Corpo&Alma de Mulher

Evas…

Domingo molhado, úmido, cinza. Ficar em casa até que é bom num dia assim, mas almoçar no Chez Georges com as amigas é melhor ainda.
As quatro amigas entram no restaurante bem decorado e fino da cidade, dispostas a comer bem, beber mais e melhor e falar de qualquer coisa, menos de si mesmas.
Rita tem 35 anos, dois filhos e está separada há 3 anos. Quando estava grávida do segundo filho – seu marido havia insistido para que engravidasse pois queria uma famí­lia grande – Rita descobriu que ele tinha uma namorada.
Sim, ele queria uma famí­lia muito grande. A namorada também estava grávida. Iriam dar à luz no mesmo mês e no mesmo hospital.
Rita recusou-se a ficar para ver. Pediu o divórcio com a barriga no pescoço, o coração despedaçado e a auto estima mortinha da silva.
Faz poucos meses que está se recuperando da decepção, às custas de muití­ssimo trabalho numa rotina mais dura que a de uma “mula de roçado”. Acorda às cinco da madrugada e só vai para a cama depois da meia noite. Sua folga quinzenal (quando os filhos ficam com os ex-sogros) é comemorada com um vinhozinho e um bom filme na TV, dormir até as doze e se puder, um almoço com as amigas.
Amor não tem, nem quer. Por enquanto quer distância dos homens. Bastam-lhe os filhos e o trabalho. Stress mais que suficiente.
Júlia tem 34 anos. Casou aos 19, grávida do primeiro namorado. Separou-se aos 27, duas filhas e duas tentativas de suicí­dio.
O ex-marido está noivo de uma dondoca da cidade e vive nas colunas sociais, mas ainda se encontra com ela às escondidas da noiva e das filhas, para um sexo saudoso e cheio de acusações mútuas.
Depois de se agarrarem e transarem desesperadamente, começam as intermináveis brigas. Ele a culpa por ela ser uma mulher exageradamente ciumenta e possessiva. Ela o culpa por ser um degenerado que não pode ver um par de pernas na praia sem ter que segui-las num afã de conquistador barato, um “rato de areia” dos mais nojentos. Ele sai batendo a porta. Ela promete a si mesma que foi a ultima vez. E até a próxima… ninguém sabe até quando seguirão assim. A última foi antes de ontem.
Foi ela quem marcou o almoço. Está precisando desabafar, gritar, beber, comer, contar. Nunca mais vai pensar em morrer por causa daquele desgraçado. Precisa de ajuda, urgente! Amigas, pelo amor de Deus!
Não, melhor nem falar do assunto. Aproveitar para espairecer a cuca, falar dos outros, do livro muito louco que está lendo, do último filme que viu na TV a cabo, antes que aquele pedaço de carne sem sentimentos (e que pedaço!) viesse com aquela conversa de saudades e tesão…
Não! Falar dos outros é melhor. Pronto. Falar qualquer coisa menos da idiota que ela é!
Silvia é solteira. Não pensa em casar-se. Sua independência financeira veio com 22 anos, num emprego público que conquistou num concurso dificí­limo. Poucas horas de trabalho, bom ambiente, bom salário. Tem casa, carro, amigos, viagens, liberdade. Não gosta de sofrer e aos 31, depois de algumas (poucas) tentativas de relacionamento afetivo, desistiu por pura preguiça. Não sente muito a falta de sexo. Às vezes nem se lembra deste detalhe…
E quando lembra, telefona para seu “fornecedor de hormônios”, marca um encontro, resolve a parada e pronto. É bom. Sem promessa e sem cobrança. Está sempre tão entretida com seus planos para as próximas férias…
Ontem mesmo foi na agência e está quase decidida por Nepal.
E depois, amar dá muito trabalho, ela diz com um meio sorriso na cara bonita.
Nenhuma das outras três pode contestar que não.
Que o diga Clarice, 38 anos. Depois de nove anos e meio de um noivado em que os dias foram gastando o amor, se é que amor existia, de forma que não havia qualquer motivo para um matrimônio, exceto o desejo das suas famí­lias, que ao final eram mais noivas que eles dois, o casamento foi o único caminho possí­vel para a separação.
Oito meses depois da festa, que suas famí­lias se esmeraram em fazer es-pe-ta-cu-lar, a farsa finalmente acabou. Ficaram as fotos e um ví­deo, mostrado mil vezes pelas mães-sogras às suas amigas.
Clarice deixou os álbuns com elas. Não queria recordar aquele dia, nem os meses depois dele. Oito intermináveis meses em que tinha que controlar-se para não pular pela janela.
Finalmente, um dia de verão azul, saiu do trabalho, tomou seu carro e dirigiu-se ao aeroporto. Comprou uma passagem para São Paulo, telefonou para o marido e pediu o divórcio. Ele sequer questionou sua decisão.
Clarice esperou um mês que as famí­lias se recuperassem do choque. Nunca a perdoaram. Ele sim. Se não fosse ela quem tivesse tomado a decisão, seria ele…
Claro, iria demorar ainda um pouco. Não tinha coragem de dizer a ela que estava apaixonado por uma colega de trabalho há mais de dois anos e arrependido de não ter evitado o casamento com medo da reação de sua mãe e do pai da noiva.
Queria casar-se com a moça o mais breve possí­vel, assim que sua mãe se acostumasse com a idéia. Já fazem 6 anos que esperam.
Clarice saiu pela vida em busca de amor. Encontrou algo parecido. Inúmeras vezes se apaixonou, nenhuma das vezes a relação deu flores e frutos. Todas acabam depois de dois ou três meses de saí­das. A cada final, um desgaste de energia para criar o clima apaixonado em que desejaria viver.
Depois de uns anos, conformou-se em ter sexo de vez em quando, que de ferro ela não é. Os homens de sua geração preferem as amizades coloridas ao amor propriamente dito.
É que amar dá muito trabalho, dizem.
Clarice vive sozinha, em um belo apartamento, há mais de dez anos. Seu pai nunca mais falou com ela.
Ela já não acredita que vale a pena ir atás do amor. Dá muito trabalho. E por favor, não a chamem de Clarice que esse é nome de mulher doce e sincera. Agora só atende por Clara.
No domingo chuvoso de Abril as quatro mulheres se encontram para o almoço.
Bebem, comem, riem, falam de amenidades, dos livros que lêem, dos filmes que assistem, da vida dos outros, dos que morreram, dos que nasceram, dos que casaram, dos que separaram, dos que se escondem por trás das máscaras, dos que só querem aparecer…
Na mesa lá do outro lado, outras quatro mulheres comem, bebem e riem…
Conversam em tom mais baixo… as paredes tem ouvidos!
Comentam umas com as outras as histórias de Rita, Júlia, Silvia e Clarice, quer dizer,Clara…
Que?
Falar das vidas delas, nem pensar!
Pelo menos não antes do café e do licor…

