O Lorde e a Princesa

Cheiro de Saudade

edited_1469269783016Antes de ontem sonhei que estava na casa do Poço da Panela. Abria um armário e descobria as roupas da minha mãe. Me surpreendi com minha emoção. Abracei as roupas e senti seu cheiro. Que delícia! Um choro forte e reparador da saudade de tantos anos sem ela, saiu da garganta sem controle. Um choro que eu gostei de chorar.
De manhã contei o sonho a Pepe com alegria triste. Foi como se ela tivesse me dado um presente. Foi tão real, tão cheiro de verdade dela!
Agora sei porque. Hoje é seu aniversário, e quem ganhou presente fui eu. Saudadona imensona mãe.

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A Princesa…

IMG_20131112_145946~3Hoje é 23. Dia do aniversário da princesa. Aquela do Poço da Panela.
Pepe não chegou a conhecê-la, nunca a viu… mas a reconhece em mim. De vez em quando ele diz, ” vai Moêma, joga isso fora” . Eu rio como ela, jogando a cabeça para trás. Eu molho o dedo na boca e prego nas miguitas de pão da mesa, depois esfrego um dedo no outro sobre o prato. E descasco todas as garrafas que tem um rótulo de papel, e faço rolinhos com os pedaços. Isso é ela em mim. E guardo roupa para remodelar um dia. Que será nunca. E bolsas de papel de todas as lojas. Também guardo as fitas coloridas dos embrulhos de presentes. Graças a deusinho já me livro dos papéis, porque Pepe amassa bem muito antes que eu tente dobrar direitinho. Ele diz, ” Moêma! ” e eu rio.
Eu morro de saudades da minha mãe.
Ainda bem que eu a vejo muitas vezes, quando olho no espelho.
Ele sabe quando sou ela porque eu falo dela todos os dias. Conto histórias, conto a vida dela antes de mim, conto mil e uma vezes repetidas. E ele gosta.
Ele gosta dela. E eu sei que ela gostaria muitíssimo dele.
Pois hoje é seu aniversário e eu vou comer bolo. Juro.

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Saudade da Princesa… e Uma História de Fantasmas.

No dia primeiro de Agosto de 2001 a Princesa se foi.
Fazem já quatro anos. Ainda sinto seu perfume quando minha casa se enche de rosas e floresce o jasmim…
Me presenteia com sonhos onde percebo a maciez de suas mãos, sempre um pouco frias, pousadas em minha face. Neles, sorri para mim como antes de perder a alma para o cruel Alzheimer.
Encontrei um poema de Ferreira Gullar que diz, talvez, o que ela me diria naqueles terríveis meses de silêncio.

UM INSTANTE
Aqui me tenho
como não me conheço
nem me quis
sem começo
nem fim
aqui me tenho
sem mim
nada lembro
nem sei
à luz presente
sou apenas um bicho
transparente.
Ferreira Gullar
…………………
Outro dia, em Segóvia, também ganhei de presente do Dia das Mães uma carícia da mão macia e fria da minha Princesa.
Deixo aqui a história, para que não se perca nos arquivos do Cicatrizes da Mirada.
…………………..

Uma História de Fantasmas. 
A senhora deveria estar perto dos setenta anos, ou mais ou menos, não sei bem ao certo – são tão arrumadinhas as senhoras desta idade! – e estava parada no meio da rua, com uma expressão desorientada, gemendo baixinho…
Vestia-se bem, com seu belo lenço colorido enrolado no pescoço, um abrigo leve pendurado entre as mãos e olhos molhados de quem está prestes a explodir em prantos…
Minha filha notou-a antes de mim e nos aproximamos para ver se podíamos ajudá-la.
Ela disse-nos num fiozinho desolado de voz “quitaran mi bolso!”
Perguntei-lhe onde, quando, como? Mas ela só repetia e repetia como um disco arranhado: “Quitaran mi bolso… Ai, quitaran mi bolso, hija mía.”
Quando aproximei minha mão de seu ombro para consolá-la ela me abraçou pela cintura repetindo seu refrão: “Quitaran mi bolso…quitaran mi bolso, hija mía.”
– Calma, tranquila. Pedi, querendo não assustá-la ainda mais com meu sotaque de estrangeira. Diga-me como aconteceu e vamos ver se posso ajudá-la.
( Não sabia como, mas não podia deixá-la ali como se não a tivesse visto!)
Minha filha também tentava tranquilizá-la dizendo que em Segóvia não há esse tipo de “assalto”. Ela poderia ter deixado a bolsa em alguma loja onde houvesse estado antes. Mas ela, pobrezinha, tremia tanto… Não sabia dizer onde havia estado e não havia se dado conta da falta da bolsa até a hora que nos encontramos. Mas trocou o estribilho e começou a enumerar o que havia dentro da bolsa desaparecida.
-“Dez euros…todo meu dinheiro, e as chaves de casa… ai, e as fotos de meus sobrinhos…ai, hija mía, quitaran mi bolso!”
Aquela voz me trouxe lembranças queridas… e eu quase começava a chorar antes dela…
Começamos a caminhar abraçadas pela rua, fazendo o caminho de volta para ver se ela lembrava onde havia estado. Na curva seguinte, ela exclamou em tom forte e aliviado “Maruja!”
Pensei: “Pronto! Encontramos alguma amiga que vai poder ajudar-nos.”
Era realmente uma amiga dela e estava com a bolsa da nossa querida e desconsolada senhora pendurada na mão como um troféu.
Abraçaram-se contentes.
A “nossa” espanholinha assustada estava rubra como uma cereja, um tanto envergonhada por ter sido pilhada numa travessura de sua memória. Mas sorria feliz com ” su bolso” outra vez na mão, e seu dinheiro , e as fotos de seus sobrinhos, e as chaves de sua casa…
Sorri de volta para ela, arrepiada e com os olhos molhados por lágrimas de uma saudade com outro nome, outro sotaque e outros tempos…
Pediu-me um beijo agradecida e eu a beijei mais agradecida do que ela.
Deu-me um bem estar que fazia tempo eu não sentia…
Madre mía…

