Arquivo do mês: agosto 2005

Quando Setembro Vier…

Adoro este mês. No Nordeste do Brasil ele significava a volta do sol, a entrada da primavera, a abertura das praias.
Aqui ele significa o fim do calor insuportável do alto verão e o início de um clima mais ameno.

É a época mais propícia para sair por uns dias de férias e procurar o mar. A maioria dos veranistas já estará de volta às suas cidades e ao trabalho. Os estudantes estarão envolvidos com matrículas e compra de livros para o início do ano escolar e tudo vai voltando ao seu lugar.
Bueno… para nós é hora de fazer as malas e partir para o sul. Viajaremos no próximo dia 30.
Vou desaparecer dos blogs amigos por quase 15 dias. Mas espero poder acessar o Língua de Mariposa para ver os comentários, se encontrar algum cyber por perto.

Outro bom motivo para gostar de Setembro é que este é o mês de meu aniversário.
E eu sempre adorei o dia de meu aniversário!
Quando era pequena gostava de ver minha mãe e tias na cozinha preparando a festa. Encantava-me vestir roupa nova e ganhar presentes! Sempre fui o xodó das tias e ganhava presentes adoráveis. Quebra-cabeças, livros de contos, lápis coloridos, massa de modelar, roupas novas! Uma delícia!
Depois, na adolescência, comecei eu mesma a organizar a pequena festa. Enchia a casa de Casa Forte de amigos para jogar voleyball, dançar e comemorar meu dia. Ainda recordo as pantalonas coloridas com as quais dançávamos Pata-Pata, de Míriam Makeba ou os passos elaborados que ensaiávamos a semana inteira para imitar nosso ídolo da época: Tom Jones!
O tempo foi passando, as músicas mudando, novos amigos chegando e as festas foram ficando mais intimistas, com um jantarzinho e uma serenata ao som dos violões, e que se estendiam até o amanhecer!
Quando cumpri os 40 anos resolvi marcar a data com uma festa espetacular.
Pois sim… reservei uma boate da moda e convidei uns cem amigos de todas as épocas, incluindo aqueles da minha adolescência. Foram todos e mais alguns!
Dançamos até o amanhecer ao som da banda Anos Dourados que tocava de um tudo, desde as músicas que meus pais adoravam nos anos 50 até os temas mais modernos dos anos 90.
Foi uma noite inesquecível! Os amigos organizaram uma surpresa especial à meia noite, com a exibição de um clip do Fantasma da Ópera ( uma das minhas paixões) nos telões da boate e uma enorme torta com uma vela!
Que noite feliz!
Foi tão gostoso que resolvi ficar nos 40 por um tempo indefinido!
Ho ho ho!
A gente pensa que pode reter a felicidade e enganar o tempo…
E assim passei uns anos fazendo 40! Os amigos morriam de rir quando eu convidava-os para repetir a data e já estavam quase perdendo as contas.
Depois quem se perdeu fui eu… naquelas brumas. E os aniversários só aconteciam porque eles mesmos se organizavam para invadir a minha casa, cheios de comes e bebes, presentes e carinho transbordando pelos abraços e beijos.
No último aniversário que cumpri em Recife, fiz uma espécie de despedida num pequeno cais, ao por do sol do bairro do Pina.Foi lindo! Estavam todos lá exceto minha mãe e um dos meus anjos-amigos, o médico que me curou.
Como eu gostaria que pudessem ter visto minha felicidade por estar vindo viver com olhos-de-mar-azul uma nova etapa da minha vida!
Agora, neste 15 de setembro, vou cumprir 50 anos!
Minha Nossa! 50 anos é um marco especial na vida da gente. Qualquer dia desses escreverei sobre as mudanças que ando experimentando!
Mas o que sinto muitíssimo é estar longe dos amigos de toda a vida, das músicas que escreveram comigo minha história, da família, da minha cidade.
Hum…
Mas nada de curtir tristezas no meu mês.
Vou comemorar como Deus manda! Dez dias de praias na Costa de la Luz, festas andaluzas para dançar flamenco e sevilhanas… muito vinho, tapas espanholas e amor.Livros novinhos para ler e amor são os melhores ingredientes para boas férias.
Estou sentindo-me muito bem. Afinal fazer 50 anos, feliz e com saúde, vivendo um amor delicioso e maduro, num país como a Espanha, alegre e cheio de vida, é um privilégio!
Esta é a minha festa!
Ano que vem eu vou e faço 50 de novo, no Brasil!
Afinal, não tenho pressa alguma em cumprir 51!!!

