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A Ria de Vigo…um colírio!


Às vezes a semana nos dá de presente uma vista assim.
Quem dera fosse mais frequente.
O casamento de um amigo nos levou à Galícia.
O ganho extra foi aproveitar, por dois dias, o verde perfumado dos montes, as rias que se podem ver desde a estrada como se fossem dedos marítimos que penetram a terra galega levando os frutos do mar até a porta dos habitantes.
Além do mais, poder provar a comida saborosa e escutar o sotaque gostoso dos galegos.
A gente volta renovada… pena que é tão longe e não se possa ir sempre e sempre!
Eu adoro Madrid… mas sinto uma falta do mar!

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Sonhar é preciso…

Dizem que o universo conspira a favor dos nossos sonhos e cada vez estou mais segura de que isso é a pura verdade.
Eu tenho muitas histórias para contar sobre essas “conspirações” em minha vida, inclusive a maior de todas que é o motivo pelo qual vim parar na Espanha.

Mas, uma coisa é preciso avisar: os sonhos tem que ser compartilhados. Isto significa que eles precisam ser materializados na fala ou pelo menos na escrita. Nada de guardar os sonhos dentro da cabecinha. Eles precisam passear por aí, respirar ar puro… contaminar o planeta com a sua força, espalhar-se pelo cosmos.
Não é necessário que a gente saia contando para todas as pessoas… mas algo do mundo precisa saber que eles existem para que a energia se expanda.
Então… de vez em quando me lembro que é preciso continuar sonhando em voz alta, sempre, sempre. Há um universo a espera, a escuta! Ele tem provado uma e uma outra vez que é assim!
Isso aqui está parecendo livro de auto ajuda americano… mas não é.
Pois sim.
Isso tudo só para contar o que significou para mim o que aconteceu no início deste mês. Estive em Frankfurt, na Alemanha. Fui para assistir um concerto da Orquestra Sinfônica da Radio de Frankfurt, dirigida atualmente pelo diretor Paarvo Järvi, um discípulo de Leonard Bernstein. A famosa orquestra se apresentava com o Orfeon Donostiarra, um coral espanhol fantástico formado por quase cem homens e mulheres bascos. Além disso, duas excelentes solistas, Nathalie Dessay (soprano) y Alice Coote (mezzosoprano), completavam o espetáculo.
O repertório era a Sinfonía nº 2, “Resurreção” de Mahler.
Respire!
Eu mal podia respirar!
Desde o ano passado planejávamos uma viagem à Frankfurt para visitar o jovem músico da família, meu enteado. Ele conseguiu, com seus 25 anos, o que muitos músicos maduros tentaram e não conseguiram: a vaga de solista de oboé nessa prestigiosa orquestra europeia.
Uma vaga que não era preenchida nos últimos 5 anos, embora a orquestra estivesse sempre avaliando candidatos. Agora ele está nos últimos meses de experiência e anda precisando de uns mimos para aguentar a pressão que tem recebido da orquestra.
Queríamos organizar a visita, mas com a mudança de casa, o final do ano com hóspedes, os parcos recursos depois de tantos gastos, etc, etc… fomos deixando passar o tempo.
Mas, por obra e graça do… universo conspirador, estivemos falando desse sonho mais uma vez na segunda feira passada. Sabíamos sobre as datas do concerto, mas as condições do momento não estavam muito propícias para gastos extras.
Passamos a noite da segunda feira falando sobre a maravilha que seria poder estar lá… e vai e vem… e vem e vai….
Bueno, na quarta feira, abri meu correio eletrônico e começei a apagar os spams de sempre. Entre eles uma página de ofertas de viagens, pois se não tenho qualquer possibilidade, nem abro as propostas.
Tóin. Parei com o click do mouse no ar. A oferta era assim: “Vá a Frankfurt por 30 euros”. Heim?
Entrei na página e era isso mesmo, 60 eurozinhos, ida e volta. Sem pensar comecei a fazer os cálculos, casa grátis, comida baratinha e gostosa ( cerveja e salsicha hahahahha…), convites gratis para o concerto. Perfeito!
Mais facilidades que isso impossível!
Telefonei para meu pirata ( o pai da criatura, que baba de vontade de vê-lo tocar numa orquestra como esta ) e em dez segundos estava resolvido: vamos!
Pois fomos…
Na quinta feira estávamos voando para Frankfurt.
Passamos a noite passeando por Berguerstrasse, uma rua movimentadíssima, com bares e restaurantes rodeados por plantas e flores, as cadeirinhas nas calçadas, muita gente andando de bicicleta, um ar de tranquila satisfação na cara das pessoas… um clima primaveril delicioso! Que encanto!
Ao final desta rua encontramos um pequeno parque chinês, com flores de cores incríveis!

