Coisas de Amor

Assim te amo.

Eu am10501666_10153101684756893_1145851939271694644_no-te sem saber como, ou quando, ou a partir de onde. Eu simplesmente amo-te, sem problemas ou orgulho: eu amo-te desta maneira porque não conheço qualquer outra forma de amar sem ser esta, onde não existe eu ou tu, tão intimamente que a tua mão sobre o meu peito é a minha mão, tão intimamente que quando adormeço os teus olhos fecham-se.

Pablo Neruda, in “Cem Sonetos de Amor”

Feliz Aniversário, meu Capitão.

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Dez anos…

mala-e-cuiaDez anos atrás eu desembarquei na Espanha de mala e cuia… os saltos das botas se desfazendo pelo aeroporto, o coração dando pulos de felicidade, disposta a reconstruir minha vida num caminho completamente novo.Era o exílio… mas eu estava segura de que seguia meus sonhos mais importantes e que jamais estaria sozinha. Dez anos é tempo grande, sim. Dá para muita estória. Algumas eu já contei pelos blogs anteriores, outras se perderam do registro e ficaram apenas na memória. Demorei tempo demasiado em escrevê-las… uma pena.  Tantas outras se espalharam por dentro de mim, transformaram a minha vida devagarzinho, dia a dia… mas eu seria incapaz de recordar uma a uma agora.

Durante alguns anos eu escrevi sobre as viagens, sobre as cidades de Espanha, sobre os caminhos de terra de Santorcaz. Era um tempo bom, de paz e serenidade, vivendo no campo, com horas a mais todos os dias. Dava para aprender a mexer no computador, criar um blog e ainda por cima escrever um ou dois posts por semana. Fiz tantas viagens lindas, aprendi tanto sobre a história desse país, seus personagens extraordinários, sua arquitetura e sua gastronomia exuberantes… me apaixonei mais,cada dia mais… por tudo que agora fazia parte da minha vida.

Me apaixonei mais  também por olhos-de-mar-azul e isso me surprendeu muito. Como era possível amar tanto?

“Sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando, mas quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois.” Guimarães Rosa.

Às vezes eu sentia um medo de que algo passasse. Era beleza demais para ser “ a vera” E eu sentia pânico em imaginar que se acabaria de repente _ puft, se acabou, era de mentirinha uhhuuuuu!  Quando a idéia me pegava de surpresa, eu parava de respirar, olhava em volta…esperava… e nada. Tudo seguia de verdade.  Por quanto tempo ainda, se nada é para sempre?   Arregalava o olho no meio da noite, contava as estrelinhas pregadas no teto do quarto, sem luz, apagadinhas… olhava para ele dormindo ao lado, ressonando de leve … e sorria. Que delícia! As vezes eu ria de mim mesma. Se todas as mulheres do mundo se queixam que seu homens ressonam, porque eu gosto? Será que só eu sinto essa sensação de “lar”, de cumplicidade morna e doce? Aff… tô cada dia mais brega, pensava. E pior… isso deve ser muito perigoso!

Eu achava tão, tão, tão improvável esse negócio de amor à primeira vista, de reconhecer o sujeito no mesmo primeiro minuto… de amar mais cada dia. Eu achava que isso era mentira. Se voce ama, ama. Pronto. Já está. Que história é essa de sentir que está amando mais? Mas estava. Estava.

Bom…seis ou sete anos pasamos naquela casa. Dando voltas pelos caminhos de  areia e bosques de pinheiros, alimentando esquilos no jardim, recebendo os amigos, novos ou antigos, escutando música bem alto nas noites de lua, de chuva ou de neve, aprendendo a cozinhar e a compartir a vida e os sentimentos como nunca antes. Era tão forte que eu acho que ajudamos  um bocado de gente a ser mais feliz só sendo feliz junto deles…

Isso é bonito de contar. As pessoas diziam que se sentiam bem em nossa casa. Sentiam uma harmonia tranquila, um amor contagiante. Lá eles sentiam vontade de dançar, abraçar, conversar  sobre seus sonhos. Lá eles se beijavam mais. Uma vez uma das visitas disse que em uma semana em nossa casa havia beijado seu marido mais do que  o beijou nos ultimos dois anos… hahahhaha! A gente ria… mas era verdade.  As pessoas refletiam sobre suas vidas e seus sonhos. Alguns tomaram decisões importantes de mudanças porque começaram a acreditar que era possível ser feliz e que não era nada de outro mundo, nada de mágica transcendental… era só acreditar. E  agir. Viver.

456661_10151283467431893_1283091419_oPois… agora estou contando dez anos de Espanha. Dez anos com olhos-de-mar-azul. Ainda parece impressionante a nossa estória. Ainda conto às pessoas que me perguntam, _ “ versão curta ou versão longa?”_  com  a voz embargada e o sorriso de louca perdida. E eles ainda se surpreendem. De tudo. Do antes e do agora. Tanto se surpreendem com o que nos aconteceu antes que eu tenha vindo para viver uma vida tão diferente da minha no Brasil, quanto que tenhamos ido comemorar os dez anos juntos numa casa rural perdida nas montanhas, num lugar  quase desconhecido chamado La Coma y la Piedra, um pueblo minúsculo, em Lérida.  Se surpreendem que tenhamos passeado de mãos dadas pelos caminhos de neve, sozinhos, depois de 10 anos! Nós não. Para nós estar sozinhos no meio do mato é terreno conhecido, é repetir os primeiros tempos em Santorcaz, é confirmar quanto é natural estar um com o outro.

Um dia desses, eu estava tentando fazer um comentário no blog de Carolina, Una Vuelta del Destino,   e não entendi porque o WordPress me pedia um password. Mandei uma mensagem para o site e recebi uma nova senha. Surpresa! O blog Lingua de Mariposa estava todo aqui. Sem as fotos, mas com todos os textos e comentários.Consegui recompor as fotos dos posts e salvar tudo. Descobri também que um amigo brasileiro tem os arquivos do Cicatrizes da Mirada e que vai me mandar por correio. Quem sabe eu possa juntar os dois aqui. Eu gostaria.

Eu sei que a época brasileira dos blogs está meio fora de moda, desde que o Facebook e o Twiter entraram no cotidiano das pessoas, mas fiquei com uma pena danada de acabar com este.. Era tão bom escrever, guardar, ler depois…

Então acho que vai ser assim, como era bem no comecinho. Eu escrevia só para mim e  para alguns gatos pingados que me seguiam. Vou fazer isso… e vamos ver se ele consegue sobreviver, mais uma vez.

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Porque hoje é dia dos namorados…

Não mate o amor! Enamore-se dele.
Enamore-se.

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Outra Carta de Amor…

Pediram-me que eu escrevesse uma mensagem para ser lida no aniversário de uma grande amiga. Inspirei-mei numa antiga carta que tinha escrito numa das noites de saudades e fiz algumas mudanças para enviar-lhe uma cesta imaginária cheia dos meus presentes, minha saudade e meu carinho.
Já que isso aqui também é meu cadernos de especiarias, não há melhor lugar onde guardá-la.
A mensagem virou carta… e ficou assim.

Photobucket
Tete, minha tão querida amiga.
Queria estar com você neste momento para cantar o especial parabéns deste ano. Pode imaginar como eu queria estar nas “Bodas Douradas” de sua vida ? Pode imaginar como eu queria poder cantar em voz bem alta aquela sua música predileta – “Abra os braços pra me guardar/ e eu toda vou me entregar/ começo, meio e fim… e a minha cuca ruim “- e me acabar de rir com a coreagrafia, que eu sei de memória, mas que é sempre como se eu a visse pela primeira vez?
Queria poder encher seu copo de whisky e gelo para ver você subir na mesa mais próxima e fingir um sambinha legal olhando para as mãos – como você me ensinou – com ele sobre a cabeça – que isso eu nunca aprendi – e ver a cara de angústia daqueles que ainda não acreditam que esse copo não vai cair de jeito nenhum.
Eu sei. Eu sei.
TT, muléu do meu coração, queria poder entrar aí de surpresa – mais uma das muitas preparadas para esta noite – com um grande ramalhete de rosas coloridas e uma cesta cheia de presentes, meu sorriso, meu carinho, minha imensa vontade de estar com todos vocês.
Mas não posso ir de verdade e então descrevo o que há dentro da cesta e aí você faz de conta que ela existe…e me diz se você gosta.
Claro que há um búzio grande e rosado para você ouvir o mar que mora dentro dele – e de mim – mesmo enquanto estiver no escritório… chuam! chuam!
Minhas cestas sempre levam um búzio rosado… será que esta foi uma das minhas casas?
Leva também um caleidoscópio de lata, que faz txim…txim quando você o gira e vê mil formas coloridas. Esse foi um dos belos presentes que eu ganhei do Lorde. Inesquecível presente… inesquecível ruído… absolutamente inesquecível felicidade!
E você diz ” essa Nora é doida mesmo!” Mas ri encantada porque sente uma alegria antiga de menina feliz.
Tá bom… tá bom…
Também tem umas garrafas do whisky que você gosta, blusas lindas e decotadas e sapatos de saltos altos. Vai junto um kit com as melhores novelas de todos os tempos e uma assinatura da revista que conta a história delas com um mês de antecedência.
Tem uma agenda nova com todos os telefones de todas as pessoas que você conhece e quer voltar a ver. E ela se atualiza sozinha, como mágica.
Tem um pote cheio de saúde pra você distribuir com quem precisar, viu? Tirei só um pouquinho pro meu pé fodidinho e meu joelho podre. O resto estou mandando…
PhotobucketDo lado de lá da cestinha há uma caixa enfeitada, cheia de biscoitos da sorte, cada um com uma mensagem de boa ventura. Se você quiser poderá distribuir para toda a gente que te ama e que está aí… e assim haverá ventura para todos.
Aposto que todo mundo vai comer pelo menos um. E ninguém vai pensar se o tal biscoito engorda! Vai por mim, TT querida, todo mundo vai querer.
E você dirá, que eu mandei dizer, que felicidade engorda um pouco… mas vale a pena. Eles vão rir e trocar cúmplices olhares. Muitos já sabem, não é mesmo?
Deixe a caixa com papel dourado para o fim, que ela é nostálgica e talvez não seja ainda a hora de abri-la. Aproveite e prove as botas de camurça verde que acho que é seu número e fique sabendo que com elas vai poder viajar – sem pagar passagem alguma – pelo mundo inteiro!
Mas primeiro venha me ver, minha amiga, que a saudade é enorme e tenho tanta Espanha para te mostrar!

Pode abrir também a lata branca da paz profunda. Uma lata grande e redonda que está no fundo da cesta, já viu? Mas só abra de pouquinho, querida. Na natureza, já se sabe , é preciso alguma forma de inquietude, alguma ânsia sem nome que nos desperte no meio da noite, um desejo de vencer o tempo, um desafio da mente e até alguma lembrança triste para gente saber o que vale a alegria.
Então… ao lado ponho um vidro grande de lágrimas quentes, para o caso de você precisar… a gente sempre precisa, não é? Se não pelas nossas dores, pelas dores dos amigos…
É preciso compartir de um tudo e eu sei que você é fera nesse negócio de ser amigo para todas as horas. Além das farras, das festas, das serenatas pelas madrugadas a fora, nunca deixa de estar com a gente nos dias escuros da dor.
Eu sei. Eu sei.
Também tem uma caixinha pequena, embrulhada com algodão, com vários tipos de silêncios. Assim você escolhe aquele que mais combine com a sua necessidade… ou a de seu amigo.
Mas veja bem, eu vou e ponho uma cartola com o fundo falso e lenços coloridos, para voce fingir que é mágica, que tal? Você vai poder usar seus poderes para repartir balas e doces com as crianças ou tratar de alimentar seus velhinhos….
– Por sinal, por onde anda aquele seu velhinho?
Ou quem sabe, está precisando congelar alguém por um tempo, talvez fazê-lo desaparecer de uma vez por todas do cenário numa nuvem de pó bem fedorento!
Ah!… cuidado com esse saquinho cheio de furos, pois dentro há um bichinho! É um filhote de papagaio que já fala e sabe mil e uma sacanagens só para você embolar de rir, mesmo já sabendo delas todas. Assim você esquece as agústias e os medos… e dorme o sono que precisa dormir.
Que? Não faz mal rir do que já se sabe que é engraçado. Isso eu sei que você sabe! E como sabe!
caixa dourada
Agora pode abrir a tal caixa dourada. Digo que é uma caixa nostálgica porque ela guarda imagens, cheiros, gostos e sons que te contam as grandes e pequenas estórias… suas e minhas, nossas.
Guarda as estrelas cadentes sobre a casa de Toquinho, as agulhinhas fritas da Janete, um por do sol bem rosado em qualquer parte perto do rio… e depois, umas tantas caipiroskas com luas cheias nascendo, enormes e bonitas, bem em frente ao Bar Biruta.
Guarda os cinco contos de réis – porque fosse qual fosse a moeda a gente sempre saía com “contos de réis” – dos whiskies compartidos no antigo Bairro do Recife e os 17 cigarros fumados no Bar Real. Desculpe, você só tinha 17. Mas a gente fumou junto!
Guarda um desfile com uma baliza em biquini, sons metálicos das gargantas imitando as cornetas e os instrumentos feitos com sandálias havainas enfiadas nos dedos das mãos pelas ruas e praças da Barra, e também um prato de “Tinha” no bar miserável que nem sei mais o nome, onde faltava tudo o que tinha, menos nossa risada, apesar da fome!
Guarda a saudade do Urso de Casa Forte, dos bailes do Siri na Lata, das fantasias de pescadoras… “Caiu na rede é Peixe, meu bem! “
Guarda aquele seu maravilhoso Taxi de joelho fodido e amarrado – agora eu tenho um igual – que levava para todo lado uma índia beijoqueira, uma cigana macumbeira ou uma fada embrigada diante da câmara da televisão :
Essa fada sai todo ano? Um microfone enorme e global bem na minha boca.
Safada é teu passado, minha filha? Olhando para a câmara com cara de fada inocente.
Ai, meu deus… quanta ladeira!
A caixa dourada guarda o cheiro dos mares de Pernambuco, o gosto da cervejinha de Peu, dos Parmeggianas dos fins de noite, guarda os sons das serenatas dos amigos, o carinho dos muitos anos que convivemos, tantas coisas que compartilhamos, o respeito que sempre tivemos pelas nossas diferenças…
Ai.. Sodade. Sodade…
Já basta de nostalgias. Hora de festa! Felizes próximos 50 anos, muléu.
Eu sei que você já foi feliz nos 50 que já viveu. Abra o último dos pacotes e distribua a metade dos meus beijos para todo mundo que está aí! A outra metada é só pra você. Com todo o meu amor!
E manda botar o som na caixa, bem alto, com a melhor de todas as minhas saudades. Você chegando de braços abertos, balançando o corpo e dançando…
“Tetê..Te-te-re-tê… Tetê… Te.te-re-tê… Tetê… Te-te-re-têee!!!
Tetêeeeeeee!”

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Bolo de Noiva (Cap 23)

À pedidos, vou publicar a receita do bolo de noiva , estilo pernambucano, que eu mesma fiz, aqui em Santorcaz.
Claro que, para o casamento, eu contratei duas tortas maravilhosas na pastelaria artesanal perto de casa. Uma de damasco e outra de nozes. Deliciosas!
Pero…O paladar dos madrilenos para doces é muito diferente do meu. Eu gosto de doce que leva açúcar. Doce, doce. Aqui as sobremesas são meio “sosas“, falta açúcar. Em compensação, eles gostam de muita gordura e os cremes e natas abundam. Puff..
pastel de la boda Então… como o casamento era MEU, eu queria um bolo de noiva pernambucano. Pronto.
Liguei para a boleira mais maravilhosa do mundo, minha cunhada, bruxa das boas, já disse aqui. Anotei passo a passo suas recomendações e resolvi arriscar-me.
Mas decidi fazer um bolo pequeno e apoiar a sobremesa oficial nas tortas que havia encomendado, pois não queria impor meu gosto aos convidados
Tá bom,tá bom… para ser muito sincera, também não quis arriscar fazer uma merreca de bolo. Eu sou um tanto perigosa na cozinha… e mais quando o assunto é pão ou bolo.

