Livros

Maldito Karma, de David Safier.

maldito karmaGanho de presente e logo na primeira página descubro que Kim vai morrer no final do dia. Merda! Eu bem que estou querendo coisinhas mais leves do que mortes anunciadas. Mas… quando Kim renasce formiga… a coisa começa a ficar gostosa…

Esta é uma estória para a gente contar na rede, às crianças. Sim. Sim. Elas vão amar o Maldito Karma, de David Safier.

Eu disfrutei como uma criança apesar de que o livro foi escrito para adultos. As crianças tendem a  crer na magia do pensamento, mas eu aproveitei  e me vi sendo formiga, porquinho-da-índia, vaca… que destinos! A gente fica realmente um pouco mais budista e empatiza mais com os animais.  Sim.

Pimenta nos olhos dos outros  não é refresco!

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Os Olhos Amarelos dos Crocodilos.

Nada melhor do que viajar com um livro gostosinho e leve para ler, não é?
Pois sim. Los Ojos Amarillos de los Cocodrilos*, de Katherine Pancol é justamente assim. Um livro que não demonstra ter profundas pretenções literárias, mas que leva a gente a participar das emoções de seus personagens como se eles fossem nossos vizinhos do bairro.
Essa novela poderia ser contada no rádio, como antigamente, ou num filme suave de algum diretor francês com sensibilidade para explorar os pequenos detalles da personalidade de seus personagens, seus diálogos internos, os quase imperceptíveis movimentos de medo ou coragem de homens e mulheres dos nossos dias, a grande solidão que assola a sociedade moderna.
Não esperem uma trama complexa, nem grandes arrobos de profundidade.
O livro, pelo menos para mim, foi uma experiencia interesante justamente pela sua singeleza. Eu o li numa das praias de Pernambuco, debaixo de um guarda sol e tomando água de coco…
E os crocodilos, verdadeiros no livro, para mim simbolizavam apenas os “bichos imaginários” que ameaçam as pessoas que não agem para transformar seus sonhos em realidade.
Joséphine, o personagem principal, praticamente ensina a como escrever uma novela. Achei isso muito interessante. Quem sabe, depois de ler este livro, eu crie coragem, finalmente, de organizar-me para escrever o meu. Nem que seja para ser lido pela minha filha aos meus netos numa tarde de sombra e agua fresca em Porto de Galinhas.
Taí…Gostei desta imagen. Gostei muito.

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O Escafandro e a Borboleta

O escafandro e a borboleta- o livro
Quando ganhei esse livro, em 2001, vivia no Brasil, estava me recuperando de uma depressão e minha mãe estava desaparecida em si mesma, numa enfermidade carnívora. Uma doença que vai tirando da pessoa tudo que é dela, até suas lembranças mais viscerais. Depois ela transforma a pessoa em uma casca vazia, só mata depois que destroi tudo.
Quando soube que o livro contava a história de um jornalista francês que havia sofrido um acidente cerebral e que havia escrito o relato piscando um olho para as letras do alfabeto que uma enfermeira lhe mostrava, não tive coragem nem de abri-lo.
Guardei o presente para ler em outra época. Eu estava tão fragmentada ainda. Tinha um medo horrível de entrar no túnel escuro da tristeza sem nome… precisava cuidar mais das minhas emoções e tinha consciência da fragilidade da minha saúde afetiva.
Aliás, essa foi uma aprendizagem da época. Aprendi a cuidar mais de mim. Aprendi a perceber quando estou mais sensível, mais vulnerável… e evitar expor-me a sensações muito fortes.
Mas… um dia desses, arrumando as novas estantes da casa, encontrei o livro. Li a dedicatória carinhosa da amiga brasileira e criei coragem, abri a primeira página e comecei a ler.
E não parei mais até que o terminei. Li de um só fôlego.
Foi fantástico ver o mundo através de sua experiência. Uma hora com humor, outra emudecida pela impotência, outra ainda entre lágrimas de saudades das coisas mais simples, como estender a mão e fazer uma carícia…

Vou contar um pouco a história.
Jean Dominique Bauby, um jornalista francês, bem sucedido, jovem pai de dois filhos e cheio de energia, sofreu um acidente vascular cerebral com pouco mais de quarenta anos, entrou em coma e quando saiu deste estado percebeu que sua mente estava quase intacta… mas o único que havia perdido era a conexão com seu próprio corpo.
Estava completamente paralisado, numa síndrome chamada “locked-in”, que significa “trancado em si mesmo”.
Não podia mexer-se, comer, falar, nem sequer respirar sem ajuda de uma máquina. Apenas um olho se mexia. Ele piscava. Uma vez para dizer sim e duas para dizer não.

Com esse único movimento físico ele decidiu se comunicar com o mundo, seus filhos e seus amigos e contar que estava vivo, que pensava sair daquela prisão e queria que soubessem o que ele sentia lá dentro de sua cabeça e de seu coração.
Para isso ia piscando e indicando as letras que iriam formar as palavras e frases de um livro espetacular de 140 páginas.
Emocionada, fiquei me lembrando dos monólogos que tive com a Princesa, durante seu último ano de vida, desejando que dentro dela estivesse escondida a mulher que ela era. Recordei as histórias que eu lhe contava, as músicas que cantava, as sinfonias e concertos que fazia tocar no som de seu quarto, baixinho, para que pudesse escutá-las mais uma vez.
Às vezes eu tinha a impressão que algo em sua expressão mudava…
Era só uma impressão?
Talvez.
Aprendi muito sobre a vida com a morte da minha mãe. Eu já disse muitas vezes e vou repetir, minha mãe me pariu outra vez quando morreu.
Não quero que isso seja visto apenas como um drama particular, embora sua morte tenha sido dramática para mim. Estou falando de como reaprendi a viver.
Estou falando de aprender a dar o valor real à vida e tomar consciência de sua fugacidade.
Aprender a valorizar a memória, a imaginação, a capacidade para mover-se, ler um livro, escutar uma música, abraçar um filho, um amigo.
Aprender a valorar mais as relações e menos as coisas. Agora. Enquanto é possível.
Estou falando em ter consciência disso on line, durante a ação.
Saber que este é um privilégio que algumas pessoas perderam num segundo… e que a gente não tem sequer a noção do que significa essa perda.
Cena do filme "O escafandro e a Borboleta"
Bauby também ensina os verdadeiros valores da vida desde sua prisão – seu corpo – um escafandro, como ele o chama… e de sua alma, a borboleta com a qual ele voa, visita seus filhos, viaja pela Paris que adora, toca e beija seus queridos…
É impossível ser o mesmo depois de ler seu livro. Não é ficção, é real. Aconteceu de verdade…
Só não reflete e aprende quem for impermeável.
Descobri, cafufando a Internet, que rodaram um filme em 2007 que foi indicado a 4 Oscars. Como assim? E eu não vi!
Pois sim. Em 2007 eu estava vivendo lá no meu monte, longe de… quase tudo.
Aposto que ele não passou no pequeno cinema da praça de Los Santos Niños, em Alcalá de Henares.
Li algumas críticas excelentes. Vou tentar encontrá-lo em uma locadora por aqui por perto. O diretor é o mesmo de Antes do Anoitecer, um de meus filmes queridos, e trata o tema com delicadeza, fugindo do dramalhão piegas hollywoodiano em que se transformam excelentes livros.
E sou fã do cinema francês.
Mas um para minha extensa lista de perdidos…

 

(Le Escaphandre et le Papillon – França / EUA, 2007 / Brasil 2008 – 112 min)

Direção: Julian Schnabel.
Roteiro: Ronald Harwood adaptando livro de Jean-
Dominique Bauby
.
Elenco: Mathieu Amalric, Emmanuelle Seigner, Marie-Josée Croze, Anne Consigny, Max von Sydow, Marina Hands, Isaach De Bankolé.
Gênero: Drama, Biografia.

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Haruki Murakami… uma descoberta.

