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Presente de Natal…

Véspera de Natal.
E eu tirei o dia de folga. Nada de arrumar, limpar, guardar, comprar. Já estava tudo perfeito desde o dia anterior. Aquele era dia para descansar. Queria-o só para mim. Acordei tarde e fui ao salão de beleza, cuidar da casca…
Estava recém saí­da daquele poço profundo e escuro.
Queria retocar cabelo, unhas, sobrancelhas. Tudo o que me permitisse ficar ali, recebendo dengos.
Curtir os momentos relaxados de escutar as conversas fiadas entre desconhecidas. Todas parecendo tão felizes! Cafezinhos, bolachinhas…ti-ti-ti!
Ah, como era bom fingir de dondoca… Igual àquelas de cabelos aloirados pelas tintas mágicas da L´Oreal.
Começo de dia bom. Dia de Mulher-Chic… e eu gostando!
Almocei com a minha mãe. E depois de um café e um licor, mais dengos. A Princesa gostava…e eu também!
Então…
Voltei para casa, pensando em ouvir as Suites de Bach para violoncelo, dormir um pouquinho na casa limpa, sozinha… Ahamn! Um sooono!
Dei de cara com o rosto apavorado do porteiro, já na garagem:
– A Sra. deixou uma torneira aberta. Quando a água chegou, inundou tudo. Só descobrimos quando começou a escorrer pelas escadas.
– Hem?! Não é comigo. Não pode ser COMIGO! Continuei andando. E o porteiro me seguindo.
Era. Era comigo.
Pânico!
Entrei em casa e estava tudo, absolutamente tudo ensopado. Tapete, almofadas, quarto, cozinha! Eu andava e fazia poft…poft…poft… Os pés provocando ondinhas. Água por todo lado!
Tive vontade de fechar a porta e fugir. Deixar o tempo secar tudo. Mas o porteiro estava ali. Era testemunha de que EU VI.
Fechei os olhos. Não adiantou.
Tive vontade de voltar no tempo e nada aconteceu... “…apenas seguirei como encantada…”
Tive vontade de beber a garrafa inteirinha de whisky que estava na estante.
Tive vontade de jogar tudo pela janela. Era tão pouquinho mesmo.
Tive vontade de sentar e chorar…
Procurei uma ilha e sentei na única parte seca da casa , diante do computador, no quarto da minha filha. Ela estava morando nos EUA e eu tentava esquecer a falta que me fazia.
Abri meus e-mails. Muitos eram cartões de ” Feliz Natal ” dos amigos.
Havia uma carta dela dizendo que me amava muito. Eu também… eu também…
Acendi um cigarro e pensei… ” nunca mais volto para a sala…” Ficaria ali por toda a minha vida.
Meu reino por uma faxineira!
– Que reino?
– Cadê meu anjo?!
Nem o porteiro estava mais!
Três horas e meia tirando tudo do lugar, secando o chão, mandando um tapete de quatro toneladas para a garagem. De camiseta e calcinha, rabo de cavalo, dançava e bebia um whisky na sala úmida. Foi a melhor opção.
Adeus mulher dondoca! Adeus cabelos escovados! Adeus dia de delí­cias!
Adeus Bach!

Botei um disco de Roberto Carlos, dos antigos… para lembrar que era Natal, que dali a pouco estaria com meus irmãos e minha mãe, comendo e bebendo!
– Por quanto tempo ainda a terí­amos por perto?
Dancei… “Ah! esse amor selvagem, passagem…pra loucura e pra dor…”
Era mais feliz agora.
Achei que era louca.
Depois pensei que não devia ser, senão teria ido embora e deixado tudo como estava. Ou pior, jogado tudo pela janela do 15· andar.
Por falar em janela… da minha eu podia ver as verdadeiras mulheres-dondocas saindo do shopping em seus carros importados, com motorista e tudo! Para elas só a cor dos cabelos era falso. O resto era tudo verdade!
Aí­ sentei de novo e resolvi escrever. Registrar o inusitado presente de Papai Noel, que piscava como um sinal de que a vida podia mudar nossos planos de uma hora para outra…
Tudo era possí­vel acontecer no dia de Natal? Inclusive uma inundação no 15° andar de um prédio, aparentemente inatingí­vel pelas águas, em pleno racionamento da seca no Nordeste do Brasil!?
Embora parte da responsabilidade seja sempre nossa, às vezes o mundo gira ao contrário!
Não lembrava de ter deixado a torneira aberta E, realmente, só estava mal fechada. O que dava no mesmo…
Escrevi que mais tarde faria um brinde silencioso a mim mesma. Por eu ter saí­do definitivamente do poço, por eu não ter desabado de novo na tristeza, por estar suportando com raça a grave doença da Princesa.
Como mostravam os filmes natalinos que eu via quando era criança, a felicidade era um momento mágico, e a mágica devia estar mesmo dentro da gente…
A sala já estava seca. A cozinha, o banheiro e os quartos ainda úmidos, mas menos ameaçadores. Já tinha Bach para violoncelo tocando alto no som…
Nem pulei pela janela…
Sentia uma estranha alegria no coração…
Talvez porque era Natal…
Mas… se eu nem gosto de Natais!

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Voz no Vento…

Abriu a janela lentamente, com um esforço brutal, temendo debruçar-se e não resistir ao chamado do vento. Acendeu um cigarro… para ganhar tempo.
Debruçou-se, apesar do medo.
Quanto tempo dura um cigarro? Quanto tempo ele retirava de sua vida?
Aquele durou o suficiente para mostrar-lhe uma cena: muitos andares abaixo do seu apartamento, decorado com cuidado e bom gosto, estava a favela. Assim era aquele bairro. Os edifícios de 15 andares colados com pequenas “manchas” de barracos.
No quintal de um deles, uma mulher dobrava o corpo diante da bacia prateada pelo sol. Vestia blusa sem mangas, decotada, vermelho-paixão. A saia estampada entrava por entre as pernas entreabertas. Os pés descalços – unhas pintadas de rubro – eram duas fortes patas de águia prendendo a mulher ao chão.
A seu lado, a lata enferrujada cheia de água. A mulher jogava água na bacia e esfregava a roupa ensaboada por uma daquelas antigas barras de sabão amarelo. Cantava com voz suave, que subia sem barreiras até as últimas janelas do edifício.
Que música era aquela? Parecia uma canção de ninar.
Como podia cantar tão bonito se estava cercada de tamanha pobreza? Como podia ser doce e feliz a voz que vinha de uma garganta sufocada em um corpo encarcerado no pequeno quintal de terra batida, entrincheirado pelos arranha-céus?
Ela nunca olhava para baixo – a pequena favela era feia e triste.
Ela só olhava para o longe, para o lindo horizonte embaçado pela névoa do dia e enfeitado de falsas estrelas coloridas, à noite.
Era bonito…
Talvez apenas porque era longe… T

Talvez por ali ela pudesse escapar para longe deste insensato mundo.
A voz da mulher abriu uma fenda na névoa do seu olhar.
O que era mais insensato: ela e sua tristeza sem nome, sua vontade de fugir sem saber para onde?
Ela e suas impossibilidades de escapar da auto-compaixão?
Ela e sua atração mórbida e medrosa pela loucura ou pela morte?
Para onde a levariam?

