Pensando Alto

Desligue o Ladrão

Já faz muito tempo que me livrei desse ladrão que entra todo dia nas casas das pessoas. Não minha não.  Televisão só de vez em quando. E isso não é de agora.  É desde a época em que descobri que ler, estudar, escrever, sair, dançar, estar com amigos, escutar música, era muito melhor.
Nunca fui prisioneira14448761_10154422597726893_8396023023838722388_n de novelas. A única série que eu não quis perder foi Grande Sertão, Veredas. Na Globo, quem diria!
Em minha casa, eu nunca ligo a TV se estou bem. Quando meu marido me vê com a TV ligada, já sabe que estou pra lá de mal do juízo.
Vejo documentários de viagens, canal de cozinha, história, filmes românticos, algo de esportes… e já.
Não acredito mais em telediário. Todas as notícias que me interessam  procuro “segundas e terceiras opiniões”. As portadas dos jornais escondem mais do que mostram a realidade.
Cuidado com sua cabeça. Cuidado com suas idéias.
Desligue esta merda que só te transforma numa lata cheia de conceitos que não são seus. Ela o esvazia de você mesmo e lhe enche de malvadeza, violência, mentiras, mediocridade, ódio, desrespeito pelas dores e vidas alheias. Ela rouba sua música, seus estudos, seus amigos. Ela rouba seu pensar.

 

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“Velho é uma conquista. Idoso é uma rendição”.

Essa frase é muito boa. Está neste texto aqui

http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2012/02/me-chamem-de-velha.html

Essa moça, a Eliane Brum, ainda não sabe o que é ficar velha… porque ainda está perto dos 50. Verá, quando passar dessa marca do meio século. A diferença é palpável! Digo eu. Mas eu gosto que ela escreva essas coisas porque prepara muita gente para uma realidade que chega, queiramos ou não. E eu quero que chegue. É preciso que a gente a receba sem complexos, com reconhecimento do privilégio, com agradecimento. Quem não fica velho é um zumbi da vida ou uma pessoa que não teve a sorte de sobreviver aos riscos e morre jovem. Que pena!
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Aqui os velhos tem uma palavra melhor que idoso, aqui velho é gente grande, é um “mayor” e asilo se chama “residencia”. Não parece que muda muita coisa, mas muda o conceito. E isso é importante!
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Eu concordo com tudo que Eliane disse. Nossa sociedade não cuida dos seus velhos. E menos ainda de suas velhas. Homens podem envelhecer mais tranquilamente do que mulheres.
Admiro os povos que valorizam seus velhos, lhes consideram sábios, falam com eles, pedem conselhos, escutam suas histórias. Eu adoro conversar com os velhos da família… descubro tantas coisas! E quanto mais velha eu fico, mais tenho coisas pra contar. Acho que estou ficando mais interessante. De cabeça.
( Tá! sem muita memória das pequenas coisas do dia, mas com uma memória histórica do importante da minha vida. Hahahahaha! Isso é bom?)
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Pois é… e tem o físico também. Claro que NÃO gosto das mudanças no meu corpo, mas o povo de fora de mim não o vê tão ruim como eu vejo. Diz que estou bonita. Ontem até escutei um “que bonita eres!” no meio da rua, vindo de um desconhecido que passava de bicicleta. Olhei em volta pra ver se havia “outra” por perto, mas não, era pra mim mesmo! Fiquei ancha!
Meu pirata diz sempre. Mas o povo dentro de mim não escuta. É uma luta!
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E lá vou eu para a Hidroginástica. Lutar sem “joder” os joelhos.

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Coisas da Alma…

Pois sim…de vez em quando eu assisto na televisão uns programas maravilhosos que são exibidos no início da madrugada. Não entendo porque passam tão tarde! São assuntos que interessariam muita gente, eu acredito.
Vou contar uma das reportagem que eu assisti e que me fez arrepiar a nuca. Lembrei dela bisbilhotando meus arquivos.
Um garoto indiano, aos dois anos, dizia a sua mãe que ele não fazia parte daquela família e que seu nome não era aquele pelo qual o chamavam. É claro que seus pais levaram a coisa na brincadeira, mas o menino insistia em dizer que ele não deveria estar ali e sim na cidade tal, que agora esqueço o nome.
Quando estava com oito para nove anos, os pais e ele viajaram pelo país e ao passaram pela tal cidade, ele disse que sabia onde tinha morado e reconheceu a loja que tinha, antes de morrer. Disse que tinha sido assassinado e que tinha uma mulher e filhos.
Os pais ficaram assustados. Levaram o menino ao médico. Nada. Tudo normal. Louco não era. Voltaram para casa… mas então não podiam mais ser os mesmos e decidiram voltar a visitar a cidade onde o garoto dizia ter vivido. Ele reconheceu sua antiga casa e chamou pelo nome a sua mulher.
Para que ela o reconhecesse, contou a ela sobre os presentes que tinham ganho no casamento e como a chamava na intimidade de seus dias de casados. Contou que se lembrava de quando cada um dos seus dois filhos nascera. Contou também o que havia acontecido no dia de seu assassinato…
Choravam todos…
Arrepiei. Chorei também.
Essas histórias sempre me deixam assim, confusa, cheia das perguntas.
Sempre senti a minha alma à flor da pele. Como se ela reconhecesse lugares e pessoas que eu vejo pela primeira vez.
Quando era mais jovem, em alguns momentos, parecia como se sentisse saudades de algo indizível, um nem sei o que, como se sofresse a presença constante de uma falta.
Quando vi olhos-de-mar-azul pela primeira vez, senti saudade. Como assim sentir saudade de um desconhecido?  Minhas primeiras perguntas para ele eram absolutamente incompreensíveis: “Onde estava? Por que demorou tanto?”

Apesar da força deste sentimento demorei muito para acreditar nele e tomar uma atitude.
Também, como me olharia se eu me aproximasse e fizesse as tais perguntas?!
Ainda bem que pude – depois de anos e mesmo assim meio de brincadeira – contar-lhe o impacto que foi encontrá-lo naquela festa. Por escrito, claro. Mais ou menos protegida de fazer um papel ridículo. O melhor foi que ele não achou ridículo e pode também contar-me o que sentiu naquele momento. Ho ho ho!
Se não tivéssemos apostado naquela sensação, quem sabe como estaríamos agora?
O que sabemos da alma? Somos tão ignorantes dela que às vezes esquecemos de tentar compreendê-la, entender sua linguagem, decifrar suas mensagens, apalpá-la, acarinhar sua superfície tênue, conversar com ela.
Clarice Lispector, a escritora irmã da minha alma, gêmea do meu corpo sutil, que aprendeu a conversar com a própria alma melhor do que ninguém, dizia assim:

“… Minha alma não é imaterial, ela é do mais delicado material de coisa. Ela é coisa, só não consigo consubstanciá-la em grossura visível.
Ah! Meu amor, as coisas da alma são muito delicadas. A gente pisa nelas com uma pata humana demais…”

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Catando a poesia deitada no chão…

Em Madrid há gente que mora nas ruas, como em todas as cidades grandes.
Gente que, por algum motivo – ou por vários, abandonou a vida que tinha… ou foi abandonada por ela.

Gente que dorme entre caixas de papelão, portadas de edifícios ou abrigos da prefeitura.

Eu vejo alguns, de vez em quando…

…mas esse era diferente.
Madrid-2009

Ele escolheu a calçada do Teatro Real de Madrid como cama, suas grades como armário… e um livro como companheiro na fria manhã de Inverno.
Um livro de páginas amareladas e sem capa… um livro!

Eu passo rente à sua manta azul, uma e outra vez, com uma vontade imensa de abordá-lo.
Queria perguntar quem é, de onde vem, o que houve para que esteja aí, entregue a intempérie ?
Queria dar-lhe algum dinheiro para o café, o pão, o leite.
Mas ele não parece um mendigo.
Vejo de soslaio uma barba grisalha, limpa e bem cortada… a mão que sustenta o livro aberto, também limpa.
Tive vergonha de incomodá-lo.

 

Faz mais de uma semana que penso nele…

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Cesta de Gatos…

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Outubro. O mês da chegada do friozinho que eu amo. O mês das folhas amarelas e vermelhas do outono europeu, tão lindo, tão melancólico, tão música clássica no ar.
Eu podia ver os esquilos que moravam numa de minhas árvores descendo do ninho para buscar as nozes que eu havia deixado para eles num prato grande de barro, provocando a saudade antecipada que me perseguia desde dois meses antes. Ultimo café quentinho na caneca azul, ao som de Vivaldi, olhando por aquela enorme porta de vidro que dava para o jardim, já com cara de triste e sozinho.
Eu sabia que o próximo “dono” não iria morar ali e uma casa sem gente perde em vida. Um jardim, então, sofre demais. Por isso eu havia presenteado aos vizinhos e amigos todas as minhas plantas. A “selva amazônica”, como eles chamavam, já estava distribuída e ele já parecia meio nu, meio abandonado.
Bem que eu queria poder levar a casa interinha conosco!
De volta ao futuro me dei conta do caminhão na porta dos fundos, devidamente autorizado para transportar tudo o que eu havia previamente organizado por setores da casa: quarto azul, quarto laranja, quarto de hóspedes, “habitación de matrimonio”, livros, livros e livros… cozinha, 3 banheiros, escritório, salão, mais livros e livros e livros…que casa tão imensa, meu Deus!
Pois sim… Consegui organizá-la muito bem – enquanto todas as bruxas dormiam – durante as semanas que antecederam a data. Porcarias devidamente jogadas no lixo, coisas desnecessárias para dentro dos baús de “guardados-desnecesariamente-guardados”, coisas essenciais e importantes encaixotadas, com etiquetas e tudo.
Isso fui fazendo dia após dia com uma dor nas costas que não me abandonava e noite após noite de insônia em que, de olhos fechados mas totalmente desperta, eu arrumava e desarrumava tudo outra vez, tinha ideias fantásticas do que fazer no dia seguinte, que logo seriam esquecidas. E uma impaciência que já estava transbordando por todas as saídas do meu corpo.
Então chegou o bendito dia. Três criaturas absolutamente desconhecidas mexendo em toda parte, entrando em todos os cômodos, abrindo e esvaziando todas as minhas gavetas, metendo cada objeto em imensas caixas com letras e números. H1, H2, H3… ESCR, COZ, BAN, ENTR. Cada caixa dizendo de onde havia sido retirado seu conteúdo.
Fácil assim. Depois era só desembalar tudo e guardar…
Onde?
A cesta de gato para onde seguia aquele mundaréu de caixas imensas tinha dois quartos pequenos, um banheiro, uma prometida cozinha e um pequeno hall. Ah! e uma sala que não sei por que meu pirata chama de “salón“. Acho que seu costume de viver quase toda a vida em camarotes de barcos e dormir por nove anos em camas de submarinos, essa pequena sala possa mesmo ser chamada assim. Tá. Eu deixo. Mas que é uma salinha de nada, é!

