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Dez anos…

mala-e-cuiaDez anos atrás eu desembarquei na Espanha de mala e cuia… os saltos das botas se desfazendo pelo aeroporto, o coração dando pulos de felicidade, disposta a reconstruir minha vida num caminho completamente novo.Era o exílio… mas eu estava segura de que seguia meus sonhos mais importantes e que jamais estaria sozinha. Dez anos é tempo grande, sim. Dá para muita estória. Algumas eu já contei pelos blogs anteriores, outras se perderam do registro e ficaram apenas na memória. Demorei tempo demasiado em escrevê-las… uma pena.  Tantas outras se espalharam por dentro de mim, transformaram a minha vida devagarzinho, dia a dia… mas eu seria incapaz de recordar uma a uma agora.

Durante alguns anos eu escrevi sobre as viagens, sobre as cidades de Espanha, sobre os caminhos de terra de Santorcaz. Era um tempo bom, de paz e serenidade, vivendo no campo, com horas a mais todos os dias. Dava para aprender a mexer no computador, criar um blog e ainda por cima escrever um ou dois posts por semana. Fiz tantas viagens lindas, aprendi tanto sobre a história desse país, seus personagens extraordinários, sua arquitetura e sua gastronomia exuberantes… me apaixonei mais,cada dia mais… por tudo que agora fazia parte da minha vida.

Me apaixonei mais  também por olhos-de-mar-azul e isso me surprendeu muito. Como era possível amar tanto?

“Sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando, mas quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois.” Guimarães Rosa.

Às vezes eu sentia um medo de que algo passasse. Era beleza demais para ser “ a vera” E eu sentia pânico em imaginar que se acabaria de repente _ puft, se acabou, era de mentirinha uhhuuuuu!  Quando a idéia me pegava de surpresa, eu parava de respirar, olhava em volta…esperava… e nada. Tudo seguia de verdade.  Por quanto tempo ainda, se nada é para sempre?   Arregalava o olho no meio da noite, contava as estrelinhas pregadas no teto do quarto, sem luz, apagadinhas… olhava para ele dormindo ao lado, ressonando de leve … e sorria. Que delícia! As vezes eu ria de mim mesma. Se todas as mulheres do mundo se queixam que seu homens ressonam, porque eu gosto? Será que só eu sinto essa sensação de “lar”, de cumplicidade morna e doce? Aff… tô cada dia mais brega, pensava. E pior… isso deve ser muito perigoso!

Eu achava tão, tão, tão improvável esse negócio de amor à primeira vista, de reconhecer o sujeito no mesmo primeiro minuto… de amar mais cada dia. Eu achava que isso era mentira. Se voce ama, ama. Pronto. Já está. Que história é essa de sentir que está amando mais? Mas estava. Estava.

Bom…seis ou sete anos pasamos naquela casa. Dando voltas pelos caminhos de  areia e bosques de pinheiros, alimentando esquilos no jardim, recebendo os amigos, novos ou antigos, escutando música bem alto nas noites de lua, de chuva ou de neve, aprendendo a cozinhar e a compartir a vida e os sentimentos como nunca antes. Era tão forte que eu acho que ajudamos  um bocado de gente a ser mais feliz só sendo feliz junto deles…

Isso é bonito de contar. As pessoas diziam que se sentiam bem em nossa casa. Sentiam uma harmonia tranquila, um amor contagiante. Lá eles sentiam vontade de dançar, abraçar, conversar  sobre seus sonhos. Lá eles se beijavam mais. Uma vez uma das visitas disse que em uma semana em nossa casa havia beijado seu marido mais do que  o beijou nos ultimos dois anos… hahahhaha! A gente ria… mas era verdade.  As pessoas refletiam sobre suas vidas e seus sonhos. Alguns tomaram decisões importantes de mudanças porque começaram a acreditar que era possível ser feliz e que não era nada de outro mundo, nada de mágica transcendental… era só acreditar. E  agir. Viver.

456661_10151283467431893_1283091419_oPois… agora estou contando dez anos de Espanha. Dez anos com olhos-de-mar-azul. Ainda parece impressionante a nossa estória. Ainda conto às pessoas que me perguntam, _ “ versão curta ou versão longa?”_  com  a voz embargada e o sorriso de louca perdida. E eles ainda se surpreendem. De tudo. Do antes e do agora. Tanto se surpreendem com o que nos aconteceu antes que eu tenha vindo para viver uma vida tão diferente da minha no Brasil, quanto que tenhamos ido comemorar os dez anos juntos numa casa rural perdida nas montanhas, num lugar  quase desconhecido chamado La Coma y la Piedra, um pueblo minúsculo, em Lérida.  Se surpreendem que tenhamos passeado de mãos dadas pelos caminhos de neve, sozinhos, depois de 10 anos! Nós não. Para nós estar sozinhos no meio do mato é terreno conhecido, é repetir os primeiros tempos em Santorcaz, é confirmar quanto é natural estar um com o outro.

Um dia desses, eu estava tentando fazer um comentário no blog de Carolina, Una Vuelta del Destino,   e não entendi porque o WordPress me pedia um password. Mandei uma mensagem para o site e recebi uma nova senha. Surpresa! O blog Lingua de Mariposa estava todo aqui. Sem as fotos, mas com todos os textos e comentários.Consegui recompor as fotos dos posts e salvar tudo. Descobri também que um amigo brasileiro tem os arquivos do Cicatrizes da Mirada e que vai me mandar por correio. Quem sabe eu possa juntar os dois aqui. Eu gostaria.

Eu sei que a época brasileira dos blogs está meio fora de moda, desde que o Facebook e o Twiter entraram no cotidiano das pessoas, mas fiquei com uma pena danada de acabar com este.. Era tão bom escrever, guardar, ler depois…

Então acho que vai ser assim, como era bem no comecinho. Eu escrevia só para mim e  para alguns gatos pingados que me seguiam. Vou fazer isso… e vamos ver se ele consegue sobreviver, mais uma vez.

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Zaragoza.


Eu tenho uma cunhada que vive nesta linda cidade.
É uma pena que a gente não aproveite mais sua proximidade com Madrid para visitá-la mais amiúde. São coisas que passam, quando a gente se deixa tragar pela rotina dos dias e dos compromissos sociais.
Quando eu vivia no monte e não conhecia ninguém por aqui, viajava mais.
Tudo tem seu preço…

Zaragoza ( a pronúncia do nome é linda, linguodental… eu gosto ) é uma das mais antigas cidades da Espanha e fica a apenas duas horas de Madrid, de carro.
Vale a pena visitá-la.
Além de bela, tem muito o que contar sobre a história da Espanha, pois foi um importante centro político e cultural da Península Ibérica durante várias civilizações.
Quando habitada pelos íberos, chamava-se Salduba. Quando entraram os romanos, foi transformada por César Augusto em uma colônia militar e chamou-se Césaraugusta. Quando chegaram os árabes, rebatizaram-na com o nome de Sarakosta e finalmente, quando voltaram os cristãos, Zaragoza. Mais bonito, heim?!
Em qualquer destas circusntâncias, ela foi importante.

Às margens do rio Ebro, a cidade mostra o perfil fidalgo de seus palácios e casario, sua catedral e igrejas, com orgulho e paixão. E eu, com meu enamoramento incurável pelos rios e pontes, poderia ficar um dia diante deste… ouvindo seus cantos e prantos, reconhecendo as músicas que todos os rios conhecem e sabem cantar.
Mas, quando a gente não está sozinho tem que acompanhar os passos e as ânsias dos moradores, que querem mostrar tudo de uma só vez. E para muitos, mostrar os monumentos é mais importante do que mostrar o rio. Não sabem que vivi quase toda a minha vida em cumplicidade com um deles… e que isso ajudou a construir minha sensibilidade.
Assim, segui meus guias na minha primeira visita, uns anos atrás, mas internamente prometi voltar lá, só para sentar perto do rio, render minha homenagem a ele… ouvi-lo. Escutar o ruídos guardados na ponte romana, seus ecos e suas lendas misturados ao barulho constante da água que corre.
Voltei em Setembro, para ver a Expo Zaragoza 2008, uma exposição mundial justamente sobre a água do planeta e fiquei encantada com as obras de recuperação das margens do Ebro. Parece que o povo redescobriu o rio.
Mas isso eu conto depois, pois quero aproveitar o post e recuperar algo do vi na primeira visita, principalmente as fotos, que são lindas.
Então…
Abandonei o rio e ao dobrar uma esquina e atravessar uma cortina de vento, dei de cara com uma enorme praça. A maior de toda a Espanha. E fiquei muda com a beleza da Plaza del Pilar.
Caminhar lentamente pela praça é uma delícia, tudo em volta é lindo.