Ninguém que seguiu um desses caminhos provou que havia sensatez neles.
Quem já voltou da loucura não recorda lógica alguma nela. O mundo não foi melhor para si, nem para os outros que lhe rodeavam.
E quem disse que voltou da morte, por algum acidente inexplicável de apego à vida, encontrou nesta mais razão de ser que na outra, apesar de seu túnel de luz calma e tranquila.
Fechou os olhos e deixou a voz e o vento acariciarem seu rosto como um gesto, secarem as suas lágrimas como um beijo. Que estranho momento foi aquele! Tão pouco durou … mas ofereceu-lhe uma outra forma de ver a própria vida.
Ela não estava louca – nem morta.
Estava viva e podia escolher ser feliz.
Fechou a janela, abriu a porta do apartamento e saiu…

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O Lorde e a Moça…

O Lorde adorava fazer compras. Mas não as compras de lojas, em companhia de sua Princesa. Essas não. Ele detestava o entrar e sair de portas, as vitrines iluminadas, a profusão de ofertas, as remarcações. E menos ainda acompanhando uma indecisa esposa que buscava sempre um não-sei-o-que, quase nunca encontrado. Além do mais a Princesa, como já disse aqui, era plebéia. Buscava unir ao não-sei-o-que que buscava o preço mais barato. O Lorde não ia nem amarrado.

Quando ele queria comprar alguma roupa, coisa que fazia uma vez por ano, no máximo duas, ia sempre à sua loja predileta, a Montreal. Não comparava preços. Escolhia as camisas e calças de linho, sapatos mocassins de couro marrom e preto, quase iguais. Lenços brancos e cuecas brancas, sem concessões a qualquer modernidade. Enquanto escolhia, tomava um whiskezinho e um café com o amigo e dono da loja. Só comprava lá. Sempre na mesma loja, sempre as mesmas cores. Bege, branco, azul claro. Tudo muito chic e, ao mesmo tempo, com um certo descontraimento. Os ternos ele mandava fazer com um alfaiate conhecido desde sua juventude. O nome está na ponta da lí­ngua, mas já espremi a memória até a exaustão e não consegui lembrar-me. Deixa para lá… não tem mesmo importância. Ele detestava os ternos e com toda a razão. Usar paletó e gravata em Recife era um suicí­dio, principalmente numa época em que ar condicionado no carro era ficção cientí­fica! Só os usava para situações muito especí­ficas. Mas ele era um Lorde. E o que vestia lhe caia como um traje de gala. Seu passo lento e elegante lhe emprestava um charme de dandy. Pois sim…O dandy aí­ gostava mesmo era das compras de comida e especiarias. A Casa dos Frios era sua perdição. Ali comprava espécies, caviar, vinhos, queijos que minha mãe detestava porque fediam terrivelmente e empestavam a geladeira. Ele ria… E o paradoxo é que ele adorava as feiras. Muito antes do advento do supermercado, a feira era dele. Minha mãe nem ia. A Princesa era plebéia mas não suportava a bagunça dos cheiros, a cacofonia de gritos, a variedade de “quanto-vale-e-quanto-pesa?” da feira. Ela fazia a lista do que precisava e ele saia com cara de quem ia fazer o programa mais delicioso do mundo. E fazia a farra! Comprava duzentas coisas que não estavam na lista. Voltava com o carro entupido de um tudo. Peixes enrolados em jornais, cordas de caranguejos (vivos!), carne para um batalhão, frutas para abrir uma banca e vender na porta de casa. Além das permanentes: laranjas, tangerinas, bananas, maracujás, melancia… trazia também as frutas especiais que nós adorávamos: jabuticabas, jaca, pinhas, graviola, pitombas, pitangas, ingá… (tipicamente nordestina a frutinha gelada que saia da vagem verde era um manjá que esperávamos com disposição para a briga.) O dia da feira era uma festa de cores e sabores. Ele tinha seus “fregueses” cativos nas bancas das feiras. E comprava acomodado num ou noutro banco de madeira, servido de um caju amarelo e suculento acompanhado de uma aguardente “especial” para os clientes especiais. Eu recordo que adorava ir com ele à feira e passar um tempo “pajeada” por alguma filha de freguês, passeando fascinada entre as bruxas de pano, as bonequinhas de corda, a mobilia de barro ou madeira para toda uma casa de menina. Quando eu voltava, trazia sempre alguma coisa na mão e a cara de pidona. Ele dava e eu explodia de feliz. Belas lembranças essas… Então… O Lorde estava acostumado a ser atendido com carinho e consideração. E ele correspondia tratando todo mundo com atenção e cordialidade. Elogiava as moças, chamava os velhos de camaradas, tomava cerveja com os feirantes, a quem chamava pelo nome ou apelido. Era um tal de Zeca para cá, Biu para lá, Tonho, Piaba, Joelho… Em troca todos o tratavam de “doutor”. Os “fregueses” traziam-lhe o melhor coentro e cebolinho, o melhor alface, os tomates mais vermelhos, as melhores frutas de suas bancas. Contavam-lhe histórias e piadas. O Lorde se divertia tanto na feira quanto com seus amigos arquitetos e intelectuais. Ou mais! Depois veio o supermercado. Ele relutou até que finalmente convenceu-se a freqüentá-lo. Ainda levava a lista feita por minha mãe no bolso, mas voltava com o que tinha de novo nas ofertas das prateleiras. Sua alegria era trazer as novidades. Mas agora era diferente. Seu prazer já não era o mesmo. O atendimento era despersonalizado. Ele ia lá e pegava as bandejas de um tudo já prontas. E ninguém para atender. Nem banquinho de madeira, nem caju com cachaça. Um dia, enquanto ele passava as compras no caixa, a moça de cara feia e muda como uma porta, não esticava o braço para pegar nenhuma mercadoria. Ainda não existiam as esteiras móveis e ele ia empilhando as coisas umas sobre as outras no pequeno espaço diante da caixa. A moça esperava até que ele lhe entregasse na mão cada í­tem, com cara retorcida de mal humor e desprezo. Meu pai tranqüilamente fez o que ela esperava. Foi passando í­tem por í­tem. Quando terminou o último pacote, ele pagou, guardou o troco no bolso com sua calma de sempre e soltou: – Eu sei por que a senhora é assim. – Como? A moça o desafiou com cara de nojo e surpresa. – Assim tão mal humorada. A senhora além de muito feia e sem peito, tem bigode. Deve ser muito difícil sorrir e ser bem humorada.

