Outro Fala Por Mim

Sobre voltar…

Texto de Téta Barbosa (Blog Batida Salve Todos)

”O caminho de volta”

“Já estou voltando. Só tenho 37 anos e já estou fazendo o caminho de volta. Até o ano passado eu ainda estava indo. Indo morar no apartamento mais alto do prédio mais alto do bairro mais nobre. Indo comprar o carro do ano, a bolsa de marca, a roupa da moda. Claro que para isso, durante o caminho de ida, eu fazia hora extra, fazia serão, fazia dos fins de semana eternas segundas-feiras. Até que um dia, meu filho quase chamou a babá de mãe. Mas, com quase quarenta, eu estava chegando lá. Onde mesmo? No que ninguém conseguiu respocaminhonder, eu imaginei que quando chegasse lá ia ter uma placa com a palavra “fim”. Antes dela, avistei a placa de “retorno” e nela mesmo dei meia volta. Comprei uma casa no campo (maneira chique de falar, mas ela é no meio do mato mesmo). É longe que só a gota serena. Longe do prédio mais alto, do bairro mais chique, do carro mais novo, da hora extra, da babá quase mãe. Agora tenho menos dinheiro e mais filho. Menos marca e mais tempo. E não é que meus pais (que quando eu morava no bairro nobre me visitaram quatro vezes em quatro anos), agora vêm pra cá todo fim de semana? E meu filho anda de bicicleta, eu rego as plantas e meu marido descobriu que gosta de cozinhar (principalmente quando os ingredientes vêm da horta que ele mesmo plantou). Por aqui, quando chove, a Internet não chega. Fico torcendo que chova, porque é quando meu filho, espontaneamente (por falta do que fazer mesmo) abre um livro e, pasmem, lê. E no que alguém diz “a internet voltou!” já é tarde demais porque o livro já está melhor que o Facebook, o Twitter e o Orkut juntos. Aqui se chama “aldeia” e tal qual uma aldeia indígena, vira e mexe eu faço a dança da chuva, o chá com a planta, a rede de cama. No São João, assamos milho na fogueira. Aos domingos, converso com os vizinhos. Nas segundas, vou trabalhar, contando as horas para voltar. Aí eu me lembro da placa “retorno” e acho que nela deveria ter um subtítulo que diz assim: “retorno – última chance de você salvar sua vida!” Você provavelmente ainda está indo. Não é culpa sua. É culpa do comercial que disse: “Compre um e leve dois”. Nós, da banda de cá, esperamos sua visita. Porque sim, mais dia menos dia, você também vai querer fazer o caminho de volta.”

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Fiquei enamorada deste texto. Aliás, eu adoro ler a Teta Barbosa, porque ela parece estar conversando e tem um senso de humor que eu gosto muito.

Pois é… eu também fiz o caminho de volta. Já tinha quase chegado lá quando descobri que faltava muitas coisas mais ricas do que um traje de executiva, muito trabalho… e uma depressão. Demorei mais para criar coragem de voar. Já tinha 46 anos quando fiz uma travessia transatlântica e fui morar no meio do nada, na Espanha. Perto de Madrid mas não tão perto. Minha cidade mais próxima era Alcalá de Henares, onde nasceu Miguel de Cervantes, uma linda cidade medieval. Mas eu estava perto dele. E isso era o que eu queria. Plantamos tomates e pimentões, tivemos esquilos no jardim, corujas na árvore ao lado da janela, processionarias para perseguir nos pinos, pássaros barulhentos casando as cinco da manhã, frio e neve, chá na rede, silêncios imperdíveis no fim da tarde…

Valeu a pena. Todos vieram me visitar. Quase todos.

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Desligue o Ladrão

Já faz muito tempo que me livrei desse ladrão que entra todo dia nas casas das pessoas. Não minha não.  Televisão só de vez em quando. E isso não é de agora.  É desde a época em que descobri que ler, estudar, escrever, sair, dançar, estar com amigos, escutar música, era muito melhor.
Nunca fui prisioneira14448761_10154422597726893_8396023023838722388_n de novelas. A única série que eu não quis perder foi Grande Sertão, Veredas. Na Globo, quem diria!
Em minha casa, eu nunca ligo a TV se estou bem. Quando meu marido me vê com a TV ligada, já sabe que estou pra lá de mal do juízo.
Vejo documentários de viagens, canal de cozinha, história, filmes românticos, algo de esportes… e já.
Não acredito mais em telediário. Todas as notícias que me interessam  procuro “segundas e terceiras opiniões”. As portadas dos jornais escondem mais do que mostram a realidade.
Cuidado com sua cabeça. Cuidado com suas idéias.
Desligue esta merda que só te transforma numa lata cheia de conceitos que não são seus. Ela o esvazia de você mesmo e lhe enche de malvadeza, violência, mentiras, mediocridade, ódio, desrespeito pelas dores e vidas alheias. Ela rouba sua música, seus estudos, seus amigos. Ela rouba seu pensar.

 

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“Velho é uma conquista. Idoso é uma rendição”.

