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Assim te amo.

Eu am10501666_10153101684756893_1145851939271694644_no-te sem saber como, ou quando, ou a partir de onde. Eu simplesmente amo-te, sem problemas ou orgulho: eu amo-te desta maneira porque não conheço qualquer outra forma de amar sem ser esta, onde não existe eu ou tu, tão intimamente que a tua mão sobre o meu peito é a minha mão, tão intimamente que quando adormeço os teus olhos fecham-se.

Pablo Neruda, in “Cem Sonetos de Amor”

Feliz Aniversário, meu Capitão.

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Finalmente, num belo e frio inverno…( Cap 22)

Segunda feira, 4 de Dezembro. O casamento estava marcado para o sábado 9, ao meio dia. Diferente do evento primaveril que imaginamos a princípio, estávamos entrando num belo e frio inverno madrileño. Mais de cem convidados, vindos de toda parte da Espanha. Amigos e familiares sem outro compromisso que não fosse estar conosco no bendito dia D. Todos confirmados…TODOS! E juro que era para ser o mais simples almoço em família. Juro! Não sei como, a lista foi crescendo sozinha, todo dia e toda noite…

Tudo bem, nós gostamos de um bocado de gente, a verdade é essa. E nosso casamento, depois da inusitada e romântica  história que vivemos, havia se transformado em um evento imperdível. As pessoas queriam estar dentro dela também. Acho que elas queriam ser testemunhas oculares do que estávamos vivendo há quatro anos. Que era possível realizar os sonhos. Ser feliz era uma possibilidade real. Muitos deles, enquanto estavam em nossa casa em alguma ocasião durante esses anos, sentiam-se mais amorosos com seus pares, demonstravam mais carinho uns com os outros. Diziam que nossa harmonia os inspirava.
Não é que assinar um pedacinho de papel fosse acrescentar amor ao nosso convívio, mas aqui na Espanha o estado civil faz muita diferença na interpretação que as pessoas fazem de um relacionamento. Nosso casamento significava, principalmente para a ala mais conservadora do nosso entorno, que estávamos “confirmando” social e juridicamente nossa intenção de seguirmos juntos. À vera!
Pois sim… no dia seguinte já estaria aqui a única representante da turma de amigos pernambucanos.
Mas nada de documentos. E sem eles não haveria casamento.
O homem do Registro Civil havia prometido de pés juntos, depois de assumir seu erro, que resolveria tudo em uma semana. Os dias passaram, acabou o prazo dele… e nada.
Olhos-de-mar-azul disfarçava seu nervosismo e tentava convencer-me que fingir uma assinaturazinha num livro falso era menos criminoso do que desmarcar tudo e avisar às pessoas que “nada, que estava tudo bem mas que podiam ir comer com a sogra que aqui não ia haver nadica de boda.”
Tá. Neguei-me. Neguei-me às duas alternativas, fingir ou desmarcar, e escolhi uma terceira: negar o problema. Saí de casa no dia seguinte para comprar uma camiseta de seda e rendas para vestir por baixo da blusa, decidida a me fazer de louca diante das bruxas..larita… laritaaa… Se elas vissem que eu não estava com medo ou arrancando os cabelos de histeria, quem sabe perdessem a graça da brincadeira de mal gosto.
Rodei por todas as lojas buscando uma simples camiseta interior para uma cinquentona gordinha – mas noiva – e com direitos iguais aos das outras noivas jovens e magras: algo sexy e bonito no dia do seu casamento.
A tarefa não era fácil. Assunto mais do que batido aqui. Já viram as camisetinhas das pessoas “maiores”? Elas parecem um babador. Arredondadas no pescoço, sem desenho nem corte. E renda? Aqui, “renda” se diz “encaje”. Encaixar pra que? Quanto mais discretas melhor, de alças largas e cor da pele, no máximo com um lacinho central, sem graça, que é para ninguém olhar duas vezes.
Mas eu achei uma. Uau! Linda. Branca, rendas finíssimas, alcinhas delicadas e fazendo jogo com umas calcinhas perfeitas, bonitas e inteiras. Nada dessa coisa sem traseiro, quase fio-dental que é moda sexy atual.( Requisito absolutamente dispensado por mim desde sempre. Não sei como as mulheres aguentam aquilo! )
Comprei o conjunto, feliz da vida. A-do-rei!
No mesmo momento em que saí da loja com um sorriso estampado na cara, soou o celular. Era o prometido.
Já tinha os papéis na mão.
Yesssss! Oh!… sim… sim…SIM!
Suspirei fundo e me senti taaaaaão feliz que não podia mais fechar a boca. Sabe cara de louca, riso de louca? E nem tchum para quem estivesse com medo de mim! Ahahahahhahah! Que foi?
Ok. Ok… eu sabia que já eram duas da tarde do dia 5 de Dezembro. Expediente encerrado. E dia 6 seria feriado. Mas isso a gente resolvia, nem que fosse invadindo a casa do prefeito em pleno Dia de La Constituición.
Ele não estava, mas tudo bem, calma… ainda tínhamos o dia 7, dia normal. Esperávamos que não tivessem declarado “puente” na prefeitura. Imprensar aqui é fácil como no Brasil.
No dia 7, às 9 da manhã estávamos em Santorcaz com tudo na mão para entregar a Florentino. Ah, Florentinozinho, por favor… não invente problemas, tá? Ele sorriu e disse que já estava pensando que havíamos desistido!
Ho ho ho! Ni muerta
Pronto. Tudo pronto.
Aproveitei a paz da manhã para fazer um bolo de noiva, como é costume no nordeste brasileiro. É feito com vinho doce e frutas cristalizadas, ameixa e passas. Uma delícia! Aqui não existe este costume. O bolo de noiva é comum, só com aquela cobertura especial e lisinha. Isso não sei fazer, mas o bolo sim. E fiz um. Cobri com açúcar fininho e pus numa bandeja. Em vez de flores, frutas ou bonequinhos de plástico, decidi fazer uma brincadeira. Enfeitei a bandeja com um barco de madeira que comprei para “concretizar” o sonho de um dia fazer uma grande viagem num veleiro, com meu lobo do mar. O barco está atracado há anos em cima da estante, junto ao farol azul. Sonhar faz bem, não é?
Para completar, juntei um marinheiro barbudo, de gesso, que havia recebido dele, por surpresa, em Recife, muitos anos atrás. Eu o deixava na sala e às vezes conversava com ele, como se pudesse realmente ouvir-me, naqueles tempos de louca e apaixonada por uma “ilusão”.
Gostei que ele pudesse estar conosco na mesa em vez de um objeto qualquer que não tivesse qualquer papel na nossa história. E, como sua parceira, uma boneca de barro, “a peituda”, sua companheira na estante desde que vim morar na Espanha. Pronto. Estava engraçadinho mesmo.
Em casa já estavam alguns dos convidados. A festa havia começado. Todo mundo achava que já que estava aqui, bem que podíamos começar, né não?
Nãooooooo! Imagine, começar a beber e comer dois dias antes! No dia mais importante estaríamos inchados, cansados e de ressaca!? Eu tinha que estar sequinha pra vestir a roupa cereja e não parecer uma!!
mafalda música
Mas o vizinho decidiu ajudar. E fez a festa na casa dele. Chamou todo mundo para um almoço de aniversário. Como assim? De repente estava todo mundo lá, bebendo, comendo, fumando, bebendo, bebendo… e bebendo.
Apareci por uma horinha, agradeci o convite e voltei para casa. Queria descansar, finalmente poder relaxar, curtir uma música suave, receber uma massagem no pé… ( de quem? ) mas tinha que conferir a arrumação do salão, levar as plantas, o som, as cortinas, contar novamente as pessoas e reorganizar as listas das mesas. Nunca entendi porque ela mudava todos os dias. A gente organizava as pessoas nas mesas e guardava o papel. No dia seguinte, ao conferi-la, estava diferente. Parecia uma mágica. De repente, descobríamos um casal fora de lugar, uma cadeira vazia. Saco! Como é que eu ia levar as plantas para o salão sozinha? E o som? Como assim SOZINHA? Essa turma que chegou antes não vinha para ajudar?! Como assim festinha na casa do vizinho?
Pois sim… todo mundo lá, inclusive o prometido. E era quinta-feira. Quinta! Eu não queria fazer TUDO justamente no dia anterior e depois aparecer no sábado com dor nas costas, pernas pesadas e cara de cansada.
A velocidade com que eu pensava tudo isso não estava lá muito saudável. Respirei fundo. Tomei um banho demorado, organizei a sala super bagunçada pela presença das bolsas e sapatos dos filhos e todos os seus objetos imprescindíveis espalhados por todas as mesas, sofás e tapetes. Quem mandou querer fazer festa de casamento! Quem mandou querer todo mundo em volta!
Em busca de um momento zen, escolhi uma música, recostei no sofá e dormi enquanto esperava que chegassem do tal almoço. Nada. Sete da noite e nada.