Rindo ele afastou-se em seu passo de gato lento, deixando a mulher pasma e sem resposta. Agora ela estava ainda mais feia. Roxa e bufando de raiva, mais parecia um porco bravo! O Lorde voltou muitas vezes à feira. E só ia ao supermercado uma vez por mês, para as compras de secos e enlatados. Frutas, verduras, caranguejos, peixes enrolados no jornal continuaram a chegar em nossa casa trazidos por um Lorde nordestino, com os olhos verdes brilhando e a cara de feliz, cheirando a caju e a cachaça. *Lord Ribblesdale – John Singer Sargent. **Mulher com os Braços Cruzados – Pablo Ruiz Picasso.

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O Lorde e Seus Ví­cios…

O Lorde fumava. De tudo. Cigarros, cachimbo, charutos. Era um fumante inveterado, desses que desperta no meio da noite para acender um cigarro. Uma vez dormiu com um entre os dedos e quase provocou um incêndio na cama.
Era seu ví­cio incontrolável. Fumava Hollywood sem filtro, charutos importados de Havana e fumos ingleses like Half&Half.
Além do prazer que sentia em fumar, tinha verdadeira adoração por seus cachimbos importados. Passava horas limpando-os. Tinha até mesmo uma caixinha de instrumentos especiais para a tarefa. Era como um ritual que executava com paciência e cuidado, cantarolando os Cantos Gregorianos ou as Cantatas de Bach, nos domingos de chuva pesada e caudalosa que Casa Forte nos dava de presente.
Eu gostava da imagem que via. Tanto que guardo-a até hoje na lembrança. A música, o janelão aberto para o grande sí­tio de árvores centenárias, o braço do rio Capibaribe colado no muro, coberto por baronesas enormes. E a figura de meu pai, recortada nessa paisagem, imerso em suas paixões. A música, os livros e o tabaco.
Até muito tempo após sua morte, o gabinete tinha o cheiro do Lorde. E, apesar do que possam pensar, ele não cheirava mal. Cheirava a um Lorde. Um mistura de colônia inglesa, linho, tabaco e conhaque. Um cheiro que ” sinto” ainda, basta recordar de sua figura única.
Ele tinha uma coleção de cinzeiros espalhada pela casa digna de museu. Vinham de todos os paí­ses que havia visitado, de todos os hotéis onde havia se hospedado, de quase todos os restaurantes onde havia comido. Era um Lorde, mas adorava roubar cinzeiros. Tinha-os de madeira, chumbo, cobre, cristal, cerâmica, louça,porcelana…
Nenhum deles era enfeite. Usava todos. E a maioria tinha história.

A melhor de todas foi a que lhe aconteceu num restaurante tradicional de Recife. Um desses restaurantes finos, cheio de frescuras, como ele gostava.
Depois de comer com um grupo de amigos, foi servido o café, os licores e conhaques e meu pai sacou da caixinha de couro um de seus perfumados charutos. O maitre trouxe um cinzeiro lindo, com a marca do restaurante. Pronto. Esse estava morto. Mais um fadado a fazer parte de sua coleção.
Depois de pagarem a conta, quando meu pai já se dirigia para a porta, com o cinzeiro dentro do bolso do paletó, o maitre se aproximou com um embrulho na mão.
– Com sua licença, doutor. Leve esse que está limpo.
– Como? Meu pai perguntou, surpreso.
– O cinzeiro, doutor. Esse aqui está limpo. E mostrou o embrulho bem arrumado em um guardanapo de papel.
O Lorde avermelhou de constrangimento. Mas não se encolheu. E com sua voz grave e séria, perguntou:
– Você quer estragar minha coleção é, rapaz?
Aí­ foi o maitre quem ficou surpreso.
– Como doutor?
– Minha coleção é de cinzeiros roubados, rapaz. Não doados. Roubados, entendeu?
– Sim senhor… entendi senhor.
E meu pai saiu do restaurante com seu passo londrino, de cabeça erguida, como se o ofendido tivesse sido ele.
Voltou ao mesmo restaurante inúmeras vezes. O maitre sempre o recebia com um sorriso cúmplice de velhos amigos, donos do mesmo segredo. E eram.

