Corpo&Alma de Mulher

Vem menina, vem…

740_10151198882352607_1227432150_nEu prometo que vou cuidar de você.  Prometo nunca mais te dizer as coisas que eu te digo quando estou assim, confusa. Prometo não  te tratar mal. Prometo que não vou mais te deixar sozinha, nem fingir que tu não existes, só porque eu estou cada dia mais lenta, mais pesada,  mais insegura…

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Para mim mesma…

Eu guardei este texto para voltar a ele muitas vezes. Também para poder compartilhar com minhas velhas e novas amigas… Acho que ele é perfeito, embora  eu esteja, finalmente, tirando essa palavra do meu dicionário…

VOCABULÁRIO  FEMININO.

por Leila Ferreira

Se eu tivesse que escolher uma palavra- apenas uma -para ser item obrigatório no vocabulário da mulher de hoje, essa palavra seria um verbo de quatro sílabas: descomplicar. Depois de infinitas (e imensas) conquistas, acho que está passando da hora de aprendermos a viver com mais leveza: exigir menos dos outros e de nós próprias, cobrar menos, reclamar menos, carregar menos culpa, olhar menos para o espelho.

Descomplicar talvez seja o atalho mais seguro para chegarmos à tão falada qualidade de vida que queremos – e merecemos – ter. Mas há outras palavras que não podem faltar no kit existencial da mulher moderna. Amizade, por exemplo. Acostumadas a concentrar nossos sentimentos (e nossa energia…) nas relações amorosas, acabamos deixando as amigas em segundo plano.  E nada, mas nada mesmo, faz tão bem para uma mulher quanto a convivência com as amigas. Ir ao cinema com elas (que gostam dos mesmos filmes que a gente), sair sem ter hora para voltar, compartilhar uma caipivodka de morango e repetir as histórias que já nos contamos mil vezes- isso, sim, faz bem para a pele.

Para a alma, então, nem se fala.

Ao menos uma vez por mês, deixe o marido ou o namorado em casa, prometa-se que não vai ligar para ele nem uma vez (desligue o celular, se for preciso) e desfrute os prazeres que só um aboa amizade consegue proporcionar. E, já que falamos em desligar o celular, incorpore ao seu vocabulárioduas palavras que têm estado ausentes do cotidiano feminino: pausa e silêncio.

Aprenda a parar, nem que seja por cinco minutos, três vezes por semana, duas vezes por mês, ou uma vez por dia- não importa -e a ficar em silêncio.  Essas pausas silenciosas nos permitem refletir ,contar até 100 antes de uma decisão importante, entender melhor os próprios sentimentos, reencontrar a serenidade e o equilíbrio quando é preciso.

Também abra espaço, no vocabulário e no cotidiano, para o verbo rir.

a-madura-con-arrugasNão há creme anti-idade nem botox que salve a expressão de uma mulher mal-humorada. Azedume e amargura são palavras que devem ser banidas do nosso dia a dia. Se for preciso, pegue uma comédia na locadora, preste atenção na conversa de duas crianças, marque um encontro com aquela amiga engraçada – faça qualquer coisa, mas ria. O riso nos salva de nós mesmas, cura nossas angústias e nos reconcilia com a vida.

Quanto à palavra dieta,cuidado: mulheres que falam em regime o tempo todo costumam ser péssimas companhias.  Deixe para discutir carboidratos  e afins no banheiro feminino ou no consultório do endocrinologista… Nas mesas de restaurantes, nem pensar.  Se for para ficar contando calorias, descrevendo a própria culpa e olhando para a sobremesa do companheiro de mesa com reprovação e inveja, melhor ficar em casa e desfrutar sua salada de alface  e seu chá verde sozinha.

Uma sugestão?

Tente trocar a obsessão pela dieta por outra palavra que, essa sim, deveria guiar nossos atos 24 horas por dia: gentileza. Ter classe não é usar roupas de grife: é ser delicada. Saber se comportar é infinitamente mais importante do que saber se vestir.  Resgate aquele velho exercício que anda esquecido: aprenda a se colocar no lugar do outro, e trate-o como você gostaria de ser tratada, seja no trânsito, na fila do banco, na empresa onde trabalha, em casa, no supermercado, na academia.

E, para encerrar, não deixe de conjugar dois verbos que deveriam ser indissociáveis da vida :sonhar e recomeçar.  Sonhe com aquela viagem ao exterior, aquele fim de semana na praia , o curso que você ainda vai fazer, a promoção que vai conquistar um dia, aquele homem que um dia (quem sabe?) ainda vai ser seu, sonhe que está beijando o Brad Pitt …  sonhar é quase fazer acontecer.

Sonhe até que aconteça..

E recomece, sempre que for preciso: seja na carreira, na vida amorosa, nos relacionamentos familiares. A vida nos dá um espaço de manobra:  use-o para reinventar a si mesma.

E, por último (agora, sim, encerrando), risque do seu Aurélio a palavra perfeição. O dicionário das mulheres interessantes inclui fragilidades,  inseguranças, limites. Pare de brigar com você mesma para ser a mãe perfeita, a dona de casa impecável, a profissional que sabe tudo, a esposa nota mil.  Acima de tudo, elimine de sua vida o desgaste que é tentar ter coxas sem celulite, rosto sem rugas, cabelos que não arrepiam, bumbum que encara qualquer biquíni.

Mulheres reais são mulheres imperfeitas.

E mulheres que se aceitam como imperfeitas são mulheres livres.

Viver não é (e nunca foi) fácil, mas, quando se elimina o excesso de peso da bagagem (e a busca da perfeição pesa toneladas), a tão sonhada felicidade fica muito mais possível.

Leila Ferreira, está fazendo tratamento de um câncer de mama.

 

 

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Neuras & Medos

De repente eu acordei no meio da noite para coçar a pele sob o braço. E depois, acordei outra vez para coçar o outro braço… e segui acordando toda a noite para coçar outras partes do meu corpo. Por volta das quatro da madrugada minha mente já havia disparado…que-diabo-é-isso?

O medo desceu com seu manto negro sobre a consciência e a razão. Como assim?

Minha amiga de toda a vida havia me contado que um sintoma de seu linfoma foi começar a coçar o corpo inteiro. sem razão de ser.  Primeiro pensou que era uma intoxicação alimentar, depois uma alergia, depois… era o linfoma mesmo.Eu tinha tomado uma simples sopa. Tinha tomado uma ducha antes de dormir, nunca fui alérgica a nada… e que coceira miserável era aquela que já estava me enlouquecendo?

Mal pude esperar que amanhecesse para correr para o telefone com o livreto da assistência médica na mão. Liguei para o primeiro dermatologista da lista, mas descartei-o assim que soube que ele só tinha hora para dentro de dois meses. Dois meses? Sem dormir e com esse monstro dentro do sangue? Vou descascar antes, vou morrer antes. Como assim dois meses?

Liguei para o segundo, o terceiro, o quarto… nada antes de duas semanas. No quinto nome, descobri pelo sobrenome da médica que ela havia estudado comigo no colegial. Pronto! “Use a imaginação, não deixe a secretária impedir-lhe de falar com ela.”  Assim que a atendente disse alô eu falei tudo correndo que era para ela não entender nada, deixando apenas as palavras importantes “urgência, amiga, infância, família”… Ela passou a ligação, eu me identifiquei e convenci minha ex-colega de escola da urgência em ver-me.

Pleaaaaaaaaaaaaaaaaaase! Estou louca de coceira…

Ela me pediu para ir no final do expediente. Pelo menos para acalmar-me. Ok. Mas no mesmo dia, já, hoje!O dia passou como se fosse um filme em câmara lenta. Eu imaginava meu futuro com desespero, como contar à minha mãe… e pior, à minha filha? Como assim? Não comi. Não trabalhei, não conversei… tentava não me coçar, mas não conseguia controlar-me muito. A pele da barriga e dos braços já apresentava umas bolinhas vermelhas, e ardia. Me meti embaixo do chuveiro e fiquei ali, com água fria sobre a cabeça, esfriando os miolos por muito tempo. Quando comecei a ter frio me enrolei na toalha e me meti na cama outra vez, uma dormidinha não me cairia mal. Até que a coceira recomeçou… e os maus pensamentos com ela.

À tarde eu já havia passado por todo o inferno de exames que minha amiga havia passado em São Paulo e já estava desesperada com o diagnóstico. Não pude mais esperar e corri para o consultório da médica muito antes da hora combinada. Como pode uma hora se transformar em seis? Pois foi como se.

Quando ela abriu a porta do consultório para mim, entrei já com lágrimas nos olhos. E quando ela pegou a lupa e acendeu o super holofote de luz branca sobre minha pele, eu parei de respirar.

-Hum…

-Que?

-Isso está me parecendo… escabiose.

-E? Isso é…

-Vulgarmente chamada de sarna.

-Heim?! Tem certeza?

-Absoluta.

-Hahahahahah! Sarna é???? Tem certeza, né? Hahahahahah… que maravilha!

Ela não entendia o motivo das minhas risadas histéricas e minha alegria. Nunca um cliente havia ficado tão eufórico com um diagnóstico desses. Eu deveria estar morta de vergonha… e estava. Mas sorria de felicidade. Como assim Sarna? Onde peguei isso? Hahahahaha! Ela disse que procurasse o agente transmissor, trocasse a roupa de cama todos os dias e lavasse a roupa vestida separada dos outros ocupantes da casa.

Saí do consultório com uma receita simples, sentindo-me leve como uma pluma. “Sarna. Eu SÓ tenho sarna. Onde e como eu peguei isso é outro problema. Um minúsculo problema.” Descobri rapidinho. Simples. Minha filha levava, todas as tardes, para a minha cama, o bebê da vizinha, que tinha uma empregada empelotada de escabiose.
Eca! hahahahhahahahahha… mas era só isso.

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Cesta de Gatos…

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Outubro. O mês da chegada do friozinho que eu amo. O mês das folhas amarelas e vermelhas do outono europeu, tão lindo, tão melancólico, tão música clássica no ar.
Eu podia ver os esquilos que moravam numa de minhas árvores descendo do ninho para buscar as nozes que eu havia deixado para eles num prato grande de barro, provocando a saudade antecipada que me perseguia desde dois meses antes. Ultimo café quentinho na caneca azul, ao som de Vivaldi, olhando por aquela enorme porta de vidro que dava para o jardim, já com cara de triste e sozinho.
Eu sabia que o próximo “dono” não iria morar ali e uma casa sem gente perde em vida. Um jardim, então, sofre demais. Por isso eu havia presenteado aos vizinhos e amigos todas as minhas plantas. A “selva amazônica”, como eles chamavam, já estava distribuída e ele já parecia meio nu, meio abandonado.
Bem que eu queria poder levar a casa interinha conosco!
De volta ao futuro me dei conta do caminhão na porta dos fundos, devidamente autorizado para transportar tudo o que eu havia previamente organizado por setores da casa: quarto azul, quarto laranja, quarto de hóspedes, “habitación de matrimonio”, livros, livros e livros… cozinha, 3 banheiros, escritório, salão, mais livros e livros e livros…que casa tão imensa, meu Deus!
Pois sim… Consegui organizá-la muito bem – enquanto todas as bruxas dormiam – durante as semanas que antecederam a data. Porcarias devidamente jogadas no lixo, coisas desnecessárias para dentro dos baús de “guardados-desnecesariamente-guardados”, coisas essenciais e importantes encaixotadas, com etiquetas e tudo.
Isso fui fazendo dia após dia com uma dor nas costas que não me abandonava e noite após noite de insônia em que, de olhos fechados mas totalmente desperta, eu arrumava e desarrumava tudo outra vez, tinha ideias fantásticas do que fazer no dia seguinte, que logo seriam esquecidas. E uma impaciência que já estava transbordando por todas as saídas do meu corpo.
Então chegou o bendito dia. Três criaturas absolutamente desconhecidas mexendo em toda parte, entrando em todos os cômodos, abrindo e esvaziando todas as minhas gavetas, metendo cada objeto em imensas caixas com letras e números. H1, H2, H3… ESCR, COZ, BAN, ENTR. Cada caixa dizendo de onde havia sido retirado seu conteúdo.
Fácil assim. Depois era só desembalar tudo e guardar…
Onde?
A cesta de gato para onde seguia aquele mundaréu de caixas imensas tinha dois quartos pequenos, um banheiro, uma prometida cozinha e um pequeno hall. Ah! e uma sala que não sei por que meu pirata chama de “salón“. Acho que seu costume de viver quase toda a vida em camarotes de barcos e dormir por nove anos em camas de submarinos, essa pequena sala possa mesmo ser chamada assim. Tá. Eu deixo. Mas que é uma salinha de nada, é!