Já que eu quero voltar…vou aproveitar a disposição.
Então… eu gosto de escrever sobre o que eu estou lendo. Me ajuda a refletir sobre o livro, aprendo mais sobre o autor, recordo melhor os detalhes da história e por cima mantenho um registro da experiência. Além disso adoro compartilhar minhas impressões, seja sobre uma exposição, uma viagem, um filme ou um livro.
Agora estou lendo Murakami. Estou adorando! Ele é bárbaro!
O primeiro livro dele que li, no final do ano passado, foi Kafka en la Orilla. No Brasil se chama Kafka à Beira-Mar.
A novela é incrível! Tem um ritmo tão extraordinário que muitas vezes a gente simplesmente não pode deixá-la, fechar o livro e ir fazer outra coisa. E não porque a ação seja frenética. Pelo contrário, ele é capaz de descrever as mesmas ações simples e rotineiras inúmeras vezes, tantas quanto aconteçam. Isso funciona mais ou menos como signos. Provoca na gente a vontade de querer guardar aquele detalhe para depois, porque a pergunta “para que isso vai servir mais adiante?” não nos deixa em paz. Acabei grifando mil e uma passagens.
Fazia muito tempo que eu não grudava em um livro dessa maneira.
Murakami escreve há muitos anos, mas eu não o conhecia até o ano passado quando li uma crônica sobre ele no El Cultural, um semanário do jornal El Mundo. Guardei seu nome numa caderneta… e depois esqueci. Até que, numa daquelas tardes deliciosas de garimpagem na minha livraria preferida de Madrid, La Casa del Livro, o encontrei. Hum! A memória acendeu na hora! Comprei imediatamente e comecei a ler sem buscar nenhuma outra informação, nem sobre a novela nem sobre o autor.
Foi uma decisão acertadíssima! Ainda bem que eu mergulhei na sua criatividade sem borrá-la com as descrições secas e sem sabor que depois encontrei pela internet.
Mas, voltando a Murakami, fui conhecê-lo melhor depois que me apaixonei pelo livro. Li algumas entrevistas dele e gostei muito. Ele é uma criatura um tanto especial. Diz que aprendeu muito de seus escritores favoritos pois é tradutor de suas obras para o Japonês, mas se inspirou principalmente em Manuel Puig e García Marques para soltar a imaginação. E faz isso de uma maneira absolutamente própria e muito original. Fazer chover peixes é um bom exemplo.
Li Puig há muito tempo atrás ( Púbis Angelical, Boquinhas Pintadas, O Beijo da Mulher Aranha ) e García Marques leio constantemente. Posso entender que tenha se inspirado neles ( pensei antes nas Mil e Uma Noites, tanto que esse foi um dos meus pedidos de presente de natal ) mas o que esse escritor japonês fez comigo foi absolutamente novo.
Eu falava em voz alta enquanto lia! Ele me intrigava até quando descrevia a forma como os personagens lavavam os dentes e as mãos!

Assim. Eu ia entrando na história por um caminho, conhecendo um pouco os sentimentos de Kafka Tamura, um jovem que decidiu sair de casa no dia de seu aniversário de 15 anos para fugir de uma suposta profecia paterna: cumprir o destino de Édipo.
Eu seguia buscando compreender suas intenções, atenta a alguns traços de seu comportamento… e de repente um acontecimento inusitado, surpreendente, um “como assim, o que é isso?” desviou minha atenção e antes de poder encontrar um novo caminho que explicasse o que aquele estranho fato estava fazendo ali, surgiu um personagem intrigante, surrealista e irresistivelmente atraente, Nakata, um impressionante homenzinho de 60 anos que falava com os gatos.
Pronto. Como assim?! O que tem a ver um caso com o outro? Fiquei amarrada nos dois, curiosa para saber onde se encontrariam, como, por que? Se é que se encontrariam! Se é que… quanto mais lia mais dúvidas eu tinha.
O engraçado foi que ao mesmo tempo em que eu queria saber como o autor ia esclarecer toda a trama, não tinha qualquer pressa em descobri-la nem tentava resolver a possível ou impossível relação entre eles.
Tá bom. Admito que tentei uma ou outra vez resolver o mistério, pois era inevitável. Mas quando não consegui apenas me deixei levar pelo delicioso prazer de ler Murakami. Deixá-lo criar.

O texto é bom, bem escrito. Ele tem uma linguagem agradável, atual, conversada, gostosa. Faz a gente pensar com ele, seguir seus passos. ( A tradução espanhola é excelente e isso é muito importante! )Também procurei ouvir as musicas que ele citava ao longo da história, curtir as deliciosas conversas entre Oshima e Tamura ou entre Nakata e Hoshino, suas citações literárias, como tratava temas fortes como os tabus e preconceitos, morte e vida, realidade e fantasia. E aproveitei com prazer a experiência de ler uma novela fantástica, diferente, extremamente interessante e absolutamente absorvente.
E mais, comprei três exemplares para presentear alguns amigos. Adoro poder fazer isso!
Agora estou lendo Tokio Blues – Norwegian Wood.
Murakami outra vez.
Mas acho melhor escrever sobre este em outro post.
Ps: Sugiro não leiam a história antes de ler o livro. Fazer isso é perder completamente a emoção de mergulhar na criação do autor.
Ontem acabei lendo um comentário em Português apresentando Kafka à Beira Mar aos compradores.
Achei HORRÍVEL!

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Para que no me olvides (2)…

Para que no me olvides é um livro forte. Muito forte.
E, apesar de tê-lo abandonado à própria sorte num banco de uma estação de trem, não pude esquecê-lo.
Dia após dia eu recordava Blanca como se ela fosse uma amiga que precisava ser escutada e a quem eu, inadvertidamente, havia traído.
Escutar… estranha palavra em se tratando de Blanca.
Ela não podia falar. Também não podia escrever, nem pintar ou desenhar, sequer usar a mímica para fazer-se compreender. Apenas a expressão de seus olhos deixava transparecer os seus sentimentos. Nos comunicávamos por telepatia. Ela pensava e eu entendia. E Marcela Serrano, a autora, era o veículo pelo qual passavam suas emoções antes de chegar a mim. E já me tocou um ponto sensível quando começou sua história. Primeiro com esta frase:
“A mulher fugiu para a solidão, onde tinha um lugar preparado por Deus.” Apocalipse 12, versículos 6-7
E depois com este prólogo:
“Minha avó me ensinou a ler. Minha avó me apresentou os livros e me transmitiu seu amor por eles. Não tive eleição, foi sua herança.
Ela me disse me disse que com os livros eu nunca estaria só. Me ensinou a cuidar dos meus olhos apoderando-me deles como o lugar mais valioso, o mais nítido.
Me explicou que se alguma vez falhassem os ouvidos, não seria tão grave, pouco me perderia, tudo o que valia escutar se havia escrito e o resgataria com meus olhos.
Me disse que se alguma vez falhasse a voz, não seria o fim. Receberia o som exterior sem devolvê-lo e ninguém sentiria falta, menos eu. Estavam as palavras para ser executadas: por meus ouvidos as que já estavam concebidas, por minhas mãos as que quisesse inventar.
Ao final, sem mencionar sequer outras carências como o olfato ou o gosto, minha avó me disse que ignorasse a surdez y a mudez se chegassem a acometer-me, que a única falta total era a cegueira.
Que cuidasse de meus olhos. Só com eles poderia ler. Só eles me salvariam da solidão.”

