Posts Marcados Com: Tarifa

Praia com névoa!

Névoa na Praia dos Lances
Névoa na Praia dos Lances.
Vinda do nordeste do Brasil, jamais imaginei a beleza de ir à praia com uma névoa dessas…
A semana passada a Praia dos Lances, em Tarifa, estava imersa numa bruma esbranquiçada e apesar disso em sua orla estavam as crianças jogando, os jovens em suas pranchas…e eu com a câmara na mão, rindo. Durou quase uma hora.
Coisa mais linda e feliz estar ali naquele momento!

Categorias: Cicatrizes da Mirada | Tags: , , , , | 15 Comentários

Avistando África… desde Tarifa.


* Escrevi este post nos últimos dias de Abril. Mas só pude publicar agora.

Estou em Tarifa. Um privilégio, eu sei. Todos aí em plena jornada de trabalho e eu aqui, nesse maravilhoso rincão do planeta, aproveitando esses mares e a extraordinária luz do pueblo mais meridional da Europa enquanto assisto a recuperação do tornozelo quebrado do meu pirata, depois de mais de um mês imobilizado num gesso até o meio da perna.
Saímos todos os dias pela manhã para andar à beira mar na Playa de los Lances de forma a fortalecer a articulação e restituir à musculatura da sua perna direita a flexibilidade de sempre.
Não há ninguém na praia a essa horas, a água dói de tão gelada, o vento sopra sem piedade, uivando como um lobo assustado. As gaivotas, que em outras circunstâncias pousam na areia molhada em busca de pequenas delicias, tampouco são muitas por aqui. Uma ou outra mais atrevida arrisca planar sobre nossas cabeças mas logo desiste do esforço se vai para a Isla de las Palomas, ligada ao povoado por um estreito caminho de pedras que tem o Mar Mediterrâneo de um lado e o Oceano Atlântico do outro ou seguem para a Punta del Santo, bem na entrada do pequeno porto.
Além delas e de nós na paradisíaca paisagem apenas os grandes navios que cruzam o Estreito de Gibraltar, a beleza do brilho prateado do sol sobre a água encrespada e, sob nossos pés, as espetaculares correntes de areia fina que deslizam pelo solo até o mar empurradas por rachas de um vento infernal.
Aqui o vento tem o protagonismo que merece. Ninguém sai de casa sem informar-se sobre ele. E quem está pelas ruas não tem assunto melhor que esse para começar uma boa conversa de pé na esquina. Com o sotaque cantadinho, como o dos pernambucanos, o tarifenho cumprimenta com um ” ái…el levante parece que afloja esa tarde” e outro responde “ná…parece que vá seguir hasta maña…” Eles não terminam as palavras, nunca. Se é para dizer nada dizem ; todo, dizem cansado é cansao, e pronunciar o S é quase impossível. Fastidiado é faftidiao…e por aí vai.
É preciso uma atenção redobrada para entendê-los, tanto na pronúncia quanto no vocabulário, enquanto contam sobre os ventos que assolam a cidade.
O fato de ser poente ou levante faz uma enorme diferença, mas a violência com que o vento sopra é que dá as ordens. Um levante muito forte pode deixar todo mundo dentro de casa. Os barcos pesqueiros não saem ao mar. E se dura demasiado tempo as pessoas tem dores de cabeça, enjôos, mal humor.
Mas cuidado! um poente forte é muito pior. Além de causarem todos os outros efeitos, a intensidade dele e o tempo que perdura, dizem, pode levar à loucura.
Pois deve ser verdade…
Eu fico quase louca com ambos. Agora é levante, dos medianamente fortes. A areia entra pelos buracos da minha cara, o cabelo dá nós impossíveis de desfazer, uma irritação na boca do estômago, uma vontade de não-sei-o-quê.
Sair de casa é enfrentar o vento e perder a batalha. Ficar em casa é pior.
Minha sogra fecha todas as portas e janelas, a pressão atmosférica oprime minha cabeça e meu peito, fico sem lugar e sem vez. Na televisão os programas variam de novelas a novelas, de novelas a novelas ( ela assiste todas ) e os filmes de fim de noite já passaram milhares de vezes. O novo livro que eu trouxe ainda não me atracou, a Internet não funciona…Murakami já acabou! ( Por sinal, amei o Tokio Blues).
Prefiro sair por aí. Enrolo um lenço na cabeça, como as muçulmanas, óculos escuros, jeans e tenis. Vaya figurinha! Se vou a favor, o vento me ajuda . Se é para ir contra ele, custa viu! Mas eu vou.
Descobri um cyber legal. Vende cadernos maravilhosos, agendas lindas, livros, lápis, canetas, papéis de carta, envelopes…tenho que me conter para não arrasar de comprar, sou fanática por tudo isso. Ah… e dez computadores em WiFi. Yesss! Esse seria um negócio que eu gostaria de levar.
A “fauna” tarifenha que frequenta o lugar já seria um boa distração. Cada figura! Ficaria ali mais do que o necessario, desde que não tivesse que pagar por minuto…
Entoncesss… me voy. Só de pensar em voltar para a casa fechada a cal e canto, com o vento silvando como louco pelas frestas da janela, sigo andando pelos becos do pueblo, entrando em todas as lojas, futucando os belíssimos anéis de prata, os braceletes coloridos, as roupas alternativas que eu adoro.
Em Tarifa ninguém se veste como em sua própria cidade. Aqui todo mundo veste como em Porto de Galinhas, com a diferença de mais um poquinho de frio. Acho que os dois pueblos têm a mesma característica. Gente de toda parte vive aqui. Gente de toda parte passa por aqui. Isso altera muito a personalidade do lugar e ele vai ganhando um jeito próprio de ser, falar e vestir. Gente que faz tranças rastafari no cabelo, que usa roupas coloridas, rendas de algodão, sandálias de couro com desenhos originais e tecidos rústicos, pedras artesanais. Gente com cara de gringo , vestido de qualquer jeito caminha por todos os becos, por toda parte, mas que importa? A cidade vive disso. Dos campeonatos de kitesurf, windsurf, cinema africano, música flamenca.
Algumas marcas de roupas nascidas aqui são famosas por toda a Espanha.
Gosto das camisetas da El Niño ( originalmente moda masculina e agora, devido ao imenso sucesso , unisex ) e da moda divertida da Mala Mujer, mas esta … tcs.tcs…só é divertida para jovens magras. Como sempre, as prendas sao fabricada para as sílfides e além disso as que podem mostrar a barriga. Tudo coladjinha e curtchinha, tá! . Tamanho G é 40 de largura e 38 de altura. Tóin! Tem graça não, viu!
Bueno… também são um tanto caras. Parei numa vitrina para ver uma túnicazinha leve de algodão, mas quando vi que custava 91 euros, desisti. Resmunguei um comentário para mim mesma… “noventa-e-um euros, vaya!” e a dona, que estava por perto escutou. Com prepotência e cara feia me encarou dizendo que “dentro tinha coisas mais caras”… hahaha!
Sorri para ela. Tá bom, mujer. Que fique com tudjin
Tarifa é tão linda, que basta que o vento relaxe para o bom humor me acompanhe a toda parte!