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Antes Que Eu Me Esqueça…

Antes que eu me esqueça… é bom saber que ela era cordata. Não toda cordata, porque nunca foi muito obediente. Mas meio, sim. Por fora. Parecia, mais do que era. O que tentaram ensinar-lhe, ela aprendeu. Mas só um pouco.Tudo não. Senão seria aquela que queriam que ela fosse. Também aprendeu muitas outras coisas que não lhe ensinaram, apesar de saberem desde sempre que teria um dia que aprender – por força da vida – se sobrevivesse aos perigos de viver. Parece que não queriam que sobrevivesse. Diziam que eram muitos. Ela acreditou. Nunca lhe ensinaram a ter coragem. Só a ter medo. Nunca deixou de tê-lo. Mas aprendeu também, e sozinha, que coragem é a força para enfrentar o medo e não a ausência dele. Se sobreviveu foi por esta força visceral e invisível que lhe tomava, apesar de si mesma, arrancava-lhe o corpo do quarto protetoramente acolhedor, mas sem horizonte, e atirava-a com força para além do jardim, sem se importar com a estação. Então ela sentia as dores mas também às alegrias e à beleza de viver. Expunha-lhe à luz e ao mundo e não lhe deixava voltar. Antes que eu me esqueça… é bom saber que ela era livre. Não toda livre, porque não sabia. Mas meio, sim. Por dentro. Parecia menos do que era… Muitas vezes sonhava que andava nua por uma cidade desconhecida. Tentava encontrar alguma porta por onde entrar e se esconder mas jamais encontrava uma. Aliás, não havia qualquer porta nas paredes daquelas cidades. Uma variação comum era sonhar que voava nua sobre os campos e as ruas, numa velocidade exagerada e precisando desviar dos cabos elétricos e copas de árvores. A sensação de poder voar era boa, mas voava baixo e sabia que precisava subir mais. Jamais conseguia. E pousar? Nem pensar, pois estava nua. Como se a liberdade de arriscar a ser quem era enfrentasse em cada sonho a limitação e o desconcerto da nudez pública, do choque mortal, da ausência de saídas ou entradas protetoras. Despertava suada e tomada de angústia. Mas quando contava o sonho, sua expressão era de alegria e prazer. Porque voava. Dizia que o medo valia a pena. Era sempre linda a cidade que via. Eram sempre espetaculares as paisagens que sobrevoava. Antes que eu me esqueça, é bom saber que ela era linda. Por fora e por dentro. E parecia. Era uma mãe espetacular. Descobri, um dia por que ela não sabia ser filha, só sabia ser mãe. A sua morreu quando ela era ainda uma criança e teve o azar de seu pai casar-se com a cunhada, uma mulher amarga e cheia de culpas – quem sabe já fosse apaixonada pelo marido da irmã mesmo antes de que esta morresse – que não perdeu nunca oportunidade alguma de humilhá-la, quanto mais ela crescia e assemelhava-se à mãe morta. Talvez a visse como a presença viva da própria culpa, transferindo-a toda para ela. Essa foi sua algema por toda a vida. Foi, para sempre, escrava da culpa de outra pessoa. Mas, antes que eu esqueça… Ela ensinou-me a ser cordata sem ter que ser “obediente“, a enfrentar o medo apesar da angústia, a buscar a beleza nas situações mais simples ou mais complexas. Ensinou-me quanto profundo e inteiro pode ser o amor. Esteve ao meu lado sempre, para os bons e os maus momentos. Ensinou-me o que sabia e também a procurar aprender sempre e ainda mais. Por ter sido só mãe, não soube ensinar-me a ser filha. Só pude aprender quando fui mãe da minha. Da culpa ancestral que herdei tenho que livrar-me sozinha. E ensinar a minha filha a ser melhor filha do que fui. Antes que eu me esqueça… Feliz Dia das Mães para todas a mães. E também para os filhos que ainda podem beijar, abraçar e agradecer o amor e os ensinamentos de suas mães. À Princesa, com todo o meu amor e saudade. *Madre y hija – Ana González Prieto

