Memórias e Saudades

Cheiro de Saudade

edited_1469269783016Antes de ontem sonhei que estava na casa do Poço da Panela. Abria um armário e descobria as roupas da minha mãe. Me surpreendi com minha emoção. Abracei as roupas e senti seu cheiro. Que delícia! Um choro forte e reparador da saudade de tantos anos sem ela, saiu da garganta sem controle. Um choro que eu gostei de chorar.
De manhã contei o sonho a Pepe com alegria triste. Foi como se ela tivesse me dado um presente. Foi tão real, tão cheiro de verdade dela!
Agora sei porque. Hoje é seu aniversário, e quem ganhou presente fui eu. Saudadona imensona mãe.

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Meu pai…

Ele e eu. Um milhão de anos atrás.

Qual seria a música?
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A Princesa…

IMG_20131112_145946~3Hoje é 23. Dia do aniversário da princesa. Aquela do Poço da Panela.
Pepe não chegou a conhecê-la, nunca a viu… mas a reconhece em mim. De vez em quando ele diz, ” vai Moêma, joga isso fora” . Eu rio como ela, jogando a cabeça para trás. Eu molho o dedo na boca e prego nas miguitas de pão da mesa, depois esfrego um dedo no outro sobre o prato. E descasco todas as garrafas que tem um rótulo de papel, e faço rolinhos com os pedaços. Isso é ela em mim. E guardo roupa para remodelar um dia. Que será nunca. E bolsas de papel de todas as lojas. Também guardo as fitas coloridas dos embrulhos de presentes. Graças a deusinho já me livro dos papéis, porque Pepe amassa bem muito antes que eu tente dobrar direitinho. Ele diz, ” Moêma! ” e eu rio.
Eu morro de saudades da minha mãe.
Ainda bem que eu a vejo muitas vezes, quando olho no espelho.
Ele sabe quando sou ela porque eu falo dela todos os dias. Conto histórias, conto a vida dela antes de mim, conto mil e uma vezes repetidas. E ele gosta.
Ele gosta dela. E eu sei que ela gostaria muitíssimo dele.
Pois hoje é seu aniversário e eu vou comer bolo. Juro.

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Santo Antonio

092.0378Pois é…. Santo Antônio é um santo simpático, né? Eu gosto dele!
Em Pernambuco as “simpatias” para conversar com ele são muitas, mas eu só me lembro de uma, porque essa foi divertida e assustadora.
Eu tinha um noivo de aliança e tudo, e queria saber se ia casar com ele. Aliás, eu tinha certeza que ia casar com ele, só queria que o Santo confirmasse.
Então… Na noite do dia 12 de junho, eu e uma amiga de infância, amiga daquelas que a gente conta tuuuuudo, saímos do quarto à meia noite, cada uma com uma faca virgem na mão, pelo quintal da casa do Poço. Imaginem.
Só faltava a música de terror!
Pois… Segundo as simpatias pernambucanas tínhamos que meter as facas no tronco de uma bananeira e deixar toda a noite. Uma reza pro Santo e pronto!
Oráculo de primeira !
No dia seguinte, a minha faca traria impressa em sua folha metálica a letra inicial do nome do sujeito que ia casar comigo. Fácil e seguro!
Pois sim… Depois do café corremos para o quintal. A dela eu nem lembro o que saiu. Fiquei horrorizada assim que tirei a minha. Lá estava um J perfeitamente bem desenhado. Como assim? Cooooomo assim?
Meu noivo tinha DOIS nomes . Nenhum começado por Jota!
Comoo assiim????
Pois guardamos silêncio , as duas. Nem ela casaria com seu namorado, nem eu. Mas a gente não queria acreditar . Ponto.
Se ficasemos em silêncio podia ser que enganássemos o Santo.
…….
Ainda fiquei com esse noivo anos e anos… Mas não casei com ele.
Casei duas vezes na vida. As duas vezes o nome do noivo começava por Jota.
😱😱😱😱
E eu só lembrei da “simpatia” um dia desses, quando falei sobre a amiga querida.

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Caymmi e o Lorde… Juntos.

caymmi - por elifas andreato -

“Saveiro partiu de noite, foi…
Madrugada não voltou.
O marinheiro bonito…
Sereia do mar levou.”

O Lorde  cumpriria seus 80 anos no dia 11 desse mês.

Com certeza organizou a festa mais tarde, só para esperar seu amigo. Deve ter havido um grande abraço!
Eram ambos homens da música e do mar…

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Farra de Amor…

O banzo nem é por Pasárgada… tão linda e ensolarada!
Nem por seus mares mansos e mornos, nem pela água de coco verde bem embaixo da janela, nem pelos belos rios que a cortam em ilhas, nem pelas antigas pontes que cruzam suas águas ou os belos casarões que enfeitam suas margens…


O banzo é por eles, pelos queridos irmãos e amigos, pela bela e doce cunhada, bruxa das boas, com halo dourado sobre a cabeça e olhos amarelos como os de um gato na escuridão.
Ela foi uma das poucas a quem eu contei a troca de cartas com olhos-de-mar-azul. E naquele momento também foi a única que disse “vai dar certo, acredite, aposte, concentre nisso suas energias, não deixe a razão desviar seu coração…”
Ela é bruxa do bem.
Não a chamo de fada porque ela é feita de outro material e espírito e quem tem intimidade com bruxas e fadas sabe a diferença. Eu tenho e sei. Ela é bruxa mesmo. Das raras e muito boas. Tive sorte de tê-la por perto em momentos tão decisivos de minha vida.
Então… claro que eu acreditei nela. E nunca esqueço que cada vez que meu medo crescia e eu duvidava de mim mesma, do meu romantismo, dos meus sonhos, ela me aprumava na mesa da cozinha diante de uma xícara de café fresquinho e fumegante, um pedaço de bolo de fubá cheiroso e macio e, com voz doce mas segura e firme, tão firme que parecia saber mais, muito mais do que eu contava, dizia “eu sei que vai dar certo, confie e não disperse energia”. E parecia que qualquer dúvida se esfumava, desaparecia, perdia a força.
Pois sim…
Tenho banzo disso. Desse tipo de aconchego nordestino. Da cozinha dela com café e bolo de fubá.
Também tenho de outras cozinhas ou sofás de amigas, onde a conversa fluía lenta com tanta facilidade e sem qualquer preocupação por escolher palavras e esconder sentimentos. As expressões que em si mesmas já diziam tudo e que aqui não servem para nada. ” Vixe, eu heim! Pense numa pessoa troncha de saudade ! Tô até demente!” Ho ho ho…
Outro dia eu disse assim: « Tô querendo ir não, visse. Tô de banzo, dengosa, devagar quase parando… tô só querendo espalhar minha saudade pelos cantos da casa e escutar Lenine cantar… »
Depois vi que não havia trocado o chip e estava falando em perfeito pernambuquês e, claro, a outra pessoa não tinha entendido nada.
Nem dava pra traduzir.
Primeiro que eu nem sabia (ainda não sei ) como dizer isso em Espanhol, “Yo no estoy queriendo nada. Yo estoy…”
Desisti. Como se diz essas coisinhas da alma pernambucana em madrileño?
Deu logo vontade de chorar…
Ainda bem que falo Português com meu marido ( que chic e que estranho chamar meu prometido, meu amante, meu querido olhos-de-mar azul de marido! ) e para ele posso dizer essas besteirinhas, que não servem se forem ditas em nenhum outro idioma. E ele me responde em Espanhol, que eu também adoro e acho lindo. Não é uma maravilha isso? Nem um de nós dois precisa abdicar de seu próprio idioma, de suas expressões mais pessoais. Eu acho isso bárbaro!
Falo Espanhol com outros e me esforço em melhorar a pronúncia e o vocabulário, mas com ele falo em Português. Assim, quando ele chega no Brasil entende tudo e fala o que consegue. E já consegue muito!
Tem gente que assume tão completamente a cultura do país onde está que fala unicamente o idioma do lugar. Até os filhos educam sem ensinar o idioma de sua terra natal.
Tenho uma prima que vive nos EUA há mais de dez anos. Seu marido não sabe dizer nada em Português, exceto “obrrigaddo”. E sorri como se tivesse realizado um dos trabalhos de Hercules!
E seus filhos falam exclusivamente Inglês. Perguntei-lhe uma vez por que ela não falava com seus filhos em Português para que fossem bilíngues sem qualquer esforço e ela me respondeu que seus filhos eram A-me-ri-ca-nos e falavam perfeitamente o idioma de seu país. Aprenderiam Português se quisessem, quando fossem adultos.
Que “bourrrah” ! ( Leiam com sotaque, viu?)
Os pobres meninos quando vão ao Brasil não podem comunicar-se com seus avós, tios e primos. Dependem da mãe para tudo… e olham para o mundo como se ele – todo, inteiro – tivesse a obrigação de falar Inglês.
Desculpem os que defendem essa atitude, mas eu acho de uma burrice aterradora. Imaginem já ser bilíngue com três ou quatro anos de idade! Isso é uma maravilha para uma criança, desenvolve seu cérebro, ajuda a que ela comunique-se com sua família, abre seus horizontes. Ela não perde nada aprendendo os dois idiomas simultaneamente. Pelo contrário, só ganha!
Tá. Sei lá o que passa na cabeça desta minha prima. Deve ser algo marrom e fedorento… hhahahaha!
Tá bom… fui venenozinha, admito. Mas fico furiosa com brasileiros que saem de seu país e parecem ter vergonha dele. Esquecem os amigos, a própria cultura, as suas raízes.
Deixa para lá… eu estava falando do meu banzo, das minhas saudades…