Eles queimam, suicidm-se, murcham, viram pedra… ou papa. Em quase 90% das tentativas. É uma estatística ” de peso”!
Mas não desisti da ideia…
Acertei nos 10%. Ficou ótimo! E não sobrou nem um pedacinho pra guardar no congelador por um ano, como manda a tradição.
Bueno, nada é perfeito… valeu ter feito, acertado e compartilhado com todos minha obra de arte culinária!
Aí vai a receita…

BOLO DE NOIVA

INGREDIENTES:
– 150 gr. de passas s/caroço
(Obs. deixar de molho em 1/4 copo de vinho doce na véspera)
150 gr. de frutas cristalizadas picadas
(Obs. deixar de molho em 1/4 copo de vinho doce na véspera )
– 300 gr. de ameixas s/ caroço
(Obs: fazer um doce dessa ameixa com 2 x. de água e 1 x. de açúcar na véspera. )
-300 gr. de manteiga
-300 gr. de farinha de trigo peneirada
-3 c/sopa rasas de fermento em pó
– 3 x. de açúcar
– 6 ovos
– 1 pitada de sal
– 1 pitada de noz moscada
– 1 x. de chocolate amargo
– 3 copos de vinho doce ( moscatel )

MODO DE FAZER:
Bater o açúcar com a manteiga, o sal e as gemas. Acrescentar a farinha de trigo, o fermento e a noz moscada. Juntar aos poucos o vinho e por fim o chocolate.
Acrescentar as frutas e passas umedecidas com o resto do vinho e finalmente juntar o doce de ameixa.
Untar uma forma com manteiga e polvilhar com farinha de trigo. Pré aquecer o forno por 10 minutos à temperatura de 170·.
obs. Eu usei uma forma retangular, mas acho mais bonito em duas formas redondas para que se possa montar o bolo.
Manter o bolo nesta temperatura por +- 1 hora.
Verificar a consistência com um palito. Não deixar secar demasiado. Deixar esfriar antes de retirar da forma.
Obs: Se o forno for muito forte, deixar uma vasilha com água em baixo da grade, para criar um pouco de umidade.

COBERTURA
Eu polvilhei açúcar glacê sobre o bolo frio. Mas o bolo VERDADEIRO leva uma cobertura de açúcar maravilhosa que ELA sabe fazer… Um dia eu aprendo!

*A foto é do bolo que Jacyra fez para nós quando fomos comemorar o casamento em Recife. ( Receita de Jacyra, uma boleira pernambucana. Quem quiser encomendar! )

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Finalmente, num belo e frio inverno…( Cap 22)

Segunda feira, 4 de Dezembro. O casamento estava marcado para o sábado 9, ao meio dia. Diferente do evento primaveril que imaginamos a princípio, estávamos entrando num belo e frio inverno madrileño. Mais de cem convidados, vindos de toda parte da Espanha. Amigos e familiares sem outro compromisso que não fosse estar conosco no bendito dia D. Todos confirmados…TODOS! E juro que era para ser o mais simples almoço em família. Juro! Não sei como, a lista foi crescendo sozinha, todo dia e toda noite…

Tudo bem, nós gostamos de um bocado de gente, a verdade é essa. E nosso casamento, depois da inusitada e romântica  história que vivemos, havia se transformado em um evento imperdível. As pessoas queriam estar dentro dela também. Acho que elas queriam ser testemunhas oculares do que estávamos vivendo há quatro anos. Que era possível realizar os sonhos. Ser feliz era uma possibilidade real. Muitos deles, enquanto estavam em nossa casa em alguma ocasião durante esses anos, sentiam-se mais amorosos com seus pares, demonstravam mais carinho uns com os outros. Diziam que nossa harmonia os inspirava.
Não é que assinar um pedacinho de papel fosse acrescentar amor ao nosso convívio, mas aqui na Espanha o estado civil faz muita diferença na interpretação que as pessoas fazem de um relacionamento. Nosso casamento significava, principalmente para a ala mais conservadora do nosso entorno, que estávamos “confirmando” social e juridicamente nossa intenção de seguirmos juntos. À vera!
Pois sim… no dia seguinte já estaria aqui a única representante da turma de amigos pernambucanos.
Mas nada de documentos. E sem eles não haveria casamento.
O homem do Registro Civil havia prometido de pés juntos, depois de assumir seu erro, que resolveria tudo em uma semana. Os dias passaram, acabou o prazo dele… e nada.
Olhos-de-mar-azul disfarçava seu nervosismo e tentava convencer-me que fingir uma assinaturazinha num livro falso era menos criminoso do que desmarcar tudo e avisar às pessoas que “nada, que estava tudo bem mas que podiam ir comer com a sogra que aqui não ia haver nadica de boda.”
Tá. Neguei-me. Neguei-me às duas alternativas, fingir ou desmarcar, e escolhi uma terceira: negar o problema. Saí de casa no dia seguinte para comprar uma camiseta de seda e rendas para vestir por baixo da blusa, decidida a me fazer de louca diante das bruxas..larita… laritaaa… Se elas vissem que eu não estava com medo ou arrancando os cabelos de histeria, quem sabe perdessem a graça da brincadeira de mal gosto.
Rodei por todas as lojas buscando uma simples camiseta interior para uma cinquentona gordinha – mas noiva – e com direitos iguais aos das outras noivas jovens e magras: algo sexy e bonito no dia do seu casamento.
A tarefa não era fácil. Assunto mais do que batido aqui. Já viram as camisetinhas das pessoas “maiores”? Elas parecem um babador. Arredondadas no pescoço, sem desenho nem corte. E renda? Aqui, “renda” se diz “encaje”. Encaixar pra que? Quanto mais discretas melhor, de alças largas e cor da pele, no máximo com um lacinho central, sem graça, que é para ninguém olhar duas vezes.
Mas eu achei uma. Uau! Linda. Branca, rendas finíssimas, alcinhas delicadas e fazendo jogo com umas calcinhas perfeitas, bonitas e inteiras. Nada dessa coisa sem traseiro, quase fio-dental que é moda sexy atual.( Requisito absolutamente dispensado por mim desde sempre. Não sei como as mulheres aguentam aquilo! )
Comprei o conjunto, feliz da vida. A-do-rei!
No mesmo momento em que saí da loja com um sorriso estampado na cara, soou o celular. Era o prometido.
Já tinha os papéis na mão.
Yesssss! Oh!… sim… sim…SIM!
Suspirei fundo e me senti taaaaaão feliz que não podia mais fechar a boca. Sabe cara de louca, riso de louca? E nem tchum para quem estivesse com medo de mim! Ahahahahhahah! Que foi?
Ok. Ok… eu sabia que já eram duas da tarde do dia 5 de Dezembro. Expediente encerrado. E dia 6 seria feriado. Mas isso a gente resolvia, nem que fosse invadindo a casa do prefeito em pleno Dia de La Constituición.
Ele não estava, mas tudo bem, calma… ainda tínhamos o dia 7, dia normal. Esperávamos que não tivessem declarado “puente” na prefeitura. Imprensar aqui é fácil como no Brasil.
No dia 7, às 9 da manhã estávamos em Santorcaz com tudo na mão para entregar a Florentino. Ah, Florentinozinho, por favor… não invente problemas, tá? Ele sorriu e disse que já estava pensando que havíamos desistido!
Ho ho ho! Ni muerta
Pronto. Tudo pronto.
Aproveitei a paz da manhã para fazer um bolo de noiva, como é costume no nordeste brasileiro. É feito com vinho doce e frutas cristalizadas, ameixa e passas. Uma delícia! Aqui não existe este costume. O bolo de noiva é comum, só com aquela cobertura especial e lisinha. Isso não sei fazer, mas o bolo sim. E fiz um. Cobri com açúcar fininho e pus numa bandeja. Em vez de flores, frutas ou bonequinhos de plástico, decidi fazer uma brincadeira. Enfeitei a bandeja com um barco de madeira que comprei para “concretizar” o sonho de um dia fazer uma grande viagem num veleiro, com meu lobo do mar. O barco está atracado há anos em cima da estante, junto ao farol azul. Sonhar faz bem, não é?
Para completar, juntei um marinheiro barbudo, de gesso, que havia recebido dele, por surpresa, em Recife, muitos anos atrás. Eu o deixava na sala e às vezes conversava com ele, como se pudesse realmente ouvir-me, naqueles tempos de louca e apaixonada por uma “ilusão”.
Gostei que ele pudesse estar conosco na mesa em vez de um objeto qualquer que não tivesse qualquer papel na nossa história. E, como sua parceira, uma boneca de barro, “a peituda”, sua companheira na estante desde que vim morar na Espanha. Pronto. Estava engraçadinho mesmo.
Em casa já estavam alguns dos convidados. A festa havia começado. Todo mundo achava que já que estava aqui, bem que podíamos começar, né não?
Nãooooooo! Imagine, começar a beber e comer dois dias antes! No dia mais importante estaríamos inchados, cansados e de ressaca!? Eu tinha que estar sequinha pra vestir a roupa cereja e não parecer uma!!
mafalda música
Mas o vizinho decidiu ajudar. E fez a festa na casa dele. Chamou todo mundo para um almoço de aniversário. Como assim? De repente estava todo mundo lá, bebendo, comendo, fumando, bebendo, bebendo… e bebendo.
Apareci por uma horinha, agradeci o convite e voltei para casa. Queria descansar, finalmente poder relaxar, curtir uma música suave, receber uma massagem no pé… ( de quem? ) mas tinha que conferir a arrumação do salão, levar as plantas, o som, as cortinas, contar novamente as pessoas e reorganizar as listas das mesas. Nunca entendi porque ela mudava todos os dias. A gente organizava as pessoas nas mesas e guardava o papel. No dia seguinte, ao conferi-la, estava diferente. Parecia uma mágica. De repente, descobríamos um casal fora de lugar, uma cadeira vazia. Saco! Como é que eu ia levar as plantas para o salão sozinha? E o som? Como assim SOZINHA? Essa turma que chegou antes não vinha para ajudar?! Como assim festinha na casa do vizinho?
Pois sim… todo mundo lá, inclusive o prometido. E era quinta-feira. Quinta! Eu não queria fazer TUDO justamente no dia anterior e depois aparecer no sábado com dor nas costas, pernas pesadas e cara de cansada.
A velocidade com que eu pensava tudo isso não estava lá muito saudável. Respirei fundo. Tomei um banho demorado, organizei a sala super bagunçada pela presença das bolsas e sapatos dos filhos e todos os seus objetos imprescindíveis espalhados por todas as mesas, sofás e tapetes. Quem mandou querer fazer festa de casamento! Quem mandou querer todo mundo em volta!
Em busca de um momento zen, escolhi uma música, recostei no sofá e dormi enquanto esperava que chegassem do tal almoço. Nada. Sete da noite e nada.

Quando despertei e olhei o relógio, a mulher zen do cochilo evaporou-se rapidamente e em seu lugar apareceu uma criatura em transe raivoso. Às oito e meia decidi telefonar para o celular do prometido.
“Quiéquitutáfazendoaí!!!! AINDA!” Pelo tom da minha voz ele percebeu que algo estava fora do normal e veio. ( Vê como é bom poder falar no próprio idioma nessas horas?!)
Chegou preocupado e encontrou o prototipo da mulher insuportável. Agora sim, ele ia desistir mesmo. Eu estava simplesmente horrorosa!

