Posts Marcados Com: Santorcaz

Onde o Cicatrizes da Mirada ?

Pois…
Parece que a sina do meu blog sobre a Espanha é morrer. É a quarta vez que ele bate as botas.
Agora, depois de meses tentando guardar as postagens no “baú” de guardados do Blogspot, ele não aceita mais fotos. Tentei importar os posts para cá, mas o risco de desconfiguração da página me assustou e desisti.
A saída é trazer um a um os posts que consegui salvar.
Peço paciência aos amigos que já os conhecem de outras épocas e outras tentativas de manter o Cicatrizes da Mirada funcionando. Mas me recuso a guardá-las num arquivo morto do meu computador. Quero que eles estejam on line e possam ser visitados por gente que se interessa pela Espanha e sua cultura, arquitetura, culinária. Ou apenas por aqueles que querem compartir minhas impressões de imigrante. Mas também não gosto da idéia de deixar o blog lá, abandonado e sem gente. Desta vez vou deletá-lo mesmo. Agora é para valer. O Cicatrizes da Mirada será apenas mais uma das categorias do Língua de Mariposa. Pelo menos aqui eu tenho a garantia de que ele não vai sumir ou fazer a malcriação de não publicar as fotos.
Ainda não entendi porque comigo tem que ser tão difícil. Visito blogs com muito mais fotos do que os meus!
Bueno… lá vou eu trazer meus trapinhos para cá. De qualquer forma, eles estão costurados com novas linhas e bordados.
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Hoje vou falar de Santorcaz. Ele é um dos meus cinco pequenos pueblos. Não vivo dentro e sim muito perto dele e acho que é aí que vou casar. A Igreja é linda, mas nada de casamento religioso, claro. Só posso casar no civil.
Queria mesmo casar em Alcalá de Henares, a cidade de Cervantes… mas lá tenho que esperar vaga. E tô fora de fazer fila e esperar que me digam quando e a que hora posso dizer “sim, quiero”. Quando os documentos estiverem prontos, avisarei a data.
Em Santorcaz, hoje em dia, é tudo muito simples, claro. Até a vida e a morte. Mas nem sempre foi assim. O pequeno povoado fica a 45 km de Madrid. É gracioso, silencioso e cheio de histórias e lendas. Vou contar algumas delas, mesmo que já tenha feito isso pelo menos umas cinco vezes antes. Não faz mal. Acho que elas devem estar registradas. E eu gosto de contá-las!
Diz-se que nasceu aqui um homem, chamado Cayo Apio, filho de um capitão romano, Cayo Cornelio. Pois bem… dizem que a criatura, em viagem com seu pai, centurião romano enviado à Judéia e Cafarnaum de Galiléia, assistiu ao sacrifício de Jesus.
Depois disso, convertido em um dos 7 Varões Apostólicos de Cristo, voltou à Espanha com o intuito de pregar o Cristianismo. Foi perseguido e martirizado pelos romanos, e por isso foi beatificado e chamado de Santo Torcuato.
Como filho da cidade, o santo foi tomado como seu patrono. Aos poucos, a cidade que se chamava Orcada, foi tomando o seu nome e transformandondo-se em Santorcaz.
Diz-se também que era um terra de bom pão, bons vinhos e bom azeite…

