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Cesta de Gatos…

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Outubro. O mês da chegada do friozinho que eu amo. O mês das folhas amarelas e vermelhas do outono europeu, tão lindo, tão melancólico, tão música clássica no ar.
Eu podia ver os esquilos que moravam numa de minhas árvores descendo do ninho para buscar as nozes que eu havia deixado para eles num prato grande de barro, provocando a saudade antecipada que me perseguia desde dois meses antes. Ultimo café quentinho na caneca azul, ao som de Vivaldi, olhando por aquela enorme porta de vidro que dava para o jardim, já com cara de triste e sozinho.
Eu sabia que o próximo “dono” não iria morar ali e uma casa sem gente perde em vida. Um jardim, então, sofre demais. Por isso eu havia presenteado aos vizinhos e amigos todas as minhas plantas. A “selva amazônica”, como eles chamavam, já estava distribuída e ele já parecia meio nu, meio abandonado.
Bem que eu queria poder levar a casa interinha conosco!
De volta ao futuro me dei conta do caminhão na porta dos fundos, devidamente autorizado para transportar tudo o que eu havia previamente organizado por setores da casa: quarto azul, quarto laranja, quarto de hóspedes, “habitación de matrimonio”, livros, livros e livros… cozinha, 3 banheiros, escritório, salão, mais livros e livros e livros…que casa tão imensa, meu Deus!
Pois sim… Consegui organizá-la muito bem – enquanto todas as bruxas dormiam – durante as semanas que antecederam a data. Porcarias devidamente jogadas no lixo, coisas desnecessárias para dentro dos baús de “guardados-desnecesariamente-guardados”, coisas essenciais e importantes encaixotadas, com etiquetas e tudo.
Isso fui fazendo dia após dia com uma dor nas costas que não me abandonava e noite após noite de insônia em que, de olhos fechados mas totalmente desperta, eu arrumava e desarrumava tudo outra vez, tinha ideias fantásticas do que fazer no dia seguinte, que logo seriam esquecidas. E uma impaciência que já estava transbordando por todas as saídas do meu corpo.
Então chegou o bendito dia. Três criaturas absolutamente desconhecidas mexendo em toda parte, entrando em todos os cômodos, abrindo e esvaziando todas as minhas gavetas, metendo cada objeto em imensas caixas com letras e números. H1, H2, H3… ESCR, COZ, BAN, ENTR. Cada caixa dizendo de onde havia sido retirado seu conteúdo.
Fácil assim. Depois era só desembalar tudo e guardar…
Onde?
A cesta de gato para onde seguia aquele mundaréu de caixas imensas tinha dois quartos pequenos, um banheiro, uma prometida cozinha e um pequeno hall. Ah! e uma sala que não sei por que meu pirata chama de “salón“. Acho que seu costume de viver quase toda a vida em camarotes de barcos e dormir por nove anos em camas de submarinos, essa pequena sala possa mesmo ser chamada assim. Tá. Eu deixo. Mas que é uma salinha de nada, é!