A cara inchada, o nariz vermelho, falando enquanto chorava com a boca enorme igual a de Mafalda, os cabelos idem, arrepiados por ter dormido com eles molhados, andando pela casa e guardando coisas nos armários, que fechava com uma força desmedida, odiando a mim mesma, sentindo-me ridícula por estar me comportando assim, por desejar ser o centro de suas atenções, que estivesse comigo conferindo os últimos preparativos e não bebendo e comendo na casa dos outros, sem mim e… e… eu estava explodindo!
Finalmente toda a tensão dos meses anteriores começou a sair por todos os poros. Comecei a enjoar e corri para o banheiro. Vomitei. Eca! como é que o cara vai querer casar com esse troço de gente!? Chorei mais e mais. Enquanto lavava o rosto me olhei no espelho. Oh! meu Deus! solucei.Tenho que parar de chorar antes de sábado!
Quando apareci na cozinha ele segurava um copo de água fresca, abraçou-me e tentou acalmar-me. “Pronto. Já está. Amanhã faremos tudo. Você descansa”, prometeu. “Eu vou ficar aqui. Que quer que eu faça?” perguntou. “Nada, a essa hora mais nada”, respondi. “Só que fique comigo.” Tá. Mais calma, cortei e pintei as unhas, ainda fungando, enquanto ele, mais uma vez, conferia e corrigia a lista das pessoas nas mesas.
Duas horas depois chegaram os festeiros e o vizinho, cantando felizes e cheios de vinho. Mas eu já estava refeita.
No dia seguinte chegaram outros hóspedes. Cada um com seus horários! Um tal de ir e vir que só vendo.
Enquanto meu pirata tranquilão terminava de organizar as bebidas, as plantas e mesas e as mulheres da família recebiam ordens da cozinheira, etc. descobri que havíamos esquecido de comprar as frutas que iriam ornamentar as mesas. Inferno! Dia 8 de Dezembro. Feriado nacional. Nada aberto. Nada! Como assim!!! Como pude esquecer isso????
Esqueci. Pronto!
Desisti da ornamentação. Ia ficar meio feio ver as mesas brancas e nuas, mas eu não podia mais brigar com as bruxas. Desta vez elas ganharam! pensei.
Que nada! Minhas amigas podiam. Rá! Uma pernambucana que não falava Espanhol e uma espanhola que não falava Português, duas artistas e tanto, uniram-se na empreitada e armadas de facas e tesouras desapareceram nas trilhas em volta da casa. Voltaram com nozes e amêndoas e improvisaram umas cestas fantásticas com frutos secos, fitas e plantas invernais. Ficou lindo e super natural!
Pronto. Tudo ok.
Só teria que livrar-me das ideias adolescentes da cunhada que queria jogar açúcar na minha cama, para adoçar nossa última noite de solteiros e tudo sairia bem. Prometi arrancar-lhe o olho esquerdo se tentasse a gracinha e … já. Esquecido o assunto.
Será que ela acreditou mesmo? Deve ter ficado no mínimo na dúvida. Uma sul americana pode ser muito perigosa, né não? Ho ho ho! E uma que vem de Pernambuco, lá onde o vento faz a curva… nunca se sabe!
Salvei-me da doce noite!
Então… Organizei a roupa sobre o aparador do quarto, provei tudo de novo, escolhi uma correntinha de ouro que ganhei de presente de minha mãe no meu aniversário de dezoito anos e uns brincos que foram dela. Na corrente decidi pendurar uma medalha que foi da minha avó, outra que usei toda a minha infância e uma pequena e lindíssima figa de ébano que também era da Princesa. Queria um pedacinho de cada uma das mulheres que amaram até as últimas consequências das suas vidas, perto de mim. Quando estava tentando enfiar a corrente no pequeno aro da figa, ela se quebrou em duas, na minha mão. Ó…ó!
A figa não é um símbolo de proteção!? Como assim a danadinha se parte bem na véspera do meu casamento!? Ui, que mêda!!
Sem dizer nada a ninguém fui buscar uma cola super-hiper-rápida no armário da cozinha, mas não encontrei. Eu não sou muito shsssss….supersticiosa, hahahaha, dizendo bem baixinho… mas com essas bruxas voando sobre o telhado era melhor não dar bobeira!
Cascavilhei a caixa de jóias da Princesa e encontrei outra figa, esta de marfim. Com todo cuidado enfiei-a na corrente e guardei a quebrada dentro de um chumaço de algodão. Pedi proteção a todos os bons fluidos do universo, incluindo minha mãe e minha avó, e dormi com ela pendurada no pescoço.
No dia seguinte, tan-tan-tan-aaannnnnn… que nervoso, meu jesuscristinho! Todo mundo acordou cedo. Uns de ressaca, obviamente. Uma confusão de gente para comer e tomar banho e tal e qual. Gente se vestindo no escritório, as mulheres de roupão, maquiando-se pela casa… secadores soprando ares quentes em todos os cômodos, eu sendo requisitada para saber quem estava bem, quem estava mal ( todas estavam maravilhosas ) e então…
O grande-e-carinhoso-noivo-dono-do-melhor-dos-corações foi buscar seu irmão mais velho na estação de trem mais próxima, a meia hora daqui. Saiu às 10 horas da manhã. Uma hora para ir e voltar. Tá. Voltaria às onze, sem falta. E às doze e meia estaria lavado, perfumado e vestido, me esperando lá na Câmara dos Oficiais, onde celebraríamos a cerimônia.Tá.
Às doze ele ainda não estava aqui. O portão quebrou. O portão e-lé-tri-co da base pifou, fodeu, morreu… sei lá o que. Não abria e pronto!
Estava fazendo um frio de rachar a alma, como em nenhum dos dias até aquele. As bocas tiritando do lado de fora do carro, todos os soldados tentando resolver o problema e nada do portão abrir. Depois de um tempo escutando as risadas assustadoras das narigudas ( tinham que ser elas ) um técnico improvisado convocado às pressas conseguiu abrir o pesado portão de ferro e o carro entrou.
Ele chegou em casa correndo mas sorrindo, como sempre. Tem um humor fantástico esse meu pirata!
Não sei como ele consegue essas coisas, mas de banho tomado, perfumado e vestido, às doze e meia em ponto ele estava na Câmara, me esperando. A criatura é capaz de aprontar-se completamente em menos de dez minutos.
Agora já estavam todos lá. Só faltava eu. O padrinho prontinho na sala, esperando… e eu ainda de roupão. Olhei a tal roupa cereja sobre a cama com satisfação. Valeu a pena o suplício que passei para encontrá-la em pleno outono-inverno madrileño. Simples e elegante, era justo o que eu queria. E então… comecei a vestir-me… e a suar. Na cara, no cabelo, no pescoço, nas pernas… Já tentou vestir uma meia fina com as pernas úmidas? Hã? ( Pergunta só para mulheres, sim?) A meia furou no meio do caminho da segunda perna. Plano B. Meia suplente na gaveta. Auto comandos mentais. Calma. Tudo bem, tenho outra meia. Essa não pode furar. E eu suando… queria outra ducha ( Jorro de água dirigido sobre o corpo de alguém, com fins terapêuticos ou higiênicos, segundo Aurélio ) queria um ar condicionado, queria não suar!
Só estando louca! Um frio de morte lá fora e eu morrendo de calor. Pense. Pense. Ar condicionado do lado de fora. Abrir a janela, JÁ!! Escancarei a janela do quarto e fiquei ali, contando até dez. Em menos de segundos eu estava perfeitamente gelada. E seca. Recomecei com calma. Fui me vestindo olhando para o jardim e levando um bafo gelado por todo o corpo. Que boa ideia! Quando terminei, peguei o ramo, o braço do meu amigo e padrinho… e lá fui eu casar com olhos-de-mar-azul. Atrasei meia hora justa. Normal. Não sou da marinha nem tive qualquer treinamento militar em toda a minha vida. E depois, para quem esperou tanto… bem que podiam esperar-me uma meia horinha!
Quando entrei na sala, estavam todos ali mas eu só olhei para ele. Quando nossos olhos se encontraram e ele sorriu daquele jeito tarja-preta, confirmei o que soube desde o primeiro encontro há tantos anos: nasceu para mim esse sujeito. Onde estava? Por que demorou tanto, tanto!
Daí em diante, nem bruxas, nem duendes, nem nada. Eu e ele. Juntos. De mãos dadas. Em volta de nós as palmas, o adágio de Benedetto Marcello tocado maravilhosamente pelo filho músico, o olhar feliz da minha filha, os olhares úmidos dos amigos emocionados, as palavras de Florentino, o livro onde assinar de verdade… as minhas lágrimas misturadas com um enorme sorriso, os abraços e beijos dos amigos, o brinde com cava espanhola, a paella gostosa, os olhares cúmplices que trocávamos, a felicidade estampada em nossas caras.
Todo o resto a nossa volta foi lindo… mas o realmente especial era que o inacreditável para muitos, até para nós no início dessa história, estava realmente acontecendo. Havíamos superado todos as dificuldades, um oceano… e estávamos juntos.
Quase doze anos depois daquele primeiro e frustrado encontro na festa do Juan Sebastian Elcano em Recife, estávamos casados!
Incrível! Mas aconteceu mesmo!

Ps. A “peituda” foi roubada no dia seguinte ao casamento. Não posso nem imaginar quem possa ter feito isso. Quando estive em Pernambuco, tentei encontrar uma igual, mas não consegui. Ainda não me conformei!
Ps2: A figa de ébano já está coladíssima!

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Mais um outono e mais história.( Cap 21)


Faltava menos de um mês para o casamento.
A roupa já estava no armário, completinha e linda, mas… o resto estava cada dia mais complicado. A lista de convidados crescia todas as noites quando os amigos e familiares confirmavam a presença acompanhados de sua prole completa.
Todo dia tínhamos que refazer a conta e eu já estava ficando nervosa que uma pequena e enxuta lista de cinquenta já estivesse perto de noventa.
Com os nervos à flor da pele e as bruxinhas dando voltas sobre o telhado de minha casa, briguei com olhos-de-mar-azul por tudo e por nada. Eu nem me recordo agora por que coisas me irritei pro-fun-da-men-te! O fato é que cheguei ao ponto de questionar se era mesmo para casar… mas fui em frente.
O plano era fazer uma cerimonia simples e aconchegante, depois umas copas e um almoço. Dançar se todos quisessem. Simplíssimo.
O responsável pela cozinha tomaria conta de organizar a comida e a bebida e nisso eu estava mais do que tranquila. Fiquei de resolver apenas sobre o bolo, as flores e a decoração. Estava no papo. Sou prática : muitas plantas pelos cantos, cestas de frutas naturais sobre as mesas e tchum. Resolvido.
Ah! Queria um arranjo de flores sobre a mesa onde Florentino ( oh! nomezinho querido!) iria fazer-me a imensa pergunta: ” Nora, aceita este homem…etc…etc…” Ui, que nervoso!
Todo mundo se ofereceu para ajudar na arrumação e tal e qual. Que maravilha!
Só que isso significava que “todo mundo” teria que chegar antes da data. Me explico: dia 9 de Dezembro era um sábado seguinte ao feriado da Virgem de la Concepción. Festa nacional. Acontece que o dia 6 era outro feriado. Dia da Constituição Espanhola. Entonces… dia 7 era puente e muita gente não ia trabalhar. Parecia bom para quem vinha de fora, mas para quem tinha que organizar, comprar, contratar, ir buscar… era o inferno. Tudo estaria fechado!
Tá bom. Tá bom! Quem morava fora de Madrid queria aproveitar o feriadão e chegar antes. E hospedar-se? Hum, aqui mesmo!
Heim? Como assim?
Então… na mesma semana do casamento eu teria que organizar quartos, banheiros, lençóis e toalhas para todo mundo. Café-almoço-jantar para todo mundo!? Siiiim? Jura? Fiiz bico.
Pois sim. “Lé com lé, cré com cré…um sapato em cada pé.” Comecei a cantar umas músicas do arco da velha, que nem me lembro como estavam guardadas na memória!
Deixei este problema para resolver mais perto do dia D, porque havia um outro muito mais sério: podia ser que não houvesse casamento. Rá!
Por causa das brigas eu estava novamente com medo que as coisas entre nós mudassem drasticamente e de repente eu me transformasse naquela esposa das piadas machistas.
Sabem qual é a figura mais menosprezada da família, depois da sogra? A esposa! Como a minha mãe já morreu, eu estaria no pódio. Em primeiríssimo lugar.
Parece engraçado, mas não é. Nunca achei engraçado as piadinhas que mostravam as mulheres como histéricas ridículas, loucas para casar. E menos ainda que tivessem que lutar com unhas e dentes por este status com um noivo medroso e parecendo estar indo para a forca.
Pode ser que eu tenha um trauma. Meu primeiro noivo,quando me pediu em casamento parecia muito mais estar querendo botar um selo de garantia de posse na mulher que sería SUA, um dia qualquer do futuro distante, do que realmente apaixonado. Na verdade, cada vez que se falava em enxoval e casamento ele parecia que estava com a cabeça na guilhotina. Toda vez que perguntavam quando sería a data do casamento ele respondia que “estava todo arrepiado só de pensar” ou então “quem sabe será na semana santa, só não sei de que ano”, dizia com uma enorme gargalhada, o idiota! E eu, com cara de pateta ao lado, morta de vergonha.

Pois eu cansei. Mandei o rapaz casar com outra porque enchi o saco daquele papel de mocinha-virgem-esperançosa-e-feliz por ter conseguido um jovem-macho-tão-bonito-e-cuidadoso, de boa família… loucamente ciumento, por quem eu tería que esperar dez anos, no mínimo, antes que ele “concordasse ” em marcar uma data para o “enforcamento” e passasse o resto da vida queixando-se de seu destino.
Quando amadureci um pouco dei o pira deste cenário “paradisíaco” e fui viver minha vida. Também é novelesca a segunda experiência com noivado e casamento…
Mas essas são outras histórias, quem sabe um dia eu conto.
Mas agora eu era uma mulher madura, apaixonada e correspondida por um homem maduro e convicto de sua vontade. Meu prometido desta vez era Ele, seguramente o homem com quem eu queria viver a minha vida, amava-me de verdade e queria casar-se comigo, sem medo e sem dúvidas.
Oh, meu deuzinho do céu! havíamos superado tantos obstáculos! Eu precisava acreditar que, de uma vez por todas, era possível despertar um amor real, forte, profundo e duradouro em um homem maravilhoso. E casar não iria mudar isso. Ponto. Acalmei meu juízo como pude… e segui adiante.
Então… mais uma coisa aconteceu. As bruxas nunca deixaríam a coisa fácil e tivemos que travar mais uma luta com elas…

Descobrimos por onde elas iam atacar! Os papéis!
No dia 13 de Novembro ainda não tínhamos recebido nenhum comunicado sobre os documentos… tcs…tcs… Tá. Normal, será ao largo da semana.
Não foi.
Apenas no dia 23 ficamos sabendo que o tal gnomo que nos havia prometido tudo pronto em dois meses havia se enganado.
Como assim? Como assiiiiimmmmm?
Assim… ele havia mandado nossos papéis para Madrid dois dias atrás, 21 de Novembro. Só agora os dois meses seríam contados!
Disse que receberíamos o chamado em Janeiro do ano seguinte e então poderíamos marcar a data.
– Heim?
Havíamos contado dois meses a partir do dia 13 de Setembro. O casamento já estava marcado para o dia 9 de Dezembro. Dentro de 16 dias!
Ainda bem que eu não estava lá na hora pois não sei o que teria feito com o tal sujeito.
Entretanto…a fada madrinha deve ter escutado a conversa porque de repente a criatura levantou-se, serviu um cafezinho, fez umas chamadas… e pediu desculpas pelo seu erro. Pediu nosso telefone dizendo que iria resolver tudo pessoalmente. Qualquer problema era só mudar a data, vale? Ele nos telefonaria.
– Era para rir?
Não telefonou.
Enquanto isso, os preparativos em marcha e eu descobrindo outras coisinhas. Um arranjo de flores simples para a mesa podia custar entre 80 a 120 euros ( já estávamos no inverno ) mas se você dissesse que era para um casamento, mesmo caseiro e sem pompa, o preço saltava para 400 euros.
Eu queria um ramo simples na mão. Pois se era para uma noiva ele valia três ou quatro vezes mais caro.
Um bolo “de noiva” seguia a mesma regra, apesar de não haver por aqui nenhuma tradição de bolo como no Brasil, feito com frutas cristalizadas e vinho. Era um bolo normal, com uns cremes que eu detesto, com enfeites de bonequinhos. E desse eu não queria. Ora bolas, que absurdo! Resolvi mentir… disse que era uma comemoração caseira para os 25 anos de casada. Funcionou. Consegui tudo simples, bonito e com preços justos.
No final do mês estava tudo pronto e organizado, apesar das muitas outras gracinhas das bruxas. Uma delas é que tive que ir encomendar as sobremesas montada numa ambulância. Não, claro que não foi preciso apitar o tuim-tuimmmmmmm! Mas pareceu muito estranho à senhora que nos atendeu na pastelaria artesanal do pueblo mais próximo que eu tivesse chegado ali acompanhada por um enfermeiro de bata branca, com ambulância e tudo. Quase o mesmo que chegar de vassoura, né?
Talvez por isso ela tenha exigido o pagamento adiantado. Hahhahahahah!
Nesta época eu ainda estava rindo…
Aí… o sujeitinho da cozinha, justo aquele que resolveria tudo da comida, veio aqui e disse que não poderia coordenar o “evento” porque sua mulher estava para dar a luz a qualquer momento e poderia ser justamente naquele sábado.
Hum. Tá . Já sabíamos que não se podia garantir nada nessa minha história! Tínhamos dois dias para resolver o problema e vivemos no campo, longe DE TUDO. A lista de convidados já havia engordado para 110 pessoas, sentadas, querendo comer e beber. TODOS confirmaram, ninguém tinha qualquer impedimento!
Bom, claro que eu queria que viessem e estava feliz com isso, mas a festa estava muito maior do que havíamos imaginado no início e precisaríamos de mais ajuda.
Conseguimos três jovens que se ofereceram para trabalhar no sábado, mas seria necessário gente na cozinha no dia anterior. Feriado nacional, já disse! Tóin!
Pois sim… lá estariam as cunhadas e amigas hospedadas em casa. Não queriam ajudar? Ho ho ho… que tal?
Mas aí eu já estava com um motorzinho ligado dentro do peito e o riso soava completamente trêmulo. As lágrimas saíam com muito mais facilidade!

Quanto mais dificuldades enfrentamos, mas criativos nos tornamos, não é?
Pois sim. Um dia olhos-de-mar-azul acordou pela manhã com uma ideia. “Se os papéis não estiverem na minha mão hoje, vamos fingir que casamos. Falamos com Florentino e ele nos faz assinar um livro de mentirinha… e depois vamos lá e casamos de verdade.” “Que piensas de eso?”
Ele estava alucinando!? Como? Que loucura! Como vou fingir que estou casando? Como eu ia assinar um livro de mentirinha? Fingir diante da mãe dele, uma senhora de 85 anos, dos tios, irmãos e amigos que vinham de todas as partes da Espanha para um casamento de verdade?
Imaginei a cena do “Sim, eu aceito…” e me vi dando umas gargalhadas de engasgar, com os olhos rasos de lágrimas – VERDEIRAS! Que ridículo! Estaríamos representando! E pior, fazendo todo mundo de idiota.
NÃO! Assim não caso!
Mas era dia 4 de Dezembro e nada de papéis.