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Há Dez Mil Anos Atrás…

Às vezes a gente quer mudar de pele. Quer deixar de ser quem é. E começa tentando abolir todos os hábitos de sempre. Deixar de comer o que engorda, deixar de beber o que embriaga, deixar de gostar do que gostava. Parece que tudo que a gente faz é “prejudicial à saúde”.
A televisão vai mostrando a cada noite as belas mulheres que usam cremes tais e quais, tomam iogurte quais e tais, fazem exercí­cios regularmente, usam sempre branco virginal. E a gente quer virar lagartixa e regenerar as partes do corpo que a gente pensa que estão apodrecendo. Parece que a gente quer nascer outra vez.
Começar de novo! Ser a rainha do natural! Ficar jovem para sempre. Mudar-se para Shangrilá!
Ainda bem que esta minha fase já passou.
Ou não? Pois… veremos.
Naquela época, há dez mil anos atrás, entre tudo que eu estava tentando deixar para trás… estava o cigarro.
Então recebi um convite de uma amiga de muitos anos para passar um final de semana em sua casa numa praia distante. Aceitei. Estava mesmo precisando mudar de ares, curtir a brisa marí­tima, relaxar. Outra pessoa foi também convidada. Era amiga da amiga mas eu a conhecia de algumas situações anteriores.
Como há muito tempo ninguém estava utilizando a casa, resolvemos ir antes fazer um check up geral, levar alguém que pudesse limpar tudo e ver o que seria necessário comprar.
Depois de algumas horas de trabalho organizando as acomodações e compras que terí­amos que fazer, sentamos um pouco no terraço da casa, de frente para o mar. A moça convidada tirou um maço de cigarros da bolsa e me pareceu que estava brilhando e piscando como o neón das propagandas de Las Vegas….
Acendeu um deles, soltando a fumaça lentamente, com evidente prazer. Senti uma pontada de desejo. “Uma boa tragada agora seria tão bom!” Pensei.
” Pode me dar um, por favor?” Quase sem pensar estendi a mão para ela e pedi, muito à vontade.
“Não. De jeito nenhum.” Ela respondeu no mesmo tom leve e descontraí­do que eu havia usado.
Soltei uma risada com seu humor. Achei engraçada a sua resposta e continuei com a mão estendida e sorrindo… até perceber que ela estava guardando o maço na bolsa. Baforando na minha cara ela disse séria: “Fumante que se preza, anda com cigarro.”
Juro que eu não estava acreditando!
É sério? Insisti desconcertada, ainda tentando sorrir.
Serí­ssimo. Só tenho três na carteira e não vou dar nenhum. Quem fuma que leve seus cigarros! Ela continuou.
Gelei. Nunca imaginei que ela estava negando-me o cigarro “à vera”, acostumada que estava às amigas que tinham senso de humor para brincar de negar favores enquanto os estavam fazendo. Eu tinha uma amiga que sempre que pedí­amos a ela uma informação ou que nos trouxesse alguma coisa da cozinha enquanto jogávamos baralho, ela respondia “Claaaaaro que não!” Rí­amos todas. E na mesma hora ela trazia o que haví­amos pedido ou respondia o que haví­amos perguntado.
Paralisada. Foi como eu fiquei com a resposta da moça. Pensei que era impossí­vel que um fumante negasse um cigarro a outro fumante (ou quase ex-fumante. Que mais dá?) principalmente se estávamos longe de qualquer lugar onde pudéssemos comprá-lo de imediato.
Na minha cabeça, se eu tivesse um único cigarro o dividiria com alguém que não tivesse nenhum e então ambos terí­amos um problema: procurar onde comprar mais.
A vontade de fumar estalou no cérebro com uma força descomunal. A raiva e o desconcerto pintaram de roxo a paisagem. Saí­ andando pela praia até a estrada de asfalto atrás de um lugar onde pudesse comprar o meu miserável e querido ví­cio. Vinte minutos depois encontrei um bar safado, desses de taipa pintada de branco e chão de terra batida. Tinha todo tipo de cachaça, cerveja e caranguejo. Mas cigarros não tinha.
Fui informada que o lugar mais perto onde poderia encontrá-los era na padaria, uns três quilômetros adiante.
Voltei para casa sob o sol abrasador, a vista embaçada por um véu de um violeta-ataúde. Peguei a chave do carro de minha amiga e disse ” Vou ali, já volto.” Não quis demorar-me em explicações. “Onde vai?” Minha amiga perguntou. “Comprar cigarro.” Respondi entre os dentes já entrando no carro. Afinal ela não merecia meu mal humor.
Quando eu estava fazendo a manobra para sair, lá vem a minha amiga com um dinheiro na mão. “Dá para você comprar também para….. fulana?”. (Vamos apelidá-la de fulana? É que essa criatura não merece o belo nome que tem.)
Meu coração cheio de fel respondeu “Não, não dá.” Mas minha boca não obedeceu, e respondi com voz esgarçada de seda lilás. “Claaaaro que sim!”
Minha filha, que estava comigo todo o tempo, dizia que “se fosse ela não comprava de jeito nenhum. Mandava a outra sair para comprar, se ela quisesse.”
Respondi-lhe que não iria jogar lenha na fogueira da minha raiva. Que seria estragar o dia de todos. “Melhor não aumentar a história.” Argumentei.
Assim, comprei cigarros para ela e para mim. Deixei o seu troco e maço sobre a mesa, troquei de roupa e fui dar um mergulho, esfriar a cabeça.
Nem “obrigada” ela me disse, quando voltei.
Passei o resto do dia monossilábica. Não consegui relevar a grosseria da criatura. Mas o trabalho terminou e voltamos para casa.
Pois… depois disso pensei duas vezes se iria ainda aceitar o convite para o final de semana, mas não deu mais tempo de recusar. A minha amiga já havia feito as compras e tí­nhamos apenas que pagar a ela nossa parte. Não ia dar tanto valor assim a um simples cigarro negado, pensei. Mas não estava conseguindo esquecer. O fel foi se acumulando na alma.
No final de semana seguinte, estávamos lá outra vez. Levei um pacote com DEZ maços de cigarros. Havia voltado a fumar com toda a voracidade de quem recomeça a alimentar um ví­cio de muitos anos. É muito pior voltar a fumar do que nunca haver tentado deixar.
Tentei tratar a moça da mesma forma que antes do incidente, mas meu coração já estava frio para ela. Fui educadamente distante por todo o final de semana. Seus assuntos já não me interessavam. Sua risada me parecia falsa. Seu egoí­smo aparecia em cada mí­nimo comportamento. Só para dar um exemplo: A moça levou uma rede. Pois ela pendurava-a apenas quando ia utilizá-la. Quando saí­a, desmontava e guardava dentro do “seu” quarto.
Não relaxei. Não diverti-me. Sua companhia em todos os momentos dos três dias incomodou-me profundamente.
Ao final do domingo, depois que tudo já estava arrumado para irmos embora, minha amiga resolveu servir um último cafezinho, com biscoitos de maçã e canela. Sentamos em volta da mesa e nos servimos. Ela abriu a bolsa e tirou seu maço de cigarros, abriu-o…. e estava vazio.

