Posts Marcados Com: viagem

Barcelona

Esse post sobre Barcelona é uma mistura de posts passados. Resolvi publicá-los aqui depois que Roseane, do blog Pavulagem da Ro, pediu-me um toque sobre a cidade, já que ela vai estar ali por uma semana.
Encontrei esses posts em um dos meus arquivos do Cicatrizes da Mirada.

( Clique sobre as fotos para vê-las maiores e melhores.)
**********************
Sonhei por anos a fio estar em Barcelona com olhos-de mar-azul. Um sonho que parecia impossível enquanto escrevia-lhe cartas e e-mails. Agora que estava na hora de transformá-lo em realidade….eu queria mais.
Os seres humanos são assim, não é?
Ou isso é prerrogativa das mulheres?

Queria estar maravilhosa. Então, resolvi emagrecer uns poucos quilos e caber mais folgada no pretinho básico.
Pois sim… nem rezando pelo sangue de Cristo!
A viagem pelos Pirineus Aragoneses, uma semana antes de chegar à Barcelona, arrasaram com a minha “já-muito-fraca-força-de-vontade”.
As tentações eram constantes pois a gastronomia aragonesa é fantástica. As tapas do Bar Pau, na cidade de Jaca, os vinhos, os queijos de Anso (um pequeno pueblo pelo qual me apaixonei perdidamente), que maravilha!

Apesar de ter caminhado bastante, não perdi uma miserável grama.
“Antigamente se creia que las setas eran producto de la union de un rayo de sol y uma gota de rocío”. Isso dizia o cartaz do bar. Um bonito dito popular!
“Antigamente se acreditava que os cogumelos eram produto da união de um raio de sol e uma gota de orvalho”. E esse era o estímulo para que provássemos o mais variado cardápio de cogumelos da região. E com eles, os queijos artesanais e os pães caseiros… era impossível beber água. Era necessário um bom vinho.
E lá vinha o vinho!
Ah… e esqueci de dizer que antes da viagem, já pensando em Barcelona, fui mexer nos cabelos, claro. Qual era a estratégia mais conhecida de todas as mulheres para melhorar a auto-estima, antes do silicone e da lipoaspiração? Ir ao cabeleireiro e mudar o corte ou a cor dos cabelos, certo? Fui… eu não aprendo nunca!
Não entendo por que TODAS as mulheres conseguem um tom acobreado nos cabelos castanhos, mas os meus sempre saem cor-de-rosa, assim meio da cor do mercúrio cromo, assim meio da cor do ridículo!
Mesmo que eu tenha pedido sinceramente, em meu Espanhol claudicante, que as mechas fossem discretas e apontado para a menos espalhafatosa do cardápio, não escapei.
Pois bem…
Depois de uma semana em Jaca, caminhando sob o sol e tomando vários banhos de piscina, a cor das mechas passou do rosa-cromo ao amarelo-ovo-queimado…
A piscina é um dos instrumentos mais recomendados para destruir qualquer cabelo, mas eu seria mais louca se recusasse os prazeres da água com aquele calor!
Resolvi relevar a aparência e aproveitar o passeio. “Tudo dependeria dos meus modelos mentais.” Pensei muito zen.
E Barcelona chegando…
Quando estávamos à caminho da cidade eu ainda estava com idéias de felicidade. Mas a onda de calor chegou ao seu auge e, além de matar pessoas, não me deixou nem pensar…

Ao sair de casa pela manhã, em direção à Casa Batló, já estava suada até na sola dos pés.
E, a medida que caminhava e caminhava e caminhava, a roupa ia grudando na pele, o cabelo arrepiando como o de uma bruxa…e eu só queria um banho, dois banhos, três banhos… queria viver debaixo da ducha para sempre!
A roupa colada no corpo, o cabelo preso num rabo de cavalo e o cansaço extra que o calor emprestava a qualquer movimento, arruinaram com meu humor. Meus modelos mentais zen se transformaram em asas negras flutuando diante dos olhos e escurecendo, contra a minha vontade, momentos que poderiam ter sido magníficos.
Assim, sonhei com Barcelona no outono, no inverno, em qualquer outro momento do ano e de meu astral… mas eu queria sair dali imediatamente. Pensei nisso e logo veio uma lembrança astrológica. Isso! Estava a um mês do meu aniversário… claro!
Além de toda a onda de calor que invadiu a Espanha, estava em pleno INFERNO ASTRAL!!!!
Inferno. Inferno. Inferno. Só de pensar na palavra já me sentia queimar de dentro para fora. Ufa! Isso. Foi isso, claro!
Havia um inferno fora e outro dentro de mim! Não sou fã de astrologia, mas queria uma explicação… qualquer uma!
Bom, em alguns momentos de ferrenho esforço para controlar meu humor da cor de carvão e aproveitar as cores de Gaudí, pensava em meus amigos, em como gostaria de mostrar a todos as imagens que consegui guardar, como a incrível Casa Batlló e seu telhado dragão, suas chaminés de máscaras. Lindo! Parece uma casa construída pelas ondas do mar…
Vale a pena visitá-lo!
Antes era um edifício residencial, fechado ao público. Mas hoje é uma espaço para eventos absolutamente espetacular.
Adoro tudo o que Gaudí fez!
E fui , pela segunda vez, ver ao vivo e a cores a  Sagrada Família.
Para aguentar o calor, comprei um leque que vendiam diante da fila quilométrica, sob um sol de lascar o crânio. Impossível resistir. Comprei o maior de todos.
Sacudi minha discreta comprinha diante do rosto por todo o dia, sem saber que estava “falando”. Quando descobri sua linguagem, o danado dormiu dentro da bolsa a maior parte do tempo.
Imaginem que mensagem eu poderia enviar com um leque negro e rendado, enorme, os cabelos daquela cor e a blusa grudada no peito? É uma pena que o post sobre a linguagem dos leques tenha se perdido por aí… quem sabe o encontro também nos muitos cds de arquivos que tenho!

Voltando à Sagrada Familia

Iniciada em 1882 pelo arquiteto Francisco de Paula del Villar, o projeto era o de uma igreja neogótica.