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O Amor Tem Cada Idéia..( Cap.20)

Florentino…
Chamava-se Florentino o sujeito escolhido pelo acaso – ou pelo destino – para casar-nos. Uma criatura delgada, de sorriso tímido e olhar úmido. Esse era outro Florentino, mas eu olhava para ele como se fosse o mesmo aquele da minha juventude… Queria imaginar que em breve ele não mais estaria aqui, num pueblo de 500 habitantes no alto de uma colina espanhola e sim navegando por algum rio do planeta, numa viagem sem fim com a sua Fermina.
Estávamos prestes a dizer o “sim, quiero”, olhos-de-mar-azul e eu, respondendo a uma pergunta deste Florentino, depois de todos os séculos que podem estar guardados nos quase 12 anos que vivemos, separados ou juntos, mas unidos num sonho comum de sermos felizes desde aquela primeira troca de olhares e sorrisos.
Nestes anos todos, também havíamos vivido um pouco de cada loucura e desespero dos amantes caribenhos…
Cada vez um de nós pôde ser Florentino, outra vez Fermina… eu até tive minha Tránsito Ariza e seu olhar infantil por dois largos e tristes anos!
Decidi fazer o que já estava querendo há algum tempo. Tirei outra vez o livro da estante. Recomecei a ler, pela quarta vez, O Amor nos Tempos do Cólera. Pela primeira vez em Espanhol. E foi como reviver os meus seis últimos anos nos cinquenta e tantos em que se desenrola o romance.
Mergulhei na linguagem mágica e emocionada de Garcia Marques, sentindo agora na própria pele o passar dos anos – e foram tantos – nas histórias nossas…
Vinte anos depois de ter lido o romance pela última vez era tudo tão diferente! Sabia muito mais agora sobre esperas, sonhos impossíveis, imagem amada colada na cara da lua, espelhos que guardavam segredos…
Guardei novas frases na caderneta da mesinha de cabeceira… grifei outras dores…reconheci como meus os artifícios do amor distante.
Trouxe um pedaço do livro aqui, como um presente para quem ama de longe ou para quem tem um amor do passado prisioneiro em algum espelho da casa…
“Certa noite entrou na Pousada do Sancho, um restaurante colonial de alto nível, e ocupou o canto mais afastado, como costumava fazer quando se sentava sozinho para comer suas merendas de passarinho. De repente viu Fermina Daza no grande espelho do fundo, sentada à mesa com o marido e outros dois casais, num ângulo em que ele podia vê-la refletida em todo o seu esplendor. Estava indefesa, conduzindo a conversação com uma graça e um riso que crepitavam como fogos de artifício, e sua beleza ficava mais radiante debaixo dos enormes lustres de pingentes: Alice tinha tornado a atravessar o espelho.
Florentino Ariza a observou à vontade e quase sem respirar, viu-a comer, viu-a apenas provar o vinho, viu-a tagarelando com o quarto Sancho da estirpe, viveu com ela um instante de sua vida sentado em sua mesa solitária, e durante mais de uma hora flanou sem ser visto pelo recinto vedado de sua intimidade. Depois tomou mais quatro xícaras de café para fazer tempo, até que a viu sair confundida com o grupo. Passaram tão perto que ele distinguiu o cheiro dela entre as lufadas de outros perfumes de suas acompanhantes.
A partir dessa noite, e durante quase um ano, manteve um assédio tenaz ao proprietário da pousada, oferecendo-lhe o que quisesse, em dinheiro ou em favores, para chegar ao que mais lhe apetecesse na vida, desde que lhe vendesse o espelho. Não foi fácil, pois o velho Sancho acreditava na lenda de que aquela preciosa moldura talhada por ebanistas vienenses era gêmea de outra que pertencera a Maria Antonieta, e que desaparecera sem deixar rastro: duas jóias únicas.

Quando por fim cedeu, Florentino Ariza pendurou o espelho na sua casa, não pelos primores da moldura e sim pelo espaço interior, que tinha sido ocupado durante duas horas pela imagem amada.”

Gabriel Garcia Márquez
Imagem: Somewhere in Time

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E Lá Vem História…( Cap 19)

Não deixaram… elas não deixaram.
As alianças ficaram prontas dentro do prazo, mas o jantar que eu havia prometido ao bom amigo que iria recorrê-las não se concretizou. Dois dias antes ele teve um sério problema de coluna que não o deixava mover-se. Isso significava não conduzir, não caminhar, não nada! Sua noiva nos trouxe as alianças numa tarde em que não estávamos em casa, deixou-as na casa dos vizinhos e apenas uma semana depois descobrimos o fato. Claro que o jantar foi adiado sem data prevista… para 2007.
As bruxinhas erraram o alvo e acertaram um amigo que só estava querendo ajudar.
Na verdade elas estavam se concentrando em outro departamento. Para começar, esfregaram as mãos na odisséia que tive de enfrentar para encontrar o que vestir. E começou no final do mês de Outubro.
Eu confeso que não estava muito preocupada. Esperava perder algumas quilos – Oh!My God! – incômodos antes de meter-me nos provadores das lojas espanholas, sem arrancar os cabelos e chorar desesperada com os tamanhos dos manequins atuais.
Mas, quando comecei a receber telefonemas de amigos e familiares, todos perguntando-me o que eu pretendia usar, comecei a preocupar-me em sério.
Cunhadas, amigas, primas e até a mãe do prometido estavam em polvorosa para saber o que a brasileira iria escolher para casar-se. Hum…tá.
No início eu respondia divertida que já havia comprado a coroa e só faltava decidir a cor do manto, mas como ninguém ria com a minha graça, comecei a pensar que elas estavam deveras assustadas com o que iriam se deparar no dia do casamento! Ho Ho Ho!
(Se eu fosse mais ousada, teria me fantasiado de algo, justo no dia anterior, só para assustá-las. Teria sido bárbaro! )
Então…quando os homens da família começaram a fazer-me a mesma pergunta, preocupei-me mesmo. Que coisa! Era assim tão importante saber ANTES o que eu iria vestir?
Pois sim.Parece que sim. Tomei a decisão de começar imediatamente a procurar meu vestido e criei mentalmente os requisitos: bonito, elegante, simples e nada a ver com o tradicional das noivas. E não muito caro, por supuesto!
Todas as amigas se ofereceram para ajudar-me. Bom. Muito bom.
Tentei com a primeira. Decepção total. Noventa por cento das roupas oferecidas nas vitrines das boas lojas eram negras, tons variados de marrom ou cores muito escuras, quase fúnebres. Os dez por cento restante era composto de grossos abrigos, botas de cano alto e blusões de lã.
Tá! Casar de preto ou marrom? Nunca!
Eu havia esperado demais. Estávamos já em finais de Outubro e todas as lojas estavam vendendo para o outono e próximo inverno. Isso. Inverno europeu, entenderam? Lã!
Aliada a essa condição ( que eu nem havia pensado ) estava a famigerada dificuldade de encontrar coisas bonitas do tamanho normal de uma mulher grande. E isso eu deveria ter recordado.
Além de não encontrar meu tamanho em qualquer loja, ainda há aquelas que decidem ter suas próprias medidas.
Agora não tem mais quem se entenda nesse mundo da moda! Quem disse que 38 é 38 em toda parte? Mentira! Minha filha tem roupas que variam de 36 a 42, vejam só!
E muitas lojas aqui se recusam a ter manequins maiores que esses. 42 é seu “tamanho G”.
Tamanhos 44 ou 46 de toda a vida, isso não! São grandes demais, deformam a prenda e não entram em suas coleções! E dpeois, nem pensar em ter esse tipo de clientes passeando entre seus corredores! Gordas dentro da loja? Que baixaria!
Já olham em pânico quando insistimos em entrar. E se você perguntar se há números maiores, lhe olham com uma carinha de ora, por favor, não se enxerga !?
Ora, por favor, não se enxerga digo eu. Fico indignada com isso.
Sabe o que é pegar uma roupa tamanho G e a danada não passar nem acima dos joelhos? Isso está dizendo que você não tem a menor chance de caber no seguinte tamanho, se houver, que já será EX.
Já sabem: Ex – mulher. Eu já escrevi sobre o assunto aqui antes, mas não acho muito repetir. Temos que lutar contra essa discriminação!
Um parêntese por favor.
(Agora há uma proposta do Ministério de Saúde da Espanha ( aqui )para igualar os tamanhos das roupas em todas as confecções. E incluir o tamanho 46 na coleção normal e não “especial” como está hoje. Claro, como o tamanho 46 atualmente é considerado especial isso significa, fora do padrão normal, então ele pode ser muito mais caro.
Isso é irreal! A maioria das mulheres grandes usa 44 ou 46!
Vamos esperar para ver no que essa proposta vai dar! Tomara dê mesmo certo.Outro dia vi na TV que estão pesando e tirando as medidas de uma quantidade enorme de mulheres NORMAIS para redesenhar os padrões da mulher espanhola. Sí!
Tá bom, sou brasileira, mas pelo menos vou poder saber qual é meu número de verdade!)
Sim, mas meu problema continuava aí e era urgente encontrar algo! Estava a apenas um mês e meio de meu casamento e não encontrava nada que eu pudesse vestir justamente no dia em que todo mundo estaria olhando TUDO em mim!
Mandar fazer uma roupa a essa altura do campeonato seria uma grande tolice. Nunca deu certo comigo essa coisa de “mandar fazer”. Nunca saiu do jeito que eu imaginei que saisse. E o pior: tinha que pagar mesmo se não gostasse. Vestir sem gostar é terrível, né não?! Imagine no dia do casamento.
Claro… também nunca fui a Dior. Nem iria agora. Passei pelo outro lado da calçada! Ho ho ho! Preço também era um fator para ser levado em consideração, embora eu estivesse disposta a gastar mais do normal em função da ocasião.
Já recordada de todas as dificuldades que teria, comecei a procurar nas lojas onde havia menos probabilidades de me enforcar nas cabines de provas ou sair com cara de choro de algumas delas. Coisa não muito fácil, já que conheço poucas e sair de compras não tem sido um esporte muito praticado por mim nos últimos anos. Fora o mercado, onde me divirto, só compro em lojas esportivas ou no Corte Inglês. Nunca saio pelas lojas de Madri.
Então…
Casar exigiria um esforço extra não é? Sim, claro. Alguém poderia querer vestir outras cores durante o inverno, não é? Sim, claro. Bastaria ter paciência e procurar! NÃO É?
Sim, claro que sim. As jovens ou as magras. Essas podem usar vermelho, bege, rosa, azul ou verde no inverno. Vermelho sangue de touro, tá? E de alcinha, com um leve bolerinho transparente sobre os ombros.
Mulheres maiores que G tem que usar negro ou marrom. E pronto.
Ah! Também tinha muita coisa em “oncinha”, “leopardo” ou “zebra”.
Oh! comecei a rir diante das vitrines, meio histericazinha, admito.
Que tal a brasileira aqui vestida de oncinha no dia de seu casamento? Heim? E de índia? Gosta não? Bem que eu tinha uma fantasia lindona de índia nos meus antigos tempos dos Carnavais de Olinda!
Oh! Deus! Era preciso rir um pouco, senão o desespero entrava com todo o gás!
Mas se não o desespero, entrava sim, um imenso desânimo!
Minha amiga e eu começamos a futucar as lojas em busca de qualquer outra cor. E o que encontrávamos, sempre no setor “festas” – o que significa setor muito mais caro – era em cores estranhas como azul-pavão-com-riscos-dourados e bordado de pedras “preciosas”. Para casar de manhã? Fantasiada de pavão misterioso?
Tá. Então… que tal granate-cor-de-sofá, com panos e panos dobrados… que me deixava igualzinha ao antigo sofá da casa de meus avós, enorme e amarfanhado!
Não? Então prova essa saia cor-de-chocolate-derretido, mas que tem uma blusa estampada-com-cores-de-frutas-cristalizadas-também-bordada-com-fios-dourados, muito natalino, muito natalino!
Nãooo??? Ora, por que não provar para ver como é que fica? Perguntava a amiga, já impaciente. Comecei a ter vontade de correr, desistir. E casar de jeans e camiseta. Ou quem sabe, arriscar fazer a brincadeira do manto e da coroa, mais fáceis de achar, aposto!
Respirei fundo e tentei outra vez. Tá. Provei uma saia ( marrom, só para satisfazê-la ) e uma blusa branca com bicos bordados nos punhos e na gola. A blusa me transformava num liquidificador coberto por uma batinha de bicos, que minha mãe adorava e aumentava em dois números o tamanho de meus seios. A saia me transformava num baú de loja de antiguidades coberto por uma manta de babados de tafetá.
Eu disse que não havia gostado, que parecia deixar-me velha e barriguda. Então a minha amiga encolheu os ombros, fez uma carinha de “e daí? ” e disse: “Mas você é assim, querida. Que fazer se você tem barriga?”
Tóin! Respirei umas dez vezes, antes de responder com alguma educação e uma vontade interna de chorar ali mesmo, que se eu não tivesse bunda nem peito, não escolheria uma roupa que acentuasse isso. E que ter alguns anos a mais do que ela não me obrigava a usar roupas que não me deixassem elegante ou que me fizessem parecer muito mais velha e muitíssimo mais gorda.
Se é que tenho, AINDA, esse feminino direito!
Gemi. Tirei a roupa e não quis provar mais nada. Queria apenas ir para casa e pronto. Outro dia tentaria outra vez. Naquele dia não podia mais.
Pois sim… na saída vi algo que me chamou atenção, mas a raiva não me deixou parar e procurar meu número. Claro que não devia haver!
Ainda saí com outras duas amigas e cascavilhamos Madri, mas nada me agradava. Algumas roupas tinha preços exorbitantes para uma coisa que nem havia caído bem em mim, outras não tinham meu tamanho e outras eram horrorosas mesmo.
Imaginem só, pagar uma fortuna para ficar bem feia e gorda no dia do meu casamento com olhos-de-mar-azul. Nem morta!
Criei todas as fantasias negativas. Imaginei seus amigos perguntando-se o que ele havia visto em mim, sua família balançando a cabeça de um lado para o outro, sem entender como se casava comigo, minha filha com carinha de “está tudo bem, mãe! o que importa é que você está feliz!” Pronto. Fiquei com um mal humor desgraçado e comecei a ter insônia. Todos as noites.
Tive até vontade de voltar a fumar. Juro!
Tentei procurar na Internet endereços de lojas especializadas em Noivas e Madrinhas. Que boa idéia, heim? Oh! sim, esquece! As noivas todas tem 20 anos, vestem vestidos bordados e apertadinhos, longos e brancos.
E as madrinhas? Só existem dois tipos: as que tem 55 quilos e podem usar cores bonitas em vestidos alegres e bem cortados e as senhouras gordas, que devem – todas – gostar de vestidos duas peças, sem forma, de cores escuras e com pedrinhas bordadas no cangote!
Ah! E que custem os olhos da cara!
Quem disse que gordinhas gostam de ficar feias? Quando? Onde isso?
Não quero mais casar!
Entrei em pânico!
Dei um tempo. Fui fazer outras coisas até passar a agonia. Fui à Barcelona para visitar a Virgínia, imaginar nosso futuro barco a vela no Salão Náutico e assistir um concerto de José Luís, meu enteado, numa apresentação única na Espanha da Orquestra Verbier.Que delícia de programa!
Psssit! Leia bem baixinho! Não resisti e dei uma olhadinha nas lojas. Tudo marrom e preto. Tá.
Voltando a Madri saí com Anlene. Rodamos um dia inteiro por todas as lojas que ela conhecia, até que entramos no Corte Inglês, numa das lojas da grande rede espanhola. E lá estava. Era um conjunto gracioso e feminino, composto por uma saia leve, estampada de tons groselha e cereja e um casaquinho de algodão crú, cor de cereja, lindo. Era justamente aquela roupa que eu havia gostado naquela primeira tentativa frustrada citada aí em cima.
Se eu havia gostado dela naquele primeiro dia, imagine o quanto estava gostando agora! Depois de tudo o que havia visto e provado, ela me parecia simplesmente bárbara!
Vai ser essa, decidi.
Tinha meu número! Vibrei. Escolhi uma camisa de seda branca para usar por baixo do casaquinho e fui feliz para o provador. A saia era do meu tamanho, mas o casaquinho não dava em mim. Ficava meio apertado no braço “Uchôa de Medeiros” ( leia-se “de lenhador” ) que eu sempre tive. Que inferno! Senti-me como a irmã malvada da Cinderela provando o tal do sapatinho de cristal. Queria cortar metade do braço, para que ficasse bem. Oh! Por favor!
Pedi um número maior à vendedora. Ela disse que não tinha. Aquele era o último. Mentira! Impliquei. Agora eu não ia desistir fácil. Pedi a vendedora que tentasse chamar as outras lojas para ver onde ainda poderia haver meu manequim. Ela disse que não ia adiantar, que já havia tentado para outras clientes e não havia mais nenhum em toda Madri! Insisti que tentasse outra vez. Ela teimou que não. Eu já estava com vontade de avançar no telefone e chamar eu mesma…
Pensei em procurar o supervisor, o gerente, o que fosse. Então tive uma idéia: pedi-lhe que chamasse a loja central de Barcelona, pois ali minha amiga podia comprá-lo para mim. Ela fingiu que concordava. Saiu. Me fez esperar meia hora e voltou triunfante. Em Barcelona também não tinha. Riu, satisfeita de sua vitória.
Não acreditei. Claro que não acreditei!
Filha de uma… criatura sem sentimentos… sua… pensei tudo que podia pensar de de ruim sobre a vendedora. Miserável, imprestável! Fiquei olhando para ela, muda de impotência. Fuzilava-a com meu olhar. Mas ela ria feliz. No hay!
Anlene salvou-a de morrer estrangulada entre meus dedos. ( Ela não estava histérica, conseguia pensar.) Sugeriu que eu comprasse a saia e a blusa e anotasse a referência do casaquinho. Se não o encontrasse em outra loja da rede, podia devolvê-las e receber o dinheiro de volta. Achei a idéia boa. Valia tentar. Isso significava que tínhamos, ambas, a certeza que a bruxa mentia e que havia ainda alguma possibilidade.
Pois sim. Comprei as duas peças e tomei o trem para casa. No caminho fui escrevendo num caderno uma rede de amigas espalhadas pela Espanha que poderia procurá-lo para mim. Barcelona, Málaga, Algeciras, Cádiz, Bilbao, Guadalajara, Zaragoza… etc.
Agora eu queria casar com aquela roupa. Só desistiria se não houvesse NENHUMA chance.
Na estação de trem perto de minha casa, o prometido me esperava. Contei-lhe meus planos. Detestei a idéia de voltar para casa com meia-roupa, faltando apenas um mês para o casamento e já sabendo que agora é que seria impossível gostar de outra.
Sou assim, quando implico com um vestido já me imagino com ele e não consigo me ver em outro. É horrível, mas é assim!
Olhei para cima para soprar meu cansaço e vi a placa inconfundível da loja brilhando no alto. Lá estava, bem diante de mim, a primeira loja onde eu havia vislumbrado o tal conjunto. Antes de acionar a rede de amigas na busca e captura do casaquinho cereja, eu decidi conferir a mentira da bruxa, pessoalmente!
Em 5 minutos estava dentro da loja. Dirigi-me ao andar de roupas femininas com determinação e muita esperança, por favor… por favor… por favor…
Encontrei a marca que eu queria e o vi. Sim! Sim! Siiiiiiim!
Não podia acreditar no que estava vendo, mas lá estavam! Cinco casaquinhos iguais pendurados nos cabides. Cinco! Em todos os tamanhos. To-dos.
Rá! Pulei sobre o meu, vesti-o com incrédula alegria. Bingo!
Meus olhos e meu sorriso saltavam do rosto e bailavam pela loja em plena felicidade. Que fada madrinha eu tenho! É certo que me deixa sofrer um bocado, mas no final a danada transforma trapos em sedas!
Obrigada! Obrigada!!! Comprei-o imediatamente, com o coração palpitando como um tambor. Tum-tum-tum…
No andar de baixo da loja ainda dei de cara com o sapato que faria um par perfeito com o conjunto. Por metade do preço de todos os que eu havia visto até aquele momento! Saltos perfeitos, cor de ouro-velho, meu número.Rá!
Bingo outra vez!
Bingo! Bingo! Bingo! Ho ho ho! Nem bruxas nem nada… tudo dentro da sacola. Roupa completíssima!
Era dia 9 de novembro. Faltava exatamente um mês para o dia D. Agora eu podia relaxar e começar outra vez a brincar de coroa e manto com quem me perguntasse o que iria vestir.
Tranquila, heim?!
Pois não!
Não sei como, nem por que… invadiram-me uns medos. Começaram as confusões e as brigas…
Depois de quatro anos juntos numa paz e felicidade até fora de moda… estávamos brigando? Como assim?
Pois então nada de casar!

