Posts Marcados Com: poesia

Mario Benedetti.

Estava longe de mim quando soube a notícia. Não quis saber o que fazer com ela.
Hoje saquei do fundo do coração a saudade, as lembranças das muitas noites insones com seu Inventário, copiando no caderno de “especiarias” os poemas preferidos.
O caderno era o meu blog no século passado. Tinha uma capa dura de cor cinza em que se podia ver uma fotografia de pequenos troços de pano com as bordas chamuscadas. Sobre eles estavam dispostas uns montículos de espécies: cravo, canela, pimenta, noz moscada.
Talvez ele tivesse a missão de ser um caderno de receitas, mas para mim ele sugeria que guardava tesouros, pois as espécies é que, na antiguidade, protegiam os alimentos de se estragarem e acendiam os sabores dos mesmos.
Como a cozinha não me seduzia, interpretei a mensagem como uma insinuação simbólica: preservar; sabores sutis; manutenção de propriedades; perfumar… e por aí.
Pois era ali que eu colava recortes de revistas, copiava poesias dos meus queridos, guardava letras de músicas, escrevia pequenas reflexões e textos pessoais.
Meu caderno sumiu em uma das mudanças. O Inventário de Benedetti foi roubado muito antes. Sei até quem foi o ladrão.
Agora eu estou fazendo o mesmo no blog. O bom é que aqui eu compartilho o que antes era trancado na gaveta da cômoda.
Então…
Uma das primeiras poesias que publiquei no Impressões foi de Benedetti. Era um Pai Nosso lindíssimo. Vou procurar em meus baús.
Por enquanto deixo o registro, como uma homenagem a ele, uma linda interpretação de Te Quiero, com Nacha Guevara.

Te quiero
Tus manos son mi caricia,
mis acordes cotidianos;
te quiero porque tus manos
trabajan por la justicia.
Si te quiero es porque sos
mi amor, mi cómplice, y todo.
Y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos.
Tus ojos son mi conjuro
contra la mala jornada;
te quiero por tu mirada
que mira y siembra futuro.
Tu boca que es tuya y mía,
Tu boca no se equivoca;
te quiero por que tu boca
sabe gritar rebeldía.
Si te quiero es porque sos
mi amor mi cómplice y todo.
Y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos.
Y por tu rostro sincero.
Y tu paso vagabundo.
Y tu llanto por el mundo.
Porque sos pueblo te quiero.
Y porque amor no es aurora,
ni cándida moraleja,
y porque somos pareja
que sabe que no está sola.
Te quiero en mi paraíso;
es decir, que en mi país
la gente vive feliz
aunque no tenga permiso.
Si te quiero es por que sos
mi amor, mi cómplice y todo.
Y en la calle codo a codo
somos mucho más que dos.

Mario Benedetti

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Oda a Alegria…

Alegría,
hoja verde
caída en la ventana,
minúscula
claridad
recién nacida,
elefante sonoro,
deslumbrante
moneda,
a veces
ráfaga quebradiza,
pero
más bien
pan permanente,
esperanza cumplida,
deber desarrollado.
Te desdeñé, alegría.
Fui mal aconsejado.
La luna
me llevó por sus caminos.
Los antiguos poetas
me prestaron anteojos
y junto a cada cosa
un nimbo oscuro
puse,
sobre la flor una corona negra,
sobre la boca amada
un triste beso.
Aún es temprano.
Déjame arrepentirme.
Pensé que solamente
si quemaba
mi corazón
la zarza del tormento,
si mojaba la lluvia
mi vestido
en la comarca cárdena del luto,
si cerraba
los ojos a la rosa
y tocaba la herida,
si compartía todos los dolores,
yo ayudaba a los hombres.
No fui justo.
Equivoqué mis pasos
y hoy te llamo, alegría.
Como la tierra
eres
necesaria.
Como el fuego
sustentas
los hogares.
Como el pan
eres pura.
Como el agua de un río
eres sonora.
Como una abeja
repartes miel volando.
Alegría,
fui un joven taciturno,
hallé tu cabellera
escandalosa.
No era verdad, lo supe
cuando en mi pecho
desató su cascada.
Hoy, alegría,
encontrada en la calle,
lejos de todo libro,
acompáñame:
contigo
quiero ir de casa en casa,
quiero ir de pueblo en pueblo,
de bandera en bandera.
No eres para mí solo.
A las islas iremos,
a los mares.
A las minas iremos,
a los bosques.
No sólo leñadores solitarios,
pobres lavanderas
o erizados, augustos
picapedreros,
me van a recibir con tus racimos,
sino los congregados,
los reunidos,
los sindicatos de mar o madera,
los valientes muchachos
en su lucha.

