Cicatrizes da Mirada

Queridos, um dia desses eu descobri que um amigo virtual, que vive em Petrópolis, no Brasil, havia guardado num arquivo, meus primeiros posts, escritos em 2003. Ele teve a delicadeza de me enviar um CD para que eu não os perdesse para sempre. Não é lindo isso? Não é maravilhoso esse laço que nos envolve através da escrita?

Para meu desfrute pessoal, vou guardá-los aqui e talvez compartilhá-los com novos leitores.

O blog começou como Impressões depois passou a ser Cicatrizes da Mirada. Esse é meu primeiro post.

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Meus amigos.

Encontrei uma forma de repartir com vocês minhas impressões sobre a experiência maravilhosa que estou vivendo. Descobri o mundo dos blogs!

A Espanha surpreende em cada esquina…

Eu vou tentar escrever sobre as cidades, os museus, as histórias, a culinária… quer dizer, sobre o que me der vontade.
É mais ou menos como um e-mail coletivo!

Espero que gostem!

 
Quinta-feira, Março 27, 2003

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Vem menina, vem…

740_10151198882352607_1227432150_nEu prometo que vou cuidar de você.  Prometo nunca mais te dizer as coisas que eu te digo quando estou assim, confusa. Prometo não  te tratar mal. Prometo que não vou mais te deixar sozinha, nem fingir que tu não existes, só porque eu estou cada dia mais lenta, mais pesada,  mais insegura…

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Maldito Karma, de David Safier.

maldito karmaGanho de presente e logo na primeira página descubro que Kim vai morrer no final do dia. Merda! Eu bem que estou querendo coisinhas mais leves do que mortes anunciadas. Mas… quando Kim renasce formiga… a coisa começa a ficar gostosa…

Esta é uma estória para a gente contar na rede, às crianças. Sim. Sim. Elas vão amar o Maldito Karma, de David Safier.

Eu disfrutei como uma criança apesar de que o livro foi escrito para adultos. As crianças tendem a  crer na magia do pensamento, mas eu aproveitei  e me vi sendo formiga, porquinho-da-índia, vaca… que destinos! A gente fica realmente um pouco mais budista e empatiza mais com os animais.  Sim.

Pimenta nos olhos dos outros  não é refresco!

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Dez anos…

mala-e-cuiaDez anos atrás eu desembarquei na Espanha de mala e cuia… os saltos das botas se desfazendo pelo aeroporto, o coração dando pulos de felicidade, disposta a reconstruir minha vida num caminho completamente novo.Era o exílio… mas eu estava segura de que seguia meus sonhos mais importantes e que jamais estaria sozinha. Dez anos é tempo grande, sim. Dá para muita estória. Algumas eu já contei pelos blogs anteriores, outras se perderam do registro e ficaram apenas na memória. Demorei tempo demasiado em escrevê-las… uma pena.  Tantas outras se espalharam por dentro de mim, transformaram a minha vida devagarzinho, dia a dia… mas eu seria incapaz de recordar uma a uma agora.

Durante alguns anos eu escrevi sobre as viagens, sobre as cidades de Espanha, sobre os caminhos de terra de Santorcaz. Era um tempo bom, de paz e serenidade, vivendo no campo, com horas a mais todos os dias. Dava para aprender a mexer no computador, criar um blog e ainda por cima escrever um ou dois posts por semana. Fiz tantas viagens lindas, aprendi tanto sobre a história desse país, seus personagens extraordinários, sua arquitetura e sua gastronomia exuberantes… me apaixonei mais,cada dia mais… por tudo que agora fazia parte da minha vida.

Me apaixonei mais  também por olhos-de-mar-azul e isso me surprendeu muito. Como era possível amar tanto?

“Sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando, mas quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois.” Guimarães Rosa.

Às vezes eu sentia um medo de que algo passasse. Era beleza demais para ser “ a vera” E eu sentia pânico em imaginar que se acabaria de repente _ puft, se acabou, era de mentirinha uhhuuuuu!  Quando a idéia me pegava de surpresa, eu parava de respirar, olhava em volta…esperava… e nada. Tudo seguia de verdade.  Por quanto tempo ainda, se nada é para sempre?   Arregalava o olho no meio da noite, contava as estrelinhas pregadas no teto do quarto, sem luz, apagadinhas… olhava para ele dormindo ao lado, ressonando de leve … e sorria. Que delícia! As vezes eu ria de mim mesma. Se todas as mulheres do mundo se queixam que seu homens ressonam, porque eu gosto? Será que só eu sinto essa sensação de “lar”, de cumplicidade morna e doce? Aff… tô cada dia mais brega, pensava. E pior… isso deve ser muito perigoso!

Eu achava tão, tão, tão improvável esse negócio de amor à primeira vista, de reconhecer o sujeito no mesmo primeiro minuto… de amar mais cada dia. Eu achava que isso era mentira. Se voce ama, ama. Pronto. Já está. Que história é essa de sentir que está amando mais? Mas estava. Estava.

Bom…seis ou sete anos pasamos naquela casa. Dando voltas pelos caminhos de  areia e bosques de pinheiros, alimentando esquilos no jardim, recebendo os amigos, novos ou antigos, escutando música bem alto nas noites de lua, de chuva ou de neve, aprendendo a cozinhar e a compartir a vida e os sentimentos como nunca antes. Era tão forte que eu acho que ajudamos  um bocado de gente a ser mais feliz só sendo feliz junto deles…

Isso é bonito de contar. As pessoas diziam que se sentiam bem em nossa casa. Sentiam uma harmonia tranquila, um amor contagiante. Lá eles sentiam vontade de dançar, abraçar, conversar  sobre seus sonhos. Lá eles se beijavam mais. Uma vez uma das visitas disse que em uma semana em nossa casa havia beijado seu marido mais do que  o beijou nos ultimos dois anos… hahahhaha! A gente ria… mas era verdade.  As pessoas refletiam sobre suas vidas e seus sonhos. Alguns tomaram decisões importantes de mudanças porque começaram a acreditar que era possível ser feliz e que não era nada de outro mundo, nada de mágica transcendental… era só acreditar. E  agir. Viver.

456661_10151283467431893_1283091419_oPois… agora estou contando dez anos de Espanha. Dez anos com olhos-de-mar-azul. Ainda parece impressionante a nossa estória. Ainda conto às pessoas que me perguntam, _ “ versão curta ou versão longa?”_  com  a voz embargada e o sorriso de louca perdida. E eles ainda se surpreendem. De tudo. Do antes e do agora. Tanto se surpreendem com o que nos aconteceu antes que eu tenha vindo para viver uma vida tão diferente da minha no Brasil, quanto que tenhamos ido comemorar os dez anos juntos numa casa rural perdida nas montanhas, num lugar  quase desconhecido chamado La Coma y la Piedra, um pueblo minúsculo, em Lérida.  Se surpreendem que tenhamos passeado de mãos dadas pelos caminhos de neve, sozinhos, depois de 10 anos! Nós não. Para nós estar sozinhos no meio do mato é terreno conhecido, é repetir os primeiros tempos em Santorcaz, é confirmar quanto é natural estar um com o outro.

Um dia desses, eu estava tentando fazer um comentário no blog de Carolina, Una Vuelta del Destino,   e não entendi porque o WordPress me pedia um password. Mandei uma mensagem para o site e recebi uma nova senha. Surpresa! O blog Lingua de Mariposa estava todo aqui. Sem as fotos, mas com todos os textos e comentários.Consegui recompor as fotos dos posts e salvar tudo. Descobri também que um amigo brasileiro tem os arquivos do Cicatrizes da Mirada e que vai me mandar por correio. Quem sabe eu possa juntar os dois aqui. Eu gostaria.