Essa frase é muito boa. Está neste texto aqui

http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2012/02/me-chamem-de-velha.html

Essa moça, a Eliane Brum, ainda não sabe o que é ficar velha… porque ainda está perto dos 50. Verá, quando passar dessa marca do meio século. A diferença é palpável! Digo eu. Mas eu gosto que ela escreva essas coisas porque prepara muita gente para uma realidade que chega, queiramos ou não. E eu quero que chegue. É preciso que a gente a receba sem complexos, com reconhecimento do privilégio, com agradecimento. Quem não fica velho é um zumbi da vida ou uma pessoa que não teve a sorte de sobreviver aos riscos e morre jovem. Que pena!
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Aqui os velhos tem uma palavra melhor que idoso, aqui velho é gente grande, é um “mayor” e asilo se chama “residencia”. Não parece que muda muita coisa, mas muda o conceito. E isso é importante!
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Eu concordo com tudo que Eliane disse. Nossa sociedade não cuida dos seus velhos. E menos ainda de suas velhas. Homens podem envelhecer mais tranquilamente do que mulheres.
Admiro os povos que valorizam seus velhos, lhes consideram sábios, falam com eles, pedem conselhos, escutam suas histórias. Eu adoro conversar com os velhos da família… descubro tantas coisas! E quanto mais velha eu fico, mais tenho coisas pra contar. Acho que estou ficando mais interessante. De cabeça.
( Tá! sem muita memória das pequenas coisas do dia, mas com uma memória histórica do importante da minha vida. Hahahahaha! Isso é bom?)
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Pois é… e tem o físico também. Claro que NÃO gosto das mudanças no meu corpo, mas o povo de fora de mim não o vê tão ruim como eu vejo. Diz que estou bonita. Ontem até escutei um “que bonita eres!” no meio da rua, vindo de um desconhecido que passava de bicicleta. Olhei em volta pra ver se havia “outra” por perto, mas não, era pra mim mesmo! Fiquei ancha!
Meu pirata diz sempre. Mas o povo dentro de mim não escuta. É uma luta!
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E lá vou eu para a Hidroginástica. Lutar sem “joder” os joelhos.

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Para mim mesma…

Eu guardei este texto para voltar a ele muitas vezes. Também para poder compartilhar com minhas velhas e novas amigas… Acho que ele é perfeito, embora  eu esteja, finalmente, tirando essa palavra do meu dicionário…

VOCABULÁRIO  FEMININO.

por Leila Ferreira

Se eu tivesse que escolher uma palavra- apenas uma -para ser item obrigatório no vocabulário da mulher de hoje, essa palavra seria um verbo de quatro sílabas: descomplicar. Depois de infinitas (e imensas) conquistas, acho que está passando da hora de aprendermos a viver com mais leveza: exigir menos dos outros e de nós próprias, cobrar menos, reclamar menos, carregar menos culpa, olhar menos para o espelho.

Descomplicar talvez seja o atalho mais seguro para chegarmos à tão falada qualidade de vida que queremos – e merecemos – ter. Mas há outras palavras que não podem faltar no kit existencial da mulher moderna. Amizade, por exemplo. Acostumadas a concentrar nossos sentimentos (e nossa energia…) nas relações amorosas, acabamos deixando as amigas em segundo plano.  E nada, mas nada mesmo, faz tão bem para uma mulher quanto a convivência com as amigas. Ir ao cinema com elas (que gostam dos mesmos filmes que a gente), sair sem ter hora para voltar, compartilhar uma caipivodka de morango e repetir as histórias que já nos contamos mil vezes- isso, sim, faz bem para a pele.

Para a alma, então, nem se fala.

Ao menos uma vez por mês, deixe o marido ou o namorado em casa, prometa-se que não vai ligar para ele nem uma vez (desligue o celular, se for preciso) e desfrute os prazeres que só um aboa amizade consegue proporcionar. E, já que falamos em desligar o celular, incorpore ao seu vocabulárioduas palavras que têm estado ausentes do cotidiano feminino: pausa e silêncio.

Aprenda a parar, nem que seja por cinco minutos, três vezes por semana, duas vezes por mês, ou uma vez por dia- não importa -e a ficar em silêncio.  Essas pausas silenciosas nos permitem refletir ,contar até 100 antes de uma decisão importante, entender melhor os próprios sentimentos, reencontrar a serenidade e o equilíbrio quando é preciso.

Também abra espaço, no vocabulário e no cotidiano, para o verbo rir.

a-madura-con-arrugasNão há creme anti-idade nem botox que salve a expressão de uma mulher mal-humorada. Azedume e amargura são palavras que devem ser banidas do nosso dia a dia. Se for preciso, pegue uma comédia na locadora, preste atenção na conversa de duas crianças, marque um encontro com aquela amiga engraçada – faça qualquer coisa, mas ria. O riso nos salva de nós mesmas, cura nossas angústias e nos reconcilia com a vida.

Quanto à palavra dieta,cuidado: mulheres que falam em regime o tempo todo costumam ser péssimas companhias.  Deixe para discutir carboidratos  e afins no banheiro feminino ou no consultório do endocrinologista… Nas mesas de restaurantes, nem pensar.  Se for para ficar contando calorias, descrevendo a própria culpa e olhando para a sobremesa do companheiro de mesa com reprovação e inveja, melhor ficar em casa e desfrutar sua salada de alface  e seu chá verde sozinha.

Uma sugestão?

Tente trocar a obsessão pela dieta por outra palavra que, essa sim, deveria guiar nossos atos 24 horas por dia: gentileza. Ter classe não é usar roupas de grife: é ser delicada. Saber se comportar é infinitamente mais importante do que saber se vestir.  Resgate aquele velho exercício que anda esquecido: aprenda a se colocar no lugar do outro, e trate-o como você gostaria de ser tratada, seja no trânsito, na fila do banco, na empresa onde trabalha, em casa, no supermercado, na academia.