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Tilt Outra Vez…


Meu computador está doente mesmo. Agora ele nega-me entrar nas páginas da Internet em quase todas as tentativas. Estou culpando o anti vírus que estou testando por um mês. Baixei da Internet o Panda Titânio e acho que ele está f*** tudo!
Bueno… ainda bem que posso usar o notebook para abrir os e-mails e blogs. Mas escrever naquele teclado sem acentos e sem mouse me enlouquece.
Já fiz um back up geral dos meus arquivos e estou pensando em apagar tudo e começar do zero, com um Windows mais atual. O que vocês sugerem?

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Cuidado Com O Que Pede…Segóvia!

Pois pode conseguí-lo quando menos espera…
Complementando o post anterior, um dos passeios que indico a qualquer visitante e em qualquer época do ano é Segóvia. Já publiquei muitas vezes posts sobre a cidade onde vive e estuda minha filha. Além de bela e histórica, ali nunca faz calor. Pelo menos não o calor de Madrid.
E é muito pertinho. Fica apenas a uma hora daqui.(Foto ao lado:Catedral)
Pois então…
Levamos nossos hóspedes para conhecer a cidade. Não se pode perder de entrar na impressionante Catedral em estilo gótico, a “Dama Rosa”.

Nem o Alcazar, que mais parece um castelo de contos de fadas!Um belíssimo lugar cercado por bosques e pequenas clareiras onde descansar e refrescar-se.


E aproveitamos também para conhecer o Palácio Real de La Granja de San Idelfonso, antiga residência de verão dos Reis da Espanha.
Eu já havia estado ali em outra oportunidade, mas era outono, não haviam as flores e as fontes estavam desligadas.
Era lindo também, mas agora…
A profusão de cores me emocionou.
(Foto abaixo: Palácio San Idelfonso)

Passeamos descontraidamente pelos jardins, tomamos um delicioso café sob suas árvores, visitamos as dependências internas do palácio, com seus imensos lustres, relógios valiosos, quadros e tapetes espetaculares.
Embora não tenha o acervo dos outros palácios que já visitei, foi um encanto de passeio.

Depois procuramos uma taberna de assados, mas obedecendo a regra de quem está ali apenas por um dia, melhor pedir vários pratinhos de tapas. E deu certo, mais uma vez. Provamos quatro ou cinco delícias acompanhadas por um pão assassino de dietas e seu parceiro e refrescante vinho tinto com cassera ( que é o tal do tinto-verano que falei antes) e saímos pelas ruas sem problemas de sono ou cansaço.
(Fotos: Fuente de las ranas)

Depois de muito subir e descer , escolhemos uma cafeteria para outro café e sorvetes ( ai meu Deus!) e os suspiros de felicidade subiram aos céus!
Adorei muitas coisas que vi no palácio e em seus jardins e fontes, mas esta escultura de uma deusa, que estava em uma das salas da Rainha, encantou-me particularmente.