Discordei veementemente dessa avó. Como viver sem a música? Seguramente eu sofreria imensamente!
Até que entrei na vida de Blanca e duvidei de todas as minhas certezas.
Sua estranha enfermidade lhe impedia de articular a linguagem. Não era uma mudez da voz. Era afasia com o agravante da alexia, agrafia e acalculia. Isso significava uma incapacidade na expressão da linguagem em qualquer forma. Era como se seu cérebro tivesse cortado qualquer possibilidade de comunicação com o mundo exterior. Entretanto, a linguagem interna permanecia, a compreensão de tudo que escutava permanecia. Entendia o que falavam com ela, mas era incapaz de responder. Sabia a resposta, mas esta não podia sair de dentro dela. Estava absolutamente sozinha com as suas idéias e os seus sentimentos.
Que coisa tão triste! Nas imensas horas do dia, só podia refletir ou recordar. Nem livros, nem agulhas de croché, nem tintas, nem palavras cruzadas, nem costuras, nem receitas de cozinha, nem nada.
Estava condenada a uma prisão sem grades e sem cadeados. Uma prisão branca e invisível.
Pois sim. Cheia de horror entrei em seu mundo pelas mágicas mãos desta maravilhosa escritora chilena e me deslumbrei. Senti sua dor, suas dúvidas, seu terror, sua impotência. Acompanhei sua vida, seus amores, suas angústias. Conheci suas ânsias e também sua fragilidade. Conheci Victoria, Sofia e também O Gringo e a história escura do Chile. Tudo através de sua memória.

E vai que eu, distraída por um fim de tarde cheio de anônimos, esqueçi Blanca sobre um banco de uma estação de trem de Madrid.
Consegui calá-la um tanto mais, justo quando ela estava quase terminando sua história?
Como pude?
Uma semana depois fui à Madrid e comprei outro livro. Fantasiei que quando o abrisse, a história, como numa mágica feliz, se modificaria.
Mas não. Era a mesma Marcela Serrano invisível, transmitindo ao meu mundo o silêncio dolorido e cheio de significados de Blanca.
Era a mesma Blanca e sua incomensurável solidão. Ela sempre estará ali dentro, fazendo a gente a refletir sobre a vida, sobre a fragilidade da vida. Nós é que mudamos depois de encontrá-la.
Espero que outra amiga a tenha encontrado…

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El Albergue de Las Mujeres Tristes…


Li este livro com uma sensação de estar vendo um álbum de fotografias. Um álbum estranho, onírico, onde estavam pregadas as caras, minha e de muitas de minhas amigas, cujos nomes estavam trocados pelos dos personagens criados por Marcela Serrano*, mas que possuíam as mesmas expressões de susto, desesperança e tristeza nos olhos, o mesmo ricto amargo nos cantos da boca, as mesmas rugas de cansaço por trás de sorrisos diplomáticos. Em muitos momentos da narrativa perdi-me em longos devaneios, retomando imagens, sentimentos, medos e questionamentos vindos dos recônditos mais profundos de minha alma. Recordações que eu acreditava desaparecidas na minha larga história de mulher “independente ” e triste no final do século XX e início do XXI.
O livro me chegou às mãos meio por acaso. Eu estava querendo uma novela suave, para ler nas férias. Meu marido foi na estante do fundo do corredor e o escolheu dizendo que sabia que eu iria gostar. Aceitei a sugestão de imediato só pelo título, mesmo sabendo que apesar der ser uma novela pequena, não seria assim tão leve… A cicatriz que levo na alma é grande e tem voz própria quando o tema é tristeza. Nunca me esquecerei dos tempos em que ela quase me matou.
Viajei dentro do ônibus com Floreana – personagem principal da novela – até o albergue da ilha de Chiloé, no sul do Chile, com um frisson dentro do peito, assim como sabendo exatamente o que era buscar um lugar muito distante de tudo como única possibilidade para sobreviver à dor, ao medo, ao desencontro consigo mesma.
Ali, ela e eu nos encontramos com as outras. Ela com uma atriz, uma milionária, uma bordadeira, uma artesana de bonecas, uma psiquiatra, uma economista, entre outras mulheres do albergue dispostas a deixarem-se curar, a compartir tarefas e histórias por três meses. Eu, com uma artesana de bijuterias, uma médica, uma secretária, uma psicóloga, uma advogada, uma dona-de-casa, uma administradora, entre outras mais.
Cada uma das mulheres do albergue levava consigo seus próprios personagens, agarrados como crostas às suas cicatrizes…
Eu e as minhas amigas levávamos também os nossos…
Claro, minha Constanza não era economista, nem se chamava Constanza, mas era tão parecida com ela que se confundiam as duas.Tanto que eu podia usar a cara de uma ou de outra quando as escutava, fosse no livro ou na minha lembrança.
Na verdade, os relatos daquelas mulheres nos desnudavam a todas e, por deixarem assim expostas as suas feridas, estas já não eram apenas suas, já não eram feridas individuais… eram as chagas de todas as mulheres do planeta, vivessem em Santiago do Chile ou em São Paulo, em Nova York ou em Madrid, estivessem no mercado laboral ou em suas casas.
Muitas vezes eu resisti a fechar o livro e ir-me porque sabia o quanto de mim ficaria preso entre suas páginas. Outras resisti a abri-lo para não encontrar-me.
Mas não resisti a continuar a leitura… e continuar me encontrando com todas elas, ou ainda outras já desaparecidas como a Princesa, minha mãe, ou minha bela amiga de infância que morreu de câncer, ou outras amigas perdidas num mundo de desamor e traição, cansaço e medo.
A autora também faz um contraponto a esses relatos femininos com a presença de dois personagens masculinos: um médico e um escritor de contos eróticos. Ambos entraram na vida de Floreana ( e nas nossas ) com suas teses sobre as mulheres e sobre o papel masculino no mundo contemporâneo, suas dúvidas, seus temores, seus desconcertos.

As questões sobre o amor, o sexo, a amizade, a família e o trabalho são inesgotáveis dentro da literatura. E Marcela Serrano*, esta bela escritora chilena as reune nesta novela levantando ainda mais poeira sobre esses temas.
Para onde vai o relacionamento amoroso com o deslocamento das mulheres rumo à independência financeira e emocional?
O que sentem as mulheres quando percebem que o preço a pagar pela independência e a liberdade de seus desejos e ações quase sempre é a solidão?
O que sentem os homens? Porque eles têm medo de amar essas novas mulheres?

Bom, só refletir sobre isso já faz de El Albergue de Las Mujeres Tristes um livro para ser lido, discutido, conversado. Sugiro que o leiam. Homens e mulheres.
Ho ho… voltei bem, heim?!
* Marcela Serrano

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Companheiros de Cabeceira…

Pois sim…
Meu amigo pernambucano, Manoel Carlos, dono do blog Agreste pediu-me há mais de um mês que eu escrevesse um post sobre o livro que habita, neste momento, minha mesinha de cabeceira. Parece-me que o pedido faz parte de uma rede, como uma corrente entre blogs.
Como podem ver, eu não respondi no tempo ideal, mas como prometi e promessa é dívida, não é?
Então…

Sempre tenho entre quatro ou cinco livros abertos à minha volta…
Geralmente há uma novela, um de poesia, outro de arte ou história. Talvez uma biografia ou um ensaio.
E muitas vezes um daqueles que é para o resto da vida. Aqueles que a gente lê e relê e relê… e para sempre vai ler!
Preciso urgentemente de uma cabeceira mais ampla! Inclusive já estou desenhando uma cama, para um futuro breve, que tenha uma pequena estante no lugar do espelho. Ho ho ho!
Qual deles vou abrir em diferentes horas do dia ou da noite, depende de minha alma.
É verdade. Ela é quem escolhe. Meu espírito pede poesia ou arte nas noites mais inquietas, de insônia, de medos com nome ou sem…
A poesia me acalma. Me envolvo na música contida dentro de cada verso, me apaixono pelo poeta e pelo objeto de sua poesia, quero não apenas senti-los, mas poder recitá-los em voz susurrada, para escutar seu canto e com ele acalmar as ânsias de meu coração…
Pareço meio bêbada quando leio poesia… mas quase sempre não sei comentá-la. Com ela meu amor é platônico. Eu só sei vivê-la. Por isso fico sem jeito quando quero deixar um comentário nos blogs maravilhosos de Márcia Maia, Dora ou Sílvia Shueire. Essas mulheres arrasam!