Quando despertei e olhei o relógio, a mulher zen do cochilo evaporou-se rapidamente e em seu lugar apareceu uma criatura em transe raivoso. Às oito e meia decidi telefonar para o celular do prometido.
“Quiéquitutáfazendoaí!!!! AINDA!” Pelo tom da minha voz ele percebeu que algo estava fora do normal e veio. ( Vê como é bom poder falar no próprio idioma nessas horas?!)
Chegou preocupado e encontrou o prototipo da mulher insuportável. Agora sim, ele ia desistir mesmo. Eu estava simplesmente horrorosa!

A cara inchada, o nariz vermelho, falando enquanto chorava com a boca enorme igual a de Mafalda, os cabelos idem, arrepiados por ter dormido com eles molhados, andando pela casa e guardando coisas nos armários, que fechava com uma força desmedida, odiando a mim mesma, sentindo-me ridícula por estar me comportando assim, por desejar ser o centro de suas atenções, que estivesse comigo conferindo os últimos preparativos e não bebendo e comendo na casa dos outros, sem mim e… e… eu estava explodindo!
Finalmente toda a tensão dos meses anteriores começou a sair por todos os poros. Comecei a enjoar e corri para o banheiro. Vomitei. Eca! como é que o cara vai querer casar com esse troço de gente!? Chorei mais e mais. Enquanto lavava o rosto me olhei no espelho. Oh! meu Deus! solucei.Tenho que parar de chorar antes de sábado!
Quando apareci na cozinha ele segurava um copo de água fresca, abraçou-me e tentou acalmar-me. “Pronto. Já está. Amanhã faremos tudo. Você descansa”, prometeu. “Eu vou ficar aqui. Que quer que eu faça?” perguntou. “Nada, a essa hora mais nada”, respondi. “Só que fique comigo.” Tá. Mais calma, cortei e pintei as unhas, ainda fungando, enquanto ele, mais uma vez, conferia e corrigia a lista das pessoas nas mesas.
Duas horas depois chegaram os festeiros e o vizinho, cantando felizes e cheios de vinho. Mas eu já estava refeita.
No dia seguinte chegaram outros hóspedes. Cada um com seus horários! Um tal de ir e vir que só vendo.
Enquanto meu pirata tranquilão terminava de organizar as bebidas, as plantas e mesas e as mulheres da família recebiam ordens da cozinheira, etc. descobri que havíamos esquecido de comprar as frutas que iriam ornamentar as mesas. Inferno! Dia 8 de Dezembro. Feriado nacional. Nada aberto. Nada! Como assim!!! Como pude esquecer isso????
Esqueci. Pronto!
Desisti da ornamentação. Ia ficar meio feio ver as mesas brancas e nuas, mas eu não podia mais brigar com as bruxas. Desta vez elas ganharam! pensei.
Que nada! Minhas amigas podiam. Rá! Uma pernambucana que não falava Espanhol e uma espanhola que não falava Português, duas artistas e tanto, uniram-se na empreitada e armadas de facas e tesouras desapareceram nas trilhas em volta da casa. Voltaram com nozes e amêndoas e improvisaram umas cestas fantásticas com frutos secos, fitas e plantas invernais. Ficou lindo e super natural!
Pronto. Tudo ok.
Só teria que livrar-me das ideias adolescentes da cunhada que queria jogar açúcar na minha cama, para adoçar nossa última noite de solteiros e tudo sairia bem. Prometi arrancar-lhe o olho esquerdo se tentasse a gracinha e … já. Esquecido o assunto.
Será que ela acreditou mesmo? Deve ter ficado no mínimo na dúvida. Uma sul americana pode ser muito perigosa, né não? Ho ho ho! E uma que vem de Pernambuco, lá onde o vento faz a curva… nunca se sabe!
Salvei-me da doce noite!
Então… Organizei a roupa sobre o aparador do quarto, provei tudo de novo, escolhi uma correntinha de ouro que ganhei de presente de minha mãe no meu aniversário de dezoito anos e uns brincos que foram dela. Na corrente decidi pendurar uma medalha que foi da minha avó, outra que usei toda a minha infância e uma pequena e lindíssima figa de ébano que também era da Princesa. Queria um pedacinho de cada uma das mulheres que amaram até as últimas consequências das suas vidas, perto de mim. Quando estava tentando enfiar a corrente no pequeno aro da figa, ela se quebrou em duas, na minha mão. Ó…ó!
A figa não é um símbolo de proteção!? Como assim a danadinha se parte bem na véspera do meu casamento!? Ui, que mêda!!
Sem dizer nada a ninguém fui buscar uma cola super-hiper-rápida no armário da cozinha, mas não encontrei. Eu não sou muito shsssss….supersticiosa, hahahaha, dizendo bem baixinho… mas com essas bruxas voando sobre o telhado era melhor não dar bobeira!
Cascavilhei a caixa de jóias da Princesa e encontrei outra figa, esta de marfim. Com todo cuidado enfiei-a na corrente e guardei a quebrada dentro de um chumaço de algodão. Pedi proteção a todos os bons fluidos do universo, incluindo minha mãe e minha avó, e dormi com ela pendurada no pescoço.
No dia seguinte, tan-tan-tan-aaannnnnn… que nervoso, meu jesuscristinho! Todo mundo acordou cedo. Uns de ressaca, obviamente. Uma confusão de gente para comer e tomar banho e tal e qual. Gente se vestindo no escritório, as mulheres de roupão, maquiando-se pela casa… secadores soprando ares quentes em todos os cômodos, eu sendo requisitada para saber quem estava bem, quem estava mal ( todas estavam maravilhosas ) e então…
O grande-e-carinhoso-noivo-dono-do-melhor-dos-corações foi buscar seu irmão mais velho na estação de trem mais próxima, a meia hora daqui. Saiu às 10 horas da manhã. Uma hora para ir e voltar. Tá. Voltaria às onze, sem falta. E às doze e meia estaria lavado, perfumado e vestido, me esperando lá na Câmara dos Oficiais, onde celebraríamos a cerimônia.Tá.
Às doze ele ainda não estava aqui. O portão quebrou. O portão e-lé-tri-co da base pifou, fodeu, morreu… sei lá o que. Não abria e pronto!
Estava fazendo um frio de rachar a alma, como em nenhum dos dias até aquele. As bocas tiritando do lado de fora do carro, todos os soldados tentando resolver o problema e nada do portão abrir. Depois de um tempo escutando as risadas assustadoras das narigudas ( tinham que ser elas ) um técnico improvisado convocado às pressas conseguiu abrir o pesado portão de ferro e o carro entrou.
Ele chegou em casa correndo mas sorrindo, como sempre. Tem um humor fantástico esse meu pirata!
Não sei como ele consegue essas coisas, mas de banho tomado, perfumado e vestido, às doze e meia em ponto ele estava na Câmara, me esperando. A criatura é capaz de aprontar-se completamente em menos de dez minutos.
Agora já estavam todos lá. Só faltava eu. O padrinho prontinho na sala, esperando… e eu ainda de roupão. Olhei a tal roupa cereja sobre a cama com satisfação. Valeu a pena o suplício que passei para encontrá-la em pleno outono-inverno madrileño. Simples e elegante, era justo o que eu queria. E então… comecei a vestir-me… e a suar. Na cara, no cabelo, no pescoço, nas pernas… Já tentou vestir uma meia fina com as pernas úmidas? Hã? ( Pergunta só para mulheres, sim?) A meia furou no meio do caminho da segunda perna. Plano B. Meia suplente na gaveta. Auto comandos mentais. Calma. Tudo bem, tenho outra meia. Essa não pode furar. E eu suando… queria outra ducha ( Jorro de água dirigido sobre o corpo de alguém, com fins terapêuticos ou higiênicos, segundo Aurélio ) queria um ar condicionado, queria não suar!
Só estando louca! Um frio de morte lá fora e eu morrendo de calor. Pense. Pense. Ar condicionado do lado de fora. Abrir a janela, JÁ!! Escancarei a janela do quarto e fiquei ali, contando até dez. Em menos de segundos eu estava perfeitamente gelada. E seca. Recomecei com calma. Fui me vestindo olhando para o jardim e levando um bafo gelado por todo o corpo. Que boa ideia! Quando terminei, peguei o ramo, o braço do meu amigo e padrinho… e lá fui eu casar com olhos-de-mar-azul. Atrasei meia hora justa. Normal. Não sou da marinha nem tive qualquer treinamento militar em toda a minha vida. E depois, para quem esperou tanto… bem que podiam esperar-me uma meia horinha!
Quando entrei na sala, estavam todos ali mas eu só olhei para ele. Quando nossos olhos se encontraram e ele sorriu daquele jeito tarja-preta, confirmei o que soube desde o primeiro encontro há tantos anos: nasceu para mim esse sujeito. Onde estava? Por que demorou tanto, tanto!
Daí em diante, nem bruxas, nem duendes, nem nada. Eu e ele. Juntos. De mãos dadas. Em volta de nós as palmas, o adágio de Benedetto Marcello tocado maravilhosamente pelo filho músico, o olhar feliz da minha filha, os olhares úmidos dos amigos emocionados, as palavras de Florentino, o livro onde assinar de verdade… as minhas lágrimas misturadas com um enorme sorriso, os abraços e beijos dos amigos, o brinde com cava espanhola, a paella gostosa, os olhares cúmplices que trocávamos, a felicidade estampada em nossas caras.
Todo o resto a nossa volta foi lindo… mas o realmente especial era que o inacreditável para muitos, até para nós no início dessa história, estava realmente acontecendo. Havíamos superado todos as dificuldades, um oceano… e estávamos juntos.
Quase doze anos depois daquele primeiro e frustrado encontro na festa do Juan Sebastian Elcano em Recife, estávamos casados!
Incrível! Mas aconteceu mesmo!