E, para encerrar, não deixe de conjugar dois verbos que deveriam ser indissociáveis da vida :sonhar e recomeçar.  Sonhe com aquela viagem ao exterior, aquele fim de semana na praia , o curso que você ainda vai fazer, a promoção que vai conquistar um dia, aquele homem que um dia (quem sabe?) ainda vai ser seu, sonhe que está beijando o Brad Pitt …  sonhar é quase fazer acontecer.

Sonhe até que aconteça..

E recomece, sempre que for preciso: seja na carreira, na vida amorosa, nos relacionamentos familiares. A vida nos dá um espaço de manobra:  use-o para reinventar a si mesma.

E, por último (agora, sim, encerrando), risque do seu Aurélio a palavra perfeição. O dicionário das mulheres interessantes inclui fragilidades,  inseguranças, limites. Pare de brigar com você mesma para ser a mãe perfeita, a dona de casa impecável, a profissional que sabe tudo, a esposa nota mil.  Acima de tudo, elimine de sua vida o desgaste que é tentar ter coxas sem celulite, rosto sem rugas, cabelos que não arrepiam, bumbum que encara qualquer biquíni.

Mulheres reais são mulheres imperfeitas.

E mulheres que se aceitam como imperfeitas são mulheres livres.

Viver não é (e nunca foi) fácil, mas, quando se elimina o excesso de peso da bagagem (e a busca da perfeição pesa toneladas), a tão sonhada felicidade fica muito mais possível.

Leila Ferreira, está fazendo tratamento de um câncer de mama.

 

 

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Os Bons Tempos de Outrora…

Este texto vale a pena estar aqui. E vou publicá-lo justamente em contraposição a um artigo de Danusa Leão, divulgado nas redes sociais, onde ela explica porque não tem mais graça ir a Nova York. Ela diz que, se até o porteiro do prédio já pode ir, que é que ela vai fazer lá? Quem ficou sem graça foi eu,  quando li. Mas ela nem merece que eu divulgue a sua cretina opinião . Prefiro divulgar essa aqui.

Isaac Asimov

Sou muito dado ao otimismo com relação à ciência e tecnologia, e, nas minhas conferências, costumo pintar uma imagem rósea do futuro, contanto, naturalmente, que os novos conhecimentos sejam usados com sabedoria  (o que, devo admitir, não tem sido a norma). Nem sempre a plateia concorda comigo. Lembro-me de uma sessão de perguntas e respostas em que um jovem se levantou e contestou minha afrmação de que a tecnologia havia melhorado a qualidade de vida humana.

– Você teria sido mais feliz na Grécia Antiga? – perguntei.
– Teria – afirmou o rapaz, com a segurança que só os jovens parecem ter.
– Como escravo? – perguntei.
O rapaz se sentou sem dizer mais nada.

O problema é que as pessoas recordam os “bons tempos de outrora” – uma expressão que me causa profundo desagrado – de forma extremamente parcial. Para muitos, a Grécia Antiga signifca sentar-se na ágora e bater papo com Sócrates. Roma Antiga é freqüentar o Senado e discutir política com Cícero. Eles não se lembram de que nas duas civilizações apenas uma pequena elite aristocrática se dedicava a essas atividades e a imensa maioria da população era composta de trabalhadores braçais, camponeses e escravos.

É muito bonito romancear a Idade Média e sonhar em ir para a guerra usando uma armadura reluzente, mas para cada “cavaleiro andante” havia noventa e nove servos e aldeões que eram tratados pior que animais. Fico irritado com os admiradores incondicionais da América rural do século dezenove, quando tudo o que se fazia, aparentemente, era ficar sentado no quintal bebericando sidra. Além disso nos períodos de recessão não havia nenhum senso de responsabilidade social para com os desempregados; e a total inexistência de remédios eficazes, incluindo os antibióticos, fazia com que a mortalidade infantil fosse elevadíssima e a expectativa de vida muito menor que hoje em dia.

Também não me deixo impressionar pelos que olham para uma mansão construída em 1907 e exclamam, com um suspiro: “Puxa, não fazem mais casas assim! Veja quantos detalhes! Veja quanto capricho!”. Perco a paciência com as pessoas que estão sempre falando dos velhos tempos, quando os artesãos tinham orgulho de sua profissão e faziam de cada objeto uma obra de arte única, enquanto que hoje em dia máquinas sem alma produzem cópias e mais cópias de artigos baratos.

Vamos colocar as coisas na sua verdadeira perspectiva. Você sabe por que era possível construir lindas mansões em 1907? Porque a mão de obra era barata, de modo que você podia se dar ao luxo de contratar dezenas de empregados para construir a mansão e dezenas de criados para mantê-la  funcionando. E por que a mão de obra era barata? Porque a maioria das pessoas vivia em um estado permanente de fome e miséria. O fato de que alguns podiam ter mansões estava ligado de perto ao fato de que quase todos viviam em casebres. Da mesma forma, quando os artesãos produziam laboriosamente obras de arte, essas obras eram em número muito reduzido e constituíam o privilégio de uma reduzida casta de patrícios (ou nobres, ou banqueiros); o povo tinha que se virar mesmo era com casas de pau a pique. Se as mansões são raras hoje em dia porque a população em geral vive muito melhor, fico satisfeito com isso. Se os objetos utilitários são menos artísticos para que mais pessoas possam desfrutá-los, acho que a mudança foi para melhor. Isso me torna aquele personagem terrível, um “liberal” que se preocupa com o bem estar dos pobres, e não com os yuppies? Acho que sim, mas há mais. Meu ponto de vista também é bastante prático e egoísta.