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O Lorde e a Princesa…

Parece brincadeira, mas não é. Meu pai achava mesmo que sua mulher era uma princesa. E que ela deveria viver numa torre, para evitar desgraças no reino com a sua extraordinária beleza. Por isso, ele construiu uma. Não era alta e de pedra como as de contos d´antanho, mas era rodeada de densa floresta.
Não creio que escondê-la fosse a intenção da casa, claro. Mas ajudava bastante a manter o isolamento da famí­lia.
Minha mãe a adorava, mas queixava-se por passar semanas sem ver uma alma viva passar. Sempre esperou que sua casa fosse apenas a primeira de muitas que viriam depois. Nunca vieram.
Ele não. Ele torcia para que não viesse ninguém. Adorava o mato, o silêncio, o espaço. Adorava que seus irmãos e amigos perguntassem, horrorizados, como tinham coragem de viver ali, longe de tudo.
“Tudo o que?” Perguntava o Lorde com voz grave e condescendente, como se dissesse “que pobre de espí­rito, coitado.” E levava os assustados visitantes pelos sendeiros de sua “propriedade-quase-rural”.
Plantava uma horta no quintal, que adulava quase todos os dias. Criava um cachorro negro e enorme com quem brincava de jogar os sapatos na noite escura, para que os encontrasse e trouxesse-os de volta, depositando-os delicadamente diante de seu trono de vime, no terraço mal iluminado por lamparinas de ferro. Inveriavelmente ele escutava alguma peça de música clássica nas maiores alturas. Era bom não ter vizinhos.
Na verdade, ele estava certo. Era melhor assim. A casa era de sonhos! Vaga-lumes enfeitavam o jardim como pequenas estrelas ao alcance da mão. Grilos e sapos faziam a festa todas as noites. E durante o dia, o sol nunca esquentava muito no Poço da Panela porque as árvores não deixavam. Sopravam seu perfume úmido e verde por todo o bairro.
Em nossa casa mais… pois o jardim era de grama e roseiras e jasmins e árvores frutí­feras. Jambeiros imensos, azeitonas pretas centenárias, palmeiras de toda a vida. E ainda possuía os canários, sabiás, patativas e galos de campina, que faziam seus concertos com exclusividade para o Lorde e sua Princesa. Nada de gaiolas… criava todos soltos, com acesso livre às terrinas de barro para água e pequenos grãozinhos de comida espalhados por toda parte.
A casa era idolatrada pelos dois. Mas…a Princesa tinha gostos plebeus. Adorava arrumá-la e mudar tudo de lugar. O Lorde ficava louco. Ela ria.
Ele dizia que ela não precisava fazer aquele serviço. Mas ela gostava e trabalhava com prazer e alegria.
Arquiteto de profissão e Lorde por personalidade, meu pai escolhia com cuidado cores e objetos. Um quadro ali, cujo vermelho dava um toque de luz sobre o cinza dos sofás de couro camurçado, um espelho acolá, que dava a sensação de maior espaço…
Minha mãe vinha e botava o sofá do outro lado, embaixo da janela. Pegava o quadro e levava para a outra sala. Pendurava-o sobre a mesinha do telefone.
Ele ficava louco. Ela ria.
Não que ela não concordasse com seu gosto, mas é que tinha faniquito para mexer e mudar as coisas. Cada vez que limpava um cômodo, queria mudar tudo. Era impossí­vel para ela viver num lugar que fosse igualzinho por toda a vida. Assim, de vez em quando, encostava minha cama na parede e eu, acordando à noite para ir ao banheiro e querendo sair pelo lado de sempre… tóin! metia a cara numa parede desconhecida. Gritava de pânico. Por segundos achava que era um pesadelo… ou que estava prisioneira em alguma masmorra! (ah, Freud!)
Ele implorava para que ela respeitasse pelo menos seu escritório. Pois sim… ela respeitava. Quase nunca o limpava. Qual era a graça de limpar e não poder mudar as coisas daqui-prali ?
Hunf!
Assim, as coisas do Lorde, suas caixas de ébano e marfim, suas esculturas africanas, suas réguas de todos os tamanhos e formas, suas canetas de nankin, ele e só ele manuseava.
Mantinha centenas de livros e discos espalhados nas estantes, cadeiras e bancos; rolos e rolos de projetos dormitavam sobre a enorme mesa de desenho. Ele era assim.
O engraçado é que ela era muito organizada e sabia onde estava cada um dos objetos da casa. Ele era extremamente desorganizado e misturava tudo nas gavetas. Mas estavam onde ele queria que estivessem: na sua bagunça.
Só que…quando queriam uma conta a pagar ou algum documento importante, ela era requisitada para procurar nas coisas dele. Ele nunca sabia onde havia guardado. Ela dizia que aquele lugar parecia um ninho de bicho. Às vezes, nunca encontravam o “objeto da busca”.
Ela ficava louca. Ele ria.
Mas o Lorde e a Princesa amavam-se como nenhum outro casal que eu conheci.
Se entendiam por telepatia.
Ela fazia a lista das compras e esquecia de pedir alho. Quando descobria, falava em voz alta na cozinha, e ele “escutava” lá no supermercado. Quando ele chegava dizia ” Você esqueceu de botar alho na lista, quando já estava no caixa, pensei que podia não ter e fui buscar.”
Ela dizia que tinha mandando a “mensagem”.
Quando ele chegava com um presente, que nunca precisava de data certa para chegar, testava ” Adivinha o que eu trouxe para você?” Podia se um livro, uma camisola, uma jóia. Invariavelmente ela acertava, a danada.
Um vez ele esqueceu o presente no carro. Quando estávamos jantando, ela disse “E meu presente? Está no carro? É um relógio?” Era.
Ele ficava louco. Ela ria.
Um dia tiramos a prova dos nove. Ela lia seus pensamentos! Estávamos no terraço da casa da praia e ele lá longe, pescando, com um copo de cerveja na mão e sem camisa – ele sempre esquecia a lordice no Janga. Aí ela riu e disse só para nós ” Ele vai trocar o copo de mão e coçar o umbigo.” E foi exatamente o que ele fez.
Hahaha…saí­mos correndo para contar-lhe que ela estava lendo seus pensamentos.
Ele ficava louco. Ela ria.

Um dia, numa das muitas alterações nos móveis da casa, inundada inúmeras vezes pelo rio Capibaribe, o Lorde, maquiavélicamente, mandou construir camas cujos espelhos eram chumbados na parede. Todas.
E também fez armários de concreto. E mesas de madeira maciça, pesadí­ssimas. Impossí­veis de serem mudados de lugar como ela gostava.
Por mais bonitos que fossem, ela perdeu o gosto e a alegria. Aos poucos foi deixando de arrumar, de botar flores, de rir.
Ele ficou louco quando viu que a casa era muito mais bonita antes… só porque ela ria.
Quando percebeu que não valeu a troca, era tarde…
*Still Life With a Cupboard – Carmen Laffn

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Era Uma Vez Um Verão… (1·cap.)

Tudo começou numa noite de verão . Uma amiga que trabalhava no Consulado Espanhol convidou-me para uma festa no porto. Como assim no porto? Ainda não haviam recuperado os casarões antigos, ainda não havia a fervilhante multidão nos bares e restaurantes chiques da atual “cidade antiga”, nem nada. O porto estava bem diante de uma cidade caindo aos pedaços, cheia de fantasmas, velha e apodrecida, escura e depredada. Como assim uma festa? Ela explicou-me que seria uma recepção especial oferecida pelo Consulado e o barco escola da Armada Espanhola às autoridades e à sociedade, à fina flor da cidade… Uma recepção dentro do Juan Sebastián Elcano.

Fui.

Era um belíssimo veleiro de 4 mastros e 21 velas e estava perfeitamente iluminado, limpo, brilhante nas madeiras e metais. Lindo! Cada oficial tinha como função receber na palma da mão todos os convidados. E foi assim que nos receberam. Três amigas e eu.Tudo perfeito, menos eu, claro. Como quase sempre, nas ocasiões especiais desta história, algo saía errado. Eu ainda não sabia o que me esperava. Engraçado é que na soma dos erros, saí ganhando. Mas durante o percurso, quase perdi todas. Se tivesse tido forças para desistir, teria perdido tudo.

Mas estou adiantando as coisas… voltemos à festa.

Enquanto um jovem aluno mostrava-me o barco, perdi-me da amiga com quem havia chegado e fiquei só, num mar de desconhecidos. Claro, nunca fiz parte da fina flor da sociedade nem da política de minha cidade. Meu bairro era o dos intelectuais, mas era subúrbio. Era Casa Forte. E tampouco havia – ainda – se transformado no reduto chique da cidade. Era bom e bonito. Mas era longe. Não sei do que, mas era longe. Todos diziam: “mas você mora longe, heim!” 