Ps. A “peituda” foi roubada no dia seguinte ao casamento. Não posso nem imaginar quem possa ter feito isso. Quando estive em Pernambuco, tentei encontrar uma igual, mas não consegui. Ainda não me conformei!
Ps2: A figa de ébano já está coladíssima!

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Mais um outono e mais história.( Cap 21)


Faltava menos de um mês para o casamento.
A roupa já estava no armário, completinha e linda, mas… o resto estava cada dia mais complicado. A lista de convidados crescia todas as noites quando os amigos e familiares confirmavam a presença acompanhados de sua prole completa.
Todo dia tínhamos que refazer a conta e eu já estava ficando nervosa que uma pequena e enxuta lista de cinquenta já estivesse perto de noventa.
Com os nervos à flor da pele e as bruxinhas dando voltas sobre o telhado de minha casa, briguei com olhos-de-mar-azul por tudo e por nada. Eu nem me recordo agora por que coisas me irritei pro-fun-da-men-te! O fato é que cheguei ao ponto de questionar se era mesmo para casar… mas fui em frente.
O plano era fazer uma cerimonia simples e aconchegante, depois umas copas e um almoço. Dançar se todos quisessem. Simplíssimo.
O responsável pela cozinha tomaria conta de organizar a comida e a bebida e nisso eu estava mais do que tranquila. Fiquei de resolver apenas sobre o bolo, as flores e a decoração. Estava no papo. Sou prática : muitas plantas pelos cantos, cestas de frutas naturais sobre as mesas e tchum. Resolvido.
Ah! Queria um arranjo de flores sobre a mesa onde Florentino ( oh! nomezinho querido!) iria fazer-me a imensa pergunta: ” Nora, aceita este homem…etc…etc…” Ui, que nervoso!
Todo mundo se ofereceu para ajudar na arrumação e tal e qual. Que maravilha!
Só que isso significava que “todo mundo” teria que chegar antes da data. Me explico: dia 9 de Dezembro era um sábado seguinte ao feriado da Virgem de la Concepción. Festa nacional. Acontece que o dia 6 era outro feriado. Dia da Constituição Espanhola. Entonces… dia 7 era puente e muita gente não ia trabalhar. Parecia bom para quem vinha de fora, mas para quem tinha que organizar, comprar, contratar, ir buscar… era o inferno. Tudo estaria fechado!
Tá bom. Tá bom! Quem morava fora de Madrid queria aproveitar o feriadão e chegar antes. E hospedar-se? Hum, aqui mesmo!
Heim? Como assim?
Então… na mesma semana do casamento eu teria que organizar quartos, banheiros, lençóis e toalhas para todo mundo. Café-almoço-jantar para todo mundo!? Siiiim? Jura? Fiiz bico.
Pois sim. “Lé com lé, cré com cré…um sapato em cada pé.” Comecei a cantar umas músicas do arco da velha, que nem me lembro como estavam guardadas na memória!
Deixei este problema para resolver mais perto do dia D, porque havia um outro muito mais sério: podia ser que não houvesse casamento. Rá!
Por causa das brigas eu estava novamente com medo que as coisas entre nós mudassem drasticamente e de repente eu me transformasse naquela esposa das piadas machistas.
Sabem qual é a figura mais menosprezada da família, depois da sogra? A esposa! Como a minha mãe já morreu, eu estaria no pódio. Em primeiríssimo lugar.
Parece engraçado, mas não é. Nunca achei engraçado as piadinhas que mostravam as mulheres como histéricas ridículas, loucas para casar. E menos ainda que tivessem que lutar com unhas e dentes por este status com um noivo medroso e parecendo estar indo para a forca.
Pode ser que eu tenha um trauma. Meu primeiro noivo,quando me pediu em casamento parecia muito mais estar querendo botar um selo de garantia de posse na mulher que sería SUA, um dia qualquer do futuro distante, do que realmente apaixonado. Na verdade, cada vez que se falava em enxoval e casamento ele parecia que estava com a cabeça na guilhotina. Toda vez que perguntavam quando sería a data do casamento ele respondia que “estava todo arrepiado só de pensar” ou então “quem sabe será na semana santa, só não sei de que ano”, dizia com uma enorme gargalhada, o idiota! E eu, com cara de pateta ao lado, morta de vergonha.