Pois sim… quem sabe? Existem documentos e escritos dos bispos de Toledo e outros escritores eclesiásticos… mas quem confia neles? Cada canto deste país tem uma história ligada à religião que foi um de seus mais fortes alicerces.
Bom, eu gosto de lendas e histórias. Elas emprestam colorido aos lugares. E o certo é que existem resíduos de construções no povoado que antecedem o período de ocupação romana e que estão esperando dinheiro para serem estudados e datados corretamente.
O que se vê agora é apenas um pequeno lugarejo, de 540 habitantes, uma antiga igreja, um castelo em ruínas, restos de uma muralha… e muita paz.
O clima é seco e frio. Oito meses de inverno e três de “fresquinho”. O povo é quieto. Só vejo muita gente nas festas anuais, quando os fogos de artifício tiram os muitos velhos e as poucas crianças de suas casas, trazem os parentes que já não vivem alí de volta as suas raízes. A praça se enche de jovens e de novas histórias. As mesmas que vão alimentar as conversas das senhoras na padaria, no mercadinho ou no açougue até o ano seguinte.
Mas eu gosto da cidade também – e até mais – quando ela está recolhida atrás de suas portas sempre fechadas e suas janelas floridas. Ao passar por suas ruas estreitas, sinto no ar uma saudade, nem sei de que…
Uma nostalgia que se sente na maioria das pequenas cidades, vilas ou povoados espanhóis. Como se seus fantasmas passeassem nas ruas ou seu sangue borbulhasse pelas galerias subterrâneas. Como se eu pudesse ouvir os ruídos das patas dos cavalos nas pedras, os gritos de antigos comerciantes de rua… ou um choro de mulher aprisionada.
Em Santorcaz houve uma dessas. Importante, me parece. Chamava-se Ana de Mendoza, a Princesa de Éboli.
Conta-se que durante o reinado de Felipe II,a princesa, que era viúva, mantinha relações um tanto íntimas com dois dos conselheiros mais importantes do rei. Pois, quando ambos conselheiros acusaram-se mutuamente de conspirar contra o monarca – e parece que este a ” favorecia”, porque rei não se “deita” com uma mulher… a “favorece” -, um deles foi assassinado e o outro culpado pela sua morte. Dizem que foi um estratagema real. Preso, o sobrevivente fugiu do país vestido com os trajes de sua mulher e a Princesa de Éboli foi acusada de intriga e encarcerada no castelo de Santorcaz.
Esse é o Paradigma de Eva. A mulher é a culpada…sempre.
Pois… a princesa fugiu do castelo de Santorcaz, porém foi novamente presa e enviada para um convento carmelita perto daqui, em Pastrana. E, por incrível que pareça, as monjas se foram numa noite escura e a abandonaram no convento!
Fiquei curiosíssima por esta história!
Estive em Pastrana e no convento… lindo lugar, numa encosta maravilhosa, com um visual incrível. E enquanto estava sentada sobre um de seus muros, perguntava-me “o que será que a tal princesa havia feito, para afugentar todas as monjas?” .
O que pude descobrir, em algumas investigações que fiz nos livros de história que encontrei pelas nossas estantes ( simples, pois há um mundo de literatura sobre a criatura) é que ela sofreu uma perseguição implacável do rei até o fim de seus dias, exilada neste convento.
Como quase todo exílio, concluí que um motivo político se escondia sob o disfarce de uma crise de ciúmes. A verdade é que Felipe II descobriu que sua “favorecida”, além de traí-lo com seu mais íntimo conselheiro, Antônio Pérez, conspirava contra seus interesses, facilitando informações do reino de Espanha aos holandeses e prejudicando seus negócios nos Países Baixos.
A mulher é um personagem muito interessante. Achei que valia a pena contar um pouco mais sobre ela.
Ana de Mendonza, a Princesa de Éboli, era muito bonita e seu pai, representante do Rei da Espanha no Peru, casou-a com um príncipe português muito mais velho que ela. Tiveram que esperar que crescesse mais um pouco até que o casamento pudesse ser consumado. Mas era uma menina inteligente, dinâmica e esperta.
Em sua infância, comportava-se de forma inadequada para uma dama da sua linhagem e enquanto praticava esgrima às escondidas com um pajem, perdeu um dos olhos.
Imaginei o que deve ter acontecido ao pajem depois de tal acidente!
Ana usava, desde então, um tapa-olho negro que não a desfavorecia em nada. Parecia mais forte e mais misteriosa para todos. Era uma mulher sedutora, ambiciosa e avançada para a sua época. Sabia ler e escrever em latim e castelhano e reivindicava seus direitos e o de seus filhos, usando para isso suas armas e artimanhas.
Incluídos em suas posses estava Pastrana e o convento, dirigido por uma monja, chamada Teresa, que depois virou santa. Parece que naquela época só havia essas duas opções de fama e poder para uma mulher inteligente que não estivesse casada: santa ou puta.
Pois… para a princesa, caiu o de puta, que de santa não tinha nada.
Depois descobri que havia mais uma alternativa além dessas duas: Louca.
Mas isso é outra história boa de contar.
Bueno…
Depois que Ana caiu em desgraça para o rei, se espalharam muitas lendas sobre ela, o que confunde até hoje seus historiadores. Me parece um típico caso de “difamação pública”. Imagina o gostinho das fofoqueiras do reino, com um prato tão delicioso para suas tardes de tertúlia!