Minha primeira mulher uma vez se queixou de que não conseguia encontrar alguém para ir à nossa casa uma vez por semana para fazer alguns serviços domésticos. Ela disse:
– Gostaria de ter vivido há um século, quando era fácil arranjar criados.
– Pois eu, não – repliquei – Porque nós seríamos os criados.

Acontece que não descendo de uma longa linhagem de aristocratas, de modo que certamente não seria um dos poucos privilegiados destinados a gozar das boas coisas da vida. O mesmo é verdade para a maioria dos que recordam com saudade os “bons tempos” de outrora, mas tenho consciência disso, e eles, aparentemente, não.

Os Bons Tempos de Outrora foi publicado no primeiro número da edição Brasileira de Isaac Asimov Magazine. Baixe outras edições e livros clássicos de ficção científica aqui:
http://www.4shared.com/dir/s3tnI9Ay/LIVROS_SCI-FI.html

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Coisas da Alma…

Pois sim…de vez em quando eu assisto na televisão uns programas maravilhosos que são exibidos no início da madrugada. Não entendo porque passam tão tarde! São assuntos que interessariam muita gente, eu acredito.
Vou contar uma das reportagem que eu assisti e que me fez arrepiar a nuca. Lembrei dela bisbilhotando meus arquivos.
Um garoto indiano, aos dois anos, dizia a sua mãe que ele não fazia parte daquela família e que seu nome não era aquele pelo qual o chamavam. É claro que seus pais levaram a coisa na brincadeira, mas o menino insistia em dizer que ele não deveria estar ali e sim na cidade tal, que agora esqueço o nome.
Quando estava com oito para nove anos, os pais e ele viajaram pelo país e ao passaram pela tal cidade, ele disse que sabia onde tinha morado e reconheceu a loja que tinha, antes de morrer. Disse que tinha sido assassinado e que tinha uma mulher e filhos.
Os pais ficaram assustados. Levaram o menino ao médico. Nada. Tudo normal. Louco não era. Voltaram para casa… mas então não podiam mais ser os mesmos e decidiram voltar a visitar a cidade onde o garoto dizia ter vivido. Ele reconheceu sua antiga casa e chamou pelo nome a sua mulher.
Para que ela o reconhecesse, contou a ela sobre os presentes que tinham ganho no casamento e como a chamava na intimidade de seus dias de casados. Contou que se lembrava de quando cada um dos seus dois filhos nascera. Contou também o que havia acontecido no dia de seu assassinato…
Choravam todos…
Arrepiei. Chorei também.
Essas histórias sempre me deixam assim, confusa, cheia das perguntas.
Sempre senti a minha alma à flor da pele. Como se ela reconhecesse lugares e pessoas que eu vejo pela primeira vez.
Quando era mais jovem, em alguns momentos, parecia como se sentisse saudades de algo indizível, um nem sei o que, como se sofresse a presença constante de uma falta.
Quando vi olhos-de-mar-azul pela primeira vez, senti saudade. Como assim sentir saudade de um desconhecido?  Minhas primeiras perguntas para ele eram absolutamente incompreensíveis: “Onde estava? Por que demorou tanto?”

Apesar da força deste sentimento demorei muito para acreditar nele e tomar uma atitude.
Também, como me olharia se eu me aproximasse e fizesse as tais perguntas?!
Ainda bem que pude – depois de anos e mesmo assim meio de brincadeira – contar-lhe o impacto que foi encontrá-lo naquela festa. Por escrito, claro. Mais ou menos protegida de fazer um papel ridículo. O melhor foi que ele não achou ridículo e pode também contar-me o que sentiu naquele momento. Ho ho ho!
Se não tivéssemos apostado naquela sensação, quem sabe como estaríamos agora?
O que sabemos da alma? Somos tão ignorantes dela que às vezes esquecemos de tentar compreendê-la, entender sua linguagem, decifrar suas mensagens, apalpá-la, acarinhar sua superfície tênue, conversar com ela.
Clarice Lispector, a escritora irmã da minha alma, gêmea do meu corpo sutil, que aprendeu a conversar com a própria alma melhor do que ninguém, dizia assim:

“… Minha alma não é imaterial, ela é do mais delicado material de coisa. Ela é coisa, só não consigo consubstanciá-la em grossura visível.
Ah! Meu amor, as coisas da alma são muito delicadas. A gente pisa nelas com uma pata humana demais…”

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Cabelos Brancos…já!

Angela é uma escritora brasileira que eu conheci através do blog. Ficamos amigas sem nunca havermos visto uma a outra. Temos muitas coisas em comum e faz tempo que eu queria publicar alguma coisa escrita por ela aqui no Língua.
Tempo vai… tempo vem… ela mudou para o Multiply… eu mudei de blog… e nunca realizei o desejo.
Agora vou publicar um texto que ela escreveu um dia destes e que parece muito comigo.
Vou aproveitar que hoje já é Setembro, que vou encerrar mais um ciclo de vida feliz, deixando essa maravilhosa casa rodeada de jardins, esquilos, coelhos e raposas… os caminhos cobertos pelas amapolas, as roseiras de todas as cores, a paz e o silêncio do mato, os sinos de Santorcaz…
Vou começar um outro tempo de viver, num apartamento pequenino de Madrid, sem jardim nem amapolas, mas justo em frente ao Auditório Nacional… ( Shhhhh!!! não fala alto mas imagina o que eu vou ver de concertos! Ho ho ho!).
Pst…Acho que esta mudança vale um post…vou escrevê-lo depois.

