Poesia & BelosTextos

Casa Arrumada.

casa_arrumada

Eu conhecia esse texto mas já tinha esquecido. Adorei lembrar lá no Feissy porque minha casa tem uma vida linda. Troco coisas de lugar, quadros de parede, cheiros, mantas, tapetes…

Gosto de usar tudo o que tenho. Não guardo nada para um dia especial. Aqui todo dia é dia de festa, basta a gente decretar. Também decretamos se tem cama feita ou roupa passada. Café da manhã com Bach ou com Arvo Part. Tinto de verano em pleno inverno… janelas abertas e muita luz. A casa gosta dessa informalidade e respira bem.

 

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Mario Benedetti.

Estava longe de mim quando soube a notícia. Não quis saber o que fazer com ela.
Hoje saquei do fundo do coração a saudade, as lembranças das muitas noites insones com seu Inventário, copiando no caderno de “especiarias” os poemas preferidos.
O caderno era o meu blog no século passado. Tinha uma capa dura de cor cinza em que se podia ver uma fotografia de pequenos troços de pano com as bordas chamuscadas. Sobre eles estavam dispostas uns montículos de espécies: cravo, canela, pimenta, noz moscada.
Talvez ele tivesse a missão de ser um caderno de receitas, mas para mim ele sugeria que guardava tesouros, pois as espécies é que, na antiguidade, protegiam os alimentos de se estragarem e acendiam os sabores dos mesmos.
Como a cozinha não me seduzia, interpretei a mensagem como uma insinuação simbólica: preservar; sabores sutis; manutenção de propriedades; perfumar… e por aí.
Pois era ali que eu colava recortes de revistas, copiava poesias dos meus queridos, guardava letras de músicas, escrevia pequenas reflexões e textos pessoais.
Meu caderno sumiu em uma das mudanças. O Inventário de Benedetti foi roubado muito antes. Sei até quem foi o ladrão.
Agora eu estou fazendo o mesmo no blog. O bom é que aqui eu compartilho o que antes era trancado na gaveta da cômoda.
Então…
Uma das primeiras poesias que publiquei no Impressões foi de Benedetti. Era um Pai Nosso lindíssimo. Vou procurar em meus baús.
Por enquanto deixo o registro, como uma homenagem a ele, uma linda interpretação de Te Quiero, com Nacha Guevara.

Te quiero
Tus manos son mi caricia,
mis acordes cotidianos;
te quiero porque tus manos
trabajan por la justicia.
Si te quiero es porque sos
mi amor, mi cómplice, y todo.
Y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos.
Tus ojos son mi conjuro
contra la mala jornada;
te quiero por tu mirada
que mira y siembra futuro.
Tu boca que es tuya y mía,
Tu boca no se equivoca;
te quiero por que tu boca
sabe gritar rebeldía.
Si te quiero es porque sos
mi amor mi cómplice y todo.
Y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos.
Y por tu rostro sincero.
Y tu paso vagabundo.
Y tu llanto por el mundo.
Porque sos pueblo te quiero.
Y porque amor no es aurora,
ni cándida moraleja,
y porque somos pareja
que sabe que no está sola.
Te quiero en mi paraíso;
es decir, que en mi país
la gente vive feliz
aunque no tenga permiso.
Si te quiero es por que sos
mi amor, mi cómplice y todo.
Y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos.

Mario Benedetti

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Recados …

“A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado…”
“Natureza da gente não cabe em certeza nenhuma”.

Mais uma vez fala Riobaldo, em Grande Sertão, Veredas.
João Guimarães Rosa,
*********************************************************
E como Il Postino, uso mais uma poesia para falar por mim. Para que não nos esqueçamos nunca que somos partes, e que elas podem, às vezes, confundir-se e desencontrar-se. Para traduzi-las e compreendê-las…é preciso arte.

Traduzir-se
de Ferreira Gullar
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?

Este post, escrito pelo Inagaki, precisa ser lido por quem deseja estar informado sobre os acontecimentos que cercam a morte e a não-morte da Meg.

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Uma luz na escuridão…


Gosto de ti quando calas porque estás como ausente
e me ouves de longe, e minha voz não te toca.
Parece que teus olhos tivessem voado
e parece que um beijo te cerrara a boca.
Como todas as coisas estão cheias de minha alma
emerges das coisas, cheia da alma minha.
Mariposa de sonho, te pareces a minha alma
e te pareces à palavra melancolia.
Gosto de ti quando calas e estás como distante.
E estás como queixando-te, mariposa em arrulho.
E me ouves de longe, e minha voz não te alcança:
deixa-me que me cale com o silêncio teu.
Deixa-me que te fale também com teu silêncio
claro como uma lâmpada, simples como um anel.
És como a noite, calada e constelada.
Teu silêncio é de estrela, tão longínquo e singelo.
Gosto de ti quando calas porque estás como ausente.
Distante e dolorosa como se tivesses morrido.
Uma palavra então, um sorriso bastam.
E estou alegre, alegre que não seja certo.

Poema XV
Pablo Neruda

*ela está viva.

