Posts Marcados Com: poesia em prosa

Acho que Não Sei…


<< Um dia nasceu em sua alma o desejo de modelar a estátua do “Prazer que dura um instante”. E partiu pelo mundo para buscar o bronze, pois só em bronze imaginava conceber suas obras.
Mas o bronze do mundo inteiro havia desaparecido e em nenhuma parte da terra podia encontrar-se, exceto o bronze da estátua da “Dor que se sofre toda a vida”.

E era ele mesmo com suas próprias mãos quem havia modelado essa estátua, colocando-a sobre a tumba do único ser que amou em sua vida.
Sobre a tumba do ser amado colocou aquela estátua que era sua criação, para que fosse mostra do amor do homem que não morre nunca e como símbolo da dor do homem, que a sofre por toda a vida.
E no mundo inteiro não havia mais bronze que o daquela estátua.
Então, pegou a estátua que havia criado, colocou-a em um grande forno e entregou-a ao fogo.
E com o bronze da estátua da “Dor que se sofre por toda a vida” modelou a estátua do “Prazer que dura um instante”.>>
Poesia em prosa de Oscar Wilde

Esse texto é para quem vive intensamente o aqui e agora. Mas também para os que compreendem o que significa reviver as antigas emoções com força quando escutam uma música, relêem uma carta, revisam um velha caixa de fotografias.
Minha filha acaba de chegar do Brasil. Trouxe-me antigas vidas minhas nos pratos que foram da Princesa, livros cheios de pequenos bilhetes, riscos no ar de histórias que não lembrava mais que eram minhas… e fotos. Muitas fotos. Todas as fotos que sobreviveram aos anos…
Imaginem a bagunça no meu coração!

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Para Pensar…

“Um dia a velha pianista abriu a janela e viu uma menina sentada na varanda do vizinho.
– Como vai, garotinha?
Como já não enxergava muito bem, a velha pianista catou na gaveta da escrivaninha seus óculos de aro de metal e os ajeitou sobre o nariz.
Não havia nenhuma menina na varanda. Apenas a escultura de um anjo, em cima de uma mesa.
Mais do que depressa, a velha pianista devolveu os óculos para a gaveta e abriu um pequeno sorriso:
– Que dia frio, hem, garotinha? Parece que esse ano o inverno vai ser bravo…”
(A Menina da Varanda – Léo Cunha)

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Magia em poesia pura… é Cortázar!

“Uma vez que um parente dos mais distantes chegou a ministro, nos arrumamos para que nomeasse boa parte da família à sucursal de correios da Rua Serrano.
Durou pouco, isso sim.
Dos três dias que estivemos, dois passamos atendendo ao público com uma competência extraordinária que nos valeu a surpreendida visita do inspetor do Correio Central e uma nota elogiosa no jornal La Razón.
Ao terceiro dia estávamos seguros de nossa popularidade, pois a gente já vinha de outros bairros a despachar sua correspondência e a fazer telegramas a Purmamarca e a outros lugares igualmente absurdos.
Então meu tio o mais velho deu por livre a escolha, e a família começou a atender de acordo com seus princípios e predileções. No guiché de emissão de cartas, minha irmã a segunda obsequiava um balão colorido a cada comprador de selos.
A primeira a receber seu balão foi uma senhora gorda que ficou como paralisada, com o balão na mão e o selo de um peso já umedecido que se ia enroscando pouco a pouco no dedo. Um jovem cabeludo se negou de pronto a receber seu balão, e minha irmã admoestou-o severamente enquanto na fila do guiché começavam a suscitar-se opiniões desencontradas.
Ao lado, vários provincianos empenhados em enviar insensatamente parte de seus salários aos familiares distantes, recebiam com algum assombro copinhos de licor e de vez em quando uma empanada de carne, tudo isto a cargo de meu pai que ademais recitava-lhes a gritos os melhores conselhos do velho Vizcacha.
Enquanto isso meus irmãos, a cargo do guiché de encomendas, untavam-nas com alcatrão e as metiam em um balde cheio de plumas. Depois apresentavam-nas aos estupefatos clientes. E faziam-lhes notar com quanta alegria seriam recebidos os pacotes assim melhorados. “Sem pontinhas a vista” diziam. “Sem o lacre tão vulgar, e com o nome do destinatário que parece que vai metido debaixo da asa de um cisne, vejam.”
Não todos se mostravam encantados, há que ser sincero.

Quando curiosos e a polícia invadiram o local, minha mãe cerrou o ato da maneira mais bonita, fazendo voar sobre o público uma multitude de flechinhas coloridas fabricadas com os formulários dos telegramas e cartas certificadas.
Cantamos o hino nacional e nos retiramos obedientes; vi chorar a uma menina que havia ficado terceira na fila do guiché e sabia que já era tarde para que lhe dessem o balão.”

*Em Historias de Cronopios y de Famas – Julio Cortázar

Ando perfeita e absolutamente enamorada de Julio Cortázar!
Como pode uma criatura fazer poesia numa história assim?
Como consegue prender a gente em suas histórias como se fossem teias de aranha cobertas de pequenas gotas de puro cristal?
Não resisti. Traduzi uma delas e trouxe aqui.
Que ousadia a minha!

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