Arquivo do mês: novembro 2004

Extra-Large Outra Vez…

A notí­cia é pequenina, como querem que seja.
Pequena no tamanho, como tudo na onda da moda. Grande no significado. E diz assim:
O modista Karl Lagerfeld assinou um contrato para desenhar uma coleção para a famosa loja sueca H&M. Mas mostrou-se descontente e não pretende renovar o contrato porque a empresa, além de fabricar poucas peças, ainda teve o desplante de fazê-las em tamanhos demasiado grandes.

Peraí­… O sujeitinho só quer que sua marca vista as mulheres que ele considera “mulheres elegantes”. Isto é, magras. Mas muuuuito magras. As grandes não lhe interessam. Tamanho G é 40.
E as extra-large então?
Estas que se danem, morram… Mas, se sobreviverem, que não se atrevam a mostrar-se. E muito menos com as peças assinadas pelo loiro vampiro aí­ da foto.
As redondinhas de seios e quadris, sejam jovens ou maduras, que andem nuas pelas ruas da amargura, nos becos escuros das noites sem lua. E sozinhas, de preferência, para não gastarem o pequeno arsenal de pares felizes do planeta. Na hora do amor, que apaguem a abajur, por favor! O mundo da luz e das cores é das sí­lfides.
Pois sim… um dia destes escrevi minha odisséia pelas lojas da cidade em busca do que vestir. O post ainda está aí­ embaixo…
Engraçadinho no contar, mas muito sério no viver.
As mulheres não deveriam mais ficar caladas com a pressão social para “um-padrão-de-mulher” comercial e discriminatório. As propagandas da televisão despejam na minha sala milhares de produtos de beleza: anti-rugas, anti-celulite, anti-peitos grandes, anti-peitos pequenos, anti-velhice, anti-mulher-de-verdade.
Todas as modelos tem menos de 30! Assim é fácil mostrar a cara lisinha.
Quase sem perceber miro o espelho e procuro as marcas da minha decrepitude. Se nunca usei nada deveria estar como o Retrato de Dorian Gray. (Digo o retrato, não o personagem de Oscar Wilde.) Não encontro nada de decrépito. Meu rosto mostra as marcas da minha vida e da minha idade. Mantenho a aura que me cerca e que, creio, fez-me e ainda me faz ser uma bela pessoa.
Mas a televisão insiste e grita MAIS ALTO que qualquer programa normal que agora – vejam só! – as clí­nicas de cirurgia estética oferecem planos de pagamento parcelado para eliminar todo, mas todo mesmo, tipo de complexo. Rugas, celulites, peito grande, peito pequeno, bunda caí­da, narizes, orelhas, lábios…tudo!
“Queira operar sua idade, perca 10, 15, 30 anos! Mesmo que passe não sei mais quantos pagando pelo resultado que nunca é o que promete! Se escapar viva, pois senão pagarão a dí­vida seus descendentes. E aí­ sim, promessa cumprida! Vai ficar pele, osso e sem nariz, mas feliz, feliz!”Querem que eu queira ser a Barbie, que já tem 40 com cara de 15, corpo de 12 e cabeça de borracha oca.
Pois não… recuso-me.
E clamo que as mulheres também se recusem a serem enterradas vivas pela montanha de propaganda, cuja intenção é que queiramos nos transformar em bonecas de plástico.
A última que fiquei conhecendo foi da retirada de duas costelas para afinar a silhueta de uma apresentadora de televisão, que veste 36 ou 38, no máximo, e mede mais que 1,70.
O que é isso?
Quem está dando essas ordens para as ovelhinhas do rebanho?
Os vampiros da moda e as mulheres. As próprias ví­timas.
Ninguém me tira da cabeça que são as próprias mulheres.
Sim, porque são elas que buscam defeitos nas amigas e inimigas de modo a “turvarem” os olhos de seus parceiros.
Que ledo engano! Que tolinhas!
Os homens – e chamo homens os normais e não os “metrosexuais”- gostam de uma mulher pelo todo, pelo que ela emana de feminilidade e sex appeal.
Ele nem nota se aquela loira de sorriso espetacular tem os joelhos pontiagudos. E se notar, foi porque outra mulher lhe disse.
E, quer saber? Ele nem se importa. Joelhos? Para que servem?
Como também não nota se a morena que cheira gostoso e anda como se flutuasse, tem TODAS as costelas ou lhe faltam duas! Se duvidar ele até doa outra sua…se ela quiser “ir buscar lá em casa!”
Homem gosta do todo e dizem isso mil vezes!
Mas a mulher não acredita. E sabem porque? Porque outra mulher lhe diz para não acreditar.
Quer ver uma queixa feminina de praxe?
Ela pinta o cabelo, dá reflexos dourados, uma aparadinha aqui outra ali, pinta os lábios com o novo batom da Lancôme de 150 reais… e ele não nota nadinha!
Mas ele gosta de qualquer tamanho e tom de cabelo ou batom se a vê dentro de um bonito vestido de generoso decote. Saia com lasquinha aberta do lado então!? Dá palpitações no peito e brilho novo no olhar.
Não falha. É tiro e queda!
Mas não… Generosos decotes de bonitos vestidos custam uma pasta! Nem todas podem comprar. E as redondinhas menos. Os tamanhos das roupas bonitas e sensuais dos grandes magazines não chegam ao 44! Juro!
Que o diga o modista da notí­cia.
Aposto que por alguns milhares de dólares o peste-vampiro desenha um vestidinho básico, com belo decote e lasquinha na saia para Liz Taylor.
Mas na H&M? A preço popular para uma senhoura de 73 anos, fartos seios e de nome Lola Sanchez? Nem morto!
E nós, as belas e arredondadas mulheres, não importa de que idade, mas de carteiras magras e nomes comuns, que comamos o pão que o diabo amassou na hora de buscar o que vestir.
Aliás… comer pão? Não!
Foto do Jornal El Mundo