Tá bom. Tá bom. Isso eu já sabia. Estávamos levando o essencial: perto de dois mil livros, oitocentos CDs, poucas roupas (só o que passou pelo crivo), objetos para cozinhar ( não tinha quase nada ) e comida, alguns móveis comprados de ultima hora: 15 estantes, 1 sofá, 2 poltronas, 1 cama, 1 guarda roupa, 1 sofá-cama, 3 gaveteiros e 3 mesas de trabalho. Coisas do tipo “monte você mesmo e demonstre a todos o quanto você precisa de nós.” Já reconhecendo nossa ignorância pagamos para que nos montassem os sofás, a cama e o armário do quarto, um dia antes da mudança. O resto ficava para nós. A conta nos convenceu que valia a pena tentar!
Ótimo! Para quem vivia numa casa completamente mobiliada mas não tinha nada, já podíamos contar com um bom começo. Isso mesmo. Como somos organizados e competentes, heim? Assim antes da mudança chegar já teríamos onde dormir e onde guardar o básico. E eu saberia onde estava tudinho, tudinho…
Pois sim.
Eles não são. Nem organizados nem competentes. O guarda-roupa chegou com meio metro a mais do que o tamanho da parede do quarto e teve que voltar. Tivemos que convencer a loja que o erro foi deles, porque a priori eles nunca erram e o culpado é você. Mas não foi. E eles tiverem que vir no dia seguinte. O dia da mudança.
Os sofás também viriam naquela tarde mas, que fatalidade! o pneu furou e eles viriam também no dia seguinte. O dia da mudança.
Foram elas? As bruxas de plantão acordaram, as danadas!?
Então … No dia 17, o caminhão estava parado diante do prédio de uma rua bastante movimentada e não podia fazer nada porque a casa era um verdeiro balaio de gatos. Estava invadida por outros. Gente na sala, no quarto, na cozinha…. Peraí! que cozinha? Aquele buraco negro seria uma cozinha num dia muito distante! Eles não tinham prometido tudo pronto dia 15? Depois de mais de um mês de atraso, eles juraram à dona do apartamento que a cozinha estaria prontíssima no dia 15 de outubro. O que era aquilo? Como assim pronta?
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Quando estará terminada, perguntei com cara de choro? “Na segunda feira, senhora. Isso se faz neste final de semana.” Eu juro que quis acreditar. Mas estava difícil, viu.
Dizem que as pessoas que trabalham na construção tem uma forma distinta de funcionar. Tempo é algo que não existe. E o cliente é aquele ser incômodo que está aí para fazer perguntas impossíveis de responder. É absolutamente necessário enganá-lo! Quem mandou perguntar besteira!
Entrei na sala e vi dois sujeitos que estava montando um sofá que não era o que eu havia comprado! Trouxeram um outro sofá!
Como assim?
Esses também são seres especiais. Eles agem como se estivessem ali por acaso. Não representam a empresa onde trabalham. Aliás eles nem conhecem ninguém naquela empresa, iam passando pela rua e lhe mandaram entregar esse sofá na casa daqueles desconhecidos, que por acaso estavam pagando pelo serviço. É assim mesmo?
É. Pelo menos é o que parece ser. Eles disseram que entrássemos em contato com a loja e se foram. E por cima deixaram um super sofá branco que ocupava mais da metade del salón, que não era meu e que ia se encher de poeira e cimento. Pânico na garganta. Onde estavam aquelas lágrimas que pareciam prestes a sair na porta do inferno negro que chamavam de cozinha? Dei a volta e fui para o quarto onde montavam o guarda roupa, finalmente com a medida certa. Um pó de madeira cortada cobria toda o colchão da cama onde pensávamos que íamos poder dormir. Em estado de choque eu não podia nem chorar de tao cansada. O pirata estava com uma cara de “vou-fugir-no-próximo-barco-que-passe-na-porta”. Porque só faltava passar um barco pela rua, em plena meseta castelhana. Juro que eu iria também. Com gosto!
Telefonei para um amigo que vive em Madrid e pedi guarida. Por umas duas noites. Queria ser otimista, juro. Até que soube que a mudança dormiria no caminhão, diante da porta do prédio. Até amanha. Heim? Heim?
Eu sou brasileira. Tenho experiências traumáticas, será que ninguém entende? Minha mudança ia dormir na rua? Como assim? E eu? Como dormir sem sonhar que no dia seguinte não haveria nem o caminhão para contar a história do saque! Uffffff!
Calma. Calma. Não havia outra saída, nem outro lugar. Ia ficar ali mesmo, bem no meio da rua.
Amanhã a gente volta“, disseram os três desconhecidos
Tá.
Então foi o que decidimos.
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Voltamos no dia seguinte e respirei fundo. Estava tudo tranquilamente onde deixamos! E ao abrir as portas, não faltava absolutamente nada!
Yes!
Decidimos amontoar as caixas no hall e em um dos quartos. Não cabiam, claro. Então elas começaram a se espalhar pela sala e pelo meu quarto também. As montanhas de caixas criavam um ambiente perfeito para um pesadelo: morrer embaixo de uma delas.
A dor nas costas crescia, crescia.
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Todos os dias eu voltava e tentava abrir caixas, organizar os armários, mas organizar era uma palavra que simplesmente não entrava naquele lugar. As coisas saíam das caixas mas elas apenas mudavam de um lugar para outro, formando outras pilhas espalhadas por toda a casa, sem qualquer sentido comum. E meu calmante natureba só chegava do trabalho no final da tarde! Ele vinha cansado mas disposto a montar as estantes onde pôr os milhares de livros e discos. Era preciso esvaziar espaços senão eu ia morrer de claustrofobia!
O buraco negro chamado cozinha foi se vestindo de madeira e cerâmica, len-ta-men-te. M-u-i-t-o       l-e-n-t-a-m-e-n-t-e !
Dormimos na casa do amigo até o dia 22. Seis dias depois da mudança. Que mudança? Eu não estava nem em uma casa nem em outra. Estava no limbo!
Neste dia havia uma promessa formal do pseudo-profissional responsável (? ) pela obra de montar a caldeira de água quente, fundamental para a saúde mental e física de quem tem que tomar banho nesta terra onde a água é gelaaaada em qualquer época do ano. Ele também teria que montar as cortinas, retiradas antes da pintura do apartamento. Tá.
A criatura chegou com três horas de atraso, impedindo a empresa contratada para a limpeza da obra de realizar seu trabalho, seu ajudante montou a caldeira e já iam saindo quando perguntei pelos móveis e eletrodomésticos. Não pergunte! Disseram-me seus olhos. Lá vou eu ter que enganá-la outra vez! Olhando para a janela como se eu não estivesse ali ele resmungou que estava pensando em telefonar-me no dia seguinte para avisar-me quando viria a empresa que montaria a cozinha. Fogão, geladeira, pia… TUDO! Talvez na segunda feira seguinte. Heim?!
Perguntei ( De novo! Que ousada!) pelas cortinas. Cortinas? Ele me olhou como se eu fosse um ET. Disse que não sabia delas, que guardou-as nuns sacos negros de lixo e que deixou-as – com muito cuidado – na entrada, bem ao lado do lixo da obra. Que inteligente, não? Em bolsas de lixo, ao lado do lixo. Desde quando isso se chamava “guardar“?
Isto é, o sujeito “desapareceu” as minhas caríssimas cortinas… todas.
E para piorar sugeriu que quem havia jogado fora os sacos de lixo tinha sido eu e meus ajudantes da mudança. Heim?
Ataquei. Cresci uns dez centímetros. Avancei para o sujeitinho de rabo-de-cavalo e cara de rato e ele recuou até a parede apavorado.
Não, não foi físico o meu ataque. Foi psíquico. Avancei dois passos em sua direção com uma cara de louca mais ou menos igual a de Mme Mim, descabelada e com os olhos injetados de raiva. Aposto que ele está em pânico até agora. Ho ho ho!


Soltando fogo pelo olhar e cuspindo cada palavra como uma serpente malvada eu disse que ele não me tratasse como uma das suas clientes idiotas, que eu exigia respeito, que ele era absolutamente responsável por tudo o que dissesse respeito à obra e seus resultados, que parasse de mentir descaradamente e responsabilizar-me por sua incompetência. Que ele não estava atrasado dois ou três dias e sim quarenta e cinco e que eu não iria admitir que me tratasse como uma imbecil. Queria minha casa JÁ. Habitável. Pronta. E cada cortina em seu lugar ou outras exatamente iguais. E que a partir de agora eu iria acampar bem diante da porta da cozinha para acompanhar cada passo seu dentro da MINHA casa, que lhe telefonaria a cada dez minutos para que me dissesse a verdade e respondesse pelo trabalho que lhe haviam contratado. Tudo isso sem respirar. Sibilando entre os dentes. Assustador, nãao???
Todos os outros cinco homens ( quatro da limpeza que não se fez completa por sua culpa ) que estavam ali naquele momento pararam o que faziam para escutar-me. Nunca falei um Espanhol bem falado e claro como naquela tarde.
Pronto. Depois disso fiquei doente. A dor nas costas, que me acompanhava há quase um mês, aumentou desesperadamente porque toda a raiva ficou presa naquela parte do meu corpo. Por quatro dias não pude mover-me, nem arrumar caixas, nem tomar banho sozinha, nem nadica de nada. Verdadeiramente acampei na porta da cozinha, deitada numa das maravilhosas poltronas brancas e cobertas de plástico cheio de pó de cimento. A loja só veio trocá-la mais de uma semana depois da entrega equivocada. F*-se!
Da quarta até o sábado eu só chorava todas as lágrimas que estavam presas no nó da garganta. E fabriquei muitas mais. Eu era uma enorme lágrima! Não dormia quase nada. Cansei muito.
Só Domingo pude sair pelas ruas de Madrid e aproveitar uma bela manhã de sol!
A cozinha foi vestindo-se e agora há um sujeito competente lá, montando tudo, enquanto escrevo esse texto procurando não sentir toda a raiva outra vez, por causa da dor… vai que ela resolve voltar.
Já posso respirar e tomar banho sozinha. Já posso andar sem ter vontade de chorar a cada movimento. Não vou arriscar.
Ele também não arrisca. Desde aquele ataque verbal o homenzinho cara de rato nunca mais voltou aqui. Manda tudo por controle remoto: um pedreiro da Romênia que mal fala Espanhol e que me olha com pena e cara de carinho. Melhor. Prefiro não ver o rato.
Só quero minhas cortinas nas janelas. Já.
não existe aqui. Preciso esquecer a palavra. Isso ele ainda não solucionou. Mas vai solucionar. Ah, vai.
Preciso esquecê-lo também para recomeçar minha vida.
Nada mal heim, para uma mulher que pensava que tinha a vida resolvida na entrada do século XXI e que nos primeiros dois anos do novo milênio abandona seu país atrás de uns olhos-de-mar-azul pelos quais está absolutamente em surto amoroso. E depois de viver no mato, rodeada de esquilos e raposas, os melhores anos de felicidade de toda a sua vida e de casar com o dono do sorriso tarja preta mais belo do planeta… agora vai viver alguns anos ” en los Madriles”.
Claro que a história não podia ser simples e comum, se tratando de mim. Faz uma semana que comemos sandwiches prontos com coca-cola em pratos e copos de plástico, dormimos numa deliciosa cama nova rodeados de montanhas de caixotes, temos uma imensa lista de “necessidades urgentes” , não sabemos onde está nossa roupa, não podemos comemorar a nova vida pois estou tomando umas bombas de anti inflamatórios e… ainda não parece que vivo em Madrid.
A mudança estava programada para o dia 05 de setembro. Adiada para o dia 10, depois para o dia 20 e finalmente para o mês seguinte, em 15 de outubro. Ainda dei dois dias de lambuja, por se acaso…
Estamos em 28 de outubro e nós ainda não consideramos a mudança feita.
Todo mundo já sabe que não pode viajar comigo porque as coisas nos aeroportos nunca funcionam como deveriam. Agora já sabem que não podem fazer mudanças também.
Ah!… e tenho passagens compradas para Lisboa no próximo dia 5. Ainda não sei nem o que vou pôr na maleta e … por falar nisso, onde está meu passaporte?
Ai meu Deus…
……………………………………………………………………………….
Pois é. O texto estava escrito, mas não pude publicá-lo. Não tinha Internet em casa, nem tinha casa, nem tinha espírito, nem tinha vontade.
Fui à Lisboa e Sintra pela primeira vez e fiquei encantada. Foi como encontrar um oásis dentro do deserto. Dormir num quarto de hotel limpo com cortinas e privacidade, sair para passear sem preocupar-me com nada mais do que ser feliz por quatro dias tranquilos e belos.
Foi fantástico fazer a viagem e nos ajudou a relaxar para encarar a tarefa de “fabricar” uma casinha gostosa na volta.
Demorou mais do que esperávamos, mas conseguimos. Já podemos cozinhar, ver televisão e escutar música. Já tenho minha mesa de trabalho montada num escritório inventado bem no “ex-hall” do apartamento, os abrigos em seu armário, as roupas no guarda roupa e uma caneca de chá verde, quentinho, bem na minha frente.

Entre Outubro e Janeiro minha filha veio viver em nosso caos ajudando a reforçá-lo*, com mais caixas, roupas e livros… e livros, videos e CDs. Recebi hóspedes ( juro que não sei como, mas mesmo assim foi bárbaro! ) viajei, voltei, viajei outra vez, comemorei O Natal em Tarifa e o Ano Novo na Cesta, com uma ceia deliciosa.

Agora já posso dizer:

O passaporte está desaparecido outra vez, mas esses detalhes precisam de mais tempo. As coisas também tem alma e escolhem seus lugares dentro da nova morada.
Fazem quatro dias que tenho um prazer novo: a rotina.
Que delícia!
* Ela, a filha, bem que tentou trazer os ramsters, a tartaruga e os peixes… mas eu só deixei vir a gata. Zefini. Sem negociações!

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Tentações…Bolo de Chocolate Express!

Nem só de música vive o meu espírito!

Essa coisinha tão linda é um bolo. Simpático não é????
E a foto está maravilhosa! Dá vontade de ir imediatamente à cozinha e começar a fabricar um. Ainda mais quando se sabe que ele vai ficar pronto em aproximados 3 minutos!
Três miseráveis minutinhos… para uma dose maciça de serotonina nos neurônios sofridos de uma ex-tranquila mulher, atacada covardemente por uma TPM fora de hora e de lugar!
Claro… estou aqui lutando para não ceder à chantagem da foto, que quase dá para a gente sentir o gosto do bolo. E por cima a receita, simples, fácil, leve e rápida é absolutamente irresistível!
Aí vai a danada…
Enquanto vocês lêem, eu vou ali na cozinha…beber água.

BOLO NA CANECA

(Por Anna Aurich)
Encontrada no blog da Angela Maria. Copiei tal qual.
bolo na caneca em 3 min.
Então… Imagine uma cozinha gostosa, uma boa música tocando no IPod… e de repente você resolve tomar um chocolatezinho básico e quente, antes de ir dormir. Pensamento razoável em tempos de TPM menopausico!
( Já sei que os homens também tem menopausa, chama-se andropausa e eles resolvem com uma cervejinha, um jogo e o controle remoto da TV. )
Tá bom, supondo que a foto também inspire os representantes do genero masculino adeptos ao chocoserotoninalate…. seguimos.
Agora você decide dar asas à sua imaginação, pega uma bela caneca de 300ml e alguns ingredientes no armário. Aí vc bate os ingredientes na própria caneca c/ um garfo e põe no microondas por 3 minutos. A felicidade lhe invade imediatamente porque você já sabe o que vem pela frente.
OH GOD! OH YES!

INGREDIENTES

– 1 ovo pequeno
– 4 colheres (sopa) de leite
– 3 colheres (sopa) de óleo
– 2 colheres (sopa) rasas de chocolate em pó
– 4 colheres (sopa) rasas de açúcar
– 4 colheres (sopa) rasas de farinha de trigo
– 1 colher (café) rasa de fermento em pó

MODO DE PREPARO

Coloque o ovo na caneca e bata bem c/ garfo.
Acrescente o óleo, o açúcar, o leite, o chocolate e bata mais.
Acrescente a farinha e o fermento e mexa delicadamente até incorporar.
Leve por 3 minutos no microondas na potência máxima.
OBS.A massa crua é mais mole q a de um bolo normal mas é assim mesmo. Não aumente a farinha ou terá um bolo duro!
Esta fórmula em dobro dá para três canecas de 300 ml.