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Entre fadas e bruxas. (Cap. 18 )


Quando eu percebi que elas haviam descoberto nossos planos, fiz tudo para agir na surdina… Tentei ir devagar, sem dar muita importância o fato. Afinal casar com olhos-de-mar-azul nem estava mesmo em meus planos iniciais. Viver com ele até o final de meus dias, sim. E talvez fosse mais fácil alcançar meu objetivo sem casar, dizia meu cérebro, amassado pelos anos de solidão em que via tantos casados traindo-se mutuamente, agredindo-se com palavras e atos, sentindo-se amarrados, presos, infelizes e sonhando desesperados com a liberdade. Isso, em geral, eu não via nos casais que viviam juntos apenas porque se queriam, sem o laço oficial da instituição civil ou religiosa.
Tá bom. Posso estar exagerando. Mas eu admito que tinha um medinho de casar de novo…
Entretanto, meu coração era todo mel… e estava tão feliz, enamorado, sonhando em dizer “sim, te quiero” aos olhos mais adoráveis e ao sorriso mais encantador que já encontrei em toda a minha vida, que jogava o medo para o fundo do baú.
A felicidade exige alguns riscos, pensei “fadinha boa”. E chorei desconsoladamente quando, finalmente, fomos entregar os papéis ( difíceis papéis!) ao encarregado do registro civil de Alcalá de Henares e o departamento estava fechado por “vacaciones de verano“. Inacreditável!!!!
Pois sim…
Tivemos que esperar o final do verão para que reabrisse, apenas uma semana antes do final do meu prazo de validade dos documentos e no dia 13 de setembro, depois de uma fila enoooorme, na calçaaaaaaada, com um papelzinho na mão com o número 79 ( sim, isso mesmo), conseguimos sentar diante de um sujeito muito bronzeado, levando duas testemunhas e toda a papelada exigida.

Aí o”gnomo” recebeu tudo, olhou, olhou, olhou… e disse: Tudo bem, tudo certo.
Respirei pela primeira vez em cinco minutos. Mas por que vocês não levaram isso para Santorcaz? Teria sido tudo muito mais simples. Agora, vou ter que mandar os papéis para a prefeitura de lá e daqui que passe um mês de proclamas, que me devolvam, que eu mande para Madrid, que me devolvam… etc. Vai levar uns dois meses!
Perdi o ar de novo. Encarei a criatura com surpresa. Em Santorcaz nos disseram que tudo tinha que ser feito por aqui. Ele nos interrompeu, sorrindo, o desgraçado, ahhhh! como as informações são difícies com essa gente! Tcs.Tcs!
Saí de lá com vontade de voltar em Santorcaz e enforcar a mocinha, que por pura preguiça ou simples falta de interesse em informar-se melhor, havia feito com que eu perdesse quase um mês da validade de meus documentos. Respirei. Não, bufei como um touro bravo! Engoli meus intintos homicidas e resolvi esquecê-la e partir para os seguintes passos a serem dados.
A contar dos dois meses que o “gnomo” nos deu, em 13 de novembro teríamos tudo pronto, então somamos mais um tempo de segurança e marcamos o casamento para 9 de dezembro. Meio frio, mas não tínhamos outra opção.
Comemoramos, junto com meu aniversário, com uma bela viagem de final de semana pelos pueblos medievais de Sória, a convite de um casal de amigos. Estivemos em lugares espetaculares de se ver e estar. Tenho fotos incríveis dos castelos e muralhas medievais, ermitas românicas e igrejas templárias. Aproveitei e disfrutei com gosto e vontade da fantástica gastronomia! Vinhos Ribeira Duero incluídos. Mas esse é outro post, verdade?
Quando voltamos desta viagem eu estava disposta a começar uma dieta organizada, com médico, medicamentos, o que fosse necessário, desde que no dia da boda eu estivesse um pouco mais leve e com a auto estima mais elevada. Tinha quase três meses pela frente e queria estar bonita naquele dia, oras! Afinal seria o alvo de todos os olhares.
Mas, como eu disse antes, elas escutam tudo que eu penso. E preparam armadilhas infalívies.
Em Sória já havia me “despedido” das iguarias e vinhos ( Que comida, meu Deus!) e estava pronta para fechar a boca e só abrir no Natal.
Rá! No dia 20 de setembro lá estava eu na Galícia, para uma semana de comemorações dos 25 anos de formatura do meu “prometido”.
Agora era assim. Fui apresentada a todo mundo como “a prometida”. Ho ho ho!

Sabe que eu gostei? Toda vez que escutava meu novo título abria um sorriso daqueles! Embora tenha percebido uma ou outra careta de surpresa.
Algumas pessoas que frequentaram o passado de olhos-de-mar-azul imaginavam que, só porque ele estava vivendo com uma brasileira, ela deveria ser – com certeza absoluta – uma bela e JOVEM MORENITA, de 22 anos mais ou menos, com grande bunda sob a mini saia verde-amarela e que andava sambando pela rua.
Ah ah ah ah ah!
Olhavam para mim e para ele com uns olhos abertos de Como assim?
Devo dizer, sem medo de errar, que a grande maioria dessas carinhas idiotas foram femininas. Os homens, e sei que alguns pensaram o mesmo, disfarçaram melhor. Mas as mulheres nunca o conseguiram.
E a grande decepção, quase geral, foi quando me convidaram para sambar e eu disse que não sabia.
Heim?! Uma brasileira que não sabe sambar? Falsier, na certa!
Eu morria de rir por dentro. Mas estava tão tranquila que não fiz sequer meio esforço em parecer o que não era, só para agradar a platéia.
Então… entre mais de cem pessoas novas, muitas se aproximaram e estabeleceram uma conversação tranquila, educada e inteligente. As que não quiseram conhecer-me eu simplesmente apaguei do cenário. Estava tão feliz por estar ali, com ele, comemorando um momento tão bonito de sua carreira, que o resto era resto. Trocávamos olhares e sorrisos cúmplices, sorríamos carinhosamente, dançávamos como dois apaixonados. Aproveitamos todos os momentos para estar felizes.
Esta tem sido nossa escolha. Sempre.
As bruxas trabalharam bem naqueles dias e comi tudo de gostoso que a Galícia pode oferecer. E é muito! Vinhos Albariño incluídos. Num dos passeios pelas ruas estreitas de Combarro, uma senhora que vendia recordações da Galícia, bateu palmas quando eu passei. E dezenas de bruxinhas de brinquedo começaram a mover-se e dar risadas malígnas. Era tão engraçado que comecei a rir também! E de repente me vi ali, gargalhando alto com trocentas bruxas. Seria um sinal?
Saí dali depressa. Eu heim!
Também as fadas estavam despertas e estive ma-ra-vi-lho-sa nas roupas que escolhi para as festas. Assim que nem liguei muito para a dieta, até que um dia tive que dar um basta. Meu estômago começou a queixar-se de tantos mariscos e tive que parar. Ufa!
Salva pelo gongo. Não engordei nem uma grama, mas também não emagreci nada.
Minha médica brasileira enviou-me uns medicamentos pelo correio que me ajudariam na luta contra a ansiedade e a vontade de comer qualquer coisa que estivesse na geladeira, mesmo sem fome e eu estava contando que iria encontrá-los esperando-me quando chegasse em casa.
Nada. Não estavam e nunca chegaram! Sumiram no éter!
Nem eu os recebi aqui, nem ela sabe por onde estão. As bruxas devem estar magérrimas voando por aí, mas aqui nunca chegaram as pílulas que me salvariam da histeria pré- casamento que se instala e desenvolve-se a rédeas soltas em qualquer mulher. Juro.
Começou Outubro e com ele veio o outono. Época linda e tranquila para caminhar pelo campo, tentar comer pouco, aproveitar os dias frescos para boas e largas caminhadas, as noites mais longas para planejar a festa do casamento, pensar nos convidados, na comida que iríamos oferecer, a bebida, os doces…
( Pausa para um comentário em voz baixinha: Que merda ter que pensar nisso justo de noite, a boca se enchendo de água e o estômago – bem acostumado aos vinhos e delícias espanholas – pedindo algo parecido e rejeitando, com escandalosos ruídos, o iogurt de cereais Urgh!< Peloamordedeus que tortura! )
Então… Melhor pensar que estaria mais magra e melhor na roupa que usaria e…
Roupa!!! Trrrrimmmm! Saltou o alarma.
Tinha que começar JÁ a pensar em algo.
Mas não era melhor emagrecer um pouco antes de começar a provar o que fosse, pensei como “bruxinha”?
Achei melhor esperar o final do mês para começar a provar roupas enquanto imaginava o que gostaria de vestir no dia do meu casamento. Algo suave e leve, com movimento e classe. Sim, mesmo no inverno! Nada de vestido de noiva, por supuesto.
Mas esse negócio de casar com nenhuma cara de noiva também não me agradava.
Havia estado no casamento de uns amigos há alguns anos atrás e o casal, apesar de feliz e apaixonado, não demonstrava sequer um tracinho leve de que era um par de noivos . Nem alianças trocaram!
Tudo bem que era um casamento apenas no civil, mas achei que podia ter um pouquinho de frisson, um pouquinho de romance. Que custava?
Alianças??? Trrimmmm! Soou outro alarma! Eu queria alianças, por supuesto
Avisei ao meu prometido. Assim… devagarzinho, dando por fato consumado que haveria alianças. Técnica aprendida com a Princesa. Era tiro e queda! Aproveitei uma noite em que escrevia meus planos no caderno e perguntei onde as compraríamos.
“Eu não posso usar aliança”, ele respondeu. Explicou que já havia visto alguns oficiais marinheiros perderem o dedo em manobras nos barcos por causa delas.
Bien, entonces la mia vai poder ser más bonita y más cara!” Sorri inocente, em meu Portuñol.
Saímos para comprar A aliança em Madrid. Era uma noite maravilhosa e fria do outono madrilenho e elegi uma roupa com cuidado. Era uma noite especial, merecia detalhes. Na joalheria escolhi um modelo moderno, de ouro rajado e ele um outro, de bordas arredondadas e que não enganchava em nada. ( Oh! ) Encomendamos as duas.
O vendedor nos olhava surpreendido. Era a primeira vez que um casal encomendava alianças diferentes. Eu sorria de boca inteira.
Que passa? Cada um escolhe a que mais lhe agrada, ou não? Somos diferentes, ora! Mas pelo menos são DUAS!
Saímos para comemorar! Vinhos Rioja incluídos! Um amigo nos ofereceu seu apartamento em Madrid e não voltamos para casa àquela noite.
Que noite fantástica! Eu estava realmente me sentido uma noiva de verdade, com romance colorido e tudo! Muito mais do que na primeira vez que me casei. Que divertido isso! Estava me sentindo leve e completamente relaxada, como se caminhasse a meio palmo do chão. Coisa mais linda e mais gostosa não há que a felicidade das pequenas coisas.
De repente estar caminhando de mãos dadas com ele, o meu ELE, sentindo o ar frio no rosto, percebendo as calçadas cheias de gente, as vitrines iluminadas, as luzes estratégicas dos enormes prédios neoclássicos chamando atenção para as bordas cheias de esculturas, respirando os cheiros dos bares de tapas… era a felicidade perfeita.
Depois de jantar com nossos amigos, eles se foram e deixaram a casa só para nós. Ficamos na saleta do apartamento tomando as últimas copas, recordando os sonhos escritos nos anos em que estivemos nos correspondendo, descobrindo satisfeitos que estávamos transformando todos em realidade e que esta estava saindo ainda melhor do que tínhamos podido imaginar.


