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Assim te amo.

Eu am10501666_10153101684756893_1145851939271694644_no-te sem saber como, ou quando, ou a partir de onde. Eu simplesmente amo-te, sem problemas ou orgulho: eu amo-te desta maneira porque não conheço qualquer outra forma de amar sem ser esta, onde não existe eu ou tu, tão intimamente que a tua mão sobre o meu peito é a minha mão, tão intimamente que quando adormeço os teus olhos fecham-se.

Pablo Neruda, in “Cem Sonetos de Amor”

Feliz Aniversário, meu Capitão.

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Catando a poesia deitada no chão…

Em Madrid há gente que mora nas ruas, como em todas as cidades grandes.
Gente que, por algum motivo – ou por vários, abandonou a vida que tinha… ou foi abandonada por ela.

Gente que dorme entre caixas de papelão, portadas de edifícios ou abrigos da prefeitura.

Eu vejo alguns, de vez em quando…

…mas esse era diferente.
Madrid-2009

Ele escolheu a calçada do Teatro Real de Madrid como cama, suas grades como armário… e um livro como companheiro na fria manhã de Inverno.
Um livro de páginas amareladas e sem capa… um livro!

Eu passo rente à sua manta azul, uma e outra vez, com uma vontade imensa de abordá-lo.
Queria perguntar quem é, de onde vem, o que houve para que esteja aí, entregue a intempérie ?
Queria dar-lhe algum dinheiro para o café, o pão, o leite.
Mas ele não parece um mendigo.
Vejo de soslaio uma barba grisalha, limpa e bem cortada… a mão que sustenta o livro aberto, também limpa.
Tive vergonha de incomodá-lo.

 

Faz mais de uma semana que penso nele…

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Mudaram as Estações…

Passou. Já passou. Tudo passa…
O inferno astral existe, aviso. Mas passa…
Meu tempo de viver aqui no paraíso também acabou. Estou de mudança para o centro de Madrid. Uma mudança que de tanto ser adiada, cada vez está mais desejada!
É verdade, preparei meu espírito para sair daqui na primeira semana de Setembro, mas não pôde ser. Nem na segunda… nem na terceira… nem em todo Setembro.
O verão acabou… e o outono vem se insinuando entre as frestas das árvores, com uns dias nublados e um friozinho nas pontas do dia. Pela manhã a bruma envolve a casa , o frio gela os lençois da cama, eu procuro abraçar umas costas quentinhas e, desde o limbo do quase-desperta-quase-dormida, tomo total e absoluta consciência da felicidade e da sorte.
Depois, durante o dia, a boa sensação se esvai quando uma atmosfera abafada e úmida toma conta da casa, fazendo pesada a solidão e o silêncio de um lugar já com cara de passado… até que o sol se deita. Então o frio volta… e com ele meu abraço quentinho e a deliciosa companhia a que me acostumei nesses seis anos de Espanha.

Hoje, o último pedaço de Setembro se esvai nas brumas de um dia que não faz sol nem chove…só abafa.
A casa vai, pouco à pouco, se transformando numa coisa amorfa, que nem é mais a que eu encontrei quando vim viver aqui, nem mantém a aura que tinha até menos de um mês atrás.