Eu sei que a época brasileira dos blogs está meio fora de moda, desde que o Facebook e o Twiter entraram no cotidiano das pessoas, mas fiquei com uma pena danada de acabar com este.. Era tão bom escrever, guardar, ler depois…

Então acho que vai ser assim, como era bem no comecinho. Eu escrevia só para mim e  para alguns gatos pingados que me seguiam. Vou fazer isso… e vamos ver se ele consegue sobreviver, mais uma vez.

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Para mim mesma…

Eu guardei este texto para voltar a ele muitas vezes. Também para poder compartilhar com minhas velhas e novas amigas… Acho que ele é perfeito, embora  eu esteja, finalmente, tirando essa palavra do meu dicionário…

VOCABULÁRIO  FEMININO.

por Leila Ferreira

Se eu tivesse que escolher uma palavra- apenas uma -para ser item obrigatório no vocabulário da mulher de hoje, essa palavra seria um verbo de quatro sílabas: descomplicar. Depois de infinitas (e imensas) conquistas, acho que está passando da hora de aprendermos a viver com mais leveza: exigir menos dos outros e de nós próprias, cobrar menos, reclamar menos, carregar menos culpa, olhar menos para o espelho.

Descomplicar talvez seja o atalho mais seguro para chegarmos à tão falada qualidade de vida que queremos – e merecemos – ter. Mas há outras palavras que não podem faltar no kit existencial da mulher moderna. Amizade, por exemplo. Acostumadas a concentrar nossos sentimentos (e nossa energia…) nas relações amorosas, acabamos deixando as amigas em segundo plano.  E nada, mas nada mesmo, faz tão bem para uma mulher quanto a convivência com as amigas. Ir ao cinema com elas (que gostam dos mesmos filmes que a gente), sair sem ter hora para voltar, compartilhar uma caipivodka de morango e repetir as histórias que já nos contamos mil vezes- isso, sim, faz bem para a pele.

Para a alma, então, nem se fala.

Ao menos uma vez por mês, deixe o marido ou o namorado em casa, prometa-se que não vai ligar para ele nem uma vez (desligue o celular, se for preciso) e desfrute os prazeres que só um aboa amizade consegue proporcionar. E, já que falamos em desligar o celular, incorpore ao seu vocabulárioduas palavras que têm estado ausentes do cotidiano feminino: pausa e silêncio.

Aprenda a parar, nem que seja por cinco minutos, três vezes por semana, duas vezes por mês, ou uma vez por dia- não importa -e a ficar em silêncio.  Essas pausas silenciosas nos permitem refletir ,contar até 100 antes de uma decisão importante, entender melhor os próprios sentimentos, reencontrar a serenidade e o equilíbrio quando é preciso.

Também abra espaço, no vocabulário e no cotidiano, para o verbo rir.

a-madura-con-arrugasNão há creme anti-idade nem botox que salve a expressão de uma mulher mal-humorada. Azedume e amargura são palavras que devem ser banidas do nosso dia a dia. Se for preciso, pegue uma comédia na locadora, preste atenção na conversa de duas crianças, marque um encontro com aquela amiga engraçada – faça qualquer coisa, mas ria. O riso nos salva de nós mesmas, cura nossas angústias e nos reconcilia com a vida.

Quanto à palavra dieta,cuidado: mulheres que falam em regime o tempo todo costumam ser péssimas companhias.  Deixe para discutir carboidratos  e afins no banheiro feminino ou no consultório do endocrinologista… Nas mesas de restaurantes, nem pensar.  Se for para ficar contando calorias, descrevendo a própria culpa e olhando para a sobremesa do companheiro de mesa com reprovação e inveja, melhor ficar em casa e desfrutar sua salada de alface  e seu chá verde sozinha.

Uma sugestão?

Tente trocar a obsessão pela dieta por outra palavra que, essa sim, deveria guiar nossos atos 24 horas por dia: gentileza. Ter classe não é usar roupas de grife: é ser delicada. Saber se comportar é infinitamente mais importante do que saber se vestir.  Resgate aquele velho exercício que anda esquecido: aprenda a se colocar no lugar do outro, e trate-o como você gostaria de ser tratada, seja no trânsito, na fila do banco, na empresa onde trabalha, em casa, no supermercado, na academia.

E, para encerrar, não deixe de conjugar dois verbos que deveriam ser indissociáveis da vida :sonhar e recomeçar.  Sonhe com aquela viagem ao exterior, aquele fim de semana na praia , o curso que você ainda vai fazer, a promoção que vai conquistar um dia, aquele homem que um dia (quem sabe?) ainda vai ser seu, sonhe que está beijando o Brad Pitt …  sonhar é quase fazer acontecer.

Sonhe até que aconteça..

E recomece, sempre que for preciso: seja na carreira, na vida amorosa, nos relacionamentos familiares. A vida nos dá um espaço de manobra:  use-o para reinventar a si mesma.

E, por último (agora, sim, encerrando), risque do seu Aurélio a palavra perfeição. O dicionário das mulheres interessantes inclui fragilidades,  inseguranças, limites. Pare de brigar com você mesma para ser a mãe perfeita, a dona de casa impecável, a profissional que sabe tudo, a esposa nota mil.  Acima de tudo, elimine de sua vida o desgaste que é tentar ter coxas sem celulite, rosto sem rugas, cabelos que não arrepiam, bumbum que encara qualquer biquíni.

Mulheres reais são mulheres imperfeitas.

E mulheres que se aceitam como imperfeitas são mulheres livres.

Viver não é (e nunca foi) fácil, mas, quando se elimina o excesso de peso da bagagem (e a busca da perfeição pesa toneladas), a tão sonhada felicidade fica muito mais possível.

Leila Ferreira, está fazendo tratamento de um câncer de mama.

 

 

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Os Bons Tempos de Outrora…

Este texto vale a pena estar aqui. E vou publicá-lo justamente em contraposição a um artigo de Danusa Leão, divulgado nas redes sociais, onde ela explica porque não tem mais graça ir a Nova York. Ela diz que, se até o porteiro do prédio já pode ir, que é que ela vai fazer lá? Quem ficou sem graça foi eu,  quando li. Mas ela nem merece que eu divulgue a sua cretina opinião . Prefiro divulgar essa aqui.

Isaac Asimov

Sou muito dado ao otimismo com relação à ciência e tecnologia, e, nas minhas conferências, costumo pintar uma imagem rósea do futuro, contanto, naturalmente, que os novos conhecimentos sejam usados com sabedoria  (o que, devo admitir, não tem sido a norma). Nem sempre a plateia concorda comigo. Lembro-me de uma sessão de perguntas e respostas em que um jovem se levantou e contestou minha afrmação de que a tecnologia havia melhorado a qualidade de vida humana.

– Você teria sido mais feliz na Grécia Antiga? – perguntei.
– Teria – afirmou o rapaz, com a segurança que só os jovens parecem ter.
– Como escravo? – perguntei.
O rapaz se sentou sem dizer mais nada.

O problema é que as pessoas recordam os “bons tempos de outrora” – uma expressão que me causa profundo desagrado – de forma extremamente parcial. Para muitos, a Grécia Antiga signifca sentar-se na ágora e bater papo com Sócrates. Roma Antiga é freqüentar o Senado e discutir política com Cícero. Eles não se lembram de que nas duas civilizações apenas uma pequena elite aristocrática se dedicava a essas atividades e a imensa maioria da população era composta de trabalhadores braçais, camponeses e escravos.