Em 1883  Gaudí se encarregou em dar continuidade à construção. A partir de seus esboços sobre a forma geral do edifício, o arquiteto foi improvisando a sua construção e criando à medida que avançava o projeto. Ele dizia que a igreja tinha o espírito gótico, mas na sua própria linguagem.
Dizem que ele evoluía enquanto a construía e vice versa.
A obra era sua obsessão. Em seus últimos anos de vida, morava dentro da construção e só saía de lá para conseguir dinheiro e continuar o trabalho.
A fachada atual da Sagrada Família é apenas uma das quatro torres projetadas, e a obra continua ninguém sabe até quando. Totalmente construída com doações, ela avança lentamente.
Não creio que eu viva para vê-la terminada.
A Catedral de Gaudí é alucinante!
Quando a vi pela primeira vez, em 1994, havia menos torres e portas de entrada construídas. Creio ter visto apenas a Puerta de La Natividad. Mas agora boa parte do projeto inicial já está em estado avançado de construção.
A Puerta de La Passion conta com esculturas modernas, de Subirachs, inspiradas na obra de Gaudí que vimos depois, nas chaminés de La Pedreira ou Casa Milá.
Uma das características mais marcantes de Gaudí é a utilização de formas orgânicas em seus projetos. Suas colunas parecem galhos de árvores. Suas esculturas de ferro forjado mostram curvas e desenhos que parecem vivos. Seus telhados parecem sair de um conto de fadas ou bruxas… são cheios de máscaras imensas.

A Casa Milá  ou La Pedreira, como era chamado o edifício pelos antigos habitantes de Barcelona, que o consideravam feio ) é um prédio habitado, mas que pode ser visitado.
É impressionante o que foi capaz de criar o famoso arquiteto naqueles tempos, e admirável que tenham permitido suas inovações.
O pátio, as escadas, a cobertura com suas chaminés-esculturas e um apartamento completo, que foi comprado por um banco e decorado à moda art-deco do princípio do século, estão abertos ao público e valem a fila e o preço.
Eu gosto dele. Parece uma duna molhada, ou um conjunto de cavernas escavadas numa montanha… e quanto mais a gente olha, mas vê coisas!
E, detalhe importante, tem AR CONDICIONADO, meu maior objeto de desejo naqueles dias…
A Catedral de Barcelona, de estilo gótico, além de ser maravilhosa em si mesma, tem um encanto extraordinário, para os catalãos: um Cristo negro. O Cristo de Lepanto.
Segundo conta a tradição, ele estava na galera que levava Don Juan de Áustria, irmão bastardo do Rei Felipe II, durante a famosa Batalha de Lepanto contra os turcos, no século XVI. Falei nesta batalha quando contei sobre a vida de Miguel de Cervantes. Ele também estava lá.

O Cristo é especialmente reverenciado em toda a Espanha e mais ainda na Cataluña.
O coro da catedral, de madeira escura e trabalhadíssimo é alucinante. Pode-se passar horas descobrindo os detalhes esculpidos em suas cadeiras e tronos.
Sempre há muita gente visitando as belíssimas catedrais espanholas e eu, às vezes, queria esses lugares só para mim, pelo menos por uns minutos.
Queria não ter que escutar gente conversando, piscando flashes por toda parte, correndo de um lado para outro sem ver nada.
Queria não ver grupos de pessoas absolutamente desinteressadas no que estão vendo, mas seguindo seus guias muitíssimo interessadas em levar a maior quantidade de fotografias possíveis, mais ainda se forem dos lugares onde é proibido fotografar.
Eu saio do sério com esta gente! Tenho vontade de expulsá-los do templo, como fez Cristo com os comerciantes em sua época. Juro!
Onde estão minha bondade e compaixão?! Tóin!
Eles tem tanto direito de estarem ali quanto eu.
Outra visita que não se pode perder é à Igreja Santa Maria del Mar. Uma igreja também muito linda.
Ela alberga a Virgem Del Mar, padroeira das gentes de todos os mares.
E eu, enamorada por um pirata mediterrâneo, adorei ficar ali, protegida do sol, sentindo um frescor que vinha das pedras antigas, do teto altíssimo, da paz que os templos me dão…

Não sou religiosa mas sinto um encantamento enorme pelos templos. Eles realmente são construídos para propiciar essa sensação de colo macio, de conforto.
Nunca deixo de visitar as igrejas, as mesquitas, as sinagogas… não só pela arquitetura e história, mas também pelo que transmitem de acolhimento.
Quando você estiver viajando por qualquer lugar, na hora do grande frio ou do grande calor, não insista em bater pernas pelas ruas… busque um templo e fique lá por um tempo. E a melhor hora é quando está todo mundo nos restaurantes comendo e fazendo barulho.
Essa é a hora de estar quase sós num templo. Vá por mim…
Ano passado li uma novela muito boa, inspirada na construção desta igreja: Catedral del Mar, de Idelfonso Falcones. Se estiver traduzida para o Português, leiam. Além da trama excelente passada na época medieval, muito se fica conhecendo sobre fatos históricos reais da Cataluña.

Um programa imperdível de Barcelona é o Museu Picasso , que ocupa cinco palácios dos séculos XIII e XIV.
Conta com desenhos e pinturas de seus primeiros anos, além de cerâmicas e esculturas. Assim podemos entender melhor porque ele experimentou tantas mudanças na longa vida de artista.
Imagino que, pintando como pintava aos 14 anos, era impossível fazer o mesmo durante os 78 que lhe restavam de vida… tinha que inovar ou morrer de tédio!

Na porta do museu, um sujeito posava com os turistas fantasiado do quadro, O Arlequim Cubista, cuja orelha era um nariz. Perfeito!

Infelizmente não tenho a foto!
As Ramblas “do Planeta”, como diria Caetano é um lugar incrível. Ali acontece tudo. Na primeira vez que estive ali fiz questão de provar a orchata de chufas, que detestei. Pedi só por causa da música. Nunca mais!

As Ramblas são palco de todos os mímicos de Barcelona. Bailarinas, palhaços, princesas, Colombos, índios de arco e flecha, todos imóveis até que se jogue um moeda. Então eles se movem e agradecem. Um alegria para as crianças e os japoneses…

Eu gosto mais dos músicos. Sempre há músicos fantásticos nas ruas de Barcelona. Mas o melhor das Ramblas desta vez foi entrar no Mercado La Boqueria. Montanhas de frutas e especiarias. Verdadeiros quadros – ao vivo – de cor e alegria. Não resisti às amoras

Encontramos um pequeno bar de tapas e cerveja dentro do mercado. Comemos choquitos ( um molusco) e aspargos verdes a la plancha e dois litros de cerveja… que delícia! Ai!
Vou aproveitar para explicar o que é uma tapa.