Não era brincadeira quando escrevi, antes de viajar, que lá em Pernambuco cada amigo é rei. Cada irmão, cada amigo e até os parentes e amigos deles, que muitas vezes nem nos conhecem bem, nos abrem suas casas e seus corações tão completamente que nos sentimos em verdadeiros palácios feitos de amor.
O carinho com que todos nos recebem, a consideração, o desejo de abraçar, tocar, acarinhar, fazer dengos é uma característica constante do nosso povo. Que delícia! Lá a gente passa o tempo todo se tocando, dando as mãos, trocando beijos…
Uma farra de abraços e beijos era tudo o que eu queria da minha Pasárgada…
E tive!
E de quebra, ( vai dizer isso em Espanhol, vai! ) também os mares morninhos, agulhas fritas com cervejas estupidamente geladas, carne de sol com feijão verde e farofa, manteiga de garrafa, bobó de camarão, escondidinho de xarque, peixe fresquinho, patolas e casquinhos de carangueijo, cuscuz e munguzá, tapioca quentinha e bolo de rolo… e mais e mais… aí, ai, meu deus!
Que farra! Tanto a de carinhos quanto a de delícias culinárias!
Que mamão docinho, que abacaxi mel, que mangas macias e saborosas, que bananas mais lindas, que melões e melancias tão suculentas…
E sorvete ( sorvete de fruta! ) de cajá? De pitanga ou graviola ou mangaba??
Alguém sabe lá o que é TER E PERDER isso tudo de uma vez?
Dá banzo ou não dá?
Desta vez os amigos fizeram uma mesa que tinha até ingá, tamarindo, pitanga, carambola, umbu, cajú, cajá, cajarana, jaca, azeitona preta… A poupa, não! As frutas! Todas fresquinhas, vindas diretamente da feira de Jaboatão!
Cada uma trazia dentro do si um gosto de infância, uma lembrança da Princesa, outra do Lorde, do Janga de antigamente, da casa de Casa Forte, do sítio do Poço da Panela, dos pés descalços e sujos, das ruas de barro e mato, dos jardins perfumados por rosas e jasmins.
Um casal de amigos fez a festa do nosso casamento justamente aí, na casa deles, bem no meio do Poço da Panela. Tão pertinho do meu passado que ele estava todo alí! Meus queridos fantasmas espalhados entre samambaias, trepados nas palmeiras, rindo felizes…
Na brincadeira de jogar o buquê – que não havia – peguei um ramo florido de jasmim. Nele o cheiro inteiro da Princesa, não pensem que eu não sabia. Quando fiquei de costas e joguei a florzinha branca e cheirosa para o alto, todas as amigas tinham um ramo igual entre os dedos. Foi uma anarquia só. Todas se casarão no mesmo dia, para que eu possa ir! Gargalhamos juntas, numa alegria imensa só por isso, por gargalharmos juntas.
Dá banzo deixar esse mundo… esse rir junto aos amigos, esse dengo que eles me dão, esses abraços tão apertados no meio da rua, os beijos estalados, esse sentir a presença da própria história no ar, esse contar as coisas na língua de toda a vida!
Aí eu vim… cheguei aqui meio chorona. E tive a felicidade de ganhar um presente: fui convidada para um aniversário no Liceu de Belas Artes de Madrid, com dez brasileiras. Êbaaa!
Só conhecia pessoalmente a aniversariante, mas peguei um trem para Recoletos, caminhei por uma Madrid bela e primaveril para estar com todas elas, com muita vontade.
Adoro Madrid e sua gente. Mas desta vez foi como estar dentro de um mar morninho ou numa bela e aconchegante cozinha, tomando um café fumegante e trocando carinhos.
Só faltou o bolo de fubá.
Prometo que no próximo encontro não vai faltar.

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Voltei lá de Pasárgada…

Ainda estou com banzo…

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Pasárgada…

Vou-me embora pra Pasárgada…
Lá todo amigo é rei…
Levo o homem que quero… pra cama que escolherei!

 

Se houver tempo e lugar… escreverei!
Hasta la vuelta.

 

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Era um Sábado…

Eu já contei essa história antes mas faz tempo demais. E, como expliquei no post passado, decidi organizar minha vida de blogueira. Mais uma vez.
Para começar, resolvi dar uma revisada geral nos antigos arquivos que tenho guardados e ver o que vale a pena manter, republicar ou até mesmo imprimir. Encontrei algumas histórias que gosto muito e tive uma idéia. Achei que seria um bom presente de final de ano para minha filha construir um belo caderno com alguns dos meus escritos. Quem sabe um dia ela poderá contar algumas destas histórias aos seus filhos e netos.
Naturalmente pretendo mantê-los em disco, mas não é o mesmo contar uma história lida no papel, não é?
Então…essa é uma das que resolvi imprimir.
……………………………………………………..
Era um sábado. Não sei há quanto tempo atrás…
Naquela manhã fui, com alguns amigos, tomar umas cervejas e plantar arvorezinhas numa praça do Poço da Panela.
Chamar de praça um minúsculo triângulo de terra, com um busto de Mano Teodósio e quatro palmeiras…. é boa vontade e carinho.
A rua não era minha, nem a praça, mas o Poço foi meu lar por quase toda minha vida. O lugar da casa e do rio. Vocês sabem qual casa, qual rio….
Pois é… eu estava lá, limpando a terra, cavando e plantando, manhã tão linda! As mãos sujas de esterco e barro. Chico Buarque no som do carro, cantando ao vento: ” Morena, dos olhos d´água, tira os teus olhos do mar, vem ver, que a vida ainda vale o sorriso que eu tenho para te dar…”
Aí passa um carro, faz a volta… uma mulher desce com ar desconfiado.
– Vocês vão fazer o que?
– Estamos limpanho e plantando a pracinha…
– Vocês conheciam o Mano Teodósio?
– Não… mas gostamos dele.
– Não vão mexer no busto, não é? Da última vez pintaram ele de verde.
– Não… só vamos lavar. Por que?
– Ele era meu irmão…
Tinha os olhos molhados.
Arrepiei a nuca. Acreditei.
Ela entrou no carro e se foi. Senti sua falta. Um silêncio por dentro, apesar da música. Abrimos mais uma cerveja… brindamos com Mano.
Ela voltou depois de um tempo, com uma velhinha no carro. Era a mãe de Mano Teodósio. Uma senhora de brancos cabelos e andar claudicante. Ficou nos olhando e dizendo… “Obrigada… Obrigada…”
Arrepiei de novo.
Minha amiga sugeriu que voltassem ao final do dia, para ver o trabalho terminado.
– Sim. Elas disseram.
Prendemos uma fita amarela entre as palmeiras, para reinaugurar a praçinha. A cerveja rolando solta… e a alegria também.
Lavamos a praça, o busto, aguamos as novas plantinhas.

