Viagem

Sonhar é preciso…

Dizem que o universo conspira a favor dos nossos sonhos e cada vez estou mais segura de que isso é a pura verdade.
Eu tenho muitas histórias para contar sobre essas “conspirações” em minha vida, inclusive a maior de todas que é o motivo pelo qual vim parar na Espanha.

Mas, uma coisa é preciso avisar: os sonhos tem que ser compartilhados. Isto significa que eles precisam ser materializados na fala ou pelo menos na escrita. Nada de guardar os sonhos dentro da cabecinha. Eles precisam passear por aí, respirar ar puro… contaminar o planeta com a sua força, espalhar-se pelo cosmos.
Não é necessário que a gente saia contando para todas as pessoas… mas algo do mundo precisa saber que eles existem para que a energia se expanda.
Então… de vez em quando me lembro que é preciso continuar sonhando em voz alta, sempre, sempre. Há um universo a espera, a escuta! Ele tem provado uma e uma outra vez que é assim!
Isso aqui está parecendo livro de auto ajuda americano… mas não é.
Pois sim.
Isso tudo só para contar o que significou para mim o que aconteceu no início deste mês. Estive em Frankfurt, na Alemanha. Fui para assistir um concerto da Orquestra Sinfônica da Radio de Frankfurt, dirigida atualmente pelo diretor Paarvo Järvi, um discípulo de Leonard Bernstein. A famosa orquestra se apresentava com o Orfeon Donostiarra, um coral espanhol fantástico formado por quase cem homens e mulheres bascos. Além disso, duas excelentes solistas, Nathalie Dessay (soprano) y Alice Coote (mezzosoprano), completavam o espetáculo.
O repertório era a Sinfonía nº 2, “Resurreção” de Mahler.
Respire!
Eu mal podia respirar!
Desde o ano passado planejávamos uma viagem à Frankfurt para visitar o jovem músico da família, meu enteado. Ele conseguiu, com seus 25 anos, o que muitos músicos maduros tentaram e não conseguiram: a vaga de solista de oboé nessa prestigiosa orquestra europeia.
Uma vaga que não era preenchida nos últimos 5 anos, embora a orquestra estivesse sempre avaliando candidatos. Agora ele está nos últimos meses de experiência e anda precisando de uns mimos para aguentar a pressão que tem recebido da orquestra.
Queríamos organizar a visita, mas com a mudança de casa, o final do ano com hóspedes, os parcos recursos depois de tantos gastos, etc, etc… fomos deixando passar o tempo.
Mas, por obra e graça do… universo conspirador, estivemos falando desse sonho mais uma vez na segunda feira passada. Sabíamos sobre as datas do concerto, mas as condições do momento não estavam muito propícias para gastos extras.
Passamos a noite da segunda feira falando sobre a maravilha que seria poder estar lá… e vai e vem… e vem e vai….
Bueno, na quarta feira, abri meu correio eletrônico e começei a apagar os spams de sempre. Entre eles uma página de ofertas de viagens, pois se não tenho qualquer possibilidade, nem abro as propostas.
Tóin. Parei com o click do mouse no ar. A oferta era assim: “Vá a Frankfurt por 30 euros”. Heim?
Entrei na página e era isso mesmo, 60 eurozinhos, ida e volta. Sem pensar comecei a fazer os cálculos, casa grátis, comida baratinha e gostosa ( cerveja e salsicha hahahahha…), convites gratis para o concerto. Perfeito!
Mais facilidades que isso impossível!
Telefonei para meu pirata ( o pai da criatura, que baba de vontade de vê-lo tocar numa orquestra como esta ) e em dez segundos estava resolvido: vamos!
Pois fomos…
Na quinta feira estávamos voando para Frankfurt.
Passamos a noite passeando por Berguerstrasse, uma rua movimentadíssima, com bares e restaurantes rodeados por plantas e flores, as cadeirinhas nas calçadas, muita gente andando de bicicleta, um ar de tranquila satisfação na cara das pessoas… um clima primaveril delicioso! Que encanto!
Ao final desta rua encontramos um pequeno parque chinês, com flores de cores incríveis!

Até aí… tudo bem tranquilinho. A coisa começou a complicar quando quisemos comer e recordamos, “de repente não mais que de repente”, que as coisas ali estão escritas em Alemão e, na maioria das vezes, sem tradução para o Inglês.
Descobrimos uma lanchonete gostosa para comer as famosas salsichas que eu adoro. Como pedi-las olhando o menu sem fotos?
Arrisquei de primeira: “¿Hablas Español?” Perguntei sorrindo ao rapaz que me atendeu. “Un poquito”. Respondeu-me, divertido e simpático.
Pronto. Resolvido o problema. Nos próximos minutos trocamos muitos gestos entremeados por palavras soltas de Espanhol, Inglês e Alemão ( só ele, claro! ) e consegui minhas salsichas, de dois tipos diferentes, com os molhos desejados e duas cervejas muito gostosas. Total: 10 euros.
Feliz. Feliz.
Tive a sorte, inclusive, de conseguir falar em Português num restaurante italiano, pois o garçom falou de futebol e quando soube que eu era do Brasil começou a expressar-se perfeitamente em nosso idioma… Hohoho! Ele disse que havia dividido um apartamento com brasileiros e por isso sabia falar Português.
Então, sempre que eu podia testava se o garçom falava algo de Espanhol, ou de Inglês ( mais fácil ), mas na maioria das vezes não foi necessário o exercício da mímica porque estávamos acompanhados por nosso querido músico, que já domina o Alemão.
Na sexta feira conhecemos o centro histórico.
Existem algumas construções que guardam o estilo anterior à Segunda Guerra Mundial, mas a destruição da cidade pelos bombardeios foi quase total. Quatro casitas de nada sobreviveram e foram restauradas, mantendo o clima de Alemania do início do século passado. O resto é novinho em folha.
Alguns arranha céus criam no horizonte um contorno moderno de espelhos e sombras. Mas eu não gosto de arranha céus… mesmo os bonitos.
Subi em um deles para ver a cidade lá de cima. Tá. Normal. Não foi lá grande coisa. Gosto mesmo é dos bairros cheios de árvores e casas antigas, pracinhas com fontes e chafarizes, beira de rio, parques…
E realmente aí foi possível encontrar, restauradas, casas e edifícios lindos.
Então aproveitamos para passear pela beira do rio, tomar mais uma cervejinha em um lindo bar montado numa barca e ver os patos, as embarcações a remo, a bicicleta-cervejaria manejada por jovens cheios de alegria e cerveja ( funciona como um balcão com um grifo de cerveja onde os jovens pedalam e bebem ao mesmo tempo circulando entre uma ponte e outra da cidade).
E… finalmente, na sexta feira à noite nos dirigimos emocionados para o concerto no Alte Oper de Frankfurt, o antigo Teatro de Ópera, quase totalmente destruído pelos bombardeos e recuperado, graças a campanha cidadana contrária a sua demolição, numa obra que durou quase trinta anos.
As pessoas que lutaram por isso podem estar orgulhosas de sua façanha. O edifício é precioso.
A sinfonia de Mahler abarca a alegría de viver, a união com a natureza, o medo existencial, a confiança e as visões do além. Mahler levou seis anos para completar a composição, que foi interpretada completa pela primeira vez pela Filarmônica de Berlim em 1895.
É simplesmente fantástica!
O primero de seus cinco movimentos, composto em 1888, teve durante algunos anos una existência independente como poema sinfônico. No verão de 1892 Mahler acabou o segundo, terceiro e quarto movimento mas ainda faltava o final que ele queria que fosse apoteótico. Para imprimir mais grandiosidade ele incorporou a parte coral, como Beethoven em sua Nona Sinfonia.
Durante o funeral de um famoso diretor, Hans von Bülow, em 1894, Mahler se inspirou para a conclusão da sua sinfonia, compondo o Juízo Final e a Ressurreição cantados por um coro que representa os santos e bem-aventurados.
O Orfeón Donostiarra é especialista nos pianíssimos e altos necessários para interpretar a peça.
E a solistas convidadas eram simplesmente fantásticas!
Quase duas de horas de concerto, sem parar nem para respirar.
Eu não sei como contar isso, mas imaginem 100 vozes de coro cantando e mais de 120 músicos tocando, às vezes ao mesmo tempo.
A Segunda Sinfonia de Mahler tem momentos de uma doçura encantadora, por exemplo, quando a voz da soprano “conversa” com o oboé. E tem também momentos de grandiosidade alucinante, quando a percursão soa como trovões e todos os demais instrumentos soam ao mesmo tempo.
É surpreendente quando o maestro dirige um som de metais que vem de fora do recinto e quando esses sons começam a mesclar-se com os sons dos instrumentos dentro do palco.
É de tirar o fôlego.
Ficamos imóveis até que os aplausos explodiram. Nem sei por quanto tempo aplaudimos de pé. Eu estava em transe… e nem me recordo de quantas vezes o diretor e as sopranos entraram e saíram do palco.
Bom… só me lembro que em algum momento eu me dei conta de que sonhara tanto poder estar pessoalmente num concerto como esse! E que antes de viver na Europa, enquanto vivia na casa do Poço da Panela escutando os maravilhosos discos de música clássica do Lorde, quando sequer podia dar-me ao luxo de ter um sonho assim, sonhava o sonho dele… acompanhando divertida e fascinada seus movimentos de mãos e imaginária batuta.
Meu pai sonhava dirigir todas as orquestras do mundo. E ele fazia isso muitas vezes, em pé, bem no meio de seu gabinete… com os olhos meio cerrados enquanto os auto falantes do som, em sua máxima potência, derramavam música pelo ar. Sua plateia, composta por 4 pessoas, minha mãe e seus três rebentos, também aplaudia de pé.
Uhaaóoooo! Bravo! Bravo!
Ele sempre tinha que trocar os auto falantes, que nunca suportavam o volume em que escutava os movimentos mais violentos das suas sinfonias e óperas mais queridas.
A sorte é que sem vizinhos, além das árvores e do rio, não havia quem se queixasse do barulho e podíamos “assistir” seus concertos a qualquer hora do dia ou da noite.
Pois sim… enquanto aplaudíamos diretor e orquestra em Frankfurt, com especial carinho ao excelente músico da família, José Luís, o solista de oboé que parecia brilhar entre tantos outros músicos justamente porque seu pai estava ali para homenageá-lo, aproveitei… e também dediquei a noite ao Lorde, meu pai.
E quis, no fundo do meu coração, que realmente existisse outra dimensão nos estágios de vida e que ele pudesse saber-ver-estar-ouvir-sentir tudo naquela noite através de mim.
Sábado acordamos em estado de graça. Passeamos todo o dia pela cidade e decidimos ficar em casa à noite, cozinhar algo e botar a conversa em dia relaxadamente.
Pois foi outra boa decisão. Choveu cântaros e relâmpagos iluminaram a cidade. Uma delícia escutar música em casa e conversar intimidades…
Domingo, pé de cachimbo, areia fina, bate no sino… caminhar pelas ruas, entrar nas igrejas, umas cervejinhas aqui, comida japonesa ali, fazer as malas e voltar para casa.
Madrid estava igual… nem percebeu que fugimos.
Agora ando tirando uns sonhos antigos do baú. Estou querendo assistir em concerto, ao vivo, Carmina Burana. Só não escolhi ainda onde.
Mas já comecei a soprar para os ventos…
Ps: Soube agorinha mesmo, vejam só… “O Alte Oper de Frankfurt é o antigo teatro de ópera da cidade, um edifício carregado de história desde que se inaugurou em 1880 com a presença do kaiser Guillermo II. Nele se produziu a estreia mundial de Carmina Burana, de Carl Orff, em 1937.
Ho Ho Ho…