Algumas plantas eu já presenteei. As redes eu já enrolei, as luminárias de latão que eu trouxe do Brasil já estão desencaixadas de seus nichos e guardei cuidadosamente alguns objetos, pois não quero arriscar que alguma outra pessoa os embalem sem suspeitar de seus significados.
Minha casa- Don Quijote y Sancho Panza
Meus marionetes de madeira, Don Quixote e Sancho Pança , comprados numa deliciosa viagem à Zamora já não pendem da estante de livros da sala, nem o lindo Caboclo de Lança pernambucano guarda os meus DVD´s de música brasileira.
Os instrumentos musicais estão numa caixinha à parte. Nem posso imaginar um sujeito que faz mudanças tendo a paciência e o amor necessários para com minúsculos violinos de madeira, delicadas flautas e trombones de mentira.
Também não confiaria a desconhecidos a sopeira que foi da minha mãe ou uma escultura de ébano e marfim que foi do Lorde.
Para eles o valor da sopeira é algo que o seguro cobre. Para mim não há dinheiro que pague.
Minha casa-instrumentos musicais
Muitas vezes me lembrei de uma carioca que estava interessada em comprar meu apartamento em Recife, justamente quando eu estava tentando enfiar minha vida em quatro malas.
Quando ela soube que eu pretendia vir viver na Espanha deu-me um conselho valioso. Ela disse: “deixe as roupas e sapatos…disso leve apenas o indispensável. Mas escolha algumas coisas significativas na sua história e meta-as na sua bagagem como for. Esses serão seus referenciais, são insubstituíveis. As roupas a gente compra novas, mas a história não. ”
Foi o que fiz.
Desfiz-me de metade das roupas das malas e trouxe quadros, livros, objetos, fotografias. Poucos, mas importantes.
E não me arrependi, nunca!
Uso o mesmo conselho agora. Enquanto escolho o que vai e o que fica, removo seis anos de vida na Espanha. Esvazio gavetas, estantes, armários… encho sacos de plástico negro com roupas que já não nos servem, encontro coisas perdidas, descubro porcarias tão bem guardadas que nem me lembrava que ainda existiam.
Mudo móveis de lá para cá, organizo caixas… e as espalho por toda parte. Quem disse que é fácil organizar caixas de história?
Sei que a mudança vai ser boa para nós. Adoro a ideia de investigar e conhecer Madrid como habitante de suas ruas e não apenas como visitante em dias de passeio.
Sei que sair de uma casa maravilhosa como essa para ocupar um dois quartos minúsculo exige praticidade e organização na hora de escolher o que vai, mas já me conheço de outros Carnavais. Sou capaz de adaptar-me a uma cesta de gato.
O problema é só a nostalgia que me acompanha no momento da “passagem” de um estado para outro. Fico com saudade antecipada do canto dos rouxinóis enamorados na janela do quarto, da enorme lua dos campos, das amapolas que invadem todos os cantinhos onde há verde e pintam de vermelho a vida e enchem os meus sorrisos de felicidade. Elas me animam, me encantam, me fazem rir no meio da rua e falar com elas, como louca. Velha e louca, eu fiquei aqui.
Minha casa-um esquilo
Sinto uma saudade das noites diante da lareira, com música bem alta e um bom vinho! De sair para o jardim enrolada na manta de lã para ver um eclipse ou apenas para buscar as constelações do hemisfério norte, as velhas estrelas de meu novo céu.
Na cidade a gente tem cinema, teatro, bares e restaurantes… mas nadica de estrelas.
Lá a gente tem transportes rápidos e fáceis, pessoas por toda parte, muito para observar, muito o que explorar… mas nada de raposas esquivas pelos sendeiros ou rubros esquilos engraçados buscando nozes no meu jardim , nada de velhas senhoras coelhas entrando pelo portão, sempre aberto, em busca de algo para seu café da manhã… e menos esse silêncio que acompanha um por de sol diferente a cada entardecer.
O campo tem uns encantos que só quem vive nele tem tempo de descobrir…
Quando cheguei, era pleno Inverno. Lindíssimo inverno. Pouco a pouco fui reconhecendo cenas em “deja vú” de antigos sonhos infantis. Enquanto descansava sob os prunos, fazia um bolo escutando ópera ou lia diante da lareira, parecia que já havia vivido isso em algum outro momento da minha vida. Nunquinha da silva tive tempo de viver isso. Mas creio que tive tempo de sonhar nos escondidos dos desejos impossíveis. Descobri aqui que estava no lugar certo, na hora certa, fazendo o que queria estar fazendo… por dias e dias. Isso me deu uma serenidade feliz impressionante.

Acho que foi fantástico ter podido estar aqui esse tempo, consolidar minhas escolhas, amadurecer a relação de amor com meu pirata, conhecê-lo melhor e fazer-me conhecer ao vivo e a cores, sem pressa.
Agora chegou a hora de sair do ninho do monte e ir viver no meio do mundo. De aventurar por uma cidade que promete ser encantadora… mesmo sem lareira, sem cheiro de mato e sem amapolas.
Aprenderei a admirar as luzes das maravilhosas fontes, as fachadas neoclássicas de seus edifícios, os ruídos das crianças em seus inúmeros parques, os concertos de música clássica, as peças de teatro, os cinemas espalhados por toda parte… as cafeterias, os bares de tapa…a confusão de gente de todas as raças cruzando as belas ruas e bulevares da cidade.
Faltam apenas 17 dias…
A lá vou eu arrumar mais uma caixinha…