Pois eu cansei. Mandei o rapaz casar com outra porque enchi o saco daquele papel de mocinha-virgem-esperançosa-e-feliz por ter conseguido um jovem-macho-tão-bonito-e-cuidadoso, de boa família… loucamente ciumento, por quem eu tería que esperar dez anos, no mínimo, antes que ele “concordasse ” em marcar uma data para o “enforcamento” e passasse o resto da vida queixando-se de seu destino.
Quando amadureci um pouco dei o pira deste cenário “paradisíaco” e fui viver minha vida. Também é novelesca a segunda experiência com noivado e casamento…
Mas essas são outras histórias, quem sabe um dia eu conto.
Mas agora eu era uma mulher madura, apaixonada e correspondida por um homem maduro e convicto de sua vontade. Meu prometido desta vez era Ele, seguramente o homem com quem eu queria viver a minha vida, amava-me de verdade e queria casar-se comigo, sem medo e sem dúvidas.
Oh, meu deuzinho do céu! havíamos superado tantos obstáculos! Eu precisava acreditar que, de uma vez por todas, era possível despertar um amor real, forte, profundo e duradouro em um homem maravilhoso. E casar não iria mudar isso. Ponto. Acalmei meu juízo como pude… e segui adiante.
Então… mais uma coisa aconteceu. As bruxas nunca deixaríam a coisa fácil e tivemos que travar mais uma luta com elas…

Descobrimos por onde elas iam atacar! Os papéis!
No dia 13 de Novembro ainda não tínhamos recebido nenhum comunicado sobre os documentos… tcs…tcs… Tá. Normal, será ao largo da semana.
Não foi.
Apenas no dia 23 ficamos sabendo que o tal gnomo que nos havia prometido tudo pronto em dois meses havia se enganado.
Como assim? Como assiiiiimmmmm?
Assim… ele havia mandado nossos papéis para Madrid dois dias atrás, 21 de Novembro. Só agora os dois meses seríam contados!
Disse que receberíamos o chamado em Janeiro do ano seguinte e então poderíamos marcar a data.
– Heim?
Havíamos contado dois meses a partir do dia 13 de Setembro. O casamento já estava marcado para o dia 9 de Dezembro. Dentro de 16 dias!
Ainda bem que eu não estava lá na hora pois não sei o que teria feito com o tal sujeito.
Entretanto…a fada madrinha deve ter escutado a conversa porque de repente a criatura levantou-se, serviu um cafezinho, fez umas chamadas… e pediu desculpas pelo seu erro. Pediu nosso telefone dizendo que iria resolver tudo pessoalmente. Qualquer problema era só mudar a data, vale? Ele nos telefonaria.
– Era para rir?
Não telefonou.
Enquanto isso, os preparativos em marcha e eu descobrindo outras coisinhas. Um arranjo de flores simples para a mesa podia custar entre 80 a 120 euros ( já estávamos no inverno ) mas se você dissesse que era para um casamento, mesmo caseiro e sem pompa, o preço saltava para 400 euros.
Eu queria um ramo simples na mão. Pois se era para uma noiva ele valia três ou quatro vezes mais caro.
Um bolo “de noiva” seguia a mesma regra, apesar de não haver por aqui nenhuma tradição de bolo como no Brasil, feito com frutas cristalizadas e vinho. Era um bolo normal, com uns cremes que eu detesto, com enfeites de bonequinhos. E desse eu não queria. Ora bolas, que absurdo! Resolvi mentir… disse que era uma comemoração caseira para os 25 anos de casada. Funcionou. Consegui tudo simples, bonito e com preços justos.
No final do mês estava tudo pronto e organizado, apesar das muitas outras gracinhas das bruxas. Uma delas é que tive que ir encomendar as sobremesas montada numa ambulância. Não, claro que não foi preciso apitar o tuim-tuimmmmmmm! Mas pareceu muito estranho à senhora que nos atendeu na pastelaria artesanal do pueblo mais próximo que eu tivesse chegado ali acompanhada por um enfermeiro de bata branca, com ambulância e tudo. Quase o mesmo que chegar de vassoura, né?
Talvez por isso ela tenha exigido o pagamento adiantado. Hahhahahahah!
Nesta época eu ainda estava rindo…
Aí… o sujeitinho da cozinha, justo aquele que resolveria tudo da comida, veio aqui e disse que não poderia coordenar o “evento” porque sua mulher estava para dar a luz a qualquer momento e poderia ser justamente naquele sábado.
Hum. Tá . Já sabíamos que não se podia garantir nada nessa minha história! Tínhamos dois dias para resolver o problema e vivemos no campo, longe DE TUDO. A lista de convidados já havia engordado para 110 pessoas, sentadas, querendo comer e beber. TODOS confirmaram, ninguém tinha qualquer impedimento!
Bom, claro que eu queria que viessem e estava feliz com isso, mas a festa estava muito maior do que havíamos imaginado no início e precisaríamos de mais ajuda.
Conseguimos três jovens que se ofereceram para trabalhar no sábado, mas seria necessário gente na cozinha no dia anterior. Feriado nacional, já disse! Tóin!
Pois sim… lá estariam as cunhadas e amigas hospedadas em casa. Não queriam ajudar? Ho ho ho… que tal?
Mas aí eu já estava com um motorzinho ligado dentro do peito e o riso soava completamente trêmulo. As lágrimas saíam com muito mais facilidade!

Quanto mais dificuldades enfrentamos, mas criativos nos tornamos, não é?
Pois sim. Um dia olhos-de-mar-azul acordou pela manhã com uma ideia. “Se os papéis não estiverem na minha mão hoje, vamos fingir que casamos. Falamos com Florentino e ele nos faz assinar um livro de mentirinha… e depois vamos lá e casamos de verdade.” “Que piensas de eso?”
Ele estava alucinando!? Como? Que loucura! Como vou fingir que estou casando? Como eu ia assinar um livro de mentirinha? Fingir diante da mãe dele, uma senhora de 85 anos, dos tios, irmãos e amigos que vinham de todas as partes da Espanha para um casamento de verdade?
Imaginei a cena do “Sim, eu aceito…” e me vi dando umas gargalhadas de engasgar, com os olhos rasos de lágrimas – VERDEIRAS! Que ridículo! Estaríamos representando! E pior, fazendo todo mundo de idiota.
NÃO! Assim não caso!
Mas era dia 4 de Dezembro e nada de papéis.

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Entre fadas e bruxas. (Cap. 18 )


Quando eu percebi que elas haviam descoberto nossos planos, fiz tudo para agir na surdina… Tentei ir devagar, sem dar muita importância o fato. Afinal casar com olhos-de-mar-azul nem estava mesmo em meus planos iniciais. Viver com ele até o final de meus dias, sim. E talvez fosse mais fácil alcançar meu objetivo sem casar, dizia meu cérebro, amassado pelos anos de solidão em que via tantos casados traindo-se mutuamente, agredindo-se com palavras e atos, sentindo-se amarrados, presos, infelizes e sonhando desesperados com a liberdade. Isso, em geral, eu não via nos casais que viviam juntos apenas porque se queriam, sem o laço oficial da instituição civil ou religiosa.
Tá bom. Posso estar exagerando. Mas eu admito que tinha um medinho de casar de novo…
Entretanto, meu coração era todo mel… e estava tão feliz, enamorado, sonhando em dizer “sim, te quiero” aos olhos mais adoráveis e ao sorriso mais encantador que já encontrei em toda a minha vida, que jogava o medo para o fundo do baú.
A felicidade exige alguns riscos, pensei “fadinha boa”. E chorei desconsoladamente quando, finalmente, fomos entregar os papéis ( difíceis papéis!) ao encarregado do registro civil de Alcalá de Henares e o departamento estava fechado por “vacaciones de verano“. Inacreditável!!!!
Pois sim…
Tivemos que esperar o final do verão para que reabrisse, apenas uma semana antes do final do meu prazo de validade dos documentos e no dia 13 de setembro, depois de uma fila enoooorme, na calçaaaaaaada, com um papelzinho na mão com o número 79 ( sim, isso mesmo), conseguimos sentar diante de um sujeito muito bronzeado, levando duas testemunhas e toda a papelada exigida.