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Presente de Natal…

Véspera de Natal.
E eu tirei o dia de folga. Nada de arrumar, limpar, guardar, comprar. Já estava tudo perfeito desde o dia anterior. Aquele era dia para descansar. Queria-o só para mim. Acordei tarde e fui ao salão de beleza, cuidar da casca…
Estava recém saí­da daquele poço profundo e escuro.
Queria retocar cabelo, unhas, sobrancelhas. Tudo o que me permitisse ficar ali, recebendo dengos.
Curtir os momentos relaxados de escutar as conversas fiadas entre desconhecidas. Todas parecendo tão felizes! Cafezinhos, bolachinhas…ti-ti-ti!
Ah, como era bom fingir de dondoca… Igual àquelas de cabelos aloirados pelas tintas mágicas da L´Oreal.
Começo de dia bom. Dia de Mulher-Chic… e eu gostando!
Almocei com a minha mãe. E depois de um café e um licor, mais dengos. A Princesa gostava…e eu também!
Então…
Voltei para casa, pensando em ouvir as Suites de Bach para violoncelo, dormir um pouquinho na casa limpa, sozinha… Ahamn! Um sooono!
Dei de cara com o rosto apavorado do porteiro, já na garagem:
– A Sra. deixou uma torneira aberta. Quando a água chegou, inundou tudo. Só descobrimos quando começou a escorrer pelas escadas.
– Hem?! Não é comigo. Não pode ser COMIGO! Continuei andando. E o porteiro me seguindo.
Era. Era comigo.
Pânico!
Entrei em casa e estava tudo, absolutamente tudo ensopado. Tapete, almofadas, quarto, cozinha! Eu andava e fazia poft…poft…poft… Os pés provocando ondinhas. Água por todo lado!
Tive vontade de fechar a porta e fugir. Deixar o tempo secar tudo. Mas o porteiro estava ali. Era testemunha de que EU VI.
Fechei os olhos. Não adiantou.
Tive vontade de voltar no tempo e nada aconteceu... “…apenas seguirei como encantada…”
Tive vontade de beber a garrafa inteirinha de whisky que estava na estante.
Tive vontade de jogar tudo pela janela. Era tão pouquinho mesmo.
Tive vontade de sentar e chorar…
Procurei uma ilha e sentei na única parte seca da casa , diante do computador, no quarto da minha filha. Ela estava morando nos EUA e eu tentava esquecer a falta que me fazia.
Abri meus e-mails. Muitos eram cartões de ” Feliz Natal ” dos amigos.
Havia uma carta dela dizendo que me amava muito. Eu também… eu também…
Acendi um cigarro e pensei… ” nunca mais volto para a sala…” Ficaria ali por toda a minha vida.
Meu reino por uma faxineira!
– Que reino?
– Cadê meu anjo?!
Nem o porteiro estava mais!
Três horas e meia tirando tudo do lugar, secando o chão, mandando um tapete de quatro toneladas para a garagem. De camiseta e calcinha, rabo de cavalo, dançava e bebia um whisky na sala úmida. Foi a melhor opção.
Adeus mulher dondoca! Adeus cabelos escovados! Adeus dia de delí­cias!
Adeus Bach!