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Heranças…

As heranças que o Lorde me deixou foram o amor à música e à leitura.
Apesar de lutar sempre e até a morte com o rio, que a cada subida levava os pedaços da casa, ele chorava apenas quando perdia seus livros e discos.
Meu pai tinha a música como a linguagem da sua alma. Dizia com ela seu estado de espírito. Nos domingos felizes e ensolarados, ele enchia o ar com o melhor de The Brother Four; Peter, Paul and Mary; Nat King Cole; Billy Holliday; Piaf; ou Aznavour.
Nos domingos de chuva despertávamos ao som de Cantos Gregorianos
E se a chuva fosse noturna e tomada de gosto, se caía em tormentas com raios e trovões, Carmina Burana invadia a casa, o jardim, a mata e o rio. O som numa altura impossível para quem tivesse vizinhos humanos e chatos. Mas nós não tínhamos…
Aprendi a conhecer as emoções do Lorde pela música que ele escutava.
As óperas tinham lugar de destaque nas noites úmidas de Casa-Forte. La Traviata, La Bohème, Madame Butterfly, Carmem, Tosca.
Aprendi desde muito cedo a escutar os lamentos de Mme. Butterfly por dentro da névoa que cobria o jardim nas noites de inverno, numa das árias mais emocionantes que já ouvi na vida. Nessas noites ele parecia triste… tinha os olhos molhados.
Ainda hoje eu sinto seus cheiros, vejo seus olhos verdes semi fechados e suas belas mãos de arquiteto enquanto tocava o piano – que o rio roubou numa das suas investidas traiçoeiras – quando ouço a Sonata ao Luar ou a Passionata de Beethoven.
Quando ele queria ler ou apenas olhar o matagal escuro que se estendia além dos muros, uma diferente música lhe acompanhava. Quando queria emocionar minha mãe, usava invariavelmente o Concerto Número 2 de Rachmaninov. E a Princesa desligava a televisão e de mansinho desaparecia dentro do gabinete.
Uma vez ele deu a ela a música La Bohème, cantada por Aznavour. Não.. ele não chegou com o disco de presente. Ele deu A música. Cada vez que ela escutava, sorria com o cantinho da boca e perdia o olhar brilhante em algum espaço da memória.
Muitos anos depois da morte do Lorde, a Princesa ainda ria assim antes de cair em lágrimas quando ouvia a Sua música.
Quando eu soube que Aznavour cantaria em Recife, não pude resistir. Comprei dois ingressos para levar a Princesa. Ela não cabia em si de contentamento. E eu mais que ela, só por poder proporcionar-lhe uma alegria assim. Lembro-me que foi caríssimo!
Pois foi.. a Princesa vestiu-se como para um grande encontro. Chegamos muito antes de começar, sentamos e esperamos. Quando seu cantor preferido entrou no palco ela tremia e ria nervosa. Mas quando ele começou a cantar La Bohème, a Princesa perdeu o controle e fechou os olhos, os ombros tremendo em soluços. Tentei brincar dizendo que chorasse de olhos abertos, que tinha sido muito caro… mas minhas palavras saíram com gosto de lágrimas. Choramos abraçadas como se não houvesse mais ninguém na platéia além de nós duas.
E talvez nem nós duas.
Era como se estivéssemos na antiga casa do Poço da Panela, sentindo os cheiros de mato e jasmim, os cheiros de cachimbos e conhaque, do assoalho encerado do gabinete… os cheiros da névoa no jardim. Era como se Aznavour estivesse cantando ali, só para nós. Foi mágico!
Ainda hoje sorrio com o canto da boca, antes de ter os olhos molhados e perdidos, quando escuto a voz doce e suave de Aznavour cantando La Bohème.
Herdei-a da Princesa.

*Man Ray-Violon de Ingres1924

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O Lorde e a Moça…

O Lorde adorava fazer compras. Mas não as compras de lojas, em companhia de sua Princesa. Essas não. Ele detestava o entrar e sair de portas, as vitrines iluminadas, a profusão de ofertas, as remarcações. E menos ainda acompanhando uma indecisa esposa que buscava sempre um não-sei-o-que, quase nunca encontrado. Além do mais a Princesa, como já disse aqui, era plebéia. Buscava unir ao não-sei-o-que que buscava o preço mais barato. O Lorde não ia nem amarrado.