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O Gato…

Olho pela vidraça e encontro seus olhos assustados…
Um enorme gato preto ronda meu jardim, o terraço, os bancos sob os frondosos prunos.
Gato preto e silvestre. Grande como um filhote de tigre.
Tenho pena do bichano. Sua liberdade de felino sem dono já se transformou em solidão. Ele vem rondando a casa, como quem pede família e carinho…
Bem que eu gostaria de um gatinho. Mas tenho um lobo em casa não gosta dos bichinhos…
Vou dar para ele ( o lobo ) um poema do Ferreira Gullar.

O gato é uma maquininha
que a natureza inventou;
tem pêlo, bigode, unhas
e dentro tem um motor.
Mas um motor diferente
desses que tem nos bonecos
porque o motor do gato
não é um motor elétrico.

É um motor afetivo
que bate em seu coração
por isso faz ronron
para mostrar gratidão.

No passado se dizia
que esse ronron tão doce
era causa de alergia
pra quem sofria de tosse.

Tudo bobagem, despeito,
calúnias contra o bichinho:
esse ronron em seu peito
não é doença – é carinho.

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As Coisas…

Ando pensando na vida, na morte, nos significados de ambos…
Ando por aí, refletindo sobre a impermanência das coisas… e descubro que elas ficam.
Nós é que vamos…

A bengala, as moedas, o chaveiro,a dócil fechadura, as tardias notas que não lerão os poucos dias que me restam,os naipes e o tabuleiro,um livro e em suas páginas a ofendida violeta, monumento de uma tarde, de certo inesquecível e já esquecida, o rubro espelho ocidental em que arde uma ilusória aurora.
Quantas coisas, limas, umbrais, atlas e taças, cravos, nos servem como tácitos escravos, cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão muito além de nosso olvido: e nunca saberão que havemos ido.
(Jorge Luis Borges)

 

Numa tradução perfeita de Ferreira Gullar

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E Haja Saudade…

De vez em quando o Brasil se esquece – ou finge que esquece – que anda enfermo, ferido, magoado, perdido de sonhos e esperanças e me envia ventos perfumados, brisas sonoras, beijos com gosto de caldo de cana gelado.

Amigos me presenteiam com seus poemas, romances, músicas, notícias sem siglas, sem sangue, sem vergonhas e humilhações… só saudades em cartas escritas a mão, como antigamente, com direito a envelope e selo carimbado…
É mel direto no coração!
Eu deixo que me mimem.
As dores e medos já vem sozinhos, em largas golfadas de enxofre expelidas pelos noticiários, internet, jornais e televisão. Delas, nem aqui no meu monte de coelhos e raposas, eu escapo.
Desde que morri e renasci, entretanto, deixo que – apesar de tudo, seja o que for esse tudo – me mimem.

Pois sim…
Desta vez a dose de mel foi grande demais. Uma amiga brasileira, que vive há muitos anos em Madrid e que eu só descobri por acaso no ano passado, deu-nos convites para a estréia de um filme. “Vinicius de Moraes: Quem Pagará o Enterro e as Flores Se Eu Me Morrer de Amores”, de Miguel Faria Jr.

Fui.
Borboletinhas fazendo “fruf-fruf” na boca do estômago…

Sentada numa das poltronas do clássico Cine Avenida, na Gran Via, meu coração derretido cantava em silêncio cada canção de Vinícius, meus olhos úmidos comiam cada paisagem do Rio de Janeiro, meus ouvidos guardavam cada depoimento de seus amigos, parceiros, parentes, – ai, Chico…meus sais! Vem sorrir lindo assim aqui, vem! – minha alma reconhecia cada poema declamado.
A cada lembrança, uma saudade dos tempos… deles e meus.
Vinícius foi meu primeiro poeta. Cresci com seus livros agarrados no peito e sabia muitos dos seus poemas de memória. Cantei todas as suas músicas, por toda a minha vida…
Amei para sempre, antes de saber que o para sempre, sempre acaba. Mas aprendi também que o amor vivido, se foi amor, não morre, só adormece. A gente guarda ele ali, num cantinho da memória. Ele desencarna… mas não desaparece. Amores vividos jamais a gente esquece. E isso deve ser a eternidade…
Em um 9 de julho chorei sua morte como a de um amigo querido. Depois, passei um tempo sem poder ouvi-lo ou ler a sua obra. Dava um nó no meio do estômago e a melancolia enchia minha alma.
Aos poucos a dor foi dando lugar a uma linda e gostosa nostalgia… até que nunca mais se separou delas.
Hoje, quando leio ou escuto Vinícius, sinto mais do que um simples admiração pela sua obra. Sua poesia e sua música estão irremediavelmente entramadas com minha vida, desde a infância.

Elas provocam-me sentimentos mais íntimos, como se soubessem e dissessem muitas coisas de mim.
Faz-me sentir esse leve rufar de asas de mariposa no coração, respirar um perfume de adolescência que se espalha pelo ar, junto com vagos traços de rostos de antigos namorados, nomes e caras de amigos perdidos pelo tempo, casas, árvores, praias, assobios de meu pai e seu jeito de lorde… mares mansos e verdes… os sorrisos lindos da minha mãe e seus ares de menina e princesa!
Um tudo de cor e alegria invade minha alma e minha cara vira “tela de cinema”.
Se algum-alguém tivesse a capacidade ou o dom para assistir meu filme, veria que belas imagens…

Mas não… parece que ele passa só pelo lado de dentro.
É por isso que eu venho aqui e escrevo.
………………………………….

Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: — Nunca fez mal…
Quem, bêbado, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: — Rei morto, rei posto…
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: — Foi um doido amigo…
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cal?
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançara um punhado de sal
Na minha cova de cimento?

Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: — Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: — Não há de ser nada…
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?
Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?

Vinícius de Moraes
Rio, 1950
……………………………………………
Ninguém, meu velho e querido amigo.
Mas prometo não deixar-lhe morrer…

Ensinarei suas músicas aos meus filhos e netos, escutaremos juntos pelas madrugadas, presentearei seus livros aos amigos, e com eles rememorarei seus poemas em noites de grandes luas.
Estreitarei você no peito até o infinito.

…eternamente sua enamorada.

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A Janela…

Domingo na casa de colunas.
Fazenda de cabras, flores e uma casa tranquila.
Um papagaio inquieto a andar de um canto para o outro no terraço, resmungando palavras incompreensíveis.
Música numa radiola do tempo da guerra: Augusto Patativa, o cantor da voz tremida.
Dr. Diniz nos mostra sua casa ensolarada, os empregados, sua solidão e uma janela.
– Aquela janela? É a mesma deste retrato aqui. Ela ficou pequena com o tempo, mas é a mesma. A moça era uma namorada que tive, sabem, eh,eh, quando era jovem. Faz muito tempo. Eu passava pela casa dela todas as tardes, e ela ficava na janela, nesta mesma janela, como no retrato.
– Era bonita. Muito bonita. Ele disse.
– Não casou com ela?
– Não. Ela já se foi. Disse abreviadamente. Mas ficou a casa. Sabem, eu não pude comprar a casa em que ela morou. Iam demolir, fiquei esperando, então comprei a janela.
– A fotografia? Paguei a Júlio Fotógrafo. Ele foi lá escondido e… plact! Custou-me dois contos a ousadia. Mas vale a pena. Não é linda?
-Tanto a foto como a janela.
– Não, a janela já não é mais. Ficou pequena. Antigamente era bem maior.
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Texto do livro A Idade da Pedra, um encantador e lindo presente que recebi de seu autor, meu amigo Luis Manoel Siqueira, Menção Honrosa Premio Othon Bezerra de Melo da Academia Pernambucana de Letras, 1990.
Por sinal, estou enamorada do livro do Luis Manoel. Seu livro é uma delícia do começo ao fim.
Depois vou publicar um post sobre essas alegrias que o blog tem me proporcionado.
Antes eu recebia um presente assim e ficava com pudores de publicar algo sobre eles, como se estivesse “expondo” demais as pessoas que me presenteavam. Agradecia por e-mail, como para protegê-los. Que grande bobagem!
Acho , agora que estou mais a vontade neste blog, que estava sendo até uma injustiça não compartilhar com todos as delicadezas que recebo aqui na Espanha, vindas de adoráveis leitores brasileiros que frequentam esta página.
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Quadro de Nicoletta Tomas Caravia . Uma pintora autodidata, bárbara, doce, sensível. Uma das minhas últimas descobertas.

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Acho que Não Sei…


<< Um dia nasceu em sua alma o desejo de modelar a estátua do “Prazer que dura um instante”. E partiu pelo mundo para buscar o bronze, pois só em bronze imaginava conceber suas obras.
Mas o bronze do mundo inteiro havia desaparecido e em nenhuma parte da terra podia encontrar-se, exceto o bronze da estátua da “Dor que se sofre toda a vida”.

E era ele mesmo com suas próprias mãos quem havia modelado essa estátua, colocando-a sobre a tumba do único ser que amou em sua vida.
Sobre a tumba do ser amado colocou aquela estátua que era sua criação, para que fosse mostra do amor do homem que não morre nunca e como símbolo da dor do homem, que a sofre por toda a vida.
E no mundo inteiro não havia mais bronze que o daquela estátua.
Então, pegou a estátua que havia criado, colocou-a em um grande forno e entregou-a ao fogo.
E com o bronze da estátua da “Dor que se sofre por toda a vida” modelou a estátua do “Prazer que dura um instante”.>>
Poesia em prosa de Oscar Wilde

Esse texto é para quem vive intensamente o aqui e agora. Mas também para os que compreendem o que significa reviver as antigas emoções com força quando escutam uma música, relêem uma carta, revisam um velha caixa de fotografias.
Minha filha acaba de chegar do Brasil. Trouxe-me antigas vidas minhas nos pratos que foram da Princesa, livros cheios de pequenos bilhetes, riscos no ar de histórias que não lembrava mais que eram minhas… e fotos. Muitas fotos. Todas as fotos que sobreviveram aos anos…
Imaginem a bagunça no meu coração!

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Ano Novo… e Júlio Cortázar.