Pois sim… Setembro é meu mês de aniversário. Mês de comemorar mais um ano bem vivido, comemorar as escolhas, os êxitos, queimar as pequenas mágoas num incenso de fumaça gris… agradecer por todos esses anos de amor e paz… e fazer planos novos no caderno azul.
Mas, voltando à Angela, estou com vontade de publicar seu texto porque eu adoraria tê-lo escrito, porque ele também é meu, porque pensa igual a mim… e quem sabe a quantas mais que estão na mesma luta.
Angela e eu somos da mesma colheita de vinho… este mês cumprirei os 53, com muita honra…
Aí vai…
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Um elefante incomoda muita gente…
mas o meu cabelo incomoda muito mais

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“Inexoravelmente, sempre que vou ao Rio alguma amiga diz:
– Pinte seu cabelo! Mas porque não pinta?
Várias respostas passam pela minha cabeça:
– Não pinto pois tenho medo do meu cabelo ficar feio como o seu.
– Sou nobre. Só os burgueses pintam cabelo
– Tenho coisa mais interessante para fazer com meu tempo (como escrever esse blog)
– Resolvi dar uma chance ao meu cabeleireiro que é Deus. Acho que ele fez um bom serviço com as orquídeas.

Dependendo de como o “pedido-ordem” é feito, desenvolvo o assunto. Pergunto por que a pessoa em questão pinta, a resposta sempre tem a ver com a aparência mais jovem.
Mas eu não quero aparentar ter 50 anos! Quero aparentar os meus 53 anos!! ou será que se iludem achando que a tinta as fazem aparentar 18, ou 30 que seja?. O cabelo branco não envelhece, gente! O que envelhece é o tempo!!!
Também rola a questão da aparência desleixada. Mas como sempre fui desleixada, nem te ligo farinha de trigo.
Será que ao me verem com os cabelos brancos , além de acharem feio, ou por acharem mesmo ou por falta de costume, no fundo lembram-se dos seus próprios cabelos brancos e isso as aborrece?
CABELOS BRANCOS
Não sou como as belíssimas Julia Rodrix e Ivana Cury que sempre tiveram cabelos brancos. Tive de me acostumar com eles. Não foi fácil, juro. Mas hoje, sinceramente, acho que combinam muito bem com as minhas rugas. Quando as enxergo, claro, já que preciso de vários óculos para ver o mundo.
Leio um fwd de um texto assinado por Martha Medeiros (por favor, não me mandem mais nada escrito por ela! eu acho tudo ruim e errado! aliás, como sempre há exceção, morri de rir com o texto de dois domingos atrás, arquiteto X pedreiro ) onde ela se exalta por aparentar juventude.
COMO ASSIM?? ela nasceu em 61. Eu achava que ela tinha a minha idade. Podem comparar aí em cima. Então, não há regra mesmo. Vai ver que pessoalmente ela é diferente do que parece na TV e nas fotos.
Podem estranhar mas é verdade: eu não quero não ter rugas, não ter cabelo branco, não ter flacidez ou celulite. Eu não quero emagrecer. Não tenho nenhuma intenção de ser imortal. Não quero ser jovem. Acho, inclusive, que aquela canção “Forever Young” seja mais uma praga do que um bom desejo.*
Eu não tenho um retrato envelhecendo por mim no porão. Gosto das minhas gordurinhas. São simpáticas. Acho engraçadíssimo ter rugas no pescoço. Afinal, eu vi o homem chegar na lua. Eu vivi os anos 70! James Taylor falou comigo e eu fui para Machu Pichu. Usei combinação embaixo do uniforme do colégio. Presenciei e fui contra a obra do calçadão de Copacabana. Discuti se mulher casada devia ou não trabalhar fora. Fumei e parei de fumar.Tive plano de expansão de telefone. Ri dos primeiros celulares. Fiz mestrado e doutorado. Publiquei livros e artigos. Tive dois filhos e um deles já têm cabelos brancos. Casei, descasei e voltei a casar.
Como eu poderia ter vivido tudo isso sem ter cabelo branco já que não sou índia?
Já li tanta coisa! Já vi tantos filmes! Eu estava no Maracanãzinho quando Vandré cantou Pra não dizer que não falei de flores!
E fui fã de Raul.Tenho a exata idade do Rock e isso quer dizer alguma coisa.
Então, faça o que quiser porque é tudo da lei. Quem quiser pintar, pinte! quem não quiser não pinte. Quem gosta de colorir tudo como uma arara, que o faça! Quem quer raspar, raspe! E chega de padrão! E viva a Liberdade!
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Muito bom, Angela! Isso mesmo!
Ps* Joan Baez está simplesmente linda com seu look de cabelos grisalhos!!!

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Oda a Alegria…

Alegría,
hoja verde
caída en la ventana,
minúscula
claridad
recién nacida,
elefante sonoro,
deslumbrante
moneda,
a veces
ráfaga quebradiza,
pero
más bien
pan permanente,
esperanza cumplida,
deber desarrollado.
Te desdeñé, alegría.
Fui mal aconsejado.
La luna
me llevó por sus caminos.
Los antiguos poetas
me prestaron anteojos
y junto a cada cosa
un nimbo oscuro
puse,
sobre la flor una corona negra,
sobre la boca amada
un triste beso.
Aún es temprano.
Déjame arrepentirme.
Pensé que solamente
si quemaba
mi corazón
la zarza del tormento,
si mojaba la lluvia
mi vestido
en la comarca cárdena del luto,
si cerraba
los ojos a la rosa
y tocaba la herida,
si compartía todos los dolores,
yo ayudaba a los hombres.
No fui justo.
Equivoqué mis pasos
y hoy te llamo, alegría.
Como la tierra
eres
necesaria.
Como el fuego
sustentas
los hogares.
Como el pan
eres pura.
Como el agua de un río
eres sonora.
Como una abeja
repartes miel volando.
Alegría,
fui un joven taciturno,
hallé tu cabellera
escandalosa.
No era verdad, lo supe
cuando en mi pecho
desató su cascada.
Hoy, alegría,
encontrada en la calle,
lejos de todo libro,
acompáñame:
contigo
quiero ir de casa en casa,
quiero ir de pueblo en pueblo,
de bandera en bandera.
No eres para mí solo.
A las islas iremos,
a los mares.
A las minas iremos,
a los bosques.
No sólo leñadores solitarios,
pobres lavanderas
o erizados, augustos
picapedreros,
me van a recibir con tus racimos,
sino los congregados,
los reunidos,
los sindicatos de mar o madera,
los valientes muchachos
en su lucha.