Eu as admiro imensamente, mas só consigo respirar diferente quando leio o que escrevem. Se fosse comentar seria com as próprias palavras que elas usaram para seus versos…aí eu travo.
Qualquer dia vou pedir permissão para publicar alguns de seus poemas aqui.
Quando estou mais tranquila, serena, posso encarar melhor as novelas, viver suas tramas, sentir as emoções de seus personagens, mergulhar nas suas experiências.
Ultimamente ando muito sensível. A violência, a crueldade, a insensibilidade das pessoas ao causar o sofrimento alheio me magoam tanto! Evito, quando posso, o noticiário da TV sensacionalista, sanguinolenta, o filme carniceiro, a maldade crua como “meio de entretenimento”.
Em alguns momentos até evito retomar a novela que estou lendo para não permitir que ela me revolva o estômago ou degenere a esperança que insisto em manter na generosidade dos seres humanos. Se estou desorganizada em meus sentimentos, prefiro esperar pelo dia seguinte.
Algumas novelas tiveram que esperar semanas!
Enquanto estava lendo Os Pilares da Terra, de Ken Follet, ou A Ponte de Alcântara, de Frank Baer, sonhava noites seguidas com a miséria humana, a forma despiadada com que eram tratadas as mulheres em todos os tempos e todas as culturas e religiões, o comportamento mesquinho e falso das instituições políticas e religiosas, que a priori existiam para defender, proteger, educar as pessoas…
No entanto, achei ambas novelas maravilhosas, porque traziam cultura, história, religião, costumes de épocas e povos distantes para dentro de minha casa e eu podia viajar no tempo, na história, sem mover-me do sofá!
Mas precisava estar tranquila, em paz interior, para poder ler e resistir à vontade de deixar cair o livro no chão e chorar de tanta tristeza e desesperança… ou atirá-lo na parede em frente, de tanta raiva!
Se pelo menos eu pensasse que aquelas crueldades aconteciam “naqueles tempos” bárbaros e que havíamos evoluído como humanos do século XXI!
O pior é que não, não evoluímos. É só assistir os noticiários…
Ah!… tem dias que eu não aguento mesmo!
Arte! Isso sim. Ah! Que delícia!
Um bom livro sobre arte… uma boa música e uma infusão de ervas relaxantes, bem quentinha ( uma saudade do cigarro! ) e meu astral começa a entrar em equilíbrio. Gosto de ler sobre pintura, escultura, fotografia, cinema. Gosto de ler sobre música, sobre músicos de todos os tempos. Mas sei tão pouco!
Gosto também, ultimamente, de arte culinária, coisa que eu nunca fui muito chegada até pouco tempo.
Tá bom! Se a desorganização interna for muito grande, melhor esquecer o livro sobre os doces árabes, por exemplo! Nesses momentos, ler sobre comida pode despertar uma das minhas bruxas más e fazer-me engordar só com a saliva que as fotografias me provocam.Shiiii!
Taí, está sendo muito bom comentar sobre tudo isso. Até agora eu fazia as escolhas sem tanta consciência da interrelação entre minhas leituras e meu estado de ânimo…
Hum! ainda não atendi o pedido do meu amigo!
Apesar da demora, vou falar dos livros atuais. É quase outro post, mas como tenho escrito pouco… lá vou eu.
Agora estou com quatro livros na minha cabeceira. Eles andam do quarto para o sofá da sala ou a rede do invernadeiro. E podem ser substituidos, provisoriamente, por artigos de jornais e revistas ou textos que recebo pela Internet e que imprimo para ler depois de cortar a conexão…pinnnnnn!
A novela chama-se El Corazón Helado, de Almudena Grandes. Estou adorando! Gosto muito do estilo dessa escritora. Gosto da forma como ela desenvolve os personagens, como faz a gente ir desenhando mentalmente seus traços físicos, seus afetos, suas almas, enquanto a gente vai entrando por eles, como atravessando suas peles, vivendo, sofrendo e amando junto com eles.
Gosto como organiza a história, navegando entre passado, presente e avisando um pouco o futuro do personagem no mesmo momento da ação.
Gosto como faz sua gente falar com a naturalidade de uma conversa real e corriqueira, cada qual com seu acento natural de lugar ou de época vivida.
Adoro como costura o diálogo com a narração, sem sair do parágrafo.
Almudena constrói esta sua última novela com as vidas entrelaçadas de emigrantes, exilados da guerra civil espanhola e seus descendentes. Mostra como eram suas vidas no exílio e como foi voltar ao próprio país tantos anos depois… e reconhecê-lo nos cheiros, nos gostos, na luz de seus céus…
Ainda nem cheguei ao meio do livro… depois conto mais.

Como sei pouco sobre a Guerra Civil na Espanha, tenho que acompanhar a leitura com um livro de História que me ajude a localizar onde está a ficção da novela e onde a realidade daquele conflito no país.
Utilizo agora a Breve História de España, de Fernando García de Cortázar e José Manuel González Vesga.
Tem sido simplesmente fantástico juntar os dois livros! Aprendo muito!
A linguagem é simples, direta, sem desvios.
Como o livro pretende ser uma explanação breve, os autores centram-se nos fatos concretos, o que não os impedem de traçar linhas de interelações com as circustâncias históricas universais.
Indico esse livro a quem quiser conhecer, em linhas genéricas, a história desse belo país.

Também tenho um volume sobre Tintoretto por perto, pois depois de ver a última exposição do magnífico pintor italiano, em Madrid, no Museo del Prado, estou querendo saber mais sobre ele e suas obras, para escrever um post.
Confesso que está meio abandonado. Mas vai sair…
Estou enamorada de dois de seus quadros. Um deles vive eternamente no museu madrileño e sempre me demoro diante dele. Chama-se El Lavatorio.
O segundo é sobre a mitologia, Suzana en el Baño. Ambos maravilhosos!
Vou escrever um post daqueles de antigamente, dos tempos do Impressões ou Cicatrizes da Mirada. Quando der…
Voltando à cabeceira…

O livro de poesia é uma compilação de poemas de amor em língua espanhola que ganhei do meu Lobo do Mar, e que voltou há pouco para a mesinha de noite.
Durante a tal crise eu precisava recordar umas emoções que ele havia me provocado, mais de cinco anos atrás. Chama-se Antologia de las Mejores Poesías de Amor en Lengua Española, de Luis María Anson.
E, para terminar, ganhei de uma amiga muito querida, quando voltava de Recife , um delicioso livro de Gilberto Freyre, Olinda – 2° Guia Prático, Histórico e Sentimental de Cidade Brasileira, com apresentação e atualização de um dos maiores conhecedores da obra freyriana, Edson Nery da Fonseca, morador de Olinda e professor emérito da Universidade de Brasília.
Esse também está na minha mesinha de cabeceira… e vai e volta comigo para a rede do invernadeiro, que está cada dia mais irresistível!
Assim tenho passeado pela casa e pelas horas, acompanhada desses livros fantásticos…
Finalmente ando sem pressa, sem agonia para terminá-los e iniciar outros – angústia que me acometia cada vez que via a quantidade de livros bons que temos nas estantes e que eu gostaria de já ter lido – aproveitando para saboreá-los como eles merecem.
Bom, meu amigo, perdoe-me pela demora. Eu tardo mas tento não falhar demasiadas vezes.
Obrigada por haver indicado a mim, uma blogueira tão inconstante e cheia de silêncios.