Naquele dia só pude visitar a Basílica del Pilar e depois descansar um pouco na praça admirando suas fontes e esculturas.
A Basílica del Pilar é consagrada a uma virgem que, segundo contam, apareceu ao Apóstolo Santiago, 40 anos depois da morte de Cristo. Era uma figura pequena mas possuía uma aura extremamente brilhante e estava sobre um “pilar”. Quando desapareceu deixou o pilar para que Santiago construísse aí um templo que fosse um símbolo da fé aragonesa.
Li em algum lugar que foi a mãe de Cristo, em carne e osso, que veio de Jarusalém para incentivar o trabalho do Apóstolo que evangelizava por essas terras. E que o pilar presenteado por ela serviria de pedra fundamental para a construção do primeiro templo marianista da cristandade.
Aposto que se for lendo mais por aí aparecem mais explicações.
Não importa… não conheço nenhuma história contada duas vezes que seja a mesma. Imaginem depois de quase dois mil anos!
Hoje, a imagem da Virgem del Pilar, esculpida em madeira, repousa sobre um pilar de jaspe de 2 metros de altura.
Sua capela, de estilo neoclássico, é impressionante e a adoração de seus fiéis também. A cada hora se reza uma missa. E está sempre lotada.
Por trás do altar está seu camarim, suas jóias e seus mantos. Pinturas de Goya adornam o teto e peças de ouro e prata seu altar.
E sabem qual é o nome de mulher mais comum nesta cidade?
Tá. Eu sabia que era fácil.
Basílica del Pilar-Cúpulas de cerâmica
O primeiro templo foi construído para substituir um templo visigótico e foi destruído por um incêndio no ano de 1434, do qual salvou-se – por milagre – a imagem da Virgem. Durante o século XVI foi restaurado e novamente derrubado no século XVII, para dar lugar a atual construção.
A Basílica é absolutamente grandiosa.
Por fora se vê as dez cúpulas de azulejos coloridos, a cúpula central e as quatro torres.
Por dentro as enormes colunas, os tetos abobadados, o coro e seus tronos trabalhados, o antigo órgão…
Basílica del Pilar- Interior

E a gente perde o fôlego diante do Altar Maior.
Esculpido em alabastro por Damián Forment a princípios do século XVI é uma das poucos obras que se conservam da antiga igreja gótica.
Fiquei muda outra vez. O alabastro dá uma sensação de transparência… e parece que a gente pode, ao tocar na pedra, atravessá-la… sentir a vida por dentro da obra.
A cor é extraordinária, porque absorve a luz e depois espalha-a por todo o recinto.
Bárbaro!

Não posso dizer nada, nem é necessário…
A música ambiente era um canto gregoriano suave e persuasivo, aturdindo a gente como um mantra.
É incrível o que se pode sentir num templo como este.

Dá vontade de rezar, chorar, meditar.
Dá vontade até de ir para o céu… se ele for assim tão artístico.
Acho que esta é uma das intenções dos templos. E conseguem, viu!
A gente sai com vontade de ficar.

 

Lá fora o rio cantava e a praça encantava com seus pombos, suas crianças coloridas, seus velhos de guarda chuva, sua atmosfera de vida terrena… tão artística quanto…
Mas parece que a gente leva a música dentro do coração e ela continua soando, soando…trazendo com ela um silêncio que abafa os ruídos da rua.

 

Fiquei por ali, sentindo o vento e aproveitando a paz que havia se instalado por debaixo da pele.
Parece que quando a gente se sente assim, o mundo inteiro fica mais bonito.

* As fotos são retiradas da Internet, mas podem ser vistas em tamanho maior dando um click sobre elas.

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Mudaram as Estações…

Passou. Já passou. Tudo passa…
O inferno astral existe, aviso. Mas passa…
Meu tempo de viver aqui no paraíso também acabou. Estou de mudança para o centro de Madrid. Uma mudança que de tanto ser adiada, cada vez está mais desejada!
É verdade, preparei meu espírito para sair daqui na primeira semana de Setembro, mas não pôde ser. Nem na segunda… nem na terceira… nem em todo Setembro.
O verão acabou… e o outono vem se insinuando entre as frestas das árvores, com uns dias nublados e um friozinho nas pontas do dia. Pela manhã a bruma envolve a casa , o frio gela os lençois da cama, eu procuro abraçar umas costas quentinhas e, desde o limbo do quase-desperta-quase-dormida, tomo total e absoluta consciência da felicidade e da sorte.
Depois, durante o dia, a boa sensação se esvai quando uma atmosfera abafada e úmida toma conta da casa, fazendo pesada a solidão e o silêncio de um lugar já com cara de passado… até que o sol se deita. Então o frio volta… e com ele meu abraço quentinho e a deliciosa companhia a que me acostumei nesses seis anos de Espanha.

Hoje, o último pedaço de Setembro se esvai nas brumas de um dia que não faz sol nem chove…só abafa.
A casa vai, pouco à pouco, se transformando numa coisa amorfa, que nem é mais a que eu encontrei quando vim viver aqui, nem mantém a aura que tinha até menos de um mês atrás.

Algumas plantas eu já presenteei. As redes eu já enrolei, as luminárias de latão que eu trouxe do Brasil já estão desencaixadas de seus nichos e guardei cuidadosamente alguns objetos, pois não quero arriscar que alguma outra pessoa os embalem sem suspeitar de seus significados.
Minha casa- Don Quijote y Sancho Panza
Meus marionetes de madeira, Don Quixote e Sancho Pança , comprados numa deliciosa viagem à Zamora já não pendem da estante de livros da sala, nem o lindo Caboclo de Lança pernambucano guarda os meus DVD´s de música brasileira.
Os instrumentos musicais estão numa caixinha à parte. Nem posso imaginar um sujeito que faz mudanças tendo a paciência e o amor necessários para com minúsculos violinos de madeira, delicadas flautas e trombones de mentira.
Também não confiaria a desconhecidos a sopeira que foi da minha mãe ou uma escultura de ébano e marfim que foi do Lorde.
Para eles o valor da sopeira é algo que o seguro cobre. Para mim não há dinheiro que pague.
Minha casa-instrumentos musicais
Muitas vezes me lembrei de uma carioca que estava interessada em comprar meu apartamento em Recife, justamente quando eu estava tentando enfiar minha vida em quatro malas.
Quando ela soube que eu pretendia vir viver na Espanha deu-me um conselho valioso. Ela disse: “deixe as roupas e sapatos…disso leve apenas o indispensável. Mas escolha algumas coisas significativas na sua história e meta-as na sua bagagem como for. Esses serão seus referenciais, são insubstituíveis. As roupas a gente compra novas, mas a história não. ”
Foi o que fiz.
Desfiz-me de metade das roupas das malas e trouxe quadros, livros, objetos, fotografias. Poucos, mas importantes.
E não me arrependi, nunca!
Uso o mesmo conselho agora. Enquanto escolho o que vai e o que fica, removo seis anos de vida na Espanha. Esvazio gavetas, estantes, armários… encho sacos de plástico negro com roupas que já não nos servem, encontro coisas perdidas, descubro porcarias tão bem guardadas que nem me lembrava que ainda existiam.
Mudo móveis de lá para cá, organizo caixas… e as espalho por toda parte. Quem disse que é fácil organizar caixas de história?
Sei que a mudança vai ser boa para nós. Adoro a ideia de investigar e conhecer Madrid como habitante de suas ruas e não apenas como visitante em dias de passeio.
Sei que sair de uma casa maravilhosa como essa para ocupar um dois quartos minúsculo exige praticidade e organização na hora de escolher o que vai, mas já me conheço de outros Carnavais. Sou capaz de adaptar-me a uma cesta de gato.
O problema é só a nostalgia que me acompanha no momento da “passagem” de um estado para outro. Fico com saudade antecipada do canto dos rouxinóis enamorados na janela do quarto, da enorme lua dos campos, das amapolas que invadem todos os cantinhos onde há verde e pintam de vermelho a vida e enchem os meus sorrisos de felicidade. Elas me animam, me encantam, me fazem rir no meio da rua e falar com elas, como louca. Velha e louca, eu fiquei aqui.
Minha casa-um esquilo
Sinto uma saudade das noites diante da lareira, com música bem alta e um bom vinho! De sair para o jardim enrolada na manta de lã para ver um eclipse ou apenas para buscar as constelações do hemisfério norte, as velhas estrelas de meu novo céu.
Na cidade a gente tem cinema, teatro, bares e restaurantes… mas nadica de estrelas.
Lá a gente tem transportes rápidos e fáceis, pessoas por toda parte, muito para observar, muito o que explorar… mas nada de raposas esquivas pelos sendeiros ou rubros esquilos engraçados buscando nozes no meu jardim , nada de velhas senhoras coelhas entrando pelo portão, sempre aberto, em busca de algo para seu café da manhã… e menos esse silêncio que acompanha um por de sol diferente a cada entardecer.
O campo tem uns encantos que só quem vive nele tem tempo de descobrir…
Quando cheguei, era pleno Inverno. Lindíssimo inverno. Pouco a pouco fui reconhecendo cenas em “deja vú” de antigos sonhos infantis. Enquanto descansava sob os prunos, fazia um bolo escutando ópera ou lia diante da lareira, parecia que já havia vivido isso em algum outro momento da minha vida. Nunquinha da silva tive tempo de viver isso. Mas creio que tive tempo de sonhar nos escondidos dos desejos impossíveis. Descobri aqui que estava no lugar certo, na hora certa, fazendo o que queria estar fazendo… por dias e dias. Isso me deu uma serenidade feliz impressionante.