Aí o”gnomo” recebeu tudo, olhou, olhou, olhou… e disse: Tudo bem, tudo certo.
Respirei pela primeira vez em cinco minutos. Mas por que vocês não levaram isso para Santorcaz? Teria sido tudo muito mais simples. Agora, vou ter que mandar os papéis para a prefeitura de lá e daqui que passe um mês de proclamas, que me devolvam, que eu mande para Madrid, que me devolvam… etc. Vai levar uns dois meses!
Perdi o ar de novo. Encarei a criatura com surpresa. Em Santorcaz nos disseram que tudo tinha que ser feito por aqui. Ele nos interrompeu, sorrindo, o desgraçado, ahhhh! como as informações são difícies com essa gente! Tcs.Tcs!
Saí de lá com vontade de voltar em Santorcaz e enforcar a mocinha, que por pura preguiça ou simples falta de interesse em informar-se melhor, havia feito com que eu perdesse quase um mês da validade de meus documentos. Respirei. Não, bufei como um touro bravo! Engoli meus intintos homicidas e resolvi esquecê-la e partir para os seguintes passos a serem dados.
A contar dos dois meses que o “gnomo” nos deu, em 13 de novembro teríamos tudo pronto, então somamos mais um tempo de segurança e marcamos o casamento para 9 de dezembro. Meio frio, mas não tínhamos outra opção.
Comemoramos, junto com meu aniversário, com uma bela viagem de final de semana pelos pueblos medievais de Sória, a convite de um casal de amigos. Estivemos em lugares espetaculares de se ver e estar. Tenho fotos incríveis dos castelos e muralhas medievais, ermitas românicas e igrejas templárias. Aproveitei e disfrutei com gosto e vontade da fantástica gastronomia! Vinhos Ribeira Duero incluídos. Mas esse é outro post, verdade?
Quando voltamos desta viagem eu estava disposta a começar uma dieta organizada, com médico, medicamentos, o que fosse necessário, desde que no dia da boda eu estivesse um pouco mais leve e com a auto estima mais elevada. Tinha quase três meses pela frente e queria estar bonita naquele dia, oras! Afinal seria o alvo de todos os olhares.
Mas, como eu disse antes, elas escutam tudo que eu penso. E preparam armadilhas infalívies.
Em Sória já havia me “despedido” das iguarias e vinhos ( Que comida, meu Deus!) e estava pronta para fechar a boca e só abrir no Natal.
Rá! No dia 20 de setembro lá estava eu na Galícia, para uma semana de comemorações dos 25 anos de formatura do meu “prometido”.
Agora era assim. Fui apresentada a todo mundo como “a prometida”. Ho ho ho!

Sabe que eu gostei? Toda vez que escutava meu novo título abria um sorriso daqueles! Embora tenha percebido uma ou outra careta de surpresa.
Algumas pessoas que frequentaram o passado de olhos-de-mar-azul imaginavam que, só porque ele estava vivendo com uma brasileira, ela deveria ser – com certeza absoluta – uma bela e JOVEM MORENITA, de 22 anos mais ou menos, com grande bunda sob a mini saia verde-amarela e que andava sambando pela rua.
Ah ah ah ah ah!
Olhavam para mim e para ele com uns olhos abertos de Como assim?
Devo dizer, sem medo de errar, que a grande maioria dessas carinhas idiotas foram femininas. Os homens, e sei que alguns pensaram o mesmo, disfarçaram melhor. Mas as mulheres nunca o conseguiram.
E a grande decepção, quase geral, foi quando me convidaram para sambar e eu disse que não sabia.
Heim?! Uma brasileira que não sabe sambar? Falsier, na certa!
Eu morria de rir por dentro. Mas estava tão tranquila que não fiz sequer meio esforço em parecer o que não era, só para agradar a platéia.
Então… entre mais de cem pessoas novas, muitas se aproximaram e estabeleceram uma conversação tranquila, educada e inteligente. As que não quiseram conhecer-me eu simplesmente apaguei do cenário. Estava tão feliz por estar ali, com ele, comemorando um momento tão bonito de sua carreira, que o resto era resto. Trocávamos olhares e sorrisos cúmplices, sorríamos carinhosamente, dançávamos como dois apaixonados. Aproveitamos todos os momentos para estar felizes.
Esta tem sido nossa escolha. Sempre.
As bruxas trabalharam bem naqueles dias e comi tudo de gostoso que a Galícia pode oferecer. E é muito! Vinhos Albariño incluídos. Num dos passeios pelas ruas estreitas de Combarro, uma senhora que vendia recordações da Galícia, bateu palmas quando eu passei. E dezenas de bruxinhas de brinquedo começaram a mover-se e dar risadas malígnas. Era tão engraçado que comecei a rir também! E de repente me vi ali, gargalhando alto com trocentas bruxas. Seria um sinal?
Saí dali depressa. Eu heim!
Também as fadas estavam despertas e estive ma-ra-vi-lho-sa nas roupas que escolhi para as festas. Assim que nem liguei muito para a dieta, até que um dia tive que dar um basta. Meu estômago começou a queixar-se de tantos mariscos e tive que parar. Ufa!
Salva pelo gongo. Não engordei nem uma grama, mas também não emagreci nada.
Minha médica brasileira enviou-me uns medicamentos pelo correio que me ajudariam na luta contra a ansiedade e a vontade de comer qualquer coisa que estivesse na geladeira, mesmo sem fome e eu estava contando que iria encontrá-los esperando-me quando chegasse em casa.
Nada. Não estavam e nunca chegaram! Sumiram no éter!
Nem eu os recebi aqui, nem ela sabe por onde estão. As bruxas devem estar magérrimas voando por aí, mas aqui nunca chegaram as pílulas que me salvariam da histeria pré- casamento que se instala e desenvolve-se a rédeas soltas em qualquer mulher. Juro.
Começou Outubro e com ele veio o outono. Época linda e tranquila para caminhar pelo campo, tentar comer pouco, aproveitar os dias frescos para boas e largas caminhadas, as noites mais longas para planejar a festa do casamento, pensar nos convidados, na comida que iríamos oferecer, a bebida, os doces…
( Pausa para um comentário em voz baixinha: Que merda ter que pensar nisso justo de noite, a boca se enchendo de água e o estômago – bem acostumado aos vinhos e delícias espanholas – pedindo algo parecido e rejeitando, com escandalosos ruídos, o iogurt de cereais Urgh!< Peloamordedeus que tortura! )
Então… Melhor pensar que estaria mais magra e melhor na roupa que usaria e…
Roupa!!! Trrrrimmmm! Saltou o alarma.
Tinha que começar JÁ a pensar em algo.
Mas não era melhor emagrecer um pouco antes de começar a provar o que fosse, pensei como “bruxinha”?
Achei melhor esperar o final do mês para começar a provar roupas enquanto imaginava o que gostaria de vestir no dia do meu casamento. Algo suave e leve, com movimento e classe. Sim, mesmo no inverno! Nada de vestido de noiva, por supuesto.
Mas esse negócio de casar com nenhuma cara de noiva também não me agradava.
Havia estado no casamento de uns amigos há alguns anos atrás e o casal, apesar de feliz e apaixonado, não demonstrava sequer um tracinho leve de que era um par de noivos . Nem alianças trocaram!
Tudo bem que era um casamento apenas no civil, mas achei que podia ter um pouquinho de frisson, um pouquinho de romance. Que custava?
Alianças??? Trrimmmm! Soou outro alarma! Eu queria alianças, por supuesto
Avisei ao meu prometido. Assim… devagarzinho, dando por fato consumado que haveria alianças. Técnica aprendida com a Princesa. Era tiro e queda! Aproveitei uma noite em que escrevia meus planos no caderno e perguntei onde as compraríamos.
“Eu não posso usar aliança”, ele respondeu. Explicou que já havia visto alguns oficiais marinheiros perderem o dedo em manobras nos barcos por causa delas.
Bien, entonces la mia vai poder ser más bonita y más cara!” Sorri inocente, em meu Portuñol.
Saímos para comprar A aliança em Madrid. Era uma noite maravilhosa e fria do outono madrilenho e elegi uma roupa com cuidado. Era uma noite especial, merecia detalhes. Na joalheria escolhi um modelo moderno, de ouro rajado e ele um outro, de bordas arredondadas e que não enganchava em nada. ( Oh! ) Encomendamos as duas.
O vendedor nos olhava surpreendido. Era a primeira vez que um casal encomendava alianças diferentes. Eu sorria de boca inteira.
Que passa? Cada um escolhe a que mais lhe agrada, ou não? Somos diferentes, ora! Mas pelo menos são DUAS!
Saímos para comemorar! Vinhos Rioja incluídos! Um amigo nos ofereceu seu apartamento em Madrid e não voltamos para casa àquela noite.
Que noite fantástica! Eu estava realmente me sentido uma noiva de verdade, com romance colorido e tudo! Muito mais do que na primeira vez que me casei. Que divertido isso! Estava me sentindo leve e completamente relaxada, como se caminhasse a meio palmo do chão. Coisa mais linda e mais gostosa não há que a felicidade das pequenas coisas.
De repente estar caminhando de mãos dadas com ele, o meu ELE, sentindo o ar frio no rosto, percebendo as calçadas cheias de gente, as vitrines iluminadas, as luzes estratégicas dos enormes prédios neoclássicos chamando atenção para as bordas cheias de esculturas, respirando os cheiros dos bares de tapas… era a felicidade perfeita.
Depois de jantar com nossos amigos, eles se foram e deixaram a casa só para nós. Ficamos na saleta do apartamento tomando as últimas copas, recordando os sonhos escritos nos anos em que estivemos nos correspondendo, descobrindo satisfeitos que estávamos transformando todos em realidade e que esta estava saindo ainda melhor do que tínhamos podido imaginar.