Acho que pode ser lá mesmo. Já vou conferir a programação!
Esse universo!

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Barcelona

Esse post sobre Barcelona é uma mistura de posts passados. Resolvi publicá-los aqui depois que Roseane, do blog Pavulagem da Ro, pediu-me um toque sobre a cidade, já que ela vai estar ali por uma semana.
Encontrei esses posts em um dos meus arquivos do Cicatrizes da Mirada.

( Clique sobre as fotos para vê-las maiores e melhores.)
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Sonhei por anos a fio estar em Barcelona com olhos-de mar-azul. Um sonho que parecia impossível enquanto escrevia-lhe cartas e e-mails. Agora que estava na hora de transformá-lo em realidade….eu queria mais.
Os seres humanos são assim, não é?
Ou isso é prerrogativa das mulheres?

Queria estar maravilhosa. Então, resolvi emagrecer uns poucos quilos e caber mais folgada no pretinho básico.
Pois sim… nem rezando pelo sangue de Cristo!
A viagem pelos Pirineus Aragoneses, uma semana antes de chegar à Barcelona, arrasaram com a minha “já-muito-fraca-força-de-vontade”.
As tentações eram constantes pois a gastronomia aragonesa é fantástica. As tapas do Bar Pau, na cidade de Jaca, os vinhos, os queijos de Anso (um pequeno pueblo pelo qual me apaixonei perdidamente), que maravilha!

Apesar de ter caminhado bastante, não perdi uma miserável grama.
“Antigamente se creia que las setas eran producto de la union de un rayo de sol y uma gota de rocío”. Isso dizia o cartaz do bar. Um bonito dito popular!
“Antigamente se acreditava que os cogumelos eram produto da união de um raio de sol e uma gota de orvalho”. E esse era o estímulo para que provássemos o mais variado cardápio de cogumelos da região. E com eles, os queijos artesanais e os pães caseiros… era impossível beber água. Era necessário um bom vinho.
E lá vinha o vinho!
Ah… e esqueci de dizer que antes da viagem, já pensando em Barcelona, fui mexer nos cabelos, claro. Qual era a estratégia mais conhecida de todas as mulheres para melhorar a auto-estima, antes do silicone e da lipoaspiração? Ir ao cabeleireiro e mudar o corte ou a cor dos cabelos, certo? Fui… eu não aprendo nunca!
Não entendo por que TODAS as mulheres conseguem um tom acobreado nos cabelos castanhos, mas os meus sempre saem cor-de-rosa, assim meio da cor do mercúrio cromo, assim meio da cor do ridículo!
Mesmo que eu tenha pedido sinceramente, em meu Espanhol claudicante, que as mechas fossem discretas e apontado para a menos espalhafatosa do cardápio, não escapei.
Pois bem…
Depois de uma semana em Jaca, caminhando sob o sol e tomando vários banhos de piscina, a cor das mechas passou do rosa-cromo ao amarelo-ovo-queimado…
A piscina é um dos instrumentos mais recomendados para destruir qualquer cabelo, mas eu seria mais louca se recusasse os prazeres da água com aquele calor!
Resolvi relevar a aparência e aproveitar o passeio. “Tudo dependeria dos meus modelos mentais.” Pensei muito zen.
E Barcelona chegando…
Quando estávamos à caminho da cidade eu ainda estava com idéias de felicidade. Mas a onda de calor chegou ao seu auge e, além de matar pessoas, não me deixou nem pensar…

Ao sair de casa pela manhã, em direção à Casa Batló, já estava suada até na sola dos pés.
E, a medida que caminhava e caminhava e caminhava, a roupa ia grudando na pele, o cabelo arrepiando como o de uma bruxa…e eu só queria um banho, dois banhos, três banhos… queria viver debaixo da ducha para sempre!
A roupa colada no corpo, o cabelo preso num rabo de cavalo e o cansaço extra que o calor emprestava a qualquer movimento, arruinaram com meu humor. Meus modelos mentais zen se transformaram em asas negras flutuando diante dos olhos e escurecendo, contra a minha vontade, momentos que poderiam ter sido magníficos.
Assim, sonhei com Barcelona no outono, no inverno, em qualquer outro momento do ano e de meu astral… mas eu queria sair dali imediatamente. Pensei nisso e logo veio uma lembrança astrológica. Isso! Estava a um mês do meu aniversário… claro!
Além de toda a onda de calor que invadiu a Espanha, estava em pleno INFERNO ASTRAL!!!!
Inferno. Inferno. Inferno. Só de pensar na palavra já me sentia queimar de dentro para fora. Ufa! Isso. Foi isso, claro!
Havia um inferno fora e outro dentro de mim! Não sou fã de astrologia, mas queria uma explicação… qualquer uma!
Bom, em alguns momentos de ferrenho esforço para controlar meu humor da cor de carvão e aproveitar as cores de Gaudí, pensava em meus amigos, em como gostaria de mostrar a todos as imagens que consegui guardar, como a incrível Casa Batlló e seu telhado dragão, suas chaminés de máscaras. Lindo! Parece uma casa construída pelas ondas do mar…
Vale a pena visitá-lo!
Antes era um edifício residencial, fechado ao público. Mas hoje é uma espaço para eventos absolutamente espetacular.
Adoro tudo o que Gaudí fez!
E fui , pela segunda vez, ver ao vivo e a cores a  Sagrada Família.
Para aguentar o calor, comprei um leque que vendiam diante da fila quilométrica, sob um sol de lascar o crânio. Impossível resistir. Comprei o maior de todos.
Sacudi minha discreta comprinha diante do rosto por todo o dia, sem saber que estava “falando”. Quando descobri sua linguagem, o danado dormiu dentro da bolsa a maior parte do tempo.
Imaginem que mensagem eu poderia enviar com um leque negro e rendado, enorme, os cabelos daquela cor e a blusa grudada no peito? É uma pena que o post sobre a linguagem dos leques tenha se perdido por aí… quem sabe o encontro também nos muitos cds de arquivos que tenho!