Acho que foi fantástico ter podido estar aqui esse tempo, consolidar minhas escolhas, amadurecer a relação de amor com meu pirata, conhecê-lo melhor e fazer-me conhecer ao vivo e a cores, sem pressa.
Agora chegou a hora de sair do ninho do monte e ir viver no meio do mundo. De aventurar por uma cidade que promete ser encantadora… mesmo sem lareira, sem cheiro de mato e sem amapolas.
Aprenderei a admirar as luzes das maravilhosas fontes, as fachadas neoclássicas de seus edifícios, os ruídos das crianças em seus inúmeros parques, os concertos de música clássica, as peças de teatro, os cinemas espalhados por toda parte… as cafeterias, os bares de tapa…a confusão de gente de todas as raças cruzando as belas ruas e bulevares da cidade.
Faltam apenas 17 dias…
A lá vou eu arrumar mais uma caixinha…

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Praia com névoa!

Névoa na Praia dos Lances
Névoa na Praia dos Lances.
Vinda do nordeste do Brasil, jamais imaginei a beleza de ir à praia com uma névoa dessas…
A semana passada a Praia dos Lances, em Tarifa, estava imersa numa bruma esbranquiçada e apesar disso em sua orla estavam as crianças jogando, os jovens em suas pranchas…e eu com a câmara na mão, rindo. Durou quase uma hora.
Coisa mais linda e feliz estar ali naquele momento!

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Enamorada por Córdoba…

Mas uma vez estive em Córdoba. E mais um vez me enamorei pela cidade. Sempre acontece…
Há tempos atrás escrevi em outro blog algo sobre esta linda cidade espanhola e tive o enorme prazer de haver incentivado, com minhas impressões, alguns brasileiros a quererem conhecê-la. Nenhum deles se arrependeu. Inclusive, sempre que pude, acompanhei amigos e lhes mostrei o que me havia cativado.
Vou aproveitar um pouco dos meus arquivos de texto e de fotos e acrescentar algumas novas experiências, principalmente as gastronômicas. Desde que estou aqui, muita coisa aprendi sobre os sabores mediterrâneos. A comida em Córdoba, como em toda Andaluzia, é um importante atrativo. Além de maravilhosa, tem preços muitíssimo mais baratos que em Madrid.

Então…
Um mísero final de semana sempre é insuficiente para aproveitar toda a riqueza cultural de uma cidade, mas é o bastante para atiçar a curiosidade sobre ela. E também é assim com Córdoba e os diferentes povos e culturas que a habitaram. Só para dar um gostinho de quero ver, há registros dessas passagens desde mais de 3 mil anos atrás e um museu arqueológico interessantíssimo para ser visitado.

A geografia foi fundamental em sua história, tanto nas épocas de glórias quanto na sua decadência.
Córdoba está no vale de um dos mais importantes rios espanhóis, o Guadalquivir, no sudoeste da Espanha, na Andaluzia. Conquistada pelos romanos em 152 a.C, foi transformada num importante centro cultural. Depois, foi ocupada pelos vândalos, visigodos, bizantinos e muçulmanos. E por falar nisso, vou contar uma historinha interessante.
Uma vez meu pirata estava visitando um país centro-americano, durante as comemorações dos 500 anos do descobrimento da América, quando foi abordado por uma mulher, esposa de um político importante. A criatura aproximou-se e com cara de desprezo disse-lhe que odiava os espanhóis porque eles haviam invadido e saqueado seu país. Ele respondeu com tranquilidade e aquele sorriso que lhe caracteriza: ” A senhora teve sorte. Seu país só foi invadido por um povo. O meu foi invadido e saqueado por tantos, que já perdemos a conta.Se fôssemos odiar a todos…”
A mulher emudeceu e saiu de mansinho. Só conseguiu demonstrar sua ignorância sobre a história europeia daqueles tempos, além da falta de educação e diplomacia, naturalmente.
Bom, voltando a Córdoba…
Durante a ocupação muçulmana na Espanha, a partir do século VIII, a cidade se converteu em capital de Al-Andaluz, a mais importante do ocidente, tanto pela sua população como pelo seu elevado nível cultural. E muitas coisas aconteceram em torno e a partir dela, até que no século XIII o rei Fernando III, o Santo reconquistou-a para seu católico reinado espanhol.
Uma pena para a riqueza cultural da cidade, é preciso reconhecer. Depois de reconquistada, Córdoba foi convertida em reduto militar por sua importância estratégica e sua população civil, formada por árabes, judeus e cristãos foi quase que totalmente evacuada, o que levou a cidade à decadência pelos séculos seguintes.
Seus monumentos e palácios espetaculares, como a Medina Azhara, construídos durante os séculos de ocupação muçulmana, foram ocupados com objetivos militares e depois destruídos e saqueados, até serem reduzidos às ruínas que são atualmente…
O antigo Alcazar dos reis foi transformado em quartel e depois em prisão. Afortunadamente, hoje é um bonito museu.
E, para culminar a desgraça, a cidade inteira foi saqueada pelos franceses em 1808. Só não levaram para a França o que a população conseguiu esconder de seus tesouros e obras de arte.
Bendición ( Júlio Romero de Torres)
Dizia Federico Garcia Lorca, o grande poeta espanhol, que Córdoba era uma cidade melancólica. Esta melancolia o pintor cordobes Júlio Romero de Torres registrou magistralmente nas fisionomias de suas musas, de tristes e molhados olhos negros.
Para mim não há nada melhor que a arte para ilustrar qualquer história…escolhi dois de seus quadros que eu mais gosto para o painel.
Adorei visitar o museu do artista. Uma visita imperdível para quem estiver na cidade com um pouco mais de tempo.
Mas Córdoba não é só seu passado histórico… ela também está renascendo das cinzas em modernas áreas e bem decorados espaços públicos. Está se transformando numa cidade mais completa, com ambientes adoráveis, bem cuidada, cheia de hotéis novos e bonitos, passeios arborizados, bares de copas bem transados, terrazas com sofás na calçada e luminárias árabes lindíssimas que podem transformar a noite num sonho romântico…
A música também ilustra lindamente um lugar. E na minha memória ficará para sempre a noite em que jovens trovadores de uma de suas universidades se reuniram numa calçada, diante da taverna em que eu estava e cantaram para mim. Arrepiei. Foi emocionante.
Pregadas em suas capas estavam as dezenas de fitas coloridas bordadas pelas amadas ou amigas e os brasões das universidades por onde já passaram a cantar suas tradicionais canções. Era uma Tuna, uma tradição em quase todas as universidades europeias. Eu adoro!
Desta última vez, semana passada, estive em Córdoba para assistir o casamento de um sobrinho. Seus irmãos e amigos não perderam a oportunidade de presentear os noivos com uma apresentação. O “muchacho das panderetas” é um dos meus novos sobrinhos e irmão do noivo. Fiquei alucinada com a dança dele.
Voltando ao passado…

Para quem gosta de mergulhos na história, a cidade conserva ainda restos abundantes da ocupação romana e muito mais da muçulmana, embora jamais tenha recuperado a pujante vida cultural dos séculos passados. De vez em quando a gente se depara com alguma ruína romana que emerge numa escavação qualquer de alguma obra bem no centro da cidade. Não pensem que é coisa pequena, não… são colunas impressionantes!
Mas minha predileção é justamente a Juderia. Adoro o bairro judeu. Adoro as casas e as ruas estreitas. Adoro visitar as lojinhas passeando com tempo e paciência, aproveitando o tempo, sem correr para nada.
Por entre os muros altos e varandas coloridas pelas flores, a gente vai viajando no tempo.
Descobri que as ruas são assim estreitas como uma forma de se protegerem dos excessos de frio ou calor. Durante o inverno, os muros guardam um pouco do calor do sol e evitam as correntes de ar frio. E durante o verão criam sombras protetoras.
As casas em estilo árabe mesclam-se com a Juderia e a gente não sabe mais onde acaba um bairro e começa o outro. São quase todas brancas, com grandes ou pequenos pátios centrais, onde há uma profusão de plantas e vasos coloridos e, invariavelmente, um poço. Funcionando, lindo… Com a ajuda deles os moradores mantêm suas casas decoradas, além de frescas e alegres durante todo o ano.
É comum encontrar casas de chá decoradas com peças árabes, mesinhas baixas cercadas por banquetas de couro trabalhado onde descansam bandejas de metal com serviços de chá de fina delicadeza, com seus desenhos florais e cores diversas.
Nunca deixo passar a oportunidade de entrar e provar algumas das variedades dos chás e doces.
Tomar chá é um costume que permanece forte entre os cordobeses.
As “teterias” também funcionam para uma descansada breve depois de comer… é um lugar fantástico para escapar do sol e relaxar antes de voltar para a rua.