Recordei algumas noites em que estive diante do computador, escrevendo mais uma das enormes cartas em que desejei com toda a força do meu ser passar com ele uma noite como aquela.
Recordei o gostinho amargo de solidão que podia guardar uma taça de vinho tinto tomada diante da minha pequena janela de Boa Viagem, numa noite de brumas.
Recordei como desejei estar entre seus braços e que gosto bom deveria ter um Rioja bebido na mesma taça!
Recordamos trechos que havíamos escrito com os detalhes do futuro que queríamos para nós e tomamos plena consciência da alegria que estava sendo descobrir que havíamos ajudado um ao outro a escrever nosso destino.
Era a noite de 16 de outubro. Dentro de um mês as alianças estariam prontas e nossos amigos as recorreriam e nós os convidaríamos a jantar.
Se as bruxas deixassem…

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Elas e Eu… ( Cap 17 )

As famigeradas tentaram de tudo…

Provocaram brigas, esconderam roupas, quebraram carros e portões entre outras cositas mas….
Mas minhas fadas são fantásticas!
E com calma, jeitinho e muita paciência me ajudaram a resolver TUDO!

Venci o round! Mais um!
Muito obrigada pela paciência e os deliciosos comentários.
Antes do final desta semana voltem que haverá post novo.
Juro!
Prometo!
Smack! Smack!

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Casamento à Vista…(Cap 16)


Pois é… desta vez vamos casar mesmo. Na manhã do dia 09 de dezembro!
Será tudo muito simples e caseiro, pero… está dando um trabaaaaalho!
Queria escrever antes, meus queridos, mas simplesmente não pude. Estava esperando que a data ficasse mais perto para contar assim bem baixinho e tentar que as bruxas não escutassem.
Inútil subterfúgio! Elas já sabem! Elas sempre sabem!
As miseráveis estã trabalhando dobrado, mas eu também. E afinal, aposto que vai dar tudo certo. Estou anotando tudo o que nos está acontecendo para escrever assim que passe, pois não penso fugir da raia.
Bueno… também tem seu lado engraçado. Fui encomendar o bolo de noiva na ambulância da Estação de Radio porque o carro quebrou justo na hora… claro!
Mas em compensação, um homem chamado Florentino vai realizar a cerimônia. Florentino! Naturalmente que eu já batizei o sujeito de Florentino Ariza, o personagem do Meu romance de Garcia Marquez preferido. Quem leu o livro sabe do que estou falando. Acho que Florentino Ariza é um símbolo! Penso que vai dar sorte para meu amor tardio, mas completa e profundamente apaixonado.
Casar aos 50 é fantástico!
E isso é só uma pitada do resto da receita.
Assim que puder volto, com textos e fotos!
Muitos beijos a todos.
Ando feliz que nem borboleta!

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Elas descobriram…(Cap 15 )


Quando olhos-de-mar-azul perguntou-me se eu “casaria com ele” eu ri, meio assustada. Que pergunta!
Mas com ele eu faria qualquer loucura, inclusive casar-me! Disse sim com um sorriso que não cabia no rosto. Ele recostou-se, sorriu satisfeito e não disse mais nada.
Como assim? E o pedido? Perguntar se eu me “casaria” com ele era apenas investigar uma possibilidade. Assim não vale!
Encostei mais perto e perguntei:
– E você, casaria comigo?
– Por supuesto que si!
– De verdade? Assim, no papel?
Claro. En el papel. No resto já estamos cassados. (Eu adoro quando ele fala Portunhol com um sotaque gostosíssimo!)
Mas no fundo tremi um pouco. Esse negócio de casar sempre me assustou. Nunca casei no papel. Meu casamento anterior foi só no religioso. Havia um consenso entre nós para não perdermos uns benefícios econômicos que eu tinha, herdados do Lorde. E assim foi. Depois, para separar-nos, foi muito fácil. Ele ficou com tudo, apesar de termos dividido todas as despesas, sempre. E eu saí com a minha filha, meus livros e discos… minhas duas trêmulas e desconhecidas pernas e um desejo incomensurável de ser feliz.
Êi! Mas agora era diferente. Nada de medos! Eu nunca fui tão feliz em toda a minha vida. Os danados dos papéis podiam ajudar-me a ser gente fora de meu país! Era, inclusive, a forma mais simples de consegui-lo. E para ele também haveria um peso positivo no âmbito profissional, embora o mais importante fosse casar-nos apaixonados a essa altura da vida. Era muito mais do que qualquer sonho romântico que tivéssemos alimentado antes de vivermos juntos. Voltei ao assunto.