O que se pode fazer? Comprar uma shilaba ( túnica árabe ) dessas largas e gostosas de vestir. São lindas e custam entre vinte a trinta e cinco euros…
Vou fazer isso da próxima vez.
* Mais sobre Tarifa AQUI

Categorias: Cicatrizes da Mirada | Tags: , , | 4 Comentários

Sem Meu Melhor Pedaço…(Cap 14)

Agora acho que cheguei mesmo em casa.
As outras vezes em que disse isso não passaram de intenções.
Desde o começo do mês que eu ando feito peregrina por essa Espanha de meu Deus. Mas sem o meu melhor pedaço…
Olhos-de-mar-azul foi embora e eu fiquei.
Ele foi fazer um curso na Inglaterra por três semanas, eu não pude ir… e então o mundo ficou sem graça e eu tive frio.
Em busca de um colo de mãe fiz a maleta e me fui à Tarifa, onde seus ventos e sua luz me acolheram com festa.
A mãe, apesar de não ser a minha ,fez-se ninho. Suave e mansa, calorosa e doce.
A cidade esqueceu–se do outono e passou uma semana bela e louca pensando que ainda era Setembro.
Foram dias tão lindos que pude passear todas as manhãs pela praia, desta vez completamente deserta dos turistas de então e perfeitamente habitada por minhas lembranças e saudades. Além delas e de mim, apenas os pássaros de Novembro.
Ele não estava ali mas aquele era o lugar perfeito para sentir seu cheiro impregnado nas ondas, ouvir seu sorriso nos trinos das aves, sentir suas carícias e abraços nos ventos que penteavam as areias e revolviam meus cabelos.
Guardei esse pedaço do seu mundo num recanto da minha memória para dar a ele quando possa. É a primeira vez que vivo seu mundo sem ele, depois de quase três anos juntos.
Quando voltei, nem a calefação à tope deu jeito. Troquei as roupas da maleta por outras mais quentes e em busca de um colo de filha me fui à Segóvia.
Dormi entre os lençóis e travesseiros com cheiro a Lavanda Johnson e dengo.
Que delícia!