Tá bom. Tá bom. Isso eu já sabia. Estávamos levando o essencial: perto de dois mil livros, oitocentos CDs, poucas roupas (só o que passou pelo crivo), objetos para cozinhar ( não tinha quase nada ) e comida, alguns móveis comprados de ultima hora: 15 estantes, 1 sofá, 2 poltronas, 1 cama, 1 guarda roupa, 1 sofá-cama, 3 gaveteiros e 3 mesas de trabalho. Coisas do tipo “monte você mesmo e demonstre a todos o quanto você precisa de nós.” Já reconhecendo nossa ignorância pagamos para que nos montassem os sofás, a cama e o armário do quarto, um dia antes da mudança. O resto ficava para nós. A conta nos convenceu que valia a pena tentar!
Ótimo! Para quem vivia numa casa completamente mobiliada mas não tinha nada, já podíamos contar com um bom começo. Isso mesmo. Como somos organizados e competentes, heim? Assim antes da mudança chegar já teríamos onde dormir e onde guardar o básico. E eu saberia onde estava tudinho, tudinho…
Pois sim.
Eles não são. Nem organizados nem competentes. O guarda-roupa chegou com meio metro a mais do que o tamanho da parede do quarto e teve que voltar. Tivemos que convencer a loja que o erro foi deles, porque a priori eles nunca erram e o culpado é você. Mas não foi. E eles tiverem que vir no dia seguinte. O dia da mudança.
Os sofás também viriam naquela tarde mas, que fatalidade! o pneu furou e eles viriam também no dia seguinte. O dia da mudança.
Foram elas? As bruxas de plantão acordaram, as danadas!?
Então … No dia 17, o caminhão estava parado diante do prédio de uma rua bastante movimentada e não podia fazer nada porque a casa era um verdeiro balaio de gatos. Estava invadida por outros. Gente na sala, no quarto, na cozinha…. Peraí! que cozinha? Aquele buraco negro seria uma cozinha num dia muito distante! Eles não tinham prometido tudo pronto dia 15? Depois de mais de um mês de atraso, eles juraram à dona do apartamento que a cozinha estaria prontíssima no dia 15 de outubro. O que era aquilo? Como assim pronta?
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Quando estará terminada, perguntei com cara de choro? “Na segunda feira, senhora. Isso se faz neste final de semana.” Eu juro que quis acreditar. Mas estava difícil, viu.
Dizem que as pessoas que trabalham na construção tem uma forma distinta de funcionar. Tempo é algo que não existe. E o cliente é aquele ser incômodo que está aí para fazer perguntas impossíveis de responder. É absolutamente necessário enganá-lo! Quem mandou perguntar besteira!
Entrei na sala e vi dois sujeitos que estava montando um sofá que não era o que eu havia comprado! Trouxeram um outro sofá!
Como assim?
Esses também são seres especiais. Eles agem como se estivessem ali por acaso. Não representam a empresa onde trabalham. Aliás eles nem conhecem ninguém naquela empresa, iam passando pela rua e lhe mandaram entregar esse sofá na casa daqueles desconhecidos, que por acaso estavam pagando pelo serviço. É assim mesmo?
É. Pelo menos é o que parece ser. Eles disseram que entrássemos em contato com a loja e se foram. E por cima deixaram um super sofá branco que ocupava mais da metade del salón, que não era meu e que ia se encher de poeira e cimento. Pânico na garganta. Onde estavam aquelas lágrimas que pareciam prestes a sair na porta do inferno negro que chamavam de cozinha? Dei a volta e fui para o quarto onde montavam o guarda roupa, finalmente com a medida certa. Um pó de madeira cortada cobria toda o colchão da cama onde pensávamos que íamos poder dormir. Em estado de choque eu não podia nem chorar de tao cansada. O pirata estava com uma cara de “vou-fugir-no-próximo-barco-que-passe-na-porta”. Porque só faltava passar um barco pela rua, em plena meseta castelhana. Juro que eu iria também. Com gosto!
Telefonei para um amigo que vive em Madrid e pedi guarida. Por umas duas noites. Queria ser otimista, juro. Até que soube que a mudança dormiria no caminhão, diante da porta do prédio. Até amanha. Heim? Heim?
Eu sou brasileira. Tenho experiências traumáticas, será que ninguém entende? Minha mudança ia dormir na rua? Como assim? E eu? Como dormir sem sonhar que no dia seguinte não haveria nem o caminhão para contar a história do saque! Uffffff!
Calma. Calma. Não havia outra saída, nem outro lugar. Ia ficar ali mesmo, bem no meio da rua.
Amanhã a gente volta“, disseram os três desconhecidos
Tá.
Então foi o que decidimos.
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Voltamos no dia seguinte e respirei fundo. Estava tudo tranquilamente onde deixamos! E ao abrir as portas, não faltava absolutamente nada!
Yes!
Decidimos amontoar as caixas no hall e em um dos quartos. Não cabiam, claro. Então elas começaram a se espalhar pela sala e pelo meu quarto também. As montanhas de caixas criavam um ambiente perfeito para um pesadelo: morrer embaixo de uma delas.
A dor nas costas crescia, crescia.
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Todos os dias eu voltava e tentava abrir caixas, organizar os armários, mas organizar era uma palavra que simplesmente não entrava naquele lugar. As coisas saíam das caixas mas elas apenas mudavam de um lugar para outro, formando outras pilhas espalhadas por toda a casa, sem qualquer sentido comum. E meu calmante natureba só chegava do trabalho no final da tarde! Ele vinha cansado mas disposto a montar as estantes onde pôr os milhares de livros e discos. Era preciso esvaziar espaços senão eu ia morrer de claustrofobia!
O buraco negro chamado cozinha foi se vestindo de madeira e cerâmica, len-ta-men-te. M-u-i-t-o       l-e-n-t-a-m-e-n-t-e !
Dormimos na casa do amigo até o dia 22. Seis dias depois da mudança. Que mudança? Eu não estava nem em uma casa nem em outra. Estava no limbo!
Neste dia havia uma promessa formal do pseudo-profissional responsável (? ) pela obra de montar a caldeira de água quente, fundamental para a saúde mental e física de quem tem que tomar banho nesta terra onde a água é gelaaaada em qualquer época do ano. Ele também teria que montar as cortinas, retiradas antes da pintura do apartamento. Tá.
A criatura chegou com três horas de atraso, impedindo a empresa contratada para a limpeza da obra de realizar seu trabalho, seu ajudante montou a caldeira e já iam saindo quando perguntei pelos móveis e eletrodomésticos. Não pergunte! Disseram-me seus olhos. Lá vou eu ter que enganá-la outra vez! Olhando para a janela como se eu não estivesse ali ele resmungou que estava pensando em telefonar-me no dia seguinte para avisar-me quando viria a empresa que montaria a cozinha. Fogão, geladeira, pia… TUDO! Talvez na segunda feira seguinte. Heim?!
Perguntei ( De novo! Que ousada!) pelas cortinas. Cortinas? Ele me olhou como se eu fosse um ET. Disse que não sabia delas, que guardou-as nuns sacos negros de lixo e que deixou-as – com muito cuidado – na entrada, bem ao lado do lixo da obra. Que inteligente, não? Em bolsas de lixo, ao lado do lixo. Desde quando isso se chamava “guardar“?
Isto é, o sujeito “desapareceu” as minhas caríssimas cortinas… todas.
E para piorar sugeriu que quem havia jogado fora os sacos de lixo tinha sido eu e meus ajudantes da mudança. Heim?
Ataquei. Cresci uns dez centímetros. Avancei para o sujeitinho de rabo-de-cavalo e cara de rato e ele recuou até a parede apavorado.
Não, não foi físico o meu ataque. Foi psíquico. Avancei dois passos em sua direção com uma cara de louca mais ou menos igual a de Mme Mim, descabelada e com os olhos injetados de raiva. Aposto que ele está em pânico até agora. Ho ho ho!


Soltando fogo pelo olhar e cuspindo cada palavra como uma serpente malvada eu disse que ele não me tratasse como uma das suas clientes idiotas, que eu exigia respeito, que ele era absolutamente responsável por tudo o que dissesse respeito à obra e seus resultados, que parasse de mentir descaradamente e responsabilizar-me por sua incompetência. Que ele não estava atrasado dois ou três dias e sim quarenta e cinco e que eu não iria admitir que me tratasse como uma imbecil. Queria minha casa JÁ. Habitável. Pronta. E cada cortina em seu lugar ou outras exatamente iguais. E que a partir de agora eu iria acampar bem diante da porta da cozinha para acompanhar cada passo seu dentro da MINHA casa, que lhe telefonaria a cada dez minutos para que me dissesse a verdade e respondesse pelo trabalho que lhe haviam contratado. Tudo isso sem respirar. Sibilando entre os dentes. Assustador, nãao???
Todos os outros cinco homens ( quatro da limpeza que não se fez completa por sua culpa ) que estavam ali naquele momento pararam o que faziam para escutar-me. Nunca falei um Espanhol bem falado e claro como naquela tarde.
Pronto. Depois disso fiquei doente. A dor nas costas, que me acompanhava há quase um mês, aumentou desesperadamente porque toda a raiva ficou presa naquela parte do meu corpo. Por quatro dias não pude mover-me, nem arrumar caixas, nem tomar banho sozinha, nem nadica de nada. Verdadeiramente acampei na porta da cozinha, deitada numa das maravilhosas poltronas brancas e cobertas de plástico cheio de pó de cimento. A loja só veio trocá-la mais de uma semana depois da entrega equivocada. F*-se!
Da quarta até o sábado eu só chorava todas as lágrimas que estavam presas no nó da garganta. E fabriquei muitas mais. Eu era uma enorme lágrima! Não dormia quase nada. Cansei muito.
Só Domingo pude sair pelas ruas de Madrid e aproveitar uma bela manhã de sol!
A cozinha foi vestindo-se e agora há um sujeito competente lá, montando tudo, enquanto escrevo esse texto procurando não sentir toda a raiva outra vez, por causa da dor… vai que ela resolve voltar.
Já posso respirar e tomar banho sozinha. Já posso andar sem ter vontade de chorar a cada movimento. Não vou arriscar.
Ele também não arrisca. Desde aquele ataque verbal o homenzinho cara de rato nunca mais voltou aqui. Manda tudo por controle remoto: um pedreiro da Romênia que mal fala Espanhol e que me olha com pena e cara de carinho. Melhor. Prefiro não ver o rato.
Só quero minhas cortinas nas janelas. Já.
não existe aqui. Preciso esquecer a palavra. Isso ele ainda não solucionou. Mas vai solucionar. Ah, vai.
Preciso esquecê-lo também para recomeçar minha vida.
Nada mal heim, para uma mulher que pensava que tinha a vida resolvida na entrada do século XXI e que nos primeiros dois anos do novo milênio abandona seu país atrás de uns olhos-de-mar-azul pelos quais está absolutamente em surto amoroso. E depois de viver no mato, rodeada de esquilos e raposas, os melhores anos de felicidade de toda a sua vida e de casar com o dono do sorriso tarja preta mais belo do planeta… agora vai viver alguns anos ” en los Madriles”.
Claro que a história não podia ser simples e comum, se tratando de mim. Faz uma semana que comemos sandwiches prontos com coca-cola em pratos e copos de plástico, dormimos numa deliciosa cama nova rodeados de montanhas de caixotes, temos uma imensa lista de “necessidades urgentes” , não sabemos onde está nossa roupa, não podemos comemorar a nova vida pois estou tomando umas bombas de anti inflamatórios e… ainda não parece que vivo em Madrid.
A mudança estava programada para o dia 05 de setembro. Adiada para o dia 10, depois para o dia 20 e finalmente para o mês seguinte, em 15 de outubro. Ainda dei dois dias de lambuja, por se acaso…
Estamos em 28 de outubro e nós ainda não consideramos a mudança feita.
Todo mundo já sabe que não pode viajar comigo porque as coisas nos aeroportos nunca funcionam como deveriam. Agora já sabem que não podem fazer mudanças também.
Ah!… e tenho passagens compradas para Lisboa no próximo dia 5. Ainda não sei nem o que vou pôr na maleta e … por falar nisso, onde está meu passaporte?
Ai meu Deus…
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Pois é. O texto estava escrito, mas não pude publicá-lo. Não tinha Internet em casa, nem tinha casa, nem tinha espírito, nem tinha vontade.
Fui à Lisboa e Sintra pela primeira vez e fiquei encantada. Foi como encontrar um oásis dentro do deserto. Dormir num quarto de hotel limpo com cortinas e privacidade, sair para passear sem preocupar-me com nada mais do que ser feliz por quatro dias tranquilos e belos.
Foi fantástico fazer a viagem e nos ajudou a relaxar para encarar a tarefa de “fabricar” uma casinha gostosa na volta.
Demorou mais do que esperávamos, mas conseguimos. Já podemos cozinhar, ver televisão e escutar música. Já tenho minha mesa de trabalho montada num escritório inventado bem no “ex-hall” do apartamento, os abrigos em seu armário, as roupas no guarda roupa e uma caneca de chá verde, quentinho, bem na minha frente.