– Bueno,e o pedido? Perguntei.
– Hum? Que pedido?
– O pedido! Quero que me peça em casamento. Falei sorrindo.
– Hahahahahahhahaha! A gargalhada dele foi linda.
– Era un pedido! Afirmou, com cara de surprêsa.
– Não. Era só uma pergunta. Não valeu. Insisti mais ou menos insegura.( Porque será nos incutiram por toda a vida que este momento tem que ter um traço renascentista?)
Mas eu sou renacentista! Que é que tem? Algum problema? E Ainda bem que ele não veio com aquela história de “eu estava só brincando.”
Levaria um tufo no olho. Juro!
– Quieres casarte conmigo? Perguntou sorridente. (Eu também adoro quando fala em Errpañol! )
– Vou pensar. Respondi. Hahahahahhahaha! Era minha vez de gargalhar! Que delícia! Mas não exagerei na brincadeira. Respondi dois segundos mais tarde…
– Pois… já pensei. SIM. SIM…Seria lindo poder casar com você.Quando? ( Que coragem! )


Era quase inverno. Haviam coisas a fazer antes. Ele disse que seria melhor esperar a próxima primavera. Daria tempo de enfrentar-nos à burocracia e seria uma bela época. Clima ameno, flores por toda parte… Concordei.
Em Janeiro comecei a mexer com os meus documentos, pois como eles tem um prazo de validade muito reduzido não se pode antecipar demasiado os trâmites. Pedi a um dos meus irmãos que providenciasse uma certidão de nascimento original e reconhecida. Simples. Até dei para ele o número do livro, da página, etc… etc…
Depois era necessário mandar para o Ministério de Relações Exteriores, em Brasília, para uma validação, e finalmente enviar para o Consulado Espanhol, em Salvador, para um reconhecimento da validade.( Recife não tem Consulado da Espanha, só uma Representação Consular.) De volta às suas mãos, que enviasse-me por Sedex. Era preciso cuidar das datas. Quando isso chegasse aqui já estaríamos em Março…quase Primavera.
Depois de alguns dias sem dar notícias meu irmão disse-me que precisava de uma procuração. Liguei para a Embaixada do Brasil em Madrid, onde trabalha uma amiga e ela disse que não era necessário procuração alguma e que alguns despachantes pedem até por telefone!
Claro, ele nem tinha ido no cartório ainda quando perguntei pelo andamento do documento. Insisti que ele podia retirar a certidão sem a procuração e ele disse que iria “tentar outra vez”. Dias depois ele me mandou um e-mail afirmando que o número do livro estava errado pois haviam encontrado outro nome no lugar do meu.
Como assim?
Confirmei tudo o que havia dito, escaneando a certidão que tenho comigo. Esperei mais uns dias, nem lembro quantos. Então, ele me escreveu que o cartório havia sofrido um incêndio e alguns registros estavam confusos, mas que havia conseguido retirar a minha certidão.
Uff! Um passo tão pequenino e demorou mais de um mês para ser dado.


Aí… foi chegando o Carnaval e ele disse que agora só podia mandar para Brasília depois desta época… que, “sabe como é, está tudo parado…” Alertei para a data e o prazo de caducidade. Tá.
Fiquei sem resposta até muito depois do Carnaval.
Em Março ele disse que ia mandar para Brasília, mas estava com muitos problemas no trabalho e sempre esquecia. Enquanto isso, nós aqui decidimos adiar a época do casamento para o verão. Os papéis de Pepe também estavam atrasados. Tudo bem. Relaxei. Seria mais uma vez num verão! Como sempre na nossa história!
Em Abril ainda não tinha qualquer notícia e aquele pedaço de papel não valia mais nada. Era melhor começar de novo. Meu irmão desapareceu. Escafedeu-se.
Em Maio ele retirou outro documento ( ou teria sido o primeiro de verdade?) e depois de remanchar mais um tempo, enviou-o para Brasília. Pelo menos foi o que me disse.
Em Junho recebi a certidão em Madrid e fui imediatamente ao Ministério de Relaçãos Exteriores daqui para validá-lo, antes de enviá-lo para uma tradução juramentada.( Essa é outra exigência do Cartório Civil. Tudo tem que ser traduzido por profissionais autorizados. Caríssimo! )
Bueno, pelo menos ali me atenderam muito bem, MAS o documento não valia nada porque faltava o selo do Consulado da Espanha.
Como assiiiim? Voltei para casa decepcionada. E com raiva também! Muuuuita raiva!
Decidi pedir ajuda à uma amiga de Recife e ela concordou em ajudar-me. Mandei o documento por Sedex para que ela agilizasse o selo do Consulado. Aí ela me mandou um e-mail dizendo que faltava também o selo de Brasília.
– Heim??? ( Leia isso muito alto!)


Sim, ela disse que não havia selo nem do Ministério, em Brasília, nem do Consulado, em Salvador e – por causa da data – era melhor pedir outra certidão, pois essa já estaria vencida quando voltasse para mim.
Oh! As bruxas… elas descobriram! Eu sabia que deveria ter dedinhos delas nesta confusão toda.
Começar de novo? No final do verão???
Liguei para o outro irmão, pois nem queria falar com o primeiro para não triturá-lo com minha raiva. E este, mas do que prestativo, disse que “sim, claro que sim… não se preocupe!” Nem contei para ele o que já havia acontecido. Eu queria apenas que ele tirasse a certidão nova no cartório e depois entregasse-a a minha amiga. O resto era melhor deixar com ela. “Sim.. sim… claro”. Concordou imediatamente. Mas quando eu perguntei se ele podia fazer isso no dia seguinte ele se assustou.
– Amanhããã?
– Sim, amanhã.
– Amanhã não vai dar. É o jogo!
– Que jogo?
– O jogo do Brasil, minha filha!
– E a que horas vai ser o jogo? Perguntei engolindo a raiva. Tenho cada parente!
– Às 4 da tarde. Mas sabe como é dia de jogo, né? Está tudo fechado!
– E cartório também?
– Também.
– E você não pode ir de manhã cedo?
Ele esfriou a voz e respondeu muito formalmente.
– Não se preocupe que eu vou resolver o SEU problema, tá! Você está ME pedindo um favor, não é? Pois vou fazer assim que EU puder.
Que impotência! Que vontade de gritar! Xingar a mãe dele! ( Mas ela era a minha também!) Não quero mais brincar de “irmãzinha querida, estou com saudade! “
Ele nem sequer estava trabalhando para poder botar a culpa no trabalho e na falta de tempo. Copa do Mundo. Jogo do Brasil. Tá.
QUATRO DIAS DEPOIS ele entregou o documento a minha amiga.


Enquanto isso eu já havia contactado com a BethS, de Brasília, minha amiga virtual, que nunca me viu mais gorda ( nem mais magra ) para receber o documento em sua casa e ir pessoalmente ao Ministério. Seria muito mais rápido do que resolver pelos caminhos do correio oficial. E ela, que nem é minha irmã, disse que faria tudo sem problemas, no mesmo dia que recebesse o envelope. E ainda era Copa do Mundo!
Trocamos e-mails entre as três, mas uma não recebia as mensagens das outras… e sem explicação plausível.Simplesmente não recebíamos todas as mensagens trocadas…
Finalmente, Beth recebeu um envelope selado que precisava ser aberto diante de um tabelião, pois senão perderia o valor, além da minha certidão e me perguntou o que era aquilo. Eu perguntei à minha amiga de Recife, que mandou a resposta direto para Beth e eu fiquei sem saber a resposta até hoje. Também nem perguntei mais… Ela conseguiu selar a certidão e devolveu para Recife em um tempo record! Maravilha!
Sem palavras para agradecer tamanha gentileza e disponibilidade da Beth, que teve que ir duas vezes ao ministério! Muchíssimas gracias, querida!
Depois disso, minha amiga de Recife resolveu a parte do Consulado, em Salvador, e o documento partiu para a Espanha bonitinho, como devia ser. E, detalhe da minha amiga, já traduzido. Outra maravilha!
Sem problemas no MRE espanhol, em 5 minutos estava validado. Agora só faltava ir ao Consulado do Brasil, em Madrid e recorrer a carterinha de inscrição consular, já solicitada desde Junho.
Aí sim, as atendentes pareciam minhas irmãs. Atendimento VIP, de primeira categoria familiar!