Durante as saídas, de braços dados, sob a chuva incessante ou sob a neve, os cafés com leite espumados, quentinhos e saborosos como amor de filha, as conversas compridas sobre presente e passado, amores e desamores, encontros e desencontros, amigos e inimigos, felicidade e dor, juventude e maturidade… eu tive a certeza de estar no lugar certo, com a pessoa perfeita para ajudar-me a suportar uma ausência que mesmo curta, pesa. Que mesmo justa, espanta pela força da saudade.
Que grande companhia é a minha filha!
Agora já estou aqui em Madrid. Tenho dois dias para organizar a casa, a despensa e a geladeira. As aranhas fizeram festa na sala.
Olhos-de mar-azul volta sábado. E eu estou curtindo cada minuto de espera… desde que sejam poucos!

Categorias: Coisas de Amor | Tags: , | 10 Comentários

Tarifa Conquistou-me…

Pois é… agora voltei mesmo.
O corpo se queixa da mudança brusca de temperatura. A saudade do mar aperta. A vontade de fumar também.
Pois é… deixei de fumar.
Hum… isto é, estou deixando. Ainda não posso falar no passado. Só fazem quatro dias! Nem vou tocar neste assunto agora, pois o medo de não conseguir me assalta e a ansiedade vai lá na lua!

Melhor contar sobre Tarifa. Sim. Melhor, sim.
Apesar de já haver escrito algo sobre ela durante a semana santa, desta vez pude explorar melhor a cidade e seus arredores.
Tarifa é um pueblo especial para mim. Primeiro, porque ali nasceu olhos-de-mar-azul e lá sua história permanece entranhada nas antigas e estreitas ruas iluminadas pela amarelada luz dos lampiões durante as noites ou pela luz de um sol extraordinariamente brilhante durante os dias.
Tarifa tem sempre uma luz especial, seja qual for o momento em que alguém assome “a la calle”.

Além disso, sua situação geográfica é privilegiada. Está situada entre os dois mares, o Atlântico e o Mediterrâneo e por isso oferece um espetáculo marítimo extraordinário. Por seu horizonte desfilam todas as embarcações que entram ou saem do Mediterrâneo, desde lanchas de passeio, veleiros e botes de pescadores a enormes navios de cargas ou de guerra.

É um eterno ir e vir de embarcações com bandeiras diversas singrando as águas azuis do Estreito de Gibraltar, embora esse nome não faça jus ao verdadeiro “estreito”. A parte mais estreita realmente não fica em Gibraltar e sim entre Tarifa e Punta Cires, no Marrocos, com 14 quilômetros de largura.
Pero… batizaram-no os ingleses e não os espanhóis ou os marroquinos. E assim ficou, até quem sabe quando…