Os banhos públicos voltaram a funcionar e estão na moda atualmente. Existem casas de banho maravilhosas, onde se pode relaxar em piscinas térmicas com direito a massagens com óleos perfumados, em ambientes com cheiro a incensos exóticos ao som de uma doce canção do médio oriente e a visão de uma linda cordobesa bailando a dança do ventre. Ainda não foi desta vez que provei os banhos, mas será da próxima. Garanto!
Como eu não tinha tempo para estar pela rua e o calor era tanto, decidi não gastar as energias antes de ir ao casamento montada em uns saltos vermelhos que só de olhar já me assustavam. Fiquei na piscina do hotel, relaxando e descansando enquanto os jovens iam visitar a Mesquita. Este sim… é um passeio imperdível para quem não conhece. O monumento mais importante e encantador de Córdoba.
Iniciada por Abd al-Rahman I em 780 d.C. a Mesquita foi o primeiro monumento de todo o ocidente islâmico.

Sua construção inicial foi ficando pequena para a quantidade de fiéis e, durante os séculos seguintes, foi ampliada pelo menos quatro vezes. Em cada uma delas, principalmente na terceira, uma decoração mais esmerada, mais espetacular. Assim, a Mesquita conta atualmente com uma variedade de estilos e materiais, de acordo com o tempo em que foi construída ou reformada.

No retângulo original, as colunas são romanas e visigodas, aproveitadas de antigas construções anteriores ao poderio do Califa.
Nas ampliações posteriores podemos apreciar uma seqüencia alternada de colunas de mármore azul e rosa, que levam ao Mihrab , e que fazem a gente respirar fundo várias vezes, para aguentar a emoção que cresce dentro do coração.
O Mihrab é o oratório e todo o caminho até ele é de uma beleza espetacular. (Não deixem de ver outra vez o painel de fotos depois de ler ese texto.)
As mulheres não podiam rezar nesse espaço. Aliás, elas nem podiam entrar na Mesquita propriamente dita. Só podiam rezar numa parte construída no Pátio de Los Naranjos , na entrada do templo, e reservada para elas. O grande centro do retângulo era destinado apenas às orações masculinas.
Hum… as religiões são engraçadas. Quase todos os preconceitos de gênero vem delas.
Gostei de ficar um tempo no pátio. As laranjas são amargas e não servem para comer mas emprestam ao ambiente um colorido fantástico! E um perfume!
Os árabes não cultuam imagens e assim sua arte religiosa consiste de motivos florais ou de arabescos, textos sagrados, etc. Sempre fico embasbacada com a perícia dos artesãos mozárabes nas portas desenhadas, nos tetos de madeira e gesso trabalhados, nos pórticos do Mihrab e do tesouro.
A luz que entra suavemente pelas janelas no alto e dão um toque de ouro e sombras aos recantos da mesquita. Um coisa impossível de descrever.
E aí… a Espanha cristã, quando reconquistou seus territórios, resolveu construir uma Catedral dentro da Mesquita. Derrubar parte do templo islâmico mais antigo e singular do ocidente, para elevar um templo cristão.
Pelo amor de Deus! O tal sujeito que teve essa ” brilhante” ideia não podia aguentar tanta beleza noutra crença?
Não, parece que não. Além de acreditarem ser aquele solo sagrado, não podiam deixar o símbolo de uma religião que não fosse a cristã dominando a paisagem da cidade.
A Catedral foi construída dentro da Mesquita.
Sorte que uma alma sensível àquela arte aproveitasse parte do templo islâmico como decoração do templo cristão.
Eu soube que aconteceu até uma manifestação pública do conselho de Córdoba , na época, pregando nas ruas e praças da cidade a pena de morte para os pedreiros, carpinteiros e peões que aceitassem o contrato para trabalharem na demolição da Mesquita.
Mas, deixando as crenças de lado, a arte que podemos contemplar no templo misto é o que vale, seja qual for a religião do visitante.

A Catedral é espetacular.

As capelas, o coro, o altar maior… tudo construído com esmero para superar a beleza da Mesquita… embora, na minha opinião, o que restou do templo muçulmano é o que empresta à Catedral de Córdoba seu singular encanto.

Ninguém sai incólume a tanta formosura.

Ps: Algumas fotos foram retiradas da Internet com a intenção de ilustrar o texto.Se alguém se sentir malcom isso, avise-me.

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Agostos…


Mais um verão.
Desta vez, como em todas as outras, o que parece igual é tão diferente!
Em agosto de 2003 a temperatura parecia não ter limites, chegava a roubar-me o humor, o prazer de existir.
Naquele agosto a saudade do inverno já havia sentado na sala com um leque na mão a abanar-se, a desejar as praias nordestinas, perdida na absoluta falta de memória que o afeto provoca quando se está tão longe dos lugares que ajudaram a construir a própria pele. Quem se lembrava das chuvas e dos mosquitos dos antigos agostos do Janga ou de Toquinho? Nem eu nem ela.
Todos os agostos as agências de viagens espanholas tomam conta da metade dos principais jornais e enganam a todos fingindo que é verão em todas as partes do mundo, como se essa fosse a única estação do ano em que é possível ser feliz.
Voe para o paraíso… Quem disse que verão com calor abrasador é paraíso? Nunca foi. Para mim se não é o inferno, chega bem perto.

Mas o verdadeiro inferno daquele agosto foi encontrar-me com o inesperado medo de haver-me equivocado, o terror de haver inventado um amor. Um agosto em que as noites insones eram maiores que os dias, os cigarros eram a falsa companhia no silêncio de uma sala vazia enquanto o coração tentava ancorar-se nas lembranças do agosto anterior, quando o único que eu desejava era que a saudade se deixasse morrer e me permitisse ficar aqui para o que desse e viesse, sem praia sem nada, mas dormindo todas as noites, absurdamente feliz, as pernas entrelaçadas e o rosto a meio centímetro de uma barba perfumada.
Novamente é agosto. E desta vez, como em todas as outras, o que parece igual é tão diferente. Em outro agosto, toda chuva do mundo caiu dentro do peito. Foi o mês mais frio que já passou minha alma.
Seis anos atrás a Princesa se foi, justo ao primeiro dia, e o mundo passou a ter outros significados. Frio deixou de ser oposto ao calor e passou a ser vazio, oco, falta, medo, dor, morte… de uma forma como nunca havia sabido ser. Nem mesmo aquela outra, de muitos anos antes, também uma dor de agosto, e que veio junto com a certeza de que a separação era inevitável…
Desta vez, como em todas as outras, o mesmo agosto é tão diferente. No ano passado eu estava em prantos na sala, com uma roupa escolhida com cuidado e na mão uma pasta azul cheia de papéis com os prazos de validade quase vencidos e acabando de chegar de uma terceira frustrada tentativa de entregá-los ao registro civil de uma cidade onde ninguém pode casar-se nestas datas. Neste país, o mundo sai de férias todos os agostos, por mais iguais ou diferentes que eles sejam…
Pois sim…
É agosto e o mundo saiu de férias. Estamos de novo sós com nossa história.

Desta vez, como em todas as outras, o que parece igual é muito diferente. Agora o calor não parece insuportável e deixa entrar umas brisas refrescantes que transformam as noites claras em verdeiras delícias. Além do mais, um veleiro de madeira, antigo e cheio de histórias, nos aguarda em Galícia, onde por dez dias vou realizar outro dos meus quase impossíveis sonhos: navegar à vela com olhos-de-mar-azul.
Figa!
Por se acaso…

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O Caminho das Águas…

Como eu disse no post passado, uma das coisas mais interessantes de nossa visita a Albacete foi conhecer as curiosas cavernas da região. Claro que só vê-las de longe não dá para sentir muita coisa. O bom mesmo foi entrar em algumas delas e imaginar as vidas que por ali passaram.
Isso sim, foi a grande viagem!
Paca, a mãe de meu amigo e dona das bochechas rosadas, possui uma casa-cueva há mais de 30 anos. Foi fantástico poder viver por algumas horas dentro da gruta transformada numa adorável casa de campo à beira do rio.
Eu conto…
Primeiro fomos de carro a um pequeno povoado chamado Valdeganga. Fiquei meio decepcionada com a paisagem, à princípio. É que eu olhava em volta e só via uma grande planície, nenhuma montanha. Onde estariam as cavernas?
Pois… justamente abaixo do pueblo.
Foi passar por ele e começar a descer até o leito do rio e já pudemos ver os imensos barrancos que, há milhões de anos atrás, eram o “caminho” das águas. Imaginei a imensidão caudalosa do rio daqueles tempos e comparei com o pequeno córrego de agora. Impressionante!