Provavelmente não tem muito valor, pois nem cartãozinho havia explicando algo sobre ela ou sobre seu autor.
A peça é esculpida em mármore e o rosto parece coberto por um finíssimo véu. Mas é tudo de pedra!
Como ele conseguiu isso?
Em mármore???
Ah! apaixonei-me!
Se eu pudesse escolher alguma peça dali para possuir seria ela. Nem pensaria no valor financeiro dos enormes lustres e relógios de ouro que vi espalhados por todas as salas. Nunca dei muito valor ao dinheiro… e talvez por isso nunca me sobrou.
Outro dia estava pensando nisso. Nunca pedi para ganhar muito dinheiro, mas acho que vou começar a pedi-lo… ho ho ho!
Pois meus pedidos estão com um prestígio!
É preciso ter cuidado com o que se pede… de repente o desejo se realiza e a gente está desprevenido.
Mas nem pensem que ganhei a bela deusa!!
Fui reclamar do calor e do verão escaldante e não é que me mandaram uma frente fria do norte!?
Sim… 7 graus fez esta noite.
E eu estava de camiseta, ampla saia de algodão e sandália aberta, pronta para dançar na praça de Escariche, um pueblo da província de Guadalajara,em Castilha la Mancha, aqui pertinho de casa.
Esta época é a preferida pelas pequenas cidades para celebrarem suas festas anuais. Provavelmente porque as noites são cálidas e agradáveis, os filhos e netos da terra espalhados por todo o país voltam às origens e vêm visitar seus pais ou avós.
Pois nada de noite cálida. Fez um frio danado!
Foi só sair de perto do calor agradável da churrasqueira na casa de campo de uns amigos e caminhar até a rua principal da cidade que nem o vinho tinto, servido com generosidade, nem o “baile” organizado na praça principal de Escariche foram suficientes para aplacar o frio que eu sentia.
Bueno, que fazer… jogar um belo e grosso xale emprestado sobre os ombros e aproveitar a festa. Que delícia de festa!
Para começar, fogos de artifício dignos de uma noite de Ano Novo, depois muita música, alegria e a peregrinação pelos bares. Pelo caminho, amigos dos amigos se uniram ao nosso grupo e parecia que eu já fazia parte da vida deles desde sempre. Uma camaradagem, um carinho e atenção que isto sim, aqueceu-me o coração. Voltei para casa às sete da manhã. Feliz e contente da vida. Os pés quase congelados! Mas isso foi fácil de resolver… foi só enroscá-los em outros mais quentinhos…
Também, quem mandou pedir frio!?
Agora fico só imaginando acordar um dia destes e encontrar minha bela deusa de mármore no jardim!
Não custa sonhar, não é?

Ps:Segóvia iluminada é linda!

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Um Verão em Madrid…

Uma semana de turista…no verão madrileño!
Parece muito bom, mas… nem tanto.
Pois sim… receber visitas com vontade de conhecer Madrid nesta época é um tanto desgastante. Não para eles, claro. Estão loucos para ver tudo e isso significa não parar um instante. Não querem perder tempo!

Para quem vive aqui e já conhece muitos dos lugares emblemáticos da cidade, sair sob um sol a pino pela Plaza Mayor e adjacencias, sorrindo e parando para tirar fotos é quase como fazer uma penitência.
Assim, já aviso aos meus amigos, quando eles vêm visitar-me nesta época, que escolheremos lugares mais frescos para passear.
Aliás, o ideal é que não escolham o verão para conhecerem Madrid.
A primavera, seguida pelo outono, são as estações do ano mais propícias para aproveitar tudo o que a cidade e suas imediações oferecem em termos culturais e gastronômicos, sob um clima delicioso! Fresco, mas não frio. Ou cálido, mas não quente.
Naturalmente, durante o verão madrilenho há menos trânsito, mais lugares para estacionar e muito para se ver e fazer. Mas o calor é sufocante e o sol só abandona a cidade depois que se cansa… lá para muito depois das nove da noite.
Não é a toa que os habitantes da cidade fogem durante o mês de agosto em busca das praias, por mais cheias que estas estejam. E se não conseguem um lugarzinho ao sol diante de um mar refrescante, sobem as montanhas e se deleitam em pequenos “pueblos” de clima mais ameno. Na cidade ficam os que não podem sair de jeito nenhum… e os turistas.
Como sou uma eterna turista na Espanha, já conheço as malícias de cada estação. E para o verão já fiz minha cartilha.
Uma de suas regras é que nas horas de muito sol e calor visito um museu, uma catedral ou um palácio.Nas horas mais frescas, os monumentos ao ar livre, as praças, as ruas.