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Gente…

Sempre tive uma fascinação pelos anônimos, muito mais do que pelos famosos.
Geralmente não sinto curiosidade pelas revistas de assuntos do coração (como chamam aqui as revistas de fofocas), nem gosto de cascavilhar a vida das pessoas que conheço. Isso não significa que não sinta interesse por elas e sim que tenho um grande respeito por suas intimidades. As pessoas só me contam o que querem contar. Gosto de escutá-las quando falam de suas vidas e contam suas histórias, mas nunca faço-lhes perguntas indiscretas sobre o que não desejam comentar.
Com os desconhecidos é diferente.
Sento num banco da estação de trem nas proximidades de Madrid e quase imediatamente me sinto tragada pela vida da gente que me rodeia. Observar as pessoas é algo que me distrai imensamente. E mais agora que vivo fora da cidade.
Pode ser apenas uma mulher que passa com um penteado absurdo ou uma jovem com um vestido apertado sobre uns jeans rasgado equilibrando-se nos saltos, finos como agulhas, dos sapatos cor-de-rosa-choque. Onde vai vestida assim e correndo tanto?

Sinto uma enorme empatia por uma mulher, quase anciã, que lê um livro tão velho quanto ela, cujas páginas amareladas parecem terem estado guardadas numa arca escondida no fundo de um escuro porão. Imagino se é a primeria vez que o lê ou se já leu muitas vezes a mesma história… ou quem sabe apenas tomou-o emprestado de alguma biblioteca empoeirada de um bairro distante e o faz respirar e reviver em suas mãos um tanto trêmulas.

Quero saber mais sobre o músico que toca uma balada conhecida numa esquina fria enquanto os passantes mais sensíveis jogam uma moeda dentro da caixa de seu instrumento, ou sobre um mendigo que passa falando sozinho empurrando um carrinho de supermercado cheio de objetos escondidos atrás de um cobertor… ou ainda sobre um sujeito com cara de professor que está sentando num banco da praça com os olhos cheios de lágrimas…
Ah! como me impressionam as lágrimas do anônimo sujeito!
E sigo eu perdida, por um tempo incontável, imaginando histórias para suas vidas, de onde vêm, para onde vão, quem são seus seres queridos, como ocupam seus dias e noites.
Outro dia foi assim…tanto viajei na imaginação e me deslumbrei com ela que tive que sair correndo para não perder o trem. No banco deixei o livro que levava, sem abri-lo sequer. Outra novela de Marcela Serrano, dedicada e assinada pela autora. Faltava-me ler apenas dez ou quinze páginas para terminá-lo.
Ainda pude avistá-lo de longe, abandonado no banco da estação, enquanto o trem se afastava lentamente. Era impossível abrir a porta e descer. Precisava esperar a seguinte estação e voltar em outro trem para tentar recuperá-lo. Um tempo demasiado longo. Possivelmente ele não mais estivesse ali. Era noite e eu estava voltando para casa. Voltar podia significar mais de uma hora de atraso. Deixei-o ali. Triste e calada segui meu rumo.
Imaginei quem iria encontrá-lo, quem teria coragem de ficar com ele. Na capa, um copo que cai e espalha um líquido rubro sobre um tudo que não se vê..
O título? Para que não me olvides.
Sorri com o inusitado do acontecido. Um livro esquecido numa estação de trem, que sussurra para quem passa : Para que não me esqueças…

