Arquivo do mês: maio 2005

Nem Todas Doem…

Talvez tenha sido o acordeonista de ontem, nas ruas de Alcalá de Henares…
Ou o desejo de crépe au marron-glacè. Quem sabe sonhei com Paris!
Ou com o Poço da Panela de outrora… Talvez tenha sido só pelo perfume do vento…
Ou pela profusão de cores pelo chão… Quem sabe foram as borboletas… ou dois filhotes de pássaros que caíram de alguma árvore dentro do meu jardim.
O certo é que depois da caminhada pelo campo, a ducha fresca e um café fumegante na caneca azul, me vi precisando dela. Piaf era presença obrigatória nos dias de beleza pura do meu passado, fosse no Poço da Panela ou em Paris.
Parece que ela continua necessária nas colinas que cercam Madrid.

Ps: Nem todas as cicatrizes recordam dores. A maioria das minhas são belas. E desde que vivo um amor inteiro, tenho cada vez mais orgulho delas.

La Vie en Rose
Letra de Edith Piaf
Música de Louiguy – 1945
Des yeux qui font baisser les miens
Un rire qui se perd sur sa bouche
Voilà le portrait sans retouches
De l’homme auquel j’appartiens
Quand il me prend dans ses bras
Il me parle tout bas
Je vois la vie en rose
Il me dit des mots d’amour
Des mots de tous les jours
Et ça m’fait quelque chose
Il est entré dans mon coeur
Une part de bonheur
Dont je connais la cause
C’est lui pour moi, moi pour lui, dans la vie
Il me l’a dit, l’a juré, pour la vie
Et dès que je l’aperçois
Alors je sens dans moi,
Mon coeur qui bat
Des nuits d’amour à plus finir
Un grand bonheur qui prend sa place
Les ennuis, les chagrins s’effacent
Heureux, heureux à en mourir
Quand il me prend dans ses bras
Il me parle tout bas
Je vois la vie en rose
Il me dit des mots d’amour
Des mots de tous les jours
Et ça m’fait quelque chose
Il est entré dans mon coeur
Une part de bonheur
Dont je connais la cause
C’est toi pour moi, moi pour toi, dans la vie
Tu me l’as dit, l’as juré, pour la vie
Et dès que je t’aperçois
Alors je sens dans moi
Mon coeur qui bat.

La Vie en Rose
(tradução)
Olhos que fazem baixar os meus
Um riso que se perde em sua boca
Aí está o retrato sem retoque
Do homem a quem eu pertenço
Quando ele me toma em seus braços
Ele me fala baixinho
Vejo a vida cor-de-rosa
Ele me diz palavras de amor
Palavras de todos os dias
E isso me toca
Entrou no meu coração
Um pouco de felicidade
Da qual eu conheço a causa
É ele para mim, eu para ele
Na vida, ele me disse
Jurou pela vida
E desde que eu o percebo
Então sinto em mim
Meu coração que bate
Noites de amor a não mais acabar
Uma grande felicidade que toma seu lugar
Os aborrecimentos e as tristezas se apagam
Feliz, feliz até morrer
Quando ele me toma em seus braços.

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Estou bem… É Primavera!

Não se preocupem comigo. Eu continuo feliz.
O que aconteceu é que eu estava tentando escrever sobre dores passadas e comecei com o post Curto-Circuito…
Não consegui dar seguimento.
Não pensava que olhar para dores perdidas no tempo podia assustar-me ainda e tanto.
Descobri que pode! E muito! Talvez eu demore a tocar nelas…
Não tenho pressa.
Por isso pedi a ajuda de F. Pessoa. O texto dele pede um adiamento do agora mas também diz muito dos sentimentos que eu tinha quando a minha chama apagou e a alma perdeu-se na penumbra…
Era no amanhã que eu pensava, porque o hoje era insuportável.
Obrigada pela companhia e pelo carinho dos comentários.
Aproveitando os belos dias de primavera, fui à Segóvia lamber a cria. Fui dar e receber dengos.
Tão bom!

