Cotidiano das ruas

El Soldadito de Plomo


Um bar e cafeteria lindo em Cartagena! Cada cantinho uma descoberta.A mesa pode ser uma maleta antiga e o sofá uma banheira cortada cheia de almofadas ou a mesa pode ser uma janela velha, aproveitada de alguma antiga construção demolida. São muitas em Cartagena. Os sobrados antigos e mal conservados são derrubados e ficam apenas as fachadas, para manterem o desenho original do edifício. 

Também são do brechó as diferentes cadeiras e poltronas do bar, dando a impressão de que a gente está em algum lugar do passado de alguém. 

A música é excelente. Oh! adorei a música. Muitas me lembraram  também o meu passado. Engraçado isso. Meu passado é todo musicado! Hahaha…E eu adoro isso.

 

Pois então… Como eu dizia, encontrei esse cantinho gostoso. Um lugar para tomar chá gelado de granada ou de framboesa e conversar baixinho. Onde tudo é diferente de tudo, mas cada tudo tem algo que a gente reconhece rebuscando na memória. Talvez da casa de um tia, da avó cheirosa, da casa do engenho da bisavó meio índia. Mas também da casa do avô meio alemão, da avó meio portuguesa.

Presente escondido numa esquina escondida dessa pequena cidade espanhola, a cafeteria – bar serve doces delicados, feitos em casa, chás gelados ou quentes, gin tônica com cardamomo, whiskinho, etc.  Ainda vou descobrir sua carta de ofertas, pouco a pouco. O inverno aí deve ser delicioso!

Me conquistou. Será meu lugar a partir de ontem.

Se chama El Soldadito de Plomo.

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Catando a poesia deitada no chão…

Em Madrid há gente que mora nas ruas, como em todas as cidades grandes.
Gente que, por algum motivo – ou por vários, abandonou a vida que tinha… ou foi abandonada por ela.

Gente que dorme entre caixas de papelão, portadas de edifícios ou abrigos da prefeitura.

Eu vejo alguns, de vez em quando…

…mas esse era diferente.
Madrid-2009

Ele escolheu a calçada do Teatro Real de Madrid como cama, suas grades como armário… e um livro como companheiro na fria manhã de Inverno.
Um livro de páginas amareladas e sem capa… um livro!

Eu passo rente à sua manta azul, uma e outra vez, com uma vontade imensa de abordá-lo.
Queria perguntar quem é, de onde vem, o que houve para que esteja aí, entregue a intempérie ?
Queria dar-lhe algum dinheiro para o café, o pão, o leite.
Mas ele não parece um mendigo.
Vejo de soslaio uma barba grisalha, limpa e bem cortada… a mão que sustenta o livro aberto, também limpa.
Tive vergonha de incomodá-lo.

 

Faz mais de uma semana que penso nele…

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Coluna Social…


Pois sim…
O Milton Ribeiro e a Cláudia chegaram e partiram num mísero piscar de olhos.
Enquanto eles desayunavam o Museo del Prado, desde as nove da manhã, com direito ao melhor de Velazquez e Goya, belos Bosch, Ruben, Ribera, Caravaggio, etc, nós conseguíamos evitar a hora punta e entrar em paz em Madrid.
O encontro foi pontual. Às 11:30 na porta norte do museu.
Segundo eles, duas funcionárias apontaram para direções contrárias ao serem perguntadas onde ficava a bendita porta. Vai ver elas tiveram a mesma professora de geografia que eu tive na infância. A freirinha ensinou-me que o norte era na minha frente, o sul atrás, leste à direita e oeste à esquerda.
Ora… simples, tonta! Não é?
Ainda morro de rir quando lembro que qualquer que fosse a minha posição eu achava que o norte estava sempre diante de mim! Rá!
Bueno… eles a encontraram ( a porta ) e nós também. (Foto do Milton num antigo sebo de livros)
A idéia era conhecer-nos caminhando entre as ruas e praças, tomando umas copas e provando umas tapas, até a hora em que eles voltassem ao aeroporto, com Roma como destino principal.
Madrid era só um pit stop.
E foi assim.

Depois de conseguirmos calçar a Cláudia, que veio com os pés prisioneiros e sufocados por uns belos e negros sapatos de salto e bico finos, torturantes e demolidores de qualquer tentativa de felicidade, ( minha especialidade em outras épocas e viagens) aproveitamos a beleza da cidade à pé, com sol e frio.
Delícia de dia!
( Foto na janela de uma Taberna ao lado da Plaza Mayor)
Entre a Puerta del Sol, Plaza Mayor, Plaza del Oriente e Palácio Real, caminhamos tranquilos e escutamos os músicos que tocavam nas ruas, entramos em antigos e tradicionais Tabernas, Cafeterias e Mesons de Madrid para uma conversa amena e agradável e as deliciosas tapas e vinhos espanhóis.
O cardápio madrileño é variadíssimo, mas ficamos entre pato defumado com queijo de cabra, salmão, jamón ibérico, lomo de cerdo, morcilla de burgos com setas, pães chapata e vinhos Rioja …. ufa! e batemos um papo tão descontraído e gostoso que nem sentimos o tempo passar.
Eles me trouxeram uma camiseta Verbeat ( objeto de desejo disputado quase no tapa aí no Brasil ), A Paixão Segundo São Mateus e As Suites para Violoncelo, de Bach (bárbaros!), um Aurélio virtual ( necessário e imprescindível para mim) e o livro manchete do momento na blogosfera, o Blog de Papel ( esse merece um post à parte).
Imaginaram minha cara de felicidade? HEiM?!
Pois sim… a-d-o-r-e-i !
À Milton dei um disco ( O Souk – Ethnic Fusion, de Tarifa ) que nem sei se ele vai gostar pois é uma proposta meio diferente do que ele costuma ouvir, mas à Cláudia dei um livro com as 100 Melhores Tapas Espanholas.
Esse com certeza ambos vão adorar!
Aí acabou o tempo.
Só deu para isso mesmo. Mas já valeu como primeiro contato pessoal.
Nós dizíamos isso a três por quatro, entre muitos abraços: “Que bom estarmos juntos aqui!”
Depois de uma curta volta de carro por Cibeles e outros monumentos, deixamos um Milton com cara de relaxado, quase adormecido, na porta do aeroporto às seis da tarde.
E uma Cláudia disposta a viajar com os confortáveis tênis comprados na Calle Preciados e relegar os belos e finos saltos à mochila de mão.
Ninguém merece ir sofrendo e infeliz à Roma.
Muito menos uma mulher cheia de graça e energia como ela. ( Foto na Meson De La Cava)
Aí…entrou por uma perna de pinto… saiu pela perna de pato…

