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Era um Sábado…

Eu já contei essa história antes mas faz tempo demais. E, como expliquei no post passado, decidi organizar minha vida de blogueira. Mais uma vez.
Para começar, resolvi dar uma revisada geral nos antigos arquivos que tenho guardados e ver o que vale a pena manter, republicar ou até mesmo imprimir. Encontrei algumas histórias que gosto muito e tive uma idéia. Achei que seria um bom presente de final de ano para minha filha construir um belo caderno com alguns dos meus escritos. Quem sabe um dia ela poderá contar algumas destas histórias aos seus filhos e netos.
Naturalmente pretendo mantê-los em disco, mas não é o mesmo contar uma história lida no papel, não é?
Então…essa é uma das que resolvi imprimir.
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Era um sábado. Não sei há quanto tempo atrás…
Naquela manhã fui, com alguns amigos, tomar umas cervejas e plantar arvorezinhas numa praça do Poço da Panela.
Chamar de praça um minúsculo triângulo de terra, com um busto de Mano Teodósio e quatro palmeiras…. é boa vontade e carinho.
A rua não era minha, nem a praça, mas o Poço foi meu lar por quase toda minha vida. O lugar da casa e do rio. Vocês sabem qual casa, qual rio….
Pois é… eu estava lá, limpando a terra, cavando e plantando, manhã tão linda! As mãos sujas de esterco e barro. Chico Buarque no som do carro, cantando ao vento: ” Morena, dos olhos d´água, tira os teus olhos do mar, vem ver, que a vida ainda vale o sorriso que eu tenho para te dar…”
Aí passa um carro, faz a volta… uma mulher desce com ar desconfiado.
– Vocês vão fazer o que?
– Estamos limpanho e plantando a pracinha…
– Vocês conheciam o Mano Teodósio?
– Não… mas gostamos dele.
– Não vão mexer no busto, não é? Da última vez pintaram ele de verde.
– Não… só vamos lavar. Por que?
– Ele era meu irmão…
Tinha os olhos molhados.
Arrepiei a nuca. Acreditei.
Ela entrou no carro e se foi. Senti sua falta. Um silêncio por dentro, apesar da música. Abrimos mais uma cerveja… brindamos com Mano.
Ela voltou depois de um tempo, com uma velhinha no carro. Era a mãe de Mano Teodósio. Uma senhora de brancos cabelos e andar claudicante. Ficou nos olhando e dizendo… “Obrigada… Obrigada…”
Arrepiei de novo.
Minha amiga sugeriu que voltassem ao final do dia, para ver o trabalho terminado.
– Sim. Elas disseram.
Prendemos uma fita amarela entre as palmeiras, para reinaugurar a praçinha. A cerveja rolando solta… e a alegria também.
Lavamos a praça, o busto, aguamos as novas plantinhas.

Ela voltou, pelo braço da filha. E trouxe fotos. Falava do filho com orgulho. Disse que ele adorava Chico Buarque, que gostava de beber e era muito alegre… assim como nós.
Disse que ele era muito querido, respeitado até pelos inimigos políticos! Que foi comunista perseguido. E que era um homem lindo, de corpo e de alma.
A lua nascendo, enorme, abusada de bonita… exatamente de frente para o busto dele. E a gente cantando: ” Estava à toa na vida… o meu amor me chamou, pra ver a banda passar, cantando coisas de amor… ”
Na presença dela, eu olhava para ele com mais cuidado, pensando ver o homem por trás da pedra, o homem que havia sido, o amigo de copo e de cruz, o Filho daquela mulher… o Mano de outra…
Estávamos todos de olhos marejados. Se eu fosse mais pura, teria acreditado que ele também chorava…
Foi um belo dia.
Voltei para casa pensando na pergunta de um amigo: ” Voce sabe ser feliz?”
E lá estava eu … feliz, assim de repente.
Por nada…

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Não Pude…

Não fui ver a casa…
Não pude.
A saudade que sentia desta vez era completamente distinta de outras saudades que já tive na vida.
Era uma saudade dos olhos dos irmãos e amigos, de seus sorrisos, de suas vozes.
A única coisa que eu queria era estar entre eles. Não importava o lugar.
Deixei-me estar em seus espaços, em suas mesas, suas redes, suas praias, e principalmente em seus abraços.
Apresentei a eles meu companheiro de viagem e de vida.
Deixei que seus olhos se encontrassem, que se conhecessem, que conversassem. Os sorrisos multiplicaram-se, ampliaram-se os espaços, e ele foi recebido como irmão e amigo nos abraços.
O tempo voou. Escapuliu pelos dedos como a areia fina e branca das praias pernambucanas. Toquinho, Tamandaré, Serrambi, Porto de Galinhas…
O tempo derreteu por entre os sorvetes de pinha, cajá, graviola, mangaba, coco…e desapareceu nas mesas de café com cuzcuz, manguzá, tapiocas de coco e queijo…
O tempo emagreceu, encolheu diante de casquinhos de caranguejo, patolas, lagostas, agulhas fritas, moquecas de peixe e caipiroscas refrescantes… (por que só ele e não eu?)
Os amigos e irmãos buscando espaços num tempo escorregadio para nos presentear com almoços e jantares pantagruélicos, com passeios de barcos por paisagens paradisí­acas, com abraços do mais sincero carinho e consideração.
O tempo correu com uma absurda pressa que eu não tinha…
As importantes conversas que imaginei ter, não tive. Todos os negócios que necessitava resolver, não resolvi. Mas o que mais senti foi que muitas pessoas que programei ver, não vi.
Dois anos de saudade não se aplaca em vinte dias. E eu voltei com ela toda crescida dentro do peito.
Assim…
Não fui ver a casa.
Não pude.

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