Meu coração parou. A cena ficou em câmara lenta para mim. O café fumegante nas xí­caras, os biscoitos quentinhos nos pratos, meu maço de cigarros sobre a mesa ao meu lado… e ela SEM CIGARROS!
Pensei se ela teria coragem de pedir-me. Pensei que se o fizesse eu teria a magní­fica chance da roda da vida de negar-lhe. “Fumante que se preza, anda com cigarro!” eu diria sorrindo angelicalmente. Acenderia um para mim e daria uma baforada que enevoasse toda a sala…
Uau! A rainha da prepotência sem cigarros num domingo de tarde, depois de um cafezinho com biscoitos!!?
E a padaria fechada!?
Era perfeito! Lavaria minha alma do fel que a turvara por toda a semana. Oh! Deus! Como o mundo gira rápido!
Enquanto pensava vi por trás da névoa de um filme antigo em preto e branco ela estender a mão para o maço ao meu lado, abri-lo e tirar um… “Meu cigarro acabou, AMIGA. Vou pegar um dos seus, viu?” disse sorridente a bruxa má.
“AMIGA”? Ela sabia lá o que era isso? Pensei, com o veneno escorrendo pelo cantinho da boca.
Em um segundo a névoa se desfez. A cena voltou a velocidade normal da vida real.
“Fique à vontade” respondi muito séria. Agelicalmente séria.
Tum! Fiquei surpresa comigo mesma! Como assim? Como pude deixar escapar uma oportunidade como essa?
Minha filha olhou para mim incrédula. Sua cara me questionava “mãeee?”
E de repente eu percebi uma estranha sensação de alegria, de paz interior. O fel que turvara minha alma desapareceu. A raiva que eu estava dela sumiu. O desprezo que ela me inspirava esvaiu-se na fumaça de nossos cigarros sobre a mesa.
Eu estava aproveitando o momento, saboreando o prazer de não ter sido igual a ela. Estava contente comigo mesma.
De repente meu café ficou mais gostoso. A tarde mais bonita. Meu corpo mais leve.
Desfrutei destas sensações por um longo tempo…
Voltei para casa cantarolando “como uma onda no mar…”
Ela nunca se transformou numa amiga. Naquela tarde desisti dela. Pulverizei sua existência num passado longí­nquo.
E  este ano eu vou deixar de fumar. De verdade!
O mundo nem sempre gira tão rápido como gostarí­amos. Mas gira!

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Viajando Para o Brasil…

Onze da noite de um domingo.
Mas não qualquer domingo. Um domingo especial.
Durante o dia inteiro não consegui comer, nem dormir, nem ler. Coisas de fazer todo domingo sobraram nas mãos, no corpo, na mente. Eu só queria engolir o tempo.
Assim saí de casa com o coração derretido de emoção, mesmo com o frio de 6 graus.
Aeroporto de Barajas, Madrid. Voo da Ibéria, marcado com antecedência de três meses, com destino ao Rio de Janeiro.
Depois, um dia no Rio com a ilusão de um encontro marcado com Manoel Carlos, meu amigo do blog Agreste, para um almoço com paisagem de Pão de Açúcar e tudo.
Ao final, coroando meus sonhos, um voo direto para Recife, com direito a um grande grupo de amigos queridos nos esperando no Aeroporto dos Guararapes.
Dois anos sem ver meu país e minha gente, sem sentir o calorzinho (insuportável) de suas cidades e (adorável) de suas praias! Dois anos sem ir à Recife.
Que delícia de ansiedade!
Resisti bravamente à tentação de ir ao cabeleireiro antes da viagem. Nem pensar em arriscar a sair da Espanha com os cabelos rosa-mercúrio-cromo ou esticados como os de uma japonesa. Botas no armário. Escolhi uns mocassins cômodos e leves. A gente aprende, né? Esqueci os chocolates, companheiros inseparáveis das longas viagens.
Pois é…
Dois anos sem tomar um avião, sem encarar as bruxas dos aeroportos e eu já havia esquecido que elas existem.
O vôo sairia às 01:45 da madrugada do dia 20. Daria para uma boa cochilada e já acordaríamos no Rio. Perfeito!
Mas não saiu.
Depois de manter-nos dentro do avião por mais de três horas, o comandante avisou que havia um defeito nos equipamentos eletrônicos e que em 20 minutos estaria tudo resolvido. Não estava.
Suspirei e pedi calma a mim mesma. Desta vez estava com olhos-de-mar-azul ao meu lado. Não deixaria que meu ânimo se esvaísse. Afinal, iríamos juntos ao Brasil. JUNTOS! Isso era o único que importava!
Saímos do avião para um aeroporto vazio e com tudo fechado. Meu estômago colado nas costas de tanta fome e sede. Cadê meus chocolates?!
Levaram-nos para uma lanchonete onde podíamos escolher um sanduíche e um refrigerante ou um sanduíche e um refrigerante. Uma fila enorme e um único atendente com cara de “que-é-que-vocês-estão-fazendo-aqui-a-essa-hora? “
Um grupo de baianos reclamava seus direitos a uma funcionária da Ibéria que nos olhava como se fôssemos todos refugiados de guerra, dando-lhe trabalho extra na madrugada tranquila de Barajas. Uma senhora negra, com cara de entender de santos e orixás disse que o avião ia cair, que ela tinha sonhado, mas que suas orações fizeram com que o mesmo não decolasse de nenhuma forma. Exigia que trocassem-nos de avião. Naquele ela não iria mais! Uma perua loura-oxigenada com umas botas salto 15cm, levando uma caixa de madeira com um gato dentro exigia comida para seu bichinho aos gritos. Sem opção. Sanduíche e coca cola era tudo o que havia. Tentei ver a cor do gato, mas não deu. Ui!
Depois de quase uma hora levaram-nos por escadas e esteiras rolantes para tomar um ônibus para um hotel em Madrid com a maravilhosa notícia de que o nosso voo só sairia às 16:00 horas.
Heim!?
Por que meus encontros com os aeroportos tem que ser assim? Por que eles não gostam de mim?
Engoli o cansaço e enfrentei outra fila no recepção do hotel para conseguir um quarto. Não podia acreditar que minha linda viagem estivesse reduzida a isso. Dormir num hotel a 30 quilômetros de casa.
Depois de um sono leve e faminto de apenas três horas, um café reforçado e um breve contato através da Internet com os amigos avisando sobre o atraso, estávamos novamente entulhados na recepção do hotel.
Fila para o almoço, fila para o ônibus que nos levaria de volta ao aeroporto, fila para embarcar finalmente para o Brasil.
Na sala de embarque a Ibéria nos informou que não garantia reembolso de nenhuma conexão perdida que não estivesse acoplada às passagens da companhia. Isso queria dizer que perderíamos o vôo da Gol e – quem sabe – o dinheiro também.
O grupo de baianos queria falar com um supervisor. A loura do gato surtou e quase bateu na atendente. Os fumantes procuravam o metro quadrado pintado de azul para acenderem os malditos e execrados cigarros. Eu entre eles.
Telefonei para a agência em Recife e pedi que mudassem meu vôo para as duas e meia da madrugada, já que chegaríamos no Rio às 23:00 horas. Tudo bem, pagaríamos a taxa e a diferença de preços entre as passagens previamente reservadas. Dos males o menor. Eu queria chegar! E sem surtos.
Não ia dar para ver o Manoel Carlos também. Que pena!
A baiana conferia o nome do avião e garantia que era outro. Dizia que seu sonho salvara todo mundo de uma desgraça. Acreditei.
Dois passageiros não compareceram ao embarque. Tiveram que abrir o compartimento de bagagens para retirar as “suspeitas” maletas dos ” desaparecidos”.
Uma hora e meia depois do previsto, isto é às 17:30 da tarde, o avião decolou de Barajas rumo ao Galeão.
Ufff…. agradeci a Deus por deixar uma poltrona vazia ao meu lado onde eu poderia esticar um pouco as pernas e tentar cochilar durante o voo.
Sim?
Não. Três rapazes atrás de minha poltrona resolveram tomar cervejas e contar piadas em Inglês a noite TODA! Gargalhavam e batiam os pés, os desgraçados!
Quase fui buscar a baiana lá na frente para ela fazer uma oraçãozinha das boas…
Onze horas depois eu era um maracujá amarfanhado, com olheiras magníficas, todas as juntas doloridas e odiando a Inglaterra profundamente.
No Galeão, às 00:30 da noite, corri para o boxe da Gol para não perder o prazo do check in para Recife, enquanto olhos-de-lago-cinza-chumbo esperava a nossa bagagem.
Aquele bichinho que come meu estômago, meu fígado e se instala em meus intestinos nas tensões aeroportuárias, despertou com ganas de matar-me.
A Gol informou-me gentilmente que minha reserva estava garantida para Recife, mas que APENAS MEU NOME CONSTAVA DA MESMA.
HEIM?!!
Como assim???
Pois assim… A agência só garantiu meu lugar no voo. Não havia outra vaga. Estava lotado.
Minha cara deve ter sensibilizado o rapaz do boxe. Disse-nos que esperasse um pouco para ver se faltava alguém no trecho que vinha de São Paulo. Era muito provável que ocorresse um no-show. Sempre acontece, ele garantiu.
Esperamos. Esperamos. Esperamos.
Uma hora em pé diante do boxe da Gol. Ainda bem que estava perto do banheiro, pois o bichinho estava adorando a brincadeira das bruxas!
Finalmente o rapaz nos chamou… e disse que INFELIZMENTE não podíamos embarcar juntos. Não faltou nenhum passageiro.
Nem sempre o sempre acontece. Ainda mais quando as bruxas resolvem divertir-se às minhas custas.
O próximo voo para Recife sairia às 15:30hs da tarde, com co-ne-xão em Salvador e chegada prevista para as 20:15hs em Recife!!!
Comecei a chorar.
Para melhorar o meu astral, meu lindo e calmo companheiro de viagem resolveu brincar dizendo: ” Da próxima vez que viajarmos para o Brasil, você vai na frente e uma semana depois eu vou. Nos encontraremos no aeroporto de Recife.”Eu queria rir, juro! Mas minha boca não conseguiu. Estava atordoada de cansaço, de frustração, de raiva. Ele tem mais senso de humor do que eu nestas horas. Ainda bem.
Caminhamos pelo enorme corredor vazio até os boxes da VARIG e da TAM, atrás de outras possibilidades. Fechado. Tudo fechado!
Voltamos para o boxe da Gol. Teríamos que aceitar a miserável proposta. Inferno!
Chegar em Recife estava parecendo mais impossível que voltar para Madrid! E no aeroporto do Rio nem metro quadrado azul tem. Quem quiser fumar tem que sair do recinto! Sair por onde se estávamos no segundo andar???
Desafiei as bruxas. Fumei três cigarros de uma vez! No meinho do corredor! Queria ver se alguém vinha prender-me!
O moço da gol ficou ainda mais sensibilizado com minha agonia e disse-me que “não tinha certeza, mas havia escutado que a Ibéria estava pagando um hotel para os que perderam suas conexões.”
Corremos – melhor dizer “arrastamo-nos”- para o outro lado do corredor. Ainda não entendi por que tudo que você tem que fazer num aeroporto está exatamente no ponto oposto de onde você está. Nunca, nunca, nunca!!! está logo ao lado.
Acho que neste momento, as bruxas cansaram de brincar e foram dormir.
No boxe da Ibéria a moça simpaticamente atendia aos últimos passageiros do voo. Escutei que ela estava dando passagens em outras companhias para quem havia perdido a conexão. Nem pensei duas vezes. Apresentei a ela minhas reservas na Gol e ela me ofereceu dois lugares na TAM às 8:40 da manhã, direto para Recife, além de um quarto no hotel Luxor do aeroporto.
E claro, estava do outro lado do enooooooorme corredor.
Eram quase quatro horas da madrugada quando entramos no último quarto vago do hotel. Era nosso até às 6:00hs.
Deu-nos duas horas de sono, uma ducha e um café da manhã.
Quando o voo da TAM sobrevoou Recife e pousou no aeroporto dos Guararapes eram 10:30hs da manhã da terça-feira.
Um mar verde esmeralda nos esperava, alguns amigos queridos e persistentes, um calor abafado de 32 graus…
Emprestaram-nos um carro, um telefone e um apartamento…
Nos encheram de beijos e abraços, convidaram-nos para uma cerveja…
As bruxas dormiam ainda, com certeza.