Contigo por el mundo!
Con mi canto!
Con el vuelo entreabierto
de la estrella,
y con el regocijo
de la espuma!
Voy a cumplir con todos
porque debo
a todos mi alegría.
No se sorprenda nadie porque quiero
entregar a los hombres
los dones de la tierra,
porque aprendí luchando
que es mi deber terrestre
propagar la alegría.
Y cumplo mi destino con mi canto.
Pabro Neruda
( Uma tentativa de tradução: Alegria, folha verde caída na janela, minúscula claridade recem nascida, elefante sonoro, deslumbrante moeda, ás vezes ráfaga quebradiça, mas bem pão permanente, esperança cumprida, dever desenvolvido.
Te desdenhei, alegria. Fui mal aconselhado.
A lua me levou por seus caminhos. Os antigos poetas me emprestaram tapa-olhos e junto a cada coisa uma nuvem escura pus, sobre a flor uma coroa negra, sobre a boca amada um triste beijo.
Ainda é cedo. Deixa-me arrepender-me. Pensei que somente se queimava meu coração a planta espinhosa do tormento, se molhava a chuva meu vestido na área manchada de luto. Se cerrava os olhos à rosa e tocava a ferida, se compartilhava todas as dores, eu ajudava os homens.
Não fui justo, equivoquei meus passos e hoje te chamo, alegria.
Como a terra és necessária.. Como o fogo sustentas os lares, como o pão és pura, como a água de um rio és sonora, como uma abelha repartes mel voando.
Alegria, fui um jovem taciturno, descobri tua cabeleira escandalosa. Não era verdade, o soube quando em meu peito desatou sua cascata.
Hoje, alegria, encontrada na rua, longe de todo livro, acompanha-me: contigo quero ir de casa em casa, quero ir de povoado em povoado, de bandeira em bandeira.
Não és para mim somente. Às ilhas iremos, aos mares, às minas iremos, aos bosques.
Não só lenhadores solitários, pobres lavadeiras ou eriçados, respeitosos picadores de pedras, me vão receber com seus racimos, senão os congregados, os reunidos, os sindicatos de mar ou madeira os valentes rapazes em sua luta.
Contigo pelo mundo com meu canto! Com o voo entreaberto da estrela, e com o regozijo da espuma! Vou cumprir com todos porque devo a todos minha alegria
Não se surpreenda ninguém porque quero entregar aos homens os dons da terra porque aprendi lutando que é meu dever terrestre propagar minha alegria.
E cumpro meu destino com meu canto.)

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Por todos os amores perdidos…

Para minha amiga, Matilde Rodriguez.

Ausência
Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei… tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
Vinícius de Moraes

*Ps: Esse foi o primeiro poema que aprendi a dizer de memória.

 

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Narciso e Narciso…

Ferreira Gullar
Se Narciso se encontra com Narciso
e um deles finge
que ao outro admira
(para sentir-se admirado),
o outro
pela mesma razão finge também
e ambos acreditam na mentira.
Para Narciso
o olhar do outro, a voz
do outro, o corpo
é sempre o espelho
em que ele a própria imagem mira.
E se o outro é
como ele
outro Narciso,
é espelho contra espelho:
o olhar que mira
reflete o que o admira
num jogo multiplicado em que a mentira
de Narciso a Narciso
inventa o paraíso.
E se amam mentindo
no fingimento que é necessidade
e assim
mais verdadeiro que a verdade.
Mas exige, o amor fingido,
ser sincero
o amor que como ele
é fingimento.
E fingem mais
os dois
com o mesmo esmero
com mais e mais cuidado
– e a mentira se torna desespero.
Assim amam-se agora
se odiando.
O espelho
embaciado,
já Narciso em Narciso não se mira:
se torturam
se ferem
não se largam
que o inferno de Narciso
é ver que o admiravam de mentira.
Ps. Imagem = Narciso – Caravaggio