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No Trem…

“Se você não se calar AGORA, vai chorar com motivo”. Sibila entre os dentes, com impaciência patente, uma mulher jovem e bonita que está sentada bem atrás de mim. O bebê já choramingava há um tempo, num monótono tom persistente, um choro cansado, quase desistido. Ele estava deitado e amarrado pelas correias de segurança num carrinho negro e cheio de compartimentos úteis. Devia ter mais de dois anos, mas estava deitado como se fosse um bebê de meses. A ameaça da mãe saiu em Português e minha surpresa foi ainda maior. Uma brasileira que está perdendo seu traço mais forte, a expressão de carinho, o jeito de abraçar? Estará se europeizando.
Já estou acostumada a ver mães e pais europeus viajarem acompanhados de crianças de qualquer idade mas comportando-se como se os filhos não estivessem com eles. Os pequenos podem chorar, vomitar, gritar, morrer… e eles impávidos, com cara de não é comigo, nem estou ouvindo nada. Claro que nós, os outros passageiros, vemos e escutamos tudo, exceto os que viajam com os auriculares do Ipod enfiados nos ouvido.
Outra criança, um pouco maior do que o bebê que chorava de dar dó – cuja mãe era incapaz de mover-se para tomä-lo nos braços, fazer um carinho, sussurrar no seu ouvido uma canção – passeia pelo trem, joga-se como um mamulengo vivo sobre a sua poltrona, fica de cabeça para baixo soltando gritos finos e insuportáveis. O velho que senta bem em frente a ele lê o jornal, ou seja, tenta ler o jornal. De vez em quando afasta-se aborrecido das botas sujas do menino em seus joelhos e fulmina com um olhar reprovador a mãe que olha para o nada pela janela do trem, distante e perdida em reflexões filosóficas, fazendo de conta que não sabe o que ocorre ao seu lado. E mais, nem conhece aquele monstrinho fazendo macaquices e importunando as pessoas à sua volta. Tenho vontade de levantar e tentar distraí-lo, contar-lhe uma história, conversar sobre a paisagem. Mas sei que serei eu a fulminada pela mãe no mesmo momento em que me aproxime do bichinho abandonado no vagão. Epa! Que faz essa imigrante morena junto ao meu menino!
De repente ela se dá conta que os gritos estão cada vez mais altos e descobre que é a mãe da criatura. Pega-o grosseiramente pelos bracinhos finos e joga-o sentado na cadeira. Shhhh! Põe um dedo sobre a boca franzida, vira-se de novo para a janela e mergulha nos seus pensamentos. O menino fica por um segundo e meio mais ou menos quieto, confuso, toma o queixo da mãe com as duas mãozinhas e gira o rosto dela em sua direção. Ela desvencilha-se dele e volta a ignorá-lo. Aí ele começa tudo outra vez. Como um malabarista sem controle, pula para um lado e outro e grita na sua voz esganiçada de macaquinho. Oh! meus Deus, que insuportável! é o que se pode ler nas caras dos passageiros mais próximos.O homem velho se levanta e vai em busca de outro assento onde possa concentrar-se nas notícias.

A brasileira atrás de mim ameaça de novo seu bebê com uma raiva assustadora e olha-nos um tanto envergonhada porque ele existe e é seu, apesar de todo o esforço para ignorá-lo. Não está lendo, nem olhando pela janela, nem fazendo nada. Apenas não pretende retirá-lo daquela posição incômoda de onde só pode avistar o teto do trem. Ela precisa estar sozinha, para quê eu não sei. Fico me imaginando tomando-o nos braços e perguntando-lhe porque chora, mostrando-lhe as árvores lá fora, pegando seus dedinhos e cantando “dedo mindinho, seu vizinho, fura bolo, cata piolho… cadê o gato que estava aqui?” e escutando sua risada enquanto se encolhe com as cócegas. Imagino seu bracinho de pele suave segurando meu pescoço e perguntando o por quê da coisas de um livro cheios de figuras coloridas que eu tiro da bolsa para estimular seu cérebro e fazer-lhe companhia.
Mas não me atrevo a mover-me. Como uma pessoa estranha vai fazer o que deveria fazer a mãe? E mais assim, em público, diante de todos? Também sei que ela não deixaria nem que eu me aproximasse do carrinho, exceto se fosse para conversar com ela! E eu não queria conversar com ela, nem ouvir suas explicações, nem socializar com uma conterrânea. Queria apenas embalar o seu bebê, estar com ele nos braços, fazê-lo sentir-se bem.
O trem para na estação e a mãe desce com seu filho, deitadinho, o pobre. Sei que ela vai subir e descer escadas com o enorme carrinho no braço, de saco cheio por ter que sair de casa com aquele pedacinho de carne barulhento. O menino vai seguir vendo apenas os tetos, talvez os cantos altos das paredes nuas da estação, ouvindo vozes que ele não conhece e que vêm de todas as partes acima de sua cabeça. Quem sabe pare de chorar quando veja o céu lá adiante do caminho! A mãe ele não pode ver. Ela caminha atrás da capota negra do bólido utilitário, com cara de enfado, empurrando seu incômodo pacote vivo.
Fico com os olhos cheios de lágrimas. Ando sensível.
A porta se fecha e o trem segue seus trilhos. O menino saltimbanco acaba de levar um beliscão. Agora ele também chora, além de gritar. A mãe olha para o vazio…
A próxima estação é a minha. Saio do vagão andando devagar, pensando no menino-macaquinho que ficou no trem, no seu desejo que sua mãe olhasse para ele, conversasse com ele, lhe contasse uma história de fadas e dragões de jorram fogo pela boca e salvam princesas encantadas dos castelos…
Quem o salvará da solidão?