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Extra-Large Outra Vez…

A notí­cia é pequenina, como querem que seja.
Pequena no tamanho, como tudo na onda da moda. Grande no significado. E diz assim:
O modista Karl Lagerfeld assinou um contrato para desenhar uma coleção para a famosa loja sueca H&M. Mas mostrou-se descontente e não pretende renovar o contrato porque a empresa, além de fabricar poucas peças, ainda teve o desplante de fazê-las em tamanhos demasiado grandes.

Peraí­… O sujeitinho só quer que sua marca vista as mulheres que ele considera “mulheres elegantes”. Isto é, magras. Mas muuuuito magras. As grandes não lhe interessam. Tamanho G é 40.
E as extra-large então?
Estas que se danem, morram… Mas, se sobreviverem, que não se atrevam a mostrar-se. E muito menos com as peças assinadas pelo loiro vampiro aí­ da foto.
As redondinhas de seios e quadris, sejam jovens ou maduras, que andem nuas pelas ruas da amargura, nos becos escuros das noites sem lua. E sozinhas, de preferência, para não gastarem o pequeno arsenal de pares felizes do planeta. Na hora do amor, que apaguem a abajur, por favor! O mundo da luz e das cores é das sí­lfides.
Pois sim… um dia destes escrevi minha odisséia pelas lojas da cidade em busca do que vestir. O post ainda está aí­ embaixo…
Engraçadinho no contar, mas muito sério no viver.
As mulheres não deveriam mais ficar caladas com a pressão social para “um-padrão-de-mulher” comercial e discriminatório. As propagandas da televisão despejam na minha sala milhares de produtos de beleza: anti-rugas, anti-celulite, anti-peitos grandes, anti-peitos pequenos, anti-velhice, anti-mulher-de-verdade.
Todas as modelos tem menos de 30! Assim é fácil mostrar a cara lisinha.
Quase sem perceber miro o espelho e procuro as marcas da minha decrepitude. Se nunca usei nada deveria estar como o Retrato de Dorian Gray. (Digo o retrato, não o personagem de Oscar Wilde.) Não encontro nada de decrépito. Meu rosto mostra as marcas da minha vida e da minha idade. Mantenho a aura que me cerca e que, creio, fez-me e ainda me faz ser uma bela pessoa.
Mas a televisão insiste e grita MAIS ALTO que qualquer programa normal que agora – vejam só! – as clí­nicas de cirurgia estética oferecem planos de pagamento parcelado para eliminar todo, mas todo mesmo, tipo de complexo. Rugas, celulites, peito grande, peito pequeno, bunda caí­da, narizes, orelhas, lábios…tudo!
“Queira operar sua idade, perca 10, 15, 30 anos! Mesmo que passe não sei mais quantos pagando pelo resultado que nunca é o que promete! Se escapar viva, pois senão pagarão a dí­vida seus descendentes. E aí­ sim, promessa cumprida! Vai ficar pele, osso e sem nariz, mas feliz, feliz!”Querem que eu queira ser a Barbie, que já tem 40 com cara de 15, corpo de 12 e cabeça de borracha oca.
Pois não… recuso-me.
E clamo que as mulheres também se recusem a serem enterradas vivas pela montanha de propaganda, cuja intenção é que queiramos nos transformar em bonecas de plástico.
A última que fiquei conhecendo foi da retirada de duas costelas para afinar a silhueta de uma apresentadora de televisão, que veste 36 ou 38, no máximo, e mede mais que 1,70.
O que é isso?
Quem está dando essas ordens para as ovelhinhas do rebanho?
Os vampiros da moda e as mulheres. As próprias ví­timas.
Ninguém me tira da cabeça que são as próprias mulheres.
Sim, porque são elas que buscam defeitos nas amigas e inimigas de modo a “turvarem” os olhos de seus parceiros.
Que ledo engano! Que tolinhas!
Os homens – e chamo homens os normais e não os “metrosexuais”- gostam de uma mulher pelo todo, pelo que ela emana de feminilidade e sex appeal.
Ele nem nota se aquela loira de sorriso espetacular tem os joelhos pontiagudos. E se notar, foi porque outra mulher lhe disse.
E, quer saber? Ele nem se importa. Joelhos? Para que servem?
Como também não nota se a morena que cheira gostoso e anda como se flutuasse, tem TODAS as costelas ou lhe faltam duas! Se duvidar ele até doa outra sua…se ela quiser “ir buscar lá em casa!”
Homem gosta do todo e dizem isso mil vezes!
Mas a mulher não acredita. E sabem porque? Porque outra mulher lhe diz para não acreditar.
Quer ver uma queixa feminina de praxe?
Ela pinta o cabelo, dá reflexos dourados, uma aparadinha aqui outra ali, pinta os lábios com o novo batom da Lancôme de 150 reais… e ele não nota nadinha!
Mas ele gosta de qualquer tamanho e tom de cabelo ou batom se a vê dentro de um bonito vestido de generoso decote. Saia com lasquinha aberta do lado então!? Dá palpitações no peito e brilho novo no olhar.
Não falha. É tiro e queda!
Mas não… Generosos decotes de bonitos vestidos custam uma pasta! Nem todas podem comprar. E as redondinhas menos. Os tamanhos das roupas bonitas e sensuais dos grandes magazines não chegam ao 44! Juro!
Que o diga o modista da notí­cia.
Aposto que por alguns milhares de dólares o peste-vampiro desenha um vestidinho básico, com belo decote e lasquinha na saia para Liz Taylor.
Mas na H&M? A preço popular para uma senhoura de 73 anos, fartos seios e de nome Lola Sanchez? Nem morto!
E nós, as belas e arredondadas mulheres, não importa de que idade, mas de carteiras magras e nomes comuns, que comamos o pão que o diabo amassou na hora de buscar o que vestir.
Aliás… comer pão? Não!
Foto do Jornal El Mundo