Voltando…

Segui meu guia por onde me indicava e fui convidada a descer para a câmara dos oficiais a tomar algo. Sim, claro! Avancei tranquila…o salto da sandália enganchou num degrau de uma escada assassina e escorreguei. Caí inteira em cima de alguém. Não me lembro de nada porque, provavelmente pela vergonha, fiquei ausente. Sabe como é? Quando estou numa situação de ridículo, eu cego. Não vejo nada nem ninguém. Simplesmente sorrio e escapo o mais rápido possível do cenário, com uma expressão ausente no olhar. Assim não vejo a reação dos outros. Escapei dos braços vestidos de branco que me ampararam, sem olhar para cima. Balbuciei uma desculpa e fui assim, sem olhar para nada, só para o chão do corredor estreito para não cair outra vez, em direção ao coração da festa, a câmara dos oficiais. Afortunadamente cheguei sem nenhum torção de tornozelo, sem um arranhão, nem na pele nem na dignidade. Ninguém viu… ninguém viu… Primeiro erro. 

Servi-me de um vinho branco e busquei minhas amigas. Elas estavam com um grupo de espanhóis e brasileiros e me apresentaram alguns deles. Relaxei e comecei a desfrutar da beleza de recepção que eles estavam oferecendo e a olhar o mundo em torno de mim. Havia um sem número de homens jovens e maduros, vestidos em seus uniformes de gala, sorrindo e conversando, atendendo a cada convidado com gentileza e cortesia. Era um momento de representação oficial da Espanha à cidade que os acolhia e nisso eles eram muito bons! De repente meu olhar parou na porta da cabine… Entrava naquele instante o homem mais interessante da festa. Não, da festa não! Do mundo. Do universo! Não era nenhum deus do Olimpo. Era só um homem de verdade, de feições irregulares… e que eu achei simplesmente lindo! Mandrake!* Pensei como criança. ( A brincadeira da minha infância era pegar o outro desprevenido e gritar “Mandrake!”. E o pobre tinha que ficar imóvel até que a gente admitisse que se movesse.) Pois pensei Mandrake! Parei de respirar. Trocamos um primeiro olhar… e ele sorriu… e o resto da sala ficou embaçada… Ele tinha um olhar-de-mar-azul e um sorriso de derreter icebergs, quanto mais meus pobres joelhos. Um segundo depois, alguém o segurou pelo braço e ele atendeu. E eu fiquei ali, querendo dar para ele meus abraços mais sentidos, meus beijos mais demorados, minha alma, meu juízo (que juízo?). Queria contar-lhe minha história, conhecer a sua. Perguntar-lhe onde estava, por que demorou tanto? Que saudade, meu deus! Meu coração cresceu e brilhou, assim como em Amelie Poulain( É exatamente assim, eu juro! Quando vi o filme, me reconheci na cena imediatamente! E vamos e venhamos, o filme é bárbaro, gostoso e lindo.Ou não? ) Desconcertei com a força do que eu senti. Desviei o olhar, engoli alguma coisa que me afogava a garganta, peguei outra taça de vinho e a festa ficou em câmara lenta. Escutava mas não escutava o que me diziam, via mas não via as pessoas chegando, a sala se enchendo de ninguém. Pelo canto do olho observava seus movimentos, as belas mãos, a barba espessa manchada de fios grisalhos combinando perfeitamente com o uniforme de um branco impecável. E o sorriso, que apesar de maravilhoso deveria vir com “tarja preta“, porque causava em mim efeitos colaterais incontroláveis. Descobri que era daqueles capazes de causar palpitações no meu coração, alucinações, fantasias, tremores na boca do estômago, ansiedade de adolescente. Não… euforia de adolescente!

Tum-tum-tum! Taquicardia.

Fiquei absurdamente enamorada. Na hora. E eu que nunca pensei ser possível esta história de ” amor à primeira vista”! Pelo menos não para mim. Isso era coisa de outros com mais sorte na vida afetiva, o que eu nunca tive. Sorria meio descrente quando minha mãe contava que ao ver meu pai, disse “vou casar com ele”. Era noiva. Acabou o noivado, se conhecerem e se casaram em um ano. Benditos foram. E ali estava eu, querendo poder dizer a mesma coisa. Que ridícula imitação! pensei racionalizando. Eu sempre racionalizo. Mas acho que minha porção de gene pré-histórico nos hormônios me avisou que algo havia naquele homem que era meu… e avisou aos gritos, tambores e apitos. Eu não estava preparada para o turbilhão de sintomas que vinham junto desta selvagem lembrança genética: Boca seca, palpitações desordenadas, fraqueza nas pernas… e uma vontade de voar… virar água… virar mar… dissolver… Meu lado Ulla (batizei assim a porção pré histórica) reconheceu nele as mais profundas ânsias. Ahrnmgmmm! Gemi alto. Será que alguém ouviu? Não dizem que o olhar e o sorriso são as portas da alma? Então? Ulla o reconheceu pela alma. Ulla sou eu. Ele nasceu para mim, pronto! Pensei absolutamente em SURTO Tentei disfarçar o riso nervoso e perguntei a uma amiga da minha amiga, que estava mais perto, quem era aquela criatura, pelamordedeus!!! Devo ter parecido muito ansiosa porque ela disse, com a cara fechada e um olhar de recriminação: “Esse não.” Tóin! Assim, seca. Não entendi ( ou acho que sim, eu entendi ) mas não perguntei mais nada. Não consegui dizer mais nada. Aceitei. Obedeci como em anos de adestramento. Segundo erro.

Servi-me de mais uma taça de vinho. Gelado, fresco… descia suave e se espalhava pelo sangue, resfriava meu repentino calor. Tentei não olhar muito mas era tão difícil! E eu não sabia mais onde ficar, como mexer-me, o que conversar. Ele estava sempre perto das autoridades e eu concluí que devia ter um cargo importante. Cada vez que o mirava parecia que qualquer pessoa podia perceber meu coração pulsando fora do corpo, meus joelhos de geléia, meu desconcerto, minha saudade. Saudade de que, meu deus? Saudade do que nunca tive? Fiz força para estar com os outros, os muitos ninguéns que estavam ali. Não lembro deles. Estava quase em coma com aquele sorriso espalhado pela sala, dirigido à uns e outros,todos…Miserável!

E eu querendo apagar o mundo inteiro, desligar todos da tomada e estarmos sós, numa festa para comemorar nosso encontro! Queria beber com ele, dançar com ele, entrar pelo olho de mar azul e me espalhar como o vinho pelo seu sangue. Era assim piegas o que eu pensava? Era. E assim piegas esse mistério de amor à primeira vista? Era. E era por isso que quem nunca sentiu, não acreditava ser possível? Era. Era assim… que fazer? Disfarçar. E quando ele me olhava – e eu notei que me olhava – eu tentava fingir que não estava olhando para nada… meu perfeito olhar ausente, aprendido de toda uma vida. 