DICAS

– A caneca deve ter capacidade de 300ml.
– 2 min e 30 seg. na potência máxima são suficientes.
– A medida de colher é sempre rasa.
– Vc pode servir este bolo c/ coberturas, caldas, castanhas e sorvete.
E pode comer quente!
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Imaginou???
Repetindo uma amiga pernambucana quando veio à Madrid em plena dieta:

“Chocolate podje… Água não podje!”

Oh, jesuscristinho…me proteja das tentações!

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Ai…Ai…

Ando tão cansada da luta constante contra esse trocinho infeliz que marca o peso das pobres pessoas! Se é tão simples ser feliz com um pedaço razoável de queijo curado, um bom vinho tinto e um pão chapata quentinho!
E aquele sujeito franzino me manda substituir a felicidade por abacaxi e espargos?!

E eu ainda pago para tomar umas pílulas coloridas de fibra ( natural?) que me deixam entupida, ansiosa e triste?!

Quem mandou dar tanto poder a um desconhecido magrelo, branquelo, com menos de trinta anos e, arrisco inclusive a dizer,  com pouquíssima experiência de perdas e ganhos, para que acione o maldito equipamento que detecta qualquer deslize feliz cometido durante uma mísera semana!!
gordinha test
Eu preciso acreditar que é só por um tempo… que é só até poder vestir um maiô e não ter vontade de entrar embaixo da cama e ficar ali até o verão passar.

Amanhã tem branquelo e balança… tóin!

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Soube um dia destes que as calorias são uns bichinhos transparentes que vivem dentro dos armários e, durante a noite, apertam as roupas das pessoas. Rá!
Estou deixando a roupa fora do armário por um tempo… por se acaso!

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Crise de Ego…

Andei, por andar andei… e nem todo caminho deu no mar, saio cantando pelas trilhas no alto do monte, rodeada por pinheiros, amapolas, margaridas, florzinhas azuis e brancas que nem sei o nome e me deparo com a vista do campo de trigo do terreno vizinho que volteia com o vento como um mar verdinho ondulado por pequenas ondas marítimas. É tão parecido com um mar de verdade que eu agradeço pelo presente e canto ainda mais alto, como se fosse filha de Caymmi, mesmo sabendo que a verdadeira música não é assim e que sou apenas a filha do Lorde, meu pai , pernambucano com ares de inglês perdido pelas Américas, que cantava como baiano nas tardes de manso sol e pesca paciente das arraias do Janga de antigamente, tão esquecido de sua tendência anglo saxônica e por isso mesmo ainda mais bonito…
Essa é umas das lembranças que afloram em mim cada vez que vejo o verde claro de um mar, mesmo que seja um que é só miragem.
A onda do mar leva… a onda do mar traz, quem vem para beira da praia , morena, não volta nunca mais… sigo cantando.
Mas eu voltei. E tive um banzo maior do que poderia permitir-me. Saudade de minha gente, dos vivos e mortos da minha história mais que tudo. Talvez também aí um pouco de saudade de mim. Dos tempos em que estudava e trabalhava, correndo atrás de um futuro que eu nunca imaginei iria mudar tão radicalmente.
Dizem que a Primavera traz em si a nostalgia. Pode ser. Mas traz também as amapolas e elas salvaram minha alegria.
Uma multidão de amapolas invadiu meu território!
Verdadeiros mares rubros de flores, pequenitas, de tão poucas pétalas, frágeis como o papel de seda , balançando na ponta de talos peludos e débeis, tão fáceis de romper-se que a gente se surpreende que não voem pelos ares com a força de qualquer pé de vento.
As amapolas são como embaixadoras da alegria.
Não há como não rir de boca inteira quando as vemos e eu tenho a sorte de viver muito perto delas.
Por toda parte dos campos elas estão, brincando de serem beijos encarnados da natureza, fazendo cócegas no corpo da gente…

E as rosas.
As mais belas senhoras da primavera madrileña.
Embaixadoras da classe e da elegância, dignas de paixão ou ternura, elas enamoram as pessoas.
Essas me salvaram de uma crise de ego fenomenal!
Uma crise daquelas que a gente fica sem dormir, pensando numa estratégia imediata e eficaz para mudar de personalidade, de nome, de cor da pele e cabelos, de idade, de corpo, de mente e até de alma!
A gente quer se internar num hotel desconhecido e distante de todos e voltar, no dia seguinte, claro! completamente renovada: mais bela, mais magra, mais jovem, mais leve, mais alegre, mais inteligente, mais sagaz, mais culta, mais sexy, mais bronzeada, mais esportiva, mais generosa e segura, mais tudibom.
A estratégia inclui também uma remodelação completa do guarda-roupa: sapatos ma-ra-vi-lho-sos, saias suavemente esvoaçantes, jeans que modelam sem estufar nenhuma dobra ( que dobra?), blusas que não apertem os bracinhos de ex-boxeador (grossos e moles) que de passagem, melhor, deixamos lá naquele hotel desconhecido e ninguém nunca vai saber que a gente os tinha. Trazemos outros mais magros e duros e muito mais estéticos para enfiar numas jaquetas esportivas encantadoras ou levar penduradas as bolsas mais di-vi-nas.
Seria bom uns vestidinhos graciosos, top sexies e pantalonas de gaze para as noites onde a gente pretende abalar a partir de agora! Me aguardem!
E perfumes. Os melhores, mais afrodisíacos e delicados de todo o planeta.
E para completar a transformação, uma coleção de roupa interior, nova, radical-chic, daquelas de revista semanal, bem fofas! Caríssimas, é verdade, mas tanto faz pois são simplesmente impossíveis de encontrar no tamanho extra!

Tóin!
A realidade se impõe! Oh! não… e lá se foi a noite inteira. O relógio marcando quase quatro da manhã, a gente ainda não dormiu e pior, não emagreceu nadica de nada, nem está mais sexy e menos ainda mais inteligente. O idioma novo que a gente ia dominar num pis-pás também não avançou nem uma polegada. Vaya!
Ainda por cima a gente sente pontadas homéricas de fome! ( como assim?), e tem fantasias erótico-festivas de comer qualquer coisa doce e fria, chamada vulgarmente de sorvete, mas que felizmente não tem no congelador porque já faz tempo que não compra essas caixinhas de culpa gelada. Felizmente??!

A gente se vira para um lado e para o outro e nada de sono nem de resolver coisa alguma na vida!
Ainda olha para o peixe-gato que dorme tranquilamente no lado de lá da cama e pensa como é que vai fazer para mante-lo bem ali, juntinho… e parece que o danado escuta a inquietante pergunta e abraça, meio dormindo, a barriga que a gente faz o maior esforço para perder ou devolver a quem a tenha perdido, por favor que aquilo não faz parte da gente, seguramente! – mas que insiste em manter-se colada, grudada, incrustada… e bem palpável, exatamente ali onde ele põe a mão.
Meujesuscristinho, me ajude!
No dia seguinte, que é o mesmo que o dia anterior porque não vale ser “dia seguinte” quando a gente nem dormiu nem acordou, as olheiras confirmam que é urgente encontrar esse hotel desconhecido e distante para se internar agorinha mesmo!
E se ele disser que a gente parece meio cansada, melhor não responder nada que é para o choro não jorrar pelos sete buracos da nossa miserável e infantil cabeça!
Pois sim… crise de ego. Passei uns dias ( e noites ) perdida nela. Querendo ser outra para ser mais exata!
Até que vi as rosas, logo depois da tromba d´água que atingiu Madrid. Maravilhosas!
Elas provocam tamanho sentimento de admiração que as pessoas se enamoram, não apenas por elas, mas também por si mesmas. Assistir sua exuberância perfumada florescer de troncos tão grossos, tortos e escuros… ver seu amanhecer molhado de orvalho, suas pétalas de texturas e cores extraordinárias saírem de tão antigos armários, me renovou o espírito.
Mesmo sem hotel desconhecido e sem perder nem uma grama de peso, organizei a roupa do armário, recuperei blusinhas simpáticas, comprei umas poucas peças básicas, soltas, leves e claras, cortei os cabelos, claro! sem isso nada seria suficiente, não é? e devolvi a eles sua cor original. Agora tenho os cabelos da mesma cor de toda a vida, castanhos escuros, e isso quer dizer que me olho no espelho e me reconheço… pelo menos tento!
Comprei sandálias de esparto, bem típicas da Espanha, saias bonitas, coloridas e alegres como a Primavera e saí por aí com meu Lobo do Mar: Cartagena, Segóvia, Zamora, Toro, Londres, Tarifa, em menos de sessenta dias.
Revi amigos queridos, fiz novas amizades, vi a arte de Tintoretto no Museo del Prado…
Tá bom. Confeso. Também fiz cartase na cozinha. Aproveitei uma noite diante de um bom tinto Rioja, um queijo curado de ovelha e azeitonas cartaginesas e derramei sobre olhos-de-mar-azul minhas mais profundas fantasias de auto-rejeição e recebi amorosos elogios, dengos e tudo o que precisava.
Benzadeus!
Agora é curtir as rosas, o finalzinho da Primavera e tentar desviar minha atenção das neuras femininas do biquine, das piscinas e praias do verão ibérico…
Vou ter que comprar um maiô bem chic! A arte será achar um tamanho extra!
Toc-toc… não quero nem pensar!

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Entre fadas e bruxas. (Cap. 18 )


Quando eu percebi que elas haviam descoberto nossos planos, fiz tudo para agir na surdina… Tentei ir devagar, sem dar muita importância o fato. Afinal casar com olhos-de-mar-azul nem estava mesmo em meus planos iniciais. Viver com ele até o final de meus dias, sim. E talvez fosse mais fácil alcançar meu objetivo sem casar, dizia meu cérebro, amassado pelos anos de solidão em que via tantos casados traindo-se mutuamente, agredindo-se com palavras e atos, sentindo-se amarrados, presos, infelizes e sonhando desesperados com a liberdade. Isso, em geral, eu não via nos casais que viviam juntos apenas porque se queriam, sem o laço oficial da instituição civil ou religiosa.
Tá bom. Posso estar exagerando. Mas eu admito que tinha um medinho de casar de novo…
Entretanto, meu coração era todo mel… e estava tão feliz, enamorado, sonhando em dizer “sim, te quiero” aos olhos mais adoráveis e ao sorriso mais encantador que já encontrei em toda a minha vida, que jogava o medo para o fundo do baú.
A felicidade exige alguns riscos, pensei “fadinha boa”. E chorei desconsoladamente quando, finalmente, fomos entregar os papéis ( difíceis papéis!) ao encarregado do registro civil de Alcalá de Henares e o departamento estava fechado por “vacaciones de verano“. Inacreditável!!!!
Pois sim…
Tivemos que esperar o final do verão para que reabrisse, apenas uma semana antes do final do meu prazo de validade dos documentos e no dia 13 de setembro, depois de uma fila enoooorme, na calçaaaaaaada, com um papelzinho na mão com o número 79 ( sim, isso mesmo), conseguimos sentar diante de um sujeito muito bronzeado, levando duas testemunhas e toda a papelada exigida.

Aí o”gnomo” recebeu tudo, olhou, olhou, olhou… e disse: Tudo bem, tudo certo.
Respirei pela primeira vez em cinco minutos. Mas por que vocês não levaram isso para Santorcaz? Teria sido tudo muito mais simples. Agora, vou ter que mandar os papéis para a prefeitura de lá e daqui que passe um mês de proclamas, que me devolvam, que eu mande para Madrid, que me devolvam… etc. Vai levar uns dois meses!
Perdi o ar de novo. Encarei a criatura com surpresa. Em Santorcaz nos disseram que tudo tinha que ser feito por aqui. Ele nos interrompeu, sorrindo, o desgraçado, ahhhh! como as informações são difícies com essa gente! Tcs.Tcs!
Saí de lá com vontade de voltar em Santorcaz e enforcar a mocinha, que por pura preguiça ou simples falta de interesse em informar-se melhor, havia feito com que eu perdesse quase um mês da validade de meus documentos. Respirei. Não, bufei como um touro bravo! Engoli meus intintos homicidas e resolvi esquecê-la e partir para os seguintes passos a serem dados.
A contar dos dois meses que o “gnomo” nos deu, em 13 de novembro teríamos tudo pronto, então somamos mais um tempo de segurança e marcamos o casamento para 9 de dezembro. Meio frio, mas não tínhamos outra opção.
Comemoramos, junto com meu aniversário, com uma bela viagem de final de semana pelos pueblos medievais de Sória, a convite de um casal de amigos. Estivemos em lugares espetaculares de se ver e estar. Tenho fotos incríveis dos castelos e muralhas medievais, ermitas românicas e igrejas templárias. Aproveitei e disfrutei com gosto e vontade da fantástica gastronomia! Vinhos Ribeira Duero incluídos. Mas esse é outro post, verdade?
Quando voltamos desta viagem eu estava disposta a começar uma dieta organizada, com médico, medicamentos, o que fosse necessário, desde que no dia da boda eu estivesse um pouco mais leve e com a auto estima mais elevada. Tinha quase três meses pela frente e queria estar bonita naquele dia, oras! Afinal seria o alvo de todos os olhares.
Mas, como eu disse antes, elas escutam tudo que eu penso. E preparam armadilhas infalívies.
Em Sória já havia me “despedido” das iguarias e vinhos ( Que comida, meu Deus!) e estava pronta para fechar a boca e só abrir no Natal.
Rá! No dia 20 de setembro lá estava eu na Galícia, para uma semana de comemorações dos 25 anos de formatura do meu “prometido”.
Agora era assim. Fui apresentada a todo mundo como “a prometida”. Ho ho ho!

