Posts Marcados Com: Poço da Panela

O mundo virtual é tão real…

Vejam só onde pode chegar um blog, mesmo um tão pouco conhecido como o meu. Durante todo o tempo que escrevi sobre a Espanha, nos antigos endereços principalmente, recebi mensagens de pessoas que guardavam meus posts para utilizá-los em suas viagens. Algumas delas mudaram completamente o roteiro de suas férias europeias e vieram aproveitá-las em algumas cidades que eu tinha visitado. Era uma delícia comprovar que o que eu estava vivendo emocionava e inspirava uns viajantes brasileiros.
Alguns textos pessoais também fizeram alguma história pelo mundo virtual. Um dia, recebi por e-mail um spam que era um texto meu, Neura de Mulheres. Dizia que o autor era desconhecido. Respondi para o remetente, assumi a autoria do mesmo e agradeci a divulgação.
Depois disso, durante um ano inteiro, recebi dezenas de cópias do mesmo texto, já com meu nome. Fiquei contente que uma cronica minha tivesse se transformado em um spam. Significava que um bocado de gente se identificava com ela. Gostei.
Outro texto comentado por muitos é A Casa e O Rio. Fiz amigos através dele. Infelizmente os comentário ficaram perdidos quando salvei o arquivo de um apagão, mas os amigos ficaram. Conheci pessoalmente vários deles.
Sonja, uma brasileira que vive há mais de 20 anos na Inglaterra, foi a primeira. Quando nos encontramos, em Londres, ela confessou-me que estava emocionada por estar tomando um café com a “escritora” da cronica que ela mais gostou de ler em todos os blogs que havia visitado. Disse-me que chorava sempre que o relia e que o havia enviado para todos os seus amigos. Engasguei com o café quando ela me chamou de escritora. Quem me dera! Quase que choro eu!
A história de amor que me trouxe à Espanha é outra das grandes atrações desse blog. Tenho uma porção de amigos, aqui e no Brasil, conquistados depois que escrevi como tudo se passou. O drama e a graça dos encontros e desencontros entre Ele e eu seduziram e fascinaram os leitores de uma forma que me surpreendeu e inspirou. Escrevi dez capítulos! Cada vez mais gente me pedia para continuar. E eu continuei…
Até hoje isso acontece. Gente que chega por acaso aos arquivos do Língua de Mariposa através do Google, lêem os posts sobre a Espanha ou sobre a depressão, ou ainda sobre um livro ou filme que indico e me escrevem encantados e agradecidos. E me pedem para continuar…
Que maravilha! Eu adoro, viu!
É por isso que sempre volto.
Pois hoje quero comentar publicamente um desses prazeres. Mais de um ano atrás recebi uma mensagem eletrônica de uma artista, Clarissa Garcia, que vive no Poço da Panela, um bairro histórico da cidade do Recife.

Ela é antropóloga, além de artista plástica.

Ao ler A Casa e O Rio, emocionou-se muito e pediu-me para usá-lo em um projeto da tese de doutorado que ela estava escrevendo sobre os moradores do bucólico bairro onde vivi, quase inteira, uma das minhas vidas. Eu concordei.
Depois de um tempo ela perguntou-me se eu conhecia um artista amigo seu, pois achava que eu já havia ido à sua casa, jantar. Imaginem!
Pois fui mesmo. Tive um breve affair com o artista amigo dela e uma noite ele me convidou para jantar com um casal de amigos no Poço.
Tenho uma boa recordação daquela noite, junto à gente inteligente, simpática e agradável, embora esta lembrança estivesse guardada nos escondidos da memória. Clarissa reavivou-a e senti uma enorme alegria por saber que a lembrança que ela tinha de mim também era boa.
Agora a artista “está montando uma espécie de galeria em sua casa que vai funcionar como um clube para amigos e curtidores dessas coisas todas: tem uma biblioteca, filmes para assistir, fotografias para olhar e para vender, amigos com violão, quadros, cerveja, whisky e delícias para comer, etc.” em suas próprias palavras.
Não posso deixar de compartilhar isso com meus amigos do Brasil… é tudo que mais gosto na vida. Livros, filmes, fotos, música, um “visquizinho com gelo” e comidinhas gostosas. Ainda mais com a artista ali mesmo, juntinho! Tudo isso dentro do coração do Poço da Panela, bem diante da Igreja onde mora o Lorde e por onde passa o rio da minha história!
Imperdível!
Quem quiser conferir é só ir lá na Rua Álvaro Macedo, 54. A rua fica em frente à igreja e a “casa é vermelha, com um terraço em cima”.
Antigamente era aí mesmo que funcionava o famosíssimo e maravilhoso Bar da Beata.
Parece que que a casa, que tem alma boêmia, quer seguir sua missão. Clarissa vai ajudar…
É de bom tom dizer que foi indicado pela Nora Borges, do Língua de Mariposa.
Acho que ela vai gostar.