Quando ele queria comprar alguma roupa, coisa que fazia uma vez por ano, no máximo duas, ia sempre à sua loja predileta, a Montreal. Não comparava preços. Escolhia as camisas e calças de linho, sapatos mocassins de couro marrom e preto, quase iguais. Lenços brancos e cuecas brancas, sem concessões a qualquer modernidade. Enquanto escolhia, tomava um whiskezinho e um café com o amigo e dono da loja. Só comprava lá. Sempre na mesma loja, sempre as mesmas cores. Bege, branco, azul claro. Tudo muito chic e, ao mesmo tempo, com um certo descontraimento. Os ternos ele mandava fazer com um alfaiate conhecido desde sua juventude. O nome está na ponta da lí­ngua, mas já espremi a memória até a exaustão e não consegui lembrar-me. Deixa para lá… não tem mesmo importância. Ele detestava os ternos e com toda a razão. Usar paletó e gravata em Recife era um suicí­dio, principalmente numa época em que ar condicionado no carro era ficção cientí­fica! Só os usava para situações muito especí­ficas. Mas ele era um Lorde. E o que vestia lhe caia como um traje de gala. Seu passo lento e elegante lhe emprestava um charme de dandy. Pois sim…O dandy aí­ gostava mesmo era das compras de comida e especiarias. A Casa dos Frios era sua perdição. Ali comprava espécies, caviar, vinhos, queijos que minha mãe detestava porque fediam terrivelmente e empestavam a geladeira. Ele ria… E o paradoxo é que ele adorava as feiras. Muito antes do advento do supermercado, a feira era dele. Minha mãe nem ia. A Princesa era plebéia mas não suportava a bagunça dos cheiros, a cacofonia de gritos, a variedade de “quanto-vale-e-quanto-pesa?” da feira. Ela fazia a lista do que precisava e ele saia com cara de quem ia fazer o programa mais delicioso do mundo. E fazia a farra! Comprava duzentas coisas que não estavam na lista. Voltava com o carro entupido de um tudo. Peixes enrolados em jornais, cordas de caranguejos (vivos!), carne para um batalhão, frutas para abrir uma banca e vender na porta de casa. Além das permanentes: laranjas, tangerinas, bananas, maracujás, melancia… trazia também as frutas especiais que nós adorávamos: jabuticabas, jaca, pinhas, graviola, pitombas, pitangas, ingá… (tipicamente nordestina a frutinha gelada que saia da vagem verde era um manjá que esperávamos com disposição para a briga.) O dia da feira era uma festa de cores e sabores. Ele tinha seus “fregueses” cativos nas bancas das feiras. E comprava acomodado num ou noutro banco de madeira, servido de um caju amarelo e suculento acompanhado de uma aguardente “especial” para os clientes especiais. Eu recordo que adorava ir com ele à feira e passar um tempo “pajeada” por alguma filha de freguês, passeando fascinada entre as bruxas de pano, as bonequinhas de corda, a mobilia de barro ou madeira para toda uma casa de menina. Quando eu voltava, trazia sempre alguma coisa na mão e a cara de pidona. Ele dava e eu explodia de feliz. Belas lembranças essas… Então… O Lorde estava acostumado a ser atendido com carinho e consideração. E ele correspondia tratando todo mundo com atenção e cordialidade. Elogiava as moças, chamava os velhos de camaradas, tomava cerveja com os feirantes, a quem chamava pelo nome ou apelido. Era um tal de Zeca para cá, Biu para lá, Tonho, Piaba, Joelho… Em troca todos o tratavam de “doutor”. Os “fregueses” traziam-lhe o melhor coentro e cebolinho, o melhor alface, os tomates mais vermelhos, as melhores frutas de suas bancas. Contavam-lhe histórias e piadas. O Lorde se divertia tanto na feira quanto com seus amigos arquitetos e intelectuais. Ou mais! Depois veio o supermercado. Ele relutou até que finalmente convenceu-se a freqüentá-lo. Ainda levava a lista feita por minha mãe no bolso, mas voltava com o que tinha de novo nas ofertas das prateleiras. Sua alegria era trazer as novidades. Mas agora era diferente. Seu prazer já não era o mesmo. O atendimento era despersonalizado. Ele ia lá e pegava as bandejas de um tudo já prontas. E ninguém para atender. Nem banquinho de madeira, nem caju com cachaça. Um dia, enquanto ele passava as compras no caixa, a moça de cara feia e muda como uma porta, não esticava o braço para pegar nenhuma mercadoria. Ainda não existiam as esteiras móveis e ele ia empilhando as coisas umas sobre as outras no pequeno espaço diante da caixa. A moça esperava até que ele lhe entregasse na mão cada í­tem, com cara retorcida de mal humor e desprezo. Meu pai tranqüilamente fez o que ela esperava. Foi passando í­tem por í­tem. Quando terminou o último pacote, ele pagou, guardou o troco no bolso com sua calma de sempre e soltou: – Eu sei por que a senhora é assim. – Como? A moça o desafiou com cara de nojo e surpresa. – Assim tão mal humorada. A senhora além de muito feia e sem peito, tem bigode. Deve ser muito difícil sorrir e ser bem humorada.

Rindo ele afastou-se em seu passo de gato lento, deixando a mulher pasma e sem resposta. Agora ela estava ainda mais feia. Roxa e bufando de raiva, mais parecia um porco bravo! O Lorde voltou muitas vezes à feira. E só ia ao supermercado uma vez por mês, para as compras de secos e enlatados. Frutas, verduras, caranguejos, peixes enrolados no jornal continuaram a chegar em nossa casa trazidos por um Lorde nordestino, com os olhos verdes brilhando e a cara de feliz, cheirando a caju e a cachaça. *Lord Ribblesdale – John Singer Sargent. **Mulher com os Braços Cruzados – Pablo Ruiz Picasso.

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O Lorde e Seus Ví­cios…

O Lorde fumava. De tudo. Cigarros, cachimbo, charutos. Era um fumante inveterado, desses que desperta no meio da noite para acender um cigarro. Uma vez dormiu com um entre os dedos e quase provocou um incêndio na cama.
Era seu ví­cio incontrolável. Fumava Hollywood sem filtro, charutos importados de Havana e fumos ingleses like Half&Half.
Além do prazer que sentia em fumar, tinha verdadeira adoração por seus cachimbos importados. Passava horas limpando-os. Tinha até mesmo uma caixinha de instrumentos especiais para a tarefa. Era como um ritual que executava com paciência e cuidado, cantarolando os Cantos Gregorianos ou as Cantatas de Bach, nos domingos de chuva pesada e caudalosa que Casa Forte nos dava de presente.
Eu gostava da imagem que via. Tanto que guardo-a até hoje na lembrança. A música, o janelão aberto para o grande sí­tio de árvores centenárias, o braço do rio Capibaribe colado no muro, coberto por baronesas enormes. E a figura de meu pai, recortada nessa paisagem, imerso em suas paixões. A música, os livros e o tabaco.
Até muito tempo após sua morte, o gabinete tinha o cheiro do Lorde. E, apesar do que possam pensar, ele não cheirava mal. Cheirava a um Lorde. Um mistura de colônia inglesa, linho, tabaco e conhaque. Um cheiro que ” sinto” ainda, basta recordar de sua figura única.
Ele tinha uma coleção de cinzeiros espalhada pela casa digna de museu. Vinham de todos os paí­ses que havia visitado, de todos os hotéis onde havia se hospedado, de quase todos os restaurantes onde havia comido. Era um Lorde, mas adorava roubar cinzeiros. Tinha-os de madeira, chumbo, cobre, cristal, cerâmica, louça,porcelana…
Nenhum deles era enfeite. Usava todos. E a maioria tinha história.