Outra dica é não comer demasiado. Jamais almoçar. Os bares e restaurantes espanhóis são especialistas em tapas. Deliciosos bocadinhos de tudo: frutos do mar, tortilhas de batatas, pinchos de carne ou peixe, saladas. Existem tapas para todos os gostos. São baratas, matam a fome e servem como pequenos descansos entre um lugar e outro. Acompanhadas de vino-verano, cervejas ou granizados, são leves e refrescantes.
Se a gente pára e almoça, depois dá uma preguiça, um sono, uma vontade de desaparecer embaixo da primeira árvore que ofereça meio metro de sombra.
Mais uma das minhas regras: se eu estiver perto de casa ou do hotel, procuro sair perto das seis da tarde. Dá tempo de ver tudo ( igrejas, museus, etc) nos horários em que ainda há muito sol, pois todos abrem até mais tarde durante o verão. E depois, quando saio às ruas, já há um sol mais amoroso e a luz do entardecer é fantástica para as fotos.
O passeio fica mais agradável… e o sol ainda presenteia a gente com seu lento ritual diário de esconder-se, rubro e cansado, por trás das colinas.
Os terraços já estão com suas mesinhas convidativas cheias de gente tomando suas copas, cafés ou chás gelados.
As coisas e pessoas ganham uma dimensão distinta durante o anoitecer. As sombras das altas casas de belas buardilhas tornam-se alongadas e deformes e enfeitam as ruas… O vento acorda de la siesta (que ele nem é bobo nem nada) e sopra levemente sobre saias leves e calças folgadas de algodão, típicas vestimentas do verão espanhol.
O cansaço é muito menor e o prazer muito maior.
Já faz tempo que desisti de ser uma turista que quer vê TUDO em dois dias. Ou fico mais dias… ou vejo muito menos, mas com muito mais sabor.


E por falar em prazer e sabor fui assistir uma Antologia de Zarzuelas, na Plaza de Toros de Madrid.
Adorei.
A Zarzuela é uma opereta típica espanhola. Eu nunca havia visto nenhuma e fiquei encantada com a qualidade de seus intérpretes, coros e balés. As castanholas e os sapateados são marca registrada da Espanha em todos os tempos. Pena que não estávamos em um teatro de verdade. A Plaza é grande demais para uma apresentação teatral desse porte.
Mas valeu como primeira experiência.
A música que está tocando agora no blog é de uma das Zarzuelas mais conhecidas. Chama-se La Verbena de la Paloma.
Se um dia vierem à Espanha, não percam um espetáculo assim.
E recordem de mim…Vale?

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Um Cavaleiro …


Acabo de ler a notícia da morte de um grande personagem da vida política de Pernambuco e do Brasil.
Miguel Arraes de Alencar era um cavaleiro andante, um lutador, um político excepcional. Eu tive a honra e o prazer de trabalhar três anos em um projeto social da Secretaria de Saúde do Estado de Pernambuco, sob a coordenação do Dr. Cyro de Andrade Lima, Dra. Terezinha Tabosa e Dra. Bernadete Lins Paes, durante o governo de Dr. Arraes. Apesar de todas as dificuldades de infraestutura do Estado, o Projeto Boa Visão foi uma das experiências profissionais mais gratificantes de minha carreira.

Ainda tive a honra de estar presente, sentada sobre o solo da grande sala da casa de Ariano Suassuna, a mais gostosa que existe na Rua do Chacon, em Casa Forte, em noites maravilhosas de conversas animadas e inteligentes entre Arraes e meu querido Ariano , amigo eterno do meu pai.
Noites em muito aprendi e que eu jamais esquecerei.
Arraes foi muito mais que um mito. Era um homem de idéias e princípios.E de muito trabalho.
Pernambuco, principalmente o interior do Estado, deve muitas de suas conquistas a ele.
Estou de luto.
Meu coração está lá…

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Pedaços de Mim…(Cap13 )