Sabe que eu gostei? Toda vez que escutava meu novo título abria um sorriso daqueles! Embora tenha percebido uma ou outra careta de surpresa.
Algumas pessoas que frequentaram o passado de olhos-de-mar-azul imaginavam que, só porque ele estava vivendo com uma brasileira, ela deveria ser – com certeza absoluta – uma bela e JOVEM MORENITA, de 22 anos mais ou menos, com grande bunda sob a mini saia verde-amarela e que andava sambando pela rua.
Ah ah ah ah ah!
Olhavam para mim e para ele com uns olhos abertos de Como assim?
Devo dizer, sem medo de errar, que a grande maioria dessas carinhas idiotas foram femininas. Os homens, e sei que alguns pensaram o mesmo, disfarçaram melhor. Mas as mulheres nunca o conseguiram.
E a grande decepção, quase geral, foi quando me convidaram para sambar e eu disse que não sabia.
Heim?! Uma brasileira que não sabe sambar? Falsier, na certa!
Eu morria de rir por dentro. Mas estava tão tranquila que não fiz sequer meio esforço em parecer o que não era, só para agradar a platéia.
Então… entre mais de cem pessoas novas, muitas se aproximaram e estabeleceram uma conversação tranquila, educada e inteligente. As que não quiseram conhecer-me eu simplesmente apaguei do cenário. Estava tão feliz por estar ali, com ele, comemorando um momento tão bonito de sua carreira, que o resto era resto. Trocávamos olhares e sorrisos cúmplices, sorríamos carinhosamente, dançávamos como dois apaixonados. Aproveitamos todos os momentos para estar felizes.
Esta tem sido nossa escolha. Sempre.
As bruxas trabalharam bem naqueles dias e comi tudo de gostoso que a Galícia pode oferecer. E é muito! Vinhos Albariño incluídos. Num dos passeios pelas ruas estreitas de Combarro, uma senhora que vendia recordações da Galícia, bateu palmas quando eu passei. E dezenas de bruxinhas de brinquedo começaram a mover-se e dar risadas malígnas. Era tão engraçado que comecei a rir também! E de repente me vi ali, gargalhando alto com trocentas bruxas. Seria um sinal?
Saí dali depressa. Eu heim!
Também as fadas estavam despertas e estive ma-ra-vi-lho-sa nas roupas que escolhi para as festas. Assim que nem liguei muito para a dieta, até que um dia tive que dar um basta. Meu estômago começou a queixar-se de tantos mariscos e tive que parar. Ufa!
Salva pelo gongo. Não engordei nem uma grama, mas também não emagreci nada.
Minha médica brasileira enviou-me uns medicamentos pelo correio que me ajudariam na luta contra a ansiedade e a vontade de comer qualquer coisa que estivesse na geladeira, mesmo sem fome e eu estava contando que iria encontrá-los esperando-me quando chegasse em casa.
Nada. Não estavam e nunca chegaram! Sumiram no éter!
Nem eu os recebi aqui, nem ela sabe por onde estão. As bruxas devem estar magérrimas voando por aí, mas aqui nunca chegaram as pílulas que me salvariam da histeria pré- casamento que se instala e desenvolve-se a rédeas soltas em qualquer mulher. Juro.
Começou Outubro e com ele veio o outono. Época linda e tranquila para caminhar pelo campo, tentar comer pouco, aproveitar os dias frescos para boas e largas caminhadas, as noites mais longas para planejar a festa do casamento, pensar nos convidados, na comida que iríamos oferecer, a bebida, os doces…
( Pausa para um comentário em voz baixinha: Que merda ter que pensar nisso justo de noite, a boca se enchendo de água e o estômago – bem acostumado aos vinhos e delícias espanholas – pedindo algo parecido e rejeitando, com escandalosos ruídos, o iogurt de cereais Urgh!< Peloamordedeus que tortura! )
Então… Melhor pensar que estaria mais magra e melhor na roupa que usaria e…
Roupa!!! Trrrrimmmm! Saltou o alarma.
Tinha que começar JÁ a pensar em algo.
Mas não era melhor emagrecer um pouco antes de começar a provar o que fosse, pensei como “bruxinha”?
Achei melhor esperar o final do mês para começar a provar roupas enquanto imaginava o que gostaria de vestir no dia do meu casamento. Algo suave e leve, com movimento e classe. Sim, mesmo no inverno! Nada de vestido de noiva, por supuesto.
Mas esse negócio de casar com nenhuma cara de noiva também não me agradava.
Havia estado no casamento de uns amigos há alguns anos atrás e o casal, apesar de feliz e apaixonado, não demonstrava sequer um tracinho leve de que era um par de noivos . Nem alianças trocaram!
Tudo bem que era um casamento apenas no civil, mas achei que podia ter um pouquinho de frisson, um pouquinho de romance. Que custava?
Alianças??? Trrimmmm! Soou outro alarma! Eu queria alianças, por supuesto
Avisei ao meu prometido. Assim… devagarzinho, dando por fato consumado que haveria alianças. Técnica aprendida com a Princesa. Era tiro e queda! Aproveitei uma noite em que escrevia meus planos no caderno e perguntei onde as compraríamos.
“Eu não posso usar aliança”, ele respondeu. Explicou que já havia visto alguns oficiais marinheiros perderem o dedo em manobras nos barcos por causa delas.
Bien, entonces la mia vai poder ser más bonita y más cara!” Sorri inocente, em meu Portuñol.
Saímos para comprar A aliança em Madrid. Era uma noite maravilhosa e fria do outono madrilenho e elegi uma roupa com cuidado. Era uma noite especial, merecia detalhes. Na joalheria escolhi um modelo moderno, de ouro rajado e ele um outro, de bordas arredondadas e que não enganchava em nada. ( Oh! ) Encomendamos as duas.
O vendedor nos olhava surpreendido. Era a primeira vez que um casal encomendava alianças diferentes. Eu sorria de boca inteira.
Que passa? Cada um escolhe a que mais lhe agrada, ou não? Somos diferentes, ora! Mas pelo menos são DUAS!
Saímos para comemorar! Vinhos Rioja incluídos! Um amigo nos ofereceu seu apartamento em Madrid e não voltamos para casa àquela noite.
Que noite fantástica! Eu estava realmente me sentido uma noiva de verdade, com romance colorido e tudo! Muito mais do que na primeira vez que me casei. Que divertido isso! Estava me sentindo leve e completamente relaxada, como se caminhasse a meio palmo do chão. Coisa mais linda e mais gostosa não há que a felicidade das pequenas coisas.
De repente estar caminhando de mãos dadas com ele, o meu ELE, sentindo o ar frio no rosto, percebendo as calçadas cheias de gente, as vitrines iluminadas, as luzes estratégicas dos enormes prédios neoclássicos chamando atenção para as bordas cheias de esculturas, respirando os cheiros dos bares de tapas… era a felicidade perfeita.
Depois de jantar com nossos amigos, eles se foram e deixaram a casa só para nós. Ficamos na saleta do apartamento tomando as últimas copas, recordando os sonhos escritos nos anos em que estivemos nos correspondendo, descobrindo satisfeitos que estávamos transformando todos em realidade e que esta estava saindo ainda melhor do que tínhamos podido imaginar.


Recordei algumas noites em que estive diante do computador, escrevendo mais uma das enormes cartas em que desejei com toda a força do meu ser passar com ele uma noite como aquela.
Recordei o gostinho amargo de solidão que podia guardar uma taça de vinho tinto tomada diante da minha pequena janela de Boa Viagem, numa noite de brumas.
Recordei como desejei estar entre seus braços e que gosto bom deveria ter um Rioja bebido na mesma taça!
Recordamos trechos que havíamos escrito com os detalhes do futuro que queríamos para nós e tomamos plena consciência da alegria que estava sendo descobrir que havíamos ajudado um ao outro a escrever nosso destino.
Era a noite de 16 de outubro. Dentro de um mês as alianças estariam prontas e nossos amigos as recorreriam e nós os convidaríamos a jantar.
Se as bruxas deixassem…

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Elas e Eu… ( Cap 17 )

As famigeradas tentaram de tudo…

Provocaram brigas, esconderam roupas, quebraram carros e portões entre outras cositas mas….
Mas minhas fadas são fantásticas!
E com calma, jeitinho e muita paciência me ajudaram a resolver TUDO!

Venci o round! Mais um!
Muito obrigada pela paciência e os deliciosos comentários.
Antes do final desta semana voltem que haverá post novo.
Juro!
Prometo!
Smack! Smack!

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Manias…

Diálogo telefônico com minha filha:

– Filha, você lembra das minhas manias antes de vir para cá?
– Hãan?
– Sim, minhas manias… as que eu tinha, você lembra? Queria escrever sobre elas, mas não me lembro mais de nenhuma. Acho que perdi minhas manias. E esqueci delas também. Mudei tanto de vida que já nem me lembro de meus detalhes…
– Hahahahha. (Ela gargalhou. Como assim?)
– Claro que me lembro, mãe. Você botava música clássica assim que acordava, antes da ducha e de fazer o café da manhã.
– Tá. Isso ainda faço. Diga outras.
– Me mandava arrumar o guarda-roupa toda vez que eu reclamava não ter nada interessante para fazer.
– Essa eu perdi. Você não mora mais aqui. (Sorri nostalgicamente da lembrança.)
– E também reclamava porque eu não era capaz de encontrar nada, mesmo que estivesse bem diante do meu nariz…
– Você não mora mais comigo, menina… E não quero que se lembre das minhas chatices. Quero só as MANIAS! Não lembra mais de nenhuma?
– Sim. Comprar tudo que estava de oferta, mesmo sem precisar!
– Eu fazia isso?
– Sim, mesmo quando a gente estava sem dinheiro. Chegava em casa com a bandeijinha mais inútil do mundo só porque estava de oferta…
– Hahahahah… verdade . ( Agora quem gargalhou fui eu!) Isso eu perdi. Quer dizer, mais ou menos. Moro tão longe dos centros comerciais que nem dá mais para fazer essas comprinhas inúteis com muita frequência. Mas, de vez em quando, a natureza se impõe. Ainda sou tentada pelas ofertas do supermercado : “Compre cinco tipos diferentes de patês e ganhe uma extraordinária tigelinha de vidro.”
Que porqueira de tigela! Mas eu tenho que fazer força para resistir! Juro!
E, às vezes, ainda não consigo. Outro dia comprei uns biscoitos só porque vinham com uma oferta de 10 miniaturas de carros de corrida para crianças. Estou louca é? Nem há crianças por perto, nem cheiro de futuros netos, nada! Para que quero 10 carrinhos de corrida??
Bueno, guardei em algum lugar (preciso saber onde!) para quando tiver visitas com crianças!
Agora, quer ver-me verdadeiramente insana? Basta entrar numa loja-bazar daquelas que tem milhares de coisinhas espalhadas por quatrocentas e trinta e duas mil prateleiras. Desde bijuteria, esmalte de unhas, maquilagem, tiritas para cabelo, carteiras e bolsinhas de moedas, objetos de decoração (horrorosos) e luminárias, caixas de todos os tamanhos, enfeites para todas as festas desde Aniversário a Carnaval, Natal, São João, Páscoa… e não importa em que época do ano estejamos.
Há também um sem número de fitas e papéis de embrulhar presente, lápis coloridos,canetas de todo tipo, cadernetinhas minúsculas, agendas,etc, etc, etc…( Adoro esta parte. Papéis e canetas me alucinam! ) E finalmente os objetos de cozinha que a gente nunca imaginou que iria necessitar até aquele maravilhoso e mágico dia em que se encontra frente a frente com ele naquela prateleira e se pergunta:“como pude ter vivido tanto tempo sem isso?” Aí a gente fica cega e louca, não resiste e compra. E guarda na gaveta da cozinha para não usar nunca mais… E ele volta a ser tão desnecessário como sempre foi.
Pois é…tenho uma caixa desses engodos.

Então… andei dando uma batida pela casa e pela memória e não descobri minhas novas manias. Das velhas, poucas permanecem. A de botar uma música clássica para tocar antes de fazer qualquer coisa pela manhã é uma delas. E sempre surpreende meus hóspedes.
Uma das minhas visitas ficou encantada com a minha “paz” quando desperto e como consigo fazer tudo tão rápido e ao mesmo tempo tranquilamente. Ela é elétrica e faz tudo “super estressada”. Notei que em sua casa ela escuta um rádio-notícias pela manhã na cozinha. Sugeri que desligasse as notícias, botasse uma boa música e veria a mudança de ritmo e de astral.
Tenho uma relação muito gostosa com a música. Durante o tempo em que estive deprimida, não conseguia escutar música. Nenhuma música. Um dos sintomas de recuperação da saúde foi ter retomado minha relação íntima com ela.

Acho que a mais antiga das minhas manias é grifar frases e trechos do livro que eu estiver lendo e voltar muitas vezes àquelas frases grifadas, mesmo enquanto ainda estou lendo-o. Demoro com um livro que gosto porque volto muitas vezes. Nunca uso um dessses novos marcadores coloridos, nunca com caneta. Acho uma agressão pintar o livro de rosa ou amarelo, então uso um grafite macio, muito antigo, que foi do meu pai e que eu adoro.
Essa é uma boa mania, eu penso. Mas só posso ler o que é meu. Jamais faria o mesmo em livros de outros.
Talvez seja um dos principais motivos pelos quais não gosto de ler livros emprestados.
A última tentativa foi quando estava lendo Vivir Para Contarla, de Garcia Márquez. Estava louca para ler e encontrei-o sobre a mesa na casa vizinha. Ela disse-me que não havia gostado e eu, no impulso, pedi emprestado e comecei no mesmo dia. Parei de repente a leitura e fui comprar um igual só para poder grifar. Eu estava copiando numa cadernetinha ( daquelas de bazar ) o que gostava, mas chegou um ponto em que era impossível continuar. Eu simplesmente não podia tirar certas frases dali. Elas precisavam continuar dentro do livro, mas eu TINHA QUE GRIFAR!
“… o primeiro que me impressionou foi o silêncio. Um silêncio material que havia podido identificar com os olhos vendados entre os outros silêncios do mundo…”
Quando leio algo assim não posso deixar que se perca entre as centenas de palavras da página. Eu simplesmente não posso deixá-la ali sem minha marca…
Uma mania perdida mesmo no passado era a de ir ao cinema todas as semanas, na hora que ninguém ia. Às 12:30, justo no horário de almoço. Eu comprava um sanduiche árabe e um refrigerante, guardava na bolsa de pano e entrava no cinema vazio, sem ninguém. Que delícia! A sala inteira só para mim. As emoções flutuavam livres pelo enorme espaço repleto de cadeiras silenciosas e parece que cresciam, bailavam como fantasmas nas paredes alcochoadas, entravam pelas imagens refletidas da tela, se mesclavam com elas.
Sempre me recordava do filme A Rosa Púrpura do Cairo quando estava ali, tão sozinha com aquelas histórias.Era como se elas estivessem sendo contadas só para mim. ( E estavam.)
Fiz isso por quase três anos. Poucas vezes tive companhia e quando a tive era sempre a mesma. Um senhor calvo que sentava três ou quatro filas mais adiante e cobria a cabeça com um lenço branquíssimo, por causa do frio que fazia na sala. Ambos fazíamos de conta que o outro não estava ali. Nunca sequer nos cumprimentamos.
Quando vim embora deixei o cinema só para ele. Será que notou que eu nunca voltei? Será que ele ainda vai?
Também tinha mania de garimpar discos. Encontrar maravilhas desaparecidas do mercado por preços bem ridículos. Por exemplo, comprei Diane Shurr & B.B.King por cinco reais. E Tom Waits & Cristal Gayle por seis e sessenta e cinco, numa época em que os Cds já estavam por mais de vinte reais.
Consegui comprar também por menos de cinco reais Cds de Mahalia Jackson, Bob Dylan, Ry Cooder, John Coltrane, Dave Brubeck, etc. Comprei por um real e noventa e nove centavos ( agora em 2004, quando fui ao Brasil) três discos de sucessos antigos que são a cara do meu pai e que eu adoro escutar principalmente porque tem The Brother Four, um grupo de folk americano dos anos 50 e 60. Cada vez que os escuto me transporto para o terraço verde e branco da casa do Poço da Panela, em Casa Forte…não importa onde eu esteja de verdade.