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Agostos…


Mais um verão.
Desta vez, como em todas as outras, o que parece igual é tão diferente!
Em agosto de 2003 a temperatura parecia não ter limites, chegava a roubar-me o humor, o prazer de existir.
Naquele agosto a saudade do inverno já havia sentado na sala com um leque na mão a abanar-se, a desejar as praias nordestinas, perdida na absoluta falta de memória que o afeto provoca quando se está tão longe dos lugares que ajudaram a construir a própria pele. Quem se lembrava das chuvas e dos mosquitos dos antigos agostos do Janga ou de Toquinho? Nem eu nem ela.
Todos os agostos as agências de viagens espanholas tomam conta da metade dos principais jornais e enganam a todos fingindo que é verão em todas as partes do mundo, como se essa fosse a única estação do ano em que é possível ser feliz.
Voe para o paraíso… Quem disse que verão com calor abrasador é paraíso? Nunca foi. Para mim se não é o inferno, chega bem perto.

Mas o verdadeiro inferno daquele agosto foi encontrar-me com o inesperado medo de haver-me equivocado, o terror de haver inventado um amor. Um agosto em que as noites insones eram maiores que os dias, os cigarros eram a falsa companhia no silêncio de uma sala vazia enquanto o coração tentava ancorar-se nas lembranças do agosto anterior, quando o único que eu desejava era que a saudade se deixasse morrer e me permitisse ficar aqui para o que desse e viesse, sem praia sem nada, mas dormindo todas as noites, absurdamente feliz, as pernas entrelaçadas e o rosto a meio centímetro de uma barba perfumada.
Novamente é agosto. E desta vez, como em todas as outras, o que parece igual é tão diferente. Em outro agosto, toda chuva do mundo caiu dentro do peito. Foi o mês mais frio que já passou minha alma.
Seis anos atrás a Princesa se foi, justo ao primeiro dia, e o mundo passou a ter outros significados. Frio deixou de ser oposto ao calor e passou a ser vazio, oco, falta, medo, dor, morte… de uma forma como nunca havia sabido ser. Nem mesmo aquela outra, de muitos anos antes, também uma dor de agosto, e que veio junto com a certeza de que a separação era inevitável…
Desta vez, como em todas as outras, o mesmo agosto é tão diferente. No ano passado eu estava em prantos na sala, com uma roupa escolhida com cuidado e na mão uma pasta azul cheia de papéis com os prazos de validade quase vencidos e acabando de chegar de uma terceira frustrada tentativa de entregá-los ao registro civil de uma cidade onde ninguém pode casar-se nestas datas. Neste país, o mundo sai de férias todos os agostos, por mais iguais ou diferentes que eles sejam…
Pois sim…
É agosto e o mundo saiu de férias. Estamos de novo sós com nossa história.

Desta vez, como em todas as outras, o que parece igual é muito diferente. Agora o calor não parece insuportável e deixa entrar umas brisas refrescantes que transformam as noites claras em verdeiras delícias. Além do mais, um veleiro de madeira, antigo e cheio de histórias, nos aguarda em Galícia, onde por dez dias vou realizar outro dos meus quase impossíveis sonhos: navegar à vela com olhos-de-mar-azul.
Figa!
Por se acaso…