É muito bonito romancear a Idade Média e sonhar em ir para a guerra usando uma armadura reluzente, mas para cada “cavaleiro andante” havia noventa e nove servos e aldeões que eram tratados pior que animais. Fico irritado com os admiradores incondicionais da América rural do século dezenove, quando tudo o que se fazia, aparentemente, era ficar sentado no quintal bebericando sidra. Além disso nos períodos de recessão não havia nenhum senso de responsabilidade social para com os desempregados; e a total inexistência de remédios eficazes, incluindo os antibióticos, fazia com que a mortalidade infantil fosse elevadíssima e a expectativa de vida muito menor que hoje em dia.

Também não me deixo impressionar pelos que olham para uma mansão construída em 1907 e exclamam, com um suspiro: “Puxa, não fazem mais casas assim! Veja quantos detalhes! Veja quanto capricho!”. Perco a paciência com as pessoas que estão sempre falando dos velhos tempos, quando os artesãos tinham orgulho de sua profissão e faziam de cada objeto uma obra de arte única, enquanto que hoje em dia máquinas sem alma produzem cópias e mais cópias de artigos baratos.

Vamos colocar as coisas na sua verdadeira perspectiva. Você sabe por que era possível construir lindas mansões em 1907? Porque a mão de obra era barata, de modo que você podia se dar ao luxo de contratar dezenas de empregados para construir a mansão e dezenas de criados para mantê-la  funcionando. E por que a mão de obra era barata? Porque a maioria das pessoas vivia em um estado permanente de fome e miséria. O fato de que alguns podiam ter mansões estava ligado de perto ao fato de que quase todos viviam em casebres. Da mesma forma, quando os artesãos produziam laboriosamente obras de arte, essas obras eram em número muito reduzido e constituíam o privilégio de uma reduzida casta de patrícios (ou nobres, ou banqueiros); o povo tinha que se virar mesmo era com casas de pau a pique. Se as mansões são raras hoje em dia porque a população em geral vive muito melhor, fico satisfeito com isso. Se os objetos utilitários são menos artísticos para que mais pessoas possam desfrutá-los, acho que a mudança foi para melhor. Isso me torna aquele personagem terrível, um “liberal” que se preocupa com o bem estar dos pobres, e não com os yuppies? Acho que sim, mas há mais. Meu ponto de vista também é bastante prático e egoísta.

Minha primeira mulher uma vez se queixou de que não conseguia encontrar alguém para ir à nossa casa uma vez por semana para fazer alguns serviços domésticos. Ela disse:
– Gostaria de ter vivido há um século, quando era fácil arranjar criados.
– Pois eu, não – repliquei – Porque nós seríamos os criados.

Acontece que não descendo de uma longa linhagem de aristocratas, de modo que certamente não seria um dos poucos privilegiados destinados a gozar das boas coisas da vida. O mesmo é verdade para a maioria dos que recordam com saudade os “bons tempos” de outrora, mas tenho consciência disso, e eles, aparentemente, não.

Os Bons Tempos de Outrora foi publicado no primeiro número da edição Brasileira de Isaac Asimov Magazine. Baixe outras edições e livros clássicos de ficção científica aqui:
http://www.4shared.com/dir/s3tnI9Ay/LIVROS_SCI-FI.html

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Neuras & Medos

De repente eu acordei no meio da noite para coçar a pele sob o braço. E depois, acordei outra vez para coçar o outro braço… e segui acordando toda a noite para coçar outras partes do meu corpo. Por volta das quatro da madrugada minha mente já havia disparado…que-diabo-é-isso?

O medo desceu com seu manto negro sobre a consciência e a razão. Como assim?

Minha amiga de toda a vida havia me contado que um sintoma de seu linfoma foi começar a coçar o corpo inteiro. sem razão de ser.  Primeiro pensou que era uma intoxicação alimentar, depois uma alergia, depois… era o linfoma mesmo.Eu tinha tomado uma simples sopa. Tinha tomado uma ducha antes de dormir, nunca fui alérgica a nada… e que coceira miserável era aquela que já estava me enlouquecendo?

Mal pude esperar que amanhecesse para correr para o telefone com o livreto da assistência médica na mão. Liguei para o primeiro dermatologista da lista, mas descartei-o assim que soube que ele só tinha hora para dentro de dois meses. Dois meses? Sem dormir e com esse monstro dentro do sangue? Vou descascar antes, vou morrer antes. Como assim dois meses?

Liguei para o segundo, o terceiro, o quarto… nada antes de duas semanas. No quinto nome, descobri pelo sobrenome da médica que ela havia estudado comigo no colegial. Pronto! “Use a imaginação, não deixe a secretária impedir-lhe de falar com ela.”  Assim que a atendente disse alô eu falei tudo correndo que era para ela não entender nada, deixando apenas as palavras importantes “urgência, amiga, infância, família”… Ela passou a ligação, eu me identifiquei e convenci minha ex-colega de escola da urgência em ver-me.

Pleaaaaaaaaaaaaaaaaaase! Estou louca de coceira…

Ela me pediu para ir no final do expediente. Pelo menos para acalmar-me. Ok. Mas no mesmo dia, já, hoje!O dia passou como se fosse um filme em câmara lenta. Eu imaginava meu futuro com desespero, como contar à minha mãe… e pior, à minha filha? Como assim? Não comi. Não trabalhei, não conversei… tentava não me coçar, mas não conseguia controlar-me muito. A pele da barriga e dos braços já apresentava umas bolinhas vermelhas, e ardia. Me meti embaixo do chuveiro e fiquei ali, com água fria sobre a cabeça, esfriando os miolos por muito tempo. Quando comecei a ter frio me enrolei na toalha e me meti na cama outra vez, uma dormidinha não me cairia mal. Até que a coceira recomeçou… e os maus pensamentos com ela.

À tarde eu já havia passado por todo o inferno de exames que minha amiga havia passado em São Paulo e já estava desesperada com o diagnóstico. Não pude mais esperar e corri para o consultório da médica muito antes da hora combinada. Como pode uma hora se transformar em seis? Pois foi como se.

Quando ela abriu a porta do consultório para mim, entrei já com lágrimas nos olhos. E quando ela pegou a lupa e acendeu o super holofote de luz branca sobre minha pele, eu parei de respirar.

-Hum…

-Que?

-Isso está me parecendo… escabiose.

-E? Isso é…

-Vulgarmente chamada de sarna.

-Heim?! Tem certeza?

-Absoluta.

-Hahahahahah! Sarna é???? Tem certeza, né? Hahahahahah… que maravilha!

Ela não entendia o motivo das minhas risadas histéricas e minha alegria. Nunca um cliente havia ficado tão eufórico com um diagnóstico desses. Eu deveria estar morta de vergonha… e estava. Mas sorria de felicidade. Como assim Sarna? Onde peguei isso? Hahahahaha! Ela disse que procurasse o agente transmissor, trocasse a roupa de cama todos os dias e lavasse a roupa vestida separada dos outros ocupantes da casa.

Saí do consultório com uma receita simples, sentindo-me leve como uma pluma. “Sarna. Eu SÓ tenho sarna. Onde e como eu peguei isso é outro problema. Um minúsculo problema.” Descobri rapidinho. Simples. Minha filha levava, todas as tardes, para a minha cama, o bebê da vizinha, que tinha uma empregada empelotada de escabiose.
Eca! hahahahhahahahahha… mas era só isso.

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Por causa de Lucia…

Pois é…

Um dia abri meu Facebook e encontrei uma cartinha assim:

“Olá Nora, Desculpe-me por estar neste seu espaço.