A melhor de todas foi a que lhe aconteceu num restaurante tradicional de Recife. Um desses restaurantes finos, cheio de frescuras, como ele gostava.
Depois de comer com um grupo de amigos, foi servido o café, os licores e conhaques e meu pai sacou da caixinha de couro um de seus perfumados charutos. O maitre trouxe um cinzeiro lindo, com a marca do restaurante. Pronto. Esse estava morto. Mais um fadado a fazer parte de sua coleção.
Depois de pagarem a conta, quando meu pai já se dirigia para a porta, com o cinzeiro dentro do bolso do paletó, o maitre se aproximou com um embrulho na mão.
– Com sua licença, doutor. Leve esse que está limpo.
– Como? Meu pai perguntou, surpreso.
– O cinzeiro, doutor. Esse aqui está limpo. E mostrou o embrulho bem arrumado em um guardanapo de papel.
O Lorde avermelhou de constrangimento. Mas não se encolheu. E com sua voz grave e séria, perguntou:
– Você quer estragar minha coleção é, rapaz?
Aí­ foi o maitre quem ficou surpreso.
– Como doutor?
– Minha coleção é de cinzeiros roubados, rapaz. Não doados. Roubados, entendeu?
– Sim senhor… entendi senhor.
E meu pai saiu do restaurante com seu passo londrino, de cabeça erguida, como se o ofendido tivesse sido ele.
Voltou ao mesmo restaurante inúmeras vezes. O maitre sempre o recebia com um sorriso cúmplice de velhos amigos, donos do mesmo segredo. E eram.

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O Lorde e a Princesa…

Parece brincadeira, mas não é. Meu pai achava mesmo que sua mulher era uma princesa. E que ela deveria viver numa torre, para evitar desgraças no reino com a sua extraordinária beleza. Por isso, ele construiu uma. Não era alta e de pedra como as de contos d´antanho, mas era rodeada de densa floresta.
Não creio que escondê-la fosse a intenção da casa, claro. Mas ajudava bastante a manter o isolamento da famí­lia.
Minha mãe a adorava, mas queixava-se por passar semanas sem ver uma alma viva passar. Sempre esperou que sua casa fosse apenas a primeira de muitas que viriam depois. Nunca vieram.
Ele não. Ele torcia para que não viesse ninguém. Adorava o mato, o silêncio, o espaço. Adorava que seus irmãos e amigos perguntassem, horrorizados, como tinham coragem de viver ali, longe de tudo.
“Tudo o que?” Perguntava o Lorde com voz grave e condescendente, como se dissesse “que pobre de espí­rito, coitado.” E levava os assustados visitantes pelos sendeiros de sua “propriedade-quase-rural”.
Plantava uma horta no quintal, que adulava quase todos os dias. Criava um cachorro negro e enorme com quem brincava de jogar os sapatos na noite escura, para que os encontrasse e trouxesse-os de volta, depositando-os delicadamente diante de seu trono de vime, no terraço mal iluminado por lamparinas de ferro. Inveriavelmente ele escutava alguma peça de música clássica nas maiores alturas. Era bom não ter vizinhos.
Na verdade, ele estava certo. Era melhor assim. A casa era de sonhos! Vaga-lumes enfeitavam o jardim como pequenas estrelas ao alcance da mão. Grilos e sapos faziam a festa todas as noites. E durante o dia, o sol nunca esquentava muito no Poço da Panela porque as árvores não deixavam. Sopravam seu perfume úmido e verde por todo o bairro.
Em nossa casa mais… pois o jardim era de grama e roseiras e jasmins e árvores frutí­feras. Jambeiros imensos, azeitonas pretas centenárias, palmeiras de toda a vida. E ainda possuía os canários, sabiás, patativas e galos de campina, que faziam seus concertos com exclusividade para o Lorde e sua Princesa. Nada de gaiolas… criava todos soltos, com acesso livre às terrinas de barro para água e pequenos grãozinhos de comida espalhados por toda parte.
A casa era idolatrada pelos dois. Mas…a Princesa tinha gostos plebeus. Adorava arrumá-la e mudar tudo de lugar. O Lorde ficava louco. Ela ria.
Ele dizia que ela não precisava fazer aquele serviço. Mas ela gostava e trabalhava com prazer e alegria.
Arquiteto de profissão e Lorde por personalidade, meu pai escolhia com cuidado cores e objetos. Um quadro ali, cujo vermelho dava um toque de luz sobre o cinza dos sofás de couro camurçado, um espelho acolá, que dava a sensação de maior espaço…
Minha mãe vinha e botava o sofá do outro lado, embaixo da janela. Pegava o quadro e levava para a outra sala. Pendurava-o sobre a mesinha do telefone.
Ele ficava louco. Ela ria.
Não que ela não concordasse com seu gosto, mas é que tinha faniquito para mexer e mudar as coisas. Cada vez que limpava um cômodo, queria mudar tudo. Era impossí­vel para ela viver num lugar que fosse igualzinho por toda a vida. Assim, de vez em quando, encostava minha cama na parede e eu, acordando à noite para ir ao banheiro e querendo sair pelo lado de sempre… tóin! metia a cara numa parede desconhecida. Gritava de pânico. Por segundos achava que era um pesadelo… ou que estava prisioneira em alguma masmorra! (ah, Freud!)
Ele implorava para que ela respeitasse pelo menos seu escritório. Pois sim… ela respeitava. Quase nunca o limpava. Qual era a graça de limpar e não poder mudar as coisas daqui-prali ?
Hunf!
Assim, as coisas do Lorde, suas caixas de ébano e marfim, suas esculturas africanas, suas réguas de todos os tamanhos e formas, suas canetas de nankin, ele e só ele manuseava.
Mantinha centenas de livros e discos espalhados nas estantes, cadeiras e bancos; rolos e rolos de projetos dormitavam sobre a enorme mesa de desenho. Ele era assim.
O engraçado é que ela era muito organizada e sabia onde estava cada um dos objetos da casa. Ele era extremamente desorganizado e misturava tudo nas gavetas. Mas estavam onde ele queria que estivessem: na sua bagunça.
Só que…quando queriam uma conta a pagar ou algum documento importante, ela era requisitada para procurar nas coisas dele. Ele nunca sabia onde havia guardado. Ela dizia que aquele lugar parecia um ninho de bicho. Às vezes, nunca encontravam o “objeto da busca”.
Ela ficava louca. Ele ria.
Mas o Lorde e a Princesa amavam-se como nenhum outro casal que eu conheci.
Se entendiam por telepatia.
Ela fazia a lista das compras e esquecia de pedir alho. Quando descobria, falava em voz alta na cozinha, e ele “escutava” lá no supermercado. Quando ele chegava dizia ” Você esqueceu de botar alho na lista, quando já estava no caixa, pensei que podia não ter e fui buscar.”
Ela dizia que tinha mandando a “mensagem”.
Quando ele chegava com um presente, que nunca precisava de data certa para chegar, testava ” Adivinha o que eu trouxe para você?” Podia se um livro, uma camisola, uma jóia. Invariavelmente ela acertava, a danada.
Um vez ele esqueceu o presente no carro. Quando estávamos jantando, ela disse “E meu presente? Está no carro? É um relógio?” Era.
Ele ficava louco. Ela ria.
Um dia tiramos a prova dos nove. Ela lia seus pensamentos! Estávamos no terraço da casa da praia e ele lá longe, pescando, com um copo de cerveja na mão e sem camisa – ele sempre esquecia a lordice no Janga. Aí ela riu e disse só para nós ” Ele vai trocar o copo de mão e coçar o umbigo.” E foi exatamente o que ele fez.
Hahaha…saí­mos correndo para contar-lhe que ela estava lendo seus pensamentos.
Ele ficava louco. Ela ria.