Tá bom. Tá bom. Isso eu já sabia. Estávamos levando o essencial: perto de dois mil livros, oitocentos CDs, poucas roupas (só o que passou pelo crivo), objetos para cozinhar ( não tinha quase nada ) e comida, alguns móveis comprados de ultima hora: 15 estantes, 1 sofá, 2 poltronas, 1 cama, 1 guarda roupa, 1 sofá-cama, 3 gaveteiros e 3 mesas de trabalho. Coisas do tipo “monte você mesmo e demonstre a todos o quanto você precisa de nós.” Já reconhecendo nossa ignorância pagamos para que nos montassem os sofás, a cama e o armário do quarto, um dia antes da mudança. O resto ficava para nós. A conta nos convenceu que valia a pena tentar!
Ótimo! Para quem vivia numa casa completamente mobiliada mas não tinha nada, já podíamos contar com um bom começo. Isso mesmo. Como somos organizados e competentes, heim? Assim antes da mudança chegar já teríamos onde dormir e onde guardar o básico. E eu saberia onde estava tudinho, tudinho…
Pois sim.
Eles não são. Nem organizados nem competentes. O guarda-roupa chegou com meio metro a mais do que o tamanho da parede do quarto e teve que voltar. Tivemos que convencer a loja que o erro foi deles, porque a priori eles nunca erram e o culpado é você. Mas não foi. E eles tiverem que vir no dia seguinte. O dia da mudança.
Os sofás também viriam naquela tarde mas, que fatalidade! o pneu furou e eles viriam também no dia seguinte. O dia da mudança.
Foram elas? As bruxas de plantão acordaram, as danadas!?
Então … No dia 17, o caminhão estava parado diante do prédio de uma rua bastante movimentada e não podia fazer nada porque a casa era um verdeiro balaio de gatos. Estava invadida por outros. Gente na sala, no quarto, na cozinha…. Peraí! que cozinha? Aquele buraco negro seria uma cozinha num dia muito distante! Eles não tinham prometido tudo pronto dia 15? Depois de mais de um mês de atraso, eles juraram à dona do apartamento que a cozinha estaria prontíssima no dia 15 de outubro. O que era aquilo? Como assim pronta?
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Quando estará terminada, perguntei com cara de choro? “Na segunda feira, senhora. Isso se faz neste final de semana.” Eu juro que quis acreditar. Mas estava difícil, viu.
Dizem que as pessoas que trabalham na construção tem uma forma distinta de funcionar. Tempo é algo que não existe. E o cliente é aquele ser incômodo que está aí para fazer perguntas impossíveis de responder. É absolutamente necessário enganá-lo! Quem mandou perguntar besteira!
Entrei na sala e vi dois sujeitos que estava montando um sofá que não era o que eu havia comprado! Trouxeram um outro sofá!
Como assim?
Esses também são seres especiais. Eles agem como se estivessem ali por acaso. Não representam a empresa onde trabalham. Aliás eles nem conhecem ninguém naquela empresa, iam passando pela rua e lhe mandaram entregar esse sofá na casa daqueles desconhecidos, que por acaso estavam pagando pelo serviço. É assim mesmo?
É. Pelo menos é o que parece ser. Eles disseram que entrássemos em contato com a loja e se foram. E por cima deixaram um super sofá branco que ocupava mais da metade del salón, que não era meu e que ia se encher de poeira e cimento. Pânico na garganta. Onde estavam aquelas lágrimas que pareciam prestes a sair na porta do inferno negro que chamavam de cozinha? Dei a volta e fui para o quarto onde montavam o guarda roupa, finalmente com a medida certa. Um pó de madeira cortada cobria toda o colchão da cama onde pensávamos que íamos poder dormir. Em estado de choque eu não podia nem chorar de tao cansada. O pirata estava com uma cara de “vou-fugir-no-próximo-barco-que-passe-na-porta”. Porque só faltava passar um barco pela rua, em plena meseta castelhana. Juro que eu iria também. Com gosto!