Nada de violência, meus queridos, é só um petisco qualquer. Pode ser uma fatia de pão com tomate e presunto crú ou um pratinho de azeitonas, ou de mariscos, ou batatas bravas, salada russa…ou… ou….
A variedade é infinita e deliciosa, e o tamanho também. Tem bares que servem tapas que são verdadeiras porções, generosas no tamanho e no preço! A maioria das vezes nem se cobram as tapas… são presentes do bar. Cada bebida que se pede, eles servem uma tapa.
O nome tem a seguinte história: há muitos anos, uma lei obrigava os donos de bares que serviam bebidas alcólicas a dar um pequeno petisco para que os clientes não ficassem muito bêbados.
Já que na maioria dos bares, os espanhóis bebem em pé, junto ao balcão, o bocadito era servido em um prato pequeno que cobria o copo, como uma tampa.
(tapa em Espanhol)
O costume permanece até hoje.
Os espanhóis nunca saem para beber num único lugar. Eles tomam uma cervejinha aqui, pagam e saem… vão para outro bar, e outro … e outro… e assim saem de bar em bar. Só pagam a bebida e comem de graça. Ho, ho, ho…
Mas é preciso tomar cuidado, pois nem todos os bares servem tapas e nem todos são gratuitos. Por isso é bom saber antes!
Bueno, aprendi rapidinho o costume. E me encanta. Aproveitei todas cervejas e tapas de Barcelona. O pretinho básico que fosse ao inferno, ou ao fundo da mala já que no inferno estava eu!
Elegi uma saia e uma camiseta de algodão para a festa de aniversário de minha prima Paula, que trouxe os amigos de Londres para a “festa” e lá fomos nós para o Club Havana, na Barceloneta, comer, beber e dançar. Mesa reservada com antecedência.
Surpresa!! O ar condicionado era ótimo! No salão principal…
Nos reservaram uma mesa no salão lateral, sem ar… nem condicionado, nem natural. Uma estufa!
Reagimos revoltados ao “dar de ombros” do garçom e na cara de pau sentamos em outra mesa, que também estava reservada…
Mas quem disse que eles podiam ter ar e nós não?
Ao final, descemos para dançar. Escolhemos outra mesa, pois aí já não havia reservas, era de quem chegasse primeiro. Pedimos as bebidas, dispostos a curtir o melhor do Havana Club, a dança cubana!
De repente, percebi que a cada componente da nossa mesa que se levantava para dançar, sentavam desconhecidos com seus copos, como se fosse a coisa mais comum do mundo tomarem nossos lugares. Assim, quando as pessoas de nosso grupo voltavam do salão, já não tinham suas cadeiras. Como assim?
Assim. E pronto.
Ficamos entulhados num canto mínimo, com duas cadeiras para 11 pessoas, incomodando os novos donos da NOSSA mesa. Uma multidão chegando… e o ar condicionado acabando.
Tá bom. Tá bom…
“Modelos mentais, paradigmas…” pensei… “Que bobagem! Divirta-se…”
Tentei… Juro! E estava quase conseguindo, ajudada pela bebida fresca e a dança divertida comandada pelo cubano… mas quando saímos de lá e tivemos que passar mais de 1 hora para conseguir um taxi, a mais de 30 graus, às 3 da madrugada, andando de um lado para outro e tendo que quase lutar com os espertos que se atiravam pela porta do carro que nós tentávamos parar, o mal humor voltou com vontade de ficar.
Então… comecei a odiar Barcelona!


Às 4 da manhã, em casa, pensei que estaria finalmente livre da estufa.
Tomei uma longa ducha e deitei de frente para um ventilador lindo, fininho e vertical.
Isso, ele era apenas isso. Decorativo.
Tinha umas luzinhas de azul neón como olhos de extra terrestres no meio do escuro e soprava com uma elegância…
Pfussss…pfussss…
Ventilar que é bom, nipes nada!
Cadê meu leque???!!!
Não deu para dormir… e o dia seguinte já estava ali.
Nem imaginem minha cara de bom humor durante o café da manhã.
Mas como desistir de tudo ?!
Havia Paula e queríamos mostrar a ela o melhor da cidade.
Fomos ver o Palácio da Música. Bárbaro! Umas cores, uns desenhos!
Mas não pudemos entrar. Estava fechado, para reformas. Valeu ver pelo menos a fachada e comprar os postais.
Acho que o calor trouxe à Barcelona um forum de bruxas!
Ou foi o contrário?!
Então…
Para escapar do forno que estava mergulhada a cidade, um templo ou um museu são as pedidas mais refrescantes. E decidimos pegar a estrada e ir ao Museu – Teatro Gala-Dalí, em Figueres. Fora de Barcelona.
Parece que todo mundo teve a mesma idéia. Depois de uma hora e meia na fila, ao sol, e muito sorvete de limão, finalmente entramos para ver a genialidade do artista.

É impressionante! Desenhos, esculturas, pinturas, frescos nos tetos, composições artísticas muito loucas… valem o sacrifício da fila, embora para o meu gosto, o museu guarde muitas extravagâncias do artista e não os seus melhores trabalhos. Um dos que mais chamam a atenção é um enorme quadro onde se vê o ex-presidente americano Lincoln. Olhando por um “catalejo”, se pode ver os detalhes do quadro e o corpo desnudo de Gala, sua mulher, debruçada sobre uma janela. Também impressiona o fresco do teto de uma das salas do museu, em que Dalí e Gala sobem para o céu.Ou o trabalho que representa a famosa Mae West, com um sofá em forma de boca e uma lareira em forma de nariz.Subindo umas pequenas escadas, o expectador pode ver, em composição com as cortinas, o rosto da atriz.Duvidoso gosto artístico, mas sem dúvida, criativo.