Aqui já é mais difícil garimpar pois vou muito pouco às lojas de discos. Essa mania eu perdi por pura falta de oportunidade. Mas ganhei outra. Garimpar as ofertas de jornais e revistas nos maravilhosos quiosques madrilenos. Adoro.
Fora os livros e Cds, que são muitos, fiz uma linda coleção de instrumentos musicais. Nunca fui fã de coleções, mas essa era tão especial que não resisti. Depois vou dá-la de presente ao meu filho postiço, que é músico e está estudando oboé em Londres. Quando ele tiver sua casa, vou presentear a ele minha lindíssima coleção. Um belo presente, sem dúvida! Uma das jóias de minha “herança”. Ho ho ho.

Uma mania atual é botar música dançante enquanto limpo a casa.(Urgh!)
Dá mais ânimo, mais força, mais alegria.(Urgh!)
Dá vontade de fazer festa!
E esqueço que ODEIO o seviço doméstico. Pelo menos eu tento me enganar. Eu tento! Eu tento!
Gosto mais de sentar aqui e blogar. Visitar os blogs amigos, pesquisar textos, copiar fotos para os meus posts e escrever. Fico horas mergulhada aqui e nem sinto o tempo passar. A coluna reclama, mas parece que ela também não gosta dos afazeres domésticos.

Tenho mania por velas.
Adoro comprar e ganhar velas. Mas não guardo nenhuma como decoração. Uso todas. Não gosto de luz branca, menos ainda a fluorescente. Gosto da luz bruxuleante e amarelada das velas, dos antigos lampiões, dos candeeiros nordestinos.
Gosto da penumbra, das sombras, do cheiro com que impregnam o ambiente.
Essa é uma mania que sobreviveu às mudanças durante a minha vida. Aqui costumo usá-las constantemente, seja numa festa ou um jantar para convidados, seja num dia normal em que decido deixar sair a aura romântica e invento um jantar para dois. Isso pede velas. Sempre. Se o clima permite também acendo os pequenos lampiões, pendurados nas árvores do jardim para as noites de belos luares.
Tenho uma paixão especial pela lua. Mas isso não é mania, é?

Também tenho mania por incensos. Adoro-os. Estou montando um lugarzinho para meditar dentro do invernadeiro. Um tapete de bambu, plantas e flores, mantras cantados por monjes tibetanos e incensos. Está ficando gostoso.
Tenho mania de ler na rede. Aqui em casa tenho três. Uma no quarto, para os invernos, uma no invernadeiro para o outono e a primavera e outra embaixo das árvores do jardim, para a largas tardes de verão. Não posso imaginar uma casa aconchegante sem uma rede e estou ensinando os espanhóis a apreciarem uma “siesta” abraçados por uma bela almaca nordestina. Eles aprendem muito rápido e todos me pedem para trazer uma quando venha do Brasil. É paixão à primeira siesta.
Manias a gente perde, troca, esquece. Antes eu pensava que a gente morria com elas. Mas não é verdade. A gente se adapta às novas circunstâncias, a cada mudança de vida, de tempo e de lugar.
Entre as manias perdidas também está a de dormir com três travesseiros e bem no meio da enorme cama de casal. Agora tenho só meia cama para mim e troquei os travesseiros por um delicioso e perfumado sujeito que respira a dois centímetros de minha orelha.
Boa troca, viu?!
Hãnm-hãmn. Muitíssimo melhor!
…………………………………………
Ps: Era uma corrente! E eu precisava indicar 5 pessoas para dar continuidade. Nem sei quem já respondeu quem não! Desculpem a falta!
Fica para a próxima!

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Pense, Antes de Aceitar…

Uma pergunta básica: alguém pode me dizer o que se pode fazer contra um profissional de saúde que age como um inconsequente, incompetente e fdp interesseiro que aproveita-se da fragilidade momentânea de um cliente, justamente quando a sua auto-estima está cambaleando, nocauteada pelo peso que a balança acusou na última vez que subiu nela( três minutos antes de sentar diante da sua mesa ) e se diverte propondo experiências dignas de filme de terror?


Será que a gente pode denunciar uma criatura que, por trás de um título profissional que deveria significar credibilidade, conhecimento de causa, competência e outras coisas lindas que se poderia dizer de um bom profissional, aproveita-se que seu ego está achatado na sola do pé e os neurônios estão em greve até que você FAÇA ALGUMA COISA para voltar a ser quem você sempre foi e ela, por pura preguiça ou por interesses comerciais ou mesmo por um total desconhecimento do que é uma alimentação saudável, te propõe uma dieta de farmácia, pontuada com idéias absurdas como, por exemplo, começar o dia, todos os dias de sua BELA embora GORDA vida bebendo água morna com gotinhas de limão para desintoxicar o organismo?

E quanto será que os laboratórios pagam a ela para que receite como café-da-manhã um vitaminado com proteínas?
O que é isso? Isso.
Uma gororoba farmacêutica que dizem ter todos os nutrientes que você precisa para viver feliz e magra.
SÓ isso.
Continuando…
Aí ela disfarça recomendando também uma bela maçã para o lanche ( que você desconfia, claro. Já imaginando aquela bela e brilhante maçã de nossa infância- a envenenada ), frango na chapa com salada – por almoço, peixe na chapa com salada – por jantar e outro shake com proteínas antes de dormir
Quantos dias mesmo? Um? Dez? Trinta?
Mas do que isso não vai poder ser, porque você já estará dentro de uma camisa de força tomando injeções calmantes na veia. Ou quem sabe lhe receitem uma lobotomia para evitar para sempre os arrobos agressivos que vão ser despertados no seu belo corpinho magro e doente, trêmulo e entojado pela aguinha morna e vomitiva de todas as manhãs!
Isso se seu corpo reagir com vida, porque pode acontecer justo o contrário e você cair num buraco frio e silencioso – a depressão – e neste caso ela receitaria um prozac duas vezes ao dia.
Tá louca ela????
Bom, não vou nem seguir citando as abobrinhas ( não, abobrinhas não! Seria muito natureba) que a senhora prescreveu para uma amiga virtual, a Mirella, como uma dieta sana para perder peso. Além de uma academia e um personal trainer, evidente. ( Estou só juntando os ingredientes da receita para fazer os cálculos financeiros depois.) Foi o que ela passou. Nem uma vírgula a mais. Ou a menos!
Mas vejam só, quando algum de nós procura uma nutricionista para fazer um regime está supondo que a criatura vai cuidar da gente e ajudar-nos a emagrecer com saúde, não é?
Pois não. Não é.
Pelo menos não todos. Muitos só querem ganhar dinheiro. Fazem acordos com os grandes laboratórios e farmácias especializadas para receitarem as tais pílulas e preparados alimentícios. Cobram o olhinho chorão da sua cara e te deixam na porta da rua da amargura.
São apenas dois os caminhos mas a porta é uma só.
O primeiro deles por ter conseguido ficar histérica, se realmente se manteve na linha mal escrita da “doutora”, ter tentado não vomitar todos os dias as gotinhas de limão na água morna – urgh! será uma preparação psicológica para a anorexia nervosa? – ter jogado o frango meio comido pela janela, espalhado o shake asqueroso pelo teto da cozinha, dançando e cantanto aos brados a antiquíssima música das Frenéticas – ” eu sei que eu sou, bonita e gostosaaaaa / e sei que você, me olha e me qué-eer/ sou uma fera de pele maciiiaá/ cuidado garoto eu sou perigooosaaá/ eyah!!!!” antes de desmaiar por pura inanição. E raiva.
Ou então o segundo caminho, não menos trágico, apesar de que por ele talvez você tenha conseguido salvar-se da loucura às custas da morte de sua já comprometida auto-estima, que a esta altura atende pelo nome de baixa-estima, ou até pela alcunha de ódio-por-si-mesma ao ter descumprido TODAS as regras impostas pela Messalina( não gosto de palavrão) comendo ou melhor, atolando dentro da boca um bom pacote de biscoitos de chocolate recheado de merengue que estava escondido dentro da despensa, e finalmente enchendo a alma de angústia, que neste momento pesa muito mais do que os míseros 21 gramos que dizem desaparecer de nosso corpo morto, magro ou gordo!
Devem ser os quilos de angústia transformada em raiva que ficam lá dentro, sem poder sair! Eu penso.
Raiva também por não ter tido a força e o valor de subir na cadeira da sala de consulta da nutricionista e feito um discurso sobre ética e competência profissional, sobre o respeito pelo cliente, sua saúde e seu dinheiro, sua auto-estima ( mesmo achatada ela ainda existia) e sua necessidade de ajuda, sua inteligência e bom senso ( apesar de obscurecidos pela greve dos neurônios isso não quer dizer que não os tenha ).
Por não ter dito em alto e bom som que ela não entende NADA SOBRE NUTRIÇÃO se precisa prescrever pílulas de vitamina e shakes de proteína porque não sabe encontrar esses nutrientes numa COMIDA NORMAL E CORRENTE.

(Pausa ofegante)
Por que não fazemos isso?
Não fazemos porque além de já estar “na chón” com os resultados da subida na peste da balança e seus megalomaníacos números, a GRANDE PROFISSIONAL ainda olha para gente com cara de “vamos ver se você é fodona mesmo e quer voltar a ser uma mulher!”
E isso é um golpe muito baixo! Ela pisa no nosso orgulho. (Aquele que a gente quer recuperar.)
A resposta à pergunta do início do post é que legalmente não podemos fazer nada contra a criatura. É moderno trocar saúde por pílulas e gororobas artificiais. É legalmente permitido.
Então…
Resta jogar uma praga. Muitas pragas, para ver se pelo menos uma pega.Eu acredito em praga!
Quero que ela sofra na pele o que faz com os outros. Quero que ela precise de conselhos médicos saudáveis e encontre algum incompetente igualzinho a ela que se “livre do problema” receitando apenas remédios. Quero que a distratem, abusem de sua necessidade e do seu bolso. Quero que ela vire uma lesma gordinha e pegajosa arrastando o ego e a auto-estima pelo chão e ninguém dê nem tchum para ela…
Ufff… desabafei!

Ui, fiquei com pena agora! ( Quando a gente deixa o lado mal sair ele cresce em veneno, não é? Já estava aquí empolgada com minhas pragas!)
Melhor, quero que ela descubra sua incompetência e morra de vergonha de si mesma.
Agora vou ali tomar uma sopinha de verduras. Não que pretenda ser magra como as mulheres das revistas de modas, mas quero estar bem cuidada e bonita. A gordura é um poço sem fundo. A gente vai deixando e ela vai crescendo, crescendo. Quero ser de novo G. Cansei de ser EX! Mas tenho que cuidar de mim sozinha mesmo. Já desisti de encontrar um médico como aquele meu anjo brasileiro! Como me faz falta o danado! Ainda bem que uma amiga me mandou um manual de nutrição. Nada contra as vitaminas, mas elas entram como acessório e não como prato principal. E olhe lá, só se você quiser.
Come-se de tudo um pouco e a felicidade é um fator importante para ser levado em conta. Um bom copo de vinho tinto é considerado mais do que saudável, sabiam?
E pode pipoca. E pode sorvete ( de vez em quando) Ho ho ho!
Pois é… melhor ler antes de aceitar qualquer orientação profissional vinda de desconhecidos.
Eu heim!
Pisit ! Minha amiga Iracema, isso não é para você, viu!? Mas que tem um bocado de gente fazendo filme de terror com as gordinhas, ah tem!

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Idades Para Viver…

Quando cumpri os 50 anos pensei em escrever sobre o que está significando para mim ter esta idade, seu efeito no meu mundo, tanto interno quanto externo. Mas não estava tão simples e fácil…

Há dias que me sinto jovem e cheia de vida, sexy até. Tenho vontade de sair e comprar uma saia nova, botas de cano alto, brilho para os lábios…
Sorrio para o espelho do quarto e agradeço a grande oportunidade que a vida está me dando de viver um amor maduro e gostoso, um casamento para breve, uma paz interior, uma alegria ao despertar de cada dia. A saúde vai bem, o que é essencial. O amor também, o que é fundamental. Nada para queixar-me.
Em outros parece que o espelho resolve brincar de bruxo mal e me mostra horrível, envelhecida, sem graça, sem brilho. É difícil até escolher uma roupa para vestir. Nenhuma cor combina com este estado de espírito. E menos ainda com este sobrepeso. Mulher extra-large não cabe em qualquer trapo!

Já sei! Já sei!

Meu olhar escapa dos olhos, desce pelas rugas que não estavam aí até ontem ( ou sim? ou não?) e passeia pelo resto de um corpo que não é mais o que eu me lembrava que tinha até o ano passado.
A menopausa avisa que está chegando com frios e calores, mudanças bruscas de humor, ansias desconhecidas. Medos novos. Ganas de chorar por nada e por tudo… que tudo?
Quem quiser que diga que não, mas cumprir 50 anos é uma passagem. Como se a gente cruzasse o umbral de uma porta sem saber para onde está indo, nem no que vai se transformar. Cada mulher entra e sai desta experiência de um jeito. Apesar das semelhanças em geral, as particularidades contam.
– Como será que vou ficar depois desta passagem?
– E os hormônios? Vou virar EX também neste sentido? Arrisco ou não a reposição hormonal tão polêmica nos meios médicos ?
Pois sim… escrever sobre o desconhecido momento que estou passando não é fácil.
Mas, um dia destes, deparei-me com um pequeno artigo na seção “Manual de Curiosos” do Magazine, suplemento semanal do El Mundo, que ajudou-me a refletir sobre minhas muitas idades. E isso me fez um bem danado. Vou dividir e explicar aqui. O assunto dá muito pano pra manga. Querem ver ?
Para começar ele diz: “Não temos uma idade, temos sete.”