Entre Outubro e Janeiro minha filha veio viver em nosso caos ajudando a reforçá-lo*, com mais caixas, roupas e livros… e livros, videos e CDs. Recebi hóspedes ( juro que não sei como, mas mesmo assim foi bárbaro! ) viajei, voltei, viajei outra vez, comemorei O Natal em Tarifa e o Ano Novo na Cesta, com uma ceia deliciosa.

Agora já posso dizer:

O passaporte está desaparecido outra vez, mas esses detalhes precisam de mais tempo. As coisas também tem alma e escolhem seus lugares dentro da nova morada.
Fazem quatro dias que tenho um prazer novo: a rotina.
Que delícia!
* Ela, a filha, bem que tentou trazer os ramsters, a tartaruga e os peixes… mas eu só deixei vir a gata. Zefini. Sem negociações!

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Deus…

DEUS Ñ TEM RELIGIAO
Eu acredito em Deus, querida…. e gosto disso.
Agora ( não conte por aí, porque ninguém acredita) Deus é agnóstico.

Ele não tem religião, nem precisa de uma.

E menos que se fomentem guerras em seu nome.

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Cabelos Brancos…já!

Angela é uma escritora brasileira que eu conheci através do blog. Ficamos amigas sem nunca havermos visto uma a outra. Temos muitas coisas em comum e faz tempo que eu queria publicar alguma coisa escrita por ela aqui no Língua.
Tempo vai… tempo vem… ela mudou para o Multiply… eu mudei de blog… e nunca realizei o desejo.
Agora vou publicar um texto que ela escreveu um dia destes e que parece muito comigo.
Vou aproveitar que hoje já é Setembro, que vou encerrar mais um ciclo de vida feliz, deixando essa maravilhosa casa rodeada de jardins, esquilos, coelhos e raposas… os caminhos cobertos pelas amapolas, as roseiras de todas as cores, a paz e o silêncio do mato, os sinos de Santorcaz…
Vou começar um outro tempo de viver, num apartamento pequenino de Madrid, sem jardim nem amapolas, mas justo em frente ao Auditório Nacional… ( Shhhhh!!! não fala alto mas imagina o que eu vou ver de concertos! Ho ho ho!).
Pst…Acho que esta mudança vale um post…vou escrevê-lo depois.

Pois sim… Setembro é meu mês de aniversário. Mês de comemorar mais um ano bem vivido, comemorar as escolhas, os êxitos, queimar as pequenas mágoas num incenso de fumaça gris… agradecer por todos esses anos de amor e paz… e fazer planos novos no caderno azul.
Mas, voltando à Angela, estou com vontade de publicar seu texto porque eu adoraria tê-lo escrito, porque ele também é meu, porque pensa igual a mim… e quem sabe a quantas mais que estão na mesma luta.
Angela e eu somos da mesma colheita de vinho… este mês cumprirei os 53, com muita honra…
Aí vai…
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Um elefante incomoda muita gente…
mas o meu cabelo incomoda muito mais

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“Inexoravelmente, sempre que vou ao Rio alguma amiga diz:
– Pinte seu cabelo! Mas porque não pinta?
Várias respostas passam pela minha cabeça:
– Não pinto pois tenho medo do meu cabelo ficar feio como o seu.
– Sou nobre. Só os burgueses pintam cabelo
– Tenho coisa mais interessante para fazer com meu tempo (como escrever esse blog)
– Resolvi dar uma chance ao meu cabeleireiro que é Deus. Acho que ele fez um bom serviço com as orquídeas.

Dependendo de como o “pedido-ordem” é feito, desenvolvo o assunto. Pergunto por que a pessoa em questão pinta, a resposta sempre tem a ver com a aparência mais jovem.
Mas eu não quero aparentar ter 50 anos! Quero aparentar os meus 53 anos!! ou será que se iludem achando que a tinta as fazem aparentar 18, ou 30 que seja?. O cabelo branco não envelhece, gente! O que envelhece é o tempo!!!
Também rola a questão da aparência desleixada. Mas como sempre fui desleixada, nem te ligo farinha de trigo.
Será que ao me verem com os cabelos brancos , além de acharem feio, ou por acharem mesmo ou por falta de costume, no fundo lembram-se dos seus próprios cabelos brancos e isso as aborrece?
CABELOS BRANCOS
Não sou como as belíssimas Julia Rodrix e Ivana Cury que sempre tiveram cabelos brancos. Tive de me acostumar com eles. Não foi fácil, juro. Mas hoje, sinceramente, acho que combinam muito bem com as minhas rugas. Quando as enxergo, claro, já que preciso de vários óculos para ver o mundo.
Leio um fwd de um texto assinado por Martha Medeiros (por favor, não me mandem mais nada escrito por ela! eu acho tudo ruim e errado! aliás, como sempre há exceção, morri de rir com o texto de dois domingos atrás, arquiteto X pedreiro ) onde ela se exalta por aparentar juventude.
COMO ASSIM?? ela nasceu em 61. Eu achava que ela tinha a minha idade. Podem comparar aí em cima. Então, não há regra mesmo. Vai ver que pessoalmente ela é diferente do que parece na TV e nas fotos.
Podem estranhar mas é verdade: eu não quero não ter rugas, não ter cabelo branco, não ter flacidez ou celulite. Eu não quero emagrecer. Não tenho nenhuma intenção de ser imortal. Não quero ser jovem. Acho, inclusive, que aquela canção “Forever Young” seja mais uma praga do que um bom desejo.*
Eu não tenho um retrato envelhecendo por mim no porão. Gosto das minhas gordurinhas. São simpáticas. Acho engraçadíssimo ter rugas no pescoço. Afinal, eu vi o homem chegar na lua. Eu vivi os anos 70! James Taylor falou comigo e eu fui para Machu Pichu. Usei combinação embaixo do uniforme do colégio. Presenciei e fui contra a obra do calçadão de Copacabana. Discuti se mulher casada devia ou não trabalhar fora. Fumei e parei de fumar.Tive plano de expansão de telefone. Ri dos primeiros celulares. Fiz mestrado e doutorado. Publiquei livros e artigos. Tive dois filhos e um deles já têm cabelos brancos. Casei, descasei e voltei a casar.
Como eu poderia ter vivido tudo isso sem ter cabelo branco já que não sou índia?
Já li tanta coisa! Já vi tantos filmes! Eu estava no Maracanãzinho quando Vandré cantou Pra não dizer que não falei de flores!
E fui fã de Raul.Tenho a exata idade do Rock e isso quer dizer alguma coisa.
Então, faça o que quiser porque é tudo da lei. Quem quiser pintar, pinte! quem não quiser não pinte. Quem gosta de colorir tudo como uma arara, que o faça! Quem quer raspar, raspe! E chega de padrão! E viva a Liberdade!
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Muito bom, Angela! Isso mesmo!
Ps* Joan Baez está simplesmente linda com seu look de cabelos grisalhos!!!

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Onde está o Amor?

Victor Oliva_Absinthe
Marcia escreve assim:

“Cansado de mendigar amor, emudeceu. Aos poucos tornou-se transparente, diafano. Até que desapareceu. E ninguém, absolutamente ninguém, o percebeu.”

Minha amiga me diz o mesmo.

A linda, loira e alta criatura, desde seus maravilhosos 50 anos, depois de tudo o que já aprendeu na vida, dos belos quadros que pintou, dos três filhos que criou, do grande amor que compartilhou… repete baixinho para que só eu escute: “É que já ninguém me vê. Sou menos que um móvel da casa… estou ficando transparente…”
Às vezes me surpreendo demais com algumas coisas desta vida.

Foto. Absinth Drinker-Viktor Oliva

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Sem poesia…

Ele queimou um piano…
O sujeito – quem o chamaria de músico? – queimou um piano!
E só para…

Para quê mesmo?

Que importa o motivo?
Recuso-me a sabê-lo.