Estou em plena crise de Janeiro.
Depois de uma semana em Tarifa, entre os novos outros da minha vida, mais uma vez cruzei as horas que separam a “noche vieja” do “año nuevo”. Desta vez estava bem diante do Estreito de Gibraltar, feliz por estar com olhos-de-mar-azul ( e sempre e sempre! ) e triste por estar mais um Dezembro tão longe de meu lugar, dos meus outros de antes.
Voltei mas ainda não me recuperei do mergulho na saudade.
Agradeço com a alma dissolvida numa colher de sopa ( sensibilidade à flor da pele) os beijos e carinhos deixados aqui por tantos queridos e queridas. Eu ando que nem Zeca Baleiro, qualquer beijo de “propaganda” me faz chorar. Aqui não vejo novelas. E mire-veja, nunca pensei que teria saudades até delas!
Aqui faz um frio de três graus. Talvez neve esta noite. A neve não faz ruído. O céu também sabe chorar em silêncio nas noites frias, embora diga-se que um bom pranto necessita de algum gemido, por pequeno que seja.
Pois sim…
Ando tão Janeiro!
Entre um ou outro pranto e belos cantos ( ganhei muita música de presente de natal ) deixo-me estar assim por mais uns dias. Organizando a casa, a simbólica e a real, curtindo o frio e a lareira, as muitas saudades, os novos livros…
Cada livro maravilhoso! Depois eu conto sobre eles. Prometo.
E vou voltar a escrever sobre o Lorde e a Princesa, sobre o passado do rio e do Poço da Panela, sobre as histórias que me construíram. Algumas só agora fazem sentido!
Como Janeiro é meio assim-assim pra muita gente, deixo aqui dois fragmentos de Julio Cortázar, para usar um e outro à medida da necessidade de cada um.
Entre ambos, um momento de silêncio enquanto se cozinha ou se põe água nas plantas é recomendável.
Essas crises de nostalgia pedem um tempo de algum silêncio.
Segue a graça e a beleza poética de um mago das palavras…
Instruções para chorar. 
“Deixando de lado os motivos, atenhamo-nos à maneira correta de chorar, entendendo por isto um pranto que não ingresse no escândalo, nem que insulte o sorriso com sua paralela e torpe semelhança. O pranto médio ou ordinário consiste em uma contração geral do rosto e um som espasmódico acompanhado de lágrimas e mocos, estes últimos ao final, pois o pranto se acaba no momento em que se assoa o nariz energicamente. Para chorar, dirija a imaginação para si mesmo, e se isto resulta-lhe impossível por haver contraído o hábito de crer no mundo exterior, pense em um pato coberto de formigas ou em esses golfos do estreito de Magalhães em que não entra ninguém, nunca. Chegado o pranto, se tapará com decoro o rosto usando ambas as mãos com a palma voltada para dentro. As crianças chorarão com a manga da camisa contra a cara, e de preferência em um canto do quarto. Duração média do pranto, três minutos. ”

Esse homem dizia cada coisa!
Se a gente está meio monga, meio assim-assim mergulha em cada lago-palavra que ele escrevia e fica lá no fundo, surpresa com tanto de silêncio contido nelas !
Mas… volta e meia eu canto.

Instruções para Cantar.
“Comece por romper os espelhos de sua casa, deixe cair os braços, olhe vagamente a parede, esqueça-se. Cante uma só nota, escute por dentro. Se ouve (mas isto ocorrerá muito depois) algo como uma paisagem sumida no medo, com fogueiras entre as pedras, com silhuetas semi nuas acocoradas, creio que estará bem encaminhado, e o mesmo se ouve um rio por onde descem barcas pintadas de amarelo e negro, se ouve um sabor pão, um tato de dedos, uma sombra de cavalo. Depois compre solfejos e um fraque, e por favor no cante pelo nariz e deixe em paz a Schumann.”
É verdade que eu não segui isto tão à risca, de forma que Schumann está aqui ao lado e… ainda não tive a coragem de quebrar os espelhos.
Se bem que deveria. Ah sim… deveria sim!

Ps* Paciência comigo. Não desapareçam.

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O Almoço…

Li um post no Pretensos Colóquios da amiga Dora, e não pude resistir a trazer aqui um dos meus pedaços prediletos do livro de Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e de Famas.
Porque desde que vivo na Espanha, muitas vezes assisti-me como uma estranha numa mesa onde comensais pareciam amigos sem o serem… medindo palavras e gestos aos mínimos detalhes.
De repente eu queria que toda aquela deliciosa comida, as belas flores e os magníficos vinhos fossem para outros… distantes e queridos outros.
Cortázar é divino quando descreve um almoço entre cronópios, famas e esperanças.
Ai, vai. Para você Dora!
E para todos os que também amam Cortázar ou apenas sentem falta de verdadeiros amigos em suas mesas.
…………..

“Não sem trabalho um cronópio chegou a estabelecer um termômetro de vidas. Algo entre termômetro e topômetro, entre fichário e currículum vitae. Por exemplo, o cronópio em sua casa recebia a um fama, uma esperança e um professor de línguas. Aplicando seus descobrimentos estabeleceu que o fama era infra-vida, a esperança para-vida, e o professor de línguas inter-vida.
Enquanto a si mesmo, considerava-se ligeiramente super-vida, mais por poesia que por verdade.
Na hora do almoço este cronópio gozava em ouvir falar a seus contertúlios, porque todos acreditavam estar referindo-se às mesmas coisas e não era assim.
A inter-vida manejava abstrações tais como espírito e consciência, que a para-vida escutava como quem ouve chover – tarefa delicada. Naturalmente, a infra-vida pedia a cada instante o queijo ralado, e a super-vida trinchava o frango em quarenta e dois movimentos, método Stanley Fitzsimmons.
Depois das sobremesas, as vidas se saudavam e partiam para as suas ocupações, e na mesa permaneciam apenas pedacinhos soltos de morte.”