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O Gato…

Olho pela vidraça e encontro seus olhos assustados…
Um enorme gato preto ronda meu jardim, o terraço, os bancos sob os frondosos prunos.
Gato preto e silvestre. Grande como um filhote de tigre.
Tenho pena do bichano. Sua liberdade de felino sem dono já se transformou em solidão. Ele vem rondando a casa, como quem pede família e carinho…
Bem que eu gostaria de um gatinho. Mas tenho um lobo em casa não gosta dos bichinhos…
Vou dar para ele ( o lobo ) um poema do Ferreira Gullar.

O gato é uma maquininha
que a natureza inventou;
tem pêlo, bigode, unhas
e dentro tem um motor.
Mas um motor diferente
desses que tem nos bonecos
porque o motor do gato
não é um motor elétrico.

É um motor afetivo
que bate em seu coração
por isso faz ronron
para mostrar gratidão.

No passado se dizia
que esse ronron tão doce
era causa de alergia
pra quem sofria de tosse.

Tudo bobagem, despeito,
calúnias contra o bichinho:
esse ronron em seu peito
não é doença – é carinho.

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E Haja Saudade…

De vez em quando o Brasil se esquece – ou finge que esquece – que anda enfermo, ferido, magoado, perdido de sonhos e esperanças e me envia ventos perfumados, brisas sonoras, beijos com gosto de caldo de cana gelado.

Amigos me presenteiam com seus poemas, romances, músicas, notícias sem siglas, sem sangue, sem vergonhas e humilhações… só saudades em cartas escritas a mão, como antigamente, com direito a envelope e selo carimbado…
É mel direto no coração!
Eu deixo que me mimem.
As dores e medos já vem sozinhos, em largas golfadas de enxofre expelidas pelos noticiários, internet, jornais e televisão. Delas, nem aqui no meu monte de coelhos e raposas, eu escapo.
Desde que morri e renasci, entretanto, deixo que – apesar de tudo, seja o que for esse tudo – me mimem.

Pois sim…
Desta vez a dose de mel foi grande demais. Uma amiga brasileira, que vive há muitos anos em Madrid e que eu só descobri por acaso no ano passado, deu-nos convites para a estréia de um filme. “Vinicius de Moraes: Quem Pagará o Enterro e as Flores Se Eu Me Morrer de Amores”, de Miguel Faria Jr.

Fui.
Borboletinhas fazendo “fruf-fruf” na boca do estômago…

Sentada numa das poltronas do clássico Cine Avenida, na Gran Via, meu coração derretido cantava em silêncio cada canção de Vinícius, meus olhos úmidos comiam cada paisagem do Rio de Janeiro, meus ouvidos guardavam cada depoimento de seus amigos, parceiros, parentes, – ai, Chico…meus sais! Vem sorrir lindo assim aqui, vem! – minha alma reconhecia cada poema declamado.
A cada lembrança, uma saudade dos tempos… deles e meus.
Vinícius foi meu primeiro poeta. Cresci com seus livros agarrados no peito e sabia muitos dos seus poemas de memória. Cantei todas as suas músicas, por toda a minha vida…
Amei para sempre, antes de saber que o para sempre, sempre acaba. Mas aprendi também que o amor vivido, se foi amor, não morre, só adormece. A gente guarda ele ali, num cantinho da memória. Ele desencarna… mas não desaparece. Amores vividos jamais a gente esquece. E isso deve ser a eternidade…
Em um 9 de julho chorei sua morte como a de um amigo querido. Depois, passei um tempo sem poder ouvi-lo ou ler a sua obra. Dava um nó no meio do estômago e a melancolia enchia minha alma.
Aos poucos a dor foi dando lugar a uma linda e gostosa nostalgia… até que nunca mais se separou delas.
Hoje, quando leio ou escuto Vinícius, sinto mais do que um simples admiração pela sua obra. Sua poesia e sua música estão irremediavelmente entramadas com minha vida, desde a infância.