Até aí… tudo bem tranquilinho. A coisa começou a complicar quando quisemos comer e recordamos, “de repente não mais que de repente”, que as coisas ali estão escritas em Alemão e, na maioria das vezes, sem tradução para o Inglês.
Descobrimos uma lanchonete gostosa para comer as famosas salsichas que eu adoro. Como pedi-las olhando o menu sem fotos?
Arrisquei de primeira: “¿Hablas Español?” Perguntei sorrindo ao rapaz que me atendeu. “Un poquito”. Respondeu-me, divertido e simpático.
Pronto. Resolvido o problema. Nos próximos minutos trocamos muitos gestos entremeados por palavras soltas de Espanhol, Inglês e Alemão ( só ele, claro! ) e consegui minhas salsichas, de dois tipos diferentes, com os molhos desejados e duas cervejas muito gostosas. Total: 10 euros.
Feliz. Feliz.
Tive a sorte, inclusive, de conseguir falar em Português num restaurante italiano, pois o garçom falou de futebol e quando soube que eu era do Brasil começou a expressar-se perfeitamente em nosso idioma… Hohoho! Ele disse que havia dividido um apartamento com brasileiros e por isso sabia falar Português.
Então, sempre que eu podia testava se o garçom falava algo de Espanhol, ou de Inglês ( mais fácil ), mas na maioria das vezes não foi necessário o exercício da mímica porque estávamos acompanhados por nosso querido músico, que já domina o Alemão.
Na sexta feira conhecemos o centro histórico.
Existem algumas construções que guardam o estilo anterior à Segunda Guerra Mundial, mas a destruição da cidade pelos bombardeios foi quase total. Quatro casitas de nada sobreviveram e foram restauradas, mantendo o clima de Alemania do início do século passado. O resto é novinho em folha.
Alguns arranha céus criam no horizonte um contorno moderno de espelhos e sombras. Mas eu não gosto de arranha céus… mesmo os bonitos.
Subi em um deles para ver a cidade lá de cima. Tá. Normal. Não foi lá grande coisa. Gosto mesmo é dos bairros cheios de árvores e casas antigas, pracinhas com fontes e chafarizes, beira de rio, parques…
E realmente aí foi possível encontrar, restauradas, casas e edifícios lindos.
Então aproveitamos para passear pela beira do rio, tomar mais uma cervejinha em um lindo bar montado numa barca e ver os patos, as embarcações a remo, a bicicleta-cervejaria manejada por jovens cheios de alegria e cerveja ( funciona como um balcão com um grifo de cerveja onde os jovens pedalam e bebem ao mesmo tempo circulando entre uma ponte e outra da cidade).
E… finalmente, na sexta feira à noite nos dirigimos emocionados para o concerto no Alte Oper de Frankfurt, o antigo Teatro de Ópera, quase totalmente destruído pelos bombardeos e recuperado, graças a campanha cidadana contrária a sua demolição, numa obra que durou quase trinta anos.
As pessoas que lutaram por isso podem estar orgulhosas de sua façanha. O edifício é precioso.
A sinfonia de Mahler abarca a alegría de viver, a união com a natureza, o medo existencial, a confiança e as visões do além. Mahler levou seis anos para completar a composição, que foi interpretada completa pela primeira vez pela Filarmônica de Berlim em 1895.
É simplesmente fantástica!
O primero de seus cinco movimentos, composto em 1888, teve durante algunos anos una existência independente como poema sinfônico. No verão de 1892 Mahler acabou o segundo, terceiro e quarto movimento mas ainda faltava o final que ele queria que fosse apoteótico. Para imprimir mais grandiosidade ele incorporou a parte coral, como Beethoven em sua Nona Sinfonia.
Durante o funeral de um famoso diretor, Hans von Bülow, em 1894, Mahler se inspirou para a conclusão da sua sinfonia, compondo o Juízo Final e a Ressurreição cantados por um coro que representa os santos e bem-aventurados.