Telefonei para um amigo que vive em Madrid e pedi guarida. Por umas duas noites. Queria ser otimista, juro. Até que soube que a mudança dormiria no caminhão, diante da porta do prédio. Até amanha. Heim? Heim?
Eu sou brasileira. Tenho experiências traumáticas, será que ninguém entende? Minha mudança ia dormir na rua? Como assim? E eu? Como dormir sem sonhar que no dia seguinte não haveria nem o caminhão para contar a história do saque! Uffffff!
Calma. Calma. Não havia outra saída, nem outro lugar. Ia ficar ali mesmo, bem no meio da rua.
Amanhã a gente volta“, disseram os três desconhecidos
Tá.
Então foi o que decidimos.
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Voltamos no dia seguinte e respirei fundo. Estava tudo tranquilamente onde deixamos! E ao abrir as portas, não faltava absolutamente nada!
Yes!
Decidimos amontoar as caixas no hall e em um dos quartos. Não cabiam, claro. Então elas começaram a se espalhar pela sala e pelo meu quarto também. As montanhas de caixas criavam um ambiente perfeito para um pesadelo: morrer embaixo de uma delas.
A dor nas costas crescia, crescia.
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Todos os dias eu voltava e tentava abrir caixas, organizar os armários, mas organizar era uma palavra que simplesmente não entrava naquele lugar. As coisas saíam das caixas mas elas apenas mudavam de um lugar para outro, formando outras pilhas espalhadas por toda a casa, sem qualquer sentido comum. E meu calmante natureba só chegava do trabalho no final da tarde! Ele vinha cansado mas disposto a montar as estantes onde pôr os milhares de livros e discos. Era preciso esvaziar espaços senão eu ia morrer de claustrofobia!
O buraco negro chamado cozinha foi se vestindo de madeira e cerâmica, len-ta-men-te. M-u-i-t-o       l-e-n-t-a-m-e-n-t-e !
Dormimos na casa do amigo até o dia 22. Seis dias depois da mudança. Que mudança? Eu não estava nem em uma casa nem em outra. Estava no limbo!
Neste dia havia uma promessa formal do pseudo-profissional responsável (? ) pela obra de montar a caldeira de água quente, fundamental para a saúde mental e física de quem tem que tomar banho nesta terra onde a água é gelaaaada em qualquer época do ano. Ele também teria que montar as cortinas, retiradas antes da pintura do apartamento. Tá.
A criatura chegou com três horas de atraso, impedindo a empresa contratada para a limpeza da obra de realizar seu trabalho, seu ajudante montou a caldeira e já iam saindo quando perguntei pelos móveis e eletrodomésticos. Não pergunte! Disseram-me seus olhos. Lá vou eu ter que enganá-la outra vez! Olhando para a janela como se eu não estivesse ali ele resmungou que estava pensando em telefonar-me no dia seguinte para avisar-me quando viria a empresa que montaria a cozinha. Fogão, geladeira, pia… TUDO! Talvez na segunda feira seguinte. Heim?!
Perguntei ( De novo! Que ousada!) pelas cortinas. Cortinas? Ele me olhou como se eu fosse um ET. Disse que não sabia delas, que guardou-as nuns sacos negros de lixo e que deixou-as – com muito cuidado – na entrada, bem ao lado do lixo da obra. Que inteligente, não? Em bolsas de lixo, ao lado do lixo. Desde quando isso se chamava “guardar“?
Isto é, o sujeito “desapareceu” as minhas caríssimas cortinas… todas.
E para piorar sugeriu que quem havia jogado fora os sacos de lixo tinha sido eu e meus ajudantes da mudança. Heim?
Ataquei. Cresci uns dez centímetros. Avancei para o sujeitinho de rabo-de-cavalo e cara de rato e ele recuou até a parede apavorado.
Não, não foi físico o meu ataque. Foi psíquico. Avancei dois passos em sua direção com uma cara de louca mais ou menos igual a de Mme Mim, descabelada e com os olhos injetados de raiva. Aposto que ele está em pânico até agora. Ho ho ho!