Elas provocam-me sentimentos mais íntimos, como se soubessem e dissessem muitas coisas de mim.
Faz-me sentir esse leve rufar de asas de mariposa no coração, respirar um perfume de adolescência que se espalha pelo ar, junto com vagos traços de rostos de antigos namorados, nomes e caras de amigos perdidos pelo tempo, casas, árvores, praias, assobios de meu pai e seu jeito de lorde… mares mansos e verdes… os sorrisos lindos da minha mãe e seus ares de menina e princesa!
Um tudo de cor e alegria invade minha alma e minha cara vira “tela de cinema”.
Se algum-alguém tivesse a capacidade ou o dom para assistir meu filme, veria que belas imagens…

Mas não… parece que ele passa só pelo lado de dentro.
É por isso que eu venho aqui e escrevo.
………………………………….

Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: — Nunca fez mal…
Quem, bêbado, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: — Rei morto, rei posto…
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: — Foi um doido amigo…
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cal?
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançara um punhado de sal
Na minha cova de cimento?

Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: — Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: — Não há de ser nada…
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?
Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?

Vinícius de Moraes
Rio, 1950
……………………………………………
Ninguém, meu velho e querido amigo.
Mas prometo não deixar-lhe morrer…

Ensinarei suas músicas aos meus filhos e netos, escutaremos juntos pelas madrugadas, presentearei seus livros aos amigos, e com eles rememorarei seus poemas em noites de grandes luas.
Estreitarei você no peito até o infinito.

…eternamente sua enamorada.

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Aviso…( de Jenny Joseph)

Estou me sentindo tão bem nesta casa nova que fico passeando daqui pra lá, de lá pra cá… pensando que sou mesmo uma mulher de sorte.
O pessoal da Verbeat é nota dez. Obrigada pela acolhida!
Também estou tendo mais tempo para voltar a visitar com mais constância os blogs amigos. Em breve vou escrever sobre alguns deles.
Hoje quero apenas fazer referência ao Et Alors, da amiga Alma. Um blog que visito há mais de ano e sempre encontro textos interessantes, sensíveis e fortes.
Este que vou reproduzir aqui – é a primeira vez que trago um texto de outro blog para o meu – particularmente me encantou. Trouxe-me lembranças da Princesa, minha mãe.
Trouxe-me sentimentos doces em relação às pequenas liberdades adquiridas com a velhice…

AVISO
Jenny Joseph
Quando envelhecer vou usar púrpura
com chapéu vermelho,
que não combina
nem fica bem em mim.
Vou gastar a pensão em uísque
e luvas de verão
e sandálias de cetim –
e dizer que não temos
dinheiro para a manteiga.
Vou sentar na calçada
quando me cansar e
devorar as ofertas
do supermercado,
tocar as campainhas
e passar a bengala nas grades das praças
e compensar toda a sobriedade da minha juventude.
Vou andar na chuva de chinelos,
apanhar flores no jardim dos outros
e aprender a cuspir.
A gente pode usar camisas horríveis e engordar,
comer um quilo de salsichas de uma vez
ou só pão com picles a semana inteira
e juntar canetas e lápis e bolachas de cerveja
e coisas em caixinhas.
Mas agora temos que usar roupas que nos deixem secos,
pagar aluguel, não dizer palavrão na rua
e ser bom exemplo para as crianças.
Temos de ler o jornal e convidar amigos para jantar.
Mas quem sabe eu devia treinar um pouco agora?
Assim os outros não vão ficar chocados demais
quando de repente eu for velha e usar vestido púrpura.

In Quando envelhecer vou usar púrpura, organizado por Sandra Haldeman Martz, tradução de Lya Luft, Ed. Marco Zero, São Paulo, 1997, p.13.

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Em Todo Deserto Há um Poço…

Sí­ cada dí­a cae,
dentro de cada noche,
hay un pozo
donde la claridad esta prisionera.
Hay que sentarse en el borde
del pozo de la sombra
y pescar la luz caí­da
con paciencia.
Pablo Neruda ( Últimos Sonetos)

 

 

Um dos livros mais líricos que li na vida!

*tradução:
Se cada dia cai, dentro de cada noite há um poço onde a claridade está prisioneira. Há que sentar-se na borda do poço da sombra e pescar luz caí­da com paciência.

Foto: Claudio F. Costa-Ilusão de Ótica

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