Há tempos atrás lia de vez em quando suas mensagens no blog língua de mariposa. Gostava de sua partilha que me parecia uma pintura com os detalhes que davam vida a narrativa que fazia. Fiquei um bom tempo depois sem entrar nele, mas ficou arquivado no meu FAVORITOS junto com outros assuntos que julgo interessantes. Hoje, me veio a vontade de entrar lá e ver qual novidade Nora estaria partilhando após um bom tempo e me surpreendi com o seu anúncio do final do blog já ocorrido desde o ano passado. Gostei da imagem da passagem – o Bardo de seu blog – “virar poeira de estrelas”. Enfim, quero deixar registrado que gostei de ter navegado em seu blog (e o seu foi o primeiro blog que acessei por indicação de uma amiga – normalmente não tinha interesse em blogs), em sua inteireza nas partilhas e até nos silêncios. Te desejo Paz e todo o Bem.

Com carinho Lucia ”

Gostei muito e guardei. Tentei apenas agradecer e seguir meu caminho… mas não pude. Acho que vou voltar a escrever. Não sei se manterei o nome do blog… talvez ele escolha outro. Algo se partiu nas muitas vezes que teve que ressussitar. Sigo feliz, Lucia. Isso é o melhor de tudo.

Obrigada pelo carinho.

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Olá…

Bem vindos! Esta é a nova casa do Língua de Mariposa.

 

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Uma lição de vida… por Chimamanda Ngozi Adichie.

Um dia assisti estes vídeos com uma palestra desta jovem escritora nigeriana e me encantei. Chama-se ” O PERIGO DE UMA ÚNICA HISTÓRIA”
Guardei o link para voltar a vê-los, uma ação que repito sempre que algo me impresiona à primeira vista. Gosto de saber como reajo a um segundo ou terceiro contato.
Cada vez que os vejo, mas gosto deles. E mais quero comparti-los.
É uma pena perceber como as vítimas da educação para o desconhecimento e a crença numa “meia” história deixam-se levar , entre gritos raivosos ou silêncios condescendentes, para a ignorância sobre si mesmos, sobre o seu povo, seu país, seu passado e seu futuro.
Claro está que há um motivo: para os governantes é mais fácil manipular gente assim.
Hoje o dia está estranho, nublado e quente. Acho que vou ali na Fnac comprar o livro desta inteligente criatura.
Depois conto.

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Os Olhos Amarelos dos Crocodilos.

Nada melhor do que viajar com um livro gostosinho e leve para ler, não é?
Pois sim. Los Ojos Amarillos de los Cocodrilos*, de Katherine Pancol é justamente assim. Um livro que não demonstra ter profundas pretenções literárias, mas que leva a gente a participar das emoções de seus personagens como se eles fossem nossos vizinhos do bairro.
Essa novela poderia ser contada no rádio, como antigamente, ou num filme suave de algum diretor francês com sensibilidade para explorar os pequenos detalles da personalidade de seus personagens, seus diálogos internos, os quase imperceptíveis movimentos de medo ou coragem de homens e mulheres dos nossos dias, a grande solidão que assola a sociedade moderna.
Não esperem uma trama complexa, nem grandes arrobos de profundidade.
O livro, pelo menos para mim, foi uma experiencia interesante justamente pela sua singeleza. Eu o li numa das praias de Pernambuco, debaixo de um guarda sol e tomando água de coco…
E os crocodilos, verdadeiros no livro, para mim simbolizavam apenas os “bichos imaginários” que ameaçam as pessoas que não agem para transformar seus sonhos em realidade.
Joséphine, o personagem principal, praticamente ensina a como escrever uma novela. Achei isso muito interessante. Quem sabe, depois de ler este livro, eu crie coragem, finalmente, de organizar-me para escrever o meu. Nem que seja para ser lido pela minha filha aos meus netos numa tarde de sombra e agua fresca em Porto de Galinhas.
Taí…Gostei desta imagen. Gostei muito.

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Duas pérolas…

Um sábado destes, saí pela manhã brillante de Barcelona, sem nenhum objetivo além de respirar o ar fresco entre as ruas estreitas do bairro gótico, observar a diversidade da fauna humana que cruza suas calçadas… sentir o pulsar de seus corações, quase todos enamorados pela cidade.
Quer programa melhor?
Pois sim.
Garimpar as pérolas que guardam as esquinas de pedras ancestrais de seus palácios e igrejas.
Concerto ao ar livre em BarcelonaEm uma delas, encontrei um grupo de pessoas que cercava um músico cego. A voz da criatura se elevava sobre um centenar de cabeças e cantava maravilhosamente as antigas canções de toda a minha vida. Sentei num canto perto e fique ali, não sei  por quanto tempo, mas fiquei com ele, seu concerto e minha história. Que sensação tão boa de felicidade! Eu sorria sozinha.
Diante de mim havia um homem que, de olhos fechados, vivia cada música, estalando os dedos e movendo levemente a cabeça no ritmo de cada canção. Entre uma e outra canção, as pessoas mudavam, umas saíam aplaudindo, outras paravam, adiando um pouco a chegada ao seu destino. Umas poucas, como eu e o sujeito dos olhos fechados, estavam sem destino certo, entregues a cada descoberta, sem nenhuma vontade de perder o espetáculo inteiro. Ficamos até que o homem começou a guardar sua guitarra. Comprei seu disco. Chama-se Aaron Lordson. Foi uma boa idéia. Escuto-o agora e sorrio levemente sentindo outra vez o perfume do vento marítimo de Barcelona, experimentando outra vez a sensação de felicidade singular que aquele momento me trouxe.
Arias de óperas nas calçadas de BArcelonaAndei mais um pouco, tentando perder-me o mais possível pelos belíssimos becos cheios de varandas floridas, quando outra pérola me fez parar. Especialíssima! E esta estava praticamente sozinha. Um senhora linda, com um cabelo preso num coque antigo, cantava arias de ópera sobre um balcão elevado da calçada de um palácio. Ao seu lado, uma cadeira com una cestinha para as moedas e um cartaz que dizia “Aulas de Canto Clássico, fone tal e tal” .
A senhora já não tinha tanta força na voz para os tons mais altos e então entrecortava-os com classe e doçura. Uma emoção funda me invadiu. Quase chorei… Que presente!
Então sentei do lado oposto da calçada e deixei que ela cantasse Mimi, de La Bohème, para mim, enquanto os passantes, turistas apressadinhos com seus mapas na mão, evitavam parar para não precisar colocar uma moeda em sua cestinha.
Pedi licença para fazer a foto e deixei minha moeda, agradecida e enfeitiçada pela sua beleza.
Precisava guardar esse momento para compartilhar aqui. Depois de tanto tempo sem computador e sem Internet decente, seria uma boa reentrada em cena. Ou não?
Ps: Olha só o que encontrei no iutubi. Hohoho! Ela se chama Pilar Rodrigues.