Também imaginei os primeiros seres que habitaram aquelas grutas, algumas delas enormes e naturais, outras menores e escavadas propositadamente e perguntei-me com que toscos instrumentos eles construíam suas casas, por que escolhiam justo aquele lugar para viver, que dificuldades tinham que enfrentar para estabelecer-se em algum novo lar?
Dando mais asas à imaginação pude ver os homens dos clãs trazendo a caça e a pesca para alimentar suas famílias. Quis saber mais sobre as antigas populações íberas, romanas ou árabes daquele lugar e tive um pouco de inveja dos arqueólogos que investigaram e descobriram a infinidade de objetos de diferentes épocas, hoje expostos no Museu Arqueológico de Albacete e que havíamos visitado apenas algumas horas antes.

Esqueci de dizer não é?
Pois sim… um dos passeios que fizemos pela cidade na manhã daquele mesmo dia foi conhecer o belo parque cheio de patos e esquilos onde estava o museu. Nem sabíamos que ele estava ali mas quando passamos pela frente resolvemos dar uma olhada. Valeu a pena. O museu está muito bem organizado e era di-grátis! Passamos umas duas horas olhando as peças encontradas na região, lendo as explicações mais interessantes e vendo fotos das escavações. Deve ter sido emocionante demais realizar esse trabalho, não é?
Sabem o que mais? O Museu estava vazio… num sábado pela manhã estávamos ali apenas quatro pessoas e milhões de anos de história.

Pois então, com essas imagens na cabeça, ficou ainda mais fácil deixar a imaginação fluir… Eu olhava as cavernas e pensava na vida daquelas pessoas defendendo-se da intempérie, dos animais, criando seus filhos, ensinando-os a sobreviver, inventando novas formas de fazer as coisas, criando instrumentos de defesa, de caça, de cozinha, de lazer.
Quis imaginar suas vidas e seus sentimentos, mas aí não pude mais. A imaginação foi curta para tantas possibilidades.
Quando entramos à casa de Paca eu mal podia conter a emoção. Apenas a cozinha, o banheiro e a sala tinham luz natural porque estavam na parte dianteira da caverna. Para dentro haviam uns quatro ou cinco “ocos”, melhor dizer recintos, de tetos muito baixos, iluminados por luzes indiretas incrustadas em minúsculos nichos nas paredes, como se fossem velas. O efeito é simplesmente encantador. Que delícia de lugar!
Fiquei emocionada por estar ali. Juro!
Mesmo havendo camas normais, cobertas com colchas macias e quadros simples nas paredes pintadas a cal branco, imaginei como poderia ter sido aquele lugar antes de nós e como nossos antepassados deviam ter coberto aquele solo com palha ou pele de animais para amortecer a dureza do chão e aquecer seus corpos nas noites frias.
Sou uma fábrica de imagens… hehehe. Adoro imaginar.
Imediatamente quis dormir ali nem que fosse apenas por uma noite. Mas isso não estava na programação dos outros… que pena! Infelizmente não tenho fotos para mostrar o interior da caverna, fiquei sem bateria!
Bueno…usem a imaginação queridos, até que volte lá!

Então mergulhamos na preparação e desfrute de um daqueles loooongos almoços manchegos a base de morcillas, pancetas ( bacon ) e embutidos caseiros ( uma das maravilhas feita pela mãos mágicas da mãe de Carlos ) salada fresca, frutas, pão e vinho, enquanto o céu começava a por-se escuro, escuro, escuro…
Antes de terminarmos o banquete digno de Sancho Pança enquanto governador da Ínsula de Barataria, já precisando da luz de velas pois a eletricidade acabou, o céu desabou numa tempestade espetacular. Adoro o barulho das tempestades!
Pensamos que era melhor não enfrentar a estrada nessas condições, claro. E ficamos para la siesta! Hummm! Que suerte!
Deitei numa das largas e macias camas do último recinto transformado em quarto e deixei a mente fluir . A sensação de proteção e segurança que eu sentia por estar abraçada ao meu homem no fundo escuro ( absolutamente escuro ) daquela caverna, com o céu desmoronando lá fora e escutando os sons longínquos dos trovões, devia ser a mesma de todas as mulheres que viveram as mesmas circunstancias através dos tempos … era incrível o que eu estava vivendo!
Estava emocionada por sentir-me totalmente protegida embaixo da terra como deveriam sentir-se aquelas famílias abrigadas nas suas tocas em semelhantes tempestades ao longo dos milhares de anos… e agradeci no fundo do coração por estar tendo a oportunidade de experimentar emoções tão simples e ao mesmo tempo tão intensas.
Pensei em quantas pessoas passam por cima daquele pueblo sem sequer imaginar o que existe embaixo dele e o que perdem por não saberem!

Quando voltamos à Albacete decidimos investigar um stand turístico na Féria e descobrimos um pueblo lindo e próximo que poderíamos conhecer. Decidimos então deixar as belezas da capital para outra visita e passarmos o dia seguinte numa excursão ao longo do rio Júcar até chegarmos a Alcalá del Júcar.
Que excelente idéia! Imperdível!
Acreditem em mim.
*Alcalá significa El Castillo, em árabe. Por isso é tão comum encontrar lugares na Espanha com este nome.

Mas a cidade ainda queria nos dar um presente.

Antes de sairmos para a excursão fomos tomar café numa cafeteria por trás da Catedral.
Enquanto fazíamos o pedido, percebi algumas pessoas vestidas com trajes típicos, com ramalhetes de flores na mão, todos caminhando na mesma direção.
Descobri que haveria um desfile tradicional de oferenda floral à virgem padroeira de Albacete.La Virgen de los Llanos.
Ah! Isso eu não queria perder de jeito nenhum!
Tomamos o café e nos dirigimos para as escadarias da Catedral.

Que lindo! Homens, mulheres, crianças e até bebês dentro de seus carrinhos estavam vestidos com os trajes típicos da região manchega, dispostos a desfilarem pelas ruas da cidade levando oferendas de flores para a virgem de sua devoção. Que festa tão linda!
Ficamos por um tempo, acompanhando a chegada das pessoas enquanto terminava a missa e podíamos entrar para conhecer por dentro a Catedral. Não tem nada de muito espetacular, mas gostei das paredes cobertas por belos frescos.

A jovem mãe adotiva de uma criança chinesa estava toda orgulhosa arrumando o belo vestido de lã bordado de sua menina enquanto a pequena enfiava uma madalena inteira boca adentro. Lindas as duas, mãe e filha.
Sorri enternecida pela imagem da pequena aprendiz da cultura popular espanhola crescendo num mundo tão diferente daquele onde ela nasceu. Pensei em destino, em karma
Passamos mais ou menos uma hora e meia admirando os belos trajes, escutando os tambores e dulzainas.
*Las dulzainas são instrumentos de sopro medievais de variadas formas e tamanhos, que produzem um som bastante agudo, muito apropiado para as festas religiosas e profanas. O normal é que sejam construídas utilizando diversas madeiras, mas também podem encontrar-se algumas feitas de barro cozido ou de casca de algumas árvores.
Só depois que o desfile começou partimos para nossa improvisada excursão ao longo do rio Júcar.
A estrada sinuosa e estreita seguia o curso do rio cuja margem estava repleta de hortas e árvores frutíferas. Em ambos lados do caminho tínhamos os enormes barrancos, de vez em quando salpicado de cavernas e casitas dependuradas. Paramos inúmeras vezes ao lado da estrada para “assaltar”as figueiras carregadas de frutos maduros que comíamos entre risadas da mais pura felicidade. Eu estava eufórica com o tamanho e a doçura dos figos que praticamente caiam nas nossas mãos assim que os tocávamos!
Numa dessas paradas perguntamos a um homem que passava se podíamos mesmo fazer o que estávamos fazendo e ele disse que sim. Era melhor comê-los que deixar que caíssem ao solo.
Conversamos alguns minutos com ele. Falou-nos de sua vida de trabalhador em Madrid antes de aposentar-se e voltar à terra de infância para cuidar do patrimônio da família. Falamos do contraste da vida na grande cidade com a vida em um pueblo que tinha uma única rua, um rio, uma punhado de casitas penduradas nos barrancos de pedra e muito silêncio…
Ele apenas sorriu…
Antes de ir-se nos presenteou com uvas, tomates e pimentões de sua horta.
A capacidade dos seres humanos de adaptar-se às mudanças é surpreendente.