Ela voltou, pelo braço da filha. E trouxe fotos. Falava do filho com orgulho. Disse que ele adorava Chico Buarque, que gostava de beber e era muito alegre… assim como nós.
Disse que ele era muito querido, respeitado até pelos inimigos políticos! Que foi comunista perseguido. E que era um homem lindo, de corpo e de alma.
A lua nascendo, enorme, abusada de bonita… exatamente de frente para o busto dele. E a gente cantando: ” Estava à toa na vida… o meu amor me chamou, pra ver a banda passar, cantando coisas de amor… ”
Na presença dela, eu olhava para ele com mais cuidado, pensando ver o homem por trás da pedra, o homem que havia sido, o amigo de copo e de cruz, o Filho daquela mulher… o Mano de outra…
Estávamos todos de olhos marejados. Se eu fosse mais pura, teria acreditado que ele também chorava…
Foi um belo dia.
Voltei para casa pensando na pergunta de um amigo: ” Voce sabe ser feliz?”
E lá estava eu … feliz, assim de repente.
Por nada…

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Vozes Remotas…

Passei o dia com uma vibração dentro do peito. Fiz o que nunca faço: logo pela manhã elegi a roupa que pretendia usar à noite e, como a criança obediente que fui, deixei-a sobre a cama com zelo. Assim gostava de fazer a minha mãe,a Princesa. Eu, que jamais gostei de escolher a roupa antes da hora de vestir-me, estranhei.
Andei pela casa como suspensa numa nuvem antiga e reconhecida. Cuidei das plantas sem conversar com elas, deixando que os sons remotos das vozes perdidas ecoassem na minha memória. Engoli o almoço sem sentir seu sabor. Parecia… por momentos, estar de volta à lugares e idades distintas. Faço isso muitas vezes na minha vida.
Acho que não tenho muito delimitado essa coisa de passado, presente e futuro. Vivo e re-vivo e pré-vivo sentimentos e sensações com a memória e a imaginação frequentemente.
Ontem o tempo oscilava entre presente e passado a cada larga hora do dia…
Há anos que eu não sentia um dia passar tão devagar!

Sobre a mesa do gabinete, uma página impressa recordava o motivo de minha inquietude. Registrava que tínhamos entradas para a ópera em Madrid. La Bohème, de Puccini.
(Clique aqui e escute a ária Si, me chiamano Mimi , com Maria Callas. Também pode escutar Che gelida manina, com Pavarotti, na mesma página do site El Poder de La Palabra, cujo link eu indico aí ao lado.)
Então… minha primeira vez no Teatro Real de Madrid. E também minha primeira vez numa ópera ao vivo e a cores.E logo La Bohème! Emocionante demais! Mais do que se possa imaginar.
Apesar de ser minha estreia numa apresentação desse tipo, a emoção maior não era apenas por isso. Era algo mais visceral.
Eu nasci escutando ópera. Esta era uma das grandes paixões do Lorde. E La Bohème uma de suas prediletas.
Recordo, mais com a memória dos sentimentos que com a memória da razão, estar entre seus braços numa das muitas noites de brumas da casa do Poço da Panela, escutando Mimi em seus primeiros instantes de enamoramento…
“Mi chiamano Mimì,
ma il mio nome è Lucia.
La storia mia è breve.
A tela o a seta
ricamo in casa e fuori… “

Não que eu soubesse o que estava dizendo aquela voz tão extraordinária, era muito pequena, mas sentia que seu encanto e beleza se espalhavam por sobre nós e a casa, avançavam como uma onda por sobre as baronesas que cobriam o braço do rio e iam enfeitiçar as árvores centenárias da outra margem. Quem sabe estavam os seres encantados que viviam nas matas também fascinados como eu?
Depois, muitas foram as vezes que escutei Mimi e Rodolfo recitarem seu amor e desventuras… aí eu já sabia o que diziam e o prazer só aumentou.
Acho que já disse que a herança mais bonita que recebi de meu pai foi o amor pela música. E foi através dessa herança que eu “reabilitei” a minha relação com ele.
O Lorde era uma criatura fora de série. Podia ser o sujeito mais sensível do mundo para umas coisas e o mais rude para outras. Era dono de uma inteligência e sensibilidade privilegiadas, mas como pai não foi nada competente. Amava com muita crueldade. Quem sabe um dia eu fale sobre esse aspecto de nossa relação. Agora não creio que valha a pena.
Muitos anos depois de sua morte, resolvi rememorar apenas seus momentos suaves… embora, de vez em quando, os outros ressurjam das brumas e venham sombrear recordações de minha infância e juventude.
Ontem ele estava lindo, com seus verdes olhos molhados de emoção assistindo La Bohème comigo.

Antes, como para preparar-nos, levei-o dentro do peito para a bela praça diante do Palácio Real de Madrid. Sentamos na antiquíssima ” terraza “ do Café Oriente e tomamos um café com Drambuí e sorvete como sei que ele amaria, enquanto olhávamos as pessoas que chegavam para a função.
(Adoro olhar as roupas, sapatos, abrigos… Para mim já faz parte do “evento” observar como estão vestidas as pessoas. E mais, eu ainda crio histórias para elas… mas isso dá outro post sobre manias.Já descobri que mantenho algumas das antigas, só que tinha esquecido delas.)
Pois sim…

O coração batia forte quando entramos no teatro e buscamos nossos assentos. Quando a cortina abriu e a orquestra executou os primeiros acordes, temi deixar-me levar pela irritação por ter comprado lugares em um dos camarotes laterais, caros demais para uma visão tão reduzida. ( Como se atrevem?)
Mas depois, levantando-me muitas vezes, contando com a paciência amorosa de Pepe e o próprio cuidado da produção que fez com que os personagens se movessem por ambos lados do cenário, numa primorosa recriação da buhardilla parisiense ou da antiga rua do quartier latin francês de 1840 relaxei e aproveitei. E aos poucos, principalmente pela força da representação e da música, entrei em transe.
Tomei nos braços a minha lembrança daqueles belos momentos de intimidade com meu pai e desejei de todo coração que ele e minha mãe pudessem estar mesmo ali comigo e com Pepe. E, se não… imaginar que eles podiam assistir nossa ópera favorita através de meus olhos e de minha saudade.
A atuação da companhia foi deslumbrante!
E eu chorei feliz, como estava previsto, com o lenço branco de olhos-de-mar-azul em volta do nariz para não fazer barulho.
Assim, foi com o coração cheio de suave alegria e um toque de agradável nostalgia que brindei com Pepe, no hall do teatro durante um dos intervalos, ao sabor de uma bela taça de cava espanhol, à memória do Lorde e da Princesa, que infelizmente ele não conheceu.
Dediquei a eles minha estreia.
Sim, porque essa foi só a minha primeira vez. Tenho certeza que virão outras.
Pretendo, um dia, se Deus ajudar, ir ao Festival de Ópera de Verona.
E Deus gosta de mim. Eu sei.