Por enquanto, quero apenas que conheçam o trabalho desta maravilhosa artista que retrata e pinta o Poço da Panela com extrema sensibilidade, bom gosto e inegável talento.
Queria que o Lorde pudesse ver nosso antigo e querido bairro, tão bem representado pela excelente qualidade de seu trabalho.
Há tanta coisa que eu queria mostrar ao  Lorde, se pudesse.

Desde que vivo na Espanha sinto uma saudade diferente dos meus pais.
Cada vez que vou a um lugar particularmente bonito, quero repartir com eles minha imagens.
Muitas vezes, infinitas vezes, penso em ligar para a Princesa para contar-lhe algo, compartilhar minhas emoções. Por uma minúscula fração de segundo esqueço-me que ela está morta, que não posso chamá-la por telefone, nem rir com ela, nem escutar sua voz e sua lindas risadas.
Então tento me conformar e dedico-lhe silenciosamente o meu momento.
Decidi dedicar esse post a eles, ao Lorde e à Princesa porque eles adorariam conhecer o precioso trabalho de Clarissa Garcia, essa artista que ama o Poço do Panela como eles o amavam e como eu amo até hoje: apaixonadamente.
Dedico-o também a você, Clarissa… e à sua mãe.
Assim que eu estiver no Brasil, irei à Casa Vermelha do Poço da Panela.
Pode esperar!
Se ainda não entraram no link da artista, entrem AQUI para visitar a exposição virtual das fotos pintadas. Sáo bárbaras!

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Era um Sábado…

Eu já contei essa história antes mas faz tempo demais. E, como expliquei no post passado, decidi organizar minha vida de blogueira. Mais uma vez.
Para começar, resolvi dar uma revisada geral nos antigos arquivos que tenho guardados e ver o que vale a pena manter, republicar ou até mesmo imprimir. Encontrei algumas histórias que gosto muito e tive uma idéia. Achei que seria um bom presente de final de ano para minha filha construir um belo caderno com alguns dos meus escritos. Quem sabe um dia ela poderá contar algumas destas histórias aos seus filhos e netos.
Naturalmente pretendo mantê-los em disco, mas não é o mesmo contar uma história lida no papel, não é?
Então…essa é uma das que resolvi imprimir.
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Era um sábado. Não sei há quanto tempo atrás…
Naquela manhã fui, com alguns amigos, tomar umas cervejas e plantar arvorezinhas numa praça do Poço da Panela.
Chamar de praça um minúsculo triângulo de terra, com um busto de Mano Teodósio e quatro palmeiras…. é boa vontade e carinho.
A rua não era minha, nem a praça, mas o Poço foi meu lar por quase toda minha vida. O lugar da casa e do rio. Vocês sabem qual casa, qual rio….
Pois é… eu estava lá, limpando a terra, cavando e plantando, manhã tão linda! As mãos sujas de esterco e barro. Chico Buarque no som do carro, cantando ao vento: ” Morena, dos olhos d´água, tira os teus olhos do mar, vem ver, que a vida ainda vale o sorriso que eu tenho para te dar…”
Aí passa um carro, faz a volta… uma mulher desce com ar desconfiado.
– Vocês vão fazer o que?
– Estamos limpanho e plantando a pracinha…
– Vocês conheciam o Mano Teodósio?
– Não… mas gostamos dele.
– Não vão mexer no busto, não é? Da última vez pintaram ele de verde.
– Não… só vamos lavar. Por que?
– Ele era meu irmão…
Tinha os olhos molhados.
Arrepiei a nuca. Acreditei.
Ela entrou no carro e se foi. Senti sua falta. Um silêncio por dentro, apesar da música. Abrimos mais uma cerveja… brindamos com Mano.
Ela voltou depois de um tempo, com uma velhinha no carro. Era a mãe de Mano Teodósio. Uma senhora de brancos cabelos e andar claudicante. Ficou nos olhando e dizendo… “Obrigada… Obrigada…”
Arrepiei de novo.
Minha amiga sugeriu que voltassem ao final do dia, para ver o trabalho terminado.
– Sim. Elas disseram.
Prendemos uma fita amarela entre as palmeiras, para reinaugurar a praçinha. A cerveja rolando solta… e a alegria também.
Lavamos a praça, o busto, aguamos as novas plantinhas.

