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O Almoço…

Li um post no Pretensos Colóquios da amiga Dora, e não pude resistir a trazer aqui um dos meus pedaços prediletos do livro de Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e de Famas.
Porque desde que vivo na Espanha, muitas vezes assisti-me como uma estranha numa mesa onde comensais pareciam amigos sem o serem… medindo palavras e gestos aos mínimos detalhes.
De repente eu queria que toda aquela deliciosa comida, as belas flores e os magníficos vinhos fossem para outros… distantes e queridos outros.
Cortázar é divino quando descreve um almoço entre cronópios, famas e esperanças.
Ai, vai. Para você Dora!
E para todos os que também amam Cortázar ou apenas sentem falta de verdadeiros amigos em suas mesas.
…………..

“Não sem trabalho um cronópio chegou a estabelecer um termômetro de vidas. Algo entre termômetro e topômetro, entre fichário e currículum vitae. Por exemplo, o cronópio em sua casa recebia a um fama, uma esperança e um professor de línguas. Aplicando seus descobrimentos estabeleceu que o fama era infra-vida, a esperança para-vida, e o professor de línguas inter-vida.
Enquanto a si mesmo, considerava-se ligeiramente super-vida, mais por poesia que por verdade.
Na hora do almoço este cronópio gozava em ouvir falar a seus contertúlios, porque todos acreditavam estar referindo-se às mesmas coisas e não era assim.
A inter-vida manejava abstrações tais como espírito e consciência, que a para-vida escutava como quem ouve chover – tarefa delicada. Naturalmente, a infra-vida pedia a cada instante o queijo ralado, e a super-vida trinchava o frango em quarenta e dois movimentos, método Stanley Fitzsimmons.
Depois das sobremesas, as vidas se saudavam e partiam para as suas ocupações, e na mesa permaneciam apenas pedacinhos soltos de morte.”

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