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Ela Não Se Chamava Emília…

Há quase meio século atrás, Cabelinho de Espiga de Milho tinha o mesmo tamanho e a mesma idade que eu.
E, enquanto eu era morena e tinha os cabelos muito curtos, maltratados pelo mesmo barbeiro que pelava meus irmãos como se eles fossem soldados em vias de serem enviados à guerra mais próxima, ela tinha belos, longos e lisos cabelos da cor dos raios de sol, olhos azuis e sobrenome inglês. Era quase igual às bonecas das vitrines da Lojas 4.400, a loja rainha da Rua da Imperatriz de minha infância.
Mas ela não era uma bonequinha de loja, nem de livro. Era real e definitivamente a rainha da rua. Falava a língua do P com perfeição, xingava quando perdia no jogo, atirava pedras, roubava frutas das árvores alheias, dava ordens aos meninos que lhe seguiam por toda parte. Era mais autoritária que qualquer Imperatriz. E eu gostei dela.
Quando chegamos em Casa Forte, Cabelinho de Espiga de Milho transformou-se em minha melhor amiga. Inseparável amiga. Tínhamos 5 anos.
Éramos diferentes das outras meninas da rua. Enquanto elas brincavam de bonecas e comidinhas, nós fazíamos guerra de bolas de lama, lutas de mocinho e bandido, campeonatos de bola de gude, queimado e gamão, criávamos teatros de marionetes, fomentávamos as corridas de bicicleta pelas ruas do bairro…
Estávamos sempre entre os meninos.
Enquanto passavam os anos e eu deixava os cabelos crescerem em indomáveis e fartos cachos castanhos, ela ia cortando os raios de sol cada vez mais curtos. Eu chegando ao metro e setenta, ela parando a pouco mais do metro e meio. Eu romantizando a vida. Ela racionalizando-a. Eu escrevendo cadernos de poesias. Ela lendo novelas policiais. Eu lenta e desarrumada. Ela diligente e ativa. Era a melhor ajudante da mãe para criar os quatro irmãos que nasceram depois dela. Mas continuávamos inseparáveis. Éramos como irmãs e nos apresentávamos, com todo orgulho, assim: “Somos gêmeas, idênticas. Não vêem as semelhanças?”
Estudamos juntas até a entrada na faculdade, quando a vocação de cada uma nos separou. Eu fui estudar Psicologia, ela Engenharia. Mas a amizade continuou para sempre.
Quando tínhamos 19 anos, caiu a bomba sobre nós. Cabelinho de Espiga de Milho estava com câncer.
Eu me debulhei em lágrimas infelizes. Ela se preparou para a luta.
Seu cabelo caiu todinho, fez mil e uma cirurgias investigativas. O tratamento foi violentíssimo, mas ela ganhou. Nunca deixou que a doença tomasse conta do seu espírito. Era indomável.
Depois disso, o cabelo cresceu mais escuro, os olhos ficaram mais duros e determinados, mas ela deu a volta por cima e sem perder uma prova da faculdade, formou-se e transformou-se numa excelente profissional. Sua capacidade de mando continuou por toda a vida. Sua força vital também. Ganhou mais duas batalhas contra a doença, que insistia em dobrá-la. Nunca o conseguiu.
Casou-se. Adotou um menininho lindo como filho querido, já que a capacidade de ser mãe estava limitada pelas muitas radiações que tomou na vida.
Depois, não sei precisar exatamente quando, as contingências da vida de cada uma, profissionais e pessoais foi nos afastando da convivência diária, dos programas sociais…
Apesar de vivermos na mesma cidade, víamos-nos tão pouco! Falávamos por telefone e prometíamos encontros nunca marcados.
Meses atrás, por casualidade, estive com seu irmão em Madri. Ele disse que o câncer havia voltado e que desta vez a luta estava mais acirrada, a miserável tinha tomado conta de seu ponto mais forte: o cérebro.
Não havia mais nenhuma saída.
Recebi um e-mail de sua sobrinha uns dias atrás… Nele uma foto de minha amiga de toda a vida, com cabelos curtos e escuros (talvez postiços) ao lado de um texto de despedida com data de nascimento e de morte.
Enquanto eu fazia mechas de luz nos cabelos castanhos para comemorar os 50 anos, exatamente no dia 15 de setembro passado, minha querida e lutadora amiga, faltando apenas dois meses para cumpri-los também, adormeceu para sempre.
Minha primeira e eterna amiga morreu no dia do meu aniversário de 50 anos!
Há uma semana a lembrança de seu cabelinho de milho, sua voz, seu sorriso, o encanto de seus olhos azuis de boneca me acompanham por toda a casa… e nessas lembranças não temos os cinquenta anos que já vivemos, juntas ou separadas…
Temos os cinco anos de quando nos encontramos pela primeira vez, numa rua de barro e lama de Casa Forte.
E esta é e será a minha eterna saudade…

 

Escrevi esse post para Cristina Gatis Soares.

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Um Cavaleiro …


Acabo de ler a notícia da morte de um grande personagem da vida política de Pernambuco e do Brasil.
Miguel Arraes de Alencar era um cavaleiro andante, um lutador, um político excepcional. Eu tive a honra e o prazer de trabalhar três anos em um projeto social da Secretaria de Saúde do Estado de Pernambuco, sob a coordenação do Dr. Cyro de Andrade Lima, Dra. Terezinha Tabosa e Dra. Bernadete Lins Paes, durante o governo de Dr. Arraes. Apesar de todas as dificuldades de infraestutura do Estado, o Projeto Boa Visão foi uma das experiências profissionais mais gratificantes de minha carreira.

Ainda tive a honra de estar presente, sentada sobre o solo da grande sala da casa de Ariano Suassuna, a mais gostosa que existe na Rua do Chacon, em Casa Forte, em noites maravilhosas de conversas animadas e inteligentes entre Arraes e meu querido Ariano , amigo eterno do meu pai.
Noites em muito aprendi e que eu jamais esquecerei.
Arraes foi muito mais que um mito. Era um homem de idéias e princípios.E de muito trabalho.
Pernambuco, principalmente o interior do Estado, deve muitas de suas conquistas a ele.
Estou de luto.
Meu coração está lá…

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Pedaços de Mim…(Cap13 )