A ilustração é um belo quadro de Grien, um pintor alemão do século XVI e está entre suas melhores obras, atualmente exposta em um museu de Leipzig.
O quadro foi batizado assim: “As Sete Idades da Mulher”, mas apesar da alegoria estar representada por figuras do sexo feminino, creio que podemos generalizar para toda a espécie humana, sem distinção de gênero.
Pois sim…
O que vale aqui é que sua obra serviu de ilustração para relacionar as sete idades que uma pessoa tem ao mesmo tempo.
A idade cronológica é apenas uma delas. Talvez a mais importante na hora de pedir um empréstimo ou preencher formulários médicos, diz a autora do artigo, Cristina Frutos. Mas certamente não é a mais importante para quem está vivendo. Mede apenas os anos vividos desde o dia do nascimento.
Pessoas com mais idade cronológica podem sentir-se, e realmente serem, muitíssimo mais jovens que outras com menos tempo de vida que elas. (Ou o contrário!)
A gente precisa rever os conceitos de juventude e velhice. E é isso que tenho feito ultimamente. Estou revendo meus antigos conceitos! O artigo da revista é pequenino e superficial, mas vale pelo que incita a buscar. Então eu fui dar uma lida por aí e encontrei coisas muito interessantes.
Vejam só…
Idade Aparente é aquela que nos atribuem os outros, baseados em nosso aspecto físico. Nessa eu saio perdendo, pois nem botox, nem silicone, nem cirurgias plásticas, nem nada… como diz a Ro, uma amiga de Recife, sou original de fábrica e os 50 anos vividos estão TODOS aqui. Ho ho ho!
Mas olho! Esta idade tem muito a ver com o estado geral das outras idades. É preciso cuidar DELAS TODAS!
Idade Psicológica é a idade auto percebida. É aquela em que uma pessoa se sente localizada. Está relacionada com as próprias atitudes. Corresponde à capacidade de adaptação, às reações e à auto imagem das pessoas. Reflete e experiência subjetiva que cada um tem em relação à sua idade cronológica e estágio de vida.
Uma pessoa pode sentir-se muito mais jovem do que marca realmente sua carteira de identidade. Seu comportamento, forma de vestir e falar, atitude em relação à vida, etc, serão influenciadas por esta idade “sentida”.
Neste caso, eu acho que, sem olhar muito detidamente no espelho, aliás, de olhos fechados eu tenho uns 38 ou 40 anos, por aí. Normal. A maioria das pessoas sente-se mais ou menos 10 anos mais jovem, sem riscos de parecerem idiotas. Muito pelo contrário, sentir-se mais jovem impulsiona as pessoas a viverem mais ativamente. Pena que não me sinta assim todo dia!
Idade Emocional é a que demonstramos pela qualidade das relações que temos com o próximo, pelo grau de amor ou dor que predominam em cada um a partir das experiências de vida. Isso é o que defende o filósofo Guido Mizrahi.
Entendi que esta idade se mede pela qualidade do afeto da pessoa consigo mesma e com o mundo que a cerca.

Ele exemplifica assim: ” Te conto que os bonsai são aqueles sêres que tem toda a aparência de serem grandes, mas permaneceram pequenos porque os jardineiros japoneses descobriram que, se cortavam as raízes das árvores, as árvores não cresciam nem em altura nem em tamanho, permaneciam pequenas. Nos seres humanos as raízes não são nem mais nem menos que os afetos, o que nos agarra à terra, o mais concreto que temos.” 
Essa vou deixar para comentar em outro post. Tenho uns cortes que vêm desde a época do Lorde que só pude cicatrizar depois de experimentar o amor de mãe, alguns anos de terapia, uma puta depressão e… melhor escrever sobre isso outro dia.)
A idade biológica é aquela que se corresponde com nosso estado físico e de saúde. É a idade que o organismo demonstra com base na condição biológica dos seus tecidos comparados com padrões; depende dos processos de maturação biológica e de fatores exógenos.

A idade biológica é o termômetro que mede como está o funcionamento fisiológico de nosso corpo e mente e é a mais importante a ser considerada no processo de envelhecimento.
Pode ser medida utilizando-se os conhecidos marcadores biológicos: composição corporal (relação entre o percentual de gordura do indivíduo e a quantidade de massa magra), pressão arterial, audição, visão, níveis hormonais, densidade óssea, níveis de açúcar e colesterol no sangue, qualidade da pele, imunidade e metabolismo.
Essa também pode estar bastante abaixo da idade cronológica, principalmente no mundo mais desenvolvido. Hoje em dia algumas pessoas com mais de 80 anos são capazes de correr até maratonas. Em compensação, em alguns países da África, uma mulher de 30 anos pode já ser uma anciã.
Agradeço todos os dias pela saúde que desfruto, mas sinto a minha idade no sobrepeso da menopausa e também quando o corpo não responde com a mesma flexibilidade e rapidez de antes.
Estou já matriculada na Yoga, claro! A gente não tem que se entregar, não é misifios!
Bueno… agora só faltam mais duas para completar as sete.
A idade social, que é aquela que se mede pela capacidade de contribuir ao trabalho e ao grupo, mantendo-nos inseridos e valorizados pela sociedade. Esta varia demais, como variam as sociedades pelo mundo a fora.
Em muitos países os idosos são considerados “estorvos”, desprezados e abandonados à solidão. Mas existem sociedades em que as pessoas mais velhas são consideradas mais experientes e sábias e são muito valorizadas.
Ainda estamos longe do valor que tem os anciãos no japão, mas acho que, no ocidente, as pessoas maiores de idade já estão lutando contra esta discriminação e conseguindo algumas vitórias, mantendo-se ativos e participantes na vida da família e do grupo social até o final de suas vidas.
E, para finalizar, a mais oculta e secreta, segundo o filósofo Mizrahi é a idade espiritual.
E ele diz, sabiamente, aos 38 anos cronológicos de vida: “A idade espiritual é uma gradual tomada de consciência a cerca do carater divino que há dentro de cada pessoa. É um despertar. É sair do tempo para conectar com o divino aqui e agora.
É uma idade que se mede pelo grau de consciência de que uma pessoa, como ser humano, está conectado com as fontes espirituais que regem o universo. É tomar consciência de que se é amado e protegido por elas, que é finalmente um servidor dessas fontes espirituais.”

E diz ainda: “Para alcançar este despertar é importantíssimo haver conseguido uma total aceitação das experiências no tempo, quer dizer, não estar em discórdia com o que lhe há sucedido no decorrer da vida – pais, trabalhos, enfermidades, acidentes – e, também, uma sensação de gozo emocional pelo tipo de relações que tenha tido.
A pessoa vai crescendo espiritualmente com as ações concretas que vai desenvolvendo em relação aos outros. Isto quer dizer que a idade espiritual se mede pelo grau de serviço que alguém presta aos demais seres humanos. Os sêres com idade espiritual avançada se ocupam em servir aos demais.
A espiritualidade tem a ver com o amor, com a entrega. Não é nem mais nem menos que o verdadeiro conhecimento de si mesmo e o estar a serviço dos outros.”

Pois sim…tive a sorte de conhecer e relacionar-me com algumas pessoas que têm uma idade avançada nesse sentido, apesar de serem, algumas, mais jovens do que eu. Uma delas foi um dos meus anjos durante a cura de minha depressão. Ela ensinou-me muito e abriu-me um novo horizonte nesta dimensão do meu crescimento pessoal.
Acho que depois disso eu envelheci algumas décadas e foi o melhor que poderia acontecer-me antes de cumprir os 50 anos. Assim, creio que ainda tenho muito tempo para crescer e ajudar outros a crescerem, amar e ser amada, servir, ser útil, ser feliz, fazer feliz aos que me cercam… e gozar cada segundo da vida que me reste.
Muita vida, espero!
Perguntaram a Buda
O que mais o surpreende na Humanidade?
Compenetrado, o sábio respondeu:
Os homens perdem a saúde para juntar dinheiro e depois perdem o dinheiro para recuperarem a saúde. Por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem o presente de tal forma que acabam por nem viver no presente nem no futuro. Vivem como se nunca fossem morrer e morrem como se nunca tivessem vivido.

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Questão de Mulheres…Ou de Justiça…

Ela nasceu em 1532 em Cremona, no ducado de Milão, na Itália. Recebeu um nome espetacular, mesmo para a época: Sofonisba Anguissola.

Forte, não é?
Uma mulher com um nome desses não podia passar pela vida sem deixar uma marca indelével e ela não fez por menos. Foi uma excelente e bem sucedida pintora, autora de obras admiradas por reis, rainhas, papas, nobres, além de outros artistas conceituados de sua época.
Apesar do sucesso de suas pinturas, Anguissola nunca foi paga por qualquer de suas obras, nem mesmo por aquelas que eram fruto de encargos importantes, tanto da nobreza quando da Igreja Católica, por certo os melhores clientes. Pagar-lhe não seria “bem visto” pela sociedade, então a artista recebia caros presentes ou regalias para si e sua família. Assim, jamais foi considerada uma profissional da arte e quase não existem registros de suas obras.
Eu nunca havia ouvido falar dela. E vocês?
Morreu jovem? Pintou pouco?
Nada disso. Anguissola teve uma vida larga e produtiva. Pintou até bem perto dos noventa anos. Quase um século de vida, numa época em que a grande maioria das mulheres morria antes dos quarenta.
Então o que aconteceu com seu nome e sua obra?
Simplesmente sumiram nas brumas.

Muitos de seus quadros foram atribuídos a outros artistas ( homens ) e seu nome foi “borrado” da história da pintura do século XVI e XVII e sequer aparece nos famosos compêndios de historiadores e críticos de arte.
E sabem qual o motivo?
Ela era mulher. Ponto e acabou-se.
Como assim uma mulher pintora de sucesso?
Não se podia admitir talento, inteligência, criatividade às mulheres! Se nem alma possuíam!
Tcs…tcs…
Sofonisba Anguissola foi apenas mais uma das muitas mulheres que se rebelaram contra esse estigma. Mas foi uma das que não apenas lutou. Ela venceu. Por quase um século!
Esquecida por que? Depois de morta, absolutamente ninguém lutou por ela? Inclusive seus quadros foram atribuídos a importantes artistas como Rubens e Tiziano!
Que injusto! Por falta de talento não foi!
Pois sim…. Esquecida e pronto. E isso aconteceu com quase todas as outras.
Pintoras, poetas, escritoras, dramaturgas…foram muitas. Muito mais do que sabemos ou podemos imaginar.
Apesar de mulheres, elas encontraram – de alguma forma – a saída para expressar seu talento. Umas através dos claustros das congregações religiosas, outras apoiando-se em pais, irmãos ou maridos que as incentivavam mesmo em contra às regras vigentes. Mas a maioria teve que suportar as perseguições, a burla e a humilhação de serem consideradas prostitutas e hereges apenas por saberem ler e escrever, fazer versos, música ou teatro. E bem ! Grandes mulheres!
Entretanto, com sucesso ou sem ele, mesmo conseguindo suportar tudo isso em nome de seu talento, foram sumariamente esquecidas depois de suas mortes.
Incômodas mulheres que contrariavam as teorias e leis masculinas?
Pois é sobre isso que eu estou lendo.

Las Olvidadas – Una história de mujeres creadoras, de Ángeles Caso.

Um livro delicioso, cheio de citações de grandes pensadores masculinos sobre as mulheres, segundo eles destinadas à torpeza, ao silêncio e à ignorância. Só para dar dois exemplos:
“A fêmea é como se fosse um macho deforme e a descarga menstrual é sémen, só que impuro: falta-lhe o elemento básico, a alma.” Aristóteles
Heim?!
” Uma mulher é sempre mulher, quer dizer, louca, por muitos esforços que realize para ocultar-lo” Erasmo de Rotterdam
Ho ho ho…não diga!
Mas o livro é também cheio de luz e força que emanam de uma escritora que sabe como contar uma história, situando-a no contexto cultural, político e religioso de cada criatura e seu entorno. Las Olvidadas é um ensaio bem escrito sobre a vida e a obra de algumas dessas extraordinárias mulheres que viveram lutaram e venceram na Europa medieval e moderna, entre os séculos XII e XVII.
O ensaio de Ángeles não só é puro prazer de boa literatura, como também proporciona uma aprendizagem incrível. É um resgate histórico da participação feminina na arte e na literatura no mundo ocidental. Muitíssimo mais ampla do que todos nós pensávamos e apenas recuperada, pouco à pouco, nas últimas duas décadas.
Este livro é para homens e mulheres que apreciam e estimulam o prazer do saber.
Recomendo com gosto!