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“Travesuras de la Niña Mala”…

de Mario Vargas Llosa
Estou lendo a novela. E estou absolutamente “atrapada” pela história.
A linguagem é fluida, rápida, natural. A descrição dos fatos de épocas convulsas em Paris, Lima, Londres, Tokyo ou Madri, mesclada com a construção detalhada dos dois personagens principais, entrelaçados numa relação de afeto apesar da contraposição de seus valores de vida e as histórias paralelas que se desenvolvem em torno desta relação, fazem da novela um entretenimento inquietante!
Avançar em seus capítulos nunca é prazeiroso, porque ainda não me explico muito bem (talvez nunca o consiga) como funcionam esses amores dolorosos, ambora já tenha vivido e me perdido dentro de um deles. Quem já não viveu?
(Paguei caro, mas superei. E estou aqui vivinha para contar, ou esquecer para sempre, a história.)
Talvez justo por isso Travessuras de uma menina má, traduzindo o título para o Português, é um livro fascinante para mim. Como mulher e como psicóloga.
Me vejo parando uma tarefa no meio do dia e buscando o livro só para tentar avançar mais um pouco. Quem sabe só para terminar de vez com ele, para livrar-me dos incômodos sentimentos que afloram…
E cada vez mais a imaginação do autor tem me surpreendido, revelando novas nuances da personalidade de suas criaturas, alargando o tempo, criando novas circustâncias, aprofundando o mergulho numa corredeira de tramas e me levando junto com a história.

A novela tem 375 páginas e eu estou aí pela 270, justo quando se descobre que ela inventou outra ela porque não podia suportar viver com o ela que de verdade ela era…
( Nada a ver com O Mundo de Sofia, onde quem inventou a outra foi outra pessoa, no caso, o pai da criatura. Lembram? Acho que foi isso. Sim! Sim! Outra boa novela para se ler. Anote aí! )
Pois sim…
Ainda há muito o que desvelar destas Travessuras… E ainda não sei a volta que isso vai dar.Vargas Llosa é bamba! Todo mundo sabe disso.
A crítica diz assim: ” Criando um admirável tensão entre o cômico e o trágico, Mario Vargas Llosa brinca com a realidade e a ficção para liberar uma história em que o amor se mostra indefinível, dono de mil caras, como a “niña mala”. Paixão e distância, azar e destino, dor e prazer… Qual é o verdadeiro rosto do amor?”
Tomara eu descubra o deles, ao final das 375 páginas…

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Recuerdos…

Férias…


Lendo Paul Auster em Tarifa. La Invención de la Soledad.

Auster é minuncioso na descrição do pai morto…
Traz-me de volta doídas lembranças.
O Lorde, meu pai, aparece a cada segundo em minha lembrança durante a leitura da primeira parte do livro: O Homem Invisível.
Entre os murmúrios do vento e das ondas que lambem a fina e branca areia tarifenha, gaivotas gritam o nome dele e me transportam para outros ventos, outro mar, outros tempos.

Quanto de compaixão será necessário para entender, ou apenas esquecer, sua estranha e cruel forma de amar?

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A Janela…

Domingo na casa de colunas.
Fazenda de cabras, flores e uma casa tranquila.
Um papagaio inquieto a andar de um canto para o outro no terraço, resmungando palavras incompreensíveis.
Música numa radiola do tempo da guerra: Augusto Patativa, o cantor da voz tremida.
Dr. Diniz nos mostra sua casa ensolarada, os empregados, sua solidão e uma janela.
– Aquela janela? É a mesma deste retrato aqui. Ela ficou pequena com o tempo, mas é a mesma. A moça era uma namorada que tive, sabem, eh,eh, quando era jovem. Faz muito tempo. Eu passava pela casa dela todas as tardes, e ela ficava na janela, nesta mesma janela, como no retrato.
– Era bonita. Muito bonita. Ele disse.
– Não casou com ela?
– Não. Ela já se foi. Disse abreviadamente. Mas ficou a casa. Sabem, eu não pude comprar a casa em que ela morou. Iam demolir, fiquei esperando, então comprei a janela.
– A fotografia? Paguei a Júlio Fotógrafo. Ele foi lá escondido e… plact! Custou-me dois contos a ousadia. Mas vale a pena. Não é linda?
-Tanto a foto como a janela.
– Não, a janela já não é mais. Ficou pequena. Antigamente era bem maior.
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Texto do livro A Idade da Pedra, um encantador e lindo presente que recebi de seu autor, meu amigo Luis Manoel Siqueira, Menção Honrosa Premio Othon Bezerra de Melo da Academia Pernambucana de Letras, 1990.
Por sinal, estou enamorada do livro do Luis Manoel. Seu livro é uma delícia do começo ao fim.
Depois vou publicar um post sobre essas alegrias que o blog tem me proporcionado.
Antes eu recebia um presente assim e ficava com pudores de publicar algo sobre eles, como se estivesse “expondo” demais as pessoas que me presenteavam. Agradecia por e-mail, como para protegê-los. Que grande bobagem!
Acho , agora que estou mais a vontade neste blog, que estava sendo até uma injustiça não compartilhar com todos as delicadezas que recebo aqui na Espanha, vindas de adoráveis leitores brasileiros que frequentam esta página.
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Quadro de Nicoletta Tomas Caravia . Uma pintora autodidata, bárbara, doce, sensível. Uma das minhas últimas descobertas.

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Em Tempo…

Uma dica: Blogagem coletiva sobre o tema Violência contra a Mulher.
A iniciativa foi da maravillosa Denise Arcoverde e muito bem recebida por um grande grupo de blogueiros. No blog Síndrome de Estocolmo há uma lista de blogs que publicaram posts dedicados à mulher e às diversas formas de violência as quais o gênero feminino é submetido por todo o planeta.
Mesmo sem estar por dentro da convocatória da Denise, por “ondas cósmicas” publiquei um post no dia 20/11 justamente sobre as Mulheres Esquecidas.
Eu posso estar dando um recado atrasado para alguns, mas se acaso alguém perdeu o bonde como eu… ainda está tempo! Tanto de ler quanto de escrever.
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Estou encantada com o livro Blog de Papel. Eu já conhecia boa parte dos blogueiros eleitos para participar do projeto e sabia que eram bons mas mesmo assim fiquei muito impressionada com o excelente nível dos textos.
Parabéns ao grupo todo!
Milton e Cláudia, muchas gracias por el regalo!
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Para Bruno
Névoa no coração…
Aos amigos devia ser proibido sofrer.
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Para Jac
“Eu tenho que ser minha amiga; se não, não aguento a solidão. ”
( C. Lispector, em Um sopro de vida)
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Questão de Mulheres…Ou de Justiça…

Ela nasceu em 1532 em Cremona, no ducado de Milão, na Itália. Recebeu um nome espetacular, mesmo para a época: Sofonisba Anguissola.

Forte, não é?
Uma mulher com um nome desses não podia passar pela vida sem deixar uma marca indelével e ela não fez por menos. Foi uma excelente e bem sucedida pintora, autora de obras admiradas por reis, rainhas, papas, nobres, além de outros artistas conceituados de sua época.
Apesar do sucesso de suas pinturas, Anguissola nunca foi paga por qualquer de suas obras, nem mesmo por aquelas que eram fruto de encargos importantes, tanto da nobreza quando da Igreja Católica, por certo os melhores clientes. Pagar-lhe não seria “bem visto” pela sociedade, então a artista recebia caros presentes ou regalias para si e sua família. Assim, jamais foi considerada uma profissional da arte e quase não existem registros de suas obras.
Eu nunca havia ouvido falar dela. E vocês?
Morreu jovem? Pintou pouco?
Nada disso. Anguissola teve uma vida larga e produtiva. Pintou até bem perto dos noventa anos. Quase um século de vida, numa época em que a grande maioria das mulheres morria antes dos quarenta.
Então o que aconteceu com seu nome e sua obra?
Simplesmente sumiram nas brumas.