Voltando à Sagrada Familia

Iniciada em 1882 pelo arquiteto Francisco de Paula del Villar, o projeto era o de uma igreja neogótica.

Em 1883  Gaudí se encarregou em dar continuidade à construção. A partir de seus esboços sobre a forma geral do edifício, o arquiteto foi improvisando a sua construção e criando à medida que avançava o projeto. Ele dizia que a igreja tinha o espírito gótico, mas na sua própria linguagem.
Dizem que ele evoluía enquanto a construía e vice versa.
A obra era sua obsessão. Em seus últimos anos de vida, morava dentro da construção e só saía de lá para conseguir dinheiro e continuar o trabalho.
A fachada atual da Sagrada Família é apenas uma das quatro torres projetadas, e a obra continua ninguém sabe até quando. Totalmente construída com doações, ela avança lentamente.
Não creio que eu viva para vê-la terminada.
A Catedral de Gaudí é alucinante!
Quando a vi pela primeira vez, em 1994, havia menos torres e portas de entrada construídas. Creio ter visto apenas a Puerta de La Natividad. Mas agora boa parte do projeto inicial já está em estado avançado de construção.
A Puerta de La Passion conta com esculturas modernas, de Subirachs, inspiradas na obra de Gaudí que vimos depois, nas chaminés de La Pedreira ou Casa Milá.
Uma das características mais marcantes de Gaudí é a utilização de formas orgânicas em seus projetos. Suas colunas parecem galhos de árvores. Suas esculturas de ferro forjado mostram curvas e desenhos que parecem vivos. Seus telhados parecem sair de um conto de fadas ou bruxas… são cheios de máscaras imensas.

A Casa Milá  ou La Pedreira, como era chamado o edifício pelos antigos habitantes de Barcelona, que o consideravam feio ) é um prédio habitado, mas que pode ser visitado.
É impressionante o que foi capaz de criar o famoso arquiteto naqueles tempos, e admirável que tenham permitido suas inovações.
O pátio, as escadas, a cobertura com suas chaminés-esculturas e um apartamento completo, que foi comprado por um banco e decorado à moda art-deco do princípio do século, estão abertos ao público e valem a fila e o preço.
Eu gosto dele. Parece uma duna molhada, ou um conjunto de cavernas escavadas numa montanha… e quanto mais a gente olha, mas vê coisas!
E, detalhe importante, tem AR CONDICIONADO, meu maior objeto de desejo naqueles dias…
A Catedral de Barcelona, de estilo gótico, além de ser maravilhosa em si mesma, tem um encanto extraordinário, para os catalãos: um Cristo negro. O Cristo de Lepanto.
Segundo conta a tradição, ele estava na galera que levava Don Juan de Áustria, irmão bastardo do Rei Felipe II, durante a famosa Batalha de Lepanto contra os turcos, no século XVI. Falei nesta batalha quando contei sobre a vida de Miguel de Cervantes. Ele também estava lá.

O Cristo é especialmente reverenciado em toda a Espanha e mais ainda na Cataluña.
O coro da catedral, de madeira escura e trabalhadíssimo é alucinante. Pode-se passar horas descobrindo os detalhes esculpidos em suas cadeiras e tronos.
Sempre há muita gente visitando as belíssimas catedrais espanholas e eu, às vezes, queria esses lugares só para mim, pelo menos por uns minutos.
Queria não ter que escutar gente conversando, piscando flashes por toda parte, correndo de um lado para outro sem ver nada.
Queria não ver grupos de pessoas absolutamente desinteressadas no que estão vendo, mas seguindo seus guias muitíssimo interessadas em levar a maior quantidade de fotografias possíveis, mais ainda se forem dos lugares onde é proibido fotografar.
Eu saio do sério com esta gente! Tenho vontade de expulsá-los do templo, como fez Cristo com os comerciantes em sua época. Juro!
Onde estão minha bondade e compaixão?! Tóin!
Eles tem tanto direito de estarem ali quanto eu.
Outra visita que não se pode perder é à Igreja Santa Maria del Mar. Uma igreja também muito linda.
Ela alberga a Virgem Del Mar, padroeira das gentes de todos os mares.
E eu, enamorada por um pirata mediterrâneo, adorei ficar ali, protegida do sol, sentindo um frescor que vinha das pedras antigas, do teto altíssimo, da paz que os templos me dão…

Não sou religiosa mas sinto um encantamento enorme pelos templos. Eles realmente são construídos para propiciar essa sensação de colo macio, de conforto.
Nunca deixo de visitar as igrejas, as mesquitas, as sinagogas… não só pela arquitetura e história, mas também pelo que transmitem de acolhimento.
Quando você estiver viajando por qualquer lugar, na hora do grande frio ou do grande calor, não insista em bater pernas pelas ruas… busque um templo e fique lá por um tempo. E a melhor hora é quando está todo mundo nos restaurantes comendo e fazendo barulho.
Essa é a hora de estar quase sós num templo. Vá por mim…
Ano passado li uma novela muito boa, inspirada na construção desta igreja: Catedral del Mar, de Idelfonso Falcones. Se estiver traduzida para o Português, leiam. Além da trama excelente passada na época medieval, muito se fica conhecendo sobre fatos históricos reais da Cataluña.

Um programa imperdível de Barcelona é o Museu Picasso , que ocupa cinco palácios dos séculos XIII e XIV.
Conta com desenhos e pinturas de seus primeiros anos, além de cerâmicas e esculturas. Assim podemos entender melhor porque ele experimentou tantas mudanças na longa vida de artista.
Imagino que, pintando como pintava aos 14 anos, era impossível fazer o mesmo durante os 78 que lhe restavam de vida… tinha que inovar ou morrer de tédio!

Na porta do museu, um sujeito posava com os turistas fantasiado do quadro, O Arlequim Cubista, cuja orelha era um nariz. Perfeito!

Infelizmente não tenho a foto!
As Ramblas “do Planeta”, como diria Caetano é um lugar incrível. Ali acontece tudo. Na primeira vez que estive ali fiz questão de provar a orchata de chufas, que detestei. Pedi só por causa da música. Nunca mais!

As Ramblas são palco de todos os mímicos de Barcelona. Bailarinas, palhaços, princesas, Colombos, índios de arco e flecha, todos imóveis até que se jogue um moeda. Então eles se movem e agradecem. Um alegria para as crianças e os japoneses…

Eu gosto mais dos músicos. Sempre há músicos fantásticos nas ruas de Barcelona. Mas o melhor das Ramblas desta vez foi entrar no Mercado La Boqueria. Montanhas de frutas e especiarias. Verdadeiros quadros – ao vivo – de cor e alegria. Não resisti às amoras

Encontramos um pequeno bar de tapas e cerveja dentro do mercado. Comemos choquitos ( um molusco) e aspargos verdes a la plancha e dois litros de cerveja… que delícia! Ai!
Vou aproveitar para explicar o que é uma tapa.