O certo é que seu exílio no convento incluía restrições gravíssimas…. e só podia ver o sol uma vez por dia, por uma hora. Geralmente, à hora do crepúsculo, saía ao pátio do relógio, hoje chamado Plaza de Las Horas, em sua homenagem.
Seu temperamento voluntarioso não arrefeceu durante o castigo e fazia da vida das monjas um inferno.
Trocava todos os horários, mudava as rotinas, mandava fazer comidas especiais… e queria ser tratada como a princesa que era. Assim, encabeçadas por Teresa, “A Santa”, as monjas abandonaram o convento, deixando que a princesa ficasse apenas com sua filha, também monja carmelita, até o fim de seus dias.
Em Santorcaz há uma casa rural chamada Casarão de Éboli, onde o hóspede pode curtir a paz do pueblo desde sua jacuzzi…
Pastrana também é um bom lugar para visitar. Depois escrevo mais sobre ela.
Pois é…Pois é…
Gosto muito de saber as histórias das coisas e dos lugares. Mesmo que estas estejam repletas de lendas.
Não ficou mais interessante mi pueblo?

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Eles invadiram minha casa…

E descobriram antigos sonhos perdidos…
Tentei aprender violão e flauta doce em épocas distintas de minha juventude.
Porém, apesar de adorar a música e ter um ouvido privilegiado para ela, não tive a resposta que pretendia com estes estudos. Talvez não tenha investido o tempo e a paciência necessárias para sair do estágio de “aprendiz de notas” para realmente tocar algo interessante.
Não tive, nunca, qualquer incentivo familiar para investir tempo e dinheiro nessas aprendizagens. Eu insistia por conta própria, pagando como podia as aulas e assistindo-as em horários quase impossíveis entre o trabalho e os estudos. Muitas vezes nem tinha tempo de preparar bem as lições antes das classes.
O esforço era grande demais e, talvez, o talento de menos. Pelo menos eu pensava assim naqueles idos.
As horas de estudo e treinamento eram “incômodas para a família” e eu não parecia tirar sons muito agradáveis daqueles instrumentos, enquanto lutava com as cordas do violão ou com os buraquinhos das flautas.
Até entendo o desespero deles, coitados!
Bueno… afinal tive poucos momentos de verdadeiro prazer e muitos de frustrações. Na verdade, apenas cheguei a fazer uma apresentação de música barroca – com um grupo de flautistas do conservatório pernambucano de música – numa Igreja de Recife. Ninguém da família foi assistir, naturalmente.