Muitos de seus quadros foram atribuídos a outros artistas ( homens ) e seu nome foi “borrado” da história da pintura do século XVI e XVII e sequer aparece nos famosos compêndios de historiadores e críticos de arte.
E sabem qual o motivo?
Ela era mulher. Ponto e acabou-se.
Como assim uma mulher pintora de sucesso?
Não se podia admitir talento, inteligência, criatividade às mulheres! Se nem alma possuíam!
Tcs…tcs…
Sofonisba Anguissola foi apenas mais uma das muitas mulheres que se rebelaram contra esse estigma. Mas foi uma das que não apenas lutou. Ela venceu. Por quase um século!
Esquecida por que? Depois de morta, absolutamente ninguém lutou por ela? Inclusive seus quadros foram atribuídos a importantes artistas como Rubens e Tiziano!
Que injusto! Por falta de talento não foi!
Pois sim…. Esquecida e pronto. E isso aconteceu com quase todas as outras.
Pintoras, poetas, escritoras, dramaturgas…foram muitas. Muito mais do que sabemos ou podemos imaginar.
Apesar de mulheres, elas encontraram – de alguma forma – a saída para expressar seu talento. Umas através dos claustros das congregações religiosas, outras apoiando-se em pais, irmãos ou maridos que as incentivavam mesmo em contra às regras vigentes. Mas a maioria teve que suportar as perseguições, a burla e a humilhação de serem consideradas prostitutas e hereges apenas por saberem ler e escrever, fazer versos, música ou teatro. E bem ! Grandes mulheres!
Entretanto, com sucesso ou sem ele, mesmo conseguindo suportar tudo isso em nome de seu talento, foram sumariamente esquecidas depois de suas mortes.
Incômodas mulheres que contrariavam as teorias e leis masculinas?
Pois é sobre isso que eu estou lendo.

Las Olvidadas – Una história de mujeres creadoras, de Ángeles Caso.

Um livro delicioso, cheio de citações de grandes pensadores masculinos sobre as mulheres, segundo eles destinadas à torpeza, ao silêncio e à ignorância. Só para dar dois exemplos:
“A fêmea é como se fosse um macho deforme e a descarga menstrual é sémen, só que impuro: falta-lhe o elemento básico, a alma.” Aristóteles
Heim?!
” Uma mulher é sempre mulher, quer dizer, louca, por muitos esforços que realize para ocultar-lo” Erasmo de Rotterdam
Ho ho ho…não diga!
Mas o livro é também cheio de luz e força que emanam de uma escritora que sabe como contar uma história, situando-a no contexto cultural, político e religioso de cada criatura e seu entorno. Las Olvidadas é um ensaio bem escrito sobre a vida e a obra de algumas dessas extraordinárias mulheres que viveram lutaram e venceram na Europa medieval e moderna, entre os séculos XII e XVII.
O ensaio de Ángeles não só é puro prazer de boa literatura, como também proporciona uma aprendizagem incrível. É um resgate histórico da participação feminina na arte e na literatura no mundo ocidental. Muitíssimo mais ampla do que todos nós pensávamos e apenas recuperada, pouco à pouco, nas últimas duas décadas.
Este livro é para homens e mulheres que apreciam e estimulam o prazer do saber.
Recomendo com gosto!

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Outro Encontro Com Don Quixote…


“Ao morrer don Quixote o povoado começava a despertar-se e não se ouvia nem uma voz, nem uns passos, nem os cascos dos cavalos sobre as pedras. Nada. Somente os galos. E algum cão…
Depois sim. A meia manhã se ouviram as campanas.
Ao morrer don Quixote a casa se encheu de um grande silêncio.”
…………………….
Trechos do livro Al Morir don Quijote, de Andrés Trapiello.
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Estou lendo o livro que conta a história dos personagens que conviveram com o Cavaleiro da Triste Figura e sobreviveram a sua morte.
Andrés Trapiello, um escritor muito premiado na Espanha resolveu escrever uma novela interessantíssima sobre o que poderia ter acontecido com a ama, a sobrinha, o médico, o padre, Sansão Carrasco, Sancho e Teresa Panza…
Estou encantada com o livro… e mais com a possibilidade de encontrar seus personagens pelas ruas daqui a algumas horas.

Pois é…
Hoje começa o Mercado Medieval de Alcalá de Henares. Estou indo encontrar don Quixote e Sancho pela ruas e praças da cidade onde nasceu Miguel de Cervantes. É a Semana Cervantina!
Fotografarei tudo. Prometo.
Só não vou publicar imediatamente porque estarei sumindo de novo por mais ou menos uma semana.
Ho ho ho…
Amanhã estarei viajando para Córdoba, Sevilha, Granada, Cádiz…Tarifa. Um mergulho na Andaluzia com um casal de amigos brasileiros.
Hum… não reclamem! Eu adoro viajar!
* Foto: Painel Iluminado nos muros da Capela onde Cervantes foi batizado.

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Pedaços de Mim…(Cap13 )

A sala estava cheia de caixas de papelão, etiquetas e rotuladores de cores variadas…
Enquanto eu desfazia as estantes de livros e tentava não pensar que teria que separar-me deles, a minha vida ia passando diante dos olhos como um filme antigo, em preto e branco…
Olhava o livro, lembrava onde o tinha comprado, em que época havia lido, que sentimentos havia despertado em mim. Alguns iam direito para uma das caixas. Poucos, devo admitir. Outros, muitos, ficavam ali na mão, pedindo para serem abertos, relidos, mostrando as notas feitas a lápis nas margens de algumas páginas, reagindo a serem trancados entre quatro paredes de papelão por um tempo indeterminado. Um sofrimento!
Eu já sabia que não poderia levá-los comigo, pelo menos de imediato. Mas onde guardá-los?
Pensei nele. Um dos meus irmãos que adora ler. Mas os livros em sua casa, depois de lidos (apenas por ele), eram objetos sem categoria. Perdiam qualquer batalha por algum status na família. Ficavam guardados numa antiga e fria despensa, misturados com trastes velhos.
Sua esposa adorava que as estantes de sua sala fossem super-clean. No máximo uns pequenos objetos decorativos de vidro transparente, um ou outro vaso com arranjos de flores secas, belos candelabros. E só.
– Livros? Na sala? Nem pensar! Dizia que cheiravam a papel velho e guardavam toda a poeira do mundo.
Pois então… os maravilhosos livros de meu irmão dormiam na gélida despensa mesmo. E digo dormiam porque sequer estavam dignamente em pé, com o lomo aparecendo. Jaziam deitados. Todos. E de frente. Irreconhecíveis!
Por cima de seus corpos, um sem número de objetos: sapatos velhos, cabides quebrados, bacias furadas, espanadores rotos, sacos plásticos vazios… “Pedacinhos de morte”, como diria Cortázar.
Para lá eu não mandaria um só dos meus queridos pedaços de vida…
Escolhi apenas os didáticos que pudessem ajudar seus filhos nos exames de vestibular. Esses sim… estariam espalhados pelos quartos dos meninos, até que não fossem mais tão úteis e acabassem no Cemitério dos Esquecidos. A terrível e bolorosa despensa-trasteiro-biblioteca.
Separei também Obras Completas de Freud, que ele pediu-me com os olhos brilhantes, mas só com a promessa de que ficassem na prateleira do quarto de um de seus filhos, se esse concordasse. Não podia sequer imaginar que Totem e Tabu ou a Interpretação dos Sonhos fossem enterrados naquele monte de tranqueiras!
Bueno, pensei em meu outro irmão. O Pescador de Ilusões.(Um dia eu explico esse apelido.) Essa criatura nunca leu um livro inteiro. Mentira minha. Leu sim. Um. O Alquimista…
Suas estantes são cheias de troféus de pesca, cinzeiros e estatuetas horríveis. Mas ele as adora!
Bueno, não custava tentar.
Suspirei quando ele disse que não tinha espaço para guardar meus livros. Eu já sabia… suspirei nem sei por que.
Depois de trocar mil vezes de opinião sobre o que fazer com eles, revendo preços das companhias aéreas, navios, correios, passando inclusive pela encantadora idéia de tirar tudo das malas e transformá-las numa biblioteca ambulante (as roupas são perfeitamente compráveis em qualquer parte do mundo) e descobrindo que o peso das pobres coitadas quadruplicava sem resolver a questão, – cabiam tão poucos! – voltei às caixas. Separei tudo de novo e criei categorias para eles. Categorias afetivas, diga-se de passagem! Deixei tudo ali, no meio da sala, até conseguir pensar com calma. Tarefa difícil naqueles dias.
Ainda tinha que saber o que fazer com as cartas, bilhetes, fotografias… Antes sabia que podia contar com a cumplicidade e discrição da Princesa. Mas… agora que ela não vivia mais, como deixar minha vida assim, por escrito, nas mãos de outro alguém que não fosse ela??!
Meu coração parava quando olhava para o armário e via a enorme caixa de cartas…cópias das enviadas junto com as recebidas, no mesmo envelope. Maços e maços envolvidos em fitas. Meus sentimentos escancarados, escritos em épocas distintas para os personagens importantes de meu passado… Mas esse capítulo merece um post a parte.
Concentrei-me nos livros. Tinha que encontrar uma saída.
Finalmente tive uma idéia fantástica! Chamei uma amiga querida (ela, aquela que rondava minha porta nos dias de escuridão)  e fiz uma proposta semi-indecente. Ela ficaria com meus livros mais queridos (muitos) em sua casa e em lugar de honra ( por favor!) e assim que eu pudesse iria buscá-los, pouco à pouco. O resto eu deixaria com o Pescador de Ilusões, mesmo sabendo que seriam abandonados nas prateleiras do quarto de serviço. Um lugar arejado, pelo menos! Seriam resgatados assim que eu pudesse.
Pois sim…ela disse sim. Mas não poderia quitá-los das caixas. Ainda não tinha casa. Receberia seu apartamento em alguns meses, mas não poderia mobiliá-lo até que pagasse as últimas prestações. E não sabia quando poderia viver nele.
Foi aí que minha idéia cresceu. Ofereci-me para mobiliar sua casa. E emprestei tudo o que estava destinado a um depósito: lavadora de roupas, geladeira, fogão, micro-ondas, televisão, cama de casal e solteiro, mesinhas, luminárias, condicionador de ar, estantes, objetos de cozinha, etc… e livros. Muitos e deliciosos livros. Sabia que estaria tudo muito bem cuidado. E vivo! Respirando, fazendo parte do seu cotidiano.
Que mais precisa uma pessoa para começar a vida num apartamento novo e sozinha?
Sim, sei. Música. Isso ela já tinha, ainda bem.
Seus olhos faiscavam de alegria. Já podia contar com a casa montada!
Agradeceu-me contentíssima! Que graça! Ela me faz o favor e ainda agradece!?
Disse-lhe então que eu deixaria com ela só mais uma coisinha. Grande, mas que não ocupava espaço: toda a minha gratidão. Na verdade, nossa. Pois creio que os livros também agradecem a vida que estão levando…
Soube que está lendo como nunca… e sorrio feliz com a notícia!
………………….