Recordei algumas noites em que estive diante do computador, escrevendo mais uma das enormes cartas em que desejei com toda a força do meu ser passar com ele uma noite como aquela.
Recordei o gostinho amargo de solidão que podia guardar uma taça de vinho tinto tomada diante da minha pequena janela de Boa Viagem, numa noite de brumas.
Recordei como desejei estar entre seus braços e que gosto bom deveria ter um Rioja bebido na mesma taça!
Recordamos trechos que havíamos escrito com os detalhes do futuro que queríamos para nós e tomamos plena consciência da alegria que estava sendo descobrir que havíamos ajudado um ao outro a escrever nosso destino.
Era a noite de 16 de outubro. Dentro de um mês as alianças estariam prontas e nossos amigos as recorreriam e nós os convidaríamos a jantar.
Se as bruxas deixassem…

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Elas e Eu… ( Cap 17 )

As famigeradas tentaram de tudo…

Provocaram brigas, esconderam roupas, quebraram carros e portões entre outras cositas mas….
Mas minhas fadas são fantásticas!
E com calma, jeitinho e muita paciência me ajudaram a resolver TUDO!

Venci o round! Mais um!
Muito obrigada pela paciência e os deliciosos comentários.
Antes do final desta semana voltem que haverá post novo.
Juro!
Prometo!
Smack! Smack!

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Casamento à Vista…(Cap 16)


Pois é… desta vez vamos casar mesmo. Na manhã do dia 09 de dezembro!
Será tudo muito simples e caseiro, pero… está dando um trabaaaaalho!
Queria escrever antes, meus queridos, mas simplesmente não pude. Estava esperando que a data ficasse mais perto para contar assim bem baixinho e tentar que as bruxas não escutassem.
Inútil subterfúgio! Elas já sabem! Elas sempre sabem!
As miseráveis estã trabalhando dobrado, mas eu também. E afinal, aposto que vai dar tudo certo. Estou anotando tudo o que nos está acontecendo para escrever assim que passe, pois não penso fugir da raia.
Bueno… também tem seu lado engraçado. Fui encomendar o bolo de noiva na ambulância da Estação de Radio porque o carro quebrou justo na hora… claro!
Mas em compensação, um homem chamado Florentino vai realizar a cerimônia. Florentino! Naturalmente que eu já batizei o sujeito de Florentino Ariza, o personagem do Meu romance de Garcia Marquez preferido. Quem leu o livro sabe do que estou falando. Acho que Florentino Ariza é um símbolo! Penso que vai dar sorte para meu amor tardio, mas completa e profundamente apaixonado.
Casar aos 50 é fantástico!
E isso é só uma pitada do resto da receita.
Assim que puder volto, com textos e fotos!
Muitos beijos a todos.
Ando feliz que nem borboleta!

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Elas descobriram…(Cap 15 )


Quando olhos-de-mar-azul perguntou-me se eu “casaria com ele” eu ri, meio assustada. Que pergunta!
Mas com ele eu faria qualquer loucura, inclusive casar-me! Disse sim com um sorriso que não cabia no rosto. Ele recostou-se, sorriu satisfeito e não disse mais nada.
Como assim? E o pedido? Perguntar se eu me “casaria” com ele era apenas investigar uma possibilidade. Assim não vale!
Encostei mais perto e perguntei:
– E você, casaria comigo?
– Por supuesto que si!
– De verdade? Assim, no papel?
Claro. En el papel. No resto já estamos cassados. (Eu adoro quando ele fala Portunhol com um sotaque gostosíssimo!)
Mas no fundo tremi um pouco. Esse negócio de casar sempre me assustou. Nunca casei no papel. Meu casamento anterior foi só no religioso. Havia um consenso entre nós para não perdermos uns benefícios econômicos que eu tinha, herdados do Lorde. E assim foi. Depois, para separar-nos, foi muito fácil. Ele ficou com tudo, apesar de termos dividido todas as despesas, sempre. E eu saí com a minha filha, meus livros e discos… minhas duas trêmulas e desconhecidas pernas e um desejo incomensurável de ser feliz.
Êi! Mas agora era diferente. Nada de medos! Eu nunca fui tão feliz em toda a minha vida. Os danados dos papéis podiam ajudar-me a ser gente fora de meu país! Era, inclusive, a forma mais simples de consegui-lo. E para ele também haveria um peso positivo no âmbito profissional, embora o mais importante fosse casar-nos apaixonados a essa altura da vida. Era muito mais do que qualquer sonho romântico que tivéssemos alimentado antes de vivermos juntos. Voltei ao assunto.

– Bueno,e o pedido? Perguntei.
– Hum? Que pedido?
– O pedido! Quero que me peça em casamento. Falei sorrindo.
– Hahahahahahhahaha! A gargalhada dele foi linda.
– Era un pedido! Afirmou, com cara de surprêsa.
– Não. Era só uma pergunta. Não valeu. Insisti mais ou menos insegura.( Porque será nos incutiram por toda a vida que este momento tem que ter um traço renascentista?)
Mas eu sou renacentista! Que é que tem? Algum problema? E Ainda bem que ele não veio com aquela história de “eu estava só brincando.”
Levaria um tufo no olho. Juro!
– Quieres casarte conmigo? Perguntou sorridente. (Eu também adoro quando fala em Errpañol! )
– Vou pensar. Respondi. Hahahahahhahaha! Era minha vez de gargalhar! Que delícia! Mas não exagerei na brincadeira. Respondi dois segundos mais tarde…
– Pois… já pensei. SIM. SIM…Seria lindo poder casar com você.Quando? ( Que coragem! )


Era quase inverno. Haviam coisas a fazer antes. Ele disse que seria melhor esperar a próxima primavera. Daria tempo de enfrentar-nos à burocracia e seria uma bela época. Clima ameno, flores por toda parte… Concordei.
Em Janeiro comecei a mexer com os meus documentos, pois como eles tem um prazo de validade muito reduzido não se pode antecipar demasiado os trâmites. Pedi a um dos meus irmãos que providenciasse uma certidão de nascimento original e reconhecida. Simples. Até dei para ele o número do livro, da página, etc… etc…
Depois era necessário mandar para o Ministério de Relações Exteriores, em Brasília, para uma validação, e finalmente enviar para o Consulado Espanhol, em Salvador, para um reconhecimento da validade.( Recife não tem Consulado da Espanha, só uma Representação Consular.) De volta às suas mãos, que enviasse-me por Sedex. Era preciso cuidar das datas. Quando isso chegasse aqui já estaríamos em Março…quase Primavera.
Depois de alguns dias sem dar notícias meu irmão disse-me que precisava de uma procuração. Liguei para a Embaixada do Brasil em Madrid, onde trabalha uma amiga e ela disse que não era necessário procuração alguma e que alguns despachantes pedem até por telefone!
Claro, ele nem tinha ido no cartório ainda quando perguntei pelo andamento do documento. Insisti que ele podia retirar a certidão sem a procuração e ele disse que iria “tentar outra vez”. Dias depois ele me mandou um e-mail afirmando que o número do livro estava errado pois haviam encontrado outro nome no lugar do meu.
Como assim?
Confirmei tudo o que havia dito, escaneando a certidão que tenho comigo. Esperei mais uns dias, nem lembro quantos. Então, ele me escreveu que o cartório havia sofrido um incêndio e alguns registros estavam confusos, mas que havia conseguido retirar a minha certidão.
Uff! Um passo tão pequenino e demorou mais de um mês para ser dado.


Aí… foi chegando o Carnaval e ele disse que agora só podia mandar para Brasília depois desta época… que, “sabe como é, está tudo parado…” Alertei para a data e o prazo de caducidade. Tá.
Fiquei sem resposta até muito depois do Carnaval.
Em Março ele disse que ia mandar para Brasília, mas estava com muitos problemas no trabalho e sempre esquecia. Enquanto isso, nós aqui decidimos adiar a época do casamento para o verão. Os papéis de Pepe também estavam atrasados. Tudo bem. Relaxei. Seria mais uma vez num verão! Como sempre na nossa história!
Em Abril ainda não tinha qualquer notícia e aquele pedaço de papel não valia mais nada. Era melhor começar de novo. Meu irmão desapareceu. Escafedeu-se.
Em Maio ele retirou outro documento ( ou teria sido o primeiro de verdade?) e depois de remanchar mais um tempo, enviou-o para Brasília. Pelo menos foi o que me disse.
Em Junho recebi a certidão em Madrid e fui imediatamente ao Ministério de Relaçãos Exteriores daqui para validá-lo, antes de enviá-lo para uma tradução juramentada.( Essa é outra exigência do Cartório Civil. Tudo tem que ser traduzido por profissionais autorizados. Caríssimo! )
Bueno, pelo menos ali me atenderam muito bem, MAS o documento não valia nada porque faltava o selo do Consulado da Espanha.
Como assiiiim? Voltei para casa decepcionada. E com raiva também! Muuuuita raiva!
Decidi pedir ajuda à uma amiga de Recife e ela concordou em ajudar-me. Mandei o documento por Sedex para que ela agilizasse o selo do Consulado. Aí ela me mandou um e-mail dizendo que faltava também o selo de Brasília.
– Heim??? ( Leia isso muito alto!)


Sim, ela disse que não havia selo nem do Ministério, em Brasília, nem do Consulado, em Salvador e – por causa da data – era melhor pedir outra certidão, pois essa já estaria vencida quando voltasse para mim.
Oh! As bruxas… elas descobriram! Eu sabia que deveria ter dedinhos delas nesta confusão toda.
Começar de novo? No final do verão???
Liguei para o outro irmão, pois nem queria falar com o primeiro para não triturá-lo com minha raiva. E este, mas do que prestativo, disse que “sim, claro que sim… não se preocupe!” Nem contei para ele o que já havia acontecido. Eu queria apenas que ele tirasse a certidão nova no cartório e depois entregasse-a a minha amiga. O resto era melhor deixar com ela. “Sim.. sim… claro”. Concordou imediatamente. Mas quando eu perguntei se ele podia fazer isso no dia seguinte ele se assustou.
– Amanhããã?
– Sim, amanhã.
– Amanhã não vai dar. É o jogo!
– Que jogo?
– O jogo do Brasil, minha filha!
– E a que horas vai ser o jogo? Perguntei engolindo a raiva. Tenho cada parente!
– Às 4 da tarde. Mas sabe como é dia de jogo, né? Está tudo fechado!
– E cartório também?
– Também.
– E você não pode ir de manhã cedo?
Ele esfriou a voz e respondeu muito formalmente.
– Não se preocupe que eu vou resolver o SEU problema, tá! Você está ME pedindo um favor, não é? Pois vou fazer assim que EU puder.
Que impotência! Que vontade de gritar! Xingar a mãe dele! ( Mas ela era a minha também!) Não quero mais brincar de “irmãzinha querida, estou com saudade! “
Ele nem sequer estava trabalhando para poder botar a culpa no trabalho e na falta de tempo. Copa do Mundo. Jogo do Brasil. Tá.
QUATRO DIAS DEPOIS ele entregou o documento a minha amiga.


Enquanto isso eu já havia contactado com a BethS, de Brasília, minha amiga virtual, que nunca me viu mais gorda ( nem mais magra ) para receber o documento em sua casa e ir pessoalmente ao Ministério. Seria muito mais rápido do que resolver pelos caminhos do correio oficial. E ela, que nem é minha irmã, disse que faria tudo sem problemas, no mesmo dia que recebesse o envelope. E ainda era Copa do Mundo!
Trocamos e-mails entre as três, mas uma não recebia as mensagens das outras… e sem explicação plausível.Simplesmente não recebíamos todas as mensagens trocadas…
Finalmente, Beth recebeu um envelope selado que precisava ser aberto diante de um tabelião, pois senão perderia o valor, além da minha certidão e me perguntou o que era aquilo. Eu perguntei à minha amiga de Recife, que mandou a resposta direto para Beth e eu fiquei sem saber a resposta até hoje. Também nem perguntei mais… Ela conseguiu selar a certidão e devolveu para Recife em um tempo record! Maravilha!
Sem palavras para agradecer tamanha gentileza e disponibilidade da Beth, que teve que ir duas vezes ao ministério! Muchíssimas gracias, querida!
Depois disso, minha amiga de Recife resolveu a parte do Consulado, em Salvador, e o documento partiu para a Espanha bonitinho, como devia ser. E, detalhe da minha amiga, já traduzido. Outra maravilha!
Sem problemas no MRE espanhol, em 5 minutos estava validado. Agora só faltava ir ao Consulado do Brasil, em Madrid e recorrer a carterinha de inscrição consular, já solicitada desde Junho.
Aí sim, as atendentes pareciam minhas irmãs. Atendimento VIP, de primeira categoria familiar!


Depois de um tempo razoável numa fila cheia de brasileiros e brasileiras e crianças de braço e carrinhos de bebês, a pessoa que me atendeu do outro lado do grosso cristal, com três ou quatro furos minúsculos cinco centímetros mais altos que a altura de sua boca, o que fez com que ela tivesse que esticar bem o pescoço e gritasse bem alto que era para que eu a ouvisse BEM e toda a fila também e quem sabe mais alguém que passasse do outro lado da rua… consegui apoderar-me da carteirinha.
Saí com aquilo na mão, desconfiada. Isso não tem cara de valer nada para casar-me. Fui no carro e peguei o papel de instruções do Cartório Civil. Voltei para o Consulado e entrei de novo na fila. Outra pessoa atendeu-me. Esta um tanto mais simpática e discreta que a anterior. Examinou o papel e confirmou minhas suspeitas. Não era aquilo. Olhou com cara de dúvida para o relógio e disse: ” É, ainda dá tempo de você ir ali na esquina pagar essas duas taxas e voltar. Corra viu!” Conselho de quem sabe o que está dizendo!
Corri. Saquei dinheiro. Paguei as taxas. Voltei. Entrei de novo na fila, já quase extinta. Uma terceira pessoa atendeu-me. Não. Atender tem outro conceito.68.gif Ela gritou pelo outro lado do vidro que eu não tinha ficha, que ela não atendia mais, que já terminou o expediente. Volte outro dia, viu?! Nem me deu tempo de explicar nada.
Mas eu fiquei ali, olhando para ela. Fiz cara de “Não estou entendendo nada! O que? É comigo?” Quando ela parou de berrar, disse-lhe numa voz tranquila e baixa ( aaaaanos de treinamento!) que a sua companheira de trabalho havia permitido que eu voltasse.
– “Claro que não poderia ter sido você.” “Você nunca o faria, não é mesmo?”Continuei, sem resistir à vontade de alfinetá-la.
A companheira da azeda e mal educada atendente pegou meu comprovante de pagamento e… mágica! trocou por outro comprovante. Disse-me que voltasse DEZ DIAS DEPOIS para buscar os dois papéis que eu precisava: Um certificado de inscrição consular, daqueles tipo modelo-único, que só muda o nome da gente. E outro que explica a não necessidade de proclamas no Brasil. Só isso. DEZ DIAS para emitir duas bobagens dessas.
Bueno, menos dez dias no prazo de validade da minha certidão de nascimento. Toda a rede de amigas disponíveis no Brasil jogada fora por causa da lentidão e falta de eficiência do Consulado do Brasil de Madrid.
O dia foi ontem. Fui lá mais uma vez. Três ou quatro pessoas diante do guiché de ” entrega de documentos”. Que bom!

…Era um engano. Desta vez me haviam preparado um atendimento muito pior que o anterior pois não bastava estar em pé atrás do último a chegar. Era tudo muito mais complicado!
Uma senhora, segurança do Consulado e responsável pela organização no atendimento, que não fala Português e age como se todos nós fôssemos retardados mentais, avisou-me que eu não ficasse na fila e sim que perguntasse na saleta de espera “quem é o último?”. Assim. Como numa feira. Como se eu quisesse comprar tomates na barraquinha do mercado de Alcalá.
“Quem era o último?” Agora era eu. Haviam umas dez pessoas na minha frente. E nos próximos 50 minutos ninguém foi chamado a subir as escadas para o atendimento. Uma hora e quinze minutos depois, as três ou quatro pessoas que estavam lá em cima ainda não haviam saído. O que será que eles estavam buscando? Aquela não era uma fila só para “Entrega de Documentos”? Era. Uma hora e meia depois eu estava em pé, segurando um bebê nos braços, enquanto sua mãe preenchia uma solicitação para a Certidão de Nascimento. Tão pequenininho e já sofrendo para ser alguém.
Duas pessoas na minha frente voltaram sem os documentos que haviam solicitado. A mãe do meu bebezinho também voltou para casa sem resolver seu problema. Faltavam-lhe outros papéis.
Todos foram tratados com desdém como se fossem um grande estorvo.
É verdade que o atendimento apressou bastante nos últimos minutos. Agora os funcionários já tinham pressa em fechar. Não tinham mais tempo para dar explicações detalhadas, mesmo que incompletas. Estavam cansados de estar ali, em pé, atendendo gente que perdeu passaporte, foi roubado, quer viajar com crianças ou simplesmente casar. Que voltem mais vezes. Muitas vezes. Que mais dá?!