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Saudade da Princesa… e Uma História de Fantasmas.

No dia primeiro de Agosto de 2001 a Princesa se foi.
Fazem já quatro anos. Ainda sinto seu perfume quando minha casa se enche de rosas e floresce o jasmim…
Me presenteia com sonhos onde percebo a maciez de suas mãos, sempre um pouco frias, pousadas em minha face. Neles, sorri para mim como antes de perder a alma para o cruel Alzheimer.
Encontrei um poema de Ferreira Gullar que diz, talvez, o que ela me diria naqueles terríveis meses de silêncio.

UM INSTANTE
Aqui me tenho
como não me conheço
nem me quis
sem começo
nem fim
aqui me tenho
sem mim
nada lembro
nem sei
à luz presente
sou apenas um bicho
transparente.
Ferreira Gullar
…………………
Outro dia, em Segóvia, também ganhei de presente do Dia das Mães uma carícia da mão macia e fria da minha Princesa.
Deixo aqui a história, para que não se perca nos arquivos do Cicatrizes da Mirada.
…………………..

Uma História de Fantasmas. 
A senhora deveria estar perto dos setenta anos, ou mais ou menos, não sei bem ao certo – são tão arrumadinhas as senhoras desta idade! – e estava parada no meio da rua, com uma expressão desorientada, gemendo baixinho…
Vestia-se bem, com seu belo lenço colorido enrolado no pescoço, um abrigo leve pendurado entre as mãos e olhos molhados de quem está prestes a explodir em prantos…
Minha filha notou-a antes de mim e nos aproximamos para ver se podíamos ajudá-la.
Ela disse-nos num fiozinho desolado de voz “quitaran mi bolso!”
Perguntei-lhe onde, quando, como? Mas ela só repetia e repetia como um disco arranhado: “Quitaran mi bolso… Ai, quitaran mi bolso, hija mía.”
Quando aproximei minha mão de seu ombro para consolá-la ela me abraçou pela cintura repetindo seu refrão: “Quitaran mi bolso…quitaran mi bolso, hija mía.”
– Calma, tranquila. Pedi, querendo não assustá-la ainda mais com meu sotaque de estrangeira. Diga-me como aconteceu e vamos ver se posso ajudá-la.
( Não sabia como, mas não podia deixá-la ali como se não a tivesse visto!)
Minha filha também tentava tranquilizá-la dizendo que em Segóvia não há esse tipo de “assalto”. Ela poderia ter deixado a bolsa em alguma loja onde houvesse estado antes. Mas ela, pobrezinha, tremia tanto… Não sabia dizer onde havia estado e não havia se dado conta da falta da bolsa até a hora que nos encontramos. Mas trocou o estribilho e começou a enumerar o que havia dentro da bolsa desaparecida.
-“Dez euros…todo meu dinheiro, e as chaves de casa… ai, e as fotos de meus sobrinhos…ai, hija mía, quitaran mi bolso!”
Aquela voz me trouxe lembranças queridas… e eu quase começava a chorar antes dela…
Começamos a caminhar abraçadas pela rua, fazendo o caminho de volta para ver se ela lembrava onde havia estado. Na curva seguinte, ela exclamou em tom forte e aliviado “Maruja!”
Pensei: “Pronto! Encontramos alguma amiga que vai poder ajudar-nos.”
Era realmente uma amiga dela e estava com a bolsa da nossa querida e desconsolada senhora pendurada na mão como um troféu.
Abraçaram-se contentes.
A “nossa” espanholinha assustada estava rubra como uma cereja, um tanto envergonhada por ter sido pilhada numa travessura de sua memória. Mas sorria feliz com ” su bolso” outra vez na mão, e seu dinheiro , e as fotos de seus sobrinhos, e as chaves de sua casa…
Sorri de volta para ela, arrepiada e com os olhos molhados por lágrimas de uma saudade com outro nome, outro sotaque e outros tempos…
Pediu-me um beijo agradecida e eu a beijei mais agradecida do que ela.
Deu-me um bem estar que fazia tempo eu não sentia…
Madre mía…

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Felicidade Clandestina…

Esta história, escrita por Clarice Lispector, foi publicada por Sonja. Pedi emprestada imediatamente. Porque ela parece minha… Não, porque ela é minha.
Reinações de Narizinho foi o primeiro livro que ganhei. Um livro meu!? Haja felicidade!
E o Lorde, às vezes, chamava-me de Narizinho Arrebitado, que para mim era um elogio e tanto! Mais do que quando me disseram, muitos anos depois, que eu parecia com Florinda Bolkan!!!
Digo que a história é minha porque descreve o que é felicidade clandestina
Descreve, como eu já descrevi, o que era deixar um envelope cerrado sobre a mesa e fazer de conta que ele não estava ali ainda…
Descreve o que era sentar na rede e adiar a felicidade guardada em poucas frases…
Quem leu a História de Amor, escrita neste blog, sabe do que estou falando! E juro que eu nem conhecia este texto antes de hoje.
Ah! Essa Clarice!
Que mulher para escrever o que eu sinto!