O museu não é só composto de obras provocativas. Dalí era um gênio da pintura e do desenho. Era um show de técnica. Mas ele adorava provocar e viveu o bastante para expressar todos os fantasmas de seu inconsciente, além das mirabolantes expressões de um ego fenomenal.
No dia seguinte desisti das cidades e pedi, pelo amor de deus, um parque. Vento, sombras… AR!
Então fomos ao Parque Güell, idealizado por Gaudí. É lindo… e fresco. Fiquei um tempo escutando um artista que tocava a guitarra espanhola, sob uma sombra deliciosa, cercada de colunas lindas… e senti-me mais feliz. Muito mais feliz…
Vi um dragão colorido sobre uma fonte de água fresca, e me apaixonei por ele. Trouxe uma réplica pequenita para meu invernadeiro. Adoro olhar para ela, pequena e encantadoramente colorida. O dragão é um dos símbolos da cidade de Barcelona. Por todas as lojas de suvenirs ele está, em todos os tamanhos e materiais.

Os bancos do parque, anatômicamente desenhados para aproximar as pessoas e facilitar a comunicação são decorados com pedacinhos de cerâmica de todas as cores e proporcionam ao visitante uma vista maravilhosa da cidade.
Não levem em conta meu humor, expressado tão enfaticamente aqui. Barcelona não teve culpa. A cidade é fantástica, mas estava sob o efeito de uma das maiores ondas de calor que assolou a Europa. Só sugiro aos viajantes que não escolham o mês de Agosto para estarem ali, se puderem.
A umidade do ar, a quantidade de gente nas filas, o sol de derreter os neurônios… é desesperador, pelo menos para mim.
Na volta do parque, um passeio pelo Porto Olímpico, a vista dos barcos à vela e navios de cruzeiro, branquíssimos e enormes, as pessoas de todo o mundo passeando pelas lojas, bares e restaurantes , a praia repleta de banhistas, os topless de todas as idades e tamanhos, e muitas paradas para uma cerveja ou um sorvete ou uma água pelo amor de Deus!
Isso tem que ser muito mais gostoso no Outono ou na Primavera, disso não tenho dúvidas!
No verão os sol só desaparece às 10:00 horas da noite. É um dia largo demais!
Eu já estava querendo a noite, a brisa… os terraços frescos.

Mas desta vez, nem de noite havia brisa. Era o inferno, de verdade!

Então… caminhando e caminhando, dei de cara com a Séphora, uma famosa loja de perfumes. Quase um supermercado de vidrinhos maravilhosamente cheirosos! É de enlouquecer entrar nessa loja.
Agora, meu presente de Barcelona foi a Happy Books. Uma livraria especial, com preços super especiais. Fiquei louca, babando como um cãozinho sedento com tantas ofertas!
Comprei um exemplar de História da Arte, ricamente ilustrado e encapado em caixa e fita de seda, por míseros €15,00, quando qualquer publicação deste quilate vale de €70 a €90 , por baixo!
Voltei “happy woman” para Santorcaz, com meu dragãozinho e meu livro debaixo do braço.
E voltar lá só em Novembro, com frio, se Deus quiser!
Pois, desta vez, nem pensei em dançar a Sardana diante da Catedral.
Quando estive ali, na Primavera de 94, tive o prazer de dançar o baile mais característico da Cataluña… e que eu morro de vontade de repetir.
Desta vez sequer pude ver o enorme grupo de pessoas rodando com as sapatilhas de lona e os braços erguidos, num grande círculo humano a “ciranda” espanhola.
E também não pude escutar um violinista ensaiando suas partituras no átrio em frente a Torre Antiga, no coração do bairro gótico dessa cidade encantada…
Com aquele calor, só turistas estavam nas ruas.
Mas eu volto lá… ah! se volto!
Belo lugar… belíssimo!

Categorias: Cicatrizes da Mirada, Viagem | Tags: , , , | 12 Comentários

Praia com névoa!

Névoa na Praia dos Lances
Névoa na Praia dos Lances.
Vinda do nordeste do Brasil, jamais imaginei a beleza de ir à praia com uma névoa dessas…
A semana passada a Praia dos Lances, em Tarifa, estava imersa numa bruma esbranquiçada e apesar disso em sua orla estavam as crianças jogando, os jovens em suas pranchas…e eu com a câmara na mão, rindo. Durou quase uma hora.
Coisa mais linda e feliz estar ali naquele momento!

Categorias: Cicatrizes da Mirada | Tags: , , , , | 15 Comentários

Enamorada por Córdoba…

Mas uma vez estive em Córdoba. E mais um vez me enamorei pela cidade. Sempre acontece…
Há tempos atrás escrevi em outro blog algo sobre esta linda cidade espanhola e tive o enorme prazer de haver incentivado, com minhas impressões, alguns brasileiros a quererem conhecê-la. Nenhum deles se arrependeu. Inclusive, sempre que pude, acompanhei amigos e lhes mostrei o que me havia cativado.
Vou aproveitar um pouco dos meus arquivos de texto e de fotos e acrescentar algumas novas experiências, principalmente as gastronômicas. Desde que estou aqui, muita coisa aprendi sobre os sabores mediterrâneos. A comida em Córdoba, como em toda Andaluzia, é um importante atrativo. Além de maravilhosa, tem preços muitíssimo mais baratos que em Madrid.

Então…
Um mísero final de semana sempre é insuficiente para aproveitar toda a riqueza cultural de uma cidade, mas é o bastante para atiçar a curiosidade sobre ela. E também é assim com Córdoba e os diferentes povos e culturas que a habitaram. Só para dar um gostinho de quero ver, há registros dessas passagens desde mais de 3 mil anos atrás e um museu arqueológico interessantíssimo para ser visitado.