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Presente de Natal…

Véspera de Natal.
E eu tirei o dia de folga. Nada de arrumar, limpar, guardar, comprar. Já estava tudo perfeito desde o dia anterior. Aquele era dia para descansar. Queria-o só para mim. Acordei tarde e fui ao salão de beleza, cuidar da casca…
Estava recém saí­da daquele poço profundo e escuro.
Queria retocar cabelo, unhas, sobrancelhas. Tudo o que me permitisse ficar ali, recebendo dengos.
Curtir os momentos relaxados de escutar as conversas fiadas entre desconhecidas. Todas parecendo tão felizes! Cafezinhos, bolachinhas…ti-ti-ti!
Ah, como era bom fingir de dondoca… Igual àquelas de cabelos aloirados pelas tintas mágicas da L´Oreal.
Começo de dia bom. Dia de Mulher-Chic… e eu gostando!
Almocei com a minha mãe. E depois de um café e um licor, mais dengos. A Princesa gostava…e eu também!
Então…
Voltei para casa, pensando em ouvir as Suites de Bach para violoncelo, dormir um pouquinho na casa limpa, sozinha… Ahamn! Um sooono!
Dei de cara com o rosto apavorado do porteiro, já na garagem:
– A Sra. deixou uma torneira aberta. Quando a água chegou, inundou tudo. Só descobrimos quando começou a escorrer pelas escadas.
– Hem?! Não é comigo. Não pode ser COMIGO! Continuei andando. E o porteiro me seguindo.
Era. Era comigo.
Pânico!
Entrei em casa e estava tudo, absolutamente tudo ensopado. Tapete, almofadas, quarto, cozinha! Eu andava e fazia poft…poft…poft… Os pés provocando ondinhas. Água por todo lado!
Tive vontade de fechar a porta e fugir. Deixar o tempo secar tudo. Mas o porteiro estava ali. Era testemunha de que EU VI.
Fechei os olhos. Não adiantou.
Tive vontade de voltar no tempo e nada aconteceu... “…apenas seguirei como encantada…”
Tive vontade de beber a garrafa inteirinha de whisky que estava na estante.
Tive vontade de jogar tudo pela janela. Era tão pouquinho mesmo.
Tive vontade de sentar e chorar…
Procurei uma ilha e sentei na única parte seca da casa , diante do computador, no quarto da minha filha. Ela estava morando nos EUA e eu tentava esquecer a falta que me fazia.
Abri meus e-mails. Muitos eram cartões de ” Feliz Natal ” dos amigos.
Havia uma carta dela dizendo que me amava muito. Eu também… eu também…
Acendi um cigarro e pensei… ” nunca mais volto para a sala…” Ficaria ali por toda a minha vida.
Meu reino por uma faxineira!
– Que reino?
– Cadê meu anjo?!
Nem o porteiro estava mais!
Três horas e meia tirando tudo do lugar, secando o chão, mandando um tapete de quatro toneladas para a garagem. De camiseta e calcinha, rabo de cavalo, dançava e bebia um whisky na sala úmida. Foi a melhor opção.
Adeus mulher dondoca! Adeus cabelos escovados! Adeus dia de delí­cias!
Adeus Bach!

Botei um disco de Roberto Carlos, dos antigos… para lembrar que era Natal, que dali a pouco estaria com meus irmãos e minha mãe, comendo e bebendo!
– Por quanto tempo ainda a terí­amos por perto?
Dancei… “Ah! esse amor selvagem, passagem…pra loucura e pra dor…”
Era mais feliz agora.
Achei que era louca.
Depois pensei que não devia ser, senão teria ido embora e deixado tudo como estava. Ou pior, jogado tudo pela janela do 15· andar.
Por falar em janela… da minha eu podia ver as verdadeiras mulheres-dondocas saindo do shopping em seus carros importados, com motorista e tudo! Para elas só a cor dos cabelos era falso. O resto era tudo verdade!
Aí­ sentei de novo e resolvi escrever. Registrar o inusitado presente de Papai Noel, que piscava como um sinal de que a vida podia mudar nossos planos de uma hora para outra…
Tudo era possí­vel acontecer no dia de Natal? Inclusive uma inundação no 15° andar de um prédio, aparentemente inatingí­vel pelas águas, em pleno racionamento da seca no Nordeste do Brasil!?
Embora parte da responsabilidade seja sempre nossa, às vezes o mundo gira ao contrário!
Não lembrava de ter deixado a torneira aberta E, realmente, só estava mal fechada. O que dava no mesmo…
Escrevi que mais tarde faria um brinde silencioso a mim mesma. Por eu ter saí­do definitivamente do poço, por eu não ter desabado de novo na tristeza, por estar suportando com raça a grave doença da Princesa.
Como mostravam os filmes natalinos que eu via quando era criança, a felicidade era um momento mágico, e a mágica devia estar mesmo dentro da gente…
A sala já estava seca. A cozinha, o banheiro e os quartos ainda úmidos, mas menos ameaçadores. Já tinha Bach para violoncelo tocando alto no som…
Nem pulei pela janela…
Sentia uma estranha alegria no coração…
Talvez porque era Natal…
Mas… se eu nem gosto de Natais!