Sequer quero saber seu nome…

 

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No Trem…

“Se você não se calar AGORA, vai chorar com motivo”. Sibila entre os dentes, com impaciência patente, uma mulher jovem e bonita que está sentada bem atrás de mim. O bebê já choramingava há um tempo, num monótono tom persistente, um choro cansado, quase desistido. Ele estava deitado e amarrado pelas correias de segurança num carrinho negro e cheio de compartimentos úteis. Devia ter mais de dois anos, mas estava deitado como se fosse um bebê de meses. A ameaça da mãe saiu em Português e minha surpresa foi ainda maior. Uma brasileira que está perdendo seu traço mais forte, a expressão de carinho, o jeito de abraçar? Estará se europeizando.
Já estou acostumada a ver mães e pais europeus viajarem acompanhados de crianças de qualquer idade mas comportando-se como se os filhos não estivessem com eles. Os pequenos podem chorar, vomitar, gritar, morrer… e eles impávidos, com cara de não é comigo, nem estou ouvindo nada. Claro que nós, os outros passageiros, vemos e escutamos tudo, exceto os que viajam com os auriculares do Ipod enfiados nos ouvido.
Outra criança, um pouco maior do que o bebê que chorava de dar dó – cuja mãe era incapaz de mover-se para tomä-lo nos braços, fazer um carinho, sussurrar no seu ouvido uma canção – passeia pelo trem, joga-se como um mamulengo vivo sobre a sua poltrona, fica de cabeça para baixo soltando gritos finos e insuportáveis. O velho que senta bem em frente a ele lê o jornal, ou seja, tenta ler o jornal. De vez em quando afasta-se aborrecido das botas sujas do menino em seus joelhos e fulmina com um olhar reprovador a mãe que olha para o nada pela janela do trem, distante e perdida em reflexões filosóficas, fazendo de conta que não sabe o que ocorre ao seu lado. E mais, nem conhece aquele monstrinho fazendo macaquices e importunando as pessoas à sua volta. Tenho vontade de levantar e tentar distraí-lo, contar-lhe uma história, conversar sobre a paisagem. Mas sei que serei eu a fulminada pela mãe no mesmo momento em que me aproxime do bichinho abandonado no vagão. Epa! Que faz essa imigrante morena junto ao meu menino!
De repente ela se dá conta que os gritos estão cada vez mais altos e descobre que é a mãe da criatura. Pega-o grosseiramente pelos bracinhos finos e joga-o sentado na cadeira. Shhhh! Põe um dedo sobre a boca franzida, vira-se de novo para a janela e mergulha nos seus pensamentos. O menino fica por um segundo e meio mais ou menos quieto, confuso, toma o queixo da mãe com as duas mãozinhas e gira o rosto dela em sua direção. Ela desvencilha-se dele e volta a ignorá-lo. Aí ele começa tudo outra vez. Como um malabarista sem controle, pula para um lado e outro e grita na sua voz esganiçada de macaquinho. Oh! meus Deus, que insuportável! é o que se pode ler nas caras dos passageiros mais próximos.O homem velho se levanta e vai em busca de outro assento onde possa concentrar-se nas notícias.

A brasileira atrás de mim ameaça de novo seu bebê com uma raiva assustadora e olha-nos um tanto envergonhada porque ele existe e é seu, apesar de todo o esforço para ignorá-lo. Não está lendo, nem olhando pela janela, nem fazendo nada. Apenas não pretende retirá-lo daquela posição incômoda de onde só pode avistar o teto do trem. Ela precisa estar sozinha, para quê eu não sei. Fico me imaginando tomando-o nos braços e perguntando-lhe porque chora, mostrando-lhe as árvores lá fora, pegando seus dedinhos e cantando “dedo mindinho, seu vizinho, fura bolo, cata piolho… cadê o gato que estava aqui?” e escutando sua risada enquanto se encolhe com as cócegas. Imagino seu bracinho de pele suave segurando meu pescoço e perguntando o por quê da coisas de um livro cheios de figuras coloridas que eu tiro da bolsa para estimular seu cérebro e fazer-lhe companhia.
Mas não me atrevo a mover-me. Como uma pessoa estranha vai fazer o que deveria fazer a mãe? E mais assim, em público, diante de todos? Também sei que ela não deixaria nem que eu me aproximasse do carrinho, exceto se fosse para conversar com ela! E eu não queria conversar com ela, nem ouvir suas explicações, nem socializar com uma conterrânea. Queria apenas embalar o seu bebê, estar com ele nos braços, fazê-lo sentir-se bem.
O trem para na estação e a mãe desce com seu filho, deitadinho, o pobre. Sei que ela vai subir e descer escadas com o enorme carrinho no braço, de saco cheio por ter que sair de casa com aquele pedacinho de carne barulhento. O menino vai seguir vendo apenas os tetos, talvez os cantos altos das paredes nuas da estação, ouvindo vozes que ele não conhece e que vêm de todas as partes acima de sua cabeça. Quem sabe pare de chorar quando veja o céu lá adiante do caminho! A mãe ele não pode ver. Ela caminha atrás da capota negra do bólido utilitário, com cara de enfado, empurrando seu incômodo pacote vivo.
Fico com os olhos cheios de lágrimas. Ando sensível.
A porta se fecha e o trem segue seus trilhos. O menino saltimbanco acaba de levar um beliscão. Agora ele também chora, além de gritar. A mãe olha para o vazio…
A próxima estação é a minha. Saio do vagão andando devagar, pensando no menino-macaquinho que ficou no trem, no seu desejo que sua mãe olhasse para ele, conversasse com ele, lhe contasse uma história de fadas e dragões de jorram fogo pela boca e salvam princesas encantadas dos castelos…
Quem o salvará da solidão?

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Agostos…


Mais um verão.
Desta vez, como em todas as outras, o que parece igual é tão diferente!
Em agosto de 2003 a temperatura parecia não ter limites, chegava a roubar-me o humor, o prazer de existir.
Naquele agosto a saudade do inverno já havia sentado na sala com um leque na mão a abanar-se, a desejar as praias nordestinas, perdida na absoluta falta de memória que o afeto provoca quando se está tão longe dos lugares que ajudaram a construir a própria pele. Quem se lembrava das chuvas e dos mosquitos dos antigos agostos do Janga ou de Toquinho? Nem eu nem ela.
Todos os agostos as agências de viagens espanholas tomam conta da metade dos principais jornais e enganam a todos fingindo que é verão em todas as partes do mundo, como se essa fosse a única estação do ano em que é possível ser feliz.
Voe para o paraíso… Quem disse que verão com calor abrasador é paraíso? Nunca foi. Para mim se não é o inferno, chega bem perto.

Mas o verdadeiro inferno daquele agosto foi encontrar-me com o inesperado medo de haver-me equivocado, o terror de haver inventado um amor. Um agosto em que as noites insones eram maiores que os dias, os cigarros eram a falsa companhia no silêncio de uma sala vazia enquanto o coração tentava ancorar-se nas lembranças do agosto anterior, quando o único que eu desejava era que a saudade se deixasse morrer e me permitisse ficar aqui para o que desse e viesse, sem praia sem nada, mas dormindo todas as noites, absurdamente feliz, as pernas entrelaçadas e o rosto a meio centímetro de uma barba perfumada.
Novamente é agosto. E desta vez, como em todas as outras, o que parece igual é tão diferente. Em outro agosto, toda chuva do mundo caiu dentro do peito. Foi o mês mais frio que já passou minha alma.
Seis anos atrás a Princesa se foi, justo ao primeiro dia, e o mundo passou a ter outros significados. Frio deixou de ser oposto ao calor e passou a ser vazio, oco, falta, medo, dor, morte… de uma forma como nunca havia sabido ser. Nem mesmo aquela outra, de muitos anos antes, também uma dor de agosto, e que veio junto com a certeza de que a separação era inevitável…
Desta vez, como em todas as outras, o mesmo agosto é tão diferente. No ano passado eu estava em prantos na sala, com uma roupa escolhida com cuidado e na mão uma pasta azul cheia de papéis com os prazos de validade quase vencidos e acabando de chegar de uma terceira frustrada tentativa de entregá-los ao registro civil de uma cidade onde ninguém pode casar-se nestas datas. Neste país, o mundo sai de férias todos os agostos, por mais iguais ou diferentes que eles sejam…
Pois sim…
É agosto e o mundo saiu de férias. Estamos de novo sós com nossa história.

Desta vez, como em todas as outras, o que parece igual é muito diferente. Agora o calor não parece insuportável e deixa entrar umas brisas refrescantes que transformam as noites claras em verdeiras delícias. Além do mais, um veleiro de madeira, antigo e cheio de histórias, nos aguarda em Galícia, onde por dez dias vou realizar outro dos meus quase impossíveis sonhos: navegar à vela com olhos-de-mar-azul.
Figa!
Por se acaso…

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Crise de Ego…

Andei, por andar andei… e nem todo caminho deu no mar, saio cantando pelas trilhas no alto do monte, rodeada por pinheiros, amapolas, margaridas, florzinhas azuis e brancas que nem sei o nome e me deparo com a vista do campo de trigo do terreno vizinho que volteia com o vento como um mar verdinho ondulado por pequenas ondas marítimas. É tão parecido com um mar de verdade que eu agradeço pelo presente e canto ainda mais alto, como se fosse filha de Caymmi, mesmo sabendo que a verdadeira música não é assim e que sou apenas a filha do Lorde, meu pai , pernambucano com ares de inglês perdido pelas Américas, que cantava como baiano nas tardes de manso sol e pesca paciente das arraias do Janga de antigamente, tão esquecido de sua tendência anglo saxônica e por isso mesmo ainda mais bonito…
Essa é umas das lembranças que afloram em mim cada vez que vejo o verde claro de um mar, mesmo que seja um que é só miragem.
A onda do mar leva… a onda do mar traz, quem vem para beira da praia , morena, não volta nunca mais… sigo cantando.
Mas eu voltei. E tive um banzo maior do que poderia permitir-me. Saudade de minha gente, dos vivos e mortos da minha história mais que tudo. Talvez também aí um pouco de saudade de mim. Dos tempos em que estudava e trabalhava, correndo atrás de um futuro que eu nunca imaginei iria mudar tão radicalmente.
Dizem que a Primavera traz em si a nostalgia. Pode ser. Mas traz também as amapolas e elas salvaram minha alegria.
Uma multidão de amapolas invadiu meu território!
Verdadeiros mares rubros de flores, pequenitas, de tão poucas pétalas, frágeis como o papel de seda , balançando na ponta de talos peludos e débeis, tão fáceis de romper-se que a gente se surpreende que não voem pelos ares com a força de qualquer pé de vento.
As amapolas são como embaixadoras da alegria.
Não há como não rir de boca inteira quando as vemos e eu tenho a sorte de viver muito perto delas.
Por toda parte dos campos elas estão, brincando de serem beijos encarnados da natureza, fazendo cócegas no corpo da gente…

E as rosas.
As mais belas senhoras da primavera madrileña.
Embaixadoras da classe e da elegância, dignas de paixão ou ternura, elas enamoram as pessoas.
Essas me salvaram de uma crise de ego fenomenal!
Uma crise daquelas que a gente fica sem dormir, pensando numa estratégia imediata e eficaz para mudar de personalidade, de nome, de cor da pele e cabelos, de idade, de corpo, de mente e até de alma!
A gente quer se internar num hotel desconhecido e distante de todos e voltar, no dia seguinte, claro! completamente renovada: mais bela, mais magra, mais jovem, mais leve, mais alegre, mais inteligente, mais sagaz, mais culta, mais sexy, mais bronzeada, mais esportiva, mais generosa e segura, mais tudibom.
A estratégia inclui também uma remodelação completa do guarda-roupa: sapatos ma-ra-vi-lho-sos, saias suavemente esvoaçantes, jeans que modelam sem estufar nenhuma dobra ( que dobra?), blusas que não apertem os bracinhos de ex-boxeador (grossos e moles) que de passagem, melhor, deixamos lá naquele hotel desconhecido e ninguém nunca vai saber que a gente os tinha. Trazemos outros mais magros e duros e muito mais estéticos para enfiar numas jaquetas esportivas encantadoras ou levar penduradas as bolsas mais di-vi-nas.
Seria bom uns vestidinhos graciosos, top sexies e pantalonas de gaze para as noites onde a gente pretende abalar a partir de agora! Me aguardem!
E perfumes. Os melhores, mais afrodisíacos e delicados de todo o planeta.
E para completar a transformação, uma coleção de roupa interior, nova, radical-chic, daquelas de revista semanal, bem fofas! Caríssimas, é verdade, mas tanto faz pois são simplesmente impossíveis de encontrar no tamanho extra!