Ela voltou, pelo braço da filha. E trouxe fotos. Falava do filho com orgulho. Disse que ele adorava Chico Buarque, que gostava de beber e era muito alegre… assim como nós.
Disse que ele era muito querido, respeitado até pelos inimigos políticos! Que foi comunista perseguido. E que era um homem lindo, de corpo e de alma.
A lua nascendo, enorme, abusada de bonita… exatamente de frente para o busto dele. E a gente cantando: ” Estava à toa na vida… o meu amor me chamou, pra ver a banda passar, cantando coisas de amor… ”
Na presença dela, eu olhava para ele com mais cuidado, pensando ver o homem por trás da pedra, o homem que havia sido, o amigo de copo e de cruz, o Filho daquela mulher… o Mano de outra…
Estávamos todos de olhos marejados. Se eu fosse mais pura, teria acreditado que ele também chorava…
Foi um belo dia.
Voltei para casa pensando na pergunta de um amigo: ” Voce sabe ser feliz?”
E lá estava eu … feliz, assim de repente.
Por nada…

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A Casa e o Rio…

Vivi quase toda a minha vida no Poço da Panela, ao lado do belo rio Capibaribe. 
Nossa casa era o resultado de muitos anos de sonho de minha mãe. Ela jamais desistiu da idéia de possuir sua própria casa, apesar das grandes dificuldades que viveu. E não se surpreendeu quando por fim, um dia, meu pai chegou com um papel grande e amarelado e começou a desenhá-la. Era um bom e jovem arquiteto e havia comprado um terreno num beco sem nome e sem saí­da, no bairro de Casa Forte. 
O terreno estava muito próximo a um sí­tio de vegetação cerrada e árvores centenárias, por onde se podia ouvir os sinos de uma igreja pequena e branca ou os ruí­dos de um barco de madeira que fazia a travessia dos pobres para a outra margem do rio.
Eram vozes abafadas, que escutávamos como se fossem de duendes e fadas. Entrávamos ali seguindo a velha Estrada Real do Poço, enfeitada por casarões antigos, cujos donos eram herdeiros da época em que tudo aquilo era um engenho de cana-de-açúcar. 
No meio da Estrada estava a antiga sede do engenho, mal assombrada e tenebrosa a qualquer hora do dia ou da noite. Do nosso lado, os pequenos caminhos, o mato. Muito mato e os braços largos do rio. 
Como se desenha um sonho? 
Não foi fácil. Do papel para as primeiras pedras dois anos se passaram. 
Um sonho não tem preço, mas as pedras têm. E eram muito caras para a realidade financeira da famí­lia, no iní­cio dos anos 60. Hoje sei que a vida com um sonho é sempre mais próspera. 
Minha mãe economizava até em palitos de fósforo, o que deixou uma marca em seu comportamento pelo resto de sua vida. Nunca jogava nada fora. Acendia um palito já usado na boca acesa do fogão e o guardava outra vez, até que não era mais possí­vel segurá-lo entre os dedos. Lavava, passava, varria, cozinhava. Usava um vestido até que se rasgasse… Mas finalmente, um dia, fomos ver a construção. Minha mãe e suas mudas de jasmins e roseiras. Meu pai e suas folhas de papel. 
Foi um domingo de festa para nós. Três crianças, quatro pedreiros e o grande sorriso de meus pais. Que mais era necessário? Ah, sim… uma panela grande de barro marrom e todos os ingredientes de uma feijoada. 
Trabalhamos todos naquele dia. Carregando areia, levantando muros, plantando, pulando de monte em monte de areia e barro. 
Escolhemos o lugar onde seriam plantadas as árvores que depois seriam minhas amigas por toda a vida. Abacateiros, coqueiros, jambeiros, goiabeiras. 
Esse foi o nosso programa por muitos domingos mais, tantos que perdi a conta. 
Quase quatro anos depois, a construção ainda era construção. Suas paredes já se revestiam de madeira escura, o piso de parquet negro e marfim, as flores já eram uma realidade…
E faltavam só 4 meses para a grande inauguração. Passarí­amos o Natal de 65 na Casa. 
Meu pai comprou um piano. Assim, sem avisar…
Chegou um final de tarde quase sem pisar no chão. Não era um piano negro e de cauda como o da casa de meu avô. Era pequeno e clarinho, mas era um PIANO! Comecei a estudar com uma professora que tocava na igreja da praça. Meu pai tocava todas as noites e eu bailava no terraço de cerâmica encerado, de meias soquetes para deslizar melhor. Nunca tive muito jeito para bailarina e caí­a cada vez que inventava rodar como elas. Mas era uma possí­vel-futura-pianista