Um dia, numa das muitas alterações nos móveis da casa, inundada inúmeras vezes pelo rio Capibaribe, o Lorde, maquiavélicamente, mandou construir camas cujos espelhos eram chumbados na parede. Todas.
E também fez armários de concreto. E mesas de madeira maciça, pesadí­ssimas. Impossí­veis de serem mudados de lugar como ela gostava.
Por mais bonitos que fossem, ela perdeu o gosto e a alegria. Aos poucos foi deixando de arrumar, de botar flores, de rir.
Ele ficou louco quando viu que a casa era muito mais bonita antes… só porque ela ria.
Quando percebeu que não valeu a troca, era tarde…
*Still Life With a Cupboard – Carmen Laffn

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O Lorde e Ela…

Meu pai tinha gostos requintados.
Gostava de barcos a vela e golf. Jogava tênis e tocava piano. Sonhava ter um veleiro e por isso era sócio do Cabanga Iate Club, mesmo sem barco. Freqüentava o Caxangá Golf Club da Várzea e falava Inglês com sotaque londrino, mesmo antes de ir à Inglaterra.
Era um lorde…
Como arquiteto, ele dizia, tinha que estar no lugar e na hora certa para ganhar um bom projeto, sem jamais parecer que precisava dele. Exactly!
Minha mãe era mãe. Dona de casa e mãe. Seus filhos eram a sua glória, a casa própria seu sonho realizado. O resto era “supérfluo”. Na juventude estudava belas artes e pintava lindamente. Era ceramista também, mas não acreditava no próprio talento e sua arte nunca saiu de casa. Cuidava das rosas e jasmins, de nós e do homem da sua vida com uma dedicação tão extremada que na famí­lia a chamavam de Amélia.
Mas ela era uma leoa. Uma linda leoa.
Ele também era um leão e sentia por ela os ciúmes mais ferozes que já vi na vida.
Pois sim… meu pai de lorde só tinha os gostos. Na intimidade do lar, muitas vezes, agia como um homem das cavernas. Gostava de seus livros e sua música, seus cachimbos e seus conhaques…mas não sabia muito bem se mover nos papéis de pai e marido. Era louco por ela, mas seus ciúmes também eram loucos.
Amava-nos, mas nunca nos disse. E isso não tinha explicação.
Quando saíam juntos, bastava que ela soltasse uma das suas risadas cristalinas e maravilhosas, para ele fechar a cara e querer ir embora.
Um vez, estávamos no Caxangá Golf Club, uma daquelas manhãs maravilhosas de sol e brisa fresca. Meus pais estavam rodeados por seus amigos ingleses, italianos e japoneses com as respectivas madames, quando se acercou um garçom para tomar nota das bebidas. Ele cantava o pedido, para animar a gente a beber:
– Uma cerveja…uma caipirinha… uma Coca-Cola…uma Fanta Laranja ou uma Soda Limonada? Assim… um por um.
Na vez da minha mãe, ela trocou os cabos. Ia pedir uma Fanta, decidiu por uma Soda. E pediu, com seu sorriso maravilhoso:
Uma Foda, bem gelada.
O silêncio que se seguiu e a cor esverdeada que se espalhou pelo rosto do meu pai durou eternos segundos, até que o garçom respondeu, impassí­vel:
Pois não senhora. Bem gelada!
E passou para o seguinte.
Cinco minutos mais tarde estávamos todos no carro, voltando para casa.
O Lorde, para isso, não tinha muito senso de humor.
*Lord Ribblesdale -John Singer Sargent