E eu pensava que Consulado Brasileiro existia fudamentalmente para dar apoio e suporte aos brasileiros. Me enganei. Nós incomodamos muito. Eles detestam ter que receber gente com problemas ou necessidades que só eles podem resolver. Eles odeiam ter que dar-nos informações corretas e completas. Negam-se terminantemente! E nem se animem a tentar obter alguma pelo telefone. Eles NUNCA atendem. Somos o terror dos funcionários do Consulado Brasileiro em Madrid.
E eles são nosso karma.
Enfim, consegui meus papéis. Voltei para casa cansada, faminta e irritada, mas com eles na mão.
E hoje era o dia D. Acordei com cara de noiva. Juro! Espreguicei contente da vida, escolhi uma roupa bonita, fiz o café cantando… Hahahahahaha!
Com a pasta de documentos debaixo do braço, duas testemunhas documentadas para afirmarem que me conhecem (e que sou solteira) e de mão dadas com olhos-de-mar-azul, desci sorridente e feliz o morro de Santorcaz para Alcalá de Henares.
Entrei meio nervosa no Registro Civil, um prédio antigo bem diante da Plaza de Cervantes, para dar entrada nos trâmites finais.
Achei bonito estar diante da praça, mas o ambiente da sala era um tanto desorganizado. E bem diante da porta por onde eu deveria entrar havia um cartaz branco com letras pretas que dizia: “O Registro Civil esta cerrado hasta el dia 7 de Septiembre.”


Não podia ser! Não acreditei!
Ainda me aproximei de um grupo de pessoas que tinham papéis numerados nas mãos, mas eles confirmaram o absurdo. Estavam ali por outros motivos.
O Registro Civil está de “vacaciones”. Só abre dia 11 de Setembro. Porque o cartaz dizia dia sete mas estava errado. Nos informaram que só vai funcionar mesmo no dia ONZE.
Fatídica data, não? E ainda por cima, aniversário de um dos meus irmãos…
Alguma dúvida de que foram elas????? As Bruxas?
Eu não tenho nenhuma!
Como um Registro Civil de uma cidade com mais de duzentos mil habitantes fecha por férias de verão? Eles trabalham com documentos importantes e que TEM DATA DE VALIDADE CURTAS!!!! Como podem fechar um mês????
Fecharam. Eles fecharam! É inacreditável! E inadmissível!
Agora, aqui para nós, desde o começo desta história, os absurdos se sucedem, um após o outro. Cada vez que estamos movendo-nos para estarmos mais juntos, as bruxas experimentam novas poções mágicas…
Primeiro a amiga mentirosa, depois a festa de Carnaval…os anos de distância, as cartas espaçadas, a bomba d´água que explode, o assalto, a delegacia, o avião em Cabo Verde, as esperas eternas… a maleta desaparecida, o portão de desembarque equivocado,os sapatos vermelhos… até botas que se dissolviam pelos corredores do aeroporto…
Quantos absurdos! Quantas horas de angústia!
Podem rir. Eu também rio. Depois de tudo eu sempre acabo dando risada. Coisas de quem quer e sabe ser feliz.
Porque eu já disse a elas mais de mil vezes: ” Não vai adiantar. Desse amor eu não desisto!”
E também tenho minhas fadas!

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Sem Meu Melhor Pedaço…(Cap 14)

Agora acho que cheguei mesmo em casa.
As outras vezes em que disse isso não passaram de intenções.
Desde o começo do mês que eu ando feito peregrina por essa Espanha de meu Deus. Mas sem o meu melhor pedaço…
Olhos-de-mar-azul foi embora e eu fiquei.
Ele foi fazer um curso na Inglaterra por três semanas, eu não pude ir… e então o mundo ficou sem graça e eu tive frio.
Em busca de um colo de mãe fiz a maleta e me fui à Tarifa, onde seus ventos e sua luz me acolheram com festa.
A mãe, apesar de não ser a minha ,fez-se ninho. Suave e mansa, calorosa e doce.
A cidade esqueceu–se do outono e passou uma semana bela e louca pensando que ainda era Setembro.
Foram dias tão lindos que pude passear todas as manhãs pela praia, desta vez completamente deserta dos turistas de então e perfeitamente habitada por minhas lembranças e saudades. Além delas e de mim, apenas os pássaros de Novembro.
Ele não estava ali mas aquele era o lugar perfeito para sentir seu cheiro impregnado nas ondas, ouvir seu sorriso nos trinos das aves, sentir suas carícias e abraços nos ventos que penteavam as areias e revolviam meus cabelos.
Guardei esse pedaço do seu mundo num recanto da minha memória para dar a ele quando possa. É a primeira vez que vivo seu mundo sem ele, depois de quase três anos juntos.
Quando voltei, nem a calefação à tope deu jeito. Troquei as roupas da maleta por outras mais quentes e em busca de um colo de filha me fui à Segóvia.
Dormi entre os lençóis e travesseiros com cheiro a Lavanda Johnson e dengo.
Que delícia!

Durante as saídas, de braços dados, sob a chuva incessante ou sob a neve, os cafés com leite espumados, quentinhos e saborosos como amor de filha, as conversas compridas sobre presente e passado, amores e desamores, encontros e desencontros, amigos e inimigos, felicidade e dor, juventude e maturidade… eu tive a certeza de estar no lugar certo, com a pessoa perfeita para ajudar-me a suportar uma ausência que mesmo curta, pesa. Que mesmo justa, espanta pela força da saudade.
Que grande companhia é a minha filha!
Agora já estou aqui em Madrid. Tenho dois dias para organizar a casa, a despensa e a geladeira. As aranhas fizeram festa na sala.
Olhos-de mar-azul volta sábado. E eu estou curtindo cada minuto de espera… desde que sejam poucos!

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Pedaços de Mim…(Cap13 )

A sala estava cheia de caixas de papelão, etiquetas e rotuladores de cores variadas…
Enquanto eu desfazia as estantes de livros e tentava não pensar que teria que separar-me deles, a minha vida ia passando diante dos olhos como um filme antigo, em preto e branco…
Olhava o livro, lembrava onde o tinha comprado, em que época havia lido, que sentimentos havia despertado em mim. Alguns iam direito para uma das caixas. Poucos, devo admitir. Outros, muitos, ficavam ali na mão, pedindo para serem abertos, relidos, mostrando as notas feitas a lápis nas margens de algumas páginas, reagindo a serem trancados entre quatro paredes de papelão por um tempo indeterminado. Um sofrimento!
Eu já sabia que não poderia levá-los comigo, pelo menos de imediato. Mas onde guardá-los?
Pensei nele. Um dos meus irmãos que adora ler. Mas os livros em sua casa, depois de lidos (apenas por ele), eram objetos sem categoria. Perdiam qualquer batalha por algum status na família. Ficavam guardados numa antiga e fria despensa, misturados com trastes velhos.
Sua esposa adorava que as estantes de sua sala fossem super-clean. No máximo uns pequenos objetos decorativos de vidro transparente, um ou outro vaso com arranjos de flores secas, belos candelabros. E só.
– Livros? Na sala? Nem pensar! Dizia que cheiravam a papel velho e guardavam toda a poeira do mundo.
Pois então… os maravilhosos livros de meu irmão dormiam na gélida despensa mesmo. E digo dormiam porque sequer estavam dignamente em pé, com o lomo aparecendo. Jaziam deitados. Todos. E de frente. Irreconhecíveis!
Por cima de seus corpos, um sem número de objetos: sapatos velhos, cabides quebrados, bacias furadas, espanadores rotos, sacos plásticos vazios… “Pedacinhos de morte”, como diria Cortázar.
Para lá eu não mandaria um só dos meus queridos pedaços de vida…
Escolhi apenas os didáticos que pudessem ajudar seus filhos nos exames de vestibular. Esses sim… estariam espalhados pelos quartos dos meninos, até que não fossem mais tão úteis e acabassem no Cemitério dos Esquecidos. A terrível e bolorosa despensa-trasteiro-biblioteca.
Separei também Obras Completas de Freud, que ele pediu-me com os olhos brilhantes, mas só com a promessa de que ficassem na prateleira do quarto de um de seus filhos, se esse concordasse. Não podia sequer imaginar que Totem e Tabu ou a Interpretação dos Sonhos fossem enterrados naquele monte de tranqueiras!
Bueno, pensei em meu outro irmão. O Pescador de Ilusões.(Um dia eu explico esse apelido.) Essa criatura nunca leu um livro inteiro. Mentira minha. Leu sim. Um. O Alquimista…
Suas estantes são cheias de troféus de pesca, cinzeiros e estatuetas horríveis. Mas ele as adora!
Bueno, não custava tentar.
Suspirei quando ele disse que não tinha espaço para guardar meus livros. Eu já sabia… suspirei nem sei por que.
Depois de trocar mil vezes de opinião sobre o que fazer com eles, revendo preços das companhias aéreas, navios, correios, passando inclusive pela encantadora idéia de tirar tudo das malas e transformá-las numa biblioteca ambulante (as roupas são perfeitamente compráveis em qualquer parte do mundo) e descobrindo que o peso das pobres coitadas quadruplicava sem resolver a questão, – cabiam tão poucos! – voltei às caixas. Separei tudo de novo e criei categorias para eles. Categorias afetivas, diga-se de passagem! Deixei tudo ali, no meio da sala, até conseguir pensar com calma. Tarefa difícil naqueles dias.
Ainda tinha que saber o que fazer com as cartas, bilhetes, fotografias… Antes sabia que podia contar com a cumplicidade e discrição da Princesa. Mas… agora que ela não vivia mais, como deixar minha vida assim, por escrito, nas mãos de outro alguém que não fosse ela??!
Meu coração parava quando olhava para o armário e via a enorme caixa de cartas…cópias das enviadas junto com as recebidas, no mesmo envelope. Maços e maços envolvidos em fitas. Meus sentimentos escancarados, escritos em épocas distintas para os personagens importantes de meu passado… Mas esse capítulo merece um post a parte.
Concentrei-me nos livros. Tinha que encontrar uma saída.
Finalmente tive uma idéia fantástica! Chamei uma amiga querida (ela, aquela que rondava minha porta nos dias de escuridão)  e fiz uma proposta semi-indecente. Ela ficaria com meus livros mais queridos (muitos) em sua casa e em lugar de honra ( por favor!) e assim que eu pudesse iria buscá-los, pouco à pouco. O resto eu deixaria com o Pescador de Ilusões, mesmo sabendo que seriam abandonados nas prateleiras do quarto de serviço. Um lugar arejado, pelo menos! Seriam resgatados assim que eu pudesse.
Pois sim…ela disse sim. Mas não poderia quitá-los das caixas. Ainda não tinha casa. Receberia seu apartamento em alguns meses, mas não poderia mobiliá-lo até que pagasse as últimas prestações. E não sabia quando poderia viver nele.
Foi aí que minha idéia cresceu. Ofereci-me para mobiliar sua casa. E emprestei tudo o que estava destinado a um depósito: lavadora de roupas, geladeira, fogão, micro-ondas, televisão, cama de casal e solteiro, mesinhas, luminárias, condicionador de ar, estantes, objetos de cozinha, etc… e livros. Muitos e deliciosos livros. Sabia que estaria tudo muito bem cuidado. E vivo! Respirando, fazendo parte do seu cotidiano.
Que mais precisa uma pessoa para começar a vida num apartamento novo e sozinha?
Sim, sei. Música. Isso ela já tinha, ainda bem.
Seus olhos faiscavam de alegria. Já podia contar com a casa montada!
Agradeceu-me contentíssima! Que graça! Ela me faz o favor e ainda agradece!?
Disse-lhe então que eu deixaria com ela só mais uma coisinha. Grande, mas que não ocupava espaço: toda a minha gratidão. Na verdade, nossa. Pois creio que os livros também agradecem a vida que estão levando…
Soube que está lendo como nunca… e sorrio feliz com a notícia!
………………….

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Enquanto Isso…No País do Não Faz de Conta…(Cap.12 )

Uma amiga querida do Brasil enviou-me essa mensagem bem humorada do L.F.Veríssimo.
Aproveitei para respondê-la aqui mesmo no blog. Assim vou ganhando tempo até escrever o resto da história das cicatrizes.
Conto de Fadas Para Mulheres do Século XXI
Era uma vez… numa terra muito distante… uma princesa linda, independente e cheia de auto-estima que se deparou com uma rã enquanto contemplava a natureza e pensava em como o maravilhoso lago do seu castelo estava de acordo com as conformidades ecológicas.
Então a rã pulou para o seu colo e disse:
– Linda princesa, eu já fui um príncipe muito bonito.
Uma bruxa má lançou-me um encanto e eu transformei-me nesta rã asquerosa.
Um beijo teu, no entanto, há de me transformar de novo num belo príncipe e poderemos casar e constituir lar feliz no teu lindo castelo.
A minha mãe poderia vir morar conosco e tu poderias preparar o meu jantar, lavarias as minhas roupas, criarias os nossos filhos e seríamos felizes para sempre…
Naquela noite, enquanto saboreava pernas de rã à sautée, acompanhadas de um cremoso molho acebolado e de um finíssimo vinho branco, a princesa sorria e pensava…
Nem morta!
Luis Fernando Veríssimo
……………………..
Meus amigos, vos direi!
Fracassei como princesa…
Esse negócio de ser cheia de auto-estima levou o maior couro de outra coisinha chamada depressão e quando voltou a si já não tinha os mesmos valores, as mesmas ilusões. Inclusive ser linda perdeu o significado importante e passou a ser um reles detalhe, muito irrelevante.
Esse outro negócio de ser independente também cansou de fazer tudo sozinha, pagar tudo sozinha, sofrer tudo sozinha e resolveu mudar de nome para interdependente, que é muito mais maneiro, tá?
E, para dizer a verdade, nunca beijei um sapo que se transformasse em príncipe. Era tudo de mentirinha…
Os danados eram sapos mesmo e continuaram asquerosamente sapos, por mais que eu fingisse não ver.
O que já veio com carinha de príncipe e me fez uma proposta parecida (só não incluiu a mãe no pacote porque ela nunca concordaria em dividir seu rebento) era um Batman Forever. Tinha complexo de morcego. Adorava as noites e nunca chegava cedo em casa. E quando não saía, dormia e dormia.
Era cheio de segredos (nunca se sabia onde ele estava) e amava seu bat-móvel, sua bat-moticleta, sua bat-caverna, sua bat-prancha-de-winsurf e todos os seus bat-objetos mais do que as pessoas.
Só havia uma pessoa a quem ele amava mais do que seus bat-tudo: a si mesmo.(Isso nem a mãe sabia!)
Os condes e duques eram chatos e pernósticos. Não se conformavam em não serem príncipes.
Tinha até um que era vampiro. Juro! Sugava a energia de quem estivesse por perto. Esse quase me matou!
E os marqueses achavam que era humilhante que todos não se curvassem à sua passagem…
Como assim???
Ainda bem que fracassei. Ser princesa era um saco!
Que o diga Caroline de Mônaco, a princesa mais linda e menos feliz do planeta!
Decidi então deixar essa doideira de querer ser princesa e virar o que sempre fui, mas insistia em não querer ser: uma mulher comum.
Aí… encontrei um homem comum (nem Robin Wood, nem Batman, nem Robert Redford, nem Richard Gere, mas com olhos-de-mar-azul e um sorriso de derreter qualquer joelho ) que vivia do outro lado do lago, sabia lavar, passar e cozinhar porque morava sozinho numa cabana emprestada…
Nem sapo, nem príncipe, nem complexos de nobreza falida, nem fetiches por bat-objetos, exceto pelos livros – que devo confessar – compartilho.
Encontrei um homem que gosta das pessoas. E de mim. Finalmente um!
Aí, desde que estamos juntos estamos felizes…
E nem dizemos o “para sempre” que é pra não dar azar! Ho ho ho…
(Vai que existem mesmo as bruxas, fantasiadas de Barbies, loucas por uma maldadezinha!)
Lavamos, passamos, cozinhamos e cuidamos dos filhos (que já moram em outras paragens) com leveza e bom humor, porque ninguém aqui precisa de escravo.