*****************************************
Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.
Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”.
Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres.
Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia. Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa.
Como casualmente, informou-me que possuía As Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.
Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.
Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu nao vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.
No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo.
E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.
Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. As vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados. Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!
E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.”
Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito.
Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. As vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.
Clarice Lispector

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Adiamento…E Poesia. (Depressão)

Pois…
Sento-me aqui, em frente à folha em branco do word e escrevo reticências…
É tão difícil descrever o que é sentir-se ameba!
Como encontrar palavras para expressar uma morte simbólica, o medo, a penumbra da alma?
Pedi ajuda a um velho amigo.
O poema de Fernando Pessoa é assinado por Álvaro de Campos.
Eu, assim como ele, queria ter ( ou ser ) heterônimos. Não tive.
Assim que, por favor, esperem que me refaça das dores que as lembranças causam.
Permitam-me que seja reticente…
Há dores que mesmo quando passam, voltam a doer só de olhar para elas.
………………………………….
Adiamento
Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã…
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não…
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico…
Esta espécie de alma…
Só depois de amanhã…
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte…
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos…
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã…
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro…

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã…
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância…
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital…
Mas por um edital de amanhã…
Hoje quero dormir, redigirei amanhã…
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo…
Antes, não…
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã…
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã…
Sim, talvez só depois de amanhã…
O porvir…
Sim, o porvir…

Álvaro de Campos

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Ítaca…Konstantinos Kaváfis.

Uma amiga brasileira escreveu-me perguntando o que significava Ítaca. É que em um dos meus textos sobre a história de amor que eu vivi, e que está nos arquivos aí ao lado, ela leu uma citação à famosa poesia do poeta grego Konstantinos Kaváfis.
Resolvi republicá-la aqui. Não só para ela, mas também para todos os amigos que frequentam esta página. Mesmo já conhecendo-o, é sempre bom reler belos poemas, é sempre bom rever nossas posições nesta viagem fantástica e complexa que é a vida.
Chegar a esse momento da minha não foi nem fácil nem simples, mas valeu viver cada fase do caminho…
Escute a sua alma. Não tenha pressa de chegar a Ítaca.
O caminho vale pelo que ensina…
*Em especial dedico este post a Meg, minha tristonha amiga paulista e a Sherazade, que está construindo a sua casa.
Dedico também a mim mesma, que estou reconstruindo minha casa virtual aqui.
Prefiro a tradução em Espanhol, talvez por ter sido a primeira que li e que me apaixonou. Mas para quem não compreende o idioma, há uma tradução brasileira ao final do poema.
Desfrutem …


Si vas a emprender el viaje hacia Itaca,
pide que tu camino sea largo,
rico en experiencias, en conocimiento.
A Lestrigones y a Cíclopes,
al airado Poseidón nunca temas,
no hallarás tales seres en tu ruta
si alto es tu pensamiento y limpia
la emoción de tu espíritu y tu cuerpo.
A Lestrigones ni a Cíclopes,
ni a fiero Poseidón hallarás nunca,
si no los llevas dentro de tu alma,
si no es tu alma quien ante tí los pone.
Pide que tu camino sea largo.
Que numerosas sean las mañanas de verano
en que con placer, felizmente
arribes a bahías nunca vistas;
detente en los emporios de Fenicia
y adquiere hermosas mercancías,
madreperla y coral, y ámbar y ébano,
perfumes deliciosos y diversos,
cuanto puedas invierte en voluptuosos
y delicados perfumes;
visita muchas ciudades de Egipto
y con avidez aprende de sus sabios.
Ten siempre a Itaca en la memoria.
Llegar allí es tu meta.
Mas no apresures el viaje.
Mejor que se extienda largos años;
y en tu vejez arribes a la isla
con cuanto hayas ganado en el camino,
sin esperar que Itaca te enriquezca.
Itaca te regaló un hermoso viaje.
Sin ella el camino no hubieras emprendido.
Mas ninguna otra cosa puede darte.
Aunque pobre la encuentres,
no te engañará Itaca.
Rico en saber y en vida, como has vuelto,
comprendes ya qué significan las Itacas.

Konstantinos Kaváfis
Se partires um dia rumo a Ítaca faz votos de que o caminho seja longo, repleto de aventuras, repleto de saber. Nem os Lestrigões nem os Ciclopes nem o colérico Posídon te intimidem; eles no teu caminho jamais encontrarás se altivo for teu pensamento, se sutil emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes nem o bravio Posídon hás de ver, se tu mesmo não o levares dentro da alma, se tua alma não os puser diante de ti.
Faz votos de que o caminho seja longo. Numerosas serão as manhãs de verão nas quais, com que prazer, com que alegria, tu hás de entrar pela primeira vez um porto para correr as lojas dos fenícios e belas mercancias adquirir: madrepérolas, corais, âmbares, ébanos, e perfumes sensuais de toda espécie,quando houver, de aromas deleitosos. A muitas cidades do Egito peregrina para aprender, para aprender dos doutos. Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar. Mas não apresses a viagem nunca. Melhor muitos anos levares de jornada e fundeares na ilha, velho enfim, rico de quanto ganhaste no caminho, sem esperar riquezas que Ítaca te desse. Uma bela viagem deu-te Ítaca. Sem ela não te ponhas a caminho. Mais do que isso, não lhe cumpre dar-te. Ítaca não te iludiu, se a achas pobre. Tu te tornaste sábio, um homem de experiência, e agora sabes o que significam Ítacas.