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A Casa e o Rio…

Vivi quase toda a minha vida no Poço da Panela, ao lado do belo rio Capibaribe. 
Nossa casa era o resultado de muitos anos de sonho de minha mãe. Ela jamais desistiu da idéia de possuir sua própria casa, apesar das grandes dificuldades que viveu. E não se surpreendeu quando por fim, um dia, meu pai chegou com um papel grande e amarelado e começou a desenhá-la. Era um bom e jovem arquiteto e havia comprado um terreno num beco sem nome e sem saí­da, no bairro de Casa Forte. 
O terreno estava muito próximo a um sí­tio de vegetação cerrada e árvores centenárias, por onde se podia ouvir os sinos de uma igreja pequena e branca ou os ruí­dos de um barco de madeira que fazia a travessia dos pobres para a outra margem do rio.
Eram vozes abafadas, que escutávamos como se fossem de duendes e fadas. Entrávamos ali seguindo a velha Estrada Real do Poço, enfeitada por casarões antigos, cujos donos eram herdeiros da época em que tudo aquilo era um engenho de cana-de-açúcar. 
No meio da Estrada estava a antiga sede do engenho, mal assombrada e tenebrosa a qualquer hora do dia ou da noite. Do nosso lado, os pequenos caminhos, o mato. Muito mato e os braços largos do rio. 
Como se desenha um sonho? 
Não foi fácil. Do papel para as primeiras pedras dois anos se passaram. 
Um sonho não tem preço, mas as pedras têm. E eram muito caras para a realidade financeira da famí­lia, no iní­cio dos anos 60. Hoje sei que a vida com um sonho é sempre mais próspera. 
Minha mãe economizava até em palitos de fósforo, o que deixou uma marca em seu comportamento pelo resto de sua vida. Nunca jogava nada fora. Acendia um palito já usado na boca acesa do fogão e o guardava outra vez, até que não era mais possí­vel segurá-lo entre os dedos. Lavava, passava, varria, cozinhava. Usava um vestido até que se rasgasse… Mas finalmente, um dia, fomos ver a construção. Minha mãe e suas mudas de jasmins e roseiras. Meu pai e suas folhas de papel. 
Foi um domingo de festa para nós. Três crianças, quatro pedreiros e o grande sorriso de meus pais. Que mais era necessário? Ah, sim… uma panela grande de barro marrom e todos os ingredientes de uma feijoada. 
Trabalhamos todos naquele dia. Carregando areia, levantando muros, plantando, pulando de monte em monte de areia e barro. 
Escolhemos o lugar onde seriam plantadas as árvores que depois seriam minhas amigas por toda a vida. Abacateiros, coqueiros, jambeiros, goiabeiras. 
Esse foi o nosso programa por muitos domingos mais, tantos que perdi a conta. 
Quase quatro anos depois, a construção ainda era construção. Suas paredes já se revestiam de madeira escura, o piso de parquet negro e marfim, as flores já eram uma realidade…
E faltavam só 4 meses para a grande inauguração. Passarí­amos o Natal de 65 na Casa. 
Meu pai comprou um piano. Assim, sem avisar…
Chegou um final de tarde quase sem pisar no chão. Não era um piano negro e de cauda como o da casa de meu avô. Era pequeno e clarinho, mas era um PIANO! Comecei a estudar com uma professora que tocava na igreja da praça. Meu pai tocava todas as noites e eu bailava no terraço de cerâmica encerado, de meias soquetes para deslizar melhor. Nunca tive muito jeito para bailarina e caí­a cada vez que inventava rodar como elas. Mas era uma possí­vel-futura-pianista

Uma noite ele veio… o rio. Foi sua primeira incursão pelas ruas de Casa Forte. Invadiu quase todas as casas, manchou, molhou, enlameou tudo até a altura de meio metro. Na nossa ele foi mais cruel. Fez saltar todo o parquet do piso, entortou as tábuas de madeira do escritório… e levou o piano. Mas antes o fez bailar sobre a água… descolou cada tecla de marfim… arrepiou a madeira… enegreceu tudo.
Acabou com meu sonho de artista, de famosa pianista… e eu já sabia que nunca seria uma bailarina. 
Meu pai chorou. E nunca mais falou do assunto. Creio que queria esquecer tamanha tragédia. Ou talvez seu silêncio dissesse que nunca a esqueceria… 