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Tempos de mudanças…

Mudanças, internas ou externas, me calam.
Estive por um tempo fora do ar, mas isso não significa que estivesse sem assunto. Escrevi na mente muitos posts que nunca transformei em escritos de verdade. Escrevi outros que achei decepcionantes por não conseguirem expressar realmente o que eu sentia. Foi só isso.
Assim… mais uma vez o silêncio instalou-se neste espaço. Entretanto ele é tão amigo, tão querido, que me espera pacientemente. E vocês também. Isso me consola e me permite os excessos.
Pois é…
As mudanças estão em pleno avoroço.
Organizados os armários na casa nova de Madrid, parti para organizar a mim mesma. Reescrevi no caderno azul as metas que queria alcançar. Expressei desejos e procurei soluções para derrubar as barreiras que me impediam de realizá-los…
Encontrei uma médica que descobriu meus problemas de excesso de peso, emagreci, aprendi a nadar, estive mais perto da minha filha e dos amigos, desviei-me dos eventos gastronômicos sempre que pude, li mais, escutei mais música, cozinhei mais, caminhei pelas ruas de Madrid, vi exposições maravilhosas, conheci recantos especiais da cidade, fiz algumas viagens, curtas mas deliciosas.
E escrevi menos… quase nada.
Claro que esse último detalhe não estava nos pedidos, mas foi uma consequência deles. Estive mais fora do que dentro do computador. Quase nunca visitava os blogues alheios.
Também descobri que não gostava do clima do escritório que criei em casa. Não gostava do abafado, da pouca luz, dos cheiros…
Bem em frente à única janela da saleta, estava a cozinha da vizinha, com seus ruídos e perfumes de cortiço do século XIX. E bem embaixo da minha mesa, o banheiro da gata…nhém!
Então… Rá, ré, ri, ro, RUA!
Sabem de uma coisa, peçam tudo que desejarem, já disse. É impressionante como os desejos expressos se realizam. Mas muito cuidado com o que pedem,  justamente por que se realizam. Também já disse isso… Ho, ho ho!
Muitas vezes adorei cada rincão novo que conheci de Madrid e muitas vezes agradeci ao Deus que me ama pela oportunidade incrível que estava tendo na vida… mas eu queria mais. Pedi, quase inconscientemente, uma cidade linda como ela, com mar.
Até escrevi aqui, sem pensar, quando visitei Vigo. Sem pensar?
Tóin! A fada madrinha atenta, só anotando tudo.
Queria brisa marítima, tóin! ela anotando.
Queria poder despertar com uma linda vista do outro lado da janela. Tóin, que fada!
Setembro, mês de aniversário. Presente surpresa: Acabo de me mudar para Barcelona.

Rá! re , ri, ro, RUA!

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Curtinhas…

Os blogs andam a seu ritmo. Todo mundo que tem um já sabe. Mas o meu, de vez em quando, flutua no éter do abandono. Eu acho que é um mal sinal.
Não é que tenha mais coisas a fazer, é que faço o que tenho que fazer muito devagar… e o pior é que descontinuamente.
Começo e paro… e volto… e vou. Minhas tarefas se entrelaçam durante o dia. É um esforço terminá-las.
Descubro toalha de prato na estante da sala, a tesoura da cozinha dentro do guarda roupa, minha mesa de cabeceira com tudo que deveria estar no banheiro… e olho pra ela e deixo assim mesmo…
Muitas vezes me assisto parada, fazendo nada…
Meda!
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Minha amiga linda, a Virgínia, do Além do Atlântico, está passando um prova difícil hoje e amanhã.
Estou aqui, COM TODO MEU CORAÇÃO em sintonia, querida!
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O verão é gostoso porque a gente tira de cima dos ombros o peso das roupas do inverno, veste coisinhas frescas e sandálias bonitas… mas precisava fazer TANTO CALOR?!
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Madrid dá de presente a música do Teatro Real. Grátis, na praça bem em frente ao Palácio Real, todos os dias, ao anoitecer.
Aqui anoitece às 22:00hs. Tóin!
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Fui ver a exposição de Joaquim Sorolla, no Museo del Prado. Imperdível. Um conjunto de pinturas que dificilmente poderão ser vistos juntos em outra oportunidade. Quadros de coleções particulares, painéis vindos de Nova York. Belíssimos! Espetaculares! Vou escrever um post.
Babei!
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Agora está na moda as curtinhas, é?

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Porque hoje é dia dos namorados…

Não mate o amor! Enamore-se dele.
Enamore-se.

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Coisas da Alma…

Pois sim…de vez em quando eu assisto na televisão uns programas maravilhosos que são exibidos no início da madrugada. Não entendo porque passam tão tarde! São assuntos que interessariam muita gente, eu acredito.
Vou contar uma das reportagem que eu assisti e que me fez arrepiar a nuca. Lembrei dela bisbilhotando meus arquivos.
Um garoto indiano, aos dois anos, dizia a sua mãe que ele não fazia parte daquela família e que seu nome não era aquele pelo qual o chamavam. É claro que seus pais levaram a coisa na brincadeira, mas o menino insistia em dizer que ele não deveria estar ali e sim na cidade tal, que agora esqueço o nome.
Quando estava com oito para nove anos, os pais e ele viajaram pelo país e ao passaram pela tal cidade, ele disse que sabia onde tinha morado e reconheceu a loja que tinha, antes de morrer. Disse que tinha sido assassinado e que tinha uma mulher e filhos.
Os pais ficaram assustados. Levaram o menino ao médico. Nada. Tudo normal. Louco não era. Voltaram para casa… mas então não podiam mais ser os mesmos e decidiram voltar a visitar a cidade onde o garoto dizia ter vivido. Ele reconheceu sua antiga casa e chamou pelo nome a sua mulher.
Para que ela o reconhecesse, contou a ela sobre os presentes que tinham ganho no casamento e como a chamava na intimidade de seus dias de casados. Contou que se lembrava de quando cada um dos seus dois filhos nascera. Contou também o que havia acontecido no dia de seu assassinato…
Choravam todos…
Arrepiei. Chorei também.
Essas histórias sempre me deixam assim, confusa, cheia das perguntas.
Sempre senti a minha alma à flor da pele. Como se ela reconhecesse lugares e pessoas que eu vejo pela primeira vez.
Quando era mais jovem, em alguns momentos, parecia como se sentisse saudades de algo indizível, um nem sei o que, como se sofresse a presença constante de uma falta.
Quando vi olhos-de-mar-azul pela primeira vez, senti saudade. Como assim sentir saudade de um desconhecido?  Minhas primeiras perguntas para ele eram absolutamente incompreensíveis: “Onde estava? Por que demorou tanto?”

Apesar da força deste sentimento demorei muito para acreditar nele e tomar uma atitude.
Também, como me olharia se eu me aproximasse e fizesse as tais perguntas?!
Ainda bem que pude – depois de anos e mesmo assim meio de brincadeira – contar-lhe o impacto que foi encontrá-lo naquela festa. Por escrito, claro. Mais ou menos protegida de fazer um papel ridículo. O melhor foi que ele não achou ridículo e pode também contar-me o que sentiu naquele momento. Ho ho ho!
Se não tivéssemos apostado naquela sensação, quem sabe como estaríamos agora?
O que sabemos da alma? Somos tão ignorantes dela que às vezes esquecemos de tentar compreendê-la, entender sua linguagem, decifrar suas mensagens, apalpá-la, acarinhar sua superfície tênue, conversar com ela.
Clarice Lispector, a escritora irmã da minha alma, gêmea do meu corpo sutil, que aprendeu a conversar com a própria alma melhor do que ninguém, dizia assim:

“… Minha alma não é imaterial, ela é do mais delicado material de coisa. Ela é coisa, só não consigo consubstanciá-la em grossura visível.
Ah! Meu amor, as coisas da alma são muito delicadas. A gente pisa nelas com uma pata humana demais…”

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Outra Carta de Amor…

Pediram-me que eu escrevesse uma mensagem para ser lida no aniversário de uma grande amiga. Inspirei-mei numa antiga carta que tinha escrito numa das noites de saudades e fiz algumas mudanças para enviar-lhe uma cesta imaginária cheia dos meus presentes, minha saudade e meu carinho.
Já que isso aqui também é meu cadernos de especiarias, não há melhor lugar onde guardá-la.
A mensagem virou carta… e ficou assim.