O Orfeón Donostiarra é especialista nos pianíssimos e altos necessários para interpretar a peça.
E a solistas convidadas eram simplesmente fantásticas!
Quase duas de horas de concerto, sem parar nem para respirar.
Eu não sei como contar isso, mas imaginem 100 vozes de coro cantando e mais de 120 músicos tocando, às vezes ao mesmo tempo.
A Segunda Sinfonia de Mahler tem momentos de uma doçura encantadora, por exemplo, quando a voz da soprano “conversa” com o oboé. E tem também momentos de grandiosidade alucinante, quando a percursão soa como trovões e todos os demais instrumentos soam ao mesmo tempo.
É surpreendente quando o maestro dirige um som de metais que vem de fora do recinto e quando esses sons começam a mesclar-se com os sons dos instrumentos dentro do palco.
É de tirar o fôlego.
Ficamos imóveis até que os aplausos explodiram. Nem sei por quanto tempo aplaudimos de pé. Eu estava em transe… e nem me recordo de quantas vezes o diretor e as sopranos entraram e saíram do palco.
Bom… só me lembro que em algum momento eu me dei conta de que sonhara tanto poder estar pessoalmente num concerto como esse! E que antes de viver na Europa, enquanto vivia na casa do Poço da Panela escutando os maravilhosos discos de música clássica do Lorde, quando sequer podia dar-me ao luxo de ter um sonho assim, sonhava o sonho dele… acompanhando divertida e fascinada seus movimentos de mãos e imaginária batuta.
Meu pai sonhava dirigir todas as orquestras do mundo. E ele fazia isso muitas vezes, em pé, bem no meio de seu gabinete… com os olhos meio cerrados enquanto os auto falantes do som, em sua máxima potência, derramavam música pelo ar. Sua plateia, composta por 4 pessoas, minha mãe e seus três rebentos, também aplaudia de pé.
Uhaaóoooo! Bravo! Bravo!
Ele sempre tinha que trocar os auto falantes, que nunca suportavam o volume em que escutava os movimentos mais violentos das suas sinfonias e óperas mais queridas.
A sorte é que sem vizinhos, além das árvores e do rio, não havia quem se queixasse do barulho e podíamos “assistir” seus concertos a qualquer hora do dia ou da noite.
Pois sim… enquanto aplaudíamos diretor e orquestra em Frankfurt, com especial carinho ao excelente músico da família, José Luís, o solista de oboé que parecia brilhar entre tantos outros músicos justamente porque seu pai estava ali para homenageá-lo, aproveitei… e também dediquei a noite ao Lorde, meu pai.
E quis, no fundo do meu coração, que realmente existisse outra dimensão nos estágios de vida e que ele pudesse saber-ver-estar-ouvir-sentir tudo naquela noite através de mim.
Sábado acordamos em estado de graça. Passeamos todo o dia pela cidade e decidimos ficar em casa à noite, cozinhar algo e botar a conversa em dia relaxadamente.
Pois foi outra boa decisão. Choveu cântaros e relâmpagos iluminaram a cidade. Uma delícia escutar música em casa e conversar intimidades…
Domingo, pé de cachimbo, areia fina, bate no sino… caminhar pelas ruas, entrar nas igrejas, umas cervejinhas aqui, comida japonesa ali, fazer as malas e voltar para casa.
Madrid estava igual… nem percebeu que fugimos.
Agora ando tirando uns sonhos antigos do baú. Estou querendo assistir em concerto, ao vivo, Carmina Burana. Só não escolhi ainda onde.
Mas já comecei a soprar para os ventos…
Ps: Soube agorinha mesmo, vejam só… “O Alte Oper de Frankfurt é o antigo teatro de ópera da cidade, um edifício carregado de história desde que se inaugurou em 1880 com a presença do kaiser Guillermo II. Nele se produziu a estreia mundial de Carmina Burana, de Carl Orff, em 1937.
Ho Ho Ho…