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Extra Large…

Eu andava lutando com a balança como um bicho!
Manso.
Não é muito fácil ganhar essa luta na vida que venho levando. As comidas, as bebidas, o amor completo, a maturidade do corpo e do espí­rito, a paz instalada na alma, engordam!
O frio por nove meses do ano e as roupas belí­ssimas de inverno, outono e primavera madrilenhos escondem as dobrinhas como amigas condescendentes.
Mas aí­, chega o verão… e cadê o biquí­ni que não cobre mais nada?
Cadê as bermudas de algodão que, inimigas mortais de uma cintura mais redonda e quadris mais largos, mostram com sarcasmo que seu corpo não mais as merecem?
As blusinhas diáfanas e sem mangas saem do guarda roupa para o corpo por mais ou menos dois minutos e se acumulam sobre a cama, incômodas, ridí­culas e imprestáveis!
As únicas amigas de verdade são as camisetas e os jeans! Esses nunca me abandonarão! Mas como ir à praia assim?
Não se deprima! Digo a mim mesma rapidamente. Vá às compras! Todas as mulheres do mundo saem às compras no verão, ou não?
Sim. Todas.
Mas aí­ eu descobri que agora eu não sou mais M – de Mulher Maravilhosa – ou G de Grande e Gostosa, para as roupas que devem ser mais folgadas e soltas. Eu agora eu sou EX de Extra (enorme) Mulher.
Que humilhação! Foi meu primeiro pensamento.
Mas peraí­! Não se deprima. Compre só umas coisinhas e assim que começar o inverno as dobrinhas vão ver com quantos paus se faz uma canoa. Isto é, como se costura a boca! Disse-me mais rapidamente ainda. Animador. Às compras!
Até que descobri o pior. O significado implí­cito no tal EX.
Leia-se EX MULHER!
Mulheres Extra Grandes não têm direito às roupas modernas e femininas. Elas tem que vestir umas batas sem forma alguma, com cores asquerosas, flores imensas ou bolinhas minúsculas!
E as bermudas? Um nojo!
Os modelitos são desenhados para “senhouras” de quinta idade, do iní­cio do século passado.
Pois é…
Aqui para nós, as mulheres maduras da nossa época são muderrrnas, têm um gosto jovial, querem sentir-se femininas e sexy! Incluindo as gordinhas!
O que faz a indústria da moda pensar que as Extra não podem estar bonitas e bem vestidas?!
Vou contar sobre as compras…
As lojas de departamento, as redes conhecidas de roupas com preços mais acessí­veis ao bolso da população classe média, vendiam coisas lindas e maravilhosas!
Dava água na boca ver! Dava vontade de comprar e vestir na hora!
Mas, quando eu escolhi algumas delas e procurei meu tamanho, capoft!
Deu vontade de chorar, de morrer, de me internar num SPA, de fazer uma cirurgia de estômago!
A maior peça G vestia minha filha, que tem 20 anos e pesa 54 quilinhos bem distribuí­dos. Em to-da a lo-ja não havia absolutamente nada (que eu gostasse) que desse em mim.
Nem na loja ao lado. Nem em todo o centro comercial!
Só jovens magras tem o direito de comprar coisas bonitas e de bom preço?
Não, assim eu estaria mentindo. Existem umas duas ou três lojas especialmente para as mais maduras. Coisas hor-ro-ro-sas!
Nem minha avó se vestia assim!
A mãe do Lorde tinha costureira particular que ia em casa e fazia seus elegantes conjuntos, que ela estreava com orgulho nas missas de domingo e nos chás com as amigas. Não era gorda, mas era grande, alta e de fartos seios.
Aí­… tchan- rãaannn… uma das “vendedouras” bem intencionada (?), provavelmente filha de alguma inimiga que eu nem sabia que tinha, me indicou uma loja para Tamanhos Grandes. Leia-se GORDAS.
Como assim?
Assim. As medidas vão de EX a EXXXXX…
Isso. Exxxxxxx-mulher! E rica!
São roupas realmente “maiores” ou absurdamente enooormes.
Algumas belí­ssimas, elegantí­ssimas e TODAS carí­ssimas!
E a moda praia? Aquelas calçolas não se pode chamar de biquinis. Juro!
Comecei a rir meio histérica, com lágrimas nos olhos e vontade de não comer NUNCA MAIS!
Depois de mais de três horas de tortura, voltei para casa com ódio de mim, do meu corpo e da minha idade!
– Peraí­! Quando eu tinha 20 anos e 54 quilos bem distribuí­dos, vestia 38. P – de pedaço de mal caminho!E minha filha aqui já veste, com o mesmo peso, M ou G dependendo da marca. Algumas blusas minhas, de alguns poucos anos atrás, ela já veste e com bom caimento.
Eu heim!
Acho que a indústria da moda está pregando uma boa peça nas mulheres. Diminuem o tamanho das roupas, tascam o mesmo número de manequim, e cobram muito mais caro! I
sso mesmo! Elas gastam menos e cobram mais. Sem falar que “de quebra” nos vendem uma imagem de “fora do padrão”.
Assim o mercado de diet, light, SPA, lipoaspiração, mesoterapia, cirurgia plástica, medicamentos e fórmulas mágicas para emagrecer enriquece às custas da nossa auto estima!
As tabelas de peso-altura-idade diminuí­ram seus escores. As indústrias medico-farmacêutica-estética dizem que quem estiver acima delas morre antes, é infeliz, é feio, é pouco desejável. É um doente!
Estive num check up dia destes. Nunca estive tão saudável. E, fazendo um balanço da vida, nunca estive tão feliz, tão amada e desejada e tão arredondadamente madura, calma e em harmonia com universo.
É verdade que adquiri uns quilinhos extras desde que vim morar na Espanha. Bem amada, bem alimentada e nenhum stress por ter que dormir tarde e acordar cedo, tomar um café correndo, enfrentar um trânsito insuportável, reuniões improdutivas, trabalhar e trabalhar, estudar, estudar e estudar, correr para almoçar contando as calorias, correr para pagar as contas, correr para ir ao supermercado…correr para chegar à tempo na Universidade e dar aulas de três horas e meia seguidas a um bando de alunos de pós-graduação, cansados de correr nas suas cotidianas maratonas…
Aqui tenho mais tempo para ler, escutar música, aprender a cozinhar, visitar museus e cidades lindas. Tenho tempo de pensar no que fui e no que quero ser daqui por diante.
Não sabia que podia ser tão bom viver sem stress. O tempo que a burocracia leva para validar meus papéis de gente neste paí­s me obriga a exercitar a paciência, a tolerância… e principalmente, a encontrar prazer nas pequenas aprendizagens desta nova vida. O trabalho já virá…
Se eu escolhesse o desespero, poderia estar arrancando os cabelos por estar levando essa vida “improdutiva” e “inútil.” Mas eu escolhi ser feliz. E isso faz uma enorme diferença em meu estado de espí­rito.
Não que eu não fosse feliz antes. O trabalho e a correria eram a única forma de felicidade que eu conhecia. Então eu era…
Hum.. mais ou menos.
Na verdade, sofria de uma presença constante de uma falta… como se não soubesse de mim o mais importante. Tinha um lado meio triste que de vez em quando se instalava. Uma sensação de solidão incurável, uma melancolia. Antes isso me angustiava. Agora não. Quando o momento triste vem, deixo que se instale, diga a que veio e se vá. Manso. Assim. E solidão eu não sinto mais, apesar das saudades.
E estão querendo me estressar com uns mí­seros quilinhos a mais!
Nipes nada!
Acabei indo ao mercadillo, que eu nem sabia que existia. Leia-se uma feira. Só que não vende comida. São dezenas de barracas de roupas e sapatos, objetos de decoração, tem de um tudo. Ali encontrei roupas para o meu verão de gordinha. Comprei três bermudas e três blusas de algodão, uma saia e outras cositas mais.
Tudo EX, é claro! Mas lindinhas, modernas, joviais. E por um terço do preço das lojas para as grandes e ricas mulheres!
Parece que pobres podem ser gordas ou arredondadas, mas felizes e bem vestidas. As ricas também!
Por sinal, vi um bocado de madame pela feira. De óculos escuros e lenço, disfarçadas de pobres. Os carros parados no estacionamento são chiquérrimos, o que entrega de bandeja que as dondocas ocludas de pobres não têm nada. São só mais espertas que as outras.
Pois vejam o que saiu na publicação semanal do El Mundo.
Ho ho ho…
Deus é bom pra mim!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

*Reportagem capa do Magazine El Mundo
A gorda está melhor de saúde, mas quanto à auto estima…quem sabe?