Nada de violência, meus queridos, é só um petisco qualquer. Pode ser uma fatia de pão com tomate e presunto crú ou um pratinho de azeitonas, ou de mariscos, ou batatas bravas, salada russa…ou… ou….
A variedade é infinita e deliciosa, e o tamanho também. Tem bares que servem tapas que são verdadeiras porções, generosas no tamanho e no preço! A maioria das vezes nem se cobram as tapas… são presentes do bar. Cada bebida que se pede, eles servem uma tapa.
O nome tem a seguinte história: há muitos anos, uma lei obrigava os donos de bares que serviam bebidas alcólicas a dar um pequeno petisco para que os clientes não ficassem muito bêbados.
Já que na maioria dos bares, os espanhóis bebem em pé, junto ao balcão, o bocadito era servido em um prato pequeno que cobria o copo, como uma tampa.
(tapa em Espanhol)
O costume permanece até hoje.
Os espanhóis nunca saem para beber num único lugar. Eles tomam uma cervejinha aqui, pagam e saem… vão para outro bar, e outro … e outro… e assim saem de bar em bar. Só pagam a bebida e comem de graça. Ho, ho, ho…
Mas é preciso tomar cuidado, pois nem todos os bares servem tapas e nem todos são gratuitos. Por isso é bom saber antes!
Bueno, aprendi rapidinho o costume. E me encanta. Aproveitei todas cervejas e tapas de Barcelona. O pretinho básico que fosse ao inferno, ou ao fundo da mala já que no inferno estava eu!
Elegi uma saia e uma camiseta de algodão para a festa de aniversário de minha prima Paula, que trouxe os amigos de Londres para a “festa” e lá fomos nós para o Club Havana, na Barceloneta, comer, beber e dançar. Mesa reservada com antecedência.
Surpresa!! O ar condicionado era ótimo! No salão principal…
Nos reservaram uma mesa no salão lateral, sem ar… nem condicionado, nem natural. Uma estufa!
Reagimos revoltados ao “dar de ombros” do garçom e na cara de pau sentamos em outra mesa, que também estava reservada…
Mas quem disse que eles podiam ter ar e nós não?
Ao final, descemos para dançar. Escolhemos outra mesa, pois aí já não havia reservas, era de quem chegasse primeiro. Pedimos as bebidas, dispostos a curtir o melhor do Havana Club, a dança cubana!
De repente, percebi que a cada componente da nossa mesa que se levantava para dançar, sentavam desconhecidos com seus copos, como se fosse a coisa mais comum do mundo tomarem nossos lugares. Assim, quando as pessoas de nosso grupo voltavam do salão, já não tinham suas cadeiras. Como assim?
Assim. E pronto.
Ficamos entulhados num canto mínimo, com duas cadeiras para 11 pessoas, incomodando os novos donos da NOSSA mesa. Uma multidão chegando… e o ar condicionado acabando.
Tá bom. Tá bom…
“Modelos mentais, paradigmas…” pensei… “Que bobagem! Divirta-se…”
Tentei… Juro! E estava quase conseguindo, ajudada pela bebida fresca e a dança divertida comandada pelo cubano… mas quando saímos de lá e tivemos que passar mais de 1 hora para conseguir um taxi, a mais de 30 graus, às 3 da madrugada, andando de um lado para outro e tendo que quase lutar com os espertos que se atiravam pela porta do carro que nós tentávamos parar, o mal humor voltou com vontade de ficar.
Então… comecei a odiar Barcelona!


Às 4 da manhã, em casa, pensei que estaria finalmente livre da estufa.
Tomei uma longa ducha e deitei de frente para um ventilador lindo, fininho e vertical.
Isso, ele era apenas isso. Decorativo.
Tinha umas luzinhas de azul neón como olhos de extra terrestres no meio do escuro e soprava com uma elegância…
Pfussss…pfussss…
Ventilar que é bom, nipes nada!
Cadê meu leque???!!!
Não deu para dormir… e o dia seguinte já estava ali.
Nem imaginem minha cara de bom humor durante o café da manhã.
Mas como desistir de tudo ?!
Havia Paula e queríamos mostrar a ela o melhor da cidade.
Fomos ver o Palácio da Música. Bárbaro! Umas cores, uns desenhos!
Mas não pudemos entrar. Estava fechado, para reformas. Valeu ver pelo menos a fachada e comprar os postais.
Acho que o calor trouxe à Barcelona um forum de bruxas!
Ou foi o contrário?!
Então…
Para escapar do forno que estava mergulhada a cidade, um templo ou um museu são as pedidas mais refrescantes. E decidimos pegar a estrada e ir ao Museu – Teatro Gala-Dalí, em Figueres. Fora de Barcelona.
Parece que todo mundo teve a mesma idéia. Depois de uma hora e meia na fila, ao sol, e muito sorvete de limão, finalmente entramos para ver a genialidade do artista.

É impressionante! Desenhos, esculturas, pinturas, frescos nos tetos, composições artísticas muito loucas… valem o sacrifício da fila, embora para o meu gosto, o museu guarde muitas extravagâncias do artista e não os seus melhores trabalhos. Um dos que mais chamam a atenção é um enorme quadro onde se vê o ex-presidente americano Lincoln. Olhando por um “catalejo”, se pode ver os detalhes do quadro e o corpo desnudo de Gala, sua mulher, debruçada sobre uma janela. Também impressiona o fresco do teto de uma das salas do museu, em que Dalí e Gala sobem para o céu.Ou o trabalho que representa a famosa Mae West, com um sofá em forma de boca e uma lareira em forma de nariz.Subindo umas pequenas escadas, o expectador pode ver, em composição com as cortinas, o rosto da atriz.Duvidoso gosto artístico, mas sem dúvida, criativo.

O museu não é só composto de obras provocativas. Dalí era um gênio da pintura e do desenho. Era um show de técnica. Mas ele adorava provocar e viveu o bastante para expressar todos os fantasmas de seu inconsciente, além das mirabolantes expressões de um ego fenomenal.
No dia seguinte desisti das cidades e pedi, pelo amor de deus, um parque. Vento, sombras… AR!
Então fomos ao Parque Güell, idealizado por Gaudí. É lindo… e fresco. Fiquei um tempo escutando um artista que tocava a guitarra espanhola, sob uma sombra deliciosa, cercada de colunas lindas… e senti-me mais feliz. Muito mais feliz…
Vi um dragão colorido sobre uma fonte de água fresca, e me apaixonei por ele. Trouxe uma réplica pequenita para meu invernadeiro. Adoro olhar para ela, pequena e encantadoramente colorida. O dragão é um dos símbolos da cidade de Barcelona. Por todas as lojas de suvenirs ele está, em todos os tamanhos e materiais.

Os bancos do parque, anatômicamente desenhados para aproximar as pessoas e facilitar a comunicação são decorados com pedacinhos de cerâmica de todas as cores e proporcionam ao visitante uma vista maravilhosa da cidade.
Não levem em conta meu humor, expressado tão enfaticamente aqui. Barcelona não teve culpa. A cidade é fantástica, mas estava sob o efeito de uma das maiores ondas de calor que assolou a Europa. Só sugiro aos viajantes que não escolham o mês de Agosto para estarem ali, se puderem.
A umidade do ar, a quantidade de gente nas filas, o sol de derreter os neurônios… é desesperador, pelo menos para mim.
Na volta do parque, um passeio pelo Porto Olímpico, a vista dos barcos à vela e navios de cruzeiro, branquíssimos e enormes, as pessoas de todo o mundo passeando pelas lojas, bares e restaurantes , a praia repleta de banhistas, os topless de todas as idades e tamanhos, e muitas paradas para uma cerveja ou um sorvete ou uma água pelo amor de Deus!
Isso tem que ser muito mais gostoso no Outono ou na Primavera, disso não tenho dúvidas!
No verão os sol só desaparece às 10:00 horas da noite. É um dia largo demais!
Eu já estava querendo a noite, a brisa… os terraços frescos.

Mas desta vez, nem de noite havia brisa. Era o inferno, de verdade!

Então… caminhando e caminhando, dei de cara com a Séphora, uma famosa loja de perfumes. Quase um supermercado de vidrinhos maravilhosamente cheirosos! É de enlouquecer entrar nessa loja.
Agora, meu presente de Barcelona foi a Happy Books. Uma livraria especial, com preços super especiais. Fiquei louca, babando como um cãozinho sedento com tantas ofertas!
Comprei um exemplar de História da Arte, ricamente ilustrado e encapado em caixa e fita de seda, por míseros €15,00, quando qualquer publicação deste quilate vale de €70 a €90 , por baixo!
Voltei “happy woman” para Santorcaz, com meu dragãozinho e meu livro debaixo do braço.
E voltar lá só em Novembro, com frio, se Deus quiser!
Pois, desta vez, nem pensei em dançar a Sardana diante da Catedral.
Quando estive ali, na Primavera de 94, tive o prazer de dançar o baile mais característico da Cataluña… e que eu morro de vontade de repetir.
Desta vez sequer pude ver o enorme grupo de pessoas rodando com as sapatilhas de lona e os braços erguidos, num grande círculo humano a “ciranda” espanhola.
E também não pude escutar um violinista ensaiando suas partituras no átrio em frente a Torre Antiga, no coração do bairro gótico dessa cidade encantada…
Com aquele calor, só turistas estavam nas ruas.
Mas eu volto lá… ah! se volto!
Belo lugar… belíssimo!