Tradução de José Paulo Paes

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Magia em poesia pura… é Cortázar!

“Uma vez que um parente dos mais distantes chegou a ministro, nos arrumamos para que nomeasse boa parte da família à sucursal de correios da Rua Serrano.
Durou pouco, isso sim.
Dos três dias que estivemos, dois passamos atendendo ao público com uma competência extraordinária que nos valeu a surpreendida visita do inspetor do Correio Central e uma nota elogiosa no jornal La Razón.
Ao terceiro dia estávamos seguros de nossa popularidade, pois a gente já vinha de outros bairros a despachar sua correspondência e a fazer telegramas a Purmamarca e a outros lugares igualmente absurdos.
Então meu tio o mais velho deu por livre a escolha, e a família começou a atender de acordo com seus princípios e predileções. No guiché de emissão de cartas, minha irmã a segunda obsequiava um balão colorido a cada comprador de selos.
A primeira a receber seu balão foi uma senhora gorda que ficou como paralisada, com o balão na mão e o selo de um peso já umedecido que se ia enroscando pouco a pouco no dedo. Um jovem cabeludo se negou de pronto a receber seu balão, e minha irmã admoestou-o severamente enquanto na fila do guiché começavam a suscitar-se opiniões desencontradas.
Ao lado, vários provincianos empenhados em enviar insensatamente parte de seus salários aos familiares distantes, recebiam com algum assombro copinhos de licor e de vez em quando uma empanada de carne, tudo isto a cargo de meu pai que ademais recitava-lhes a gritos os melhores conselhos do velho Vizcacha.
Enquanto isso meus irmãos, a cargo do guiché de encomendas, untavam-nas com alcatrão e as metiam em um balde cheio de plumas. Depois apresentavam-nas aos estupefatos clientes. E faziam-lhes notar com quanta alegria seriam recebidos os pacotes assim melhorados. “Sem pontinhas a vista” diziam. “Sem o lacre tão vulgar, e com o nome do destinatário que parece que vai metido debaixo da asa de um cisne, vejam.”
Não todos se mostravam encantados, há que ser sincero.

Quando curiosos e a polícia invadiram o local, minha mãe cerrou o ato da maneira mais bonita, fazendo voar sobre o público uma multitude de flechinhas coloridas fabricadas com os formulários dos telegramas e cartas certificadas.
Cantamos o hino nacional e nos retiramos obedientes; vi chorar a uma menina que havia ficado terceira na fila do guiché e sabia que já era tarde para que lhe dessem o balão.”

*Em Historias de Cronopios y de Famas – Julio Cortázar

Ando perfeita e absolutamente enamorada de Julio Cortázar!
Como pode uma criatura fazer poesia numa história assim?
Como consegue prender a gente em suas histórias como se fossem teias de aranha cobertas de pequenas gotas de puro cristal?
Não resisti. Traduzi uma delas e trouxe aqui.
Que ousadia a minha!

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Aviso…( de Jenny Joseph)

Estou me sentindo tão bem nesta casa nova que fico passeando daqui pra lá, de lá pra cá… pensando que sou mesmo uma mulher de sorte.
O pessoal da Verbeat é nota dez. Obrigada pela acolhida!
Também estou tendo mais tempo para voltar a visitar com mais constância os blogs amigos. Em breve vou escrever sobre alguns deles.
Hoje quero apenas fazer referência ao Et Alors, da amiga Alma. Um blog que visito há mais de ano e sempre encontro textos interessantes, sensíveis e fortes.
Este que vou reproduzir aqui – é a primeira vez que trago um texto de outro blog para o meu – particularmente me encantou. Trouxe-me lembranças da Princesa, minha mãe.
Trouxe-me sentimentos doces em relação às pequenas liberdades adquiridas com a velhice…

AVISO
Jenny Joseph
Quando envelhecer vou usar púrpura
com chapéu vermelho,
que não combina
nem fica bem em mim.
Vou gastar a pensão em uísque
e luvas de verão
e sandálias de cetim –
e dizer que não temos
dinheiro para a manteiga.
Vou sentar na calçada
quando me cansar e
devorar as ofertas
do supermercado,
tocar as campainhas
e passar a bengala nas grades das praças
e compensar toda a sobriedade da minha juventude.
Vou andar na chuva de chinelos,
apanhar flores no jardim dos outros
e aprender a cuspir.
A gente pode usar camisas horríveis e engordar,
comer um quilo de salsichas de uma vez
ou só pão com picles a semana inteira
e juntar canetas e lápis e bolachas de cerveja
e coisas em caixinhas.
Mas agora temos que usar roupas que nos deixem secos,
pagar aluguel, não dizer palavrão na rua
e ser bom exemplo para as crianças.
Temos de ler o jornal e convidar amigos para jantar.
Mas quem sabe eu devia treinar um pouco agora?
Assim os outros não vão ficar chocados demais
quando de repente eu for velha e usar vestido púrpura.