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Adiamento…E Poesia. (Depressão)

Pois…
Sento-me aqui, em frente à folha em branco do word e escrevo reticências…
É tão difícil descrever o que é sentir-se ameba!
Como encontrar palavras para expressar uma morte simbólica, o medo, a penumbra da alma?
Pedi ajuda a um velho amigo.
O poema de Fernando Pessoa é assinado por Álvaro de Campos.
Eu, assim como ele, queria ter ( ou ser ) heterônimos. Não tive.
Assim que, por favor, esperem que me refaça das dores que as lembranças causam.
Permitam-me que seja reticente…
Há dores que mesmo quando passam, voltam a doer só de olhar para elas.
………………………………….
Adiamento
Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã…
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não…
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico…
Esta espécie de alma…
Só depois de amanhã…
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte…
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos…
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã…
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro…

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã…
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância…
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital…
Mas por um edital de amanhã…
Hoje quero dormir, redigirei amanhã…
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo…
Antes, não…
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã…
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã…
Sim, talvez só depois de amanhã…
O porvir…
Sim, o porvir…

Álvaro de Campos

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Curto-Cicuito…( Depressão)

Precisava aprender a viver sozinha.
E jurava de pés juntos que conseguiria. Era o sonho dourado de qualquer mulher moderna. Ser livre, segura, independente. Única dona de mim mesma.
Caro. Era muito caro.
E não eram só as contas que eu tinha que administrar. Era a vida.
De repente, as exigências de ser uma cidadã do mundo atual me asfixiaram.
Tinha que estar em dia com o pagamento da luz, do telefone, do cartão, da academia, das aulas de música, do IPTU, IPVA, INSS, CP e todas as siglas que inventaram por aí para sacar qualquer cristão de seu juízo perfeito. Ainda tinha o aluguel, o imposto de renda e a assistência médica. Um roubo!
Mas é que eu tinha que estar em dia com todos os istas:ginecologista, oftalmologista, dentista, dermatologista, este um ogro que me arrastava no chão cada vez que o via!
Tinha que estar em dia com a roupa suja para lavar, a limpa para passar, a limpeza e o abastecimento da geladeira, o banheiro cheirando a lavado, o tapete aspirado, os quadros espanados e alinhados corretamente, os discos organizados em suas respectivas caixas, os livros desempoeirados e arrumados por tema, as camas bem forradas, as plantas regadas, o lixo ecologicamente separado e pronto para ser levado aos lixeiros públicos, o carro lavado, abastecido e assegurado! Como se faz tudo isso de uma vez?
Tinha que ir regularmente ao ginásio e suar feito uma vaca pulando em aulas de aeróbica absurdamente impossíveis de seguir e sentir-me como a mais débil mental de todas as mulheres, indo sempre para o lado contrário ao resto da classe, desejando envelhecer logo para poder parar com aquele suplício de tentar manter um corpo sano em mente sana. Mentirinha que toda mulher conta. Queria mesmo era ficar desejável. E não envelhecer nunca.
Uff!
E por falar em mente sana, tinha que estudar ainda e sempre Freud. E também Cris Argyris e também preparar as aulas para o pós da Universidade e também as palestras e os cursos de proficiência em hotelaria. Afinal a gente também tem que contribuir para o social, ou não?
Também.
Tinha que estar feliz e ser agradável com toda a gente: do trabalho, dos cursos, e principalmente com a filha. Dessa tinha que cuidar de amar. Toda. Inteira.
Tinha que visitar a mãe constantemente ou pelo menos ligar todo dia. E contar coisas boas e aprazíveis, para não preocupá-la demasiado. Preocupada ela sempre estava.
Ah…e não esquecer das amigas, comprar presentinhos de aniversário sem esquecer absolutamente nenhum. Os da família, nem pensar em esquecer.
Tinha que ler os jornais para estar informada e ver os noticiários da televisão. Saber o que se passava nas novelas da moda ou não entendia quase nada das conversas de corredores do trabalho ou das festinhas de aniversário das crianças.
Sangue de Cristo tem poder!
Difícil para quem estudava ou ensinava à noite.
Mas quando não havia aula…
E tinha também que ler algo de filosofia, arte, poesia. Um clássico ou uma boa biografia. Isso era imprescindível à alma.
Assistir todos os filmes imperdíveis. E ainda conseguir comprar música boa e barata. Mas a boa quase sempre era caríssima!
Ler as cartas das revistas assinadas. Dar uma passadinha nos artigos da Época e da Super Interessante. Incentivar a filha nas artes da leitura, música e fotografia.
Aprender a cozinhar resultava impossível, mas tentava. Errava até nas sopas de pacote. Desistia todos os dias!
Tinha que ter um namorado que fosse pouco presente, apenas o suficiente para ativar os hormônios e alisar o ego. Então escolhia um caso para só ver de vez em quando.
E devia estar sempre alegre e contente feito um parque de diversões, senão por qual motivo eu estava ali?
Tinha que ser leoa, vaca, coruja, passarinha. Tinha que ser sereia, formiguinha, cigarra e vaga-lume.
Tinha que ser A MULHER.
Pois de repente me senti ameba.
Morrer, assim o que se diz morrer mesmo, não morri.
Mas morri assim mesmo.
E então, nada ficou no lugar…
Mas isso eu conto outro dia.