Contigo por el mundo!
Con mi canto!
Con el vuelo entreabierto
de la estrella,
y con el regocijo
de la espuma!
Voy a cumplir con todos
porque debo
a todos mi alegría.
No se sorprenda nadie porque quiero
entregar a los hombres
los dones de la tierra,
porque aprendí luchando
que es mi deber terrestre
propagar la alegría.
Y cumplo mi destino con mi canto.
Pabro Neruda
( Uma tentativa de tradução: Alegria, folha verde caída na janela, minúscula claridade recem nascida, elefante sonoro, deslumbrante moeda, ás vezes ráfaga quebradiça, mas bem pão permanente, esperança cumprida, dever desenvolvido.
Te desdenhei, alegria. Fui mal aconselhado.
A lua me levou por seus caminhos. Os antigos poetas me emprestaram tapa-olhos e junto a cada coisa uma nuvem escura pus, sobre a flor uma coroa negra, sobre a boca amada um triste beijo.
Ainda é cedo. Deixa-me arrepender-me. Pensei que somente se queimava meu coração a planta espinhosa do tormento, se molhava a chuva meu vestido na área manchada de luto. Se cerrava os olhos à rosa e tocava a ferida, se compartilhava todas as dores, eu ajudava os homens.
Não fui justo, equivoquei meus passos e hoje te chamo, alegria.
Como a terra és necessária.. Como o fogo sustentas os lares, como o pão és pura, como a água de um rio és sonora, como uma abelha repartes mel voando.
Alegria, fui um jovem taciturno, descobri tua cabeleira escandalosa. Não era verdade, o soube quando em meu peito desatou sua cascata.
Hoje, alegria, encontrada na rua, longe de todo livro, acompanha-me: contigo quero ir de casa em casa, quero ir de povoado em povoado, de bandeira em bandeira.
Não és para mim somente. Às ilhas iremos, aos mares, às minas iremos, aos bosques.
Não só lenhadores solitários, pobres lavadeiras ou eriçados, respeitosos picadores de pedras, me vão receber com seus racimos, senão os congregados, os reunidos, os sindicatos de mar ou madeira os valentes rapazes em sua luta.
Contigo pelo mundo com meu canto! Com o voo entreaberto da estrela, e com o regozijo da espuma! Vou cumprir com todos porque devo a todos minha alegria
Não se surpreenda ninguém porque quero entregar aos homens os dons da terra porque aprendi lutando que é meu dever terrestre propagar minha alegria.
E cumpro meu destino com meu canto.)

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Eu Também Agradeço…


Uma das chaves da felicidade é saber agradecer à vida.
Feliz Ano Novo, amigos!

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Um Presente…

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Por todos os amores perdidos…

Para minha amiga, Matilde Rodriguez.

Ausência
Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei… tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
Vinícius de Moraes

*Ps: Esse foi o primeiro poema que aprendi a dizer de memória.

 

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A Solidão é fera… a Solidão devora…

Onde está Deus, ainda que ele não exista?
Quero rezar e chorar, arrepender-me de crimes que não cometi, desfrutar de ser perdoado por uma carícia não propriamente maternal. Um regaço para chorar, mas um regaço enorme, sem forma, espaçoso como uma noite de verão, e ainda assim próximo, quente, feminino, ao lado de qualquer fogo…Poder chorar ali coisas impensáveis, faltas que não sei quais são, ternuras de coisas inexistentes, e grande dúvidas crispadas de não sei que futuro…Uma infância nova, uma ama velha outra vez e uma cama pequena onde acabe por dormir, entre contos que embalam, mal ouvidos, com uma atenção que se põe frouxa, de raios que penetravam em jovens cabelos dourados como o trigo… E tudo isso muito grande, muito eterno, definitivo para sempre, da estatura única de Deus, mais além do fundo triste e sonolento da realidade última das coisas…Um regaço ou um berço ou um braço quente ao redor de meu pescoço…Uma voz que canta baixo e parece querer fazer-me chorar… O ruído das chamas no lar…Um calor no inverno…Um extravío suave de minha consciência… E depois, sem ruído, um sonho tranquilo em um espaço enorme, com a lua rodando entre estrelas…
Quando ponho em um canto, com um cuidado pleno de carinho – com vontade de dar-lhes beijos – meus brinquedos, as palavras, as imagens, as frases – e fico tão pequeno e tão inofensivo, tão só em um quarto tão grande e tão triste, tão profundamente triste! Depois de tudo, quem sou eu quando não brinco? Um pobre órfão abandonado nas ruas das sensações, tiritando de frio nas esquinas da Realidade, tendo que dormir nos degraus da Tristeza e que comer o pão doado pela Fantasia. De um pai sei o nome; me disseram que se chama Deus, mas o nome não me dá idéia de nada. As vezes, de noite, quando me sento sozinho, o chamo e choro, e me faço uma idéia de um ele a quem possa amar…Mas depois penso que não o conheço, que talvez não seja assim, que talvez não seja nunca esse pai de minha alma… Quando terminará tudo isto, estas ruas por onde arrasto minha miséria, e estes degraus onde encolho meu frio e sinto as mãos da noite entre meus farrapos? Se um dia viesse Deus a buscar-me e me levasse a sua casa e me desse calor e afeto… Mas o vento se arrasta pela rua e as folhas caem sobre a calçada…Ergo os olhos e vejo as estrelas que não têm nenhum sentido… E de tudo isto apenas fico eu, um pobre menino abandonado… Tenho muito frio. Estou tão cansado em meu abandono! Vai buscar, oh vento, minha Mãe. Leva-me pela Noite à casa que não cheguei a conhecer…Volta a dar-me, oh Silêncio, minha alma e meu berço e a canção com que dormia.”