Photobucket
Tete, minha tão querida amiga.
Queria estar com você neste momento para cantar o especial parabéns deste ano. Pode imaginar como eu queria estar nas “Bodas Douradas” de sua vida ? Pode imaginar como eu queria poder cantar em voz bem alta aquela sua música predileta – “Abra os braços pra me guardar/ e eu toda vou me entregar/ começo, meio e fim… e a minha cuca ruim “- e me acabar de rir com a coreagrafia, que eu sei de memória, mas que é sempre como se eu a visse pela primeira vez?
Queria poder encher seu copo de whisky e gelo para ver você subir na mesa mais próxima e fingir um sambinha legal olhando para as mãos – como você me ensinou – com ele sobre a cabeça – que isso eu nunca aprendi – e ver a cara de angústia daqueles que ainda não acreditam que esse copo não vai cair de jeito nenhum.
Eu sei. Eu sei.
TT, muléu do meu coração, queria poder entrar aí de surpresa – mais uma das muitas preparadas para esta noite – com um grande ramalhete de rosas coloridas e uma cesta cheia de presentes, meu sorriso, meu carinho, minha imensa vontade de estar com todos vocês.
Mas não posso ir de verdade e então descrevo o que há dentro da cesta e aí você faz de conta que ela existe…e me diz se você gosta.
Claro que há um búzio grande e rosado para você ouvir o mar que mora dentro dele – e de mim – mesmo enquanto estiver no escritório… chuam! chuam!
Minhas cestas sempre levam um búzio rosado… será que esta foi uma das minhas casas?
Leva também um caleidoscópio de lata, que faz txim…txim quando você o gira e vê mil formas coloridas. Esse foi um dos belos presentes que eu ganhei do Lorde. Inesquecível presente… inesquecível ruído… absolutamente inesquecível felicidade!
E você diz ” essa Nora é doida mesmo!” Mas ri encantada porque sente uma alegria antiga de menina feliz.
Tá bom… tá bom…
Também tem umas garrafas do whisky que você gosta, blusas lindas e decotadas e sapatos de saltos altos. Vai junto um kit com as melhores novelas de todos os tempos e uma assinatura da revista que conta a história delas com um mês de antecedência.
Tem uma agenda nova com todos os telefones de todas as pessoas que você conhece e quer voltar a ver. E ela se atualiza sozinha, como mágica.
Tem um pote cheio de saúde pra você distribuir com quem precisar, viu? Tirei só um pouquinho pro meu pé fodidinho e meu joelho podre. O resto estou mandando…
PhotobucketDo lado de lá da cestinha há uma caixa enfeitada, cheia de biscoitos da sorte, cada um com uma mensagem de boa ventura. Se você quiser poderá distribuir para toda a gente que te ama e que está aí… e assim haverá ventura para todos.
Aposto que todo mundo vai comer pelo menos um. E ninguém vai pensar se o tal biscoito engorda! Vai por mim, TT querida, todo mundo vai querer.
E você dirá, que eu mandei dizer, que felicidade engorda um pouco… mas vale a pena. Eles vão rir e trocar cúmplices olhares. Muitos já sabem, não é mesmo?
Deixe a caixa com papel dourado para o fim, que ela é nostálgica e talvez não seja ainda a hora de abri-la. Aproveite e prove as botas de camurça verde que acho que é seu número e fique sabendo que com elas vai poder viajar – sem pagar passagem alguma – pelo mundo inteiro!
Mas primeiro venha me ver, minha amiga, que a saudade é enorme e tenho tanta Espanha para te mostrar!

Pode abrir também a lata branca da paz profunda. Uma lata grande e redonda que está no fundo da cesta, já viu? Mas só abra de pouquinho, querida. Na natureza, já se sabe , é preciso alguma forma de inquietude, alguma ânsia sem nome que nos desperte no meio da noite, um desejo de vencer o tempo, um desafio da mente e até alguma lembrança triste para gente saber o que vale a alegria.
Então… ao lado ponho um vidro grande de lágrimas quentes, para o caso de você precisar… a gente sempre precisa, não é? Se não pelas nossas dores, pelas dores dos amigos…
É preciso compartir de um tudo e eu sei que você é fera nesse negócio de ser amigo para todas as horas. Além das farras, das festas, das serenatas pelas madrugadas a fora, nunca deixa de estar com a gente nos dias escuros da dor.
Eu sei. Eu sei.
Também tem uma caixinha pequena, embrulhada com algodão, com vários tipos de silêncios. Assim você escolhe aquele que mais combine com a sua necessidade… ou a de seu amigo.
Mas veja bem, eu vou e ponho uma cartola com o fundo falso e lenços coloridos, para voce fingir que é mágica, que tal? Você vai poder usar seus poderes para repartir balas e doces com as crianças ou tratar de alimentar seus velhinhos….
– Por sinal, por onde anda aquele seu velhinho?
Ou quem sabe, está precisando congelar alguém por um tempo, talvez fazê-lo desaparecer de uma vez por todas do cenário numa nuvem de pó bem fedorento!
Ah!… cuidado com esse saquinho cheio de furos, pois dentro há um bichinho! É um filhote de papagaio que já fala e sabe mil e uma sacanagens só para você embolar de rir, mesmo já sabendo delas todas. Assim você esquece as agústias e os medos… e dorme o sono que precisa dormir.
Que? Não faz mal rir do que já se sabe que é engraçado. Isso eu sei que você sabe! E como sabe!
caixa dourada
Agora pode abrir a tal caixa dourada. Digo que é uma caixa nostálgica porque ela guarda imagens, cheiros, gostos e sons que te contam as grandes e pequenas estórias… suas e minhas, nossas.
Guarda as estrelas cadentes sobre a casa de Toquinho, as agulhinhas fritas da Janete, um por do sol bem rosado em qualquer parte perto do rio… e depois, umas tantas caipiroskas com luas cheias nascendo, enormes e bonitas, bem em frente ao Bar Biruta.
Guarda os cinco contos de réis – porque fosse qual fosse a moeda a gente sempre saía com “contos de réis” – dos whiskies compartidos no antigo Bairro do Recife e os 17 cigarros fumados no Bar Real. Desculpe, você só tinha 17. Mas a gente fumou junto!
Guarda um desfile com uma baliza em biquini, sons metálicos das gargantas imitando as cornetas e os instrumentos feitos com sandálias havainas enfiadas nos dedos das mãos pelas ruas e praças da Barra, e também um prato de “Tinha” no bar miserável que nem sei mais o nome, onde faltava tudo o que tinha, menos nossa risada, apesar da fome!
Guarda a saudade do Urso de Casa Forte, dos bailes do Siri na Lata, das fantasias de pescadoras… “Caiu na rede é Peixe, meu bem! “
Guarda aquele seu maravilhoso Taxi de joelho fodido e amarrado – agora eu tenho um igual – que levava para todo lado uma índia beijoqueira, uma cigana macumbeira ou uma fada embrigada diante da câmara da televisão :
Essa fada sai todo ano? Um microfone enorme e global bem na minha boca.
Safada é teu passado, minha filha? Olhando para a câmara com cara de fada inocente.
Ai, meu deus… quanta ladeira!
A caixa dourada guarda o cheiro dos mares de Pernambuco, o gosto da cervejinha de Peu, dos Parmeggianas dos fins de noite, guarda os sons das serenatas dos amigos, o carinho dos muitos anos que convivemos, tantas coisas que compartilhamos, o respeito que sempre tivemos pelas nossas diferenças…
Ai.. Sodade. Sodade…
Já basta de nostalgias. Hora de festa! Felizes próximos 50 anos, muléu.
Eu sei que você já foi feliz nos 50 que já viveu. Abra o último dos pacotes e distribua a metade dos meus beijos para todo mundo que está aí! A outra metada é só pra você. Com todo o meu amor!
E manda botar o som na caixa, bem alto, com a melhor de todas as minhas saudades. Você chegando de braços abertos, balançando o corpo e dançando…
“Tetê..Te-te-re-tê… Tetê… Te.te-re-tê… Tetê… Te-te-re-têee!!!
Tetêeeeeeee!”