Uma noite ele veio… o rio. Foi sua primeira incursão pelas ruas de Casa Forte. Invadiu quase todas as casas, manchou, molhou, enlameou tudo até a altura de meio metro. Na nossa ele foi mais cruel. Fez saltar todo o parquet do piso, entortou as tábuas de madeira do escritório… e levou o piano. Mas antes o fez bailar sobre a água… descolou cada tecla de marfim… arrepiou a madeira… enegreceu tudo.
Acabou com meu sonho de artista, de famosa pianista… e eu já sabia que nunca seria uma bailarina. 
Meu pai chorou. E nunca mais falou do assunto. Creio que queria esquecer tamanha tragédia. Ou talvez seu silêncio dissesse que nunca a esqueceria… 

Ao final do ano nos mudamos para A Casa, que nunca, jamais deixou de ser uma obra em construção. Pois é. Por mais que meu pai fizesse planos e projetos de decoração e mobiliário e fosse, aos poucos, trocando pisos e portas, comprando luminárias e estofados novos, a briga entre ele e o rio foi ficando cada vez mais acirrada. E violenta. Por dez anos o Capibaribe, que lambia nosso muro nas épocas de verão e dava um toque de habitantes da selva às aventuras de criança, nas épocas de inverno ameaçava subir, inundava o jardim. E por quatro ou cinco vezes elevou-se, cada vez mais alto. Até que um dia cobriu A Casa deixando apenas o reservatório de água de fora, como um bote abandonado e fantasmagórico. A cada subida, meu pai o desafiava com novas estratégias de esconder seus tesouros : os livros e os discos. Subia-os às prateleiras mais altas da estante e até mesmo nos ocos do telhado do gabinete. 
Eram muitos os livros de meu pai. Uma biblioteca de teto ao chão de livros, dicionários e enciclopedias. Entre os mais amados, as obras completas de Shakespeare, Pessoa, Neruda, Bandeira, Eça de Queirós, Edgar Alan Poe. O melhor de Rubem Braga, Fernando Sabino, João Cabral, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Rachel de Queiroz. Variava de coleções completas sobre arte em pintura e arquitetura à mitologia ou séries de fição cientí­fica e suspense policial… 
Era um cupim de livros, o meu pai.
Os livros e a música eram suas paixões e ele costumava freqüentar livrarias e sebos semanalmente. Mas… na pressa de salvar a famí­lia de morrer afogada, eles perdiam em prioridade. Ficavam na casa, escondidos em alguma altura, onde meu pai, com esperança ainda não vencida, pensava que não seriam alcançados… 
Ledo engano. O rio gostava de ler… E sempre subia um pouco mais, até encontrá-los… Derretia as capas dos discos, cobria os sulcos com uma lama escorregadia.
Dos livros só levava as letras… as frases… deixava o papel grudado e inchado como um cadáver… como um ato de pirraça, para a gente saber o que tinha perdido, para a gente saber que ele era maior. Ele vinha e se demorava lendo. Dias e dias… 
Nossa casa era a primeira atingida pelas suas ganas e a última a quem permitia voltar. Assim, quase não salvávamos nada do que ele deixava. A lama negra e gosmenta era grossa e fedorenta como petróleo e havia ficado por tempo demais. Entranhava em tudo… Então, ví­amos meu pai chorar, apanhando de pá e carro-de-mão, a papa de livros e discos que o rio, sem dó, espalhava pela casa inteira… Lavávamos os discos com água e sabão, nús de suas capas coloridas. Coleções inteiras de Bach e Beethoven, as suas óperas prediletas, os Jazz e os Blues, as Grandes Orquestras. Uma raiva impotente e uma tristeza profunda se instalavam na casa e em nossos corações. Alguns discos era possí­vel comprar outra vez, mas a maioria estava perdida para sempre. Eram selos esgotados, fora de catálogo. 
Ainda guardo uns livros sujos de lama seca, que o rio não lavou as frases. As poesias de Neruda, a solidão de Garcia Marquez, a pedra do reino de Ariano Suassuna… Talvez o rio já os tivesse lido das outras vezes e só lambeu as capas, não os abriu. Com um pouco de sol, deu para salvar. 

