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Cartas aos Curumins. (4 ) Boas notícias!

Cartagena, 25 de Agosto de 2018
 
Meus Curumins, 
Dois anos se passaram desde que escrevi a última carta. Isso não quer dizer que eu tenha deixado de pensar em vocês. Escrevi muitas vezes, nos silêncios das noites insones, mas as idéias ficaram só na cabeça. Não me saíam daí como palavras escritas.
Escrever é uma forma de expressão linda e gostosa, mas obedece um ritmo que depende de nossos momentos. Claro, se a gente escreve por profissão, se esforça mais. Se é por vontade própria, não. E eu passei um bom tempo sem poder escrever sobre nada.
Nesses dois anos muitas coisas passaram em nossas vidas. Conseguimos comprar uma casa e montá-la ( já pensando em ver vocês brincando e aproveitando dela), e  esse foi um assunto que nos ocupou por mais de um ano. Também enfrentamos graves problemas de saúde na nossa família e muitas tristezas pela situação política do Brasil… muitas, muitas tristezas.
Mas agora uma enorme estrela se acendeu no céu da minha vida! Um de vocês vem a caminho! Não é bárbaro!?
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Em janeiro de 2018, recebi a notícia de que vinha crescendo um curumim na barriga de sua mãe. Mas ela estava tão assustada que nem me deixou pular pelo meio da rua.
_  Schiiiiiisssshhhhh! me disse. Nada de contar pra ninguém. Só quando cumprir 3 meses. 
_ Heim?! T-r-e-s    m-e-s-e-s   sem poder contar, gritar, pular pelas ruas, comprar roupinhas?! E o que é que faço com essa alegria toda dentro de mim, sem ter por onde sair?!
Mas aguentei.
Aguentei quase. Porque comprei coisinhas e escondi no fundo do guarda roupa só pra mim. Adorava ver o enxovalzinho secreto que eu fui fazendo… hehehe!
A ela não disse nada, sabem como é sua mãe. Ela estava com medo de perder o bebê. E eu tinha que respeitar isso. 
Mas…. VIVA MEU CURUMIM!!!! Eu gritava dentro de casa.  
Dizia pra mim mesma no espelho: VOU SER VOVÓ!!!! VOU SER VOVÓ!
Então. 
A barriguinha dela começou a crescer, a crescer… sua mãe sempre cansada. Muito cansada, tadinha… mas meu curumim  estava firme e forte. Eu queria uma menina, mas todo mundo dizia que ia ser menino. Até o médico insinuou! 
Quando a notícia chegou e era mesmo minha bonequinha que vinha, vibrei! Já estava amando-o, fosse o que fosse, mas adorei que tenha sido ELA!. E foi assim. 
Desbordei de amor, de comprar coisas, de ler artigos sobre as novas regras de cuidar dos bebês, de costurar coisinhas… tanto que sua mãe pediu que eu parasse. “Pare, avó! Quero comprar coisas do meu gosto”, ela me disse.
Difícil, viu. Difícil. 

 

Só falta um mês para você chegar, meu amor. Sua mãe está linda, saudável, feliz. Sua casa já está pronta para que você venha iluminar tudo com a sua luz, seu tom, sua música. 

Escolhemos o fundo do mar para te receber em teu quartinho tão pequeno. Para te encher de ilusão e alegria com as cores e os bichos estranhos que habitam as águas. E também um mapa do mundo perfeito para te dar ganas de viajar, de explorar e ser aquilo que queira ser, por onde for…
Maya. Assim soará sua música. 
Na nossa cultura atual, é preciso ter um nome antes de ter uma alma, não como com os índios era. A cultura ocidental européia diz que a gente já nasce com alma.
Mas sabe uma coisa, querida? É tão comum ganhar nomezinhos durante a vida. Sua mãe mesmo ja ganhou vários: Loly, Carol, Nune, Lolypop, Bolinha, Bubú, Boo… hahahhahah. 
Nem sei ainda como vou te chamar… quando conheça tua alma vou saber.
Maya é um nome doce, bonito. Forte e doce, ao mesmo tempo.
Me sinto feliz com a sua chegada. Quero muito estar por perto para te ver mamar, dormir. Quero sentir o cheirinho da tua pele, segurar teus dedinhos… oh! que ganas tenho!
Assim, queridos. 
Estamos no final do Verão espanhol, ainda faz muitíssimo calor e estou já desejando que venha o Outono, com suas cores amarelas e marrons e suas brisas mais frescas. E você, Miniboo. ( Está vendo? Já tem nominho dengoso )
Eu chamava você assim antes que seus pais escolhessem seu nome. Miniboo.
Maya, querida… você vai amar as roupinhas que compramos para você. Vai ficar linda! E tudo tão mimoso, tão fofo, tão amoroso!
Agora, tenho mais vontade de escrever histórias para vocês. 
Tenho boas notícias. Encontrei um depoimento de uma das minhas tias, irmã de meu pai, sobre nossa família. E vou poder escrever mais sobre ela. Também recebi fotos antigas maravilhosas!
Não é uma boa notícia?
Tenho uma dúvida ainda, se vou criar um blog só para as Cartas aos Curumins, ou deixo mesmo aqui, como uma categoria do Língua de Mariposa, pois assim podemos acessar mais fácilmente os escritos sobre as minhas memórias afetivas com este país, a Espanha e com o Brasil.
 