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Antes Que Eu Me Esqueça…

Antes que eu me esqueça… é bom saber que ela era cordata. Não toda cordata, porque nunca foi muito obediente. Mas meio, sim. Por fora. Parecia, mais do que era. O que tentaram ensinar-lhe, ela aprendeu. Mas só um pouco.Tudo não. Senão seria aquela que queriam que ela fosse. Também aprendeu muitas outras coisas que não lhe ensinaram, apesar de saberem desde sempre que teria um dia que aprender – por força da vida – se sobrevivesse aos perigos de viver. Parece que não queriam que sobrevivesse. Diziam que eram muitos. Ela acreditou. Nunca lhe ensinaram a ter coragem. Só a ter medo. Nunca deixou de tê-lo. Mas aprendeu também, e sozinha, que coragem é a força para enfrentar o medo e não a ausência dele. Se sobreviveu foi por esta força visceral e invisível que lhe tomava, apesar de si mesma, arrancava-lhe o corpo do quarto protetoramente acolhedor, mas sem horizonte, e atirava-a com força para além do jardim, sem se importar com a estação. Então ela sentia as dores mas também às alegrias e à beleza de viver. Expunha-lhe à luz e ao mundo e não lhe deixava voltar. Antes que eu me esqueça… é bom saber que ela era livre. Não toda livre, porque não sabia. Mas meio, sim. Por dentro. Parecia menos do que era… Muitas vezes sonhava que andava nua por uma cidade desconhecida. Tentava encontrar alguma porta por onde entrar e se esconder mas jamais encontrava uma. Aliás, não havia qualquer porta nas paredes daquelas cidades. Uma variação comum era sonhar que voava nua sobre os campos e as ruas, numa velocidade exagerada e precisando desviar dos cabos elétricos e copas de árvores. A sensação de poder voar era boa, mas voava baixo e sabia que precisava subir mais. Jamais conseguia. E pousar? Nem pensar, pois estava nua. Como se a liberdade de arriscar a ser quem era enfrentasse em cada sonho a limitação e o desconcerto da nudez pública, do choque mortal, da ausência de saídas ou entradas protetoras. Despertava suada e tomada de angústia. Mas quando contava o sonho, sua expressão era de alegria e prazer. Porque voava. Dizia que o medo valia a pena. Era sempre linda a cidade que via. Eram sempre espetaculares as paisagens que sobrevoava. Antes que eu me esqueça, é bom saber que ela era linda. Por fora e por dentro. E parecia. Era uma mãe espetacular. Descobri, um dia por que ela não sabia ser filha, só sabia ser mãe. A sua morreu quando ela era ainda uma criança e teve o azar de seu pai casar-se com a cunhada, uma mulher amarga e cheia de culpas – quem sabe já fosse apaixonada pelo marido da irmã mesmo antes de que esta morresse – que não perdeu nunca oportunidade alguma de humilhá-la, quanto mais ela crescia e assemelhava-se à mãe morta. Talvez a visse como a presença viva da própria culpa, transferindo-a toda para ela. Essa foi sua algema por toda a vida. Foi, para sempre, escrava da culpa de outra pessoa. Mas, antes que eu esqueça… Ela ensinou-me a ser cordata sem ter que ser “obediente“, a enfrentar o medo apesar da angústia, a buscar a beleza nas situações mais simples ou mais complexas. Ensinou-me quanto profundo e inteiro pode ser o amor. Esteve ao meu lado sempre, para os bons e os maus momentos. Ensinou-me o que sabia e também a procurar aprender sempre e ainda mais. Por ter sido só mãe, não soube ensinar-me a ser filha. Só pude aprender quando fui mãe da minha. Da culpa ancestral que herdei tenho que livrar-me sozinha. E ensinar a minha filha a ser melhor filha do que fui. Antes que eu me esqueça… Feliz Dia das Mães para todas a mães. E também para os filhos que ainda podem beijar, abraçar e agradecer o amor e os ensinamentos de suas mães. À Princesa, com todo o meu amor e saudade. *Madre y hija – Ana González Prieto

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