Soltando fogo pelo olhar e cuspindo cada palavra como uma serpente malvada eu disse que ele não me tratasse como uma das suas clientes idiotas, que eu exigia respeito, que ele era absolutamente responsável por tudo o que dissesse respeito à obra e seus resultados, que parasse de mentir descaradamente e responsabilizar-me por sua incompetência. Que ele não estava atrasado dois ou três dias e sim quarenta e cinco e que eu não iria admitir que me tratasse como uma imbecil. Queria minha casa JÁ. Habitável. Pronta. E cada cortina em seu lugar ou outras exatamente iguais. E que a partir de agora eu iria acampar bem diante da porta da cozinha para acompanhar cada passo seu dentro da MINHA casa, que lhe telefonaria a cada dez minutos para que me dissesse a verdade e respondesse pelo trabalho que lhe haviam contratado. Tudo isso sem respirar. Sibilando entre os dentes. Assustador, nãao???
Todos os outros cinco homens ( quatro da limpeza que não se fez completa por sua culpa ) que estavam ali naquele momento pararam o que faziam para escutar-me. Nunca falei um Espanhol bem falado e claro como naquela tarde.
Pronto. Depois disso fiquei doente. A dor nas costas, que me acompanhava há quase um mês, aumentou desesperadamente porque toda a raiva ficou presa naquela parte do meu corpo. Por quatro dias não pude mover-me, nem arrumar caixas, nem tomar banho sozinha, nem nadica de nada. Verdadeiramente acampei na porta da cozinha, deitada numa das maravilhosas poltronas brancas e cobertas de plástico cheio de pó de cimento. A loja só veio trocá-la mais de uma semana depois da entrega equivocada. F*-se!
Da quarta até o sábado eu só chorava todas as lágrimas que estavam presas no nó da garganta. E fabriquei muitas mais. Eu era uma enorme lágrima! Não dormia quase nada. Cansei muito.
Só Domingo pude sair pelas ruas de Madrid e aproveitar uma bela manhã de sol!
A cozinha foi vestindo-se e agora há um sujeito competente lá, montando tudo, enquanto escrevo esse texto procurando não sentir toda a raiva outra vez, por causa da dor… vai que ela resolve voltar.
Já posso respirar e tomar banho sozinha. Já posso andar sem ter vontade de chorar a cada movimento. Não vou arriscar.
Ele também não arrisca. Desde aquele ataque verbal o homenzinho cara de rato nunca mais voltou aqui. Manda tudo por controle remoto: um pedreiro da Romênia que mal fala Espanhol e que me olha com pena e cara de carinho. Melhor. Prefiro não ver o rato.
Só quero minhas cortinas nas janelas. Já.
não existe aqui. Preciso esquecer a palavra. Isso ele ainda não solucionou. Mas vai solucionar. Ah, vai.
Preciso esquecê-lo também para recomeçar minha vida.
Nada mal heim, para uma mulher que pensava que tinha a vida resolvida na entrada do século XXI e que nos primeiros dois anos do novo milênio abandona seu país atrás de uns olhos-de-mar-azul pelos quais está absolutamente em surto amoroso. E depois de viver no mato, rodeada de esquilos e raposas, os melhores anos de felicidade de toda a sua vida e de casar com o dono do sorriso tarja preta mais belo do planeta… agora vai viver alguns anos ” en los Madriles”.
Claro que a história não podia ser simples e comum, se tratando de mim. Faz uma semana que comemos sandwiches prontos com coca-cola em pratos e copos de plástico, dormimos numa deliciosa cama nova rodeados de montanhas de caixotes, temos uma imensa lista de “necessidades urgentes” , não sabemos onde está nossa roupa, não podemos comemorar a nova vida pois estou tomando umas bombas de anti inflamatórios e… ainda não parece que vivo em Madrid.
A mudança estava programada para o dia 05 de setembro. Adiada para o dia 10, depois para o dia 20 e finalmente para o mês seguinte, em 15 de outubro. Ainda dei dois dias de lambuja, por se acaso…
Estamos em 28 de outubro e nós ainda não consideramos a mudança feita.
Todo mundo já sabe que não pode viajar comigo porque as coisas nos aeroportos nunca funcionam como deveriam. Agora já sabem que não podem fazer mudanças também.
Ah!… e tenho passagens compradas para Lisboa no próximo dia 5. Ainda não sei nem o que vou pôr na maleta e … por falar nisso, onde está meu passaporte?
Ai meu Deus…
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Pois é. O texto estava escrito, mas não pude publicá-lo. Não tinha Internet em casa, nem tinha casa, nem tinha espírito, nem tinha vontade.
Fui à Lisboa e Sintra pela primeira vez e fiquei encantada. Foi como encontrar um oásis dentro do deserto. Dormir num quarto de hotel limpo com cortinas e privacidade, sair para passear sem preocupar-me com nada mais do que ser feliz por quatro dias tranquilos e belos.
Foi fantástico fazer a viagem e nos ajudou a relaxar para encarar a tarefa de “fabricar” uma casinha gostosa na volta.
Demorou mais do que esperávamos, mas conseguimos. Já podemos cozinhar, ver televisão e escutar música. Já tenho minha mesa de trabalho montada num escritório inventado bem no “ex-hall” do apartamento, os abrigos em seu armário, as roupas no guarda roupa e uma caneca de chá verde, quentinho, bem na minha frente.