Alcalá del Júcar é uma lugar precioso.
Presidido pelo antiga torre do castelo árabe, foi também terra de nobres cristãos e tem uma história muito interessante. Durante a ocupação árabe foi uma lugar importante onde se cobravam os impostos do Caminho Real de Castilla à Múrcia.
Hoje é apenas um pequeno lugarejo de interesse histórico de La Manchuela, bonito de se ver e gostoso de se estar.
O turísmo é seu negócio principal e existem muitas possibilidades para aproveitar o tempo.
Há muitas cavernas-casas que se alugam por dias, pequenos hostais, Casas Rurais e hotéis encravados na rochas. Muitos deles oferecem guias e atividades de senderismo, piraguismo, ciclismo, passeios a cavalo, excursões de espeleologia, etc.
Estivemos visitando as ruas do empinado pueblo ( exercício fantástico para as pernas), entramos numa impressionante caverna que atravessa toda a montanha, chamada Caverna Del Diablo, com uma vista impressionante do vale e do pueblo e também comemos na beira do rio.
Quando voltamos para a casa da velha e desconhecida senhora, escolhemos vir pela auto estrada. Era muito mais rápido e já tínhamos que arrumar a maleta e voltar à Madrid.
A diferença foi extraordinária. Pela manhã o caminho atravessava pueblos, pontes, ventos e árvores que contavam historias passadas. No final da tarde-noite a auto estrada era a modernidade, o futuro. Tudo num zás!
Claro que eu gosto de poder atravessar o país em poucas horas, mas se a gente quer conhecer um país é preciso saber encontrar o prazer dos pequenos e sinuosos caminhos.
Quem usa a auto estrada para chegar à Alcalá del Júcar ganha tempo, mas perde em felicidade.
Melhor ter a paciência de ir pela velha estrada do rio… vá por mim!
Não temos dúvida que esse é um passeio para se repetir… e descobrir nuances daquela região que, mesmo fazendo tudo devagar, não tivemos tempo de explorar.
É um lugar para se voltar e ficar mais uns dois ou três dias… é um lugar para se banhar de beleza natural e também para refletir sobre a nossa passagem por este planeta.
É mais do que um lugar… é a própria experiência do tempo.
A Espanha tem dessas coisas… um simples final de semana para estar com amigos numa festa com roda gigante e barraquinhas de comidas gostosas… de repente se transforma numa viagem mágica…muito mais rica e profunda.

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Viajar é Preciso!


Volver y contar também é…
Pois então…voltei.
Que maravilha é viajar!
Acho que é um dos mais deliciosos prazeres de minha vida atual, sem sombra de dúvida. Pelo menos dos que posso contar sem ferir a moral e os bons costumes! Ho ho ho!
Nem em meus sonhos mais audaciosos eu imaginei ter um período de “férias” tão prolongado.

Se por um lado sinto falta da vida acadêmica e do trabalho de consultoria, por outro estou curtindo muito a liberdade de poder, num piscar de olhos, fazer a maleta e sair por aí, sem lenço e [literalmente] sem documento, disposta a ver, ouvir, sentir… e fotografar. Quase sem planos definidos de para onde ir e o que fazer de cada dia. Fantástico!
É um privilégio e tenho plena consciência disso. Aproveito ao máximo, pois não tenho a menor ideia de quanto tempo essa folga toda ainda pode durar!
Pois é isso que venho fazendo, sempre que possível, desde que vim viver na Espanha. Muitas dessas viagens fui relatando, pouco a pouco, nos blogs que já tive durante esses quase quatro anos. Gostaria de ser mais rápida e mais constante em meus relatos, mas já desisti de tentar mudar. Eu tenho um ritmo lento mesmo. Pronto.
Meu Mega-Super-Computer-Lentium500 também é osso duro de roer, então ficamos quites. Eu “dou um gelo” nele de vez em quando e vou fazer outras coisas… até recarregar as baterias da paciência e voltar. E sempre ele passa uns tempos mais bem comportado! Acreditem!
Pois voltei. Tenho mil e uma coisas novas para contar e muitas fotos para mostrar.


Estive em lugares simplesmente encantadores durante todo o mês de setembro.
Primeiro fui a Albacete, a convite de um casal de amigos, para conhecer as festas anuais da cidade.
Adorei, claro.
Mas o melhor estava mais escondido e longe da bela festa.

(foto: casseta de viño dulce)
E foi o que descobrimos depois, investindo o tempo nos caminhos tortuosos dos pequenos pueblos repletos de árvores frutíferas, cavernas e grutas pré-históricas, muitas delas adaptadas em bucólicas casas habitadas ao longo do rio Júcar. Pequenos esconderijos de história e de encanto.
Depois, outro convite e outro casal de amigos. ( Ando ganhando uns amigos fantásticos! Escolhidos pelo dedo de Deus, juro! ) Desta vez o convite foi mais misterioso ainda.
Era um presente-surpresa. E não soube para onde iria, até estar à caminho da região de Soria, conhecendo a Espanha mais profunda, visitando seculares fortalezas árabes, castelos, torres e muralhas medievais, comendo em restaurantes minúsculos decorados e servidos pelos próprios donos, conversando longamente com cuidadores de catedrais ou de pequenas igrejas templárias ou ainda antigas e românicas ermitas do século XI.

 

 

 

 

 

 

(foto:Berlanga del Duero)

É inacreditável o que ainda se mantém da punjante história e da arte deste país em cada pequena cidade encrustrada nos montes ou protegida nos vales e margens de rios.

É emocionante descobrir que por trás da próxima curva da estrada pode estar um pequeno grupo de moradores de ancestrais casas de pedra e madeira, cheios de coisas a dizer sobre seu passado e dispostos a construir sobre ele, um futuro.
Muitos desse pueblos estão sendo recuperados procurando mantendo ao máximo suas características medievais. Em muitos deles proliferam as Casas Rurais, pequenos hospedarias e restaurantes de excelente qualidade.
As pessoas estão descobrindo que além de rentáveis negócios ainda ganham um upgrade na qualidade de vida.
Viver num pequeno pueblo, hoje em dia, é uma opção excelente para muitos casais. Saem das grandes cidades e montam seu pequeno negócio longe do stress e do corre-corre das metrópolis. O telefone celular e a Internet, além das excelentes estradas e meios de transporte, diminuem as distâncias e as limitações de viver longe dos grandes centros urbanos.


Ganha a Espanha, certamente. Mas as famílias ganham muito mais. As pessoas dividem espaços reduzidos, onde todos se conhecem. Escolas são ressuscitadas, prefeituras são renovadas e todo o povoado se renova e se enche de VIDA.
Preservando e cuidado de sua história, cultura e arte os espanhóis de todas as regiões estão trazendo um novo tipo de turista ao país. O turista tranquilo, que gosta de cultura. Este vem em qualquer época do ano e não só nos meses de verão e praia.
E isso é o que sustenta e incrementa a indústria turística de um país: O investimento contínuo.
Pois… estou adiantando-me ao post que pretendo escrever para contar um pouco do que vi nessa encantadora viagem. ( foto: Burgo de Osma)
E, para terminar o mês com chave de ouro, estive por 10 dias em Galícia.
A costa noroeste da Espanha é simplesmente deslumbrante! conheci um pouco de Vigo, Pontevedra, A Coruña, Santiago de Compostela, Marim, entre outros pequenos lugares. Lindos!


De cada viagem, de cada lugar, eu trouxe livros e postais, folders, revistas. E muitas fotografias. Estou organizando tudo para poder fazer os posts. ( foto: Rias Baixas-Galícia)
Hoje foi o primeiro dia que pude sentar aqui para tratar as fotos e complementar as informações da minha cadernetinha azul. Por sinal, cada vez que escrevo nela recordo o livro de Paul Auster que estou lendo – A Noite do Oráculo – onde ele descreve o belo caderno azul onde o seu personagem tenta escrever uma novela. E cada dia mais me convenço que deveria deixar de preguiça (e de medo) e tentar mesmo, a sério, escrever esse livro de viagens que vocês tanto dizem que sou capaz. Um dia eu vou e acredito! Tenho mais medo que preguiça, admito.

Como nem tudo são flores na vida de ninguém, as aranhas adoram quando viajo e fazem a festa. Enfeitam todos os cantinhos com suas teias. Sempre.
Viver no campo tem esse lado detestável: Aaaaranhaaaassss!
Ainda bem que não tenho baratas, que aí sim, seria uma Questão de Estado. Mas, de qualquer forma, estive gastando boa parte dos meus dias tentando deixar a casa habitável outra vez.
Além do mais… lá fora os dias continuam lindos e muito agradáveis. O calor acabou.
O outono é uma linda estação e eu preciso fazer exercícios aeróbicos para gastar tudo o que comi. A gastronomia espanhola, mais uma vez, botou a perder as minhas – já fracas – tentativas de perder peso.( Guardei também as fotos das iguarias e algumas das receitas. Aguardem-me! )
Bueno, valeu a pena. Pelo menos eu não ganhei nenhum quilo a mais do que já tinha.