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Mulher Maravilha…

Eu era uma moça moderna. Ou pensava que era. Separada, filha pequena, apartamento no terceiro andar, sem elevador. Professora, estudante, aprendiz de “la vida”. Auto suficiente! Alta, bem proporcionada (isso nunca foi ser magra, heim!). Dinâmica ( eu???), inteligente, preparada (sim?) segura ( quem?? ) diziam outros. Era tão bom ter amigos assim! Era uma daquelas mulheres dispostas a matar dez leões por dia. Todos os dias se fosse preciso. E era. Uma noite, um destes monstros pré históricos entrou voando pela janela do apartamento e poft! estalou, negro e ameaçador, bem na parede em frente a mesa da sala onde estava debruçada na correção das provas de meus alunos. Pânico! Não gritei porque não podia. E a criança dormindo? Deslizei de mansinho para o chão e engatinhando procurei, sem pensar, a porta mais perto. Era a de saí­da. Quando consegui pensar, estava no hall do prédio, de camisola, agachada em frente à porta de casa, olhando pela brecha mí­nima para a peste da barata. O bicho não se movia, mas eu não me atrevia a entrar. A danada era das voadoras supersônicas, senão como teria conseguido voar até a janela de um terceiro andar!? Tentei voltar de gatinhas e atravessar a sala em direção ao quarto da minha filha, pensando na criançinha indefesa… e Frrrruuuuu… asas supersônicas sobre minha cabeça. Voltei de ré em meio segundo. Que desespero! Não podia ficar ali fora! Que mãe desnaturada abandonaria sua filha na mesma casa com aquele animal perigoso, fedido e asqueroso ? Eu! Só eu mesmo! Acordei com o voz do vizinho, às 6 da manhã, encolhida em cima do pequeno tapete.-Você está bem? -Heim!?-Aconteceu alguma coisa? -Não, nada… eh… sim… uma b…bbarata. E olhei para dentro. A danada não estava mais ali.

Salvou-me a chegada da empregada. Das duas coisas. Do risinho irônico do vizinho e de ter que entrar sozinha em casa com aquele monstro lá dentro. Passei direto para o quarto e fiquei lá até a faxineira matar e mostrar o cadáver da miserável.

Com o corpo todo doí­do, tomei uma ducha fria, um café amargo, organizei a coitadinha ( que mãe!!!), desci os três andares de escada com as pastas de provas sem corrigir, e preparei-me para todos os leões que teria que matar aquele dia.

Barata não!

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Faça Fácil…

Por mais confortável que fosse o colo de minha mãe nos anos que se seguiram à minha separação e a ajuda que me deu cuidando da neta nas muitas viagens de trabalho, decidi que queria casa própria. Queria deixar de ser mãe e filha na mesma casa. Queria cuidar de mim mesma e de minha filha. Queria meu próprio espaço, com direito a não ter que ver o Faustão. Isso! Com direito a sequer escutar a sua voz por trás da porta fechada do quarto. Com direito a não ligar a televisão por toda uma semana!!! Por um mês… por um ano, se eu quisesse. Pois… assim. Aluguei um poleirinho no décimo quinto andar de um prédio, em Boa Viagem. Pequenino, bonitinho….e quente. Era poente. O sol vinha de se punha dentro da sala todos os dias. Tudo bem… tudo bem. Era meu canto, isso era o importante. E eu podia pagar. Isso também era importante. Um tapete, uma rede, almofadas.Uma janela para o espaço, por onde entrava a lua tardia e solitária. Uma mesa emprestada. Dois quartos mí­nimos, onde só cabiam mesmo as camas e o computador. Banheiro minúsculo e cozinha ridí­cula! Era um corredor com um balcão de dois palmos e uma pia. Uma cozinha que eu não sabia usar, mas tudo bem… tudo bem… tudo se aprende! O apertamento ( com “e”) era tão pequeno que eu brincava com os amigos contando a piada de que ” aqui não tem lá dentro, é tudo aqui mesmo!” E fiz uma placa perto da porta que dizia: “Cuidado! Janela próxima!” Mas era aconchegante, esbanjava calor humano. Meus quadros, minhas velas, meus livros e discos. A rede e a grande janela. E a televisão SEMPRE desligada. Delí­cia de vida! Comecei meus dias de Tonhão. Eu não sabia fazer nada. Nem montar cortinas (Tudo bem, eu gosto de sol, mas ele queria mudar-se para dentro da minha casa e ficar lá, para sempre), nem montar varais para roupas lavadas, nem estantezinhas de ferro dessas que mentem dizendo “Faça Fácil.” Fácil??? Passava horas enrolada com aquelas grades que não encaixavam de forma alguma nas fendas dos suportes. E quando eu pensava que havia conseguido, ao primeiro peso de livro, desmontava inteira! Miserável! Mas não desisti. Já que tinha casa, de-ve-ria aprender a fazer as coisas sozinha. Não tinha dinheiro para ficar pagando para os mil-pequenos-serviços que um lar necessita. Tudo se aprende. Ou não? Um dia, cheguei em casa cheia de boa vontade, uma sacola de suportes para shampoo e toalhas, prateleiras para o corredor-cozinha e uma furadeira Black & Decker. Emprestada. Lógico. Vesti meu traje Tonhão Gay, ( camiseta e calcinha ) e fui para o banheiro empunhando a furadeira como um Rambo. Medi a parede para furar longe da torneira do registro de água. Dois palmos à direita… e frummmmmm…. frummmmmmmmm….pozinho branco para todo lado. Bucha de plástico. Parafuso… Ótimo. Segundo movimento. Frummmmm…. frumpfhr….e um jorro de água me atingiu direto no olho. Como assim? Tapei o buraco com o dedo. COMO ASSIM?? Estiquei a mão e fechei a torneira do registro. Tirei o dedo. Fruvrrrrrrrrrrrrr… água. Muita água. E com força. Fui fechar outra torneira na área de serviço. Essa deveria ser a geral. Não era. Peguei um balde para aparar a água que já inundava o banheiro e a cozinha. Botei o dedo lá e fiquei tentando telefonar para meu irmão e gritar por socorro. Tun-tun-tun! Ocupado. Ocupado. Ocupado… Quando finalmente consegui que atendesse, eu já estava quase chorando. Em pânico, relatei o sucedido. Ele soltou uma gargalhada enorme e disse: ” Foi mesmo…??? Hahahahah. Chame um encanador”. “Fdp*##, cretino, canalha”. Pensei. Mas não disse. A mãe dele era a minha! Agradeci pela ajuda e conselho… e desliguei, com ódio por essa criatura ser meu parente! Chamei o porteiro e pedi para ele subir. Vesti um short e fiquei lá, com o dedo tapando o furo. Mas não estava dando para segurar o jorro. Quando o sujeito chegou, descobrimos que o cano que eu furei não era o meu, o privado. Eu havia furado o cano DO prédio. Tiveram que fechar o registro geral e cortar a água dos 90 apartamentos, bem na hora em que todos estavam chegando do trabalho. !!!!…Putz! Finalmente um encanador chegou com sua maletinha, tapou o furo com não-sei-o-quê e cimento. E cobrou: “100 real, dona”. Quanto??? Cem reais. Isso mesmo. E sem pendurar o suporte para shampoo. Eram mais de dez da noite quando finalmente pude secar a casa, tirar a roupa ensopada e tomar um banho. Foi meu último ato como “Tonhão”  Decidi que na próxima, iria vestir uma roupinha bem feminina e chamar um amigo Rambo para tomar um vinhozinho… quem sabe ele pendurava aquelas “benditas” prateleiras.