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O Almoço…

Li um post no Pretensos Colóquios da amiga Dora, e não pude resistir a trazer aqui um dos meus pedaços prediletos do livro de Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e de Famas.
Porque desde que vivo na Espanha, muitas vezes assisti-me como uma estranha numa mesa onde comensais pareciam amigos sem o serem… medindo palavras e gestos aos mínimos detalhes.
De repente eu queria que toda aquela deliciosa comida, as belas flores e os magníficos vinhos fossem para outros… distantes e queridos outros.
Cortázar é divino quando descreve um almoço entre cronópios, famas e esperanças.
Ai, vai. Para você Dora!
E para todos os que também amam Cortázar ou apenas sentem falta de verdadeiros amigos em suas mesas.
…………..

“Não sem trabalho um cronópio chegou a estabelecer um termômetro de vidas. Algo entre termômetro e topômetro, entre fichário e currículum vitae. Por exemplo, o cronópio em sua casa recebia a um fama, uma esperança e um professor de línguas. Aplicando seus descobrimentos estabeleceu que o fama era infra-vida, a esperança para-vida, e o professor de línguas inter-vida.
Enquanto a si mesmo, considerava-se ligeiramente super-vida, mais por poesia que por verdade.
Na hora do almoço este cronópio gozava em ouvir falar a seus contertúlios, porque todos acreditavam estar referindo-se às mesmas coisas e não era assim.
A inter-vida manejava abstrações tais como espírito e consciência, que a para-vida escutava como quem ouve chover – tarefa delicada. Naturalmente, a infra-vida pedia a cada instante o queijo ralado, e a super-vida trinchava o frango em quarenta e dois movimentos, método Stanley Fitzsimmons.
Depois das sobremesas, as vidas se saudavam e partiam para as suas ocupações, e na mesa permaneciam apenas pedacinhos soltos de morte.”

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Para Pensar…

“Um dia a velha pianista abriu a janela e viu uma menina sentada na varanda do vizinho.
– Como vai, garotinha?
Como já não enxergava muito bem, a velha pianista catou na gaveta da escrivaninha seus óculos de aro de metal e os ajeitou sobre o nariz.
Não havia nenhuma menina na varanda. Apenas a escultura de um anjo, em cima de uma mesa.
Mais do que depressa, a velha pianista devolveu os óculos para a gaveta e abriu um pequeno sorriso:
– Que dia frio, hem, garotinha? Parece que esse ano o inverno vai ser bravo…”
(A Menina da Varanda – Léo Cunha)

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Felicidade Clandestina…

Esta história, escrita por Clarice Lispector, foi publicada por Sonja. Pedi emprestada imediatamente. Porque ela parece minha… Não, porque ela é minha.
Reinações de Narizinho foi o primeiro livro que ganhei. Um livro meu!? Haja felicidade!
E o Lorde, às vezes, chamava-me de Narizinho Arrebitado, que para mim era um elogio e tanto! Mais do que quando me disseram, muitos anos depois, que eu parecia com Florinda Bolkan!!!
Digo que a história é minha porque descreve o que é felicidade clandestina
Descreve, como eu já descrevi, o que era deixar um envelope cerrado sobre a mesa e fazer de conta que ele não estava ali ainda…
Descreve o que era sentar na rede e adiar a felicidade guardada em poucas frases…
Quem leu a História de Amor, escrita neste blog, sabe do que estou falando! E juro que eu nem conhecia este texto antes de hoje.
Ah! Essa Clarice!
Que mulher para escrever o que eu sinto!

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Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.
Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”.
Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres.
Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia. Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa.
Como casualmente, informou-me que possuía As Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.
Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.
Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu nao vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.
No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo.
E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.
Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. As vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados. Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!
E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.”
Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito.
Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. As vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.
Clarice Lispector

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Casa de Amigo…

Pois… há séculos que eu não respondia um questionário.
Mas este é especial.
Vem da casa de um Agrestino arretado a quem eu já quero um bem danado.
Antigamente, em Casa Forte, havia uma casa que todo mundo frequentava. Era uma casa com enorme jardim e grandes terraços decorados com cadeiras de vime cobertas por almofadas coloridas, redes penduradas nas colunas, cestas de samambaias, santos de madeira e belas carrancas.
Os cheiros de livros e gosto de música mesclados com os de alho e cebola refogados na manteiga e azeite pelas manhãs ou goiabas amassadas no açúcar pelas tardes e espalhados no ar pelos ruídos que vinham da cozinha habitada pela Assunta, dona de mãos mágicas para todo tipo de comida boa, especialmente doces e sucos nordestinos.
Amigos chegavam sem prévio aviso, tocavam o badalo de latão pendurado no portão e entravam direto ao terraço do fundo. Se aboletavam em qualquer assento e lá vinha  Assunta com um cafezinho ou um suco, um sorriso lindo na cara larga de negra feliz.
Havia sempre alguém com quem conversar. Amigos levavam amigos, que imediatamente se transformavam também em amigos.
O dono da casa era sertanejo e sua casa funcionava assim como uma hospedaria para familiares e quem quer que viesse do sertão pernambucano.
Os frequentadores assíduos da casa não tinham mais que chegar e ficar o tempo que quisessem, conversando com o parente distante que nunca haviam visto na vida ou apenas lendo um jornal esquecido sobre uma cadeira ou um livro escolhido nas estantes do grande salão eternamente aberto e convidativo.
Assim mesmo é a casa do Agrestino arretado de quem falo aqui.