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Ela Não Se Chamava Emília…

Há quase meio século atrás, Cabelinho de Espiga de Milho tinha o mesmo tamanho e a mesma idade que eu.
E, enquanto eu era morena e tinha os cabelos muito curtos, maltratados pelo mesmo barbeiro que pelava meus irmãos como se eles fossem soldados em vias de serem enviados à guerra mais próxima, ela tinha belos, longos e lisos cabelos da cor dos raios de sol, olhos azuis e sobrenome inglês. Era quase igual às bonecas das vitrines da Lojas 4.400, a loja rainha da Rua da Imperatriz de minha infância.
Mas ela não era uma bonequinha de loja, nem de livro. Era real e definitivamente a rainha da rua. Falava a língua do P com perfeição, xingava quando perdia no jogo, atirava pedras, roubava frutas das árvores alheias, dava ordens aos meninos que lhe seguiam por toda parte. Era mais autoritária que qualquer Imperatriz. E eu gostei dela.
Quando chegamos em Casa Forte, Cabelinho de Espiga de Milho transformou-se em minha melhor amiga. Inseparável amiga. Tínhamos 5 anos.
Éramos diferentes das outras meninas da rua. Enquanto elas brincavam de bonecas e comidinhas, nós fazíamos guerra de bolas de lama, lutas de mocinho e bandido, campeonatos de bola de gude, queimado e gamão, criávamos teatros de marionetes, fomentávamos as corridas de bicicleta pelas ruas do bairro…
Estávamos sempre entre os meninos.
Enquanto passavam os anos e eu deixava os cabelos crescerem em indomáveis e fartos cachos castanhos, ela ia cortando os raios de sol cada vez mais curtos. Eu chegando ao metro e setenta, ela parando a pouco mais do metro e meio. Eu romantizando a vida. Ela racionalizando-a. Eu escrevendo cadernos de poesias. Ela lendo novelas policiais. Eu lenta e desarrumada. Ela diligente e ativa. Era a melhor ajudante da mãe para criar os quatro irmãos que nasceram depois dela. Mas continuávamos inseparáveis. Éramos como irmãs e nos apresentávamos, com todo orgulho, assim: “Somos gêmeas, idênticas. Não vêem as semelhanças?”
Estudamos juntas até a entrada na faculdade, quando a vocação de cada uma nos separou. Eu fui estudar Psicologia, ela Engenharia. Mas a amizade continuou para sempre.
Quando tínhamos 19 anos, caiu a bomba sobre nós. Cabelinho de Espiga de Milho estava com câncer.
Eu me debulhei em lágrimas infelizes. Ela se preparou para a luta.
Seu cabelo caiu todinho, fez mil e uma cirurgias investigativas. O tratamento foi violentíssimo, mas ela ganhou. Nunca deixou que a doença tomasse conta do seu espírito. Era indomável.
Depois disso, o cabelo cresceu mais escuro, os olhos ficaram mais duros e determinados, mas ela deu a volta por cima e sem perder uma prova da faculdade, formou-se e transformou-se numa excelente profissional. Sua capacidade de mando continuou por toda a vida. Sua força vital também. Ganhou mais duas batalhas contra a doença, que insistia em dobrá-la. Nunca o conseguiu.
Casou-se. Adotou um menininho lindo como filho querido, já que a capacidade de ser mãe estava limitada pelas muitas radiações que tomou na vida.
Depois, não sei precisar exatamente quando, as contingências da vida de cada uma, profissionais e pessoais foi nos afastando da convivência diária, dos programas sociais…
Apesar de vivermos na mesma cidade, víamos-nos tão pouco! Falávamos por telefone e prometíamos encontros nunca marcados.
Meses atrás, por casualidade, estive com seu irmão em Madri. Ele disse que o câncer havia voltado e que desta vez a luta estava mais acirrada, a miserável tinha tomado conta de seu ponto mais forte: o cérebro.
Não havia mais nenhuma saída.
Recebi um e-mail de sua sobrinha uns dias atrás… Nele uma foto de minha amiga de toda a vida, com cabelos curtos e escuros (talvez postiços) ao lado de um texto de despedida com data de nascimento e de morte.
Enquanto eu fazia mechas de luz nos cabelos castanhos para comemorar os 50 anos, exatamente no dia 15 de setembro passado, minha querida e lutadora amiga, faltando apenas dois meses para cumpri-los também, adormeceu para sempre.
Minha primeira e eterna amiga morreu no dia do meu aniversário de 50 anos!
Há uma semana a lembrança de seu cabelinho de milho, sua voz, seu sorriso, o encanto de seus olhos azuis de boneca me acompanham por toda a casa… e nessas lembranças não temos os cinquenta anos que já vivemos, juntas ou separadas…
Temos os cinco anos de quando nos encontramos pela primeira vez, numa rua de barro e lama de Casa Forte.
E esta é e será a minha eterna saudade…

 

Escrevi esse post para Cristina Gatis Soares.

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Eu Sou Out…

Não sou muito chegada a revistas de moda. Acho que nunca comprei uma!
Claro que já tive oportunidade de folhear muitas nas salas de espera de dentistas, médicos, nas impossíveis esperas dos cabeleireiros ou em casas de amigas.
Já faz muito tempo que me decidi pela moda confortável e simples. E nunca fui muito adepta à maquilagem. Um batom claro nos lábios e um lápis preto nos olhos. Já está!
Desde muito jovem, as roupas de jeans e os tecidos leves foram sempre meus preferidos. Muito algodão nas saias amplas, camisetas e vestidos indianos.
Até meu vestido de noiva foi de linho crú ! Um conforto para o clima quente e úmido de Recife. E para o bolso também!
Mas eu sou out.
As revistas me dizem isso uma e outra vez. A quantidade de dicas para – maquilar-se, pentear-se, cuidar da pele, tornozelos, cotovelos, para vestir-se como manda o figurino e as cores do momento – são imensas! Cada beldade, cada famoso(a) nos diz o que comprar, como estar in e como não estar out.
Os produtos são de marcas importantes e conhecidas, apresentados com seus preços , na maioria das vezes exorbitantes para o bolso de uma criatura de classe média.
As revistas parecem estar programadas para as mulheres com gordas contas bancárias. As outras, isto é, a maioria das outras, sofram o Complexo de Cinderela ou contraiam dívidas incalculáveis no cartão de crédito.Se tiver um.
E quase todas têm pelo menos UM.
As lojas de preços módicos existem, claro. Mas só para as delgadas e jovens.
As outras, mulheres de magras carteiras e tamanho extra, que morram no limbo da globalização da imagem-sílfide da moda atual.
Por sinal que penteado sexy, não? E, pelo amor de Deus, quanto pesa essa criatura???
Mas nem vou deter-me nesse ponto, pois já escrevi dois posts protestando pelo limbo em que estão as mulheres extra-large do século XXI.Aqui e aqui.
Agora, realmente não resisti ao chamado da página dessa revista, suplemento do jornal El Mundo Yo, Dona. E que chega em minha casa a cada santo sábado.
Vou reproduzir aqui alguns dos precinhos das peças apresentadas para um verão europeu IN.

Uma saia estampada com frutas, simplezinha até, que custa a bagatela de 10.905,00 euros! Uma pechincha, não é mesmo?
Isso em reais deve ficar por volta dos R$ 38.167,50. Que tal?
A blusa é uma camiseta de lycra, sem mangas, pois os 42 graus impedem qualquer prenda com mais tecido. E por apenas 526,00 euros. Traduzindo em números brasileiros: R$ 1.841,00.
E para acompanhar a beleza de conjunto de verão fashion, uma bolsinha fofa de 5.265,00 euros. Tão lindinha, dá para guardar um batom e as chaves! Em reais, por baixo, a mulher da moda só vai ter que desembolsar uns míseros R$ 18.427,50 por esta minúscula bolsa assinada por um tal de Roberto Cavalli. Por sinal ele assina também a saia.
Bueno, bueno… Agora só faltam as sandálias, os braceletes e os óculos. Mais uma besteira de 501,00 euros ou simplesmente R$ 1.753,50.
Total: uma indumentária graciosa para sair de copas e tapas pelas Ramblas do planeta por reles 17.201,00 euros.
Heim!?
Querem que eu converta isso em números brasileiros?
Pois sim… toda essa beleza e charme custaria-nos apenas uns R$60.203,50.
Ho ho ho…
Mas não se impressionem. A revista oferece uma opção ao lado com preços deveras mais baratos. Tudo por apenas 313,00 euros. Ou seja, R$ 1.095,00.
Sinceramente, eu não vejo a enorme diferença de “glamour” entre as duas ofertas!
Talvez por não entender muito de moda. Talvez por não ter a carteira recheada de algumas… ou quem sabe seja apenas porque não me importa em absoluto o nome da criatura que desenhou cada prenda e que só por causa disso o preço dispara feito uma bala.
Esses(as) sujeitinhos (as) que ditam o que a gente deve comprar para ser IN nunca vão conseguir pegar-me nesse conto do vigário. Mesmo que eu pudesse e o meu dinheiro desse.
É imoral.
Meu dinheiro é muitíssimo mais valorizado que seus nomes bordados nas etiquetas minúsculas de suas “algemas sociais”.
Eu faço questão de ser OUT.

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Anjo de Si Mesmo…( Falando de Depressão)

Eu olhava no espelho e via outra mulher. Na verdade não era outra, mas também não era a mesma. Não era mais aquela da foto que estava pregada na porta da geladeira, com um brilho inocente no olhar e o sorriso auto suficiente de mulher independente e bem resolvida.
E apenas um ano me separava dela!
Também não era mais aquela rota e amarrotada criatura que vivia sem viver, com olhar embrumado e olheiras profundas, oca de alegria, murcha de energia, emudecida pela total falta de ganas de expressar em palavras qualquer sentido para a vida.
Agora, dia após dia, o que via no espelho era uma mulher que começava a experimentar uma nova forma de ver o mundo e de relacionar-se com ele. Agora os olhos no espelho eram mansos, doces, condescendentes. Parecia-me que era mais humana, mais real e verdadeira com meus sentimentos, meus sonhos, meus desejos.
Uma das transformações que percebi em mim foi que eu não corria mais atrás do tempo, andava mais lentamente, fazia as coisas mais simples ou mais complexas com mais intensidade e consciência, quero dizer, não mecanicamente como antes de adoecer, nem com tanta tensão.
Deixei de explorar-me e passei a realizar com calma e tranquilidade aquilo que o dia e minhas forças me permitiam.
Não mais assumia mil e uma responsabilidades, nem compromissos com prazos impossíveis ou metas inalcançáveis.
Deixei de ser escrava de minha auto-crítica e de meu perfeccionismo.
Permiti-me ser também o anjo de mim mesma.
Exigia menos de mim e então descobria que o dia era mais produtivo e saboroso.
Descobri naqueles nove meses de tratamento que precisar não diminui ninguém, muito ao contrário. Ajuda a crescer. Precisar é uma aula de humildade.
Clarice Lispector disse que “a solidão é não precisar”. E que “não precisar deixa um homem muito só, todo só.”
Para mim é a mais pura verdade.
Não só aceitei a ajuda desinteressada daqueles que me deram apoio sem que eu o pedisse formalmente, como também aprendi a pedir.
Saber receber é uma virtude. Nem todos sabem. Os muito independentes e auto suficientes não sabem receber. Sentem-se até mesmo ofendidos quando alguém tenta ajudá-los.
E saber pedir?
Ah… isso é uma violência para os solitários.
Além de acreditar que “não precisam”, quando descobrem que isso é falso, trocam de crença para “não quero incomodar ninguém com meus problemas!”
Mas é lindo aprender a pedir. Difícil, mas lindo.
Pedi companhia, pedi paciência, pedi colaboração… pedi o que achava que precisava.
Nem sempre fui atendida, é verdade. Algumas pessoas, inclusive dentro de minha própria família, simplesmente não compreenderam nunca o que estava se passando comigo. E justamente porque era comigo.
A rota e amarrotada criatura não combinava com a imagem que sempre tiveram de mim e talvez por isso nunca conseguiram vê-la… Continuavam vendo-me como lhes parecia que eu era. Acreditavam que a melhor “ajuda” era não admitir minha doença, minha mudança, minhas novas e, para eles, inacreditáveis necessidades.
Alguns chegaram ao ponto de criticar a medicação dizendo que eu não estava louca e só quem estava doido precisava desses remédios.
Acabei entendendo que eles também não tinham culpa disso.
Paguei todos os preços pela desorganização em que havia transformado a minha vida. Para acertar todas as dívidas, tive que fazer muitas mudanças, desfazer-me de muitas coisas, desprender-me de algumas pessoas e aproximar-me mais de outras.
Recebi muitíssima ajuda nesses momentos e finalmente entendi que saber receber também é dar. Porque a gente está devolvendo amor, confiança, respeito. E isso também faz feliz aos nossos anjos.
Tomei algumas decisões muito importantes naqueles meses: preservar-me mais do stress do “mundo moderno”, escolher melhor as pessoas com quem trocar afeto, retomar meus sonhos mais profundos, cuidar mais de mim aceitando e respeitando minhas limitações, não correr atrás de um futuro idealizado, nem pessoal nem profissional mas, “passo à passo”, ir construindo um presente mais saudável, mais tranquilo e feliz.
Aproveito a oportunidade para dizer às pessoas que sofrem algum tipo de depressão que tirem suas máscaras e peçam ajuda, ou apenas aceitem que seus anjos se aproximem. Eles estão aí por perto…
Não se escondam mais… não lutem sozinhos. Não tenham vergonha de assumir seriamente um tratamento para não serem taxados de “maluquinhos”, “pobrezinhos”, “coitadinhos”. O sofrimento crônico de adiar uma decisão de curar-se não vale a pena.
Não me envergonho de contar o que passei porque considero que, apesar de terrível, foi uma imensa aprendizagem. Renasci melhor. E não sou eu apenas que pensa assim.
Também a experiência de perder a Princesa, minha mãe, vítima da Síndrome de Alzheimer, apenas dois anos depois, mostrou-me muito cruamente e cruelmente que valores são realmente importantes na vida: a saúde mental e física, a paz de espírito e o amor.
O resto é resto.
……………………
Ps: Espero ter respondido com este post os maravilhosos comentários que recebi nos anteriores. E, talvez, ter ajudado alguns a encontrar um fio de luz dentro de suas penumbras.

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Enquanto Isso…No País do Não Faz de Conta…(Cap.12 )

Uma amiga querida do Brasil enviou-me essa mensagem bem humorada do L.F.Veríssimo.
Aproveitei para respondê-la aqui mesmo no blog. Assim vou ganhando tempo até escrever o resto da história das cicatrizes.
Conto de Fadas Para Mulheres do Século XXI
Era uma vez… numa terra muito distante… uma princesa linda, independente e cheia de auto-estima que se deparou com uma rã enquanto contemplava a natureza e pensava em como o maravilhoso lago do seu castelo estava de acordo com as conformidades ecológicas.
Então a rã pulou para o seu colo e disse:
– Linda princesa, eu já fui um príncipe muito bonito.
Uma bruxa má lançou-me um encanto e eu transformei-me nesta rã asquerosa.
Um beijo teu, no entanto, há de me transformar de novo num belo príncipe e poderemos casar e constituir lar feliz no teu lindo castelo.
A minha mãe poderia vir morar conosco e tu poderias preparar o meu jantar, lavarias as minhas roupas, criarias os nossos filhos e seríamos felizes para sempre…
Naquela noite, enquanto saboreava pernas de rã à sautée, acompanhadas de um cremoso molho acebolado e de um finíssimo vinho branco, a princesa sorria e pensava…
Nem morta!
Luis Fernando Veríssimo
……………………..
Meus amigos, vos direi!
Fracassei como princesa…
Esse negócio de ser cheia de auto-estima levou o maior couro de outra coisinha chamada depressão e quando voltou a si já não tinha os mesmos valores, as mesmas ilusões. Inclusive ser linda perdeu o significado importante e passou a ser um reles detalhe, muito irrelevante.
Esse outro negócio de ser independente também cansou de fazer tudo sozinha, pagar tudo sozinha, sofrer tudo sozinha e resolveu mudar de nome para interdependente, que é muito mais maneiro, tá?
E, para dizer a verdade, nunca beijei um sapo que se transformasse em príncipe. Era tudo de mentirinha…
Os danados eram sapos mesmo e continuaram asquerosamente sapos, por mais que eu fingisse não ver.
O que já veio com carinha de príncipe e me fez uma proposta parecida (só não incluiu a mãe no pacote porque ela nunca concordaria em dividir seu rebento) era um Batman Forever. Tinha complexo de morcego. Adorava as noites e nunca chegava cedo em casa. E quando não saía, dormia e dormia.
Era cheio de segredos (nunca se sabia onde ele estava) e amava seu bat-móvel, sua bat-moticleta, sua bat-caverna, sua bat-prancha-de-winsurf e todos os seus bat-objetos mais do que as pessoas.
Só havia uma pessoa a quem ele amava mais do que seus bat-tudo: a si mesmo.(Isso nem a mãe sabia!)
Os condes e duques eram chatos e pernósticos. Não se conformavam em não serem príncipes.
Tinha até um que era vampiro. Juro! Sugava a energia de quem estivesse por perto. Esse quase me matou!
E os marqueses achavam que era humilhante que todos não se curvassem à sua passagem…
Como assim???
Ainda bem que fracassei. Ser princesa era um saco!
Que o diga Caroline de Mônaco, a princesa mais linda e menos feliz do planeta!
Decidi então deixar essa doideira de querer ser princesa e virar o que sempre fui, mas insistia em não querer ser: uma mulher comum.
Aí… encontrei um homem comum (nem Robin Wood, nem Batman, nem Robert Redford, nem Richard Gere, mas com olhos-de-mar-azul e um sorriso de derreter qualquer joelho ) que vivia do outro lado do lago, sabia lavar, passar e cozinhar porque morava sozinho numa cabana emprestada…
Nem sapo, nem príncipe, nem complexos de nobreza falida, nem fetiches por bat-objetos, exceto pelos livros – que devo confessar – compartilho.
Encontrei um homem que gosta das pessoas. E de mim. Finalmente um!
Aí, desde que estamos juntos estamos felizes…
E nem dizemos o “para sempre” que é pra não dar azar! Ho ho ho…
(Vai que existem mesmo as bruxas, fantasiadas de Barbies, loucas por uma maldadezinha!)
Lavamos, passamos, cozinhamos e cuidamos dos filhos (que já moram em outras paragens) com leveza e bom humor, porque ninguém aqui precisa de escravo.