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Passeio Andaluz…

As chuvas chegaram com gosto e vontade. A Espanha inteira está agradecendo.
Há muitos anos que não havia uma seca tão prolongada na Península Ibérica e, em algumas regiões, a população já estava sentindo os efeitos devastadores da falta de água, tanto no campo quanto nas cidades.
Apesar do desconforto das tempestades para o cidadão urbano, estão todos felizes com a chegada das frentes frias que vem do Atlântico. Os campos em volta de minha casa já estão verdejando outra vez, apesar das árvores que se desnudam preparando-se para o inverno..
A chuva de agora também anuncia que a temporada de cogumelos promete…

Pois sim…
Só que elas começaram a entrar na Espanha bem na semana que meus amigos brasileiros queriam visitar Granada, Sevilha, Córdoba, transformando as estradas em perigosas aventuras e as cidades em caos infernais de trânsito.
Decidimos não arriscar e mudamos os planos. Ficamos em Córdoba, Cádiz e Tarifa, onde o clima estava mais ameno e se podia passear mais tranquilamente. Sevilha estava sob um manto d´água e Granada também, além de já serem cidades conhecidas deles em viagens anteriores.
Como já escrevi antes sobre Córdoba (foto) nos posts do Cicatrizes da Mirada, acho que posso apenas reforçar o quanto me encanta passear pelo bairro da antiga Juderia e depois entrar na Catedral-Mesquita mais linda do mundo.
Mais pela Mesquita que pela Catedral, claro. E me explico:
Quando os católicos resolveram construir a Catedral bem no meio da antiga Mesquita árabe tinham a intenção de deslumbrar o Imperador Carlos V e se esmeraram em adornos de estilos variados.

Ainda bem que algumas almas cristãs sensibilizaram-se com a extrema beleza da Mesquita e não a destruíram completamente.
Quando o Imperador foi convidado a visitar a Catedral disse consternado:
“Há muitas Catedrais belas na Espanha, mas a Mesquita era única. Vocês quase destruíram um patrimônio arquitetônico do Império.”
Eu não me canso dela. Posso ir mil e uma vezes e sempre me impressiono. É impossível não emocionar-se com a beleza de suas colunas e arcos, com a nave do oratório muçulmano, o Mihrab, com os mil e tantos anos de história que transpiram de suas paredes…
Hum…
Pois é. Então…
Vou publicar a delícia das delícias que foi almoçar em um restaurante dentro do recinto dos Banhos Árabes de Córdoba.
Bárbaro!

Bueno, almoçar é coisa que fazemos raramente quando estamos conhecendo ou mostrando uma cidade, mas desta vez fizemos uma exceção já que estava chovendo a cântaros. Entramos num restaurante árabe dispostos a comer com todos os sentidos… Percebendo os cheiros, o contraste de cores, de sabores, de textura, temperatura.
Tem lugar que merece isso, não é não?
Hummmmnnn! Esse merecia. Que delícia!
Cada um elegeu um prato diferente de forma que todos pudessem provar de cada escolha. Cuscuz árabe de verduras e frutos secos, peixe com ervas aromáticas, porco com abacaxi confeitado e peito de frango recheado com figos e molho de nata. Tudo isso acompanhado com duas garrafas de vinho tinto.
Pena que não tenho fotos dos belíssimos pratos!
Estavam simplesmente ESPETACULARES!
Perceberam como é difícil ser magra nesta terra?
Depois fomos convidados a mudar de sala e então estaríamos dentro da Teteria ( Casa de Chá) para o cafezinho, o chá e as sobremesas, mas decidimos caminhar até uma outra, já conhecida nossa. Ali estavam o chá de “herba buena” (hortelã) com os melhores doces já que comi na vida.
Ai… ai…

Entre sofás e almofadas, mesas baixinhas, boa música, diante de uma pátio belíssimo com seu poço… sem pressa e sem agonia… tomamos os chás e saboreamos os doces fabricados com tâmaras, amêndoas, passas e mel…
Só de lembrar já fico aqui babando!
Agora esperem só para ver o que comemos em Cádiz e Tarifa!
Estou achando que o próximo post será dedicado à gastronomia andaluz…
O que vocês acham, heim?! heim?!
Humnsl…
Dios mio! Que comida!

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SOUK- Ethnic Fusion

Voltei. Mas ainda sem poder postar como eu gostaria. Estou sem meu computador.
Este aqui é cheio de limitaçoes de tempo e também para editar as fotos. Nao tem os programas com os quais estou acostumada e sou meio lenta para descubrir as manhas e frescurinhas dele.
Espero ter o meu de volta esta semana ainda!
Por enquanto, vou tentar ficar em dia com a leitura dos blogs amigos e responder aos comentários deixados aqui.
Ah!… antes que eu me esqueça.
Uma das coisas interesantes que descobri em Tarifa foi uma música especial e própria da cidade. Lembram que falei em um dos posts passados? Pois entao…
SOUK- Ethnic Fusion. Este é o nome do disco.
Estava tocando em um bar na beira da Praia dos Lances, enquanto esperávamos sem qualquer pressa pelo belíssimo pôr-do-sol tarifenho.
Haviam apenas três ou quatro pessoas espalhadas pelas mesas do bar, de forma que nao havia qualquer barulho de gente falando.
Exceto pelo sol vermelho se escondendo atrás do horizonte, a praia estava deserta…
Por largos minutos o meu mundo era só essa mistura de vento, areia, luz e música.

A fusao de ritmos etnicos é o charme deste disco. Uma mescla de música indiana, árabe, flamenca, africana. Adorei! O arranjo feito para a música Lili Marlene está um arraso!
Fiquei tao apaixonada pelo disco que pedi ao garçom para vê-lo e no dia seguinte fui direto à loja onde podia adquiri-lo.
Descobri que era uma compilaçao feita em Tarifa mesmo, para um restaurante lindíssimo de comida indiana, árabe, chinesa, tailandesa, africana. Tentei conhecer o restaurante mas ele estava fechado. Ficou para a próxima visita, que espero seja em breve.
Adoro Tarifa!
* Fotos: Capa do disco e pôr do sol de Tarifa
Ps1: Vejam só! Já estou conseguindo postar umas fotos!!!
Ps2: Descobri uma página que tem imagens INCRÍVEIS do Restaurante Souk.
Nao deixem de ir vê-lo, embora a música que toca no site esteja longe da qualidade do disco. Talvez se animem a visitar o pequeno e belo pueblo andaluz em alguma provável visita à Espanha.

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Tarifa Conquistou-me…

Pois é… agora voltei mesmo.
O corpo se queixa da mudança brusca de temperatura. A saudade do mar aperta. A vontade de fumar também.
Pois é… deixei de fumar.
Hum… isto é, estou deixando. Ainda não posso falar no passado. Só fazem quatro dias! Nem vou tocar neste assunto agora, pois o medo de não conseguir me assalta e a ansiedade vai lá na lua!

Melhor contar sobre Tarifa. Sim. Melhor, sim.
Apesar de já haver escrito algo sobre ela durante a semana santa, desta vez pude explorar melhor a cidade e seus arredores.
Tarifa é um pueblo especial para mim. Primeiro, porque ali nasceu olhos-de-mar-azul e lá sua história permanece entranhada nas antigas e estreitas ruas iluminadas pela amarelada luz dos lampiões durante as noites ou pela luz de um sol extraordinariamente brilhante durante os dias.
Tarifa tem sempre uma luz especial, seja qual for o momento em que alguém assome “a la calle”.

Além disso, sua situação geográfica é privilegiada. Está situada entre os dois mares, o Atlântico e o Mediterrâneo e por isso oferece um espetáculo marítimo extraordinário. Por seu horizonte desfilam todas as embarcações que entram ou saem do Mediterrâneo, desde lanchas de passeio, veleiros e botes de pescadores a enormes navios de cargas ou de guerra.

É um eterno ir e vir de embarcações com bandeiras diversas singrando as águas azuis do Estreito de Gibraltar, embora esse nome não faça jus ao verdadeiro “estreito”. A parte mais estreita realmente não fica em Gibraltar e sim entre Tarifa e Punta Cires, no Marrocos, com 14 quilômetros de largura.
Pero… batizaram-no os ingleses e não os espanhóis ou os marroquinos. E assim ficou, até quem sabe quando…


Bueno… apesar de meu sangue genuinamente pernambucano, acostumado as tépidas águas das praias nordestinas, não pude deixar de aproveitar os mares de Tarifa, embora a temperatura de suas águas oscile entre absurdos 16 a 22 graus, dependendo do vento que sopre.
Ah… esse personagem é o mais importante de Tarifa. O vento.
Todos acompanham com imenso interesse as previsões meteorológicas, seja pelo jornal, rádio ou TV.
É que nesta cidade o vento é quem organiza a vida das pessoas.
Se há vento poente, a cidade se move de uma forma, as pessoas fazem algumas coisas. Se sopra o levante, os planos mudam e as pessoas fazem coisas distintas. E isso é sério!
Desde muito pequenos os habitantes já aprendem a respeitar os ventos de Tarifa. Eu achava meio exagerado esse negócio de falar do vento todo-dia-e-o-dia-todo. Até que entendi… Quando o levante começou a açoitar a cidade e não dava nem para caminhar pela rua!
Ele sopra com uma força descomunal! Os barcos não podem sair a pescar, nem os adeptos a esportes de vento podem sair ao mar. É muito arriscado.
Mas, se o vento é “flojo”,isto é, fraquinho, seja poente ou levante, as praias se enchem de gente. À Praia dos Lances, no Atlântico, se vai quanto o vento é levante, isto é, vindo do Mediterrâneo. Pois se um desavisado insiste em ir com vento forte, vai comer ondas de fina e branca areia até pelos ouvidos. Se ousa ir com vento poente, vai morrer de frio.
Com este é melhor se dirigir à Praia Chica, que é mais protegida do vento gelado que sopra desde o Atlântico, mas em compensação a agua é muito mais fria devido às correntes e profundidade de suas águas. Para mim era um suplício enfrentar os primeiros minutos de um mergulho, mas depois… a saudade dos banhos de mar ganhava sempre a luta entre os arrepios de frio e o prazer de poder mergulhar e nadar um pouco.
Não perdi um dia sequer de praia. Nem mesmo quando o pueblo amanheceu negro e chuvoso. Nada mais delicioso num dia assim que abrigar-se bem e sair para uma bela caminhada pelo passeio marítimo que circunda as praias e rochas, o castelo e as muralhas da cidade antiga.
Outra delicia foi passar o dia visitando os pequenos povoados próximos.