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Mario Benedetti.

Estava longe de mim quando soube a notícia. Não quis saber o que fazer com ela.
Hoje saquei do fundo do coração a saudade, as lembranças das muitas noites insones com seu Inventário, copiando no caderno de “especiarias” os poemas preferidos.
O caderno era o meu blog no século passado. Tinha uma capa dura de cor cinza em que se podia ver uma fotografia de pequenos troços de pano com as bordas chamuscadas. Sobre eles estavam dispostas uns montículos de espécies: cravo, canela, pimenta, noz moscada.
Talvez ele tivesse a missão de ser um caderno de receitas, mas para mim ele sugeria que guardava tesouros, pois as espécies é que, na antiguidade, protegiam os alimentos de se estragarem e acendiam os sabores dos mesmos.
Como a cozinha não me seduzia, interpretei a mensagem como uma insinuação simbólica: preservar; sabores sutis; manutenção de propriedades; perfumar… e por aí.
Pois era ali que eu colava recortes de revistas, copiava poesias dos meus queridos, guardava letras de músicas, escrevia pequenas reflexões e textos pessoais.
Meu caderno sumiu em uma das mudanças. O Inventário de Benedetti foi roubado muito antes. Sei até quem foi o ladrão.
Agora eu estou fazendo o mesmo no blog. O bom é que aqui eu compartilho o que antes era trancado na gaveta da cômoda.
Então…
Uma das primeiras poesias que publiquei no Impressões foi de Benedetti. Era um Pai Nosso lindíssimo. Vou procurar em meus baús.
Por enquanto deixo o registro, como uma homenagem a ele, uma linda interpretação de Te Quiero, com Nacha Guevara.

Te quiero
Tus manos son mi caricia,
mis acordes cotidianos;
te quiero porque tus manos
trabajan por la justicia.
Si te quiero es porque sos
mi amor, mi cómplice, y todo.
Y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos.
Tus ojos son mi conjuro
contra la mala jornada;
te quiero por tu mirada
que mira y siembra futuro.
Tu boca que es tuya y mía,
Tu boca no se equivoca;
te quiero por que tu boca
sabe gritar rebeldía.
Si te quiero es porque sos
mi amor mi cómplice y todo.
Y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos.
Y por tu rostro sincero.
Y tu paso vagabundo.
Y tu llanto por el mundo.
Porque sos pueblo te quiero.
Y porque amor no es aurora,
ni cándida moraleja,
y porque somos pareja
que sabe que no está sola.
Te quiero en mi paraíso;
es decir, que en mi país
la gente vive feliz
aunque no tenga permiso.
Si te quiero es por que sos
mi amor, mi cómplice y todo.
Y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos.

Mario Benedetti

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A Ria de Vigo…um colírio!


Às vezes a semana nos dá de presente uma vista assim.
Quem dera fosse mais frequente.
O casamento de um amigo nos levou à Galícia.
O ganho extra foi aproveitar, por dois dias, o verde perfumado dos montes, as rias que se podem ver desde a estrada como se fossem dedos marítimos que penetram a terra galega levando os frutos do mar até a porta dos habitantes.
Além do mais, poder provar a comida saborosa e escutar o sotaque gostoso dos galegos.
A gente volta renovada… pena que é tão longe e não se possa ir sempre e sempre!
Eu adoro Madrid… mas sinto uma falta do mar!

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Sonhar é preciso…

Dizem que o universo conspira a favor dos nossos sonhos e cada vez estou mais segura de que isso é a pura verdade.
Eu tenho muitas histórias para contar sobre essas “conspirações” em minha vida, inclusive a maior de todas que é o motivo pelo qual vim parar na Espanha.

Mas, uma coisa é preciso avisar: os sonhos tem que ser compartilhados. Isto significa que eles precisam ser materializados na fala ou pelo menos na escrita. Nada de guardar os sonhos dentro da cabecinha. Eles precisam passear por aí, respirar ar puro… contaminar o planeta com a sua força, espalhar-se pelo cosmos.
Não é necessário que a gente saia contando para todas as pessoas… mas algo do mundo precisa saber que eles existem para que a energia se expanda.
Então… de vez em quando me lembro que é preciso continuar sonhando em voz alta, sempre, sempre. Há um universo a espera, a escuta! Ele tem provado uma e uma outra vez que é assim!
Isso aqui está parecendo livro de auto ajuda americano… mas não é.
Pois sim.
Isso tudo só para contar o que significou para mim o que aconteceu no início deste mês. Estive em Frankfurt, na Alemanha. Fui para assistir um concerto da Orquestra Sinfônica da Radio de Frankfurt, dirigida atualmente pelo diretor Paarvo Järvi, um discípulo de Leonard Bernstein. A famosa orquestra se apresentava com o Orfeon Donostiarra, um coral espanhol fantástico formado por quase cem homens e mulheres bascos. Além disso, duas excelentes solistas, Nathalie Dessay (soprano) y Alice Coote (mezzosoprano), completavam o espetáculo.
O repertório era a Sinfonía nº 2, “Resurreção” de Mahler.
Respire!
Eu mal podia respirar!
Desde o ano passado planejávamos uma viagem à Frankfurt para visitar o jovem músico da família, meu enteado. Ele conseguiu, com seus 25 anos, o que muitos músicos maduros tentaram e não conseguiram: a vaga de solista de oboé nessa prestigiosa orquestra europeia.
Uma vaga que não era preenchida nos últimos 5 anos, embora a orquestra estivesse sempre avaliando candidatos. Agora ele está nos últimos meses de experiência e anda precisando de uns mimos para aguentar a pressão que tem recebido da orquestra.
Queríamos organizar a visita, mas com a mudança de casa, o final do ano com hóspedes, os parcos recursos depois de tantos gastos, etc, etc… fomos deixando passar o tempo.
Mas, por obra e graça do… universo conspirador, estivemos falando desse sonho mais uma vez na segunda feira passada. Sabíamos sobre as datas do concerto, mas as condições do momento não estavam muito propícias para gastos extras.
Passamos a noite da segunda feira falando sobre a maravilha que seria poder estar lá… e vai e vem… e vem e vai….
Bueno, na quarta feira, abri meu correio eletrônico e começei a apagar os spams de sempre. Entre eles uma página de ofertas de viagens, pois se não tenho qualquer possibilidade, nem abro as propostas.
Tóin. Parei com o click do mouse no ar. A oferta era assim: “Vá a Frankfurt por 30 euros”. Heim?
Entrei na página e era isso mesmo, 60 eurozinhos, ida e volta. Sem pensar comecei a fazer os cálculos, casa grátis, comida baratinha e gostosa ( cerveja e salsicha hahahahha…), convites gratis para o concerto. Perfeito!
Mais facilidades que isso impossível!
Telefonei para meu pirata ( o pai da criatura, que baba de vontade de vê-lo tocar numa orquestra como esta ) e em dez segundos estava resolvido: vamos!
Pois fomos…
Na quinta feira estávamos voando para Frankfurt.
Passamos a noite passeando por Berguerstrasse, uma rua movimentadíssima, com bares e restaurantes rodeados por plantas e flores, as cadeirinhas nas calçadas, muita gente andando de bicicleta, um ar de tranquila satisfação na cara das pessoas… um clima primaveril delicioso! Que encanto!
Ao final desta rua encontramos um pequeno parque chinês, com flores de cores incríveis!