Entre Outubro e Janeiro minha filha veio viver em nosso caos ajudando a reforçá-lo*, com mais caixas, roupas e livros… e livros, videos e CDs. Recebi hóspedes ( juro que não sei como, mas mesmo assim foi bárbaro! ) viajei, voltei, viajei outra vez, comemorei O Natal em Tarifa e o Ano Novo na Cesta, com uma ceia deliciosa.

Agora já posso dizer:

O passaporte está desaparecido outra vez, mas esses detalhes precisam de mais tempo. As coisas também tem alma e escolhem seus lugares dentro da nova morada.
Fazem quatro dias que tenho um prazer novo: a rotina.
Que delícia!
* Ela, a filha, bem que tentou trazer os ramsters, a tartaruga e os peixes… mas eu só deixei vir a gata. Zefini. Sem negociações!

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Cabelos Brancos…já!

Angela é uma escritora brasileira que eu conheci através do blog. Ficamos amigas sem nunca havermos visto uma a outra. Temos muitas coisas em comum e faz tempo que eu queria publicar alguma coisa escrita por ela aqui no Língua.
Tempo vai… tempo vem… ela mudou para o Multiply… eu mudei de blog… e nunca realizei o desejo.
Agora vou publicar um texto que ela escreveu um dia destes e que parece muito comigo.
Vou aproveitar que hoje já é Setembro, que vou encerrar mais um ciclo de vida feliz, deixando essa maravilhosa casa rodeada de jardins, esquilos, coelhos e raposas… os caminhos cobertos pelas amapolas, as roseiras de todas as cores, a paz e o silêncio do mato, os sinos de Santorcaz…
Vou começar um outro tempo de viver, num apartamento pequenino de Madrid, sem jardim nem amapolas, mas justo em frente ao Auditório Nacional… ( Shhhhh!!! não fala alto mas imagina o que eu vou ver de concertos! Ho ho ho!).
Pst…Acho que esta mudança vale um post…vou escrevê-lo depois.

Pois sim… Setembro é meu mês de aniversário. Mês de comemorar mais um ano bem vivido, comemorar as escolhas, os êxitos, queimar as pequenas mágoas num incenso de fumaça gris… agradecer por todos esses anos de amor e paz… e fazer planos novos no caderno azul.
Mas, voltando à Angela, estou com vontade de publicar seu texto porque eu adoraria tê-lo escrito, porque ele também é meu, porque pensa igual a mim… e quem sabe a quantas mais que estão na mesma luta.
Angela e eu somos da mesma colheita de vinho… este mês cumprirei os 53, com muita honra…
Aí vai…
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Um elefante incomoda muita gente…
mas o meu cabelo incomoda muito mais

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“Inexoravelmente, sempre que vou ao Rio alguma amiga diz:
– Pinte seu cabelo! Mas porque não pinta?
Várias respostas passam pela minha cabeça:
– Não pinto pois tenho medo do meu cabelo ficar feio como o seu.
– Sou nobre. Só os burgueses pintam cabelo
– Tenho coisa mais interessante para fazer com meu tempo (como escrever esse blog)
– Resolvi dar uma chance ao meu cabeleireiro que é Deus. Acho que ele fez um bom serviço com as orquídeas.