Bernardo Soares, em O LIVRO DO DESASSOSSEGO.

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Que soco no estômago! Que dor! Fiquei querendo ser mãe desta criatura, ser sua deusa,seu colo…
Então recordo que minha filha escreveu assim: “Mãe, tu és a melhor invenção do universo!”
E eu agradeci por ter podido ser, pelo menos em parte, o que ela precisava.
Obrigada, minha linda. Você também é minha deusa, meu regaço imenso, minha estrela mais brilhante, minha canção de ninar, minha alegria…
Update:
Amigos blogueiros avisaram-me que o texto não faz parte dos escritos de Fernando Pessoa, nem de seus heterônimos. Bem que procurei nos meus livros e não achei nada.
Ainda não entendi como pode uma pessoa escrever um texto tão bom e não assumir sua autoria! Se alguém souber a quem pertence, por favor avise-me.
Obrigada a Manoel Carlos e Meg.
Update feliz: Meus queridos amigos, o texto é MESMO de Fernando Pessoa. É com imenso prazer que ponho de volta sua assinatura embaixo do fragmento do texto publicado.
Obrigada a Luis Madureyra e Bill.

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Narciso e Narciso…

Ferreira Gullar
Se Narciso se encontra com Narciso
e um deles finge
que ao outro admira
(para sentir-se admirado),
o outro
pela mesma razão finge também
e ambos acreditam na mentira.
Para Narciso
o olhar do outro, a voz
do outro, o corpo
é sempre o espelho
em que ele a própria imagem mira.
E se o outro é
como ele
outro Narciso,
é espelho contra espelho:
o olhar que mira
reflete o que o admira
num jogo multiplicado em que a mentira
de Narciso a Narciso
inventa o paraíso.
E se amam mentindo
no fingimento que é necessidade
e assim
mais verdadeiro que a verdade.
Mas exige, o amor fingido,
ser sincero
o amor que como ele
é fingimento.
E fingem mais
os dois
com o mesmo esmero
com mais e mais cuidado
– e a mentira se torna desespero.
Assim amam-se agora
se odiando.
O espelho
embaciado,
já Narciso em Narciso não se mira:
se torturam
se ferem
não se largam
que o inferno de Narciso
é ver que o admiravam de mentira.
Ps. Imagem = Narciso – Caravaggio

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Recados …

“A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado…”
“Natureza da gente não cabe em certeza nenhuma”.

Mais uma vez fala Riobaldo, em Grande Sertão, Veredas.
João Guimarães Rosa,
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E como Il Postino, uso mais uma poesia para falar por mim. Para que não nos esqueçamos nunca que somos partes, e que elas podem, às vezes, confundir-se e desencontrar-se. Para traduzi-las e compreendê-las…é preciso arte.

Traduzir-se
de Ferreira Gullar
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?

Este post, escrito pelo Inagaki, precisa ser lido por quem deseja estar informado sobre os acontecimentos que cercam a morte e a não-morte da Meg.

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Para Meg…

“Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando.
Isso que me alegra, montão.”
Riobaldo, em Grande Sertão, Veredas.
João Guimarães Rosa
A Meg agora é pó de estrelas… é imensidão. Agora ela é eternidade.
Porque, como disse nosso grande mestre, um dia : “As pessoas não morrem. Elas ficam encantadas.”
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Ps1: Este post faz parte de uma rede de homenagem virtual a Meg do SubRosa.
Ps2: Ao que parece, a morte de Meg foi apenas virtual, e não real. Fico contente que ela esteja viva. Mas de qualquer forma, quero deixar o post aqui. Porque ele retrata o sincero sentimento que me inspirou.
Que estejas bem, Meg. É o que espero.

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O Gato…

Olho pela vidraça e encontro seus olhos assustados…
Um enorme gato preto ronda meu jardim, o terraço, os bancos sob os frondosos prunos.
Gato preto e silvestre. Grande como um filhote de tigre.
Tenho pena do bichano. Sua liberdade de felino sem dono já se transformou em solidão. Ele vem rondando a casa, como quem pede família e carinho…
Bem que eu gostaria de um gatinho. Mas tenho um lobo em casa não gosta dos bichinhos…
Vou dar para ele ( o lobo ) um poema do Ferreira Gullar.

O gato é uma maquininha
que a natureza inventou;
tem pêlo, bigode, unhas
e dentro tem um motor.
Mas um motor diferente
desses que tem nos bonecos
porque o motor do gato
não é um motor elétrico.