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Meus Queridos,

É provável que estejam sentindo-se um tanto abandonados, mas jamais duvidem do meu bem querer. O que passa é que quando estou aqui em casa fico meio perdida entre as horas dos dias comuns e emaranhada nas tarefas – irrelevantes, eu admito – de uma casa onde vivem pessoas que comem, vestem, dormem.
Todos os dias há o que fazer. Nunca imaginei que poderia deixar-me envolver assim pelo todo dia de uma casa. Sempre fui daquelas que saíam pela manhã e voltavam à noite. Como a minha casa se arranjava, não sei!
Agora, sempre que posso eu fujo, claro. Só que para fora das minhas paredes.
O mais comum é que vou caminhar entre os pinheiros e cantar em voz alta – não há ninguém para rir de mim – acompanhando as músicas que soam dentro dos ouvidos através dos fones do aparelhinho de MP3.
Não me importo com meus ridículos ruídos musicais. Nem os pássaros, nem os esquilos, nem os enormes e negros besouros ou as torcazes, gordas e felizes. Parecem que todos já se acostumaram.
Por sinal, que felizes são as torcazes! A beleza delas é ser gorda, não é maravilhoso? Nenhuma preocupação com as curvas. Elas voam ruidosamente felizes e fazem ninhos lindos e grandes. Este está justamente em um dos três prunos do meu jardim.
Elas parecem orgulhosas de si mesmas. Seu tempo de serem magras e leves passou. Agora já procriam, alimentam seus filhotes, os ensinam a voar e podem apresentar-se assim, mais redondinhas, mesmo que isso lhes façam menos rápidas e mais escandalosas no farfalhar de asas com que me presenteam durante o passeio. São tão lindas com suas barriguinhas estufadas!
(Enquanto penso isso apresso o passo no intuito de gastar mais as calorias acumuladas nas dobrinhas, pois ainda não consegui acreditar que não caber na última calça comprada é algo de que deva orgulhar-me. Hunf! )
Pois sim…Faz tempo que procriei, alimentei e ensinei a voar a minha cria. E ainda ajudo-a a repensar seus planos de vôo e abro as asas para aninha-la quando necessita de colo. Ultimamente ela tem precisado de mim e eu fico encantada em poder suprir suas carências de mimos. Me entrego inteira e agradeço por estar aqui, tão perto dela. Muitas mães de amigas suas não têm essa facilidade, então estufo o peito e transbordo de tanto amor. Como uma torcaz.
Mas… não consigo olhar para as dobrinhas da barriga e pensar que elas já podem instalar-se ali para toda a eternidade. Ainda luto contra. Mansamente, é verdade, mas constantemente! Mudei de médico e recomecei um plano de guerra contra elas. Tirei a bicicleta da garagem e estacionei bem diante do terraço. Para recordar-me que ela pode ajudar-me.

Agora que deixei de fumar já posso bicicletear diariamente por 10 quilômetros de altos e baixos e ainda ganhar de graça um pôr-do-sol distinto a cada tarde!
A bicicleta me cansa uma barbaridade, mas o pôr-de-sol não. Nunca são iguais!
O sol surpreende sempre com as cores com que pinta o céu e as nuvens esgaçadas ou emboladas, imitando formas mitológicas. A cada tarde o céu modela e o sol colore diferentes deusas, unicórnios, cavalos alados, barcos e balsas…monstros marinhos.
E o vento que acaricia meu rosto tem cheiro de mato, de infância, de liberdade, de simples e pura alegria. É uma maravilha que preciso aproveitar antes que venham os ventos gélidos e os dias curtos do inverno madrilenho. (As dobrinhas estão desesperadas.)
Ahahahahha!
Também tenho aproveitado o tempo de calor para curtir a piscina, que durante as manhãs dos dias de semana está ali só para mim.
Bem, um ou outro visitante faz-me companhia. De vez em quando avisto esquilos ruivos que passam correndo entre os pinheiros ou andorinhas que se arriscam a rasantes espetaculares sobre minha cabeça para beberem um pouco de água fresca.
Belos momentos… tranquilos e mágicos momentos.
Adoro mergulhar no silêncio azul e frio das águas tranquilas e esquecer o calor. É uma sensação muito agradável deixar-me boiar, abraçada pelo azul, escutando o nada. O problema é que a temperatura da água não é das mais acolhedoras e não aguento ficar ali por muito tempo. Assim, é necessário mover-me, nadar, bater pernas, qualquer coisa que esquente o sangue. Ou esperar fora d´água por olhos-de-mar azul… sua presença (ainda e sempre) aquece tudo em mim e ao meu redor. Mas ele só pode vir na hora do almoço…
De vez em quando aproveitamos para que me ensine a mergulhar com equipamentos. Temos uns planos incríveis para alugarmos um barco com alguns amigos e mergulharmos juntos nas próximas férias.
Não pensem que não tenho histórias interessantes para contar aqui. Tenho umas lindas, outras tristes, outras ainda supreendentes!
Também poderia falar dos acontecimentos no mundo. Acompanho as notícias dos jornais, leio os principais artigos, me enraiveço com o cinismo, a crueldade, a falta de vergonha e de cidadania, de compaixão, a extrema violência dos seres humanos. Me entristeço com as notícias que leio sobre o Brasil, penso em comentar… depois desisto. Já muitos blogueiros fazem isso mais e melhor do que eu. De vez em quando imprimo uns posts espetaculares para ler mais tarde. Lá fora. Na rede. Muitas vezes penso em escrever sobre eles…mas me falta ganas de estar diante da tela como antes.
Na verdade, ultimamente o que me falta é vontade de estar longe do céu azul, das borboletas amarelas, das flores que ainda enfeitam meu terraço, dos livros que me chamam a sussurros sedutores para que os leia, mesmo que seja só mais um capítulo.