E o Rei mandou dizer… Voltem!

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Saudade da Princesa… e Uma História de Fantasmas.

No dia primeiro de Agosto de 2001 a Princesa se foi.
Fazem já quatro anos. Ainda sinto seu perfume quando minha casa se enche de rosas e floresce o jasmim…
Me presenteia com sonhos onde percebo a maciez de suas mãos, sempre um pouco frias, pousadas em minha face. Neles, sorri para mim como antes de perder a alma para o cruel Alzheimer.
Encontrei um poema de Ferreira Gullar que diz, talvez, o que ela me diria naqueles terríveis meses de silêncio.

UM INSTANTE
Aqui me tenho
como não me conheço
nem me quis
sem começo
nem fim
aqui me tenho
sem mim
nada lembro
nem sei
à luz presente
sou apenas um bicho
transparente.
Ferreira Gullar
…………………
Outro dia, em Segóvia, também ganhei de presente do Dia das Mães uma carícia da mão macia e fria da minha Princesa.
Deixo aqui a história, para que não se perca nos arquivos do Cicatrizes da Mirada.
…………………..

Uma História de Fantasmas. 
A senhora deveria estar perto dos setenta anos, ou mais ou menos, não sei bem ao certo – são tão arrumadinhas as senhoras desta idade! – e estava parada no meio da rua, com uma expressão desorientada, gemendo baixinho…
Vestia-se bem, com seu belo lenço colorido enrolado no pescoço, um abrigo leve pendurado entre as mãos e olhos molhados de quem está prestes a explodir em prantos…
Minha filha notou-a antes de mim e nos aproximamos para ver se podíamos ajudá-la.
Ela disse-nos num fiozinho desolado de voz “quitaran mi bolso!”
Perguntei-lhe onde, quando, como? Mas ela só repetia e repetia como um disco arranhado: “Quitaran mi bolso… Ai, quitaran mi bolso, hija mía.”
Quando aproximei minha mão de seu ombro para consolá-la ela me abraçou pela cintura repetindo seu refrão: “Quitaran mi bolso…quitaran mi bolso, hija mía.”
– Calma, tranquila. Pedi, querendo não assustá-la ainda mais com meu sotaque de estrangeira. Diga-me como aconteceu e vamos ver se posso ajudá-la.
( Não sabia como, mas não podia deixá-la ali como se não a tivesse visto!)
Minha filha também tentava tranquilizá-la dizendo que em Segóvia não há esse tipo de “assalto”. Ela poderia ter deixado a bolsa em alguma loja onde houvesse estado antes. Mas ela, pobrezinha, tremia tanto… Não sabia dizer onde havia estado e não havia se dado conta da falta da bolsa até a hora que nos encontramos. Mas trocou o estribilho e começou a enumerar o que havia dentro da bolsa desaparecida.
-“Dez euros…todo meu dinheiro, e as chaves de casa… ai, e as fotos de meus sobrinhos…ai, hija mía, quitaran mi bolso!”
Aquela voz me trouxe lembranças queridas… e eu quase começava a chorar antes dela…
Começamos a caminhar abraçadas pela rua, fazendo o caminho de volta para ver se ela lembrava onde havia estado. Na curva seguinte, ela exclamou em tom forte e aliviado “Maruja!”
Pensei: “Pronto! Encontramos alguma amiga que vai poder ajudar-nos.”
Era realmente uma amiga dela e estava com a bolsa da nossa querida e desconsolada senhora pendurada na mão como um troféu.
Abraçaram-se contentes.
A “nossa” espanholinha assustada estava rubra como uma cereja, um tanto envergonhada por ter sido pilhada numa travessura de sua memória. Mas sorria feliz com ” su bolso” outra vez na mão, e seu dinheiro , e as fotos de seus sobrinhos, e as chaves de sua casa…
Sorri de volta para ela, arrepiada e com os olhos molhados por lágrimas de uma saudade com outro nome, outro sotaque e outros tempos…
Pediu-me um beijo agradecida e eu a beijei mais agradecida do que ela.
Deu-me um bem estar que fazia tempo eu não sentia…
Madre mía…

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