Acho que pode ser lá mesmo. Já vou conferir a programação!
Esse universo!

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Zaragoza.


Eu tenho uma cunhada que vive nesta linda cidade.
É uma pena que a gente não aproveite mais sua proximidade com Madrid para visitá-la mais amiúde. São coisas que passam, quando a gente se deixa tragar pela rotina dos dias e dos compromissos sociais.
Quando eu vivia no monte e não conhecia ninguém por aqui, viajava mais.
Tudo tem seu preço…

Zaragoza ( a pronúncia do nome é linda, linguodental… eu gosto ) é uma das mais antigas cidades da Espanha e fica a apenas duas horas de Madrid, de carro.
Vale a pena visitá-la.
Além de bela, tem muito o que contar sobre a história da Espanha, pois foi um importante centro político e cultural da Península Ibérica durante várias civilizações.
Quando habitada pelos íberos, chamava-se Salduba. Quando entraram os romanos, foi transformada por César Augusto em uma colônia militar e chamou-se Césaraugusta. Quando chegaram os árabes, rebatizaram-na com o nome de Sarakosta e finalmente, quando voltaram os cristãos, Zaragoza. Mais bonito, heim?!
Em qualquer destas circusntâncias, ela foi importante.

Às margens do rio Ebro, a cidade mostra o perfil fidalgo de seus palácios e casario, sua catedral e igrejas, com orgulho e paixão. E eu, com meu enamoramento incurável pelos rios e pontes, poderia ficar um dia diante deste… ouvindo seus cantos e prantos, reconhecendo as músicas que todos os rios conhecem e sabem cantar.
Mas, quando a gente não está sozinho tem que acompanhar os passos e as ânsias dos moradores, que querem mostrar tudo de uma só vez. E para muitos, mostrar os monumentos é mais importante do que mostrar o rio. Não sabem que vivi quase toda a minha vida em cumplicidade com um deles… e que isso ajudou a construir minha sensibilidade.
Assim, segui meus guias na minha primeira visita, uns anos atrás, mas internamente prometi voltar lá, só para sentar perto do rio, render minha homenagem a ele… ouvi-lo. Escutar o ruídos guardados na ponte romana, seus ecos e suas lendas misturados ao barulho constante da água que corre.
Voltei em Setembro, para ver a Expo Zaragoza 2008, uma exposição mundial justamente sobre a água do planeta e fiquei encantada com as obras de recuperação das margens do Ebro. Parece que o povo redescobriu o rio.
Mas isso eu conto depois, pois quero aproveitar o post e recuperar algo do vi na primeira visita, principalmente as fotos, que são lindas.
Então…
Abandonei o rio e ao dobrar uma esquina e atravessar uma cortina de vento, dei de cara com uma enorme praça. A maior de toda a Espanha. E fiquei muda com a beleza da Plaza del Pilar.
Caminhar lentamente pela praça é uma delícia, tudo em volta é lindo.

Naquele dia só pude visitar a Basílica del Pilar e depois descansar um pouco na praça admirando suas fontes e esculturas.
A Basílica del Pilar é consagrada a uma virgem que, segundo contam, apareceu ao Apóstolo Santiago, 40 anos depois da morte de Cristo. Era uma figura pequena mas possuía uma aura extremamente brilhante e estava sobre um “pilar”. Quando desapareceu deixou o pilar para que Santiago construísse aí um templo que fosse um símbolo da fé aragonesa.
Li em algum lugar que foi a mãe de Cristo, em carne e osso, que veio de Jarusalém para incentivar o trabalho do Apóstolo que evangelizava por essas terras. E que o pilar presenteado por ela serviria de pedra fundamental para a construção do primeiro templo marianista da cristandade.
Aposto que se for lendo mais por aí aparecem mais explicações.
Não importa… não conheço nenhuma história contada duas vezes que seja a mesma. Imaginem depois de quase dois mil anos!
Hoje, a imagem da Virgem del Pilar, esculpida em madeira, repousa sobre um pilar de jaspe de 2 metros de altura.
Sua capela, de estilo neoclássico, é impressionante e a adoração de seus fiéis também. A cada hora se reza uma missa. E está sempre lotada.
Por trás do altar está seu camarim, suas jóias e seus mantos. Pinturas de Goya adornam o teto e peças de ouro e prata seu altar.
E sabem qual é o nome de mulher mais comum nesta cidade?
Tá. Eu sabia que era fácil.
Basílica del Pilar-Cúpulas de cerâmica
O primeiro templo foi construído para substituir um templo visigótico e foi destruído por um incêndio no ano de 1434, do qual salvou-se – por milagre – a imagem da Virgem. Durante o século XVI foi restaurado e novamente derrubado no século XVII, para dar lugar a atual construção.
A Basílica é absolutamente grandiosa.
Por fora se vê as dez cúpulas de azulejos coloridos, a cúpula central e as quatro torres.
Por dentro as enormes colunas, os tetos abobadados, o coro e seus tronos trabalhados, o antigo órgão…
Basílica del Pilar- Interior

E a gente perde o fôlego diante do Altar Maior.
Esculpido em alabastro por Damián Forment a princípios do século XVI é uma das poucos obras que se conservam da antiga igreja gótica.
Fiquei muda outra vez. O alabastro dá uma sensação de transparência… e parece que a gente pode, ao tocar na pedra, atravessá-la… sentir a vida por dentro da obra.
A cor é extraordinária, porque absorve a luz e depois espalha-a por todo o recinto.
Bárbaro!