A geografia foi fundamental em sua história, tanto nas épocas de glórias quanto na sua decadência.
Córdoba está no vale de um dos mais importantes rios espanhóis, o Guadalquivir, no sudoeste da Espanha, na Andaluzia. Conquistada pelos romanos em 152 a.C, foi transformada num importante centro cultural. Depois, foi ocupada pelos vândalos, visigodos, bizantinos e muçulmanos. E por falar nisso, vou contar uma historinha interessante.
Uma vez meu pirata estava visitando um país centro-americano, durante as comemorações dos 500 anos do descobrimento da América, quando foi abordado por uma mulher, esposa de um político importante. A criatura aproximou-se e com cara de desprezo disse-lhe que odiava os espanhóis porque eles haviam invadido e saqueado seu país. Ele respondeu com tranquilidade e aquele sorriso que lhe caracteriza: ” A senhora teve sorte. Seu país só foi invadido por um povo. O meu foi invadido e saqueado por tantos, que já perdemos a conta.Se fôssemos odiar a todos…”
A mulher emudeceu e saiu de mansinho. Só conseguiu demonstrar sua ignorância sobre a história europeia daqueles tempos, além da falta de educação e diplomacia, naturalmente.
Bom, voltando a Córdoba…
Durante a ocupação muçulmana na Espanha, a partir do século VIII, a cidade se converteu em capital de Al-Andaluz, a mais importante do ocidente, tanto pela sua população como pelo seu elevado nível cultural. E muitas coisas aconteceram em torno e a partir dela, até que no século XIII o rei Fernando III, o Santo reconquistou-a para seu católico reinado espanhol.
Uma pena para a riqueza cultural da cidade, é preciso reconhecer. Depois de reconquistada, Córdoba foi convertida em reduto militar por sua importância estratégica e sua população civil, formada por árabes, judeus e cristãos foi quase que totalmente evacuada, o que levou a cidade à decadência pelos séculos seguintes.
Seus monumentos e palácios espetaculares, como a Medina Azhara, construídos durante os séculos de ocupação muçulmana, foram ocupados com objetivos militares e depois destruídos e saqueados, até serem reduzidos às ruínas que são atualmente…
O antigo Alcazar dos reis foi transformado em quartel e depois em prisão. Afortunadamente, hoje é um bonito museu.
E, para culminar a desgraça, a cidade inteira foi saqueada pelos franceses em 1808. Só não levaram para a França o que a população conseguiu esconder de seus tesouros e obras de arte.
Bendición ( Júlio Romero de Torres)
Dizia Federico Garcia Lorca, o grande poeta espanhol, que Córdoba era uma cidade melancólica. Esta melancolia o pintor cordobes Júlio Romero de Torres registrou magistralmente nas fisionomias de suas musas, de tristes e molhados olhos negros.
Para mim não há nada melhor que a arte para ilustrar qualquer história…escolhi dois de seus quadros que eu mais gosto para o painel.
Adorei visitar o museu do artista. Uma visita imperdível para quem estiver na cidade com um pouco mais de tempo.
Mas Córdoba não é só seu passado histórico… ela também está renascendo das cinzas em modernas áreas e bem decorados espaços públicos. Está se transformando numa cidade mais completa, com ambientes adoráveis, bem cuidada, cheia de hotéis novos e bonitos, passeios arborizados, bares de copas bem transados, terrazas com sofás na calçada e luminárias árabes lindíssimas que podem transformar a noite num sonho romântico…
A música também ilustra lindamente um lugar. E na minha memória ficará para sempre a noite em que jovens trovadores de uma de suas universidades se reuniram numa calçada, diante da taverna em que eu estava e cantaram para mim. Arrepiei. Foi emocionante.
Pregadas em suas capas estavam as dezenas de fitas coloridas bordadas pelas amadas ou amigas e os brasões das universidades por onde já passaram a cantar suas tradicionais canções. Era uma Tuna, uma tradição em quase todas as universidades europeias. Eu adoro!
Desta última vez, semana passada, estive em Córdoba para assistir o casamento de um sobrinho. Seus irmãos e amigos não perderam a oportunidade de presentear os noivos com uma apresentação. O “muchacho das panderetas” é um dos meus novos sobrinhos e irmão do noivo. Fiquei alucinada com a dança dele.
Voltando ao passado…

Para quem gosta de mergulhos na história, a cidade conserva ainda restos abundantes da ocupação romana e muito mais da muçulmana, embora jamais tenha recuperado a pujante vida cultural dos séculos passados. De vez em quando a gente se depara com alguma ruína romana que emerge numa escavação qualquer de alguma obra bem no centro da cidade. Não pensem que é coisa pequena, não… são colunas impressionantes!
Mas minha predileção é justamente a Juderia. Adoro o bairro judeu. Adoro as casas e as ruas estreitas. Adoro visitar as lojinhas passeando com tempo e paciência, aproveitando o tempo, sem correr para nada.
Por entre os muros altos e varandas coloridas pelas flores, a gente vai viajando no tempo.
Descobri que as ruas são assim estreitas como uma forma de se protegerem dos excessos de frio ou calor. Durante o inverno, os muros guardam um pouco do calor do sol e evitam as correntes de ar frio. E durante o verão criam sombras protetoras.
As casas em estilo árabe mesclam-se com a Juderia e a gente não sabe mais onde acaba um bairro e começa o outro. São quase todas brancas, com grandes ou pequenos pátios centrais, onde há uma profusão de plantas e vasos coloridos e, invariavelmente, um poço. Funcionando, lindo… Com a ajuda deles os moradores mantêm suas casas decoradas, além de frescas e alegres durante todo o ano.
É comum encontrar casas de chá decoradas com peças árabes, mesinhas baixas cercadas por banquetas de couro trabalhado onde descansam bandejas de metal com serviços de chá de fina delicadeza, com seus desenhos florais e cores diversas.
Nunca deixo passar a oportunidade de entrar e provar algumas das variedades dos chás e doces.
Tomar chá é um costume que permanece forte entre os cordobeses.
As “teterias” também funcionam para uma descansada breve depois de comer… é um lugar fantástico para escapar do sol e relaxar antes de voltar para a rua.

Os banhos públicos voltaram a funcionar e estão na moda atualmente. Existem casas de banho maravilhosas, onde se pode relaxar em piscinas térmicas com direito a massagens com óleos perfumados, em ambientes com cheiro a incensos exóticos ao som de uma doce canção do médio oriente e a visão de uma linda cordobesa bailando a dança do ventre. Ainda não foi desta vez que provei os banhos, mas será da próxima. Garanto!
Como eu não tinha tempo para estar pela rua e o calor era tanto, decidi não gastar as energias antes de ir ao casamento montada em uns saltos vermelhos que só de olhar já me assustavam. Fiquei na piscina do hotel, relaxando e descansando enquanto os jovens iam visitar a Mesquita. Este sim… é um passeio imperdível para quem não conhece. O monumento mais importante e encantador de Córdoba.
Iniciada por Abd al-Rahman I em 780 d.C. a Mesquita foi o primeiro monumento de todo o ocidente islâmico.