A sala estava cheia de caixas de papelão, etiquetas e rotuladores de cores variadas…
Enquanto eu desfazia as estantes de livros e tentava não pensar que teria que separar-me deles, a minha vida ia passando diante dos olhos como um filme antigo, em preto e branco…
Olhava o livro, lembrava onde o tinha comprado, em que época havia lido, que sentimentos havia despertado em mim. Alguns iam direito para uma das caixas. Poucos, devo admitir. Outros, muitos, ficavam ali na mão, pedindo para serem abertos, relidos, mostrando as notas feitas a lápis nas margens de algumas páginas, reagindo a serem trancados entre quatro paredes de papelão por um tempo indeterminado. Um sofrimento!
Eu já sabia que não poderia levá-los comigo, pelo menos de imediato. Mas onde guardá-los?
Pensei nele. Um dos meus irmãos que adora ler. Mas os livros em sua casa, depois de lidos (apenas por ele), eram objetos sem categoria. Perdiam qualquer batalha por algum status na família. Ficavam guardados numa antiga e fria despensa, misturados com trastes velhos.
Sua esposa adorava que as estantes de sua sala fossem super-clean. No máximo uns pequenos objetos decorativos de vidro transparente, um ou outro vaso com arranjos de flores secas, belos candelabros. E só.
– Livros? Na sala? Nem pensar! Dizia que cheiravam a papel velho e guardavam toda a poeira do mundo.
Pois então… os maravilhosos livros de meu irmão dormiam na gélida despensa mesmo. E digo dormiam porque sequer estavam dignamente em pé, com o lomo aparecendo. Jaziam deitados. Todos. E de frente. Irreconhecíveis!
Por cima de seus corpos, um sem número de objetos: sapatos velhos, cabides quebrados, bacias furadas, espanadores rotos, sacos plásticos vazios… “Pedacinhos de morte”, como diria Cortázar.
Para lá eu não mandaria um só dos meus queridos pedaços de vida…
Escolhi apenas os didáticos que pudessem ajudar seus filhos nos exames de vestibular. Esses sim… estariam espalhados pelos quartos dos meninos, até que não fossem mais tão úteis e acabassem no Cemitério dos Esquecidos. A terrível e bolorosa despensa-trasteiro-biblioteca.
Separei também Obras Completas de Freud, que ele pediu-me com os olhos brilhantes, mas só com a promessa de que ficassem na prateleira do quarto de um de seus filhos, se esse concordasse. Não podia sequer imaginar que Totem e Tabu ou a Interpretação dos Sonhos fossem enterrados naquele monte de tranqueiras!
Bueno, pensei em meu outro irmão. O Pescador de Ilusões.(Um dia eu explico esse apelido.) Essa criatura nunca leu um livro inteiro. Mentira minha. Leu sim. Um. O Alquimista…
Suas estantes são cheias de troféus de pesca, cinzeiros e estatuetas horríveis. Mas ele as adora!
Bueno, não custava tentar.
Suspirei quando ele disse que não tinha espaço para guardar meus livros. Eu já sabia… suspirei nem sei por que.
Depois de trocar mil vezes de opinião sobre o que fazer com eles, revendo preços das companhias aéreas, navios, correios, passando inclusive pela encantadora idéia de tirar tudo das malas e transformá-las numa biblioteca ambulante (as roupas são perfeitamente compráveis em qualquer parte do mundo) e descobrindo que o peso das pobres coitadas quadruplicava sem resolver a questão, – cabiam tão poucos! – voltei às caixas. Separei tudo de novo e criei categorias para eles. Categorias afetivas, diga-se de passagem! Deixei tudo ali, no meio da sala, até conseguir pensar com calma. Tarefa difícil naqueles dias.
Ainda tinha que saber o que fazer com as cartas, bilhetes, fotografias… Antes sabia que podia contar com a cumplicidade e discrição da Princesa. Mas… agora que ela não vivia mais, como deixar minha vida assim, por escrito, nas mãos de outro alguém que não fosse ela??!
Meu coração parava quando olhava para o armário e via a enorme caixa de cartas…cópias das enviadas junto com as recebidas, no mesmo envelope. Maços e maços envolvidos em fitas. Meus sentimentos escancarados, escritos em épocas distintas para os personagens importantes de meu passado… Mas esse capítulo merece um post a parte.
Concentrei-me nos livros. Tinha que encontrar uma saída.
Finalmente tive uma idéia fantástica! Chamei uma amiga querida (ela, aquela que rondava minha porta nos dias de escuridão)  e fiz uma proposta semi-indecente. Ela ficaria com meus livros mais queridos (muitos) em sua casa e em lugar de honra ( por favor!) e assim que eu pudesse iria buscá-los, pouco à pouco. O resto eu deixaria com o Pescador de Ilusões, mesmo sabendo que seriam abandonados nas prateleiras do quarto de serviço. Um lugar arejado, pelo menos! Seriam resgatados assim que eu pudesse.
Pois sim…ela disse sim. Mas não poderia quitá-los das caixas. Ainda não tinha casa. Receberia seu apartamento em alguns meses, mas não poderia mobiliá-lo até que pagasse as últimas prestações. E não sabia quando poderia viver nele.
Foi aí que minha idéia cresceu. Ofereci-me para mobiliar sua casa. E emprestei tudo o que estava destinado a um depósito: lavadora de roupas, geladeira, fogão, micro-ondas, televisão, cama de casal e solteiro, mesinhas, luminárias, condicionador de ar, estantes, objetos de cozinha, etc… e livros. Muitos e deliciosos livros. Sabia que estaria tudo muito bem cuidado. E vivo! Respirando, fazendo parte do seu cotidiano.
Que mais precisa uma pessoa para começar a vida num apartamento novo e sozinha?
Sim, sei. Música. Isso ela já tinha, ainda bem.
Seus olhos faiscavam de alegria. Já podia contar com a casa montada!
Agradeceu-me contentíssima! Que graça! Ela me faz o favor e ainda agradece!?
Disse-lhe então que eu deixaria com ela só mais uma coisinha. Grande, mas que não ocupava espaço: toda a minha gratidão. Na verdade, nossa. Pois creio que os livros também agradecem a vida que estão levando…
Soube que está lendo como nunca… e sorrio feliz com a notícia!
………………….

