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Curto-Cicuito…

Precisava aprender a viver sozinha.
E jurava de pés juntos que conseguiria. Era o sonho dourado de qualquer mulher moderna. Ser livre, segura, independente. Única dona de mim mesma.
Caro. Era muito caro.
E não eram só as contas que eu tinha que administrar. Era a vida.
De repente, as exigências de ser uma cidadã do mundo atual me asfixiaram.
Tinha que estar em dia com o pagamento da luz, do telefone, do cartão, da academia, das aulas de música, do IPTU, IPVA, INSS, CP e todas as siglas que inventaram por aí para sacar qualquer cristão de seu juízo perfeito. Ainda tinha o aluguel, o imposto de renda e a assistência médica. Um roubo!
Mas é que eu também tinha que estar em dia com todos os istas:ginecologista, oftalmologista, dentista, dermatologista, este um ogro que me arrastava no chão cada vez que o via!
Tinha que estar em dia com a roupa suja para lavar, a limpa para passar, a limpeza e o abastecimento da geladeira, o banheiro cheirando a lavado, o tapete aspirado, os quadros espanados e alinhados corretamente, os discos organizados em suas respectivas caixas, os livros desempoeirados e arrumados por tema, as camas bem forradas, as plantas regadas, o lixo ecologicamente separado e pronto para ser levado aos lixeiros públicos, o carro lavado, abastecido e assegurado! Como se faz tudo isso de uma vez?
Tinha que ir regularmente ao ginásio e suar feito uma vaca pulando em aulas de aeróbica absurdamente impossíveis de seguir e sentir-me como a mais débil mental de todas as mulheres, indo sempre para o lado contrário ao resto da classe, desejando envelhecer logo para poder parar com aquele suplício de tentar manter um corpo sano em mente sana. Mentirinha que toda mulher conta. Queria mesmo era ficar desejável. E não envelhecer nunca.
Uff!
E por falar em mente sana, tinha que estudar ainda e sempre Freud. E também Cris Argyris e também preparar as aulas para o pós da Universidade e também as palestras e os cursos de proficiência em hotelaria. Afinal a gente também tem que contribuir para o social, ou não?
Também.
Tinha que estar feliz e ser agradável com toda a gente: do trabalho, dos cursos, e principalmente com a filha. Dessa tinha que cuidar de amar. Toda. Inteira.
Tinha que visitar a mãe constantemente ou pelo menos ligar todo dia. E contar coisas boas e aprazíveis, para não preocupá-la demasiado. Preocupada ela sempre estava.
Ah…e não esquecer das amigas, comprar presentinhos de aniversário sem esquecer absolutamente nenhum. Os da família, nem pensar em esquecer.
Tinha que ler os jornais para estar informada e ver os noticiários da televisão. Saber o que se passava nas novelas da moda ou não entendia quase nada das conversas de corredores do trabalho ou das festinhas de aniversário das crianças.
Sangue de Cristo tem poder!
Difícil para quem estudava ou ensinava à noite.
Mas quando não havia aula…
E tinha também que ler algo de filosofia, arte, poesia. Um clássico ou uma boa biografia. Isso era imprescindível à alma.
Assistir todos os filmes imperdíveis. E ainda conseguir comprar música boa e barata. Mas a boa quase sempre era caríssima!
Ler as cartas das revistas assinadas. Dar uma passadinha nos artigos da Época e da Super Interessante. Incentivar a filha nas artes da leitura, música e fotografia.
Aprender a cozinhar resultava impossível, mas tentava. Errava até nas sopas de pacote. Desistia todos os dias!
Tinha que ter um namorado que fosse pouco presente, apenas o suficiente para ativar os hormônios e alisar o ego. Então escolhia um caso para só ver de vez em quando.
E devia estar sempre alegre e contente feito um parque de diversões, senão por qual motivo eu estava ali?
Tinha que ser leoa, vaca, coruja, passarinha. Tinha que ser sereia, formiguinha, cigarra e vaga-lume.
Tinha que ser A MULHER.
Pois de repente me senti ameba.
Morrer, assim o que se diz morrer mesmo, não morri.
Mas morri assim mesmo.
E então, nada ficou no lugar…
Mas isso eu conto outro dia.

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