Manoel Carlos tem uma casa (virtual) igualzinha àquela de Casa Forte. Fresca, aconchegante, com cheiro de livro e de música, de alho e cebola, de bolo de rolo e doce de goiaba quente.
A gente chega e encontra gente de todas as idades, idéias, crenças, nacionalidades. Poetas, escritores, músicos, cozinheiros, cantadores, contadores de histórias.
E ainda tem o terraço decorado por janelas espetaculares para as belezas do Brasil…
É chegar e tomar assento… Escutar apenas ou dizer algo é escolha do amigo, ou amigo do amigo… ou passante que não resistiu à aura de camaradagem que escapa pelo portão e então, curioso, toca o badalo e entra para ver o que passa ali, e se apresenta e senta junto… e se quiser vira amigo.
Assim é a casa de Manoel. Só falta mesmo a Assunta aparecer de repente e oferecer o café recém coado.
Pois… ele me pediu para responder um questionário e publicar aqui na casa da esquina deste condomínio. É um prazer atender seu pedido.
Ex-Libris da Tugosfera
Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
Grande Sertão-Veredas de João Guimarães Rosa
Já alguma vez ficaste apanhadinho(a) por um personagem de ficção?
Sim. Por Riobaldo Tatarana.
Qual foi o último livro que compraste?
Os Grandes Gênios da Arte (vários autores)
Qual o último livro que leste?
84, Charing Cross Road – Helene Hanff e Histórias de Cronopios y de Famas – Julio Cortázar
Às vezes leio mais de um livro simultaneamente. E sempre um de poemas está sobre a mesa de cabeceira. Quem sabe assim eu sonhe em forma de poesia.
Que livros estás a ler?
Rayuela – Julio Cortázar
Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
Grande Sertão-Veredas – Guimarães Rosa
Cem Anos de Solidão – Garcia Marquez
Antologia Poética – Pablo Neruda
Antologia Poética – Fernando Pessoa
A Interpretação dos Sonhos – Sigmund Freud
Estrela da Vida Inteira – Manuel Bandeira
A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e por quê?
De repente percebi que dois de meus indicados já estão na lista do Manoel. Só para confirmar o duplo voto indico:
Sérgio Borges do Pirata da Rua
Maria Odila do Digressiva Maria
E o terceiro e novo nome é Angela Lemos.
O motivo é o mesmo para os três. São pessoas sensíveis à literatura, que amam os livros tanto que seriam belos exemplares humanos nas reuniões noturnas e secretas de um possível Fahrenheit 451 again.

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Magia em poesia pura… é Cortázar!

“Uma vez que um parente dos mais distantes chegou a ministro, nos arrumamos para que nomeasse boa parte da família à sucursal de correios da Rua Serrano.
Durou pouco, isso sim.
Dos três dias que estivemos, dois passamos atendendo ao público com uma competência extraordinária que nos valeu a surpreendida visita do inspetor do Correio Central e uma nota elogiosa no jornal La Razón.
Ao terceiro dia estávamos seguros de nossa popularidade, pois a gente já vinha de outros bairros a despachar sua correspondência e a fazer telegramas a Purmamarca e a outros lugares igualmente absurdos.
Então meu tio o mais velho deu por livre a escolha, e a família começou a atender de acordo com seus princípios e predileções. No guiché de emissão de cartas, minha irmã a segunda obsequiava um balão colorido a cada comprador de selos.
A primeira a receber seu balão foi uma senhora gorda que ficou como paralisada, com o balão na mão e o selo de um peso já umedecido que se ia enroscando pouco a pouco no dedo. Um jovem cabeludo se negou de pronto a receber seu balão, e minha irmã admoestou-o severamente enquanto na fila do guiché começavam a suscitar-se opiniões desencontradas.
Ao lado, vários provincianos empenhados em enviar insensatamente parte de seus salários aos familiares distantes, recebiam com algum assombro copinhos de licor e de vez em quando uma empanada de carne, tudo isto a cargo de meu pai que ademais recitava-lhes a gritos os melhores conselhos do velho Vizcacha.
Enquanto isso meus irmãos, a cargo do guiché de encomendas, untavam-nas com alcatrão e as metiam em um balde cheio de plumas. Depois apresentavam-nas aos estupefatos clientes. E faziam-lhes notar com quanta alegria seriam recebidos os pacotes assim melhorados. “Sem pontinhas a vista” diziam. “Sem o lacre tão vulgar, e com o nome do destinatário que parece que vai metido debaixo da asa de um cisne, vejam.”
Não todos se mostravam encantados, há que ser sincero.

Quando curiosos e a polícia invadiram o local, minha mãe cerrou o ato da maneira mais bonita, fazendo voar sobre o público uma multitude de flechinhas coloridas fabricadas com os formulários dos telegramas e cartas certificadas.
Cantamos o hino nacional e nos retiramos obedientes; vi chorar a uma menina que havia ficado terceira na fila do guiché e sabia que já era tarde para que lhe dessem o balão.”

*Em Historias de Cronopios y de Famas – Julio Cortázar

Ando perfeita e absolutamente enamorada de Julio Cortázar!
Como pode uma criatura fazer poesia numa história assim?
Como consegue prender a gente em suas histórias como se fossem teias de aranha cobertas de pequenas gotas de puro cristal?
Não resisti. Traduzi uma delas e trouxe aqui.
Que ousadia a minha!

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Um Programa…

Iraque – A Guerra pelas Mentes
Estou convidando todos os meus amigos do Brasil para um programa que infelizmente eu não vou poder fazer.
Hoje à noite, dia 15 de fevereiro, o programa Observatório da TV, da TV Cultura, debate os perigos que jornalistas correm ao cobrir guerras, sequestros no Iraque e a proposta de Jacques Chirac de que os correspondentes deixem o paí­s devido à insegurança.
Quem estará debatendo o assunto com editores da Folha de SP e Estadão é Paula Fontenelle. Isso mesmo.
A autora do livro que indiquei para vocês ano passado. Não deixem de ver. O programa irá ao ar às 10h30 (SP) e 9h30 (Recife).
Para quem não lembra, convidei-os aqui no blog para o lançamento, na Livraria Cultura, em Recife, setembro passado.
Paula já participou de uma entrevista com Jô Soares, em Dezembro, pois o livro está sendo bem recebido pela crí­tica e parece estar se tornando um livro referência no Brasil para entender o papel da mí­dia nas guerras atuais.
Recuperando parte do post passado, escrevi:
“O assunto do livro é muití­ssimo interessante, pois trata da atuação da mí­dia inglesa durante a Guerra do Iraque.
Paula estava em Londres de outubro de 2002 à outubro de 2003, fazendo um mestrado em Marketing Polí­tico, na Universidade de Greenwich.
O tema escolhido por ela para sua dissertação foi uma análise do conflito do ponto de vista da sua cobertura jornalí­stica e para isso ela entrevistou correspondentes de importantes jornais ingleses, da BBC, ITV News e do Ministério de Defesa Britânico.
A manipulação da mí­dia durante a guerra, tanto de um lado quanto de outro é estarrecedora.
O resultado de seu trabalho ultrapassou o objetivo de uma dissertação de mestrado e transformou-se em um excelente livro.
A linguagem de Paula é clara e de fácil compreensão e o assunto é extremamente instigante. Eu li e adorei!”


Aí­ vocês me perguntam: “E por que esse comercial aqui no blog?”
– Ah… porque o livro é MUITO BOM e a Paula é Borges Fontenelle! Claro! Minha linda e inteligente prima jornalista!
Vejam o debate e depois me contem, por favor!!!

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