Trouxe exatamente TODOS os que levei!

Uff!

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Onde o Cicatrizes da Mirada ?

Pois…
Parece que a sina do meu blog sobre a Espanha é morrer. É a quarta vez que ele bate as botas.
Agora, depois de meses tentando guardar as postagens no “baú” de guardados do Blogspot, ele não aceita mais fotos. Tentei importar os posts para cá, mas o risco de desconfiguração da página me assustou e desisti.
A saída é trazer um a um os posts que consegui salvar.
Peço paciência aos amigos que já os conhecem de outras épocas e outras tentativas de manter o Cicatrizes da Mirada funcionando. Mas me recuso a guardá-las num arquivo morto do meu computador. Quero que eles estejam on line e possam ser visitados por gente que se interessa pela Espanha e sua cultura, arquitetura, culinária. Ou apenas por aqueles que querem compartir minhas impressões de imigrante. Mas também não gosto da idéia de deixar o blog lá, abandonado e sem gente. Desta vez vou deletá-lo mesmo. Agora é para valer. O Cicatrizes da Mirada será apenas mais uma das categorias do Língua de Mariposa. Pelo menos aqui eu tenho a garantia de que ele não vai sumir ou fazer a malcriação de não publicar as fotos.
Ainda não entendi porque comigo tem que ser tão difícil. Visito blogs com muito mais fotos do que os meus!
Bueno… lá vou eu trazer meus trapinhos para cá. De qualquer forma, eles estão costurados com novas linhas e bordados.
………………………………………………………
Hoje vou falar de Santorcaz. Ele é um dos meus cinco pequenos pueblos. Não vivo dentro e sim muito perto dele e acho que é aí que vou casar. A Igreja é linda, mas nada de casamento religioso, claro. Só posso casar no civil.
Queria mesmo casar em Alcalá de Henares, a cidade de Cervantes… mas lá tenho que esperar vaga. E tô fora de fazer fila e esperar que me digam quando e a que hora posso dizer “sim, quiero”. Quando os documentos estiverem prontos, avisarei a data.
Em Santorcaz, hoje em dia, é tudo muito simples, claro. Até a vida e a morte. Mas nem sempre foi assim. O pequeno povoado fica a 45 km de Madrid. É gracioso, silencioso e cheio de histórias e lendas. Vou contar algumas delas, mesmo que já tenha feito isso pelo menos umas cinco vezes antes. Não faz mal. Acho que elas devem estar registradas. E eu gosto de contá-las!
Diz-se que nasceu aqui um homem, chamado Cayo Apio, filho de um capitão romano, Cayo Cornelio. Pois bem… dizem que a criatura, em viagem com seu pai, centurião romano enviado à Judéia e Cafarnaum de Galiléia, assistiu ao sacrifício de Jesus.
Depois disso, convertido em um dos 7 Varões Apostólicos de Cristo, voltou à Espanha com o intuito de pregar o Cristianismo. Foi perseguido e martirizado pelos romanos, e por isso foi beatificado e chamado de Santo Torcuato.
Como filho da cidade, o santo foi tomado como seu patrono. Aos poucos, a cidade que se chamava Orcada, foi tomando o seu nome e transformandondo-se em Santorcaz.
Diz-se também que era um terra de bom pão, bons vinhos e bom azeite…

Pois sim… quem sabe? Existem documentos e escritos dos bispos de Toledo e outros escritores eclesiásticos… mas quem confia neles? Cada canto deste país tem uma história ligada à religião que foi um de seus mais fortes alicerces.
Bom, eu gosto de lendas e histórias. Elas emprestam colorido aos lugares. E o certo é que existem resíduos de construções no povoado que antecedem o período de ocupação romana e que estão esperando dinheiro para serem estudados e datados corretamente.
O que se vê agora é apenas um pequeno lugarejo, de 540 habitantes, uma antiga igreja, um castelo em ruínas, restos de uma muralha… e muita paz.
O clima é seco e frio. Oito meses de inverno e três de “fresquinho”. O povo é quieto. Só vejo muita gente nas festas anuais, quando os fogos de artifício tiram os muitos velhos e as poucas crianças de suas casas, trazem os parentes que já não vivem alí de volta as suas raízes. A praça se enche de jovens e de novas histórias. As mesmas que vão alimentar as conversas das senhoras na padaria, no mercadinho ou no açougue até o ano seguinte.
Mas eu gosto da cidade também – e até mais – quando ela está recolhida atrás de suas portas sempre fechadas e suas janelas floridas. Ao passar por suas ruas estreitas, sinto no ar uma saudade, nem sei de que…
Uma nostalgia que se sente na maioria das pequenas cidades, vilas ou povoados espanhóis. Como se seus fantasmas passeassem nas ruas ou seu sangue borbulhasse pelas galerias subterrâneas. Como se eu pudesse ouvir os ruídos das patas dos cavalos nas pedras, os gritos de antigos comerciantes de rua… ou um choro de mulher aprisionada.
Em Santorcaz houve uma dessas. Importante, me parece. Chamava-se Ana de Mendoza, a Princesa de Éboli.
Conta-se que durante o reinado de Felipe II,a princesa, que era viúva, mantinha relações um tanto íntimas com dois dos conselheiros mais importantes do rei. Pois, quando ambos conselheiros acusaram-se mutuamente de conspirar contra o monarca – e parece que este a ” favorecia”, porque rei não se “deita” com uma mulher… a “favorece” -, um deles foi assassinado e o outro culpado pela sua morte. Dizem que foi um estratagema real. Preso, o sobrevivente fugiu do país vestido com os trajes de sua mulher e a Princesa de Éboli foi acusada de intriga e encarcerada no castelo de Santorcaz.
Esse é o Paradigma de Eva. A mulher é a culpada…sempre.
Pois… a princesa fugiu do castelo de Santorcaz, porém foi novamente presa e enviada para um convento carmelita perto daqui, em Pastrana. E, por incrível que pareça, as monjas se foram numa noite escura e a abandonaram no convento!
Fiquei curiosíssima por esta história!
Estive em Pastrana e no convento… lindo lugar, numa encosta maravilhosa, com um visual incrível. E enquanto estava sentada sobre um de seus muros, perguntava-me “o que será que a tal princesa havia feito, para afugentar todas as monjas?” .
O que pude descobrir, em algumas investigações que fiz nos livros de história que encontrei pelas nossas estantes ( simples, pois há um mundo de literatura sobre a criatura) é que ela sofreu uma perseguição implacável do rei até o fim de seus dias, exilada neste convento.
Como quase todo exílio, concluí que um motivo político se escondia sob o disfarce de uma crise de ciúmes. A verdade é que Felipe II descobriu que sua “favorecida”, além de traí-lo com seu mais íntimo conselheiro, Antônio Pérez, conspirava contra seus interesses, facilitando informações do reino de Espanha aos holandeses e prejudicando seus negócios nos Países Baixos.
A mulher é um personagem muito interessante. Achei que valia a pena contar um pouco mais sobre ela.
Ana de Mendonza, a Princesa de Éboli, era muito bonita e seu pai, representante do Rei da Espanha no Peru, casou-a com um príncipe português muito mais velho que ela. Tiveram que esperar que crescesse mais um pouco até que o casamento pudesse ser consumado. Mas era uma menina inteligente, dinâmica e esperta.
Em sua infância, comportava-se de forma inadequada para uma dama da sua linhagem e enquanto praticava esgrima às escondidas com um pajem, perdeu um dos olhos.
Imaginei o que deve ter acontecido ao pajem depois de tal acidente!
Ana usava, desde então, um tapa-olho negro que não a desfavorecia em nada. Parecia mais forte e mais misteriosa para todos. Era uma mulher sedutora, ambiciosa e avançada para a sua época. Sabia ler e escrever em latim e castelhano e reivindicava seus direitos e o de seus filhos, usando para isso suas armas e artimanhas.
Incluídos em suas posses estava Pastrana e o convento, dirigido por uma monja, chamada Teresa, que depois virou santa. Parece que naquela época só havia essas duas opções de fama e poder para uma mulher inteligente que não estivesse casada: santa ou puta.
Pois… para a princesa, caiu o de puta, que de santa não tinha nada.
Depois descobri que havia mais uma alternativa além dessas duas: Louca.
Mas isso é outra história boa de contar.
Bueno…
Depois que Ana caiu em desgraça para o rei, se espalharam muitas lendas sobre ela, o que confunde até hoje seus historiadores. Me parece um típico caso de “difamação pública”. Imagina o gostinho das fofoqueiras do reino, com um prato tão delicioso para suas tardes de tertúlia!