Não posso dizer nada, nem é necessário…
A música ambiente era um canto gregoriano suave e persuasivo, aturdindo a gente como um mantra.
É incrível o que se pode sentir num templo como este.

Dá vontade de rezar, chorar, meditar.
Dá vontade até de ir para o céu… se ele for assim tão artístico.
Acho que esta é uma das intenções dos templos. E conseguem, viu!
A gente sai com vontade de ficar.

 

Lá fora o rio cantava e a praça encantava com seus pombos, suas crianças coloridas, seus velhos de guarda chuva, sua atmosfera de vida terrena… tão artística quanto…
Mas parece que a gente leva a música dentro do coração e ela continua soando, soando…trazendo com ela um silêncio que abafa os ruídos da rua.

 

Fiquei por ali, sentindo o vento e aproveitando a paz que havia se instalado por debaixo da pele.
Parece que quando a gente se sente assim, o mundo inteiro fica mais bonito.

* As fotos são retiradas da Internet, mas podem ser vistas em tamanho maior dando um click sobre elas.

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Outra Vez em Galicia…

Esta foto é a vista aérea de Ferrol. Dizem que lá chove… e muito.
Eu sei, eu sei. Mas a Galícia é tão espetacular em seus verdes e azuis que fiquei com vontade de plantar a tenda do futuro naquelas paragens. Juro.

É tudo tão lindo!
Por toda a costa ocidental da Espanha o mar brinca de apaixonado e avança para dentro da terra como se seus largos dedos molhados quisessem abraçar as curvas da dama desejada e acariciá-las com seu tato frio…
E ela, feliz, se deixa tomar pelo abraço e ri alto através dos gritos das gaivotas, pede aos ventos que soprem brisas úmidas por sobre os campos e cidades e desenha coisas bonitas no horizonte com a cumplicidade do sol. Juntos eles criam cantos e recantos espetaculares, montes e praias de todas as cores e formas, calhas, ilhas, estreitos e discretos esconderijos onde se pode navegar, pescar, pensar, meditar, tomar o sol, namorar…

Por toda parte da costa atlântica e das Rias Gallegas (os dedos molhados do mar se chamam assim) multiplicam-se os pueblos de lindas casas de pedra e vidro, como estas de Mugardos, algumas com suas parcelas de terra cultivada em ricas hortas, vinhedos, fruteiras. Além disso há centenas de pequenos portos e milhares de barcos pesqueiros de todos os tamanhos e cores, como numa impressionante exposição de aquarelas antigas.
Recordei o meu avô, pai do Lorde, que pintava um quadro atrás do outro, sempre com o motivo da pesca, dos marinheiros e pescadores de antigas paisagens do Janga, sabendo, é claro, que as Rias Galegas não tem nada a ver com a larga praia da minha infância.
Mas os elos da cadeia inconsciente não respeitam essas barreiras e trazem – junto com as cores alegres dos barcos pesqueiros e os cheiros de conchas, algas e sal gallegos – as imagens felizes de meus quatro ou cinco anos, na praia pernambucana. E eu gosto disso…

A amiga que estava comigo disse que era melhor não fantasiar baseada nas poucas experiências que eu tive nas terras do noroeste espanhol, porque quando o céu desaba – e ele sempre desaba! – passa o ano inteiro caindo justamente ali. Que pena!
Da chuva eu gosto muito, mas não suportaria viver sob ela por meses e meses seguidos, sem previsão de mudança duradoura.
Sim, eu adoro as semanas que precedem o Outono, quando a chuva cai caudalosa e intempestiva sobre meus campos e perfuma a terra, lava as árvores e enche os córregos de felizes ruídos.
Adoro sair para caminhar sentindo o sabor da clorofila na boca…mas se ela perdura, perdura e perdura, com o tempo vou me aninhando, ficando triste, lenta, cinza, espectral.
Preciso do azul do céu, da luz amarela sobre as copas das árvores, da magia do arco íris despedindo-a e trazendo de volta o brilho do sol.
Agradeço todo santo dia a sorte que tive ao vir viver justamente em Madrid, onde até no Inverno o céu é alegre e brilhante, com tons de azul absolutamente incríveis.
Pois sim… em Galícia chove demais. E quase sempre o ano inteiro.
Dizem que eu tive muita sorte nas três ou quatro vezes vezes que estive ali, pois São Pedro estava de férias e deixou algum anjo desavisado em seu lugar. Resultado: chovia em toda a Espanha, menos na Galicia. Bárbaro!
Desta vez estive ainda mais agradecida do despistado anjo porque o meu programa incluía uma navegação à vela com o meu Lobo do Mar.