A sala estava cheia de caixas de papelão, etiquetas e rotuladores de cores variadas…
Enquanto eu desfazia as estantes de livros e tentava não pensar que teria que separar-me deles, a minha vida ia passando diante dos olhos como um filme antigo, em preto e branco…
Olhava o livro, lembrava onde o tinha comprado, em que época havia lido, que sentimentos havia despertado em mim. Alguns iam direito para uma das caixas. Poucos, devo admitir. Outros, muitos, ficavam ali na mão, pedindo para serem abertos, relidos, mostrando as notas feitas a lápis nas margens de algumas páginas, reagindo a serem trancados entre quatro paredes de papelão por um tempo indeterminado. Um sofrimento!
Eu já sabia que não poderia levá-los comigo, pelo menos de imediato. Mas onde guardá-los?
Pensei nele. Um dos meus irmãos que adora ler. Mas os livros em sua casa, depois de lidos (apenas por ele), eram objetos sem categoria. Perdiam qualquer batalha por algum status na família. Ficavam guardados numa antiga e fria despensa, misturados com trastes velhos.
Sua esposa adorava que as estantes de sua sala fossem super-clean. No máximo uns pequenos objetos decorativos de vidro transparente, um ou outro vaso com arranjos de flores secas, belos candelabros. E só.
– Livros? Na sala? Nem pensar! Dizia que cheiravam a papel velho e guardavam toda a poeira do mundo.
Pois então… os maravilhosos livros de meu irmão dormiam na gélida despensa mesmo. E digo dormiam porque sequer estavam dignamente em pé, com o lomo aparecendo. Jaziam deitados. Todos. E de frente. Irreconhecíveis!
Por cima de seus corpos, um sem número de objetos: sapatos velhos, cabides quebrados, bacias furadas, espanadores rotos, sacos plásticos vazios… “Pedacinhos de morte”, como diria Cortázar.
Para lá eu não mandaria um só dos meus queridos pedaços de vida…
Escolhi apenas os didáticos que pudessem ajudar seus filhos nos exames de vestibular. Esses sim… estariam espalhados pelos quartos dos meninos, até que não fossem mais tão úteis e acabassem no Cemitério dos Esquecidos. A terrível e bolorosa despensa-trasteiro-biblioteca.
Separei também Obras Completas de Freud, que ele pediu-me com os olhos brilhantes, mas só com a promessa de que ficassem na prateleira do quarto de um de seus filhos, se esse concordasse. Não podia sequer imaginar que Totem e Tabu ou a Interpretação dos Sonhos fossem enterrados naquele monte de tranqueiras!
Bueno, pensei em meu outro irmão. O Pescador de Ilusões.(Um dia eu explico esse apelido.) Essa criatura nunca leu um livro inteiro. Mentira minha. Leu sim. Um. O Alquimista…
Suas estantes são cheias de troféus de pesca, cinzeiros e estatuetas horríveis. Mas ele as adora!
Bueno, não custava tentar.
Suspirei quando ele disse que não tinha espaço para guardar meus livros. Eu já sabia… suspirei nem sei por que.
Depois de trocar mil vezes de opinião sobre o que fazer com eles, revendo preços das companhias aéreas, navios, correios, passando inclusive pela encantadora idéia de tirar tudo das malas e transformá-las numa biblioteca ambulante (as roupas são perfeitamente compráveis em qualquer parte do mundo) e descobrindo que o peso das pobres coitadas quadruplicava sem resolver a questão, – cabiam tão poucos! – voltei às caixas. Separei tudo de novo e criei categorias para eles. Categorias afetivas, diga-se de passagem! Deixei tudo ali, no meio da sala, até conseguir pensar com calma. Tarefa difícil naqueles dias.
Ainda tinha que saber o que fazer com as cartas, bilhetes, fotografias… Antes sabia que podia contar com a cumplicidade e discrição da Princesa. Mas… agora que ela não vivia mais, como deixar minha vida assim, por escrito, nas mãos de outro alguém que não fosse ela??!
Meu coração parava quando olhava para o armário e via a enorme caixa de cartas…cópias das enviadas junto com as recebidas, no mesmo envelope. Maços e maços envolvidos em fitas. Meus sentimentos escancarados, escritos em épocas distintas para os personagens importantes de meu passado… Mas esse capítulo merece um post a parte.
Concentrei-me nos livros. Tinha que encontrar uma saída.
Finalmente tive uma idéia fantástica! Chamei uma amiga querida (ela, aquela que rondava minha porta nos dias de escuridão)  e fiz uma proposta semi-indecente. Ela ficaria com meus livros mais queridos (muitos) em sua casa e em lugar de honra ( por favor!) e assim que eu pudesse iria buscá-los, pouco à pouco. O resto eu deixaria com o Pescador de Ilusões, mesmo sabendo que seriam abandonados nas prateleiras do quarto de serviço. Um lugar arejado, pelo menos! Seriam resgatados assim que eu pudesse.
Pois sim…ela disse sim. Mas não poderia quitá-los das caixas. Ainda não tinha casa. Receberia seu apartamento em alguns meses, mas não poderia mobiliá-lo até que pagasse as últimas prestações. E não sabia quando poderia viver nele.
Foi aí que minha idéia cresceu. Ofereci-me para mobiliar sua casa. E emprestei tudo o que estava destinado a um depósito: lavadora de roupas, geladeira, fogão, micro-ondas, televisão, cama de casal e solteiro, mesinhas, luminárias, condicionador de ar, estantes, objetos de cozinha, etc… e livros. Muitos e deliciosos livros. Sabia que estaria tudo muito bem cuidado. E vivo! Respirando, fazendo parte do seu cotidiano.
Que mais precisa uma pessoa para começar a vida num apartamento novo e sozinha?
Sim, sei. Música. Isso ela já tinha, ainda bem.
Seus olhos faiscavam de alegria. Já podia contar com a casa montada!
Agradeceu-me contentíssima! Que graça! Ela me faz o favor e ainda agradece!?
Disse-lhe então que eu deixaria com ela só mais uma coisinha. Grande, mas que não ocupava espaço: toda a minha gratidão. Na verdade, nossa. Pois creio que os livros também agradecem a vida que estão levando…
Soube que está lendo como nunca… e sorrio feliz com a notícia!
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Saudade da Princesa… e Uma História de Fantasmas.

No dia primeiro de Agosto de 2001 a Princesa se foi.
Fazem já quatro anos. Ainda sinto seu perfume quando minha casa se enche de rosas e floresce o jasmim…
Me presenteia com sonhos onde percebo a maciez de suas mãos, sempre um pouco frias, pousadas em minha face. Neles, sorri para mim como antes de perder a alma para o cruel Alzheimer.
Encontrei um poema de Ferreira Gullar que diz, talvez, o que ela me diria naqueles terríveis meses de silêncio.

UM INSTANTE
Aqui me tenho
como não me conheço
nem me quis
sem começo
nem fim
aqui me tenho
sem mim
nada lembro
nem sei
à luz presente
sou apenas um bicho
transparente.
Ferreira Gullar
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Outro dia, em Segóvia, também ganhei de presente do Dia das Mães uma carícia da mão macia e fria da minha Princesa.
Deixo aqui a história, para que não se perca nos arquivos do Cicatrizes da Mirada.
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Uma História de Fantasmas. 
A senhora deveria estar perto dos setenta anos, ou mais ou menos, não sei bem ao certo – são tão arrumadinhas as senhoras desta idade! – e estava parada no meio da rua, com uma expressão desorientada, gemendo baixinho…
Vestia-se bem, com seu belo lenço colorido enrolado no pescoço, um abrigo leve pendurado entre as mãos e olhos molhados de quem está prestes a explodir em prantos…
Minha filha notou-a antes de mim e nos aproximamos para ver se podíamos ajudá-la.
Ela disse-nos num fiozinho desolado de voz “quitaran mi bolso!”
Perguntei-lhe onde, quando, como? Mas ela só repetia e repetia como um disco arranhado: “Quitaran mi bolso… Ai, quitaran mi bolso, hija mía.”
Quando aproximei minha mão de seu ombro para consolá-la ela me abraçou pela cintura repetindo seu refrão: “Quitaran mi bolso…quitaran mi bolso, hija mía.”
– Calma, tranquila. Pedi, querendo não assustá-la ainda mais com meu sotaque de estrangeira. Diga-me como aconteceu e vamos ver se posso ajudá-la.
( Não sabia como, mas não podia deixá-la ali como se não a tivesse visto!)
Minha filha também tentava tranquilizá-la dizendo que em Segóvia não há esse tipo de “assalto”. Ela poderia ter deixado a bolsa em alguma loja onde houvesse estado antes. Mas ela, pobrezinha, tremia tanto… Não sabia dizer onde havia estado e não havia se dado conta da falta da bolsa até a hora que nos encontramos. Mas trocou o estribilho e começou a enumerar o que havia dentro da bolsa desaparecida.
-“Dez euros…todo meu dinheiro, e as chaves de casa… ai, e as fotos de meus sobrinhos…ai, hija mía, quitaran mi bolso!”
Aquela voz me trouxe lembranças queridas… e eu quase começava a chorar antes dela…
Começamos a caminhar abraçadas pela rua, fazendo o caminho de volta para ver se ela lembrava onde havia estado. Na curva seguinte, ela exclamou em tom forte e aliviado “Maruja!”
Pensei: “Pronto! Encontramos alguma amiga que vai poder ajudar-nos.”
Era realmente uma amiga dela e estava com a bolsa da nossa querida e desconsolada senhora pendurada na mão como um troféu.
Abraçaram-se contentes.
A “nossa” espanholinha assustada estava rubra como uma cereja, um tanto envergonhada por ter sido pilhada numa travessura de sua memória. Mas sorria feliz com ” su bolso” outra vez na mão, e seu dinheiro , e as fotos de seus sobrinhos, e as chaves de sua casa…
Sorri de volta para ela, arrepiada e com os olhos molhados por lágrimas de uma saudade com outro nome, outro sotaque e outros tempos…
Pediu-me um beijo agradecida e eu a beijei mais agradecida do que ela.
Deu-me um bem estar que fazia tempo eu não sentia…
Madre mía…