Tóin!
A realidade se impõe! Oh! não… e lá se foi a noite inteira. O relógio marcando quase quatro da manhã, a gente ainda não dormiu e pior, não emagreceu nadica de nada, nem está mais sexy e menos ainda mais inteligente. O idioma novo que a gente ia dominar num pis-pás também não avançou nem uma polegada. Vaya!
Ainda por cima a gente sente pontadas homéricas de fome! ( como assim?), e tem fantasias erótico-festivas de comer qualquer coisa doce e fria, chamada vulgarmente de sorvete, mas que felizmente não tem no congelador porque já faz tempo que não compra essas caixinhas de culpa gelada. Felizmente??!

A gente se vira para um lado e para o outro e nada de sono nem de resolver coisa alguma na vida!
Ainda olha para o peixe-gato que dorme tranquilamente no lado de lá da cama e pensa como é que vai fazer para mante-lo bem ali, juntinho… e parece que o danado escuta a inquietante pergunta e abraça, meio dormindo, a barriga que a gente faz o maior esforço para perder ou devolver a quem a tenha perdido, por favor que aquilo não faz parte da gente, seguramente! – mas que insiste em manter-se colada, grudada, incrustada… e bem palpável, exatamente ali onde ele põe a mão.
Meujesuscristinho, me ajude!
No dia seguinte, que é o mesmo que o dia anterior porque não vale ser “dia seguinte” quando a gente nem dormiu nem acordou, as olheiras confirmam que é urgente encontrar esse hotel desconhecido e distante para se internar agorinha mesmo!
E se ele disser que a gente parece meio cansada, melhor não responder nada que é para o choro não jorrar pelos sete buracos da nossa miserável e infantil cabeça!
Pois sim… crise de ego. Passei uns dias ( e noites ) perdida nela. Querendo ser outra para ser mais exata!
Até que vi as rosas, logo depois da tromba d´água que atingiu Madrid. Maravilhosas!
Elas provocam tamanho sentimento de admiração que as pessoas se enamoram, não apenas por elas, mas também por si mesmas. Assistir sua exuberância perfumada florescer de troncos tão grossos, tortos e escuros… ver seu amanhecer molhado de orvalho, suas pétalas de texturas e cores extraordinárias saírem de tão antigos armários, me renovou o espírito.
Mesmo sem hotel desconhecido e sem perder nem uma grama de peso, organizei a roupa do armário, recuperei blusinhas simpáticas, comprei umas poucas peças básicas, soltas, leves e claras, cortei os cabelos, claro! sem isso nada seria suficiente, não é? e devolvi a eles sua cor original. Agora tenho os cabelos da mesma cor de toda a vida, castanhos escuros, e isso quer dizer que me olho no espelho e me reconheço… pelo menos tento!
Comprei sandálias de esparto, bem típicas da Espanha, saias bonitas, coloridas e alegres como a Primavera e saí por aí com meu Lobo do Mar: Cartagena, Segóvia, Zamora, Toro, Londres, Tarifa, em menos de sessenta dias.
Revi amigos queridos, fiz novas amizades, vi a arte de Tintoretto no Museo del Prado…
Tá bom. Confeso. Também fiz cartase na cozinha. Aproveitei uma noite diante de um bom tinto Rioja, um queijo curado de ovelha e azeitonas cartaginesas e derramei sobre olhos-de-mar-azul minhas mais profundas fantasias de auto-rejeição e recebi amorosos elogios, dengos e tudo o que precisava.
Benzadeus!
Agora é curtir as rosas, o finalzinho da Primavera e tentar desviar minha atenção das neuras femininas do biquine, das piscinas e praias do verão ibérico…
Vou ter que comprar um maiô bem chic! A arte será achar um tamanho extra!
Toc-toc… não quero nem pensar!

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Meus Queridos,

É provável que estejam sentindo-se um tanto abandonados, mas jamais duvidem do meu bem querer. O que passa é que quando estou aqui em casa fico meio perdida entre as horas dos dias comuns e emaranhada nas tarefas – irrelevantes, eu admito – de uma casa onde vivem pessoas que comem, vestem, dormem.
Todos os dias há o que fazer. Nunca imaginei que poderia deixar-me envolver assim pelo todo dia de uma casa. Sempre fui daquelas que saíam pela manhã e voltavam à noite. Como a minha casa se arranjava, não sei!
Agora, sempre que posso eu fujo, claro. Só que para fora das minhas paredes.
O mais comum é que vou caminhar entre os pinheiros e cantar em voz alta – não há ninguém para rir de mim – acompanhando as músicas que soam dentro dos ouvidos através dos fones do aparelhinho de MP3.
Não me importo com meus ridículos ruídos musicais. Nem os pássaros, nem os esquilos, nem os enormes e negros besouros ou as torcazes, gordas e felizes. Parecem que todos já se acostumaram.
Por sinal, que felizes são as torcazes! A beleza delas é ser gorda, não é maravilhoso? Nenhuma preocupação com as curvas. Elas voam ruidosamente felizes e fazem ninhos lindos e grandes. Este está justamente em um dos três prunos do meu jardim.
Elas parecem orgulhosas de si mesmas. Seu tempo de serem magras e leves passou. Agora já procriam, alimentam seus filhotes, os ensinam a voar e podem apresentar-se assim, mais redondinhas, mesmo que isso lhes façam menos rápidas e mais escandalosas no farfalhar de asas com que me presenteam durante o passeio. São tão lindas com suas barriguinhas estufadas!
(Enquanto penso isso apresso o passo no intuito de gastar mais as calorias acumuladas nas dobrinhas, pois ainda não consegui acreditar que não caber na última calça comprada é algo de que deva orgulhar-me. Hunf! )
Pois sim…Faz tempo que procriei, alimentei e ensinei a voar a minha cria. E ainda ajudo-a a repensar seus planos de vôo e abro as asas para aninha-la quando necessita de colo. Ultimamente ela tem precisado de mim e eu fico encantada em poder suprir suas carências de mimos. Me entrego inteira e agradeço por estar aqui, tão perto dela. Muitas mães de amigas suas não têm essa facilidade, então estufo o peito e transbordo de tanto amor. Como uma torcaz.
Mas… não consigo olhar para as dobrinhas da barriga e pensar que elas já podem instalar-se ali para toda a eternidade. Ainda luto contra. Mansamente, é verdade, mas constantemente! Mudei de médico e recomecei um plano de guerra contra elas. Tirei a bicicleta da garagem e estacionei bem diante do terraço. Para recordar-me que ela pode ajudar-me.

Agora que deixei de fumar já posso bicicletear diariamente por 10 quilômetros de altos e baixos e ainda ganhar de graça um pôr-do-sol distinto a cada tarde!
A bicicleta me cansa uma barbaridade, mas o pôr-de-sol não. Nunca são iguais!
O sol surpreende sempre com as cores com que pinta o céu e as nuvens esgaçadas ou emboladas, imitando formas mitológicas. A cada tarde o céu modela e o sol colore diferentes deusas, unicórnios, cavalos alados, barcos e balsas…monstros marinhos.
E o vento que acaricia meu rosto tem cheiro de mato, de infância, de liberdade, de simples e pura alegria. É uma maravilha que preciso aproveitar antes que venham os ventos gélidos e os dias curtos do inverno madrilenho. (As dobrinhas estão desesperadas.)
Ahahahahha!
Também tenho aproveitado o tempo de calor para curtir a piscina, que durante as manhãs dos dias de semana está ali só para mim.
Bem, um ou outro visitante faz-me companhia. De vez em quando avisto esquilos ruivos que passam correndo entre os pinheiros ou andorinhas que se arriscam a rasantes espetaculares sobre minha cabeça para beberem um pouco de água fresca.
Belos momentos… tranquilos e mágicos momentos.
Adoro mergulhar no silêncio azul e frio das águas tranquilas e esquecer o calor. É uma sensação muito agradável deixar-me boiar, abraçada pelo azul, escutando o nada. O problema é que a temperatura da água não é das mais acolhedoras e não aguento ficar ali por muito tempo. Assim, é necessário mover-me, nadar, bater pernas, qualquer coisa que esquente o sangue. Ou esperar fora d´água por olhos-de-mar azul… sua presença (ainda e sempre) aquece tudo em mim e ao meu redor. Mas ele só pode vir na hora do almoço…
De vez em quando aproveitamos para que me ensine a mergulhar com equipamentos. Temos uns planos incríveis para alugarmos um barco com alguns amigos e mergulharmos juntos nas próximas férias.
Não pensem que não tenho histórias interessantes para contar aqui. Tenho umas lindas, outras tristes, outras ainda supreendentes!
Também poderia falar dos acontecimentos no mundo. Acompanho as notícias dos jornais, leio os principais artigos, me enraiveço com o cinismo, a crueldade, a falta de vergonha e de cidadania, de compaixão, a extrema violência dos seres humanos. Me entristeço com as notícias que leio sobre o Brasil, penso em comentar… depois desisto. Já muitos blogueiros fazem isso mais e melhor do que eu. De vez em quando imprimo uns posts espetaculares para ler mais tarde. Lá fora. Na rede. Muitas vezes penso em escrever sobre eles…mas me falta ganas de estar diante da tela como antes.
Na verdade, ultimamente o que me falta é vontade de estar longe do céu azul, das borboletas amarelas, das flores que ainda enfeitam meu terraço, dos livros que me chamam a sussurros sedutores para que os leia, mesmo que seja só mais um capítulo.