Hum! Que delícia de dia.
Brisa forte, mar gelado – a gente se acostuma com tudo nessa vida! – um barco diferente do que havíamos imaginado, mas afinal um dia muito gostoso.
Descobri uma habilidade que não conhecia (sei dar rumo ao barco) e desmistifiquei o medo de enjoar. Passei muito bem, obrigada, apesar de saber que as condições de vento e de mar eram muito favoráveis e não havia motivo algum para marear-me. De qualquer forma serviu para garantir, num futuro próximo, a realização daquela fantasia tantas vezes escrita nas longas cartas apaixonadas que trocávamos anos atrás: Navegar juntos e sozinhos por algum lugar deste planeta.
Da Galícia eu trouxe lindas imagens guardadas na câmara e na memória, na boca um gosto de maresia e no coração um desejo de talvez.
Quem sabe em algum momento da vida eu passe lá uma estação inteira e não apenas uns poucos dias de férias.

É preciso apostar nos sonhos para que eles se realizem.
E escrevê-los sempre me ajudou bastante. Por isso estou aqui, de volta ao meu pequeno pedaço de universo virtual, tão abandonadinho, coitado! para tentar, mais uma vez, retomar meu prazer de escrever. Desta vez a ausência tem o nome de inferno astral… hohoho!
É verdade que eu já perdi as contas das vezes que pedi desculpas aos meus visitantes (me encanta que ainda venham aqui!) e prometi melhorar minha constância, mas cada vez tenho menos paciência com minhas impossibilidades tecnológicas. Assim que eu sou muito consciente que esse perdão eu nem mereço.
Enfim… deixemos para lá esse repetitivo assunto de minhas prolongadas ausências e voltemos à Galícia.

Estive em Marin, hospedada na casa de um amigo. A vista é simplesmente encantadora, a casa confortável e acolhedora, mas pouco permanecemos aí porque o que nos rodeia possui tal força atrativa que passamos os dias enfeitiçados entre um pueblo e outro, uma cidade e outra, visitando praias e antigas fortalezas, exprimentando mariscos e crustáceos estranhíssimos e saborosíssimos (dedicarei um post a eles)…
Como eu não escrevi sobre a minhas anteriores visitas, vou tentar resumir num único relato e talvez caibam em dois ou três posts as deliciosas descobertas que fiz dessa linda região espanhola. Vou começar por uma receita de polvo…hummm!
Sim?
Ps: Estou estreando o upgrade da Verbeat e ainda não estou muito bem com a configuração, as novas possibilidades, etc…
Mais dificuldades para mim, aprender tudo de novo! Uff!