Nunca soube paquerar, se é que essa palavra ainda existe. Sempre fui mais escolhida que escolhi. Admirava as mulheres que sabiam onde estar para que seu interesse as vissem. Admirava as mulheres que sabiam se aproximar com a carinha mais sedutoramente ingênua do mundo e fazerem parecer que tinha sido ele quem tomara a dianteira. Precisava de umas aulas! Urgente!

Essa mania que eu tinha de me “ausentar” não dava muitas chances de alguém se aproximar de mim, exceto aqueles muito ousados, que na maioria das vezes eram uns pretenciosos que atacavam qualquer carinha bonita, não importando muito se levariam ou não um fora. Minha cara de ausência já foi motivo de muitas impressões errôneas a meu respeito. De orgulhosa a metida a gostosa já me chamaram de tudo. E era só timidez. Há tímidos que se escondem por fora, não saem, não falam. E há tímidos que se escondem por dentro, parecem estar ali mas não estão. Eu aprendi a segunda e mais idiota forma de me esconder. Quando me intimidava, entrava e saía dos lugares sem olhar para ninguém. O olhar blasé de ausente. De que eu tinha medo? Não sei. Eu era assim e pronto. Só falava com conhecidos. E conhecidos de conhecidos. E com eles podia ser divertida, bem humorada, conversadeira e contadora de estórias. E meus amores nasceram assim, da convivência.

Mas aquela noite eu era outra. Uma nova outra ou quem sabe uma antiga outra, pré histórica outra, que eu não conhecia. No esforço de disfarçar o caos das minhas fantasias, emudeci. Só sentia, mais do que via, meu pedaço-perdido encarnado naquele homem lindo, alto, com olhos de mar e barba de nuvens, dono de um sorriso angelical que me jogava nas profundezas do inferno. Eu estava em pânico e me escondi por trás do copo… por trás do cigarro, por trás de mim mesma. E ele não se aproximou, mas esteve sempre ali. Estava trabalhando, atendendo, explicando coisas… sempre rodeado de outros que nunca eram os mesmos meus. Quando a festa acabou, um grupo nos convidou para alargar a noite num restaurante dançante na praia. Fui.

Precisava de ar, muito ar.

Dez minutos depois de estar sentada na mesa do restaurante, quem senta diante de mim? Heim? Acertou quem disse ELE. O sorriso proibido. O olhar azul, o impossível dono da minha agonia. E quem senta junto dele? ELA, a amiga que havia dito “ele não.” Como assim ? Ele e eu, assim… um diante do outro e não trocamos nem uma palavra. Só olhares furtivos, daqueles que passam sem parar, como se o outro só estivesse no meio do caminho… Eu buscava alguma coisa para dizer mas não vinha nada. Nada normal. O que vinha à mente eram as loucas perguntas: “Por que demorou tanto? Onde estava?” Mas nem isso eu saberia dizer em seu idioma e ainda por cima com a música alta e as conversas paralelas. Um jovem ao meu lado falava comigo e eu não entendia nada, mas assentia com a cabeça como se…

O mundo parecia tão lento!

Recitei em silêncio os versos de Neruda… ” como se tudo o que existe fossem pequenos barcos que navegam, para estas tuas ilhas que me aguardam”. Pedi um whisky. Quando o grupo começou a dançar, alguém se levantou e o convidou. Ai! Quem? ELA. Tóin! Dançaram uma música que durou um século, duas…toda a eternidade. Fui ficando triste e um tanto embriagada. Quando o jovem ao meu lado quis me beijar depois de tantos assentimentos surdos… despertei. Ridículo não. Tenho mais de trinta! Louca e piegas sim, e daí? Ninguém viu… ninguém viu… Que é que estou fazendo aqui? Levantei, me desculpei e fui embora. Quarto erro? Deixei de contar. Quando ele voltou para mesa a me procurar, minha cadeira estava vazia. Por que demorou tanto? Ele pensou que eu estava dançando também e esperou. Mas eu nunca voltei. E eu só soube – que os braços brancos que me ampararam na escada eram os seus, que seguia disfarçadamente meus movimentos na festa, que se assegurou antes de irmos ao restaurante que eu estaria lá, que sabia a cor mel dos meus olhos e acreditava que meu sorriso era o mais lindo do mundo, que eu era a pessoa mais especial que havia visto, que eu era uma mulher com M grande, que esperava poder dançar e falar comigo ali, sem estar mais trabalhando… e que cometeu quase os mesmos erros que eu, embora por outros motivos – muito anos depois.

E demorou… demorou muito.

fotos: Buque Escuela Juan Sebastian Elcano

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Mulher Maravilha…

Eu era uma moça moderna. Ou pensava que era. Separada, filha pequena, apartamento no terceiro andar, sem elevador. Professora, estudante, aprendiz de “la vida”. Auto suficiente! Alta, bem proporcionada (isso nunca foi ser magra, heim!). Dinâmica ( eu???), inteligente, preparada (sim?) segura ( quem?? ) diziam outros. Era tão bom ter amigos assim! Era uma daquelas mulheres dispostas a matar dez leões por dia. Todos os dias se fosse preciso. E era. Uma noite, um destes monstros pré históricos entrou voando pela janela do apartamento e poft! estalou, negro e ameaçador, bem na parede em frente a mesa da sala onde estava debruçada na correção das provas de meus alunos. Pânico! Não gritei porque não podia. E a criança dormindo? Deslizei de mansinho para o chão e engatinhando procurei, sem pensar, a porta mais perto. Era a de saí­da. Quando consegui pensar, estava no hall do prédio, de camisola, agachada em frente à porta de casa, olhando pela brecha mí­nima para a peste da barata. O bicho não se movia, mas eu não me atrevia a entrar. A danada era das voadoras supersônicas, senão como teria conseguido voar até a janela de um terceiro andar!? Tentei voltar de gatinhas e atravessar a sala em direção ao quarto da minha filha, pensando na criançinha indefesa… e Frrrruuuuu… asas supersônicas sobre minha cabeça. Voltei de ré em meio segundo. Que desespero! Não podia ficar ali fora! Que mãe desnaturada abandonaria sua filha na mesma casa com aquele animal perigoso, fedido e asqueroso ? Eu! Só eu mesmo! Acordei com o voz do vizinho, às 6 da manhã, encolhida em cima do pequeno tapete.-Você está bem? -Heim!?-Aconteceu alguma coisa? -Não, nada… eh… sim… uma b…bbarata. E olhei para dentro. A danada não estava mais ali.

Salvou-me a chegada da empregada. Das duas coisas. Do risinho irônico do vizinho e de ter que entrar sozinha em casa com aquele monstro lá dentro. Passei direto para o quarto e fiquei lá até a faxineira matar e mostrar o cadáver da miserável.

