrujada cheia de água. A mulher jogava água na bacia e esfregava a roupa ensaboada por uma daquelas antigas barras de sabão amarelo. Cantava com voz suave, que subia sem barreiras até as últimas janelas do edifício.
Que música era aquela? Parecia uma canção de ninar.
Como podia cantar tão bonito se estava cercada de tamanha pobreza? Como podia ser doce e feliz a voz que vinha de uma garganta sufocada em um corpo encarcerado no pequeno quintal de terra batida, entrincheirado pelos arranha-céus?
Ela nunca olhava para baixo – a pequena favela era feia e triste.
Ela só olhava para o longe, para o lindo horizonte embaçado pela névoa do dia e enfeitado de falsas estrelas coloridas, à noite.
Era bonito…
Talvez apenas porque era longe… T

Talvez por ali ela pudesse escapar para longe deste insensato mundo.
A voz da mulher abriu uma fenda na névoa do seu olhar.
O que era mais insensato: ela e sua tristeza sem nome, sua vontade de fugir sem saber para onde?
Ela e suas impossibilidades de escapar da auto-compaixão?
Ela e sua atração mórbida e medrosa pela loucura ou pela morte?
Para onde a levariam?

Ninguém que seguiu um desses caminhos provou que havia sensatez neles.
Quem já voltou da loucura não recorda lógica alguma nela. O mundo não foi melhor para si, nem para os outros que lhe rodeavam.
E quem disse que voltou da morte, por algum acidente inexplicável de apego à vida, encontrou nesta mais razão de ser que na outra, apesar de seu túnel de luz calma e tranquila.
Fechou os olhos e deixou a voz e o vento acariciarem seu rosto como um gesto, secarem as suas lágrimas como um beijo. Que estranho momento foi aquele! Tão pouco durou … mas ofereceu-lhe uma outra forma de ver a própria vida.
Ela não estava louca – nem morta.
Estava viva e podia escolher ser feliz.
Fechou a janela, abriu a porta do apartamento e saiu…

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Pensava Que Latejar Era Ser Uma Pessoa…

Frase de Clarice Lispector, no livro A Paixão Segundo GH
Quando me joguei para fora do teatro, nem palco, nem coxias. Queria a realidade da rua, queria um parque, uma praia. Queria respirar ar puro…
E queria uma explicação. Por quê?
O sentimento de menosvalia era profundo. Saí­a para caminhar pelas calçadas com duas sensações: liberdade e medo. Uma liberdade doce, de ser dona do meu destino… E um medo sem nome, entranhado no osso. Que incompetência para escolher! Como fui capaz?
Perdi a confiança em mim.
As pessoas me perguntavam por que saí do casamento­. Minha pergunta era outra: como foi que eu entrei?
Uns dias depois vi, na vitrina de uma livraria, a resposta. Um tí­tulo, que parecia de neon azul, vibrava por trás do cristal:
“Mulheres Inteligentes, Escolhas Insensatas.” Entrei em transe, e mesmo sem dinheiro, saquei o cartão e comprei sem perguntar o preço. Salvava, com esse ato, meu orgulho, minha auto estima. Sorria e pensava: “Escolhi mal, mas sou uma mulher inteligente.” Caminhei saltitando pelo meio da rua.
Tóin! Ufff…