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Viajando Para o Brasil…

Onze da noite de um domingo.
Mas não qualquer domingo. Um domingo especial.
Durante o dia inteiro não consegui comer, nem dormir, nem ler. Coisas de fazer todo domingo sobraram nas mãos, no corpo, na mente. Eu só queria engolir o tempo.
Assim saí de casa com o coração derretido de emoção, mesmo com o frio de 6 graus.
Aeroporto de Barajas, Madrid. Voo da Ibéria, marcado com antecedência de três meses, com destino ao Rio de Janeiro.
Depois, um dia no Rio com a ilusão de um encontro marcado com Manoel Carlos, meu amigo do blog Agreste, para um almoço com paisagem de Pão de Açúcar e tudo.
Ao final, coroando meus sonhos, um voo direto para Recife, com direito a um grande grupo de amigos queridos nos esperando no Aeroporto dos Guararapes.
Dois anos sem ver meu país e minha gente, sem sentir o calorzinho (insuportável) de suas cidades e (adorável) de suas praias! Dois anos sem ir à Recife.
Que delícia de ansiedade!
Resisti bravamente à tentação de ir ao cabeleireiro antes da viagem. Nem pensar em arriscar a sair da Espanha com os cabelos rosa-mercúrio-cromo ou esticados como os de uma japonesa. Botas no armário. Escolhi uns mocassins cômodos e leves. A gente aprende, né? Esqueci os chocolates, companheiros inseparáveis das longas viagens.
Pois é…
Dois anos sem tomar um avião, sem encarar as bruxas dos aeroportos e eu já havia esquecido que elas existem.
O vôo sairia às 01:45 da madrugada do dia 20. Daria para uma boa cochilada e já acordaríamos no Rio. Perfeito!
Mas não saiu.
Depois de manter-nos dentro do avião por mais de três horas, o comandante avisou que havia um defeito nos equipamentos eletrônicos e que em 20 minutos estaria tudo resolvido. Não estava.
Suspirei e pedi calma a mim mesma. Desta vez estava com olhos-de-mar-azul ao meu lado. Não deixaria que meu ânimo se esvaísse. Afinal, iríamos juntos ao Brasil. JUNTOS! Isso era o único que importava!
Saímos do avião para um aeroporto vazio e com tudo fechado. Meu estômago colado nas costas de tanta fome e sede. Cadê meus chocolates?!
Levaram-nos para uma lanchonete onde podíamos escolher um sanduíche e um refrigerante ou um sanduíche e um refrigerante. Uma fila enorme e um único atendente com cara de “que-é-que-vocês-estão-fazendo-aqui-a-essa-hora? “
Um grupo de baianos reclamava seus direitos a uma funcionária da Ibéria que nos olhava como se fôssemos todos refugiados de guerra, dando-lhe trabalho extra na madrugada tranquila de Barajas. Uma senhora negra, com cara de entender de santos e orixás disse que o avião ia cair, que ela tinha sonhado, mas que suas orações fizeram com que o mesmo não decolasse de nenhuma forma. Exigia que trocassem-nos de avião. Naquele ela não iria mais! Uma perua loura-oxigenada com umas botas salto 15cm, levando uma caixa de madeira com um gato dentro exigia comida para seu bichinho aos gritos. Sem opção. Sanduíche e coca cola era tudo o que havia. Tentei ver a cor do gato, mas não deu. Ui!
Depois de quase uma hora levaram-nos por escadas e esteiras rolantes para tomar um ônibus para um hotel em Madrid com a maravilhosa notícia de que o nosso voo só sairia às 16:00 horas.
Heim!?
Por que meus encontros com os aeroportos tem que ser assim? Por que eles não gostam de mim?
Engoli o cansaço e enfrentei outra fila no recepção do hotel para conseguir um quarto. Não podia acreditar que minha linda viagem estivesse reduzida a isso. Dormir num hotel a 30 quilômetros de casa.
Depois de um sono leve e faminto de apenas três horas, um café reforçado e um breve contato através da Internet com os amigos avisando sobre o atraso, estávamos novamente entulhados na recepção do hotel.
Fila para o almoço, fila para o ônibus que nos levaria de volta ao aeroporto, fila para embarcar finalmente para o Brasil.
Na sala de embarque a Ibéria nos informou que não garantia reembolso de nenhuma conexão perdida que não estivesse acoplada às passagens da companhia. Isso queria dizer que perderíamos o vôo da Gol e – quem sabe – o dinheiro também.
O grupo de baianos queria falar com um supervisor. A loura do gato surtou e quase bateu na atendente. Os fumantes procuravam o metro quadrado pintado de azul para acenderem os malditos e execrados cigarros. Eu entre eles.
Telefonei para a agência em Recife e pedi que mudassem meu vôo para as duas e meia da madrugada, já que chegaríamos no Rio às 23:00 horas. Tudo bem, pagaríamos a taxa e a diferença de preços entre as passagens previamente reservadas. Dos males o menor. Eu queria chegar! E sem surtos.
Não ia dar para ver o Manoel Carlos também. Que pena!