Dependendo de como o “pedido-ordem” é feito, desenvolvo o assunto. Pergunto por que a pessoa em questão pinta, a resposta sempre tem a ver com a aparência mais jovem.
Mas eu não quero aparentar ter 50 anos! Quero aparentar os meus 53 anos!! ou será que se iludem achando que a tinta as fazem aparentar 18, ou 30 que seja?. O cabelo branco não envelhece, gente! O que envelhece é o tempo!!!
Também rola a questão da aparência desleixada. Mas como sempre fui desleixada, nem te ligo farinha de trigo.
Será que ao me verem com os cabelos brancos , além de acharem feio, ou por acharem mesmo ou por falta de costume, no fundo lembram-se dos seus próprios cabelos brancos e isso as aborrece?
CABELOS BRANCOS
Não sou como as belíssimas Julia Rodrix e Ivana Cury que sempre tiveram cabelos brancos. Tive de me acostumar com eles. Não foi fácil, juro. Mas hoje, sinceramente, acho que combinam muito bem com as minhas rugas. Quando as enxergo, claro, já que preciso de vários óculos para ver o mundo.
Leio um fwd de um texto assinado por Martha Medeiros (por favor, não me mandem mais nada escrito por ela! eu acho tudo ruim e errado! aliás, como sempre há exceção, morri de rir com o texto de dois domingos atrás, arquiteto X pedreiro ) onde ela se exalta por aparentar juventude.
COMO ASSIM?? ela nasceu em 61. Eu achava que ela tinha a minha idade. Podem comparar aí em cima. Então, não há regra mesmo. Vai ver que pessoalmente ela é diferente do que parece na TV e nas fotos.
Podem estranhar mas é verdade: eu não quero não ter rugas, não ter cabelo branco, não ter flacidez ou celulite. Eu não quero emagrecer. Não tenho nenhuma intenção de ser imortal. Não quero ser jovem. Acho, inclusive, que aquela canção “Forever Young” seja mais uma praga do que um bom desejo.*
Eu não tenho um retrato envelhecendo por mim no porão. Gosto das minhas gordurinhas. São simpáticas. Acho engraçadíssimo ter rugas no pescoço. Afinal, eu vi o homem chegar na lua. Eu vivi os anos 70! James Taylor falou comigo e eu fui para Machu Pichu. Usei combinação embaixo do uniforme do colégio. Presenciei e fui contra a obra do calçadão de Copacabana. Discuti se mulher casada devia ou não trabalhar fora. Fumei e parei de fumar.Tive plano de expansão de telefone. Ri dos primeiros celulares. Fiz mestrado e doutorado. Publiquei livros e artigos. Tive dois filhos e um deles já têm cabelos brancos. Casei, descasei e voltei a casar.
Como eu poderia ter vivido tudo isso sem ter cabelo branco já que não sou índia?
Já li tanta coisa! Já vi tantos filmes! Eu estava no Maracanãzinho quando Vandré cantou Pra não dizer que não falei de flores!
E fui fã de Raul.Tenho a exata idade do Rock e isso quer dizer alguma coisa.
Então, faça o que quiser porque é tudo da lei. Quem quiser pintar, pinte! quem não quiser não pinte. Quem gosta de colorir tudo como uma arara, que o faça! Quem quer raspar, raspe! E chega de padrão! E viva a Liberdade!
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Muito bom, Angela! Isso mesmo!
Ps* Joan Baez está simplesmente linda com seu look de cabelos grisalhos!!!

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Pedaços de Mim…(Cap13 )