É um motor afetivo
que bate em seu coração
por isso faz ronron
para mostrar gratidão.

No passado se dizia
que esse ronron tão doce
era causa de alergia
pra quem sofria de tosse.

Tudo bobagem, despeito,
calúnias contra o bichinho:
esse ronron em seu peito
não é doença – é carinho.

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As Coisas…

Ando pensando na vida, na morte, nos significados de ambos…
Ando por aí, refletindo sobre a impermanência das coisas… e descubro que elas ficam.
Nós é que vamos…

A bengala, as moedas, o chaveiro,a dócil fechadura, as tardias notas que não lerão os poucos dias que me restam,os naipes e o tabuleiro,um livro e em suas páginas a ofendida violeta, monumento de uma tarde, de certo inesquecível e já esquecida, o rubro espelho ocidental em que arde uma ilusória aurora.
Quantas coisas, limas, umbrais, atlas e taças, cravos, nos servem como tácitos escravos, cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão muito além de nosso olvido: e nunca saberão que havemos ido.
(Jorge Luis Borges)

 

Numa tradução perfeita de Ferreira Gullar

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Terra…

Sábado, dia 22 de Abril comemorou-se o dia da Terra.
Lúcia Malla sugeriu uma blogagem coletiva para o dia… e eu, como sempre, atrasada… só pude publicar agora.
Para ser muito sincera, eu não ia postar nada justamente por estar atrasada na data…

Mas não pude deixar passar uma imagem tão especial como esta.
Não sei quem é o autor, se alguém souber avise-me.
Para acompanhar, sugiro um trecho da música Terra, de Caetano Veloso
“Eu estou apaixonado por uma menina terra
Signo de elemento terra do mar se diz terra à vista
Terra para o pé firmeza terra para a mão carícia
Outros astros lhe são guia
Terra, Terra,
Por mais distante o errante navegante
Quem jamais te esqueceria?
Eu sou um leão de fogo, sem ti me consumiria
A mim mesmo eternamente, e de nada valeria
Acontecer de eu ser gente, e gente é outra alegria
Diferente das estrelas
Terra, terra,
Por mais distante o errante navegante
Quem jamais te esqueceria?
De onde nem tempo e nem espaço, que a força mãe dê coragem
Pra gente te dar carinho, durante toda a viagem
Que realizas do nada,através do qual carregas
O nome da tua carne
Terra, terra,
Por mais distante o errante navegante
Quem jamais te esqueceria?”

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A Janela…

Domingo na casa de colunas.
Fazenda de cabras, flores e uma casa tranquila.
Um papagaio inquieto a andar de um canto para o outro no terraço, resmungando palavras incompreensíveis.
Música numa radiola do tempo da guerra: Augusto Patativa, o cantor da voz tremida.
Dr. Diniz nos mostra sua casa ensolarada, os empregados, sua solidão e uma janela.
– Aquela janela? É a mesma deste retrato aqui. Ela ficou pequena com o tempo, mas é a mesma. A moça era uma namorada que tive, sabem, eh,eh, quando era jovem. Faz muito tempo. Eu passava pela casa dela todas as tardes, e ela ficava na janela, nesta mesma janela, como no retrato.
– Era bonita. Muito bonita. Ele disse.
– Não casou com ela?
– Não. Ela já se foi. Disse abreviadamente. Mas ficou a casa. Sabem, eu não pude comprar a casa em que ela morou. Iam demolir, fiquei esperando, então comprei a janela.
– A fotografia? Paguei a Júlio Fotógrafo. Ele foi lá escondido e… plact! Custou-me dois contos a ousadia. Mas vale a pena. Não é linda?
-Tanto a foto como a janela.
– Não, a janela já não é mais. Ficou pequena. Antigamente era bem maior.
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Texto do livro A Idade da Pedra, um encantador e lindo presente que recebi de seu autor, meu amigo Luis Manoel Siqueira, Menção Honrosa Premio Othon Bezerra de Melo da Academia Pernambucana de Letras, 1990.
Por sinal, estou enamorada do livro do Luis Manoel. Seu livro é uma delícia do começo ao fim.
Depois vou publicar um post sobre essas alegrias que o blog tem me proporcionado.
Antes eu recebia um presente assim e ficava com pudores de publicar algo sobre eles, como se estivesse “expondo” demais as pessoas que me presenteavam. Agradecia por e-mail, como para protegê-los. Que grande bobagem!
Acho , agora que estou mais a vontade neste blog, que estava sendo até uma injustiça não compartilhar com todos as delicadezas que recebo aqui na Espanha, vindas de adoráveis leitores brasileiros que frequentam esta página.
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Quadro de Nicoletta Tomas Caravia . Uma pintora autodidata, bárbara, doce, sensível. Uma das minhas últimas descobertas.

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Pensando em Garcia Marquez…

“Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía recordaria aquela tarde remota em que seu pai o levou a conhecer o gelo.

Macondo era então uma aldeia de vinte casas de taipa construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos.
O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las havia que apontá-las com o dedo.”

E eu, longe da minha Macondo, de seus cheiros de começo de vida, seus meninos cinzentos e descalços, o barulho dos batuques nas latas, a “La Ursa quer dinheiro, quem não der é pirangueiro”…o calor úmido das margens do rio Capibaribe, os risos, o tum-tum do coração no ritmo das latas… as pedras portuguesas no chão quente do Poço da Panela…

Quanto tempo ?
Agora olha eu aqui… apontando com o dedo para algumas coisas em meu novo Macondo: CLIMA DE CARNAVAL = NEVE
*Foto: no jardim de casa.

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