A baiana conferia o nome do avião e garantia que era outro. Dizia que seu sonho salvara todo mundo de uma desgraça. Acreditei.
Dois passageiros não compareceram ao embarque. Tiveram que abrir o compartimento de bagagens para retirar as “suspeitas” maletas dos ” desaparecidos”.
Uma hora e meia depois do previsto, isto é às 17:30 da tarde, o avião decolou de Barajas rumo ao Galeão.
Ufff…. agradeci a Deus por deixar uma poltrona vazia ao meu lado onde eu poderia esticar um pouco as pernas e tentar cochilar durante o voo.
Sim?
Não. Três rapazes atrás de minha poltrona resolveram tomar cervejas e contar piadas em Inglês a noite TODA! Gargalhavam e batiam os pés, os desgraçados!
Quase fui buscar a baiana lá na frente para ela fazer uma oraçãozinha das boas…
Onze horas depois eu era um maracujá amarfanhado, com olheiras magníficas, todas as juntas doloridas e odiando a Inglaterra profundamente.
No Galeão, às 00:30 da noite, corri para o boxe da Gol para não perder o prazo do check in para Recife, enquanto olhos-de-lago-cinza-chumbo esperava a nossa bagagem.
Aquele bichinho que come meu estômago, meu fígado e se instala em meus intestinos nas tensões aeroportuárias, despertou com ganas de matar-me.
A Gol informou-me gentilmente que minha reserva estava garantida para Recife, mas que APENAS MEU NOME CONSTAVA DA MESMA.
HEIM?!!
Como assim???
Pois assim… A agência só garantiu meu lugar no voo. Não havia outra vaga. Estava lotado.
Minha cara deve ter sensibilizado o rapaz do boxe. Disse-nos que esperasse um pouco para ver se faltava alguém no trecho que vinha de São Paulo. Era muito provável que ocorresse um no-show. Sempre acontece, ele garantiu.
Esperamos. Esperamos. Esperamos.
Uma hora em pé diante do boxe da Gol. Ainda bem que estava perto do banheiro, pois o bichinho estava adorando a brincadeira das bruxas!
Finalmente o rapaz nos chamou… e disse que INFELIZMENTE não podíamos embarcar juntos. Não faltou nenhum passageiro.
Nem sempre o sempre acontece. Ainda mais quando as bruxas resolvem divertir-se às minhas custas.
O próximo voo para Recife sairia às 15:30hs da tarde, com co-ne-xão em Salvador e chegada prevista para as 20:15hs em Recife!!!
Comecei a chorar.
Para melhorar o meu astral, meu lindo e calmo companheiro de viagem resolveu brincar dizendo: ” Da próxima vez que viajarmos para o Brasil, você vai na frente e uma semana depois eu vou. Nos encontraremos no aeroporto de Recife.”Eu queria rir, juro! Mas minha boca não conseguiu. Estava atordoada de cansaço, de frustração, de raiva. Ele tem mais senso de humor do que eu nestas horas. Ainda bem.
Caminhamos pelo enorme corredor vazio até os boxes da VARIG e da TAM, atrás de outras possibilidades. Fechado. Tudo fechado!
Voltamos para o boxe da Gol. Teríamos que aceitar a miserável proposta. Inferno!
Chegar em Recife estava parecendo mais impossível que voltar para Madrid! E no aeroporto do Rio nem metro quadrado azul tem. Quem quiser fumar tem que sair do recinto! Sair por onde se estávamos no segundo andar???
Desafiei as bruxas. Fumei três cigarros de uma vez! No meinho do corredor! Queria ver se alguém vinha prender-me!
O moço da gol ficou ainda mais sensibilizado com minha agonia e disse-me que “não tinha certeza, mas havia escutado que a Ibéria estava pagando um hotel para os que perderam suas conexões.”
Corremos – melhor dizer “arrastamo-nos”- para o outro lado do corredor. Ainda não entendi por que tudo que você tem que fazer num aeroporto está exatamente no ponto oposto de onde você está. Nunca, nunca, nunca!!! está logo ao lado.
Acho que neste momento, as bruxas cansaram de brincar e foram dormir.
No boxe da Ibéria a moça simpaticamente atendia aos últimos passageiros do voo. Escutei que ela estava dando passagens em outras companhias para quem havia perdido a conexão. Nem pensei duas vezes. Apresentei a ela minhas reservas na Gol e ela me ofereceu dois lugares na TAM às 8:40 da manhã, direto para Recife, além de um quarto no hotel Luxor do aeroporto.
E claro, estava do outro lado do enooooooorme corredor.
Eram quase quatro horas da madrugada quando entramos no último quarto vago do hotel. Era nosso até às 6:00hs.
Deu-nos duas horas de sono, uma ducha e um café da manhã.
Quando o voo da TAM sobrevoou Recife e pousou no aeroporto dos Guararapes eram 10:30hs da manhã da terça-feira.
Um mar verde esmeralda nos esperava, alguns amigos queridos e persistentes, um calor abafado de 32 graus…
Emprestaram-nos um carro, um telefone e um apartamento…
Nos encheram de beijos e abraços, convidaram-nos para uma cerveja…
As bruxas dormiam ainda, com certeza.

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