Pensarei.
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No Trem…

“Se você não se calar AGORA, vai chorar com motivo”. Sibila entre os dentes, com impaciência patente, uma mulher jovem e bonita que está sentada bem atrás de mim. O bebê já choramingava há um tempo, num monótono tom persistente, um choro cansado, quase desistido. Ele estava deitado e amarrado pelas correias de segurança num carrinho negro e cheio de compartimentos úteis. Devia ter mais de dois anos, mas estava deitado como se fosse um bebê de meses. A ameaça da mãe saiu em Português e minha surpresa foi ainda maior. Uma brasileira que está perdendo seu traço mais forte, a expressão de carinho, o jeito de abraçar? Estará se europeizando.
Já estou acostumada a ver mães e pais europeus viajarem acompanhados de crianças de qualquer idade mas comportando-se como se os filhos não estivessem com eles. Os pequenos podem chorar, vomitar, gritar, morrer… e eles impávidos, com cara de não é comigo, nem estou ouvindo nada. Claro que nós, os outros passageiros, vemos e escutamos tudo, exceto os que viajam com os auriculares do Ipod enfiados nos ouvido.
Outra criança, um pouco maior do que o bebê que chorava de dar dó – cuja mãe era incapaz de mover-se para tomä-lo nos braços, fazer um carinho, sussurrar no seu ouvido uma canção – passeia pelo trem, joga-se como um mamulengo vivo sobre a sua poltrona, fica de cabeça para baixo soltando gritos finos e insuportáveis. O velho que senta bem em frente a ele lê o jornal, ou seja, tenta ler o jornal. De vez em quando afasta-se aborrecido das botas sujas do menino em seus joelhos e fulmina com um olhar reprovador a mãe que olha para o nada pela janela do trem, distante e perdida em reflexões filosóficas, fazendo de conta que não sabe o que ocorre ao seu lado. E mais, nem conhece aquele monstrinho fazendo macaquices e importunando as pessoas à sua volta. Tenho vontade de levantar e tentar distraí-lo, contar-lhe uma história, conversar sobre a paisagem. Mas sei que serei eu a fulminada pela mãe no mesmo momento em que me aproxime do bichinho abandonado no vagão. Epa! Que faz essa imigrante morena junto ao meu menino!
De repente ela se dá conta que os gritos estão cada vez mais altos e descobre que é a mãe da criatura. Pega-o grosseiramente pelos bracinhos finos e joga-o sentado na cadeira. Shhhh! Põe um dedo sobre a boca franzida, vira-se de novo para a janela e mergulha nos seus pensamentos. O menino fica por um segundo e meio mais ou menos quieto, confuso, toma o queixo da mãe com as duas mãozinhas e gira o rosto dela em sua direção. Ela desvencilha-se dele e volta a ignorá-lo. Aí ele começa tudo outra vez. Como um malabarista sem controle, pula para um lado e outro e grita na sua voz esganiçada de macaquinho. Oh! meus Deus, que insuportável! é o que se pode ler nas caras dos passageiros mais próximos.O homem velho se levanta e vai em busca de outro assento onde possa concentrar-se nas notícias.

A brasileira atrás de mim ameaça de novo seu bebê com uma raiva assustadora e olha-nos um tanto envergonhada porque ele existe e é seu, apesar de todo o esforço para ignorá-lo. Não está lendo, nem olhando pela janela, nem fazendo nada. Apenas não pretende retirá-lo daquela posição incômoda de onde só pode avistar o teto do trem. Ela precisa estar sozinha, para quê eu não sei. Fico me imaginando tomando-o nos braços e perguntando-lhe porque chora, mostrando-lhe as árvores lá fora, pegando seus dedinhos e cantando “dedo mindinho, seu vizinho, fura bolo, cata piolho… cadê o gato que estava aqui?” e escutando sua risada enquanto se encolhe com as cócegas. Imagino seu bracinho de pele suave segurando meu pescoço e perguntando o por quê da coisas de um livro cheios de figuras coloridas que eu tiro da bolsa para estimular seu cérebro e fazer-lhe companhia.
Mas não me atrevo a mover-me. Como uma pessoa estranha vai fazer o que deveria fazer a mãe? E mais assim, em público, diante de todos? Também sei que ela não deixaria nem que eu me aproximasse do carrinho, exceto se fosse para conversar com ela! E eu não queria conversar com ela, nem ouvir suas explicações, nem socializar com uma conterrânea. Queria apenas embalar o seu bebê, estar com ele nos braços, fazê-lo sentir-se bem.
O trem para na estação e a mãe desce com seu filho, deitadinho, o pobre. Sei que ela vai subir e descer escadas com o enorme carrinho no braço, de saco cheio por ter que sair de casa com aquele pedacinho de carne barulhento. O menino vai seguir vendo apenas os tetos, talvez os cantos altos das paredes nuas da estação, ouvindo vozes que ele não conhece e que vêm de todas as partes acima de sua cabeça. Quem sabe pare de chorar quando veja o céu lá adiante do caminho! A mãe ele não pode ver. Ela caminha atrás da capota negra do bólido utilitário, com cara de enfado, empurrando seu incômodo pacote vivo.
Fico com os olhos cheios de lágrimas. Ando sensível.
A porta se fecha e o trem segue seus trilhos. O menino saltimbanco acaba de levar um beliscão. Agora ele também chora, além de gritar. A mãe olha para o vazio…
A próxima estação é a minha. Saio do vagão andando devagar, pensando no menino-macaquinho que ficou no trem, no seu desejo que sua mãe olhasse para ele, conversasse com ele, lhe contasse uma história de fadas e dragões de jorram fogo pela boca e salvam princesas encantadas dos castelos…
Quem o salvará da solidão?

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