Com o corpo todo doí­do, tomei uma ducha fria, um café amargo, organizei a coitadinha ( que mãe!!!), desci os três andares de escada com as pastas de provas sem corrigir, e preparei-me para todos os leões que teria que matar aquele dia.

Barata não!

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O Lorde e Ela…

Meu pai tinha gostos requintados.
Gostava de barcos a vela e golf. Jogava tênis e tocava piano. Sonhava ter um veleiro e por isso era sócio do Cabanga Iate Club, mesmo sem barco. Freqüentava o Caxangá Golf Club da Várzea e falava Inglês com sotaque londrino, mesmo antes de ir à Inglaterra.
Era um lorde…
Como arquiteto, ele dizia, tinha que estar no lugar e na hora certa para ganhar um bom projeto, sem jamais parecer que precisava dele. Exactly!
Minha mãe era mãe. Dona de casa e mãe. Seus filhos eram a sua glória, a casa própria seu sonho realizado. O resto era “supérfluo”. Na juventude estudava belas artes e pintava lindamente. Era ceramista também, mas não acreditava no próprio talento e sua arte nunca saiu de casa. Cuidava das rosas e jasmins, de nós e do homem da sua vida com uma dedicação tão extremada que na famí­lia a chamavam de Amélia.
Mas ela era uma leoa. Uma linda leoa.
Ele também era um leão e sentia por ela os ciúmes mais ferozes que já vi na vida.
Pois sim… meu pai de lorde só tinha os gostos. Na intimidade do lar, muitas vezes, agia como um homem das cavernas. Gostava de seus livros e sua música, seus cachimbos e seus conhaques…mas não sabia muito bem se mover nos papéis de pai e marido. Era louco por ela, mas seus ciúmes também eram loucos.
Amava-nos, mas nunca nos disse. E isso não tinha explicação.
Quando saíam juntos, bastava que ela soltasse uma das suas risadas cristalinas e maravilhosas, para ele fechar a cara e querer ir embora.
Um vez, estávamos no Caxangá Golf Club, uma daquelas manhãs maravilhosas de sol e brisa fresca. Meus pais estavam rodeados por seus amigos ingleses, italianos e japoneses com as respectivas madames, quando se acercou um garçom para tomar nota das bebidas. Ele cantava o pedido, para animar a gente a beber:
– Uma cerveja…uma caipirinha… uma Coca-Cola…uma Fanta Laranja ou uma Soda Limonada? Assim… um por um.
Na vez da minha mãe, ela trocou os cabos. Ia pedir uma Fanta, decidiu por uma Soda. E pediu, com seu sorriso maravilhoso:
Uma Foda, bem gelada.
O silêncio que se seguiu e a cor esverdeada que se espalhou pelo rosto do meu pai durou eternos segundos, até que o garçom respondeu, impassí­vel:
Pois não senhora. Bem gelada!
E passou para o seguinte.
Cinco minutos mais tarde estávamos todos no carro, voltando para casa.
O Lorde, para isso, não tinha muito senso de humor.
*Lord Ribblesdale -John Singer Sargent

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A Casa e o Rio…

Vivi quase toda a minha vida no Poço da Panela, ao lado do belo rio Capibaribe. 
Nossa casa era o resultado de muitos anos de sonho de minha mãe. Ela jamais desistiu da idéia de possuir sua própria casa, apesar das grandes dificuldades que viveu. E não se surpreendeu quando por fim, um dia, meu pai chegou com um papel grande e amarelado e começou a desenhá-la. Era um bom e jovem arquiteto e havia comprado um terreno num beco sem nome e sem saí­da, no bairro de Casa Forte. 
O terreno estava muito próximo a um sí­tio de vegetação cerrada e árvores centenárias, por onde se podia ouvir os sinos de uma igreja pequena e branca ou os ruí­dos de um barco de madeira que fazia a travessia dos pobres para a outra margem do rio.
Eram vozes abafadas, que escutávamos como se fossem de duendes e fadas. Entrávamos ali seguindo a velha Estrada Real do Poço, enfeitada por casarões antigos, cujos donos eram herdeiros da época em que tudo aquilo era um engenho de cana-de-açúcar. 
No meio da Estrada estava a antiga sede do engenho, mal assombrada e tenebrosa a qualquer hora do dia ou da noite. Do nosso lado, os pequenos caminhos, o mato. Muito mato e os braços largos do rio. 
Como se desenha um sonho? 
Não foi fácil. Do papel para as primeiras pedras dois anos se passaram. 
Um sonho não tem preço, mas as pedras têm. E eram muito caras para a realidade financeira da famí­lia, no iní­cio dos anos 60. Hoje sei que a vida com um sonho é sempre mais próspera. 
Minha mãe economizava até em palitos de fósforo, o que deixou uma marca em seu comportamento pelo resto de sua vida. Nunca jogava nada fora. Acendia um palito já usado na boca acesa do fogão e o guardava outra vez, até que não era mais possí­vel segurá-lo entre os dedos. Lavava, passava, varria, cozinhava. Usava um vestido até que se rasgasse… Mas finalmente, um dia, fomos ver a construção. Minha mãe e suas mudas de jasmins e roseiras. Meu pai e suas folhas de papel. 
Foi um domingo de festa para nós. Três crianças, quatro pedreiros e o grande sorriso de meus pais. Que mais era necessário? Ah, sim… uma panela grande de barro marrom e todos os ingredientes de uma feijoada. 
Trabalhamos todos naquele dia. Carregando areia, levantando muros, plantando, pulando de monte em monte de areia e barro. 
Escolhemos o lugar onde seriam plantadas as árvores que depois seriam minhas amigas por toda a vida. Abacateiros, coqueiros, jambeiros, goiabeiras. 
Esse foi o nosso programa por muitos domingos mais, tantos que perdi a conta. 
Quase quatro anos depois, a construção ainda era construção. Suas paredes já se revestiam de madeira escura, o piso de parquet negro e marfim, as flores já eram uma realidade…
E faltavam só 4 meses para a grande inauguração. Passarí­amos o Natal de 65 na Casa. 
Meu pai comprou um piano. Assim, sem avisar…
Chegou um final de tarde quase sem pisar no chão. Não era um piano negro e de cauda como o da casa de meu avô. Era pequeno e clarinho, mas era um PIANO! Comecei a estudar com uma professora que tocava na igreja da praça. Meu pai tocava todas as noites e eu bailava no terraço de cerâmica encerado, de meias soquetes para deslizar melhor. Nunca tive muito jeito para bailarina e caí­a cada vez que inventava rodar como elas. Mas era uma possí­vel-futura-pianista