Tá… me falta também a vontade de perder tempo com as tarefas caseiras. Mas essas, infelizmente, necessitam serem feitas, mesmo que eu as deteste. E quando digo que estou perdida nelas significa isso mesmo. Per-di-da!
Assim…começo a arrumar a sala e quando levo um copo na cozinha já fico por lá, guardando coisas, arrumando a geladeira, varrendo migalhas de não-sei-o-que… aí descubro uma planta sem água e vou aguar todas elas – e são muitas – e já estou de volta ao jardim. Fico por ali largos momentos, tirando folhas mortas, limpando os vasos… aí vejo os vidros das janelas pedindo socorro! E lá vou eu buscar um jornal e um limpa-cristais para passar sobre eles. Então descubro notícias que não li e perco-me nelas por uns momentos, até descobrir que ainda não terminei de arrumar a sala…e também que há um montinho de roupa bem diante da máquina de lavar, que eu mesma empilhei ali, em alguma das milhares de vezes que atravessei a área de serviço. Isso sem falar na montanha de camisas que deixo formar antes de passa-las a ferro. Oh! my god!
Sei que tenho um privilégio de viver numa casa deliciosa, mas paga-se um preço razoável de tempo para mantê-la habitável!
E mais porque ainda convidamos amigos e familiares para compartilhar um espaço tão agradável como o nosso e isso também gasta – e eu adoro investir meu tempo em estar com as pessoas que eu amo – um bocado de horas em comprar e preparar comidas gostosas ( as dobrinhas a-do-ram! ), arrumar os espaços do jardim, proporcionar momentos agradáveis a quem nos visita, criar ou estreitar laços afetivos com aqueles que nos rodeiam e que também nos escolhem como companhia.

Os convites para visitá-los e comer com eles também tem sido constantes. Acho que todos querem aproveitar o verão, os tempos cálidos, os dias mais longos para aproximarem-se mais. No inverno todo mundo se entoca nos sofás e é mais difícil deslocar-se por aí ou por aqui.
Por isso e por mais outras coisas, meu amigos queridos, tenho passado de raspão pelo computador. Mas tenho sentido falta de vocês também. Preciso encontrar uma forma de organizar-me e guardar um espaço no meu dia para nós. Prometo que vou tentar estar mais presente!
Acho que vou fazer um planejamento semanal de horas e tarefas!
Começando por hoje!
Já pensaram… uma psicóloga desempregada precisando de agenda!
Como fui capaz de mudar tanto assim?
Ps: Sobre a orquestra que fui ver em Madrid, posso dizer que estava perfeita, linda… e impossível de se chegar perto. Nove mil pessoas dentro da praça. Não deu para encarar! Não tenho mais o ânimo para ficar em pé e imprensada como uma sardinha, acuada numa das portas que dão acesso à Plaza Mayor de Madrid para escutar, de longe, a apresentação.Eu queria mais do que isso. Fui lá para ver e ouvir, mas o espaço era pequeno demais para um presente daquele tamanho e já estava completamente ocupado duas horas antes do primeiro acorde. Inclusive os pórticos da praça estavam repletos de gente espalhada pelo chão, com carrinhos de bebês que choravam de calor e agonia. Eu, heim!
Uma pena!
Saímos por ali e aproveitamos para passear devagar pela Madrid de los Austrias, sempre um grande e agradável passeio.
Depois escutei a Nona de Beethoven, por Barenboim, em casa mesmo. Um vinho na taça, um queijo na tábua. Feliz. E sem traumas.

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Recuerdos…

Férias…


Lendo Paul Auster em Tarifa. La Invención de la Soledad.

Auster é minuncioso na descrição do pai morto…
Traz-me de volta doídas lembranças.
O Lorde, meu pai, aparece a cada segundo em minha lembrança durante a leitura da primeira parte do livro: O Homem Invisível.
Entre os murmúrios do vento e das ondas que lambem a fina e branca areia tarifenha, gaivotas gritam o nome dele e me transportam para outros ventos, outro mar, outros tempos.

Quanto de compaixão será necessário para entender, ou apenas esquecer, sua estranha e cruel forma de amar?

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Ah… Os Invernos!

Está nevando. Como um presente tardio da borrasca que quatro dias atrás invadiu toda a Espanha, menos no pedacinho de céu sobre a minha casa. A neve despencou com generosa beleza até nas areias do Mar Cantábrio, mas em Madrid não quis dar o ar de sua graça.
Hoje sim. Hoje um restinho de poeira branca e gelada cobre todo o meu jardim e convida a um passeio que se não fosse já tão tarde para arvorar-me por dentro dos pinheiros pintados de branco e prata, não resistiria ao chamado. Fui dar uma espiada lá fora e descobri pegadas de raposa bem diante do meu terraço. Sim, isso mesmo. Aqui moram raposas de verdade. Ruivas.
Melhor aproveitar a proteção do invernadeiro e suas enormes vidraças transparentes para admirar o espetáculo, um bom Neruda nas mãos, nas costas a manta de lã macia, pés dentro de meias coloridas e Mozart dando um concerto privado para mim e minhas azaléias e gardênias, lindas apesar do frio. Assim está bom.
Aí encontrei um poema que precisava vir parar aqui. Está no livro Estravagario do grande poeta chileno, minha paixão de toda a vida, meu inspirador para encontrar o caminho do amor, mesmo sem me chamar Matilde.
O poema chama-se Sucedió en Inverno. (Traduzo no final do post se preferirem ler em Português.) E chamou-me a atenção porque reconheci a flor que apesar do profundo adormecimento do abandono, dentro da minha casa ( meu eu ) insistiu em buscar a própria primavera.

Sucedió en Invierno
No había nadie en aquella casa.
Yo estaba invitado y entré.
Me habia invitado un rumor,
un peregrino sin presencia,
y el salón estaba vacío
y me miraban con desdén
los agujeros de la alfombra.
Los estantes estaban rotos.
Era el otoño de los libros
que volaban hoja por hoja.
En la cocina dolorosa
revoloteaban cosas grises,
tétricos papeles cansados,
alas de cebolla muerta.
Alguna silla me siguió
como un pobre caballo cojo
desprovisto de cola y crines,
con tres únicas, tristes patas,
y en la mesa me recliné
porque allí estuvo la alegria,
el pan, el vino, el estofado,
las conversasiones con ropa,
con indiferentes oficios,
con casamientos delicados:
pero estaba muda la mesa
como si no tuviera lengua.
Los dormitorios se asustaron
cuando yo traspuse el silencio.
Allí quedaron encallados
con sus desdichas y sus sueños,
porque tal vez los durmientes
allí se quedaron despiertos:
desde allí entraron en la muerte,
se desmantelaron las camas
y murieron los dormitorios
con un naufragio de navío.
Me senté en el jardin mojado
por gruesas goteras de invierno
y me parecia imposible
que debajo de la tristeza,
de la podrida soledad,
trabajaran aún las raíces
sin el estímulo de nadie.
Sin embargo entre vidrios rotos
y fragmentos sucios de yeso
iba a nacer uma flor:
no renuncia, por desdeñada,
a su pasión, la primavera.
Cuando salí crujió una puerta
y sacudidas por el viento
relincharon unas ventanas
como si quisieran partir
a otra república, a otro invierno,
donde la luz y las cortinas
tuvieran color de cerveza.
Y yo apresuré mis zapatos
porque si me hubiera dormido
y me cubrieran tales cosas
no sabría lo que no hacer.
Y me escapé como un intruso
que vio lo que no debió ver.
Por eso a nadie conté nunca
esta visita que no hice:
no existe esa casa tampoco
y no conosco aquellas gentes
y no hay verdad en esta fábula:
son melancolías de invierno.
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Aconteceu no Inverno
Não havia ninguém naquela casa. Eu estava convidado e entrei. Havia me convidado um rumor, um peregrino sem presença, e o salão estava vazio e me olhavam com desdém os buracos do tapete.As estantes estavam quebradas. Era o outono dos livros que voavam folha por folha. Na cozinha dolorosa revoloteavam coisas cinzentas, tétricos papéis cansados, asas de cebola morta. Alguma cadeira me seguiu como um pobre cavalo manco desprovido de cauda e crina, com três únicas, tristes patas, e na mesa me reclinei porque ali esteve a alegria, o pão, o vinho, o ensopado, as conversas com roupa, com indiferentes ofícios, com casamentos delicados: mas estava muda a mesa como se não tivesse língua. Os dormitórios se assustaram quando eu atravessei o silêncio.
Ali ficaram encalhados com suas desditas e seus sonhos porque talvez os dormidos ali se despertaram: desde ali entraram na morte, se desmantelaram as camas e morreram os dormitórios com um naufrágio de navio.
Sentei-me no jardim molhado por grossas goteiras de inverno e me parecia impossível que debaixo da tristeza, da podre solidão, trabalhassem ainda as raízes sem o estímulo de ninguém. Sem embargo entre vidros quebrados e fragmentos sujos de gesso ia nascer uma flor: não renuncia, por desdenhada, à sua paixão, a primavera.
Quando saí rangeu uma porta e sacudidas pelo vento relincharam umas janelas como se quisessem partir a outra república, a outro inverno, onde a luz das cortinas tivessem cor de cerveja.
E eu apressei meus sapatos porque se tivesse dormido e me cobrissem tais coisas não saberia o que não fazer. E escapei como um intruso que viu o que não devia ver.
Por isso nunca contei a ninguém esta visita que não fiz: não existe essa casa tampouco e não conheço aquelas pessoas e não há verdade nesta fábula:
são melancolias de inverno.
Pablo Neruda em Estravagario
( Tradução minha )