Estivemos em Vejer de la Frontera, uma cidadezinha linda no alto de uma colina, com uma vista impressionante do Estreito e de Tanger, do outro lado do horizonte. Daí fomos a Barbate, onde comi uma porção de delícias como almoço: polvo, lula com alho frito e atum com batatas, vinho e etc…
De sobremesa um assassino flan de figos confeitados ao vinho Pedro Jiménez. Uma coisa de matar de gosto uma pessoa normal, imagine uma fã de doces como eu.
E para fechar com chave de ouro, uma tarde inteira de sol e mar cristalino em Zahara de Los Atunes, só com a parte de baixo do biquíni, numa gostosa e descontraída experiência de top less, aos “quase” 50 anos! Fato absolutamente normal aqui, para mulheres de qualquer idade e manequim. Peitos de todos os tamanhos e formatos passeiam pela praia e tomam sol sem que ninguém os examinem com olhos críticos ou maliciosos. Uma delicia de liberdade e prazer.
Olha só uma das paisagens de Barbate!
Bronzeadíssima, fui convidada a assistir a abertura da Féria Anual de Tarifa, com a entrada na cidade da Virgem de la Luz, acompanhada por 577 cavalos montados por velhos e jovens, homens e mulheres, todos vestidos à carater, com a vestimenta de gala do campesino tarifenho.
Para isso vesti um belo traje de cigana, com rosa no cabelo e xale no pescoço. Estava a própria andaluza!
Me encantei tanto que não queria mais tirá-lo.
He he he…

Ainda bem que tive a oportunidade de usá-lo outra vez num jantar oferecido por uma das “casetas” armadas na Féria para comemorar a festa da patrona da cidade.
Linda festa!
A maioria das mulheres e meninas vestidas com seus alegres e coloridos trajes, as músicas sevilhanas dançadas com maestria, a manzanilla rolando solta em todas as mesas.( Manzanilla é um tipo de vinho branco, servido muito gelado.)
Eu estava tão integrada ao grupo que ninguém podia imaginar que eu era uma brasileira “infiltrada”.
Só não arrisquei dançar no palanque porque fiquei simplesmente babando com a performance das mulheres. Tanto que uma delas ofereceu-se para ensinar-me numa próxima visita à cidade.
Oferecimento aceito, óbvio.
Um encanto foi assistir uma apresentação da dança típica de Tarifa, com homens e mulheres cantando e tocando as guitarras e os pedaços de bambu ( as cañas ), numa demonstração clara de que a tradicional vida do campo pernamenece viva ali, apesar da invasão de estrangeiros atrás de férias de sol e mar, iguais em quase toda parte do planeta.
A casseta mais tradicional passava as noites tocando e cantando a Chacarrá, música e dança específica de Tarifa. Emocionante e diferente de tudo o que já vi até agora na Espanha.
Depois eu conto mais sobre roupas, costumes, gastronomia…e minha última descoberta: música!

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Cuidado Com O Que Pede…Segóvia!

Pois pode conseguí-lo quando menos espera…
Complementando o post anterior, um dos passeios que indico a qualquer visitante e em qualquer época do ano é Segóvia. Já publiquei muitas vezes posts sobre a cidade onde vive e estuda minha filha. Além de bela e histórica, ali nunca faz calor. Pelo menos não o calor de Madrid.
E é muito pertinho. Fica apenas a uma hora daqui.(Foto ao lado:Catedral)
Pois então…
Levamos nossos hóspedes para conhecer a cidade. Não se pode perder de entrar na impressionante Catedral em estilo gótico, a “Dama Rosa”.

Nem o Alcazar, que mais parece um castelo de contos de fadas!Um belíssimo lugar cercado por bosques e pequenas clareiras onde descansar e refrescar-se.


E aproveitamos também para conhecer o Palácio Real de La Granja de San Idelfonso, antiga residência de verão dos Reis da Espanha.
Eu já havia estado ali em outra oportunidade, mas era outono, não haviam as flores e as fontes estavam desligadas.
Era lindo também, mas agora…
A profusão de cores me emocionou.
(Foto abaixo: Palácio San Idelfonso)

Passeamos descontraidamente pelos jardins, tomamos um delicioso café sob suas árvores, visitamos as dependências internas do palácio, com seus imensos lustres, relógios valiosos, quadros e tapetes espetaculares.
Embora não tenha o acervo dos outros palácios que já visitei, foi um encanto de passeio.

Depois procuramos uma taberna de assados, mas obedecendo a regra de quem está ali apenas por um dia, melhor pedir vários pratinhos de tapas. E deu certo, mais uma vez. Provamos quatro ou cinco delícias acompanhadas por um pão assassino de dietas e seu parceiro e refrescante vinho tinto com cassera ( que é o tal do tinto-verano que falei antes) e saímos pelas ruas sem problemas de sono ou cansaço.
(Fotos: Fuente de las ranas)

Depois de muito subir e descer , escolhemos uma cafeteria para outro café e sorvetes ( ai meu Deus!) e os suspiros de felicidade subiram aos céus!
Adorei muitas coisas que vi no palácio e em seus jardins e fontes, mas esta escultura de uma deusa, que estava em uma das salas da Rainha, encantou-me particularmente.

Provavelmente não tem muito valor, pois nem cartãozinho havia explicando algo sobre ela ou sobre seu autor.
A peça é esculpida em mármore e o rosto parece coberto por um finíssimo véu. Mas é tudo de pedra!
Como ele conseguiu isso?
Em mármore???
Ah! apaixonei-me!
Se eu pudesse escolher alguma peça dali para possuir seria ela. Nem pensaria no valor financeiro dos enormes lustres e relógios de ouro que vi espalhados por todas as salas. Nunca dei muito valor ao dinheiro… e talvez por isso nunca me sobrou.
Outro dia estava pensando nisso. Nunca pedi para ganhar muito dinheiro, mas acho que vou começar a pedi-lo… ho ho ho!
Pois meus pedidos estão com um prestígio!
É preciso ter cuidado com o que se pede… de repente o desejo se realiza e a gente está desprevenido.
Mas nem pensem que ganhei a bela deusa!!
Fui reclamar do calor e do verão escaldante e não é que me mandaram uma frente fria do norte!?
Sim… 7 graus fez esta noite.
E eu estava de camiseta, ampla saia de algodão e sandália aberta, pronta para dançar na praça de Escariche, um pueblo da província de Guadalajara,em Castilha la Mancha, aqui pertinho de casa.
Esta época é a preferida pelas pequenas cidades para celebrarem suas festas anuais. Provavelmente porque as noites são cálidas e agradáveis, os filhos e netos da terra espalhados por todo o país voltam às origens e vêm visitar seus pais ou avós.
Pois nada de noite cálida. Fez um frio danado!
Foi só sair de perto do calor agradável da churrasqueira na casa de campo de uns amigos e caminhar até a rua principal da cidade que nem o vinho tinto, servido com generosidade, nem o “baile” organizado na praça principal de Escariche foram suficientes para aplacar o frio que eu sentia.
Bueno, que fazer… jogar um belo e grosso xale emprestado sobre os ombros e aproveitar a festa. Que delícia de festa!
Para começar, fogos de artifício dignos de uma noite de Ano Novo, depois muita música, alegria e a peregrinação pelos bares. Pelo caminho, amigos dos amigos se uniram ao nosso grupo e parecia que eu já fazia parte da vida deles desde sempre. Uma camaradagem, um carinho e atenção que isto sim, aqueceu-me o coração. Voltei para casa às sete da manhã. Feliz e contente da vida. Os pés quase congelados! Mas isso foi fácil de resolver… foi só enroscá-los em outros mais quentinhos…
Também, quem mandou pedir frio!?
Agora fico só imaginando acordar um dia destes e encontrar minha bela deusa de mármore no jardim!
Não custa sonhar, não é?