Na última batalha entre ele e meu pai, tivemos que viver por seis meses em um apartamento emprestado, pois foi exatamente nesta que ele descobriu o esconderijo do telhado. Derrubou o teto… e leu tudo. Só voltamos para casa no ano seguinte. E meu pai estava vencido. Não quis mais brigar… parou de sonhar. Morreu dois anos depois. Tinha 50 anos. 
Tentamos batizar com o seu nome o beco sem saí­da onde vivíamos, mas ele não era suficientemente importante para lutar com outro morto: o pároco da pequena igreja branca. 

Alguns anos depois, construí­ram barreiras no rio e nosso antigo campo de batalha valorizou-se. Venderam lotes e lotes para novos habitantes do romântico bairro do Poço da Panela, que foi se transformando num rincão da nova elite da cidade. Casas modernas se espalharam por toda parte. E até edifí­cios, contrariando muitas leis de proteção ao meio ambiente e e manutenção do Patrimônio Histórico. 
O casarão mal assombrado é agora um museu, as ruas estão calçadas e diante de nosso antigo jardim há uma pequena praça triste e mal cuidada, árida e sem razão de ser. Três bancos de concreto, dois ou três arbustos que tentam sobreviver ao abandono… Não há mais cipós nem as árvores frondosas onde nos pendurávamos em nossas fantasias de reino das selvas. Enterraram as árvores até que morreram sufocadas. E a nossa casa também morreu… Não caiu, nem foi reformada. Está lá ainda, mas é só uma sombra esmaecida do que foi antes. Nem jasmins, nem roseiras… nem cheiro de mato verde… Metade do antigo jardim é cimentado. Nem cocos, nem goiabas, nem jambos, nem pitangas, nem araçás… Nem uma música no ar, nem o barulho dos sapos e grilos da beira do rio. Ele também não está mais lá, o rio… Mudaram o seu curso. E muitas casas estão construí­das onde antes eram seus braços. Também ele não tinha mais nada a perder.

Seu parceiro de briga não lhe comprava mais os livros… nem lhe fazia ouvir La Bohème às alturas, nas madrugadas enevoadas e úmidas do Poço… 
No beco, ainda sem saí­da, há agora um nome : o do padre da paróquia. E meu pai mudou-se, depois de morto, para a pequenina igreja branca. Lá, o rio ainda lambe as paredes de seus muros… 
Estão juntos de novo.
E se pode sentir, mais que ouvir, entre as badaladas dos velhos sinos de bronze, suas queixas mútuas de amigos rabugentos… 
Antigos e eternos companheiros de lutas e sonhos.

**Soube agora, em 2011, que a casa foi derrubada e um edifício está lá, em seu lugar. Não fui ver.

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