Até aí… tudo bem tranquilinho. A coisa começou a complicar quando quisemos comer e recordamos, “de repente não mais que de repente”, que as coisas ali estão escritas em Alemão e, na maioria das vezes, sem tradução para o Inglês.
Descobrimos uma lanchonete gostosa para comer as famosas salsichas que eu adoro. Como pedi-las olhando o menu sem fotos?
Arrisquei de primeira: “¿Hablas Español?” Perguntei sorrindo ao rapaz que me atendeu. “Un poquito”. Respondeu-me, divertido e simpático.
Pronto. Resolvido o problema. Nos próximos minutos trocamos muitos gestos entremeados por palavras soltas de Espanhol, Inglês e Alemão ( só ele, claro! ) e consegui minhas salsichas, de dois tipos diferentes, com os molhos desejados e duas cervejas muito gostosas. Total: 10 euros.
Feliz. Feliz.
Tive a sorte, inclusive, de conseguir falar em Português num restaurante italiano, pois o garçom falou de futebol e quando soube que eu era do Brasil começou a expressar-se perfeitamente em nosso idioma… Hohoho! Ele disse que havia dividido um apartamento com brasileiros e por isso sabia falar Português.
Então, sempre que eu podia testava se o garçom falava algo de Espanhol, ou de Inglês ( mais fácil ), mas na maioria das vezes não foi necessário o exercício da mímica porque estávamos acompanhados por nosso querido músico, que já domina o Alemão.
Na sexta feira conhecemos o centro histórico.
Existem algumas construções que guardam o estilo anterior à Segunda Guerra Mundial, mas a destruição da cidade pelos bombardeios foi quase total. Quatro casitas de nada sobreviveram e foram restauradas, mantendo o clima de Alemania do início do século passado. O resto é novinho em folha.
Alguns arranha céus criam no horizonte um contorno moderno de espelhos e sombras. Mas eu não gosto de arranha céus… mesmo os bonitos.
Subi em um deles para ver a cidade lá de cima. Tá. Normal. Não foi lá grande coisa. Gosto mesmo é dos bairros cheios de árvores e casas antigas, pracinhas com fontes e chafarizes, beira de rio, parques…
E realmente aí foi possível encontrar, restauradas, casas e edifícios lindos.
Então aproveitamos para passear pela beira do rio, tomar mais uma cervejinha em um lindo bar montado numa barca e ver os patos, as embarcações a remo, a bicicleta-cervejaria manejada por jovens cheios de alegria e cerveja ( funciona como um balcão com um grifo de cerveja onde os jovens pedalam e bebem ao mesmo tempo circulando entre uma ponte e outra da cidade).
E… finalmente, na sexta feira à noite nos dirigimos emocionados para o concerto no Alte Oper de Frankfurt, o antigo Teatro de Ópera, quase totalmente destruído pelos bombardeos e recuperado, graças a campanha cidadana contrária a sua demolição, numa obra que durou quase trinta anos.
As pessoas que lutaram por isso podem estar orgulhosas de sua façanha. O edifício é precioso.
A sinfonia de Mahler abarca a alegría de viver, a união com a natureza, o medo existencial, a confiança e as visões do além. Mahler levou seis anos para completar a composição, que foi interpretada completa pela primeira vez pela Filarmônica de Berlim em 1895.
É simplesmente fantástica!
O primero de seus cinco movimentos, composto em 1888, teve durante algunos anos una existência independente como poema sinfônico. No verão de 1892 Mahler acabou o segundo, terceiro e quarto movimento mas ainda faltava o final que ele queria que fosse apoteótico. Para imprimir mais grandiosidade ele incorporou a parte coral, como Beethoven em sua Nona Sinfonia.
Durante o funeral de um famoso diretor, Hans von Bülow, em 1894, Mahler se inspirou para a conclusão da sua sinfonia, compondo o Juízo Final e a Ressurreição cantados por um coro que representa os santos e bem-aventurados.
O Orfeón Donostiarra é especialista nos pianíssimos e altos necessários para interpretar a peça.
E a solistas convidadas eram simplesmente fantásticas!
Quase duas de horas de concerto, sem parar nem para respirar.
Eu não sei como contar isso, mas imaginem 100 vozes de coro cantando e mais de 120 músicos tocando, às vezes ao mesmo tempo.
A Segunda Sinfonia de Mahler tem momentos de uma doçura encantadora, por exemplo, quando a voz da soprano “conversa” com o oboé. E tem também momentos de grandiosidade alucinante, quando a percursão soa como trovões e todos os demais instrumentos soam ao mesmo tempo.
É surpreendente quando o maestro dirige um som de metais que vem de fora do recinto e quando esses sons começam a mesclar-se com os sons dos instrumentos dentro do palco.
É de tirar o fôlego.
Ficamos imóveis até que os aplausos explodiram. Nem sei por quanto tempo aplaudimos de pé. Eu estava em transe… e nem me recordo de quantas vezes o diretor e as sopranos entraram e saíram do palco.
Bom… só me lembro que em algum momento eu me dei conta de que sonhara tanto poder estar pessoalmente num concerto como esse! E que antes de viver na Europa, enquanto vivia na casa do Poço da Panela escutando os maravilhosos discos de música clássica do Lorde, quando sequer podia dar-me ao luxo de ter um sonho assim, sonhava o sonho dele… acompanhando divertida e fascinada seus movimentos de mãos e imaginária batuta.
Meu pai sonhava dirigir todas as orquestras do mundo. E ele fazia isso muitas vezes, em pé, bem no meio de seu gabinete… com os olhos meio cerrados enquanto os auto falantes do som, em sua máxima potência, derramavam música pelo ar. Sua plateia, composta por 4 pessoas, minha mãe e seus três rebentos, também aplaudia de pé.
Uhaaóoooo! Bravo! Bravo!
Ele sempre tinha que trocar os auto falantes, que nunca suportavam o volume em que escutava os movimentos mais violentos das suas sinfonias e óperas mais queridas.
A sorte é que sem vizinhos, além das árvores e do rio, não havia quem se queixasse do barulho e podíamos “assistir” seus concertos a qualquer hora do dia ou da noite.
Pois sim… enquanto aplaudíamos diretor e orquestra em Frankfurt, com especial carinho ao excelente músico da família, José Luís, o solista de oboé que parecia brilhar entre tantos outros músicos justamente porque seu pai estava ali para homenageá-lo, aproveitei… e também dediquei a noite ao Lorde, meu pai.
E quis, no fundo do meu coração, que realmente existisse outra dimensão nos estágios de vida e que ele pudesse saber-ver-estar-ouvir-sentir tudo naquela noite através de mim.
Sábado acordamos em estado de graça. Passeamos todo o dia pela cidade e decidimos ficar em casa à noite, cozinhar algo e botar a conversa em dia relaxadamente.
Pois foi outra boa decisão. Choveu cântaros e relâmpagos iluminaram a cidade. Uma delícia escutar música em casa e conversar intimidades…
Domingo, pé de cachimbo, areia fina, bate no sino… caminhar pelas ruas, entrar nas igrejas, umas cervejinhas aqui, comida japonesa ali, fazer as malas e voltar para casa.
Madrid estava igual… nem percebeu que fugimos.
Agora ando tirando uns sonhos antigos do baú. Estou querendo assistir em concerto, ao vivo, Carmina Burana. Só não escolhi ainda onde.
Mas já comecei a soprar para os ventos…
Ps: Soube agorinha mesmo, vejam só… “O Alte Oper de Frankfurt é o antigo teatro de ópera da cidade, um edifício carregado de história desde que se inaugurou em 1880 com a presença do kaiser Guillermo II. Nele se produziu a estreia mundial de Carmina Burana, de Carl Orff, em 1937.
Ho Ho Ho…

Acho que pode ser lá mesmo. Já vou conferir a programação!
Esse universo!

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