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Neuras de Mulheres…


Visita de rotina aos médicos. Todo ano a mesma peregrinação. Mastologista, ginecologista, oftalmologista, dentista…
Mas um dia, resolvi incluir um “ista” novo na minha odisseia: um dermatologista. Já era hora de procurar uns creminhos mágicos para tentar retardar ao máximo as marcas da inevitável entrada nos enta.
Para ser sincera e nem um pouco modesta, entrei gloriosa nesta seita, com direito a uma festa memorável que durou até às 10 horas da manhã do dia seguinte. Festa com música ao vivo ao som de “Los Años Dorados”, na melhor boate da cidade com todos os amigos. Tenho fotografias para provar. Estava tudo maravilhoso! Na verdade, me sentia espetacular. Tudo certo.
Ninguém podia cantar para mim a frase da Calcanhoto “nada ficou no lugar…”

Mas não sei o que deu no espelho lá de casa que resolveu, do dia para noite, tomar ares de conto de fadas. Aliás, conto de bruxas! E mostrar coisinhas que nunca haviam aparecido. Ou eu não havia notado? Pontinhos azuis nos tornozelos, pintinhas negras no colo, nos braços, bolinhas vermelhas na bunda, olheiras mais profundas…
Como assim???
Assim…sem avisar nem nada. De repente o idiota resolveu mostrar e pronto.
Ah, não. Isso não vai ficar assim. Ista novo na lista do convênio. O melhor. Queria o melhor especialista de todos os ISTAS !
Achei. Marquei. E fui tão nervosa quanto para um encontro ” bem intencionado” daqueles que a gente escolhe a roupa í­ntima com cuidado, que é para não fazer feio nem parecer que foi uma escolha proposital…
Sabe como é, né?
Pois sim. O sujeito era um dermatologista famoso. Via e futucava a pele de toda a nata feminina e masculina da cidade. Assim, me armei de humildade, disposta a mostrar cada defeitinho novo que estava observando através do maquiavélico e ex-amigo espelho de meu quarto.
Depois de fazer uma ficha com meus dados, o “doutor” me olhou, finalmente nos olhos, e perguntou: “O que lhe trouxe aqui?” Fiquei vermelha como um tomate. E muda.
Ele sorriu e esperou. Quase de olhos fechados desfiei minhas queixas.
Hum…ele observou ” in loco” cada uma delas, com uma luz de 200wtz e uma lupa… e começou o seu diagnóstico:
“As pintinhas são sinais de sol, por todo o sol que já tomou na vida. Com a idade ( tóin! ) elas vão aparecendo, cada vez mais numerosas. Você vai precisar de um protetor solar para sair de casa pela manhã, mesmo sem ir à praia. Para dirigir mesmo. Usar nos braços e pernas e rosto e pescoço.”
E praia? Perguntei.
“Evite. Só de 6 às 10 da manhã, sob proteção máxima, guarda sol, óculos e chapéu. Bronzear-se, nunca mais.”
Ahmmm… (a turma só chega às 11:00 !?)
“Os pontinhos azuis são pequenos vasos que não suportam a pressão do corpo sobre os saltos altos. Evite-os. Use sapatos com saltos anabela ou baixos, de preferência. Compre uma meia elástica, Kendall, para quando tiver que usar os saltos altos.”
Ahmmmaaaan??? (Kendall?? E as minhas preciosas sandalinhas??)
“As bolinhas na bunda são normais, por causa do calor. Para evitá-las use mais saias que calças compridas. Evite o jeans e as calcinhas de lycra. As de algodão puro são as melhores…e folgadas.”
Ahmnunght???? (e pude ” ver” as de minha mãe, enormes, na cintura, de florzinhas cor de rosa…..vou chorar!)
“As olheiras são de famí­lia. Não há muito o que fazer. Use esse creminho à noite, antes de dormir e procure não dormir tarde. Alimentação leve, com muita fruta e verdura, pouca carne e muito peixe. Nada de tabaco, nem álcool… nem café…”
E a histérica aqui­ começou a rir…
Agradeci, peguei suas receitinhas e saí­ rindo, rindo… me dobrando de tanto rir!
No carro comecei a falar sozinha e dizer tudo o que deveria ter dito e não disse:
” Trabalho muito, doutor! … muitas noites vou dormir às 2 horas da manhã, escrevendo e lendo. Bebo e fumo. Tomo café. Saio pelas noites de boemia com os amigos e os violões para as serenatas de lua cheia….e que noites!!!!
Adoro os saltos, principalmente nas sandálias fininhas. Impossí­vel a meia elástica (argh!!) Calcinhas de algodão? E folgadas??? Adoro as justinhas e rendadas… E não abandono meu jeans nem sob ameça de morte!!! É meu melhor amigo!
Dormir lambuzada? Neste calor? E minhas duchas frias com sabonete Johnson para ficar fresquinha como um bebê, cada noite?
E nada de praia? O senhor está louco é??? Endoideceu foi??? Moro em Recife, com esse mar e tudo… e tenho só 40 anos… meia vida inteira pela frente!
Doutor Fulustreco, na minha idade não vou viver como se tivesse feito trinta anos em um!! Até um dia desses tinha 39… e agora em vez de 40 estou fazendo 70? …
Inclua aí­ na sua lista de remédios para as mulheres de 40 a 60, MEIA LUZ…
Acho que é só isso que eu preciso! Um bom abajur com uma luz de 15wts…
E um namorado que use óculos…
É isso… só isso! Entendeu????”
Parei o carro no sinal, olhei de lado… e um garoto de uns 25 anos piscou o olho para mim. Rá!… e ele nem usava óculos!
Nunca fiz o que me recomendou o fulustreco ista.
Minhas olheiras são parte de meu charme. E valem o que faço pelas noites adentro… Ah! se valem!
As bolinhas da bunda desapareceram com uma solução caseira de vitamina A, que quase todas as mulheres usavam e eu não sabia, até que contei minha historinha do “bruxo mal”.
Os sinaizinhos estão aqui, sem grandes alardes… e até que já acho bonitinho.
O espelho é muito menor…o outro eu dei a minha filha. Rá!
E meu namorado diz que estou cada dia mais linda! Principalmente quando estou de saltos e rendas, disposta a encarar uma noite de vinhos e música. Hum!
É claro que ele usa óculos.
Mas quando quero ficar fatal mesmo… tiro os seus óculos…e acendo o abajur.

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