Sua construção inicial foi ficando pequena para a quantidade de fiéis e, durante os séculos seguintes, foi ampliada pelo menos quatro vezes. Em cada uma delas, principalmente na terceira, uma decoração mais esmerada, mais espetacular. Assim, a Mesquita conta atualmente com uma variedade de estilos e materiais, de acordo com o tempo em que foi construída ou reformada.

No retângulo original, as colunas são romanas e visigodas, aproveitadas de antigas construções anteriores ao poderio do Califa.
Nas ampliações posteriores podemos apreciar uma seqüencia alternada de colunas de mármore azul e rosa, que levam ao Mihrab , e que fazem a gente respirar fundo várias vezes, para aguentar a emoção que cresce dentro do coração.
O Mihrab é o oratório e todo o caminho até ele é de uma beleza espetacular. (Não deixem de ver outra vez o painel de fotos depois de ler ese texto.)
As mulheres não podiam rezar nesse espaço. Aliás, elas nem podiam entrar na Mesquita propriamente dita. Só podiam rezar numa parte construída no Pátio de Los Naranjos , na entrada do templo, e reservada para elas. O grande centro do retângulo era destinado apenas às orações masculinas.
Hum… as religiões são engraçadas. Quase todos os preconceitos de gênero vem delas.
Gostei de ficar um tempo no pátio. As laranjas são amargas e não servem para comer mas emprestam ao ambiente um colorido fantástico! E um perfume!
Os árabes não cultuam imagens e assim sua arte religiosa consiste de motivos florais ou de arabescos, textos sagrados, etc. Sempre fico embasbacada com a perícia dos artesãos mozárabes nas portas desenhadas, nos tetos de madeira e gesso trabalhados, nos pórticos do Mihrab e do tesouro.
A luz que entra suavemente pelas janelas no alto e dão um toque de ouro e sombras aos recantos da mesquita. Um coisa impossível de descrever.
E aí… a Espanha cristã, quando reconquistou seus territórios, resolveu construir uma Catedral dentro da Mesquita. Derrubar parte do templo islâmico mais antigo e singular do ocidente, para elevar um templo cristão.
Pelo amor de Deus! O tal sujeito que teve essa ” brilhante” ideia não podia aguentar tanta beleza noutra crença?
Não, parece que não. Além de acreditarem ser aquele solo sagrado, não podiam deixar o símbolo de uma religião que não fosse a cristã dominando a paisagem da cidade.
A Catedral foi construída dentro da Mesquita.
Sorte que uma alma sensível àquela arte aproveitasse parte do templo islâmico como decoração do templo cristão.
Eu soube que aconteceu até uma manifestação pública do conselho de Córdoba , na época, pregando nas ruas e praças da cidade a pena de morte para os pedreiros, carpinteiros e peões que aceitassem o contrato para trabalharem na demolição da Mesquita.
Mas, deixando as crenças de lado, a arte que podemos contemplar no templo misto é o que vale, seja qual for a religião do visitante.

A Catedral é espetacular.

As capelas, o coro, o altar maior… tudo construído com esmero para superar a beleza da Mesquita… embora, na minha opinião, o que restou do templo muçulmano é o que empresta à Catedral de Córdoba seu singular encanto.

Ninguém sai incólume a tanta formosura.

Ps: Algumas fotos foram retiradas da Internet com a intenção de ilustrar o texto.Se alguém se sentir malcom isso, avise-me.

Categorias: Cicatrizes da Mirada | Tags: , , , , , | 3 Comentários

Avistando África… desde Tarifa.


* Escrevi este post nos últimos dias de Abril. Mas só pude publicar agora.