Ps:Segóvia iluminada é linda!

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Pedaços de Mim…(Cap13 )

A sala estava cheia de caixas de papelão, etiquetas e rotuladores de cores variadas…
Enquanto eu desfazia as estantes de livros e tentava não pensar que teria que separar-me deles, a minha vida ia passando diante dos olhos como um filme antigo, em preto e branco…
Olhava o livro, lembrava onde o tinha comprado, em que época havia lido, que sentimentos havia despertado em mim. Alguns iam direito para uma das caixas. Poucos, devo admitir. Outros, muitos, ficavam ali na mão, pedindo para serem abertos, relidos, mostrando as notas feitas a lápis nas margens de algumas páginas, reagindo a serem trancados entre quatro paredes de papelão por um tempo indeterminado. Um sofrimento!
Eu já sabia que não poderia levá-los comigo, pelo menos de imediato. Mas onde guardá-los?
Pensei nele. Um dos meus irmãos que adora ler. Mas os livros em sua casa, depois de lidos (apenas por ele), eram objetos sem categoria. Perdiam qualquer batalha por algum status na família. Ficavam guardados numa antiga e fria despensa, misturados com trastes velhos.
Sua esposa adorava que as estantes de sua sala fossem super-clean. No máximo uns pequenos objetos decorativos de vidro transparente, um ou outro vaso com arranjos de flores secas, belos candelabros. E só.
– Livros? Na sala? Nem pensar! Dizia que cheiravam a papel velho e guardavam toda a poeira do mundo.
Pois então… os maravilhosos livros de meu irmão dormiam na gélida despensa mesmo. E digo dormiam porque sequer estavam dignamente em pé, com o lomo aparecendo. Jaziam deitados. Todos. E de frente. Irreconhecíveis!
Por cima de seus corpos, um sem número de objetos: sapatos velhos, cabides quebrados, bacias furadas, espanadores rotos, sacos plásticos vazios… “Pedacinhos de morte”, como diria Cortázar.
Para lá eu não mandaria um só dos meus queridos pedaços de vida…
Escolhi apenas os didáticos que pudessem ajudar seus filhos nos exames de vestibular. Esses sim… estariam espalhados pelos quartos dos meninos, até que não fossem mais tão úteis e acabassem no Cemitério dos Esquecidos. A terrível e bolorosa despensa-trasteiro-biblioteca.
Separei também Obras Completas de Freud, que ele pediu-me com os olhos brilhantes, mas só com a promessa de que ficassem na prateleira do quarto de um de seus filhos, se esse concordasse. Não podia sequer imaginar que Totem e Tabu ou a Interpretação dos Sonhos fossem enterrados naquele monte de tranqueiras!
Bueno, pensei em meu outro irmão. O Pescador de Ilusões.(Um dia eu explico esse apelido.) Essa criatura nunca leu um livro inteiro. Mentira minha. Leu sim. Um. O Alquimista…
Suas estantes são cheias de troféus de pesca, cinzeiros e estatuetas horríveis. Mas ele as adora!
Bueno, não custava tentar.
Suspirei quando ele disse que não tinha espaço para guardar meus livros. Eu já sabia… suspirei nem sei por que.
Depois de trocar mil vezes de opinião sobre o que fazer com eles, revendo preços das companhias aéreas, navios, correios, passando inclusive pela encantadora idéia de tirar tudo das malas e transformá-las numa biblioteca ambulante (as roupas são perfeitamente compráveis em qualquer parte do mundo) e descobrindo que o peso das pobres coitadas quadruplicava sem resolver a questão, – cabiam tão poucos! – voltei às caixas. Separei tudo de novo e criei categorias para eles. Categorias afetivas, diga-se de passagem! Deixei tudo ali, no meio da sala, até conseguir pensar com calma. Tarefa difícil naqueles dias.
Ainda tinha que saber o que fazer com as cartas, bilhetes, fotografias… Antes sabia que podia contar com a cumplicidade e discrição da Princesa. Mas… agora que ela não vivia mais, como deixar minha vida assim, por escrito, nas mãos de outro alguém que não fosse ela??!
Meu coração parava quando olhava para o armário e via a enorme caixa de cartas…cópias das enviadas junto com as recebidas, no mesmo envelope. Maços e maços envolvidos em fitas. Meus sentimentos escancarados, escritos em épocas distintas para os personagens importantes de meu passado… Mas esse capítulo merece um post a parte.
Concentrei-me nos livros. Tinha que encontrar uma saída.
Finalmente tive uma idéia fantástica! Chamei uma amiga querida (ela, aquela que rondava minha porta nos dias de escuridão)  e fiz uma proposta semi-indecente. Ela ficaria com meus livros mais queridos (muitos) em sua casa e em lugar de honra ( por favor!) e assim que eu pudesse iria buscá-los, pouco à pouco. O resto eu deixaria com o Pescador de Ilusões, mesmo sabendo que seriam abandonados nas prateleiras do quarto de serviço. Um lugar arejado, pelo menos! Seriam resgatados assim que eu pudesse.
Pois sim…ela disse sim. Mas não poderia quitá-los das caixas. Ainda não tinha casa. Receberia seu apartamento em alguns meses, mas não poderia mobiliá-lo até que pagasse as últimas prestações. E não sabia quando poderia viver nele.
Foi aí que minha idéia cresceu. Ofereci-me para mobiliar sua casa. E emprestei tudo o que estava destinado a um depósito: lavadora de roupas, geladeira, fogão, micro-ondas, televisão, cama de casal e solteiro, mesinhas, luminárias, condicionador de ar, estantes, objetos de cozinha, etc… e livros. Muitos e deliciosos livros. Sabia que estaria tudo muito bem cuidado. E vivo! Respirando, fazendo parte do seu cotidiano.
Que mais precisa uma pessoa para começar a vida num apartamento novo e sozinha?
Sim, sei. Música. Isso ela já tinha, ainda bem.
Seus olhos faiscavam de alegria. Já podia contar com a casa montada!
Agradeceu-me contentíssima! Que graça! Ela me faz o favor e ainda agradece!?
Disse-lhe então que eu deixaria com ela só mais uma coisinha. Grande, mas que não ocupava espaço: toda a minha gratidão. Na verdade, nossa. Pois creio que os livros também agradecem a vida que estão levando…
Soube que está lendo como nunca… e sorrio feliz com a notícia!
………………….

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Para Pensar…

“Um dia a velha pianista abriu a janela e viu uma menina sentada na varanda do vizinho.
– Como vai, garotinha?
Como já não enxergava muito bem, a velha pianista catou na gaveta da escrivaninha seus óculos de aro de metal e os ajeitou sobre o nariz.
Não havia nenhuma menina na varanda. Apenas a escultura de um anjo, em cima de uma mesa.
Mais do que depressa, a velha pianista devolveu os óculos para a gaveta e abriu um pequeno sorriso:
– Que dia frio, hem, garotinha? Parece que esse ano o inverno vai ser bravo…”
(A Menina da Varanda – Léo Cunha)