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Enquanto Janeiro Passa…

Hoje o velho espírito Shirley Valentine baixou com tudo que tinha direito. Passei a manhã conversando com as paredes da casa. Fiz perguntas ao wok chinês. Antes era ao I Ching. Agora é ao wok. Ho ho ho!
Ah! os tempos! Gargalhei alto com a porcaria de verduras que fiz. Só tinha gosto de gengibre. E sal. Desisti de cozinhar por enquanto. Minha competência na cozinha está intimamente relacionada com o meu estado de espírito. Quando estou assim-assim sai tudo mal. Quando estou bem a possibilidade de acertar é bastante maior.
Queria uma amiga brasileira por perto para consultar o I Ching como antigamente. Sozinha é meio sem graça.
Pendurei o mp3 no pescoço e saí por entre os pinheiros. Fazia um frio de entorpecer, mas estava bom.
Depois da ducha aproximei-me da janela e afastei as cortinas… por trás dos cristais vi as colinas brancas de neve. Queria mesmo era afastar as colinas e ver o mar. Aliás, queria afastar o mar e ver além do horizonte. Ver além desta raia em que corro meus dias, meus anos, minha vida.
Maldita tpm menopausica!
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Pus Mozart no meio da manhã, muito alto. Presente meu para os coelhos e perdizes que habitam as redondezas. Mozart faria duzentos e cinquenta anos em 2006 se estivesse vivo. Todo o mundo musical está lembrando o grande gênio.
Eu não fui compositora, nem artista, nem ativista política, nem pintora. Eu não fui nada importante, ninguém me recordará duzentos e cinquenta anos depois de meu nascimento.
O que poderiam falar sobre mim se eu desaparecesse hoje? Em mais quantos anos alguém ainda saberia quem eu fui ? O que diriam? Que fui boa mãe, boa filha, boa amiga, boa amante? Não fui. Nem sempre, eu sei. Não. Não por isso. Que eu gostava muitíssimo de música, de vinho tinto e de comidas preparadas com creme-de-leite? Que amei muitas vezes, a maioria errado, que morri uma ou outra vezinha antes de morrer de verdade? Que eu gostava de banhos de chuva ou que eu tinha um baobá que vivia no Poço da Panela e ninguém sabia que ele era meu, somente ele e eu? Que eu tinha cadernos de textos e poesias que se perderam nas enchentes do rio Capibaribe e que meu pai tinha jeito de Lorde mesmo quando chorava a perda dos livros que o rio lia?
Ninguém vai saber nada de mim. Depois de alguns poucos anos de minha morte serei de novo pó de estrelas.
Também isso não é importante.
Voltei para a sala, minha raia, meu momento. Melhor fechar a cortina e mergulhar no livro. A gente se esquece um tanto da gente quando viaja no que lê.
Aqui vão duas dicas deliciosas para o inverno, leia se possível na rede, próximo à lareira, sentindo o cheiro de madeira queimada misturado com perfume de pinheiros, frio e café. Se estiver em pleno verão deixe os livros embaixo da cama e vá ver o mar… por favor.
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O primeiro é A Ponte de Alcântara, de Frank Baer. Uma novela histórica muito maravilhosa, cuja trama desenrola-se no século XI ( entre os anos 1063 y 1086) e que nos leva para dentro dos mundos árabe, judeu e cristão, simultaneamente existentes da Península Ibérica da época, através de três personagens principais: um moço cavaleiro à serviço do mundo cristão, um médico judeu e um poeta árabe.
As descrições dos lugares, dos costumes, dos dramas que se desenvolvem me inunda a mente de cheiros, sensações, ruídos, e não são poucas as vezes que eu os levo para os sonhos que tenho durante à noite, onde posso encontrar-me num castelo ou em um madjlis árabe ou até mesmo conversando com um hakin judeu. Por sinal estou absolutamente atrapada pelo livro.
Aprendendo muito! Delícia de leitura!
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O segundo é uma biografia extremamente bem escrita sobre Jesus de Nazaret. Armand Puig é doutor em ciências bíblicas, professor de Novo Testamento na Faculdade de Cataluña, presbítero da arquidiocese de Tarragona de onde dirige o Instituto Superior de Ciências Religiosas, entre outras atribuições.
O livro é uma referência importante para crentes e não crentes interessados em saber mais sobre esta controvertida figura da história da cultura ocidental.
Puig escreve de uma forma leve e simples, apelando sempre para o rigor histórico. Utiliza os quatro evangelhos canônicos, aprovados pela Igreja e os denominados evangelhos apócrifos, ademais de outros escritos “civis e extra eclesiásticos” ( fontes judias e islâmicas, e fontes históricas como Flavio Josefo ou alguns escritores romanos ) além de remeter também a autores reconhecidos e consolidados como E.P.Sanders, M. Hengel ou G. Theissen.
A obra se reparte em três grandes núcleos: o perfil humano; a mensagem; e a conclusão.
Ainda estou no comecinho. Mas não queria esperar para indicar porque sei que nele ainda vou demorar. É um livro para se ler com calma, sem pressa. Mas falei dele para o Zadig e ele ficou interessado.
Então tá.
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Outro dia li nos blogs da Leila e do Milton Ribeiro posts que falavam de um bucólico jogo do curriculum vitae.
Taí, vou tentar escrever um. Espero conseguir explorar a minha memória e extrair dela um currículum que se preze.
Au revoir.

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Feliz Natal…


Época de Natal. E um mundo-de-gente quer ser melhor.
E outro mundo-de-gente diz que não vale a pena, porque durante o resto do ano o mundo que quer ser melhor agora esquece o que é ser bom, quanto mais o que é ser melhor.
Essa gente defende que é melhor ficar como sempre, para não parecer hipócrita. Aquela gente talvez precise de algum incentivo para experimentar. Vale!
Mas esse mundo-de-gente que fala em hipocrisia deveria permitir que se inventasse pelo menos mais uma data como esta por mês e assim todos seríamos bons por mais alguns dias durante o ano inteiro.
Que mais dá que seja um dia inventado?
O que importa é que ser bom, mesmo que só de vez em quando, é tão bom que pode contaminar, viciar as pessoas na vontade de serem melhores também em outras épocas do ano, não é?
Já pensou? Querer ser bom em pleno 10 de Abril! Ou 18 de Julho! Assim, só porque é bom ser bom. Só porque faz parte da nossa natureza. Sem necessidade do apoio logístico das empresas de marketing, nem das religiões, nem das luzes espalhadas pela cidade, nem dos coros infantis das praças cheias de pombas brancas e névoa…

Pero… não podendo ser sempre assim, que mal há em criar outro bom motivo para o mundo ser um pouquinho melhor, pelo menos por mais uns diazinhos por ano?
Época de Natal. E um mundo-de-gente quer ser melhor. Que seja, pelo amor de Deus!
Que importa se Jesus nasceu no verão de algum ano perto de 2000 anos atrás e não no solistício de Inverno?
Só importa que Ele existiu.
Que Ele foi um homem bom. Um indivíduo iluminado. Um ser que representa um salto na evolução da espécie humana.
Infelizmente um salto que nem todos nós conseguimos dar, mesmo 2000 anos depois.
Continuemos tentando. Certamente faremos diferença nas próximas gerações!
Por isso, meus votos de Feliz Natal para todos.
E isso, talvez, seja apenas dizer: Sejamos melhores!

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Idades Para Viver…

Quando cumpri os 50 anos pensei em escrever sobre o que está significando para mim ter esta idade, seu efeito no meu mundo, tanto interno quanto externo. Mas não estava tão simples e fácil…

Há dias que me sinto jovem e cheia de vida, sexy até. Tenho vontade de sair e comprar uma saia nova, botas de cano alto, brilho para os lábios…
Sorrio para o espelho do quarto e agradeço a grande oportunidade que a vida está me dando de viver um amor maduro e gostoso, um casamento para breve, uma paz interior, uma alegria ao despertar de cada dia. A saúde vai bem, o que é essencial. O amor também, o que é fundamental. Nada para queixar-me.
Em outros parece que o espelho resolve brincar de bruxo mal e me mostra horrível, envelhecida, sem graça, sem brilho. É difícil até escolher uma roupa para vestir. Nenhuma cor combina com este estado de espírito. E menos ainda com este sobrepeso. Mulher extra-large não cabe em qualquer trapo!

Já sei! Já sei!

Meu olhar escapa dos olhos, desce pelas rugas que não estavam aí até ontem ( ou sim? ou não?) e passeia pelo resto de um corpo que não é mais o que eu me lembrava que tinha até o ano passado.
A menopausa avisa que está chegando com frios e calores, mudanças bruscas de humor, ansias desconhecidas. Medos novos. Ganas de chorar por nada e por tudo… que tudo?
Quem quiser que diga que não, mas cumprir 50 anos é uma passagem. Como se a gente cruzasse o umbral de uma porta sem saber para onde está indo, nem no que vai se transformar. Cada mulher entra e sai desta experiência de um jeito. Apesar das semelhanças em geral, as particularidades contam.
– Como será que vou ficar depois desta passagem?
– E os hormônios? Vou virar EX também neste sentido? Arrisco ou não a reposição hormonal tão polêmica nos meios médicos ?
Pois sim… escrever sobre o desconhecido momento que estou passando não é fácil.
Mas, um dia destes, deparei-me com um pequeno artigo na seção “Manual de Curiosos” do Magazine, suplemento semanal do El Mundo, que ajudou-me a refletir sobre minhas muitas idades. E isso me fez um bem danado. Vou dividir e explicar aqui. O assunto dá muito pano pra manga. Querem ver ?
Para começar ele diz: “Não temos uma idade, temos sete.”

A ilustração é um belo quadro de Grien, um pintor alemão do século XVI e está entre suas melhores obras, atualmente exposta em um museu de Leipzig.
O quadro foi batizado assim: “As Sete Idades da Mulher”, mas apesar da alegoria estar representada por figuras do sexo feminino, creio que podemos generalizar para toda a espécie humana, sem distinção de gênero.
Pois sim…
O que vale aqui é que sua obra serviu de ilustração para relacionar as sete idades que uma pessoa tem ao mesmo tempo.
A idade cronológica é apenas uma delas. Talvez a mais importante na hora de pedir um empréstimo ou preencher formulários médicos, diz a autora do artigo, Cristina Frutos. Mas certamente não é a mais importante para quem está vivendo. Mede apenas os anos vividos desde o dia do nascimento.
Pessoas com mais idade cronológica podem sentir-se, e realmente serem, muitíssimo mais jovens que outras com menos tempo de vida que elas. (Ou o contrário!)
A gente precisa rever os conceitos de juventude e velhice. E é isso que tenho feito ultimamente. Estou revendo meus antigos conceitos! O artigo da revista é pequenino e superficial, mas vale pelo que incita a buscar. Então eu fui dar uma lida por aí e encontrei coisas muito interessantes.
Vejam só…
Idade Aparente é aquela que nos atribuem os outros, baseados em nosso aspecto físico. Nessa eu saio perdendo, pois nem botox, nem silicone, nem cirurgias plásticas, nem nada… como diz a Ro, uma amiga de Recife, sou original de fábrica e os 50 anos vividos estão TODOS aqui. Ho ho ho!
Mas olho! Esta idade tem muito a ver com o estado geral das outras idades. É preciso cuidar DELAS TODAS!
Idade Psicológica é a idade auto percebida. É aquela em que uma pessoa se sente localizada. Está relacionada com as próprias atitudes. Corresponde à capacidade de adaptação, às reações e à auto imagem das pessoas. Reflete e experiência subjetiva que cada um tem em relação à sua idade cronológica e estágio de vida.
Uma pessoa pode sentir-se muito mais jovem do que marca realmente sua carteira de identidade. Seu comportamento, forma de vestir e falar, atitude em relação à vida, etc, serão influenciadas por esta idade “sentida”.
Neste caso, eu acho que, sem olhar muito detidamente no espelho, aliás, de olhos fechados eu tenho uns 38 ou 40 anos, por aí. Normal. A maioria das pessoas sente-se mais ou menos 10 anos mais jovem, sem riscos de parecerem idiotas. Muito pelo contrário, sentir-se mais jovem impulsiona as pessoas a viverem mais ativamente. Pena que não me sinta assim todo dia!
Idade Emocional é a que demonstramos pela qualidade das relações que temos com o próximo, pelo grau de amor ou dor que predominam em cada um a partir das experiências de vida. Isso é o que defende o filósofo Guido Mizrahi.
Entendi que esta idade se mede pela qualidade do afeto da pessoa consigo mesma e com o mundo que a cerca.