Bueno… apesar de meu sangue genuinamente pernambucano, acostumado as tépidas águas das praias nordestinas, não pude deixar de aproveitar os mares de Tarifa, embora a temperatura de suas águas oscile entre absurdos 16 a 22 graus, dependendo do vento que sopre.
Ah… esse personagem é o mais importante de Tarifa. O vento.
Todos acompanham com imenso interesse as previsões meteorológicas, seja pelo jornal, rádio ou TV.
É que nesta cidade o vento é quem organiza a vida das pessoas.
Se há vento poente, a cidade se move de uma forma, as pessoas fazem algumas coisas. Se sopra o levante, os planos mudam e as pessoas fazem coisas distintas. E isso é sério!
Desde muito pequenos os habitantes já aprendem a respeitar os ventos de Tarifa. Eu achava meio exagerado esse negócio de falar do vento todo-dia-e-o-dia-todo. Até que entendi… Quando o levante começou a açoitar a cidade e não dava nem para caminhar pela rua!
Ele sopra com uma força descomunal! Os barcos não podem sair a pescar, nem os adeptos a esportes de vento podem sair ao mar. É muito arriscado.
Mas, se o vento é “flojo”,isto é, fraquinho, seja poente ou levante, as praias se enchem de gente. À Praia dos Lances, no Atlântico, se vai quanto o vento é levante, isto é, vindo do Mediterrâneo. Pois se um desavisado insiste em ir com vento forte, vai comer ondas de fina e branca areia até pelos ouvidos. Se ousa ir com vento poente, vai morrer de frio.
Com este é melhor se dirigir à Praia Chica, que é mais protegida do vento gelado que sopra desde o Atlântico, mas em compensação a agua é muito mais fria devido às correntes e profundidade de suas águas. Para mim era um suplício enfrentar os primeiros minutos de um mergulho, mas depois… a saudade dos banhos de mar ganhava sempre a luta entre os arrepios de frio e o prazer de poder mergulhar e nadar um pouco.
Não perdi um dia sequer de praia. Nem mesmo quando o pueblo amanheceu negro e chuvoso. Nada mais delicioso num dia assim que abrigar-se bem e sair para uma bela caminhada pelo passeio marítimo que circunda as praias e rochas, o castelo e as muralhas da cidade antiga.
Outra delicia foi passar o dia visitando os pequenos povoados próximos.

Estivemos em Vejer de la Frontera, uma cidadezinha linda no alto de uma colina, com uma vista impressionante do Estreito e de Tanger, do outro lado do horizonte. Daí fomos a Barbate, onde comi uma porção de delícias como almoço: polvo, lula com alho frito e atum com batatas, vinho e etc…
De sobremesa um assassino flan de figos confeitados ao vinho Pedro Jiménez. Uma coisa de matar de gosto uma pessoa normal, imagine uma fã de doces como eu.
E para fechar com chave de ouro, uma tarde inteira de sol e mar cristalino em Zahara de Los Atunes, só com a parte de baixo do biquíni, numa gostosa e descontraída experiência de top less, aos “quase” 50 anos! Fato absolutamente normal aqui, para mulheres de qualquer idade e manequim. Peitos de todos os tamanhos e formatos passeiam pela praia e tomam sol sem que ninguém os examinem com olhos críticos ou maliciosos. Uma delicia de liberdade e prazer.
Olha só uma das paisagens de Barbate!
Bronzeadíssima, fui convidada a assistir a abertura da Féria Anual de Tarifa, com a entrada na cidade da Virgem de la Luz, acompanhada por 577 cavalos montados por velhos e jovens, homens e mulheres, todos vestidos à carater, com a vestimenta de gala do campesino tarifenho.
Para isso vesti um belo traje de cigana, com rosa no cabelo e xale no pescoço. Estava a própria andaluza!
Me encantei tanto que não queria mais tirá-lo.
He he he…

Ainda bem que tive a oportunidade de usá-lo outra vez num jantar oferecido por uma das “casetas” armadas na Féria para comemorar a festa da patrona da cidade.
Linda festa!
A maioria das mulheres e meninas vestidas com seus alegres e coloridos trajes, as músicas sevilhanas dançadas com maestria, a manzanilla rolando solta em todas as mesas.( Manzanilla é um tipo de vinho branco, servido muito gelado.)
Eu estava tão integrada ao grupo que ninguém podia imaginar que eu era uma brasileira “infiltrada”.
Só não arrisquei dançar no palanque porque fiquei simplesmente babando com a performance das mulheres. Tanto que uma delas ofereceu-se para ensinar-me numa próxima visita à cidade.
Oferecimento aceito, óbvio.
Um encanto foi assistir uma apresentação da dança típica de Tarifa, com homens e mulheres cantando e tocando as guitarras e os pedaços de bambu ( as cañas ), numa demonstração clara de que a tradicional vida do campo pernamenece viva ali, apesar da invasão de estrangeiros atrás de férias de sol e mar, iguais em quase toda parte do planeta.
A casseta mais tradicional passava as noites tocando e cantando a Chacarrá, música e dança específica de Tarifa. Emocionante e diferente de tudo o que já vi até agora na Espanha.
Depois eu conto mais sobre roupas, costumes, gastronomia…e minha última descoberta: música!

Categorias: Cicatrizes da Mirada, Viagem | Tags: , | 24 Comentários