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Viajando Para o Brasil…

Onze da noite de um domingo.
Mas não qualquer domingo. Um domingo especial.
Durante o dia inteiro não consegui comer, nem dormir, nem ler. Coisas de fazer todo domingo sobraram nas mãos, no corpo, na mente. Eu só queria engolir o tempo.
Assim saí de casa com o coração derretido de emoção, mesmo com o frio de 6 graus.
Aeroporto de Barajas, Madrid. Voo da Ibéria, marcado com antecedência de três meses, com destino ao Rio de Janeiro.
Depois, um dia no Rio com a ilusão de um encontro marcado com Manoel Carlos, meu amigo do blog Agreste, para um almoço com paisagem de Pão de Açúcar e tudo.
Ao final, coroando meus sonhos, um voo direto para Recife, com direito a um grande grupo de amigos queridos nos esperando no Aeroporto dos Guararapes.
Dois anos sem ver meu país e minha gente, sem sentir o calorzinho (insuportável) de suas cidades e (adorável) de suas praias! Dois anos sem ir à Recife.
Que delícia de ansiedade!
Resisti bravamente à tentação de ir ao cabeleireiro antes da viagem. Nem pensar em arriscar a sair da Espanha com os cabelos rosa-mercúrio-cromo ou esticados como os de uma japonesa. Botas no armário. Escolhi uns mocassins cômodos e leves. A gente aprende, né? Esqueci os chocolates, companheiros inseparáveis das longas viagens.
Pois é…
Dois anos sem tomar um avião, sem encarar as bruxas dos aeroportos e eu já havia esquecido que elas existem.
O vôo sairia às 01:45 da madrugada do dia 20. Daria para uma boa cochilada e já acordaríamos no Rio. Perfeito!
Mas não saiu.
Depois de manter-nos dentro do avião por mais de três horas, o comandante avisou que havia um defeito nos equipamentos eletrônicos e que em 20 minutos estaria tudo resolvido. Não estava.
Suspirei e pedi calma a mim mesma. Desta vez estava com olhos-de-mar-azul ao meu lado. Não deixaria que meu ânimo se esvaísse. Afinal, iríamos juntos ao Brasil. JUNTOS! Isso era o único que importava!
Saímos do avião para um aeroporto vazio e com tudo fechado. Meu estômago colado nas costas de tanta fome e sede. Cadê meus chocolates?!
Levaram-nos para uma lanchonete onde podíamos escolher um sanduíche e um refrigerante ou um sanduíche e um refrigerante. Uma fila enorme e um único atendente com cara de “que-é-que-vocês-estão-fazendo-aqui-a-essa-hora? “
Um grupo de baianos reclamava seus direitos a uma funcionária da Ibéria que nos olhava como se fôssemos todos refugiados de guerra, dando-lhe trabalho extra na madrugada tranquila de Barajas. Uma senhora negra, com cara de entender de santos e orixás disse que o avião ia cair, que ela tinha sonhado, mas que suas orações fizeram com que o mesmo não decolasse de nenhuma forma. Exigia que trocassem-nos de avião. Naquele ela não iria mais! Uma perua loura-oxigenada com umas botas salto 15cm, levando uma caixa de madeira com um gato dentro exigia comida para seu bichinho aos gritos. Sem opção. Sanduíche e coca cola era tudo o que havia. Tentei ver a cor do gato, mas não deu. Ui!
Depois de quase uma hora levaram-nos por escadas e esteiras rolantes para tomar um ônibus para um hotel em Madrid com a maravilhosa notícia de que o nosso voo só sairia às 16:00 horas.
Heim!?
Por que meus encontros com os aeroportos tem que ser assim? Por que eles não gostam de mim?
Engoli o cansaço e enfrentei outra fila no recepção do hotel para conseguir um quarto. Não podia acreditar que minha linda viagem estivesse reduzida a isso. Dormir num hotel a 30 quilômetros de casa.
Depois de um sono leve e faminto de apenas três horas, um café reforçado e um breve contato através da Internet com os amigos avisando sobre o atraso, estávamos novamente entulhados na recepção do hotel.
Fila para o almoço, fila para o ônibus que nos levaria de volta ao aeroporto, fila para embarcar finalmente para o Brasil.
Na sala de embarque a Ibéria nos informou que não garantia reembolso de nenhuma conexão perdida que não estivesse acoplada às passagens da companhia. Isso queria dizer que perderíamos o vôo da Gol e – quem sabe – o dinheiro também.
O grupo de baianos queria falar com um supervisor. A loura do gato surtou e quase bateu na atendente. Os fumantes procuravam o metro quadrado pintado de azul para acenderem os malditos e execrados cigarros. Eu entre eles.
Telefonei para a agência em Recife e pedi que mudassem meu vôo para as duas e meia da madrugada, já que chegaríamos no Rio às 23:00 horas. Tudo bem, pagaríamos a taxa e a diferença de preços entre as passagens previamente reservadas. Dos males o menor. Eu queria chegar! E sem surtos.
Não ia dar para ver o Manoel Carlos também. Que pena!
A baiana conferia o nome do avião e garantia que era outro. Dizia que seu sonho salvara todo mundo de uma desgraça. Acreditei.
Dois passageiros não compareceram ao embarque. Tiveram que abrir o compartimento de bagagens para retirar as “suspeitas” maletas dos ” desaparecidos”.
Uma hora e meia depois do previsto, isto é às 17:30 da tarde, o avião decolou de Barajas rumo ao Galeão.
Ufff…. agradeci a Deus por deixar uma poltrona vazia ao meu lado onde eu poderia esticar um pouco as pernas e tentar cochilar durante o voo.
Sim?
Não. Três rapazes atrás de minha poltrona resolveram tomar cervejas e contar piadas em Inglês a noite TODA! Gargalhavam e batiam os pés, os desgraçados!
Quase fui buscar a baiana lá na frente para ela fazer uma oraçãozinha das boas…
Onze horas depois eu era um maracujá amarfanhado, com olheiras magníficas, todas as juntas doloridas e odiando a Inglaterra profundamente.
No Galeão, às 00:30 da noite, corri para o boxe da Gol para não perder o prazo do check in para Recife, enquanto olhos-de-lago-cinza-chumbo esperava a nossa bagagem.
Aquele bichinho que come meu estômago, meu fígado e se instala em meus intestinos nas tensões aeroportuárias, despertou com ganas de matar-me.
A Gol informou-me gentilmente que minha reserva estava garantida para Recife, mas que APENAS MEU NOME CONSTAVA DA MESMA.
HEIM?!!
Como assim???
Pois assim… A agência só garantiu meu lugar no voo. Não havia outra vaga. Estava lotado.
Minha cara deve ter sensibilizado o rapaz do boxe. Disse-nos que esperasse um pouco para ver se faltava alguém no trecho que vinha de São Paulo. Era muito provável que ocorresse um no-show. Sempre acontece, ele garantiu.
Esperamos. Esperamos. Esperamos.
Uma hora em pé diante do boxe da Gol. Ainda bem que estava perto do banheiro, pois o bichinho estava adorando a brincadeira das bruxas!
Finalmente o rapaz nos chamou… e disse que INFELIZMENTE não podíamos embarcar juntos. Não faltou nenhum passageiro.
Nem sempre o sempre acontece. Ainda mais quando as bruxas resolvem divertir-se às minhas custas.
O próximo voo para Recife sairia às 15:30hs da tarde, com co-ne-xão em Salvador e chegada prevista para as 20:15hs em Recife!!!
Comecei a chorar.
Para melhorar o meu astral, meu lindo e calmo companheiro de viagem resolveu brincar dizendo: ” Da próxima vez que viajarmos para o Brasil, você vai na frente e uma semana depois eu vou. Nos encontraremos no aeroporto de Recife.”Eu queria rir, juro! Mas minha boca não conseguiu. Estava atordoada de cansaço, de frustração, de raiva. Ele tem mais senso de humor do que eu nestas horas. Ainda bem.
Caminhamos pelo enorme corredor vazio até os boxes da VARIG e da TAM, atrás de outras possibilidades. Fechado. Tudo fechado!
Voltamos para o boxe da Gol. Teríamos que aceitar a miserável proposta. Inferno!
Chegar em Recife estava parecendo mais impossível que voltar para Madrid! E no aeroporto do Rio nem metro quadrado azul tem. Quem quiser fumar tem que sair do recinto! Sair por onde se estávamos no segundo andar???
Desafiei as bruxas. Fumei três cigarros de uma vez! No meinho do corredor! Queria ver se alguém vinha prender-me!
O moço da gol ficou ainda mais sensibilizado com minha agonia e disse-me que “não tinha certeza, mas havia escutado que a Ibéria estava pagando um hotel para os que perderam suas conexões.”
Corremos – melhor dizer “arrastamo-nos”- para o outro lado do corredor. Ainda não entendi por que tudo que você tem que fazer num aeroporto está exatamente no ponto oposto de onde você está. Nunca, nunca, nunca!!! está logo ao lado.
Acho que neste momento, as bruxas cansaram de brincar e foram dormir.
No boxe da Ibéria a moça simpaticamente atendia aos últimos passageiros do voo. Escutei que ela estava dando passagens em outras companhias para quem havia perdido a conexão. Nem pensei duas vezes. Apresentei a ela minhas reservas na Gol e ela me ofereceu dois lugares na TAM às 8:40 da manhã, direto para Recife, além de um quarto no hotel Luxor do aeroporto.
E claro, estava do outro lado do enooooooorme corredor.
Eram quase quatro horas da madrugada quando entramos no último quarto vago do hotel. Era nosso até às 6:00hs.
Deu-nos duas horas de sono, uma ducha e um café da manhã.
Quando o voo da TAM sobrevoou Recife e pousou no aeroporto dos Guararapes eram 10:30hs da manhã da terça-feira.
Um mar verde esmeralda nos esperava, alguns amigos queridos e persistentes, um calor abafado de 32 graus…
Emprestaram-nos um carro, um telefone e um apartamento…
Nos encheram de beijos e abraços, convidaram-nos para uma cerveja…
As bruxas dormiam ainda, com certeza.

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