E o violão? Esse nunca abandonei em definitivo. Toquei-o, mesmo mal e limitadamente, a vida inteira…
Tocava só para mim, exceto quando tomava uns viskies a mais e perdia a vergonha de tocar diante de um público maravilhoso, que além de muito amigo também estava meio “borracho” e gostava. Ho ho ho! Inesquecíveis amigos!
Gostosas lembranças…
Mas quando vim para a Espanha, deixei o violão com um sobrinho.
Que pena!
Enfim… nunca entenderei porque meu pai, que tocava piano tão bem e era um incondicional amante da música, jamais tenha me dado um dedinho de ajuda e incentivo…
Talvez a culpa tenha sido do rio, que levou seu piano quando eu tinha uns sete anos de idade e recebia nele as aulas que me dava a bruxa da praça. Eu tinha medo dela e não gostava das aulas…
Talvez ele tenha pensado que eu não gostava do piano… ou pior, que eu não tinha talento.
Eu sempre pensei que ele achava que eu não tinha talento para nada…
Quando o piano boiou nas águas do Capibaribe e desmembrou-se todo, ele chorou, e nunca mais falou no assunto. Também nunca mais comprou outro piano. E eu parei com as aulas.
Engraçado… de vez em quando eu descubro tantas perguntas para fazer ao Lorde!
Quando ele morreu eu era jovem demais para entendê-lo…
Pois sim…

O que aconteceu este final de semana é que cinco jovens músicos invadiram minha casa por três dias… e eu tive saudades de mim. 
O grupo faz parte da European Union Youth Orchestra, e estava na Alemanha e na Áustria com toda a orquestra, para a gira da primavera 2006, durante todo o mês de Abril.
Então…
Maria José Ordoño (flauta) Espanha – José Luis Garcia Vegara (oboé) Espanha – Amanda Kleinbart (trompa) Luxemburgo – Povilas Bingelis (fagot) Lituania – Thomas Lessels (clarinete) Gran Bretanha.
Estes cinco vieram fazer um concerto de sopro em Madrid e os convidamos a ficar em nossa casa, pois José Luis ( o primeiro à direita ) é filho de Pepe e já fazia um bom tempo não o víamos.
A casa ficou ainda mais bonita com a presença dos jovens músicos! Que sol gostoso, que clima ameno, que conversas agradáveis, que sons maravilhosos de música, risadas e vozes juvenis!
Eles se divertiram e nos animaram com suas brincadeiras. Fingiram tocar os mini instrumentos de minha coleção, vestiram minhas máscaras, pintaram e bordaram pela casa inteira.
Que maravilha!

A bagunça da sala, transformada num lugar de ensaio, foi o de menos.
O gostoso foi vê-los e escutá-los preparando o concerto em minha casa.
Enchi os olhos d´água várias vezes!
Minha dificuldade maior era ter que falar Inglês e Espanhol ao mesmo tempo. Três deles falavam Espanhol mas os outros dois apenas falavam Inglês e fazem simplesmente 17 anos que não exercito meu Inglês.
Anyway, a mímica e o carinho ajudaram sempre…
Depois de alimentá-los, cuidá-los com mimo e atenção por todo o tempo que permaneceram aqui, imaginem que no concerto em Madrid, numa das salas da Fundação Carlos Amberes, era como se todos fossem um pouco meus filhos.
Eu estava mesmo com uma cara de mãe orgulhosa de seus pimpolhos.
Não faltaram, por supuesto, meus aplausos e exclamações de Bravo! Bravo!
Claro, eles tocaram maravilhosamente bem.
São os melhores da Europa.
Passam por um teste muito exigente para fazerem parte da Youth Orchestra.
O repertório foi um pouco de Mozart, Milhaud, Ibert, Hindemith e para fechar, o Opus Número Zoo de Luciano Berio.
Essa peça é composta por sons e vozes.
Os músicos contam pequenas histórias de animais, entrecortadas pelos sons de seus instrumentos e expressões corporais engraçadíssimas!
Embora algumas das peças fossem modernas demais para a idade média da maioria do público, surpreenderam a platéia… e os aplausos foram sinceros e abundantes.
Podem imaginar que eu dissolvi de prazer, não é?
E mais… admito que – no fundo no fundo – tive um pouco de inveja daquele grupo.
Grande escolha essa de ser músico!
Agradeceram-nos o carinho presenteando-nos com um livro de Garcia Marquez e um CD de Tchaikovsky, que eu estou simplesmente adoraaando!
Mas nós é que agradecemos a eles pela alegria que deixaram aqui, impregnando a nossa casa…

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