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Nem Todas Doem…

Talvez tenha sido o acordeonista de ontem, nas ruas de Alcalá de Henares…
Ou o desejo de crépe au marron-glacè. Quem sabe sonhei com Paris!
Ou com o Poço da Panela de outrora… Talvez tenha sido só pelo perfume do vento…
Ou pela profusão de cores pelo chão… Quem sabe foram as borboletas… ou dois filhotes de pássaros que caíram de alguma árvore dentro do meu jardim.
O certo é que depois da caminhada pelo campo, a ducha fresca e um café fumegante na caneca azul, me vi precisando dela. Piaf era presença obrigatória nos dias de beleza pura do meu passado, fosse no Poço da Panela ou em Paris.
Parece que ela continua necessária nas colinas que cercam Madrid.

Ps: Nem todas as cicatrizes recordam dores. A maioria das minhas são belas. E desde que vivo um amor inteiro, tenho cada vez mais orgulho delas.

La Vie en Rose
Letra de Edith Piaf
Música de Louiguy – 1945
Des yeux qui font baisser les miens
Un rire qui se perd sur sa bouche
Voilà le portrait sans retouches
De l’homme auquel j’appartiens
Quand il me prend dans ses bras
Il me parle tout bas
Je vois la vie en rose
Il me dit des mots d’amour
Des mots de tous les jours
Et ça m’fait quelque chose
Il est entré dans mon coeur
Une part de bonheur
Dont je connais la cause
C’est lui pour moi, moi pour lui, dans la vie
Il me l’a dit, l’a juré, pour la vie
Et dès que je l’aperçois
Alors je sens dans moi,
Mon coeur qui bat
Des nuits d’amour à plus finir
Un grand bonheur qui prend sa place
Les ennuis, les chagrins s’effacent
Heureux, heureux à en mourir
Quand il me prend dans ses bras
Il me parle tout bas
Je vois la vie en rose
Il me dit des mots d’amour
Des mots de tous les jours
Et ça m’fait quelque chose
Il est entré dans mon coeur
Une part de bonheur
Dont je connais la cause
C’est toi pour moi, moi pour toi, dans la vie
Tu me l’as dit, l’as juré, pour la vie
Et dès que je t’aperçois
Alors je sens dans moi
Mon coeur qui bat.

La Vie en Rose
(tradução)
Olhos que fazem baixar os meus
Um riso que se perde em sua boca
Aí está o retrato sem retoque
Do homem a quem eu pertenço
Quando ele me toma em seus braços
Ele me fala baixinho
Vejo a vida cor-de-rosa
Ele me diz palavras de amor
Palavras de todos os dias
E isso me toca
Entrou no meu coração
Um pouco de felicidade
Da qual eu conheço a causa
É ele para mim, eu para ele
Na vida, ele me disse
Jurou pela vida
E desde que eu o percebo
Então sinto em mim
Meu coração que bate
Noites de amor a não mais acabar
Uma grande felicidade que toma seu lugar
Os aborrecimentos e as tristezas se apagam
Feliz, feliz até morrer
Quando ele me toma em seus braços.

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Antes Que Eu Me Esqueça…

Antes que eu me esqueça… é bom saber que ela era cordata. Não toda cordata, porque nunca foi muito obediente. Mas meio, sim. Por fora. Parecia, mais do que era. O que tentaram ensinar-lhe, ela aprendeu. Mas só um pouco.Tudo não. Senão seria aquela que queriam que ela fosse. Também aprendeu muitas outras coisas que não lhe ensinaram, apesar de saberem desde sempre que teria um dia que aprender – por força da vida – se sobrevivesse aos perigos de viver. Parece que não queriam que sobrevivesse. Diziam que eram muitos. Ela acreditou. Nunca lhe ensinaram a ter coragem. Só a ter medo. Nunca deixou de tê-lo. Mas aprendeu também, e sozinha, que coragem é a força para enfrentar o medo e não a ausência dele. Se sobreviveu foi por esta força visceral e invisível que lhe tomava, apesar de si mesma, arrancava-lhe o corpo do quarto protetoramente acolhedor, mas sem horizonte, e atirava-a com força para além do jardim, sem se importar com a estação. Então ela sentia as dores mas também às alegrias e à beleza de viver. Expunha-lhe à luz e ao mundo e não lhe deixava voltar. Antes que eu me esqueça… é bom saber que ela era livre. Não toda livre, porque não sabia. Mas meio, sim. Por dentro. Parecia menos do que era… Muitas vezes sonhava que andava nua por uma cidade desconhecida. Tentava encontrar alguma porta por onde entrar e se esconder mas jamais encontrava uma. Aliás, não havia qualquer porta nas paredes daquelas cidades. Uma variação comum era sonhar que voava nua sobre os campos e as ruas, numa velocidade exagerada e precisando desviar dos cabos elétricos e copas de árvores. A sensação de poder voar era boa, mas voava baixo e sabia que precisava subir mais. Jamais conseguia. E pousar? Nem pensar, pois estava nua. Como se a liberdade de arriscar a ser quem era enfrentasse em cada sonho a limitação e o desconcerto da nudez pública, do choque mortal, da ausência de saídas ou entradas protetoras. Despertava suada e tomada de angústia. Mas quando contava o sonho, sua expressão era de alegria e prazer. Porque voava. Dizia que o medo valia a pena. Era sempre linda a cidade que via. Eram sempre espetaculares as paisagens que sobrevoava. Antes que eu me esqueça, é bom saber que ela era linda. Por fora e por dentro. E parecia. Era uma mãe espetacular. Descobri, um dia por que ela não sabia ser filha, só sabia ser mãe. A sua morreu quando ela era ainda uma criança e teve o azar de seu pai casar-se com a cunhada, uma mulher amarga e cheia de culpas – quem sabe já fosse apaixonada pelo marido da irmã mesmo antes de que esta morresse – que não perdeu nunca oportunidade alguma de humilhá-la, quanto mais ela crescia e assemelhava-se à mãe morta. Talvez a visse como a presença viva da própria culpa, transferindo-a toda para ela. Essa foi sua algema por toda a vida. Foi, para sempre, escrava da culpa de outra pessoa. Mas, antes que eu esqueça… Ela ensinou-me a ser cordata sem ter que ser “obediente“, a enfrentar o medo apesar da angústia, a buscar a beleza nas situações mais simples ou mais complexas. Ensinou-me quanto profundo e inteiro pode ser o amor. Esteve ao meu lado sempre, para os bons e os maus momentos. Ensinou-me o que sabia e também a procurar aprender sempre e ainda mais. Por ter sido só mãe, não soube ensinar-me a ser filha. Só pude aprender quando fui mãe da minha. Da culpa ancestral que herdei tenho que livrar-me sozinha. E ensinar a minha filha a ser melhor filha do que fui. Antes que eu me esqueça… Feliz Dia das Mães para todas a mães. E também para os filhos que ainda podem beijar, abraçar e agradecer o amor e os ensinamentos de suas mães. À Princesa, com todo o meu amor e saudade. *Madre y hija – Ana González Prieto