Brincamos de sermos sapos nas tardes quentes de primavera-verão no lago azul perto da cabana ou de príncipes nas noites de lua cheia, vinhos, boa música e bons papos aqui mesmo no jardim.
Por sinal, nenhum um de nós dois gosta de perninha de rã à sautée, mas as paellas que ele sabe fazer são fenomenais!
Do conto de fadas para mulheres do século XXI fiquei só com… “Em um país muito distante…”
Mas… distante do quê mesmo?
Ah, tá certo…qualquer dia desses a gente pega o avião e vai beijar os amigos brasileiros.

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Minha Amiga Querida…

Sei que faz um tempo que não te escrevo uma carta como Deus manda. Sem perdão. Uma das coisas mais agradáveis nesse exí­lio voluntário é receber uma carta de amigo, parente, aderente, vizinho do aderente, periquito, papagaio, orangotango, quem seja.
Desculpe o toque animal. Não tinha a intenção de comparar-te com qualquer um desses bichinhos, embora eu não ache que seja nenhum insulto, uns bichinhos que são tão simpáticos. Meu humor anda assim mesmo, meio tumultuado ultimamente. Alterações hormonais. Coisas da idade, parece.
Mas falando sério, querida…se a carta for tua então, o prazer é dobrado. Antes de fazer um café e montar na rede do terraço, com a música posta no salão, não abro o envelope. Adoro o ritual de abrir uma carta de verdade, de papel e selo colorido, como antes de toda essa facilidade da Internet.
Não me queixo. Imagino que se eu tivesse que esperar pelas antigas formas de escrever, estaria exilada de verdade. Os e-mails são imediatos. Trazem fotos, mensagens de amor e de bons fluidos, recortes de jornais e revistas, carinhos diversos todos os dias, de gente amiga-conhecida e de desconhecidos-amigos. O blog me ajudou muito a encontrar essas almas carinhosas espalhadas pelos labirintos da Web.
Mas tua carta, amiga, essa é felicidade simples e profunda. Posso imaginar onde e como a escreveste. Posso vê-la com a caneca de café fumegante sobre a mesa da cozinha, procurando uma caneta que escreva e xingando a última geração de teus próprios filhos em resmungos ininteligí­veis aos que não te conhecem, pedindo a Deus explicações para o desaparecimento dos objetos inanimados desta casa: canetas e lápis, pentes, prendedores de cabelo e o tapete do banheiro.
Nunca há respostas para isso, não é mesmo querida? Nem Deus, nem os três adolescentes-quase-adultos que habitam o teu lar sabem responder.
Bueno… já está. Algo encontraste para escrever, pois posso ler aqui troços em lápis e outros em canetas de distintas cores. Não sabes a ternura que transborda de meu sorriso enquanto leio o que me escreves e como eu gostaria de compartir a bela e deliciosa caneca azul com o café que só tu sabes fazer.
Pois não penses que isso é brincadeirinha de novo. Pois não. O café sai ao gosto de quem o faz. Posso pôr a mesma medida de água e de pó. Não sai igual ao teu. Juro!
E veja que ultimamente tenho carregado um pouco no café. Um dos poucos prazeres da cozinha que me restam. Tive a infeliz idéia de visitar uma endocrinologista para uns exames hormonais e etc. E a danada me pegou pelo tornozelo. Resultado: dieta.
Como tal um bebê. Seis refeições que de refeições só tem o nome. Um periquito pediria dose dupla do que como. Cada porção pesada e medida numa balança que vive sobre o micro ondas, malvada e sensí­vel como uma madrasta de conto infantil. Qualquer pedacinho de pão pesa mais do que deveria.
E o pior é o que posso beber. Leite desnatado, água, café e chá.
Também, quem mandou procurar uma endocrinologista abstêmia!?
Só vendo a cara que ela fez quando descrevi minhas noites de vinho tinto frente a lareira… Parecia que eu tomava heroí­na na veia! Acho que a bruxa teve uma invejazinha, ou não?
Imaginas a arredondada aqui tomando vinho tinto diante da lareira e dançando ao som da voz memorável de Billi Holliday, com um par de “olhos-de-mar-azul” acompanhando cada movimento meu? Rá!
Acho que ela pensou que era alucinação minha.
Não era. Não era!
Agora posso comer um iogurte com gosto de qualquer coisa (menos de vinho) e ir dormir com cara de mulher-de-meia-idade-triste. Difí­cil viu amiga. Difí­cil.
Mas, segundo os exames, vou ter que submeter-me à tortura.
Usei uma estratégia antiga, dos tempos da depressão. Naquela época colei na geladeira uma foto minha com largo sorriso, só para lembrar que eu já havia sido feliz, um dia. E estava magra.
Agora fiz o mesmo. Preguei a última foto tirada no Brasil de biquí­ni. Para lembrar-me de como não quero estar, daqui por diante.
O pior é que nesta foto estou sorrindo feliz como nunca havia sido na vida… e me confundo.
Preciso ser magra e feliz. E parece que as duas coisas não se casam no mesmo corpo.
Bueno… vamos ver quanto eu consigo conciliar das duas necessidades.
Por enquanto estou lutando para manter a classe e não comer uma lata inteira de sorvete. Que pobre de espí­rito heim?!
Também estou tentando não ter mais os sonhos eróticos com morangos e chocolates, que me acossam nas noites famintas e me deixam cansada e com o humor de Garfield pela manhã.
E por falar em manhãs, as de agora estão lindí­ssimas. O clima mudou completamente e as amendoeiras, que nem estão de regime nem nada, se cobrem de flores numa alegria que só vendo.
Aqui a gente dormiu inverno e acordou primavera. Quem dera meu programa de dieta permitisse o mesmo.
A bruxa disse que eu vou ter dificuldades para perder peso agora. Coisas da idade, parece.
Sabe que até passou o nozinho de tristeza que levo no peito desde uns dias? Acho que escrever-te ajudou-me a melhorar o astral. Prometo escrever mais vezes.
Beijo-te com toda a saudade e amor. Como sempre.

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Amantes e Amados…

Ontem assisti uma entrevista com Antonio Gala, um famoso escritor espanhol.
A pergunta que lhe fizeram era sobre o efeito do amor em sua larga vida e porque ele sempre chamava seu par de “amante”.
Ele respondeu que era sempre o amado. Que existiam dois tipos de pessoas. Uns que são amantes e outros que são amados.
O amante doa, se entrega, mima, inunda.
O amado recebe, se deixa tomar e mimar, deixa-se inundar.
Ele defende que ambos amam. Ambos estão inteiros na relação. Nenhum dos dois amores é maior que o outro. Nenhum dos dois enamorados é dono de mais amor. Gala diz que é apenas a forma de amar que faz a diferença.
Hum? É?
Pensei então que dois amantes ou dois amados não poderiam permanecer muito tempo juntos. Correriam o risco de viverem exaustos.
Os amantes sofreriam por excesso. Os amados pela falta constante.
Refleti sobre a questão enquanto fazia um café, e como a Shirley Valentine do filme, fiz perguntas às paredes, mas desta vez eu queria respostas mais reais que as que eu mesmo crio para elas.
Com o blog descobri que do outro lado da tela do computador há um mundo à escuta. E que maravilha! – um mundo que responde.
Achei que o tema era bom para compartilhar, para provocar a reflexão nas pessoas.
Pois sim…
Decidi começar e reponder já escrevendo minha opinião.
Aí vai.
Sou muito amante. É minha natureza.
Creio, porém, que ninguém pode viver um amor feliz se for apenas amante ou amado.
Os enamorados mais felizes são, dentro do mesmo ser, amantes e amados.
Uma destas partes pode ser a dominante, o que não quer dizer que a outra não exista e exija sua parte.
Foi preciso um tempo para que eu aprendesse a deixar minha parte que quer ser amada fluir, florescer, brotar. Aos poucos fui aprendendo a revesar os papéis, deixar-me cuidar e mimar, deixar-me ser levada. É tão bom!
Agora eu penso que sou melhor amante do que quando era mais jovem, porque aprendi a deixar-me ser amada.
Se eu pudesse interferir na entrevista de ontem diria que ser só amante cansa e ser só amado enjoa.
Talvez por isso tantos casais vivem, depois do tempo da paixão, num terreno vazio…

Foto: Quint Buchholz, “On the Way Book”

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Aprendiz de Feiticeira…

Ela estava fazendo 21 anos. Uma idade linda!
Comprei vários presentes. Um abrigo novo, roupinhas. E o principal: Don Quixote de La Mancha, em uma edição comemorativa dos 400 anos da publicação do romance de Miguel de Cervantes. Escrevi num cartão – pintado por mim mesma – uma dedicatória bem emocionada!
Pronto?
Claro que não!
Resolvi mudar as cortinas da cozinha. Nunca costurei na vida, mas não custava começar.
Pedi ajuda à vizinha. Tudo bem. Ficou bonita apesar de imperfeita. Deu para disfarçar com um jeitinho brasileiro. Comprei tapetes novos para os banheiros. Espalhei quadros pelo corredor. Passei a semana atrás do sujeito que vinha trocar as duchas, pregar os suportes da rede nova, trazida do Brasil nas últimas férias.
Ela merecia. E merecia também uma festinha…
E eu, como boa mãe neurótica que vê a filha entrando na vida adulta, resolvi fazer uma espécie de despedida da infância-adolescência. Prometi coxinha de galinha, empadas de camarão, brigadeiros coloridos e bolo de chocolate, com cobertura e etc. Cabeça de mãe tem cada idéia!
Nunca havia feito nada disso. No Brasil encomendava tudo… mas não custava tentar!
Pois… peguei uma gripe dois dias antes de começar os trabalhos. Uma moleza no corpo, nariz entupido, dor de cabeça, vontade de ficar sob as cobertas sem fazer absolutamente nada.
Impossí­vel! Tinha que limpar toda a casa, preparar os quartos para ela e os amigos que viriam passar o final de semana, organizar as compras necessárias e o menu de três dias inteiros. Quem manda inventar festa!
Entrei na Internet e procurei as receitas mais simples, pois na cozinha sou quase iniciante. Estou tentando aprender.
Primeiro os recheios das empadas e coxinhas.Temperei o camarão das empadas com sal e limão enquanto cozinhava o frango para as coxinhas e telefonei para o Brasil para conferir as receitas com minha cunhada (uma cozinheira com mãos de fada).
Distraí­-me conversando sobre a famí­lia e… de repente um cheiro de coisa queimada invadiu a sala. Corri para o fogão e estava tudo negro! Nada do molho perfumado de alguns minutos atrás e uma branca fumaça começava a invadir a casa inteira.
Desliguei o telefone e tentei salvar o que ainda tinha cor de frango. Era pouco. Muito pouco. Perdi a graça e guardei os camarões no gelo para o dia seguinte. Estava cansada e doente.
Bueno… no outro dia, assim que terminei de organizar os quartos, fui para as empadas. Refoguei as verduras, juntei o camarão, o creme de leite… e ficou lindo. Agora era só fazer a massa e rechear as danadinhas. Resolvi provar um recheio tão lindo… Hummmm! Sal puro.
Sal! Sal! Sal! Insuportável.
Como assim?
Assim… os camarões estavam mergulhados no sal desde o dia anterior.
Não podia fazer empadas com pasta de sal ao camarão!
Mas ainda tinha que fazer o bolo.
Por que não segui os sinais e desisti de uma vez por todas?
Não, eu tinha que fazer pelo menos UMA coisa que prestasse. Pelo menos o bolo tinha que ficar bom.
Pois não… nem ele.
A massa estava maravilhosa, mas a forma era pequena e eu não pensei que ele ia crescer como o pé de feijão do conto infantil…
O bolo cresceu e cresceu… tanto que suicidou-se pulando para fora do molde como um vulcão em erupção e enchendo o forno com uma massa negra e esfumaçante…
Acham que ainda iria tentar o brigadeiro? E a cobertura? Para botar onde?
Nem pensar! Tive uma crise de riso daquelas que beiram o choro enquanto tentava descolar a forma imersa na larva vulcânica em que se transformou a merda de chocolate, ainda pensando em onde botar as velinhas coloridas que havia comprado. Louca!
Acabei o dia com a auto-estima deitada no chão, com a cara enterrada num buraco escuro!
Resultado… a festa foi mesmo um churrasco em que não meti a mão.
Um amigo dela assou a carne, outra fez a salada, a aniversariante fez a farofa, Pepe fez a batata e os molhos… e saiu tudo saborosí­ssimo! Nada queimou. Nada salgado. Nada ruim.
Arrisquei abrir a garrafa de vinho e dizer com os olhos rasos d´água: Feliz Aniversário, minha filha.
E quando eu penso que no próximo final de semana teremos 16 pessoas para almoçar, tenho vontade de pintar a cara com pontinhos vermelhos e dizer que estou com uma doença contagiosa e de quarentena.
Na cozinha eu não entro por pelo menos dois meses!
Socorro!

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