O certo é que seu exílio no convento incluía restrições gravíssimas…. e só podia ver o sol uma vez por dia, por uma hora. Geralmente, à hora do crepúsculo, saía ao pátio do relógio, hoje chamado Plaza de Las Horas, em sua homenagem.
Seu temperamento voluntarioso não arrefeceu durante o castigo e fazia da vida das monjas um inferno.
Trocava todos os horários, mudava as rotinas, mandava fazer comidas especiais… e queria ser tratada como a princesa que era. Assim, encabeçadas por Teresa, “A Santa”, as monjas abandonaram o convento, deixando que a princesa ficasse apenas com sua filha, também monja carmelita, até o fim de seus dias.
Em Santorcaz há uma casa rural chamada Casarão de Éboli, onde o hóspede pode curtir a paz do pueblo desde sua jacuzzi…
Pastrana também é um bom lugar para visitar. Depois escrevo mais sobre ela.
Pois é…Pois é…
Gosto muito de saber as histórias das coisas e dos lugares. Mesmo que estas estejam repletas de lendas.
Não ficou mais interessante mi pueblo?

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Mais um Toque de Beleza …

Esta é uma época em que fico menos disposta a passar meu tempo diante do computador. A primavera está explodindo por toda parte. As amapolas estão invadindo todos os campos e dividindo protagonismo com centenas de flores silvestres de cores e formas distintas.
Claro, ela é rainha. Sua singela forma é plenamente compensada pela cor rubro-extravagante. Ela é como um splash vermelho no meio do verde, amarelo e branco, rosa, violeta e azul das outras florzinhas lindas dos meus caminhos.
Ela é, em parte, a responsável pela minha ausência do blog. Venho aqui meio de passagem, leio uma coisinha ou outra e um cheiro delicioso de mato vem pela janela e me chama… e eu vou. Vivo lá fora, caminhando, plantando, aguando, passeando…
Dia desses, ele e eu resolvemos sair por aí, quase sem destino certo. Digo quase porque tínhamos apenas uma idéia em mente: tentar seguir umas das rotas dos Pueblos Negros de Guadalajara. Esses pequenos lugarejos ficam na serra norte-ocidental da província e são mais antigos que a presença romana na Península Ibérica.
A arquitetura popular desses povoados é única na Espanha, pois consiste em conglomerados de casas, currais e armazéns de cereais totalmente construídos de ardósia, com sua coloração escura, cinza-azulada ou negra, abundante nessas serras.
Resolvemos o passeio em cima da hora e não tínhamos muita informação, mas resolvemos arriscar, de qualquer forma.

Montamos um kit-excursão-sem-destino: uma mini geladeira com cerveja, água e coca cola, alguns sanduiches de pão artesanal com morcilla e chorizo, biscoitos, manta, canivete mil-e-uma-utilidades e um mapa.
Ah!… e música boa e variada para encantar qualquer estrada.
Entramos e saímos de muitos pequenos povoados ao longo da serra. E NADA DE CASINHAS NEGRAS!
No início do passeio não vi nada distinto aos outros minúsculos pueblos quase despovoados de Castilla La Mancha. Exceto por suas imponentes igrejas românicas, o resto das construções não chamavam qualquer atenção e as casas não apresentavam nenhum indício das famosas e populares pedras-ardósia.
Em Hita ( fotos acima) nos encontramos com la Puerta de los Caballos e pedaços de uma muralha medieval, além de um singelo relógio solar em plena praça.
Também havia uma grande plaza de toros, só que ao contrário do que se vê hoje, todas redondas, essa era retangular, o que indica que a cidade mantém a tradição das Plazas de Justas medievais, onde se celebravam os torneios e jogos durante a idade média.
Ao ver a grande porta da cidade, percebe-se a intenção de recuperar lugares históricos do povoado para atrair também os turistas que trafegam por aquelas pequenas e estreitas estradas.
Em Cogolludo ( que nome! ) nos encontramos com um palácio renacentista do século XV, dos Duques de Medinacelli, que – dizem – foi o primeiro desse estilo a ser construído em Espanha e por isso é precursor das mudanças arquitetônicas dos castelos medievais.
Tentamos buscar informações na oficina de turismo que estava ao lado da grande praça diante do palácio, mas estava fechada. Hora de la siesta.
Tá. Em um feriado internacional, a oficina de turismo fecha para “la siesta”.
Estamos na Espanha, lembram?
Tudo bem. Subimos as estreitas ruas em direção à Igreja de Santa Maria, construída no século XVI. Também estava fechada. Bingo!
Eu já estava ficando com fome e resolvemos parar perto de um rio e fazer o lanche programado.

Isso sim… relaxadamente. Sem pressa e sem agonia.
Afinal saímos para passear, investigar… e nada de estresse só porque as coisas não estavam saindo como a gente imaginava.
E depois, com olhos-de-mar-azul ao lado, qualquer programa, por mais simples que seja, fica gostoso.
Sabe quando a gente está em um lugar e pensa: ” que bom ter um amor de verdade com quem compartilhar as coisas mais simples” e olha para o lado e não é apenas um sonho, um desejo… É justamente isso que a gente tem?! De verdade.
Que privilégio da vida!
Adoro estar com ele e trocar impressões sobre os assuntos do jornal, a música que está tocando ou o livro que cada um está lendo. Adoro fazer planos mirabolantes com um dinheiro imaginário que ganharemos – um dia – na loteria. Adoro estar fazendo planos para um casamento, com viagem de lua de mel incluída, que eu sequer imaginei ou desejei nos últimos 20 anos de mulher separada. Mas agora estou gostando da ideia.
Ainda não temos a data, mas qualquer dia destes os papéis ficam prontos e pimba! Casaremos. He he he…
O melhor de tudo: continuo perdidamente enamorada pelo sujeito do sorriso tarja-preta que vi naquela bendita festa há 11 anos atrás.
Qualquer dia conto mais desta história…
Bueno…voltamos ao mapa e escolhemos ir a Valverde de los Arroyos. Não sabíamos o que nos esperava, mas a esta altura não nos importava muito.

A medida que subíamos mais a serra, a paisagem ficava ainda mais bonita, a estrada mais estreita e antiga e estávamos tão relaxados que resolvemos aproveitar o que encontrássemos. Esta seria apenas uma primeira excursão para arrecadar informações.

 

 

Foi uma boa escolha. Valverde de los Arroyos é um pueblo encantador. Muito procurado pelos turistas para ser um ponto de apoio das excursões a pé pelas muitas trilhas, cascatas e florestas de pinhos que a circundam.
Este povoado é um dos mais conhecidos da região e muitas casas já foram reformadas e transformadas em pequenos hotéis de turismo ecológico ou restaurantes. Outras foram transformadas em chalés de final de semana das famílias de Madrid ou Guadalajara, pois no inverno há pistas para esquiar e no verão pode-se seguir muitas trilhas de montanhismo. Essas oportunidades levam muitos visitantes , tanto espanhóis como estrangeiros, ao lugar.
É um dos Pueblos Dorados da serra e pertenceu nos século XIII ao Señorío de Galve.
A diferença é que suas casas tem os telhados cobertos pela ardósia negra, mas suas paredes são construídas com pedras de vários tons de marrom que, sob a luz do sol, refletem tons dourados.
A arquitetura das antigas construções é mais ou menos a mesma, sem janelas e apenas com pequenos orifícios para entrada de luz e ar, insuficientes para deixar entrar o frio dos largos e duros invernos da região, os currais e armazéns adosados às casas, demonstrando a forma simples de viver dos antigos pastores de cabras e ovelhas, cujas famílias dividiam com os animais o mesmo espaço físico, separados apenas por baixos muros de pedra.
Os quartos eram cubículos minúsculos e escuros. O lugar nobre dessas casas era a cozinha onde reinava uma enorme lareira de pedra em constante utilização. Diante dela a vida da casa acontecia.

Muitas delas estão em ruínas, mas é possível encontrar ainda casas dessas em plena restauração.
Algumas prefeituras estão incentivando com ajuda financeira a que os moradores mantenham a arquitetura original de suas casas, pelo menos na fachada, evitando desvirtuar o conjunto arquitetônico da cidade.
Essa estrutura arquitetônica popular não é muito diferente das casas de taipa que ainda podemos ver no interior de Pernambuco, onde chiqueiro, galinheiro e curral também são peças coladas às pequenas habitações de seus donos. Só muda mesmo o material utilizado em sua construção. Enquanto as nossas são de taipa e madeira, as daqui são de madeira e pedra.
Ainda não desisti de visitar os Pueblos Negros. Queremos explorar mais esta região e já compramos um guia sobre as várias rotas onde encontrá-los. Assim que pudermos vamos montar outro kit-excursão: tortilla de patatas, jamon serrano, vinho tinto, música boa, câmara fotográfica…e a vontade de passar bem.
Fico devendo umas fotos. Demoro mas cumpro!

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