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Mais um Caderno…

Este é o quarto endereço do blog. Antes chamava-se Como Shirley Valentine e morava na Globo . Expulso, foi viver no Mblog rebatizado como Língua de Mariposa. Ali tentaram pedir resgate pelo seu seqüestro. Não paguei. Mataram-no.
Reconstruído no Blogspot perdi muitos de meus amigos leitores, justamente por ter repetido os posts passados, numa tentativa de recuperar os arquivos perdidos pelo trajeto.
Eu não sabia por que tinha essa preocupação pois, pelo que sei, a maioria dos novos visitantes não vai aos arquivos. E os antigos já os leram.
E então descobri que fiz isso para mim mesma.
Pois sim… Este blog existe tanto ou mais para mim quanto para o público que o visita.

Desde os 13 anos eu escrevia coisas, copiava poemas e letras de música, colava imagens recortadas das revistas, cartas recebidas ou cópias de enviadas, tudo isso e mais algumas coisas, em grandes cadernos de capa dura. Eram lindos e eu adorava construí-los.
Não os mostrava a quase ninguém. Só muito poucos tinham acesso a eles.
Infelizmente, não tenho comigo nenhum. De vez em quando o Capibaribe vinha e lia tudo…só devolvia o bagaço.
O rio não vinha apenas ler a biblioteca do Lorde… brincava também com meus quebra-cabeças, lambia os bichinhos de pelúcia com sua língua pegajosa, tocava com seus dedos de lama minhas flautas e devorava todas as letras e imagens de meus cadernos.
Ele tinha tempo. Demorava-se em nossa casa mais do que em qualquer outra.
E depois, quando deixava-nos entrar, eu ficava com a sensação de ter sido mais que roubada. Sentia como se tivesse sido violentada dentro de meu próprio abrigo.
Não me lembro quando deixei de construí-los e passei a fazer apenas pequenas anotações nas agendas de trabalho e estudo. Como eram peças descartáveis, trocadas a cada ano, perdia os meus registros pelos recantos das estantes do meu quarto. Depois de uns tempos, a cada arrumação e limpeza, as pequenas livretas desapareciam.
Desde que comecei este blog, em 2003, é como se – de novo – eu estivesse escrevendo em um dos meus antigos cadernos. Desta vez já não há um rio ameaçador e aprendi a guardar num disco todos os meus arquivos.
Desta vez também há uma grande diferença. O blog é aberto ao público. Qualquer público.
Há quem goste e fique por aqui, vindo sempre, lendo e relendo tudo, deixando comentários ou mandando e-mails. Há quem venha e não volte nunca mais, os que vem mas não deixam marcas de sua passagem, outros que vem de vez em quando. Isso transformou o meu “caderno” em um precioso tesouro e sinto muitíssimo ter perdido as centenas de comentários pelos caminhos que a página já trilhou.
Sonja, essa amiga linda que vem acompanhando todo o caminho do Língua, adora ler a história do rio que gostava de ler e sempre me pede que a repita a cada casa nova que habito.
Mas desta vez vou sugerir a quem queira que pulse no link A Casa e o Rio e vá aos arquivos. Está super simples de acessar, não demora nadinha, pois tenho poucos posts a cada mês.
Consegui republicar as fotos e formatar os textos de forma que estão todos muito acessíveis e fáceis de ler. Inclusive, estou criando categorias de forma que possam ser acessados por assunto. A pena é que não aparecem todos os posts de uma vez. Vou ver como resolvo o assunto.
Não tenho a pretensão de que todos os que aqui vem leiam os arquivos. Até porque a quantidade de blogs bons que existe por aí é enorme e as pessoas nem sempre tem tempo para dedicar mais que alguns minutos a cada página que visitam. Muitas vezes apenas lêem o post mais recente.
Só estou aproveitando o pedido de Sonja para sinalizar o caminho…
Vou aproveitar também para indicar o caminho do Cicatrizes da Mirada. Um blog que tenta mostrar um pouco de minha experiência com a arte e cultura espanhola e que está meio perdido neste mar de blogs que invadiu o cotidiano das pessoas.
Eu gosto muito dele e me dá um trabalho enorme construí-lo.
Por algum tempo a página parecia estar com problemas para abrir, e então muitos de seus leitores desapareceram. Mas agora está rápida outra vez. Graças a não sei qual artifício!
Às vezes eu penso em deixar de escrevê-la , mas o incentivo de alguns poucos amigos que continuam a segui-la por mais de dois anos não me permite desistir dela. Espero que em breve o Cicatrizes esteja também aqui, na Verbeat, por uma petição especialíssima do Milton Ribeiro, meu vizinho da casa-cinza-de-janelas-vermelhas.
Ps: O blog Cicatrizes da Mirada deixou de existir.

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Heranças…

As heranças que o Lorde me deixou foram o amor à música e à leitura.
Apesar de lutar sempre e até a morte com o rio, que a cada subida levava os pedaços da casa, ele chorava apenas quando perdia seus livros e discos.
Meu pai tinha a música como a linguagem da sua alma. Dizia com ela seu estado de espírito. Nos domingos felizes e ensolarados, ele enchia o ar com o melhor de The Brother Four; Peter, Paul and Mary; Nat King Cole; Billy Holliday; Piaf; ou Aznavour.
Nos domingos de chuva despertávamos ao som de Cantos Gregorianos
E se a chuva fosse noturna e tomada de gosto, se caía em tormentas com raios e trovões, Carmina Burana invadia a casa, o jardim, a mata e o rio. O som numa altura impossível para quem tivesse vizinhos humanos e chatos. Mas nós não tínhamos…
Aprendi a conhecer as emoções do Lorde pela música que ele escutava.
As óperas tinham lugar de destaque nas noites úmidas de Casa-Forte. La Traviata, La Bohème, Madame Butterfly, Carmem, Tosca.
Aprendi desde muito cedo a escutar os lamentos de Mme. Butterfly por dentro da névoa que cobria o jardim nas noites de inverno, numa das árias mais emocionantes que já ouvi na vida. Nessas noites ele parecia triste… tinha os olhos molhados.
Ainda hoje eu sinto seus cheiros, vejo seus olhos verdes semi fechados e suas belas mãos de arquiteto enquanto tocava o piano – que o rio roubou numa das suas investidas traiçoeiras – quando ouço a Sonata ao Luar ou a Passionata de Beethoven.
Quando ele queria ler ou apenas olhar o matagal escuro que se estendia além dos muros, uma diferente música lhe acompanhava. Quando queria emocionar minha mãe, usava invariavelmente o Concerto Número 2 de Rachmaninov. E a Princesa desligava a televisão e de mansinho desaparecia dentro do gabinete.
Uma vez ele deu a ela a música La Bohème, cantada por Aznavour. Não.. ele não chegou com o disco de presente. Ele deu A música. Cada vez que ela escutava, sorria com o cantinho da boca e perdia o olhar brilhante em algum espaço da memória.
Muitos anos depois da morte do Lorde, a Princesa ainda ria assim antes de cair em lágrimas quando ouvia a Sua música.
Quando eu soube que Aznavour cantaria em Recife, não pude resistir. Comprei dois ingressos para levar a Princesa. Ela não cabia em si de contentamento. E eu mais que ela, só por poder proporcionar-lhe uma alegria assim. Lembro-me que foi caríssimo!
Pois foi.. a Princesa vestiu-se como para um grande encontro. Chegamos muito antes de começar, sentamos e esperamos. Quando seu cantor preferido entrou no palco ela tremia e ria nervosa. Mas quando ele começou a cantar La Bohème, a Princesa perdeu o controle e fechou os olhos, os ombros tremendo em soluços. Tentei brincar dizendo que chorasse de olhos abertos, que tinha sido muito caro… mas minhas palavras saíram com gosto de lágrimas. Choramos abraçadas como se não houvesse mais ninguém na platéia além de nós duas.
E talvez nem nós duas.
Era como se estivéssemos na antiga casa do Poço da Panela, sentindo os cheiros de mato e jasmim, os cheiros de cachimbos e conhaque, do assoalho encerado do gabinete… os cheiros da névoa no jardim. Era como se Aznavour estivesse cantando ali, só para nós. Foi mágico!
Ainda hoje sorrio com o canto da boca, antes de ter os olhos molhados e perdidos, quando escuto a voz doce e suave de Aznavour cantando La Bohème.
Herdei-a da Princesa.