Que dor descobrir que eu era pior do que pensava!
O livro era uma m*, escrito para ganhar dinheiro com as fraquezas alheias.
Ter comprado a bosta do livro foi a confirmação de que eu não podia mesmo confiar na bosta do meu discernimento, e afundei de novo na bosta da dor, como nunca na bosta da minha vida…
Burra! Burra! Burra!
Mas, com o tempo, as dores adormecem…
E meio adormecida, numa noite do Poço da Panela – para onde eu havia voltado – encontrei num livro de Clarice Lispector, o seguinte texto:
“Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi.E voltei a ser uma pessoa que nunca fui.
Voltei a ter o que nunca tive: apenas duas pernas.
Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar, mas a ausência da terceira me faz falta e me assusta. Era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.
Estou desorganizada porque perdi o que não precisava? “
“É difí­cil perder-se…”
…”Foi como adulta então que eu tive medo e criei a terceira perna? Mas como adulta terei a coragem infantil de me perder? “
“Perder-se significa ir achando e nem saber o que fazer com o que é achado.”
“As duas pernas que andam, sem mais a terceira que prende…
E não sei o que fazer da aterradora liberdade que pode me destruir…”
“Mas enquanto estava presa, estava contente?
Ou havia, e havia, aquela coisa sonsa e inquieta em minha feliz rotina de prisioneira? Ou havia, e havia, aquela coisa latejando, a que eu estava tão habituada que pensava que latejar era ser uma pessoa?”
…”essa coisa sobrenatural que é viver. O viver que eu havia domesticado para torná-lo familiar.”
“Eu me pergunto: se eu olhar a escuridão com uma lente, verei mais que a escuridão? A lente não devassa a escuridão, apenas a revela, ainda mais. ”
Ah! Clarice. Obrigada. Isso é que é escrever!!
Olhei minhas duas pernas, meus 30 anos, empinei o nariz, endireitei os ombros….
E…tropecei mil vezes nas duas enormes e compridas pernas desconhecidas, mas sobrevivi.
Nunca mais caí­ nos contos de neon azul, que hoje fazem a festa dos editores, das farmácias e dos supermercados.
Mesmo que eu esteja em pleno surto de idiotice… sigo andando.
*Marlene Dietrich

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Nossa Vida Não Tinha Dentro, Éramos Fora… e Outros…

Essa é uma frase de Fernando Pessoa. Está no texto ” Na Floresta do Alheamento.”
A primeira vez que a li, eu tinha 30 anos e não pude mais tirá-la da cabeça. Ela foi tomando meu espaço interior, se expandindo e desvendando os véus que embaçavam a percepção do que era a minha vida, do que era a nossa vida.
“Nossa de que dois?” Perguntava Pessoa. E descobri que o único nosso na vida que levávamos era um filho. O resto nunca chegou a ser nossoComecei a olhar para tudo como se estivesse dentro e fora dali. Dois estranhos que dividiam um espaço fí­sico, como atores num cenário. Por trás das cortinas, nenhum palco azul. Nas coxias, um vazio, um oco. Um silêncio. Uma falta constante, eu nem sabia de que.
Quando estávamos sem os outros que nos rodeavam, não estávamos juntos. Vivíamos numa falsa harmonia. Tentei por um ano ainda construir um nós, mas foi impossí­vel. Ninguém constrói isso sozinho. A solidão a dois era muito maior que o estar comigo mesma.
A solidão é fera… a solidão devora“… canta Alceu.
Resolvi que tinha que salvar-me. Tinha que ir embora. E então me disseram que ficasse, que um casamento é assim mesmo, que pensasse nela, que pensasse na “pobre menina”.
Pensei…
Como ensinar a uma mulher o que é ser uma mulher sem ser uma? Como ensinar a verdade e a confiança, vivendo uma mentira? Como ensinar alguém a ser feliz quem não era? Como abandonar o direito de ser inteira ? Como abrir mão de saciar um corpo e um coração cheio de ânsias?
Fazer a mala não foi tão fácil. Poucas coisas cabiam nelas.
Depois descobri que vivia melhor sem muitas das coisas que pensava que eram muito importantes. E só hoje sei que quanto menos coisas levamos, mais levemente nos movemos…
Saí­ do cenário para viver uma vida real. Nem sempre doce e feliz, mas uma vida com um futuro.
Eu tinha um destino a construir.
Sabia que havia algo especial que ainda iria viver…

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Perguntas…


Lendo Clarice Lispector, sob o efeito do enorme calor que me tira as forças…

“…ao homem lhe parece que há começo só quando adquire conhecimento através de sua torpe mirada. Ao mesmo tempo -aparente contradição – eu já comecei muitas vezes…”
A vida só começa quando se toma consciência de que se vive?
Há vida quando se pulsa ignorante de si mesmo?
Quando há morte?
Creio já ter morrido algumas vezes…