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O Almoço…

Li um post no Pretensos Colóquios da amiga Dora, e não pude resistir a trazer aqui um dos meus pedaços prediletos do livro de Julio Cortázar, Histórias de Cronópios e de Famas.
Porque desde que vivo na Espanha, muitas vezes assisti-me como uma estranha numa mesa onde comensais pareciam amigos sem o serem… medindo palavras e gestos aos mínimos detalhes.
De repente eu queria que toda aquela deliciosa comida, as belas flores e os magníficos vinhos fossem para outros… distantes e queridos outros.
Cortázar é divino quando descreve um almoço entre cronópios, famas e esperanças.
Ai, vai. Para você Dora!
E para todos os que também amam Cortázar ou apenas sentem falta de verdadeiros amigos em suas mesas.
…………..

“Não sem trabalho um cronópio chegou a estabelecer um termômetro de vidas. Algo entre termômetro e topômetro, entre fichário e currículum vitae. Por exemplo, o cronópio em sua casa recebia a um fama, uma esperança e um professor de línguas. Aplicando seus descobrimentos estabeleceu que o fama era infra-vida, a esperança para-vida, e o professor de línguas inter-vida.
Enquanto a si mesmo, considerava-se ligeiramente super-vida, mais por poesia que por verdade.
Na hora do almoço este cronópio gozava em ouvir falar a seus contertúlios, porque todos acreditavam estar referindo-se às mesmas coisas e não era assim.
A inter-vida manejava abstrações tais como espírito e consciência, que a para-vida escutava como quem ouve chover – tarefa delicada. Naturalmente, a infra-vida pedia a cada instante o queijo ralado, e a super-vida trinchava o frango em quarenta e dois movimentos, método Stanley Fitzsimmons.
Depois das sobremesas, as vidas se saudavam e partiam para as suas ocupações, e na mesa permaneciam apenas pedacinhos soltos de morte.”

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Saudade da Princesa… e Uma História de Fantasmas.

No dia primeiro de Agosto de 2001 a Princesa se foi.
Fazem já quatro anos. Ainda sinto seu perfume quando minha casa se enche de rosas e floresce o jasmim…
Me presenteia com sonhos onde percebo a maciez de suas mãos, sempre um pouco frias, pousadas em minha face. Neles, sorri para mim como antes de perder a alma para o cruel Alzheimer.
Encontrei um poema de Ferreira Gullar que diz, talvez, o que ela me diria naqueles terríveis meses de silêncio.