Ao final do ano nos mudamos para A Casa, que nunca, jamais deixou de ser uma obra em construção. Pois é. Por mais que meu pai fizesse planos e projetos de decoração e mobiliário e fosse, aos poucos, trocando pisos e portas, comprando luminárias e estofados novos, a briga entre ele e o rio foi ficando cada vez mais acirrada. E violenta. Por dez anos o Capibaribe, que lambia nosso muro nas épocas de verão e dava um toque de habitantes da selva às aventuras de criança, nas épocas de inverno ameaçava subir, inundava o jardim. E por quatro ou cinco vezes elevou-se, cada vez mais alto. Até que um dia cobriu A Casa deixando apenas o reservatório de água de fora, como um bote abandonado e fantasmagórico. A cada subida, meu pai o desafiava com novas estratégias de esconder seus tesouros : os livros e os discos. Subia-os às prateleiras mais altas da estante e até mesmo nos ocos do telhado do gabinete. 
Eram muitos os livros de meu pai. Uma biblioteca de teto ao chão de livros, dicionários e enciclopedias. Entre os mais amados, as obras completas de Shakespeare, Pessoa, Neruda, Bandeira, Eça de Queirós, Edgar Alan Poe. O melhor de Rubem Braga, Fernando Sabino, João Cabral, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Rachel de Queiroz. Variava de coleções completas sobre arte em pintura e arquitetura à mitologia ou séries de fição cientí­fica e suspense policial… 
Era um cupim de livros, o meu pai.
Os livros e a música eram suas paixões e ele costumava freqüentar livrarias e sebos semanalmente. Mas… na pressa de salvar a famí­lia de morrer afogada, eles perdiam em prioridade. Ficavam na casa, escondidos em alguma altura, onde meu pai, com esperança ainda não vencida, pensava que não seriam alcançados… 
Ledo engano. O rio gostava de ler… E sempre subia um pouco mais, até encontrá-los… Derretia as capas dos discos, cobria os sulcos com uma lama escorregadia.
Dos livros só levava as letras… as frases… deixava o papel grudado e inchado como um cadáver… como um ato de pirraça, para a gente saber o que tinha perdido, para a gente saber que ele era maior. Ele vinha e se demorava lendo. Dias e dias… 
Nossa casa era a primeira atingida pelas suas ganas e a última a quem permitia voltar. Assim, quase não salvávamos nada do que ele deixava. A lama negra e gosmenta era grossa e fedorenta como petróleo e havia ficado por tempo demais. Entranhava em tudo… Então, ví­amos meu pai chorar, apanhando de pá e carro-de-mão, a papa de livros e discos que o rio, sem dó, espalhava pela casa inteira… Lavávamos os discos com água e sabão, nús de suas capas coloridas. Coleções inteiras de Bach e Beethoven, as suas óperas prediletas, os Jazz e os Blues, as Grandes Orquestras. Uma raiva impotente e uma tristeza profunda se instalavam na casa e em nossos corações. Alguns discos era possí­vel comprar outra vez, mas a maioria estava perdida para sempre. Eram selos esgotados, fora de catálogo. 
Ainda guardo uns livros sujos de lama seca, que o rio não lavou as frases. As poesias de Neruda, a solidão de Garcia Marquez, a pedra do reino de Ariano Suassuna… Talvez o rio já os tivesse lido das outras vezes e só lambeu as capas, não os abriu. Com um pouco de sol, deu para salvar. 

Na última batalha entre ele e meu pai, tivemos que viver por seis meses em um apartamento emprestado, pois foi exatamente nesta que ele descobriu o esconderijo do telhado. Derrubou o teto… e leu tudo. Só voltamos para casa no ano seguinte. E meu pai estava vencido. Não quis mais brigar… parou de sonhar. Morreu dois anos depois. Tinha 50 anos. 
Tentamos batizar com o seu nome o beco sem saí­da onde vivíamos, mas ele não era suficientemente importante para lutar com outro morto: o pároco da pequena igreja branca. 

Alguns anos depois, construí­ram barreiras no rio e nosso antigo campo de batalha valorizou-se. Venderam lotes e lotes para novos habitantes do romântico bairro do Poço da Panela, que foi se transformando num rincão da nova elite da cidade. Casas modernas se espalharam por toda parte. E até edifí­cios, contrariando muitas leis de proteção ao meio ambiente e e manutenção do Patrimônio Histórico. 
O casarão mal assombrado é agora um museu, as ruas estão calçadas e diante de nosso antigo jardim há uma pequena praça triste e mal cuidada, árida e sem razão de ser. Três bancos de concreto, dois ou três arbustos que tentam sobreviver ao abandono… Não há mais cipós nem as árvores frondosas onde nos pendurávamos em nossas fantasias de reino das selvas. Enterraram as árvores até que morreram sufocadas. E a nossa casa também morreu… Não caiu, nem foi reformada. Está lá ainda, mas é só uma sombra esmaecida do que foi antes. Nem jasmins, nem roseiras… nem cheiro de mato verde… Metade do antigo jardim é cimentado. Nem cocos, nem goiabas, nem jambos, nem pitangas, nem araçás… Nem uma música no ar, nem o barulho dos sapos e grilos da beira do rio. Ele também não está mais lá, o rio… Mudaram o seu curso. E muitas casas estão construí­das onde antes eram seus braços. Também ele não tinha mais nada a perder.

Seu parceiro de briga não lhe comprava mais os livros… nem lhe fazia ouvir La Bohème às alturas, nas madrugadas enevoadas e úmidas do Poço… 
No beco, ainda sem saí­da, há agora um nome : o do padre da paróquia. E meu pai mudou-se, depois de morto, para a pequenina igreja branca. Lá, o rio ainda lambe as paredes de seus muros… 
Estão juntos de novo.
E se pode sentir, mais que ouvir, entre as badaladas dos velhos sinos de bronze, suas queixas mútuas de amigos rabugentos… 
Antigos e eternos companheiros de lutas e sonhos.

**Soube agora, em 2011, que a casa foi derrubada e um edifício está lá, em seu lugar. Não fui ver.

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