*Man Ray-Violon de Ingres1924

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Ciranda de Saudades…

Hoje eu acordei com o assovio de Dorival Caymmi tocando no meu ouvido. Comecei o dia cantando com ele ” Um pescador, tem dois amor… um bem na terra, um bem no mar.”
E bateu uma saudade daquela que espreme o coração. Saudade do mar. Saudade da onda batendo na areia… Do cheiro de maresia mesclado com “o vento que balança os coqueiros”… Aquele velho pescador e violeiro cantando: ” O mar, quando quebra na praia, é bonito… é bonito…”
E saudade das casas da minha vida, onde Dorival Caymmi tinha um pedestal, erguido com cuidado pelo Lord arquiteto e pescador.
Meu pai, eu já disse aqui, tinha gostos requintados. Mas quando se esquecia de querer ser inglês, sua nordestinidade tomava conta da nossa vida. Acordava assoviando o baiano Caymmi…
Preparava suas varas de pescar, com molinetes (cheios de frescuras, é verdade) e suas iscas nojentas , pesos de chumbo de todos os tamanhos, enquanto Dorival cantava com ele às alturas.
Nesses dias ele ficava lindo, o meu pai.
Seus dentes apareciam por nada. Sua alegria contaminava a casa de paz…
Catarolava com uma voz grave, acompanhando seu í­dolo “Marina, morena Marina, você se pintou…” E lá í­amos todos para a praia.
Não, não era uma praia para inglês ver. Era o Janga.
Quase duas horas de viagem pela estrada de barro e areia, em direção a uma pequena casa de portas e janelas vermelhas, rodeada de terraço. Era de meu avô e ficava já quase chegando em Pau Amarelo, onde uma antiga fortaleza de pedras, com seus canhões de chumbo nos esperava para as brincadeiras de crianças.
No caminho do Forte, uma venda. Um “tem de tudo” de antigamente. Farinha, feijão, milho para as galinhas em grandes sacos de pano branquí­ssimos! Manteiga nas latas enormes. Varas de bambu, carretéis de linha, graxa para sapato, pregos, bonecas de plástico com olhos azuis pregados em decalcomania, bruxas de pano iguais às das feiras de interior, caminhões de madeira, cachaça, café, açúcar, vassouras… coisinhas para tudo. Nem lembro mais que tudo.
Eu me fixava nos grandes vidros transparentes, repletos de bombons coloridos em branco e rosa, em verde e rosa, em azul e rosa… A gente dava a moeda e seu Vavá enchia uma pá de alumí­nio com aquelas belezuras doces, embrulhava em papel marrom e duro, o mesmo que usava para embrulhar os pregos, que enrolava nos dedos, como um pastel… e a gente saí­a feliz que só vendo.
Dia de ter mais moedas era dia de peixinho de chocolate. Dourado, prateado, vermelho, verde e azul. Um de cada cor, eu queria. Não importava que o chocolate fosse igual. Queria de cores diferentes… um de cada. E pronto. Era imbirrenta, eu.
Uma das delí­cias da venda de seu Vavá era o chão do pequeno terraço, de cimento encerado. Fresco, quase gelado. Sair do sol quente e areia pelando os pés e entrar na venda eram duas delí­cias de uma só vez. Deitar de costas no chãozinho frio e comprar os “confeitos” coloridos. Dava vontade de morar ali. E eu pensava “quando eu crescer, quero ter uma venda.”
Naquela época criança andava pelo mundo. Sem riscos que não fossem as imprudências que elas mesmas cometiam. Hoje eu sei que a venda era muito perto de casa, mas na época parecia que a gente tinha que atravessar, não um pequeno maceió e a faixa de areia quente, mas um grande rio e depois o deserto do Saara, para chegar àquele paraí­so.
E o mar do Janga… o que dizer do mar do Janga?
Água limpa e verde e morna e cheia de arrecifes onde pescar e pequenas piscinas de profundidades diversas. Praia sem ônibus de veranistas. Praia de pescadores.
Do lado oposto ao Forte, outro paraí­so. Era O Curaçado. O bar de taipa de dona Duda, uma senhora de lindos olhos verde-azulados, cor que variava de acordo com o mar. E que fazia as delí­cias da comida nordestina.
Meu pai voltava da pesca com o samburá cheio e levava para dona Duda. Lá a gente comia o peixe ao molho de coco e a farofa branca feita com coentro, cebola e água quente com manteiga.
A mesa sobre o chão batido. O teto de palha trançada. A vida como uma brisa suave de felicidade…
Era bom viver esses dias.
À noitinha a gente voltava… para dançar a Ciranda.
Muitos anos antes de ficar famosa a Ciranda de dona Duda já era nossa. Nossa e dos pescadores do Janga.
Enlaçávamos os braços e bailávamos ao som das vozes em falsete das meninas e mulheres, os pés descalços avançando e retornando, no ritmo das ondas do mar…
Nesta noite dormí­amos cansados e felizes, embalados pelo ruí­dos das palhas de coqueiros e do mar cheio, que quebrava com força na areia…
E escutávamos entre sonhos, desde o terraço da casinha, a voz grave do pai, desnudo de sua Lordice, cantando… “Quem vem para beira do mar… nunca mais quer voltar…
Andei, por andar andei…e todo caminho deu no mar…”

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Para Um Grande Amor: Recife…

Quem tem saudade
Não está sozinho
Tem o carinho
Da recordação
Por isso
Quando estou
Mais isolado
Estou bem acompanhado
Com você no coração.

Um sorriso
Uma frase, uma flor
Tudo é você na imaginação
Serpentina, confete…
Carnaval do amor…
Tudo é você, no coração…
Você existe
Como anjo de bondade
E me acompanha
Neste frevo de saudade
Lálálálá…
Frevo de Saudade
(Nelson Ferreira — Aldemar Paiva)
Acordei hoje lembrando dos meus magní­ficos Carnavais e dos amigos…
O primeiro pensamento do dia foi para o Galo da Madrugada.
Depois a saudade maior foi do Bloco da Saudade, do Quanta Ladeira, do Ceroulas, do Fudidos Porém Unidos, do Nóis sofre Mais Nóis goza, do Lili -Nem Sempre Toca Flauta, do Aurora de Amor… e tantos e tantos…
Ai!
Foto: Galo da Madrugada – Recife

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