Estou em Tarifa. Um privilégio, eu sei. Todos aí em plena jornada de trabalho e eu aqui, nesse maravilhoso rincão do planeta, aproveitando esses mares e a extraordinária luz do pueblo mais meridional da Europa enquanto assisto a recuperação do tornozelo quebrado do meu pirata, depois de mais de um mês imobilizado num gesso até o meio da perna.
Saímos todos os dias pela manhã para andar à beira mar na Playa de los Lances de forma a fortalecer a articulação e restituir à musculatura da sua perna direita a flexibilidade de sempre.
Não há ninguém na praia a essa horas, a água dói de tão gelada, o vento sopra sem piedade, uivando como um lobo assustado. As gaivotas, que em outras circunstâncias pousam na areia molhada em busca de pequenas delicias, tampouco são muitas por aqui. Uma ou outra mais atrevida arrisca planar sobre nossas cabeças mas logo desiste do esforço se vai para a Isla de las Palomas, ligada ao povoado por um estreito caminho de pedras que tem o Mar Mediterrâneo de um lado e o Oceano Atlântico do outro ou seguem para a Punta del Santo, bem na entrada do pequeno porto.
Além delas e de nós na paradisíaca paisagem apenas os grandes navios que cruzam o Estreito de Gibraltar, a beleza do brilho prateado do sol sobre a água encrespada e, sob nossos pés, as espetaculares correntes de areia fina que deslizam pelo solo até o mar empurradas por rachas de um vento infernal.
Aqui o vento tem o protagonismo que merece. Ninguém sai de casa sem informar-se sobre ele. E quem está pelas ruas não tem assunto melhor que esse para começar uma boa conversa de pé na esquina. Com o sotaque cantadinho, como o dos pernambucanos, o tarifenho cumprimenta com um ” ái…el levante parece que afloja esa tarde” e outro responde “ná…parece que vá seguir hasta maña…” Eles não terminam as palavras, nunca. Se é para dizer nada dizem ; todo, dizem cansado é cansao, e pronunciar o S é quase impossível. Fastidiado é faftidiao…e por aí vai.
É preciso uma atenção redobrada para entendê-los, tanto na pronúncia quanto no vocabulário, enquanto contam sobre os ventos que assolam a cidade.
O fato de ser poente ou levante faz uma enorme diferença, mas a violência com que o vento sopra é que dá as ordens. Um levante muito forte pode deixar todo mundo dentro de casa. Os barcos pesqueiros não saem ao mar. E se dura demasiado tempo as pessoas tem dores de cabeça, enjôos, mal humor.
Mas cuidado! um poente forte é muito pior. Além de causarem todos os outros efeitos, a intensidade dele e o tempo que perdura, dizem, pode levar à loucura.
Pois deve ser verdade…
Eu fico quase louca com ambos. Agora é levante, dos medianamente fortes. A areia entra pelos buracos da minha cara, o cabelo dá nós impossíveis de desfazer, uma irritação na boca do estômago, uma vontade de não-sei-o-quê.
Sair de casa é enfrentar o vento e perder a batalha. Ficar em casa é pior.
Minha sogra fecha todas as portas e janelas, a pressão atmosférica oprime minha cabeça e meu peito, fico sem lugar e sem vez. Na televisão os programas variam de novelas a novelas, de novelas a novelas ( ela assiste todas ) e os filmes de fim de noite já passaram milhares de vezes. O novo livro que eu trouxe ainda não me atracou, a Internet não funciona…Murakami já acabou! ( Por sinal, amei o Tokio Blues).
Prefiro sair por aí. Enrolo um lenço na cabeça, como as muçulmanas, óculos escuros, jeans e tenis. Vaya figurinha! Se vou a favor, o vento me ajuda . Se é para ir contra ele, custa viu! Mas eu vou.
Descobri um cyber legal. Vende cadernos maravilhosos, agendas lindas, livros, lápis, canetas, papéis de carta, envelopes…tenho que me conter para não arrasar de comprar, sou fanática por tudo isso. Ah… e dez computadores em WiFi. Yesss! Esse seria um negócio que eu gostaria de levar.
A “fauna” tarifenha que frequenta o lugar já seria um boa distração. Cada figura! Ficaria ali mais do que o necessario, desde que não tivesse que pagar por minuto…
Entoncesss… me voy. Só de pensar em voltar para a casa fechada a cal e canto, com o vento silvando como louco pelas frestas da janela, sigo andando pelos becos do pueblo, entrando em todas as lojas, futucando os belíssimos anéis de prata, os braceletes coloridos, as roupas alternativas que eu adoro.
Em Tarifa ninguém se veste como em sua própria cidade. Aqui todo mundo veste como em Porto de Galinhas, com a diferença de mais um poquinho de frio. Acho que os dois pueblos têm a mesma característica. Gente de toda parte vive aqui. Gente de toda parte passa por aqui. Isso altera muito a personalidade do lugar e ele vai ganhando um jeito próprio de ser, falar e vestir. Gente que faz tranças rastafari no cabelo, que usa roupas coloridas, rendas de algodão, sandálias de couro com desenhos originais e tecidos rústicos, pedras artesanais. Gente com cara de gringo , vestido de qualquer jeito caminha por todos os becos, por toda parte, mas que importa? A cidade vive disso. Dos campeonatos de kitesurf, windsurf, cinema africano, música flamenca.
Algumas marcas de roupas nascidas aqui são famosas por toda a Espanha.
Gosto das camisetas da El Niño ( originalmente moda masculina e agora, devido ao imenso sucesso , unisex ) e da moda divertida da Mala Mujer, mas esta … tcs.tcs…só é divertida para jovens magras. Como sempre, as prendas sao fabricada para as sílfides e além disso as que podem mostrar a barriga. Tudo coladjinha e curtchinha, tá! . Tamanho G é 40 de largura e 38 de altura. Tóin! Tem graça não, viu!
Bueno… também são um tanto caras. Parei numa vitrina para ver uma túnicazinha leve de algodão, mas quando vi que custava 91 euros, desisti. Resmunguei um comentário para mim mesma… “noventa-e-um euros, vaya!” e a dona, que estava por perto escutou. Com prepotência e cara feia me encarou dizendo que “dentro tinha coisas mais caras”… hahaha!
Sorri para ela. Tá bom, mujer. Que fique com tudjin
Tarifa é tão linda, que basta que o vento relaxe para o bom humor me acompanhe a toda parte!

O que se pode fazer? Comprar uma shilaba ( túnica árabe ) dessas largas e gostosas de vestir. São lindas e custam entre vinte a trinta e cinco euros…
Vou fazer isso da próxima vez.
* Mais sobre Tarifa AQUI

Categorias: Cicatrizes da Mirada | Tags: , , | 4 Comentários

Mais um sonho…

Se você quer desaparecer por uns dias, esquecer o que lhe preocupa ou apenas viver um sonho dentro de um belo cenário medieval… vá à Praga.
Se um dia quiser estar sozinho com alguma nostalgia ou apenas viver uns poucos dias de solidão programada…vá à Praga.
Tá bom. Eu entendo. Não quer nem pensar em solidão e sequer passar perto da nostalgia? Então escolha muito bem a companhia… e vá a Praga.
Mas cuidado… eu disse que escolha muito bem a companhia. Não é uma cidade para se ir com gente que “dá por visto” o que se apresenta. Não é uma cidade para gente que não se impressiona com a beleza e menos para gente que acredita que por já ter visto muitos lugares bonitos este é apenas mais um.