A sala estava cheia de caixas de papelão, etiquetas e rotuladores de cores variadas…
Enquanto eu desfazia as estantes de livros e tentava não pensar que teria que separar-me deles, a minha vida ia passando diante dos olhos como um filme antigo, em preto e branco…
Olhava o livro, lembrava onde o tinha comprado, em que época havia lido, que sentimentos havia despertado em mim. Alguns iam direito para uma das caixas. Poucos, devo admitir. Outros, muitos, ficavam ali na mão, pedindo para serem abertos, relidos, mostrando as notas feitas a lápis nas margens de algumas páginas, reagindo a serem trancados entre quatro paredes de papelão por um tempo indeterminado. Um sofrimento!
Eu já sabia que não poderia levá-los comigo, pelo menos de imediato. Mas onde guardá-los?
Pensei nele. Um dos meus irmãos que adora ler. Mas os livros em sua casa, depois de lidos (apenas por ele), eram objetos sem categoria. Perdiam qualquer batalha por algum status na família. Ficavam guardados numa antiga e fria despensa, misturados com trastes velhos.
Sua esposa adorava que as estantes de sua sala fossem super-clean. No máximo uns pequenos objetos decorativos de vidro transparente, um ou outro vaso com arranjos de flores secas, belos candelabros. E só.
– Livros? Na sala? Nem pensar! Dizia que cheiravam a papel velho e guardavam toda a poeira do mundo.
Pois então… os maravilhosos livros de meu irmão dormiam na gélida despensa mesmo. E digo dormiam porque sequer estavam dignamente em pé, com o lomo aparecendo. Jaziam deitados. Todos. E de frente. Irreconhecíveis!
Por cima de seus corpos, um sem número de objetos: sapatos velhos, cabides quebrados, bacias furadas, espanadores rotos, sacos plásticos vazios… “Pedacinhos de morte”, como diria Cortázar.
Para lá eu não mandaria um só dos meus queridos pedaços de vida…
Escolhi apenas os didáticos que pudessem ajudar seus filhos nos exames de vestibular. Esses sim… estariam espalhados pelos quartos dos meninos, até que não fossem mais tão úteis e acabassem no Cemitério dos Esquecidos. A terrível e bolorosa despensa-trasteiro-biblioteca.
Separei também Obras Completas de Freud, que ele pediu-me com os olhos brilhantes, mas só com a promessa de que ficassem na prateleira do quarto de um de seus filhos, se esse concordasse. Não podia sequer imaginar que Totem e Tabu ou a Interpretação dos Sonhos fossem enterrados naquele monte de tranqueiras!
Bueno, pensei em meu outro irmão. O Pescador de Ilusões.(Um dia eu explico esse apelido.) Essa criatura nunca leu um livro inteiro. Mentira minha. Leu sim. Um. O Alquimista…
Suas estantes são cheias de troféus de pesca, cinzeiros e estatuetas horríveis. Mas ele as adora!
Bueno, não custava tentar.
Suspirei quando ele disse que não tinha espaço para guardar meus livros. Eu já sabia… suspirei nem sei por que.
Depois de trocar mil vezes de opinião sobre o que fazer com eles, revendo preços das companhias aéreas, navios, correios, passando inclusive pela encantadora idéia de tirar tudo das malas e transformá-las numa biblioteca ambulante (as roupas são perfeitamente compráveis em qualquer parte do mundo) e descobrindo que o peso das pobres coitadas quadruplicava sem resolver a questão, – cabiam tão poucos! – voltei às caixas. Separei tudo de novo e criei categorias para eles. Categorias afetivas, diga-se de passagem! Deixei tudo ali, no meio da sala, até conseguir pensar com calma. Tarefa difícil naqueles dias.
Ainda tinha que saber o que fazer com as cartas, bilhetes, fotografias… Antes sabia que podia contar com a cumplicidade e discrição da Princesa. Mas… agora que ela não vivia mais, como deixar minha vida assim, por escrito, nas mãos de outro alguém que não fosse ela??!
Meu coração parava quando olhava para o armário e via a enorme caixa de cartas…cópias das enviadas junto com as recebidas, no mesmo envelope. Maços e maços envolvidos em fitas. Meus sentimentos escancarados, escritos em épocas distintas para os personagens importantes de meu passado… Mas esse capítulo merece um post a parte.
Concentrei-me nos livros. Tinha que encontrar uma saída.
Finalmente tive uma idéia fantástica! Chamei uma amiga querida (ela, aquela que rondava minha porta nos dias de escuridão)  e fiz uma proposta semi-indecente. Ela ficaria com meus livros mais queridos (muitos) em sua casa e em lugar de honra ( por favor!) e assim que eu pudesse iria buscá-los, pouco à pouco. O resto eu deixaria com o Pescador de Ilusões, mesmo sabendo que seriam abandonados nas prateleiras do quarto de serviço. Um lugar arejado, pelo menos! Seriam resgatados assim que eu pudesse.
Pois sim…ela disse sim. Mas não poderia quitá-los das caixas. Ainda não tinha casa. Receberia seu apartamento em alguns meses, mas não poderia mobiliá-lo até que pagasse as últimas prestações. E não sabia quando poderia viver nele.
Foi aí que minha idéia cresceu. Ofereci-me para mobiliar sua casa. E emprestei tudo o que estava destinado a um depósito: lavadora de roupas, geladeira, fogão, micro-ondas, televisão, cama de casal e solteiro, mesinhas, luminárias, condicionador de ar, estantes, objetos de cozinha, etc… e livros. Muitos e deliciosos livros. Sabia que estaria tudo muito bem cuidado. E vivo! Respirando, fazendo parte do seu cotidiano.
Que mais precisa uma pessoa para começar a vida num apartamento novo e sozinha?
Sim, sei. Música. Isso ela já tinha, ainda bem.
Seus olhos faiscavam de alegria. Já podia contar com a casa montada!
Agradeceu-me contentíssima! Que graça! Ela me faz o favor e ainda agradece!?
Disse-lhe então que eu deixaria com ela só mais uma coisinha. Grande, mas que não ocupava espaço: toda a minha gratidão. Na verdade, nossa. Pois creio que os livros também agradecem a vida que estão levando…
Soube que está lendo como nunca… e sorrio feliz com a notícia!
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