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Rosinha…

Ela tinha esse nome doce e suave. Fisicamente também parecia uma rosinha. Morena, magrinha, baixinha. Era toda inha a minha Rosinha. Foi ela quem recebeu meus documentos no Departamento de Pessoal da primeira grande empresa em que trabalhei.
Depois de alguns anos, estávamos compartilhando a mesma sala de trabalho.
Conversávamos muito sobre seu assunto predileto: Religião.
Extremadamente cristã, Rosinha queria converter-me. Não perdia uma missa, uma novena, um enterro, um batizado. Não perdia uma ocasião em que pudesse falar de seu amor por Jesus.
Falava da Bí­blia com a devoção de fé requerida pela Igreja Católica: sem questionamentos.
E enquanto eu lia Deus, Uma Biografia, e lhe dizia que o deus de sua bí­blia era vingativo, cruel e fofoqueiro, um grande olho acusador e abelhudo. E que éramos tão imperfeitos por termos sido feitos à sua imagem e semelhança, ela apenas franzia a testa e me benzia de longe.
E enquanto eu lhe dizia que a Igreja Católica só admitiu a existência de alma nas mulheres em meados do século XVII, ela apenas sorria … e me benzia de longe.
Então eu a provocava dizendo que o Deus misericordioso e protetor que ela conhecia só tinha aprendido a ser assim com seus filhos. Que “Ele” aprendeu sendo Pai e vendo os próprios defeitos, que tinha reproduzido de si mesmo em sua prole… pelo DNA. E aí­ ela ficava confusa e recitava um Salmo em minha salvação…
– Deus não tem defeitos, menina! Dizia ela, com pena de mim.
Ficamos muito amigas. E nunca parei de provocá-la. Acho que queria que me convencesse, ao final de tudo.
Estou falando de Rosinha porque foi ela quem me ensinou a cuidar de meus sonhos. Ela chamava-os de pedidos, preces.
Dizia que se eu quisesse muito alcançar uma “graça“, pedisse a Deus com todos os detalhes, sem medo de exagerar. Que não era para pedir generalizando. Tipo assim: ” que tudo dê certo“.
– Não… assim não. Tem que pedir o que é esse tudo!
E aí­ quem sorria era eu.
Eu achava injusto e mesquinho pedir a um Deus em quem não acreditava.
Numa fase especialmente negra e confusa de minha vida pessoal e profissional, resolvi aceitar o conselho e tentar.
Pois então…
Só em começar a organizar minhas idéias para saber realmente o que pedir já foi um grande salto para a luz.
Tudo bem. Dizer luz é muito, mas uma penumbra se fez. Descobri que pedia pouco à vida e me conformava com menos ainda. E, por cima, gastava um tempo danado me queixando por não ter.
Descobri que eu não sabia querer!
Virei a mesa… e fiquei presa embaixo dela. Foi terrí­vel. Não sabia viver o que pedia para mim. Me encontrei com sonhos que não eram meus, que se mostravam uma farsa. Por um lado foi bom, pois só vivendo-os e descobrindo isso, pude livrar-me deles e assim construir outros.
Mas doeu… doeu muito.
O processo durou uns dois ou três anos…ou mais, não sei. Desencavei sonhos mais puros. Sonhos de antigamente, nos quais eu não mais acreditava. Limpei a poeira, reescrevi os detalhes. E comecei a caminhar em direção a eles, a viver melhor… ser mais feliz.
E recriei um Deus. Diferente do descrito na Bí­blia. Um que fosse todo um colo de Pai. Que me fizesse pensar em mim mesma e nos outros com mais cuidado e compaixão. Que me ajudasse a ser mais doce comigo e com os outros. Que me ensinasse a criticar menos e criar mais. Que me ajudasse a escolher… como um bom Pai faria. Aprendi a pedir… aos amigos, aos irmãos, a mim mesma e à vida.
Aprendi que “não precisar deixa a gente muito só”. Já dizia Clarice.
Agora não tenho mais medo de pedir ou de agradecer o colo do novo Pai que criei para mim. Perdi muitas coisas que acreditava fundamentais, mas ganhei outras, hoje muito mais importantes para minha paz, minha alegria de viver. Sou uma pessoa melhor, para mim e para os outros. Sou menor e mais ampla.
Foi Rosinha com seus sorrisos condescendentes quem me abriu esta porta. Doce e suave Rosinha, nem sabe disso. Ou sabe? Vai ver ela era um anjo…
Por onde andará Rosinha?
*Uldra – George Frederick Watts

Categorias: Cicatrizes da Alma, Memórias e Saudades | Tags: , | Deixe um comentário

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