Praga é mais que uma cidade bonita… é para ser vivida com toda a intensidade.
Ela respira história, cultura e é preciso deixar-se perder pelas ruas para ir descobrindo-a pouco a pouco. E a beleza está por toda parte, acredite.
Em cada esquina se desenha ao fundo uma torre escura, uma cúpula de igreja ou de palácio, um prédio cuja fachada está trabalhada com pinturas, brasões ou esculturas.
É preciso saber gastar um tempo razoável diante dessas coisas. Se possível ler algo antes sobre sua história, seus heróis, seus personagens… senão a gente corre o risco de não sentir nem escutar a pulsação desta fantástica cidade.
Há muito escrito por aí… ainda estou lendo, mesmo depois de já ter voltado. Decidi escrever assim, sem grandes detalhes… só pulsando… Pra-ga! Pra-ga! Tum-tum…Tum-tum!
Praga e música são quase sinônimos… Então aproveite para por em dia todos os seus sonhos de assistir espetáculos maravilhosos (a preços razoáveis) sem fazer fila meses antes para comprar os ingressos. Os concertos são oferecidos a cada dia pelas ruas. É só pegar o folheto distribuído aqui e ali e comprar as entradas no mesmo dia. Delícia!
Se numa igreja medieval há um concerto de música erudita, entre.
Se no Teatro Nacional há um ballet clássico, assista.
Se no Teatro Imperial há uma ópera e mais adiante uma apresentação do mais típico Teatro Negro de Praga… programe-se e vá a ambos.
E haverá! Há concertos todos as tardes e noites. Fica até difícil escolher entre tanta oferta.
Nas outras horas, deleite-se com apresentações de violinistas ou grupos de Jazz pelas ruas mesmo.
Agora… se tiver a sorte feliz de ver um velho (da foto do slideshow ) que canta com uma triste voz rouca enquanto toca um estranho e antiquíssimo instrumento musical de madeira… fique ali com ele por um tempo, imagine outra época, outra gente caminhando por aquelas ruas. Emocione-se com seu sorriso escuro, fixe-se em seus olhos úmidos… e por favor, não deixe de dar-lhe uma moeda. O momento que ele proporciona a gente não tem preço, mas a moeda será bem vinda…
Praga é assim… emoção por toda parte.
Tem mais… se num fim de tarde fria quiser sentar num dos cafés diante do relógio atronômico, o mais antigo do mundo em funcionamento para tomar um gostoso chocolate quente, enquanto observa os turistas se agrupando diante do mesmo à espera de que os apóstolos apareçam nas janelinhas e ouvir os sinos badalarem a hora em ponto, faça isso… e agradeça ao universo por estar aí neste momento…
Se já for noite, peça um vinho… tinto, é claro. E nem ligue para o gemido de decepção dos turistas diante da simplicidade do ritual do relógio… para mim é justo isso o que encanta do lugar.
Depois…não tenha pressa… caminhe mais e mais, cruze as pontes, namore com o rio, jante ao sons dos violinos ou coma salsichas com mostarda no meio da rua, entre numa livraria e compre algo de Kafka , algo de Dvorák… e prometa a si mesmo voltar.
Praga é lugar para se voltar…
Já prometi.
E eu tenho a melhor companhia…

Categorias: Cicatrizes da Mirada | Tags: , | 10 Comentários

Ítaca…Konstantinos Kaváfis.

Uma amiga brasileira escreveu-me perguntando o que significava Ítaca. É que em um dos meus textos sobre a história de amor que eu vivi, e que está nos arquivos aí ao lado, ela leu uma citação à famosa poesia do poeta grego Konstantinos Kaváfis.
Resolvi republicá-la aqui. Não só para ela, mas também para todos os amigos que frequentam esta página. Mesmo já conhecendo-o, é sempre bom reler belos poemas, é sempre bom rever nossas posições nesta viagem fantástica e complexa que é a vida.
Chegar a esse momento da minha não foi nem fácil nem simples, mas valeu viver cada fase do caminho…
Escute a sua alma. Não tenha pressa de chegar a Ítaca.
O caminho vale pelo que ensina…
*Em especial dedico este post a Meg, minha tristonha amiga paulista e a Sherazade, que está construindo a sua casa.
Dedico também a mim mesma, que estou reconstruindo minha casa virtual aqui.
Prefiro a tradução em Espanhol, talvez por ter sido a primeira que li e que me apaixonou. Mas para quem não compreende o idioma, há uma tradução brasileira ao final do poema.
Desfrutem …


Si vas a emprender el viaje hacia Itaca,
pide que tu camino sea largo,
rico en experiencias, en conocimiento.
A Lestrigones y a Cíclopes,
al airado Poseidón nunca temas,
no hallarás tales seres en tu ruta
si alto es tu pensamiento y limpia
la emoción de tu espíritu y tu cuerpo.
A Lestrigones ni a Cíclopes,
ni a fiero Poseidón hallarás nunca,
si no los llevas dentro de tu alma,
si no es tu alma quien ante tí los pone.
Pide que tu camino sea largo.
Que numerosas sean las mañanas de verano
en que con placer, felizmente
arribes a bahías nunca vistas;
detente en los emporios de Fenicia
y adquiere hermosas mercancías,
madreperla y coral, y ámbar y ébano,
perfumes deliciosos y diversos,
cuanto puedas invierte en voluptuosos
y delicados perfumes;
visita muchas ciudades de Egipto
y con avidez aprende de sus sabios.
Ten siempre a Itaca en la memoria.
Llegar allí es tu meta.
Mas no apresures el viaje.
Mejor que se extienda largos años;
y en tu vejez arribes a la isla
con cuanto hayas ganado en el camino,
sin esperar que Itaca te enriquezca.
Itaca te regaló un hermoso viaje.
Sin ella el camino no hubieras emprendido.
Mas ninguna otra cosa puede darte.
Aunque pobre la encuentres,
no te engañará Itaca.
Rico en saber y en vida, como has vuelto,
comprendes ya qué significan las Itacas.

Konstantinos Kaváfis
Se partires um dia rumo a Ítaca faz votos de que o caminho seja longo, repleto de aventuras, repleto de saber. Nem os Lestrigões nem os Ciclopes nem o colérico Posídon te intimidem; eles no teu caminho jamais encontrarás se altivo for teu pensamento, se sutil emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes nem o bravio Posídon hás de ver, se tu mesmo não o levares dentro da alma, se tua alma não os puser diante de ti.
Faz votos de que o caminho seja longo. Numerosas serão as manhãs de verão nas quais, com que prazer, com que alegria, tu hás de entrar pela primeira vez um porto para correr as lojas dos fenícios e belas mercancias adquirir: madrepérolas, corais, âmbares, ébanos, e perfumes sensuais de toda espécie,quando houver, de aromas deleitosos. A muitas cidades do Egito peregrina para aprender, para aprender dos doutos. Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar. Mas não apresses a viagem nunca. Melhor muitos anos levares de jornada e fundeares na ilha, velho enfim, rico de quanto ganhaste no caminho, sem esperar riquezas que Ítaca te desse. Uma bela viagem deu-te Ítaca. Sem ela não te ponhas a caminho. Mais do que isso, não lhe cumpre dar-te. Ítaca não te iludiu, se a achas pobre. Tu te tornaste sábio, um homem de experiência, e agora sabes o que significam Ítacas.

Tradução de José Paulo Paes

Categorias: Outro Fala Por Mim, Poesia & BelosTextos | Tags: , , | 10 Comentários