Ele exemplifica assim: ” Te conto que os bonsai são aqueles sêres que tem toda a aparência de serem grandes, mas permaneceram pequenos porque os jardineiros japoneses descobriram que, se cortavam as raízes das árvores, as árvores não cresciam nem em altura nem em tamanho, permaneciam pequenas. Nos seres humanos as raízes não são nem mais nem menos que os afetos, o que nos agarra à terra, o mais concreto que temos.” 
Essa vou deixar para comentar em outro post. Tenho uns cortes que vêm desde a época do Lorde que só pude cicatrizar depois de experimentar o amor de mãe, alguns anos de terapia, uma puta depressão e… melhor escrever sobre isso outro dia.)
A idade biológica é aquela que se corresponde com nosso estado físico e de saúde. É a idade que o organismo demonstra com base na condição biológica dos seus tecidos comparados com padrões; depende dos processos de maturação biológica e de fatores exógenos.

A idade biológica é o termômetro que mede como está o funcionamento fisiológico de nosso corpo e mente e é a mais importante a ser considerada no processo de envelhecimento.
Pode ser medida utilizando-se os conhecidos marcadores biológicos: composição corporal (relação entre o percentual de gordura do indivíduo e a quantidade de massa magra), pressão arterial, audição, visão, níveis hormonais, densidade óssea, níveis de açúcar e colesterol no sangue, qualidade da pele, imunidade e metabolismo.
Essa também pode estar bastante abaixo da idade cronológica, principalmente no mundo mais desenvolvido. Hoje em dia algumas pessoas com mais de 80 anos são capazes de correr até maratonas. Em compensação, em alguns países da África, uma mulher de 30 anos pode já ser uma anciã.
Agradeço todos os dias pela saúde que desfruto, mas sinto a minha idade no sobrepeso da menopausa e também quando o corpo não responde com a mesma flexibilidade e rapidez de antes.
Estou já matriculada na Yoga, claro! A gente não tem que se entregar, não é misifios!
Bueno… agora só faltam mais duas para completar as sete.
A idade social, que é aquela que se mede pela capacidade de contribuir ao trabalho e ao grupo, mantendo-nos inseridos e valorizados pela sociedade. Esta varia demais, como variam as sociedades pelo mundo a fora.
Em muitos países os idosos são considerados “estorvos”, desprezados e abandonados à solidão. Mas existem sociedades em que as pessoas mais velhas são consideradas mais experientes e sábias e são muito valorizadas.
Ainda estamos longe do valor que tem os anciãos no japão, mas acho que, no ocidente, as pessoas maiores de idade já estão lutando contra esta discriminação e conseguindo algumas vitórias, mantendo-se ativos e participantes na vida da família e do grupo social até o final de suas vidas.
E, para finalizar, a mais oculta e secreta, segundo o filósofo Mizrahi é a idade espiritual.
E ele diz, sabiamente, aos 38 anos cronológicos de vida: “A idade espiritual é uma gradual tomada de consciência a cerca do carater divino que há dentro de cada pessoa. É um despertar. É sair do tempo para conectar com o divino aqui e agora.
É uma idade que se mede pelo grau de consciência de que uma pessoa, como ser humano, está conectado com as fontes espirituais que regem o universo. É tomar consciência de que se é amado e protegido por elas, que é finalmente um servidor dessas fontes espirituais.”

E diz ainda: “Para alcançar este despertar é importantíssimo haver conseguido uma total aceitação das experiências no tempo, quer dizer, não estar em discórdia com o que lhe há sucedido no decorrer da vida – pais, trabalhos, enfermidades, acidentes – e, também, uma sensação de gozo emocional pelo tipo de relações que tenha tido.
A pessoa vai crescendo espiritualmente com as ações concretas que vai desenvolvendo em relação aos outros. Isto quer dizer que a idade espiritual se mede pelo grau de serviço que alguém presta aos demais seres humanos. Os sêres com idade espiritual avançada se ocupam em servir aos demais.
A espiritualidade tem a ver com o amor, com a entrega. Não é nem mais nem menos que o verdadeiro conhecimento de si mesmo e o estar a serviço dos outros.”

Pois sim…tive a sorte de conhecer e relacionar-me com algumas pessoas que têm uma idade avançada nesse sentido, apesar de serem, algumas, mais jovens do que eu. Uma delas foi um dos meus anjos durante a cura de minha depressão. Ela ensinou-me muito e abriu-me um novo horizonte nesta dimensão do meu crescimento pessoal.
Acho que depois disso eu envelheci algumas décadas e foi o melhor que poderia acontecer-me antes de cumprir os 50 anos. Assim, creio que ainda tenho muito tempo para crescer e ajudar outros a crescerem, amar e ser amada, servir, ser útil, ser feliz, fazer feliz aos que me cercam… e gozar cada segundo da vida que me reste.
Muita vida, espero!
Perguntaram a Buda
O que mais o surpreende na Humanidade?
Compenetrado, o sábio respondeu:
Os homens perdem a saúde para juntar dinheiro e depois perdem o dinheiro para recuperarem a saúde. Por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem o presente de tal forma que acabam por nem viver no presente nem no futuro. Vivem como se nunca fossem morrer e morrem como se nunca tivessem vivido.

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Porque Queria Não Pensar…

Não sei fazer crochê. Nem tricot.
Uma pena, pois se soubesse poderia usar um dos métodos femininos mais antigos para meditar.
Primeiro escolheria o molde, depois decidiria a cor e sairia para comprar linhas ou lãs, quem sabe novas agulhas. Abriria a cesta de vime perfumada de alecrim e mergulharia a alma no universo zen. Esqueceria tudo sem precisar esquecer nada. Seria como um provisório afastar-me do pensar, enquanto os dedos ágeis trançassem o fio em desenhos mágicos…
Bela e sábia forma de meditar!

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Eu Sou Out…

Não sou muito chegada a revistas de moda. Acho que nunca comprei uma!
Claro que já tive oportunidade de folhear muitas nas salas de espera de dentistas, médicos, nas impossíveis esperas dos cabeleireiros ou em casas de amigas.
Já faz muito tempo que me decidi pela moda confortável e simples. E nunca fui muito adepta à maquilagem. Um batom claro nos lábios e um lápis preto nos olhos. Já está!
Desde muito jovem, as roupas de jeans e os tecidos leves foram sempre meus preferidos. Muito algodão nas saias amplas, camisetas e vestidos indianos.
Até meu vestido de noiva foi de linho crú ! Um conforto para o clima quente e úmido de Recife. E para o bolso também!
Mas eu sou out.
As revistas me dizem isso uma e outra vez. A quantidade de dicas para – maquilar-se, pentear-se, cuidar da pele, tornozelos, cotovelos, para vestir-se como manda o figurino e as cores do momento – são imensas! Cada beldade, cada famoso(a) nos diz o que comprar, como estar in e como não estar out.
Os produtos são de marcas importantes e conhecidas, apresentados com seus preços , na maioria das vezes exorbitantes para o bolso de uma criatura de classe média.
As revistas parecem estar programadas para as mulheres com gordas contas bancárias. As outras, isto é, a maioria das outras, sofram o Complexo de Cinderela ou contraiam dívidas incalculáveis no cartão de crédito.Se tiver um.
E quase todas têm pelo menos UM.
As lojas de preços módicos existem, claro. Mas só para as delgadas e jovens.
As outras, mulheres de magras carteiras e tamanho extra, que morram no limbo da globalização da imagem-sílfide da moda atual.
Por sinal que penteado sexy, não? E, pelo amor de Deus, quanto pesa essa criatura???
Mas nem vou deter-me nesse ponto, pois já escrevi dois posts protestando pelo limbo em que estão as mulheres extra-large do século XXI.Aqui e aqui.
Agora, realmente não resisti ao chamado da página dessa revista, suplemento do jornal El Mundo Yo, Dona. E que chega em minha casa a cada santo sábado.
Vou reproduzir aqui alguns dos precinhos das peças apresentadas para um verão europeu IN.

Uma saia estampada com frutas, simplezinha até, que custa a bagatela de 10.905,00 euros! Uma pechincha, não é mesmo?
Isso em reais deve ficar por volta dos R$ 38.167,50. Que tal?
A blusa é uma camiseta de lycra, sem mangas, pois os 42 graus impedem qualquer prenda com mais tecido. E por apenas 526,00 euros. Traduzindo em números brasileiros: R$ 1.841,00.
E para acompanhar a beleza de conjunto de verão fashion, uma bolsinha fofa de 5.265,00 euros. Tão lindinha, dá para guardar um batom e as chaves! Em reais, por baixo, a mulher da moda só vai ter que desembolsar uns míseros R$ 18.427,50 por esta minúscula bolsa assinada por um tal de Roberto Cavalli. Por sinal ele assina também a saia.
Bueno, bueno… Agora só faltam as sandálias, os braceletes e os óculos. Mais uma besteira de 501,00 euros ou simplesmente R$ 1.753,50.
Total: uma indumentária graciosa para sair de copas e tapas pelas Ramblas do planeta por reles 17.201,00 euros.
Heim!?
Querem que eu converta isso em números brasileiros?
Pois sim… toda essa beleza e charme custaria-nos apenas uns R$60.203,50.
Ho ho ho…
Mas não se impressionem. A revista oferece uma opção ao lado com preços deveras mais baratos. Tudo por apenas 313,00 euros. Ou seja, R$ 1.095,00.
Sinceramente, eu não vejo a enorme diferença de “glamour” entre as duas ofertas!
Talvez por não entender muito de moda. Talvez por não ter a carteira recheada de algumas… ou quem sabe seja apenas porque não me importa em absoluto o nome da criatura que desenhou cada prenda e que só por causa disso o preço dispara feito uma bala.
Esses(as) sujeitinhos (as) que ditam o que a gente deve comprar para ser IN nunca vão conseguir pegar-me nesse conto do vigário. Mesmo que eu pudesse e o meu dinheiro desse.
É imoral.
Meu dinheiro é muitíssimo mais valorizado que seus nomes bordados nas etiquetas minúsculas de suas “algemas sociais”.
Eu faço questão de ser OUT.

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