Brincamos de sermos sapos nas tardes quentes de primavera-verão no lago azul perto da cabana ou de príncipes nas noites de lua cheia, vinhos, boa música e bons papos aqui mesmo no jardim.
Por sinal, nenhum um de nós dois gosta de perninha de rã à sautée, mas as paellas que ele sabe fazer são fenomenais!
Do conto de fadas para mulheres do século XXI fiquei só com… “Em um país muito distante…”
Mas… distante do quê mesmo?
Ah, tá certo…qualquer dia desses a gente pega o avião e vai beijar os amigos brasileiros.

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Nem Todas Doem…

Talvez tenha sido o acordeonista de ontem, nas ruas de Alcalá de Henares…
Ou o desejo de crépe au marron-glacè. Quem sabe sonhei com Paris!
Ou com o Poço da Panela de outrora… Talvez tenha sido só pelo perfume do vento…
Ou pela profusão de cores pelo chão… Quem sabe foram as borboletas… ou dois filhotes de pássaros que caíram de alguma árvore dentro do meu jardim.
O certo é que depois da caminhada pelo campo, a ducha fresca e um café fumegante na caneca azul, me vi precisando dela. Piaf era presença obrigatória nos dias de beleza pura do meu passado, fosse no Poço da Panela ou em Paris.
Parece que ela continua necessária nas colinas que cercam Madrid.

Ps: Nem todas as cicatrizes recordam dores. A maioria das minhas são belas. E desde que vivo um amor inteiro, tenho cada vez mais orgulho delas.

La Vie en Rose
Letra de Edith Piaf
Música de Louiguy – 1945
Des yeux qui font baisser les miens
Un rire qui se perd sur sa bouche
Voilà le portrait sans retouches
De l’homme auquel j’appartiens
Quand il me prend dans ses bras
Il me parle tout bas
Je vois la vie en rose
Il me dit des mots d’amour
Des mots de tous les jours
Et ça m’fait quelque chose
Il est entré dans mon coeur
Une part de bonheur
Dont je connais la cause
C’est lui pour moi, moi pour lui, dans la vie
Il me l’a dit, l’a juré, pour la vie
Et dès que je l’aperçois
Alors je sens dans moi,
Mon coeur qui bat
Des nuits d’amour à plus finir
Un grand bonheur qui prend sa place
Les ennuis, les chagrins s’effacent
Heureux, heureux à en mourir
Quand il me prend dans ses bras
Il me parle tout bas
Je vois la vie en rose
Il me dit des mots d’amour
Des mots de tous les jours
Et ça m’fait quelque chose
Il est entré dans mon coeur
Une part de bonheur
Dont je connais la cause
C’est toi pour moi, moi pour toi, dans la vie
Tu me l’as dit, l’as juré, pour la vie
Et dès que je t’aperçois
Alors je sens dans moi
Mon coeur qui bat.

La Vie en Rose
(tradução)
Olhos que fazem baixar os meus
Um riso que se perde em sua boca
Aí está o retrato sem retoque
Do homem a quem eu pertenço
Quando ele me toma em seus braços
Ele me fala baixinho
Vejo a vida cor-de-rosa
Ele me diz palavras de amor
Palavras de todos os dias
E isso me toca
Entrou no meu coração
Um pouco de felicidade
Da qual eu conheço a causa
É ele para mim, eu para ele
Na vida, ele me disse
Jurou pela vida
E desde que eu o percebo
Então sinto em mim
Meu coração que bate
Noites de amor a não mais acabar
Uma grande felicidade que toma seu lugar
Os aborrecimentos e as tristezas se apagam
Feliz, feliz até morrer
Quando ele me toma em seus braços.

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Minha Amiga Querida…

Sei que faz um tempo que não te escrevo uma carta como Deus manda. Sem perdão. Uma das coisas mais agradáveis nesse exí­lio voluntário é receber uma carta de amigo, parente, aderente, vizinho do aderente, periquito, papagaio, orangotango, quem seja.
Desculpe o toque animal. Não tinha a intenção de comparar-te com qualquer um desses bichinhos, embora eu não ache que seja nenhum insulto, uns bichinhos que são tão simpáticos. Meu humor anda assim mesmo, meio tumultuado ultimamente. Alterações hormonais. Coisas da idade, parece.
Mas falando sério, querida…se a carta for tua então, o prazer é dobrado. Antes de fazer um café e montar na rede do terraço, com a música posta no salão, não abro o envelope. Adoro o ritual de abrir uma carta de verdade, de papel e selo colorido, como antes de toda essa facilidade da Internet.
Não me queixo. Imagino que se eu tivesse que esperar pelas antigas formas de escrever, estaria exilada de verdade. Os e-mails são imediatos. Trazem fotos, mensagens de amor e de bons fluidos, recortes de jornais e revistas, carinhos diversos todos os dias, de gente amiga-conhecida e de desconhecidos-amigos. O blog me ajudou muito a encontrar essas almas carinhosas espalhadas pelos labirintos da Web.
Mas tua carta, amiga, essa é felicidade simples e profunda. Posso imaginar onde e como a escreveste. Posso vê-la com a caneca de café fumegante sobre a mesa da cozinha, procurando uma caneta que escreva e xingando a última geração de teus próprios filhos em resmungos ininteligí­veis aos que não te conhecem, pedindo a Deus explicações para o desaparecimento dos objetos inanimados desta casa: canetas e lápis, pentes, prendedores de cabelo e o tapete do banheiro.
Nunca há respostas para isso, não é mesmo querida? Nem Deus, nem os três adolescentes-quase-adultos que habitam o teu lar sabem responder.
Bueno… já está. Algo encontraste para escrever, pois posso ler aqui troços em lápis e outros em canetas de distintas cores. Não sabes a ternura que transborda de meu sorriso enquanto leio o que me escreves e como eu gostaria de compartir a bela e deliciosa caneca azul com o café que só tu sabes fazer.
Pois não penses que isso é brincadeirinha de novo. Pois não. O café sai ao gosto de quem o faz. Posso pôr a mesma medida de água e de pó. Não sai igual ao teu. Juro!
E veja que ultimamente tenho carregado um pouco no café. Um dos poucos prazeres da cozinha que me restam. Tive a infeliz idéia de visitar uma endocrinologista para uns exames hormonais e etc. E a danada me pegou pelo tornozelo. Resultado: dieta.
Como tal um bebê. Seis refeições que de refeições só tem o nome. Um periquito pediria dose dupla do que como. Cada porção pesada e medida numa balança que vive sobre o micro ondas, malvada e sensí­vel como uma madrasta de conto infantil. Qualquer pedacinho de pão pesa mais do que deveria.
E o pior é o que posso beber. Leite desnatado, água, café e chá.
Também, quem mandou procurar uma endocrinologista abstêmia!?
Só vendo a cara que ela fez quando descrevi minhas noites de vinho tinto frente a lareira… Parecia que eu tomava heroí­na na veia! Acho que a bruxa teve uma invejazinha, ou não?
Imaginas a arredondada aqui tomando vinho tinto diante da lareira e dançando ao som da voz memorável de Billi Holliday, com um par de “olhos-de-mar-azul” acompanhando cada movimento meu? Rá!
Acho que ela pensou que era alucinação minha.
Não era. Não era!
Agora posso comer um iogurte com gosto de qualquer coisa (menos de vinho) e ir dormir com cara de mulher-de-meia-idade-triste. Difí­cil viu amiga. Difí­cil.
Mas, segundo os exames, vou ter que submeter-me à tortura.
Usei uma estratégia antiga, dos tempos da depressão. Naquela época colei na geladeira uma foto minha com largo sorriso, só para lembrar que eu já havia sido feliz, um dia. E estava magra.
Agora fiz o mesmo. Preguei a última foto tirada no Brasil de biquí­ni. Para lembrar-me de como não quero estar, daqui por diante.
O pior é que nesta foto estou sorrindo feliz como nunca havia sido na vida… e me confundo.
Preciso ser magra e feliz. E parece que as duas coisas não se casam no mesmo corpo.
Bueno… vamos ver quanto eu consigo conciliar das duas necessidades.
Por enquanto estou lutando para manter a classe e não comer uma lata inteira de sorvete. Que pobre de espí­rito heim?!
Também estou tentando não ter mais os sonhos eróticos com morangos e chocolates, que me acossam nas noites famintas e me deixam cansada e com o humor de Garfield pela manhã.
E por falar em manhãs, as de agora estão lindí­ssimas. O clima mudou completamente e as amendoeiras, que nem estão de regime nem nada, se cobrem de flores numa alegria que só vendo.
Aqui a gente dormiu inverno e acordou primavera. Quem dera meu programa de dieta permitisse o mesmo.
A bruxa disse que eu vou ter dificuldades para perder peso agora. Coisas da idade, parece.
Sabe que até passou o nozinho de tristeza que levo no peito desde uns dias? Acho que escrever-te ajudou-me a melhorar o astral. Prometo escrever mais vezes.
Beijo-te com toda a saudade e amor. Como sempre.

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Amantes e Amados…

Ontem assisti uma entrevista com Antonio Gala, um famoso escritor espanhol.
A pergunta que lhe fizeram era sobre o efeito do amor em sua larga vida e porque ele sempre chamava seu par de “amante”.
Ele respondeu que era sempre o amado. Que existiam dois tipos de pessoas. Uns que são amantes e outros que são amados.
O amante doa, se entrega, mima, inunda.
O amado recebe, se deixa tomar e mimar, deixa-se inundar.
Ele defende que ambos amam. Ambos estão inteiros na relação. Nenhum dos dois amores é maior que o outro. Nenhum dos dois enamorados é dono de mais amor. Gala diz que é apenas a forma de amar que faz a diferença.
Hum? É?
Pensei então que dois amantes ou dois amados não poderiam permanecer muito tempo juntos. Correriam o risco de viverem exaustos.
Os amantes sofreriam por excesso. Os amados pela falta constante.
Refleti sobre a questão enquanto fazia um café, e como a Shirley Valentine do filme, fiz perguntas às paredes, mas desta vez eu queria respostas mais reais que as que eu mesmo crio para elas.
Com o blog descobri que do outro lado da tela do computador há um mundo à escuta. E que maravilha! – um mundo que responde.
Achei que o tema era bom para compartilhar, para provocar a reflexão nas pessoas.
Pois sim…
Decidi começar e reponder já escrevendo minha opinião.
Aí vai.
Sou muito amante. É minha natureza.
Creio, porém, que ninguém pode viver um amor feliz se for apenas amante ou amado.
Os enamorados mais felizes são, dentro do mesmo ser, amantes e amados.
Uma destas partes pode ser a dominante, o que não quer dizer que a outra não exista e exija sua parte.
Foi preciso um tempo para que eu aprendesse a deixar minha parte que quer ser amada fluir, florescer, brotar. Aos poucos fui aprendendo a revesar os papéis, deixar-me cuidar e mimar, deixar-me ser levada. É tão bom!
Agora eu penso que sou melhor amante do que quando era mais jovem, porque aprendi a deixar-me ser amada.
Se eu pudesse interferir na entrevista de ontem diria que ser só amante cansa e ser só amado enjoa.
Talvez por isso tantos casais vivem, depois do tempo da paixão, num terreno vazio…

Foto: Quint Buchholz, “On the Way Book”

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Carta de Amor…

Hoje eu queria te dar mil beijos, satisfazer teus desejos, te mostrar que sou teu par.
Hoje eu queria te fazer bem pela vida afora…
Te dar O Amor nos Tempos do Cólera para lermos juntos, um dia, na rede do invernadeiro.
Queria te contar mil estórias.
Te fazer rir até a boca doer. Até você se jogar num chão de areia branquinha e ficar soluçando de riso desperdiçado, espalhado, expandido, os braços abertos, a cabeça em meu colo até dormir de cansado…
Queria te fazer contente, como em dia de aniversário ou dia dos namorados, ou dos natais da infância.
Te dar meus sorrisos cheio de covinhas, meu colo macio, meu alento.
Queria te dar, numa cesta de vime, mil presentes: um adágio de Bach, duas estrelas cadentes, um prato de camarões vermelhos lá do bar da velha Beata, perto daquele rio…
Um por do sol rosado, incandescente, por trás das casuarinas. Daqueles bem demorados, por causa dos dias tristes…
O melhor banho de chuva do mundo, na Estrada Real do Poço, pulando com os dois pés na maior poça da rua, nos dois molhados até os ossos. Gargalhando… gargalhando…
Um abraço no meu Baobá, que só eu sei que é meu… e onde está.
Uma taça de vinho tinto, para esquentar o coração.
Ingressos para o festival de ópera de Verona, com estadia em Veneza… tudo grátis… tudo grátis!
Um sorvete de casquinha, o sabor você escolhe: cajá, pinha, pitanga?
Um algodão doce crequento, daquele antigo, feito em bacia. Parece nuvem…parece nuvem!
Limpar-nos os rostos a beijos doces.Tão doces!
Um Aleph, no décimo nono degrau de alguma escada, porque o J.L.Borges disse que se vê toda a vida e tudo em um mísero e rápido olhar…
Uma lua nascendo enorme, para você agradecer à vida.

Um búzio grande e rosado para voce ouvir o mar, qualquer mar que recorde…chuam!chuam!
Um caleidoscópio de lata, que faz txim..txim quando você o gira e vê mil formas coloridas. E voce ri como doido. E descobre como é bom rir como doido.
Toda a alegria que couber em você e o que derramar, você distribui por aí.
Uma caixinha de biscoitos da sorte. Cada um com uma mensagem de boa ventura. E se sentarmos para comer tudo de uma vez, teremos toda a sorte da vida num só dia…
Uma fogueirinha com todas as mágoas e maldades que a vida tenha deixado em você. E com a fumaça, o esquecimento. Assim faziam os índios, não?
Duas lembranças gostosas por dia, daquelas que fazem a gente ficar com o olhar fixo e perdido, um meio sorriso nos lábios e …depois um longo e ruidoso suspiro.
Uma lata grande de paz, mas só abra de vez em quando. Na natureza profunda, muita paz é como a morte. É preciso alguma forma de sofrimento, alguma dor de saudade para gente saber vale a pena estar vivo…” Mesmo uma pedra é uma dança de elétrons.” li em algum lugar. Nunca esqueci.
Então… ponho um vidro grande de lágrimas quentes, para o caso de precisar…
É preciso que dance sua música…e às vezes ela pode ser triste.
Mas também ponho uma cartola com o fundo falso e lenços coloridos, para voce fingir de Mandrake…palmas!palmas!
E um papagaio que fale mil e uma sacanagens, para voce embolar de rir, mesmo já sabendo delas todas.
Também tem uma caixinha com vários tipos de silêncios, para você escolher aquele que mais precise…
Ah! e dez noites seguidas de sono perfeito. E quantas quiser de amor bem feito…
Uma cortina de longos e castanhos cabelos, para vestir seu corpo de arrepios. Um par de olhos molhados, pedintes, entregues. Uma boca de lábios sedentos…e mil beijos de borboleta.
Um sonho bom como se fosse verdade.
Uma verdade que parece um sonho.
Um mar com um arco-iris…
E todo o amor da mulher que voce escolheu para amar.

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