In Quando envelhecer vou usar púrpura, organizado por Sandra Haldeman Martz, tradução de Lya Luft, Ed. Marco Zero, São Paulo, 1997, p.13.

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Em Todo Deserto Há um Poço…

Sí­ cada dí­a cae,
dentro de cada noche,
hay un pozo
donde la claridad esta prisionera.
Hay que sentarse en el borde
del pozo de la sombra
y pescar la luz caí­da
con paciencia.
Pablo Neruda ( Últimos Sonetos)

 

 

Um dos livros mais líricos que li na vida!

*tradução:
Se cada dia cai, dentro de cada noite há um poço onde a claridade está prisioneira. Há que sentar-se na borda do poço da sombra e pescar luz caí­da com paciência.

Foto: Claudio F. Costa-Ilusão de Ótica

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Eu Pelo Avesso…

Tomando um café no terraço e lendo Obras em Prosa de Fernando Pessoa, separei esse texto:
“Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros).
Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio.
A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me aponta traições de alma a um caráter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me múltiplo.
Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.
Como o panteí­sta se sente árvore (?) e até a flor, eu sinto-me vários seres.
Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada (?), por uma suma de não-eus sintetizado num eu postiço.”
………………………………….
Em meu quarto de espelhos, figuras que não são eu me mostram eus que não reconheço, mas que existem.
E então “apanho do chão dos meus propósitos a energia suficiente” para agir como não-sou, e perco-me entre vassouras, baldes e ferro de engomar!
Doméstica é um desses não-eus que insistem em espelhar-se de vez em quando, por mais que eu tente não vê-lo.

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Pensava Que Latejar Era Ser Uma Pessoa…

Frase de Clarice Lispector, no livro A Paixão Segundo GH
Quando me joguei para fora do teatro, nem palco, nem coxias. Queria a realidade da rua, queria um parque, uma praia. Queria respirar ar puro…
E queria uma explicação. Por quê?
O sentimento de menosvalia era profundo. Saí­a para caminhar pelas calçadas com duas sensações: liberdade e medo. Uma liberdade doce, de ser dona do meu destino… E um medo sem nome, entranhado no osso. Que incompetência para escolher! Como fui capaz?
Perdi a confiança em mim.
As pessoas me perguntavam por que saí do casamento­. Minha pergunta era outra: como foi que eu entrei?
Uns dias depois vi, na vitrina de uma livraria, a resposta. Um tí­tulo, que parecia de neon azul, vibrava por trás do cristal:
“Mulheres Inteligentes, Escolhas Insensatas.” Entrei em transe, e mesmo sem dinheiro, saquei o cartão e comprei sem perguntar o preço. Salvava, com esse ato, meu orgulho, minha auto estima. Sorria e pensava: “Escolhi mal, mas sou uma mulher inteligente.” Caminhei saltitando pelo meio da rua.
Tóin! Ufff…

Que dor descobrir que eu era pior do que pensava!
O livro era uma m*, escrito para ganhar dinheiro com as fraquezas alheias.
Ter comprado a bosta do livro foi a confirmação de que eu não podia mesmo confiar na bosta do meu discernimento, e afundei de novo na bosta da dor, como nunca na bosta da minha vida…
Burra! Burra! Burra!
Mas, com o tempo, as dores adormecem…
E meio adormecida, numa noite do Poço da Panela – para onde eu havia voltado – encontrei num livro de Clarice Lispector, o seguinte texto:
“Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi.E voltei a ser uma pessoa que nunca fui.
Voltei a ter o que nunca tive: apenas duas pernas.
Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar, mas a ausência da terceira me faz falta e me assusta. Era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.
Estou desorganizada porque perdi o que não precisava? “
“É difí­cil perder-se…”
…”Foi como adulta então que eu tive medo e criei a terceira perna? Mas como adulta terei a coragem infantil de me perder? “
“Perder-se significa ir achando e nem saber o que fazer com o que é achado.”
“As duas pernas que andam, sem mais a terceira que prende…
E não sei o que fazer da aterradora liberdade que pode me destruir…”
“Mas enquanto estava presa, estava contente?
Ou havia, e havia, aquela coisa sonsa e inquieta em minha feliz rotina de prisioneira? Ou havia, e havia, aquela coisa latejando, a que eu estava tão habituada que pensava que latejar era ser uma pessoa?”
…”essa coisa sobrenatural que é viver. O viver que eu havia domesticado para torná-lo familiar.”
“Eu me pergunto: se eu olhar a escuridão com uma lente, verei mais que a escuridão? A lente não devassa a escuridão, apenas a revela, ainda mais. ”
Ah! Clarice. Obrigada. Isso é que é escrever!!
Olhei minhas duas pernas, meus 30 anos, empinei o nariz, endireitei os ombros….
E…tropecei mil vezes nas duas enormes e compridas pernas desconhecidas, mas sobrevivi.
Nunca mais caí­ nos contos de neon azul, que hoje fazem a festa dos editores, das farmácias e dos supermercados.
Mesmo que eu esteja em pleno surto de idiotice… sigo andando.
*Marlene Dietrich

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