UM INSTANTE
Aqui me tenho
como não me conheço
nem me quis
sem começo
nem fim
aqui me tenho
sem mim
nada lembro
nem sei
à luz presente
sou apenas um bicho
transparente.
Ferreira Gullar
…………………
Outro dia, em Segóvia, também ganhei de presente do Dia das Mães uma carícia da mão macia e fria da minha Princesa.
Deixo aqui a história, para que não se perca nos arquivos do Cicatrizes da Mirada.
…………………..

Uma História de Fantasmas. 
A senhora deveria estar perto dos setenta anos, ou mais ou menos, não sei bem ao certo – são tão arrumadinhas as senhoras desta idade! – e estava parada no meio da rua, com uma expressão desorientada, gemendo baixinho…
Vestia-se bem, com seu belo lenço colorido enrolado no pescoço, um abrigo leve pendurado entre as mãos e olhos molhados de quem está prestes a explodir em prantos…
Minha filha notou-a antes de mim e nos aproximamos para ver se podíamos ajudá-la.
Ela disse-nos num fiozinho desolado de voz “quitaran mi bolso!”
Perguntei-lhe onde, quando, como? Mas ela só repetia e repetia como um disco arranhado: “Quitaran mi bolso… Ai, quitaran mi bolso, hija mía.”
Quando aproximei minha mão de seu ombro para consolá-la ela me abraçou pela cintura repetindo seu refrão: “Quitaran mi bolso…quitaran mi bolso, hija mía.”
– Calma, tranquila. Pedi, querendo não assustá-la ainda mais com meu sotaque de estrangeira. Diga-me como aconteceu e vamos ver se posso ajudá-la.
( Não sabia como, mas não podia deixá-la ali como se não a tivesse visto!)
Minha filha também tentava tranquilizá-la dizendo que em Segóvia não há esse tipo de “assalto”. Ela poderia ter deixado a bolsa em alguma loja onde houvesse estado antes. Mas ela, pobrezinha, tremia tanto… Não sabia dizer onde havia estado e não havia se dado conta da falta da bolsa até a hora que nos encontramos. Mas trocou o estribilho e começou a enumerar o que havia dentro da bolsa desaparecida.
-“Dez euros…todo meu dinheiro, e as chaves de casa… ai, e as fotos de meus sobrinhos…ai, hija mía, quitaran mi bolso!”
Aquela voz me trouxe lembranças queridas… e eu quase começava a chorar antes dela…
Começamos a caminhar abraçadas pela rua, fazendo o caminho de volta para ver se ela lembrava onde havia estado. Na curva seguinte, ela exclamou em tom forte e aliviado “Maruja!”
Pensei: “Pronto! Encontramos alguma amiga que vai poder ajudar-nos.”
Era realmente uma amiga dela e estava com a bolsa da nossa querida e desconsolada senhora pendurada na mão como um troféu.
Abraçaram-se contentes.
A “nossa” espanholinha assustada estava rubra como uma cereja, um tanto envergonhada por ter sido pilhada numa travessura de sua memória. Mas sorria feliz com ” su bolso” outra vez na mão, e seu dinheiro , e as fotos de seus sobrinhos, e as chaves de sua casa…
Sorri de volta para ela, arrepiada e com os olhos molhados por lágrimas de uma saudade com outro nome, outro sotaque e outros tempos…
Pediu-me um beijo agradecida e eu a beijei mais agradecida do que ela.
Deu-me um bem estar que fazia tempo eu não sentia…
Madre mía…

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Puft…

Assim.
Sem aviso prévio meu computador fez puft! Apagou geral.
Desde domingo que ando feito um zumbi pelas planícies do exílo, sentindo uma falta danada de vocês.
Consegui, depois de fazer um bico enorme, um computador portátil (sem mouse e com um teclado todo fresco) que estou tentando domar.
Não sem antes ter precisado cortar as unhas até o toco pra não escrever duas letras de cada vez…
Bueno, paciência…pelo menos posso ler os comentários, e-mails e blogs.
Estou rezando para não ter perdido TODOS os novos arquivos, ainda não copiados para um CD. Rezem também!
………..
Ho ho ho…ELE voltou! São e salvo!
Agora é esperar que as visitas me permitam um tempinho para postar!
Ai, essa vida de doméstica e jardineira…

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