Tá… me falta também a vontade de perder tempo com as tarefas caseiras. Mas essas, infelizmente, necessitam serem feitas, mesmo que eu as deteste. E quando digo que estou perdida nelas significa isso mesmo. Per-di-da!
Assim…começo a arrumar a sala e quando levo um copo na cozinha já fico por lá, guardando coisas, arrumando a geladeira, varrendo migalhas de não-sei-o-que… aí descubro uma planta sem água e vou aguar todas elas – e são muitas – e já estou de volta ao jardim. Fico por ali largos momentos, tirando folhas mortas, limpando os vasos… aí vejo os vidros das janelas pedindo socorro! E lá vou eu buscar um jornal e um limpa-cristais para passar sobre eles. Então descubro notícias que não li e perco-me nelas por uns momentos, até descobrir que ainda não terminei de arrumar a sala…e também que há um montinho de roupa bem diante da máquina de lavar, que eu mesma empilhei ali, em alguma das milhares de vezes que atravessei a área de serviço. Isso sem falar na montanha de camisas que deixo formar antes de passa-las a ferro. Oh! my god!
Sei que tenho um privilégio de viver numa casa deliciosa, mas paga-se um preço razoável de tempo para mantê-la habitável!
E mais porque ainda convidamos amigos e familiares para compartilhar um espaço tão agradável como o nosso e isso também gasta – e eu adoro investir meu tempo em estar com as pessoas que eu amo – um bocado de horas em comprar e preparar comidas gostosas ( as dobrinhas a-do-ram! ), arrumar os espaços do jardim, proporcionar momentos agradáveis a quem nos visita, criar ou estreitar laços afetivos com aqueles que nos rodeiam e que também nos escolhem como companhia.

Os convites para visitá-los e comer com eles também tem sido constantes. Acho que todos querem aproveitar o verão, os tempos cálidos, os dias mais longos para aproximarem-se mais. No inverno todo mundo se entoca nos sofás e é mais difícil deslocar-se por aí ou por aqui.
Por isso e por mais outras coisas, meu amigos queridos, tenho passado de raspão pelo computador. Mas tenho sentido falta de vocês também. Preciso encontrar uma forma de organizar-me e guardar um espaço no meu dia para nós. Prometo que vou tentar estar mais presente!
Acho que vou fazer um planejamento semanal de horas e tarefas!
Começando por hoje!
Já pensaram… uma psicóloga desempregada precisando de agenda!
Como fui capaz de mudar tanto assim?
Ps: Sobre a orquestra que fui ver em Madrid, posso dizer que estava perfeita, linda… e impossível de se chegar perto. Nove mil pessoas dentro da praça. Não deu para encarar! Não tenho mais o ânimo para ficar em pé e imprensada como uma sardinha, acuada numa das portas que dão acesso à Plaza Mayor de Madrid para escutar, de longe, a apresentação.Eu queria mais do que isso. Fui lá para ver e ouvir, mas o espaço era pequeno demais para um presente daquele tamanho e já estava completamente ocupado duas horas antes do primeiro acorde. Inclusive os pórticos da praça estavam repletos de gente espalhada pelo chão, com carrinhos de bebês que choravam de calor e agonia. Eu, heim!
Uma pena!
Saímos por ali e aproveitamos para passear devagar pela Madrid de los Austrias, sempre um grande e agradável passeio.
Depois escutei a Nona de Beethoven, por Barenboim, em casa mesmo. Um vinho na taça, um queijo na tábua. Feliz. E sem traumas.

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