Uma noite ele veio… o rio. Foi sua primeira incursão pelas ruas de Casa Forte. Invadiu quase todas as casas, manchou, molhou, enlameou tudo até a altura de meio metro. Na nossa ele foi mais cruel. Fez saltar todo o parquet do piso, entortou as tábuas de madeira do escritório… e levou o piano. Mas antes o fez bailar sobre a água… descolou cada tecla de marfim… arrepiou a madeira… enegreceu tudo.
Acabou com meu sonho de artista, de famosa pianista… e eu já sabia que nunca seria uma bailarina. 
Meu pai chorou. E nunca mais falou do assunto. Creio que queria esquecer tamanha tragédia. Ou talvez seu silêncio dissesse que nunca a esqueceria… 

Ao final do ano nos mudamos para A Casa, que nunca, jamais deixou de ser uma obra em construção. Pois é. Por mais que meu pai fizesse planos e projetos de decoração e mobiliário e fosse, aos poucos, trocando pisos e portas, comprando luminárias e estofados novos, a briga entre ele e o rio foi ficando cada vez mais acirrada. E violenta. Por dez anos o Capibaribe, que lambia nosso muro nas épocas de verão e dava um toque de habitantes da selva às aventuras de criança, nas épocas de inverno ameaçava subir, inundava o jardim. E por quatro ou cinco vezes elevou-se, cada vez mais alto. Até que um dia cobriu A Casa deixando apenas o reservatório de água de fora, como um bote abandonado e fantasmagórico. A cada subida, meu pai o desafiava com novas estratégias de esconder seus tesouros : os livros e os discos. Subia-os às prateleiras mais altas da estante e até mesmo nos ocos do telhado do gabinete. 
Eram muitos os livros de meu pai. Uma biblioteca de teto ao chão de livros, dicionários e enciclopedias. Entre os mais amados, as obras completas de Shakespeare, Pessoa, Neruda, Bandeira, Eça de Queirós, Edgar Alan Poe. O melhor de Rubem Braga, Fernando Sabino, João Cabral, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Rachel de Queiroz. Variava de coleções completas sobre arte em pintura e arquitetura à mitologia ou séries de fição cientí­fica e suspense policial… 
Era um cupim de livros, o meu pai.
Os livros e a música eram suas paixões e ele costumava freqüentar livrarias e sebos semanalmente. Mas… na pressa de salvar a famí­lia de morrer afogada, eles perdiam em prioridade. Ficavam na casa, escondidos em alguma altura, onde meu pai, com esperança ainda não vencida, pensava que não seriam alcançados… 
Ledo engano. O rio gostava de ler… E sempre subia um pouco mais, até encontrá-los… Derretia as capas dos discos, cobria os sulcos com uma lama escorregadia.
Dos livros só levava as letras… as frases… deixava o papel grudado e inchado como um cadáver… como um ato de pirraça, para a gente saber o que tinha perdido, para a gente saber que ele era maior. Ele vinha e se demorava lendo. Dias e dias… 
Nossa casa era a primeira atingida pelas suas ganas e a última a quem permitia voltar. Assim, quase não salvávamos nada do que ele deixava. A lama negra e gosmenta era grossa e fedorenta como petróleo e havia ficado por tempo demais. Entranhava em tudo… Então, ví­amos meu pai chorar, apanhando de pá e carro-de-mão, a papa de livros e discos que o rio, sem dó, espalhava pela casa inteira… Lavávamos os discos com água e sabão, nús de suas capas coloridas. Coleções inteiras de Bach e Beethoven, as suas óperas prediletas, os Jazz e os Blues, as Grandes Orquestras. Uma raiva impotente e uma tristeza profunda se instalavam na casa e em nossos corações. Alguns discos era possí­vel comprar outra vez, mas a maioria estava perdida para sempre. Eram selos esgotados, fora de catálogo. 
Ainda guardo uns livros sujos de lama seca, que o rio não lavou as frases. As poesias de Neruda, a solidão de Garcia Marquez, a pedra do reino de Ariano Suassuna… Talvez o rio já os tivesse lido das outras vezes e só lambeu as capas, não os abriu. Com um pouco de sol, deu para salvar. 

Na última batalha entre ele e meu pai, tivemos que viver por seis meses em um apartamento emprestado, pois foi exatamente nesta que ele descobriu o esconderijo do telhado. Derrubou o teto… e leu tudo. Só voltamos para casa no ano seguinte. E meu pai estava vencido. Não quis mais brigar… parou de sonhar. Morreu dois anos depois. Tinha 50 anos. 
Tentamos batizar com o seu nome o beco sem saí­da onde vivíamos, mas ele não era suficientemente importante para lutar com outro morto: o pároco da pequena igreja branca. 

Alguns anos depois, construí­ram barreiras no rio e nosso antigo campo de batalha valorizou-se. Venderam lotes e lotes para novos habitantes do romântico bairro do Poço da Panela, que foi se transformando num rincão da nova elite da cidade. Casas modernas se espalharam por toda parte. E até edifí­cios, contrariando muitas leis de proteção ao meio ambiente e e manutenção do Patrimônio Histórico. 
O casarão mal assombrado é agora um museu, as ruas estão calçadas e diante de nosso antigo jardim há uma pequena praça triste e mal cuidada, árida e sem razão de ser. Três bancos de concreto, dois ou três arbustos que tentam sobreviver ao abandono… Não há mais cipós nem as árvores frondosas onde nos pendurávamos em nossas fantasias de reino das selvas. Enterraram as árvores até que morreram sufocadas. E a nossa casa também morreu… Não caiu, nem foi reformada. Está lá ainda, mas é só uma sombra esmaecida do que foi antes. Nem jasmins, nem roseiras… nem cheiro de mato verde… Metade do antigo jardim é cimentado. Nem cocos, nem goiabas, nem jambos, nem pitangas, nem araçás… Nem uma música no ar, nem o barulho dos sapos e grilos da beira do rio. Ele também não está mais lá, o rio… Mudaram o seu curso. E muitas casas estão construí­das onde antes eram seus braços. Também ele não tinha mais nada a perder.

Seu parceiro de briga não lhe comprava mais os livros… nem lhe fazia ouvir La Bohème às alturas, nas madrugadas enevoadas e úmidas do Poço… 
No beco, ainda sem saí­da, há agora um nome : o do padre da paróquia. E meu pai mudou-se, depois de morto, para a pequenina igreja branca. Lá, o rio ainda lambe as paredes de seus muros… 
Estão juntos de novo.
E se pode sentir, mais que ouvir, entre as badaladas dos velhos sinos de bronze, suas queixas mútuas de amigos rabugentos… 
Antigos e eternos companheiros de lutas e sonhos.

**Soube agora, em 2011, que a casa foi derrubada e um edifício está lá, em seu lugar. Não fui ver.

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