Depois de um tempo razoável numa fila cheia de brasileiros e brasileiras e crianças de braço e carrinhos de bebês, a pessoa que me atendeu do outro lado do grosso cristal, com três ou quatro furos minúsculos cinco centímetros mais altos que a altura de sua boca, o que fez com que ela tivesse que esticar bem o pescoço e gritasse bem alto que era para que eu a ouvisse BEM e toda a fila também e quem sabe mais alguém que passasse do outro lado da rua… consegui apoderar-me da carteirinha.
Saí com aquilo na mão, desconfiada. Isso não tem cara de valer nada para casar-me. Fui no carro e peguei o papel de instruções do Cartório Civil. Voltei para o Consulado e entrei de novo na fila. Outra pessoa atendeu-me. Esta um tanto mais simpática e discreta que a anterior. Examinou o papel e confirmou minhas suspeitas. Não era aquilo. Olhou com cara de dúvida para o relógio e disse: ” É, ainda dá tempo de você ir ali na esquina pagar essas duas taxas e voltar. Corra viu!” Conselho de quem sabe o que está dizendo!
Corri. Saquei dinheiro. Paguei as taxas. Voltei. Entrei de novo na fila, já quase extinta. Uma terceira pessoa atendeu-me. Não. Atender tem outro conceito.68.gif Ela gritou pelo outro lado do vidro que eu não tinha ficha, que ela não atendia mais, que já terminou o expediente. Volte outro dia, viu?! Nem me deu tempo de explicar nada.
Mas eu fiquei ali, olhando para ela. Fiz cara de “Não estou entendendo nada! O que? É comigo?” Quando ela parou de berrar, disse-lhe numa voz tranquila e baixa ( aaaaanos de treinamento!) que a sua companheira de trabalho havia permitido que eu voltasse.
– “Claro que não poderia ter sido você.” “Você nunca o faria, não é mesmo?”Continuei, sem resistir à vontade de alfinetá-la.
A companheira da azeda e mal educada atendente pegou meu comprovante de pagamento e… mágica! trocou por outro comprovante. Disse-me que voltasse DEZ DIAS DEPOIS para buscar os dois papéis que eu precisava: Um certificado de inscrição consular, daqueles tipo modelo-único, que só muda o nome da gente. E outro que explica a não necessidade de proclamas no Brasil. Só isso. DEZ DIAS para emitir duas bobagens dessas.
Bueno, menos dez dias no prazo de validade da minha certidão de nascimento. Toda a rede de amigas disponíveis no Brasil jogada fora por causa da lentidão e falta de eficiência do Consulado do Brasil de Madrid.
O dia foi ontem. Fui lá mais uma vez. Três ou quatro pessoas diante do guiché de ” entrega de documentos”. Que bom!

…Era um engano. Desta vez me haviam preparado um atendimento muito pior que o anterior pois não bastava estar em pé atrás do último a chegar. Era tudo muito mais complicado!
Uma senhora, segurança do Consulado e responsável pela organização no atendimento, que não fala Português e age como se todos nós fôssemos retardados mentais, avisou-me que eu não ficasse na fila e sim que perguntasse na saleta de espera “quem é o último?”. Assim. Como numa feira. Como se eu quisesse comprar tomates na barraquinha do mercado de Alcalá.
“Quem era o último?” Agora era eu. Haviam umas dez pessoas na minha frente. E nos próximos 50 minutos ninguém foi chamado a subir as escadas para o atendimento. Uma hora e quinze minutos depois, as três ou quatro pessoas que estavam lá em cima ainda não haviam saído. O que será que eles estavam buscando? Aquela não era uma fila só para “Entrega de Documentos”? Era. Uma hora e meia depois eu estava em pé, segurando um bebê nos braços, enquanto sua mãe preenchia uma solicitação para a Certidão de Nascimento. Tão pequenininho e já sofrendo para ser alguém.
Duas pessoas na minha frente voltaram sem os documentos que haviam solicitado. A mãe do meu bebezinho também voltou para casa sem resolver seu problema. Faltavam-lhe outros papéis.
Todos foram tratados com desdém como se fossem um grande estorvo.
É verdade que o atendimento apressou bastante nos últimos minutos. Agora os funcionários já tinham pressa em fechar. Não tinham mais tempo para dar explicações detalhadas, mesmo que incompletas. Estavam cansados de estar ali, em pé, atendendo gente que perdeu passaporte, foi roubado, quer viajar com crianças ou simplesmente casar. Que voltem mais vezes. Muitas vezes. Que mais dá?!


E eu pensava que Consulado Brasileiro existia fudamentalmente para dar apoio e suporte aos brasileiros. Me enganei. Nós incomodamos muito. Eles detestam ter que receber gente com problemas ou necessidades que só eles podem resolver. Eles odeiam ter que dar-nos informações corretas e completas. Negam-se terminantemente! E nem se animem a tentar obter alguma pelo telefone. Eles NUNCA atendem. Somos o terror dos funcionários do Consulado Brasileiro em Madrid.
E eles são nosso karma.
Enfim, consegui meus papéis. Voltei para casa cansada, faminta e irritada, mas com eles na mão.
E hoje era o dia D. Acordei com cara de noiva. Juro! Espreguicei contente da vida, escolhi uma roupa bonita, fiz o café cantando… Hahahahahaha!
Com a pasta de documentos debaixo do braço, duas testemunhas documentadas para afirmarem que me conhecem (e que sou solteira) e de mão dadas com olhos-de-mar-azul, desci sorridente e feliz o morro de Santorcaz para Alcalá de Henares.
Entrei meio nervosa no Registro Civil, um prédio antigo bem diante da Plaza de Cervantes, para dar entrada nos trâmites finais.
Achei bonito estar diante da praça, mas o ambiente da sala era um tanto desorganizado. E bem diante da porta por onde eu deveria entrar havia um cartaz branco com letras pretas que dizia: “O Registro Civil esta cerrado hasta el dia 7 de Septiembre.”


Não podia ser! Não acreditei!
Ainda me aproximei de um grupo de pessoas que tinham papéis numerados nas mãos, mas eles confirmaram o absurdo. Estavam ali por outros motivos.
O Registro Civil está de “vacaciones”. Só abre dia 11 de Setembro. Porque o cartaz dizia dia sete mas estava errado. Nos informaram que só vai funcionar mesmo no dia ONZE.
Fatídica data, não? E ainda por cima, aniversário de um dos meus irmãos…
Alguma dúvida de que foram elas????? As Bruxas?
Eu não tenho nenhuma!
Como um Registro Civil de uma cidade com mais de duzentos mil habitantes fecha por férias de verão? Eles trabalham com documentos importantes e que TEM DATA DE VALIDADE CURTAS!!!! Como podem fechar um mês????
Fecharam. Eles fecharam! É inacreditável! E inadmissível!
Agora, aqui para nós, desde o começo desta história, os absurdos se sucedem, um após o outro. Cada vez que estamos movendo-nos para estarmos mais juntos, as bruxas experimentam novas poções mágicas…
Primeiro a amiga mentirosa, depois a festa de Carnaval…os anos de distância, as cartas espaçadas, a bomba d´água que explode, o assalto, a delegacia, o avião em Cabo Verde, as esperas eternas… a maleta desaparecida, o portão de desembarque equivocado,os sapatos vermelhos… até botas que se dissolviam pelos corredores do aeroporto…
Quantos absurdos! Quantas horas de angústia!
Podem rir. Eu também rio. Depois de tudo eu sempre acabo dando risada. Coisas de quem quer e sabe ser feliz.
Porque eu já disse a elas mais de mil vezes: ” Não vai adiantar. Desse amor eu não desisto!”
E também tenho minhas fadas!

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