Botei um disco de Roberto Carlos, dos antigos… para lembrar que era Natal, que dali a pouco estaria com meus irmãos e minha mãe, comendo e bebendo!
– Por quanto tempo ainda a terí­amos por perto?
Dancei… “Ah! esse amor selvagem, passagem…pra loucura e pra dor…”
Era mais feliz agora.
Achei que era louca.
Depois pensei que não devia ser, senão teria ido embora e deixado tudo como estava. Ou pior, jogado tudo pela janela do 15· andar.
Por falar em janela… da minha eu podia ver as verdadeiras mulheres-dondocas saindo do shopping em seus carros importados, com motorista e tudo! Para elas só a cor dos cabelos era falso. O resto era tudo verdade!
Aí­ sentei de novo e resolvi escrever. Registrar o inusitado presente de Papai Noel, que piscava como um sinal de que a vida podia mudar nossos planos de uma hora para outra…
Tudo era possí­vel acontecer no dia de Natal? Inclusive uma inundação no 15° andar de um prédio, aparentemente inatingí­vel pelas águas, em pleno racionamento da seca no Nordeste do Brasil!?
Embora parte da responsabilidade seja sempre nossa, às vezes o mundo gira ao contrário!
Não lembrava de ter deixado a torneira aberta E, realmente, só estava mal fechada. O que dava no mesmo…
Escrevi que mais tarde faria um brinde silencioso a mim mesma. Por eu ter saí­do definitivamente do poço, por eu não ter desabado de novo na tristeza, por estar suportando com raça a grave doença da Princesa.
Como mostravam os filmes natalinos que eu via quando era criança, a felicidade era um momento mágico, e a mágica devia estar mesmo dentro da gente…
A sala já estava seca. A cozinha, o banheiro e os quartos ainda úmidos, mas menos ameaçadores. Já tinha Bach para violoncelo tocando alto no som…
Nem pulei pela janela…
Sentia uma estranha alegria no coração…
Talvez porque era Natal…
Mas… se eu nem gosto de Natais!

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Um Universo Virtual…

Alguns amigos virtuais já fizeram o que eu vou fazer agora: um comentário sobre outros blogs.
Eu sei que muitos dos que vem a esta página encontraram meu link em um o outro blog que visitam. E isso é o encantador da rede de blogueiros. Ninguém é forçado a visitar ninguém, mas as indicações valem muito.
O visitante vem, lê… e se gosta, volta.
E se continua gostando vai ficando “cliente.”
Eu tenho o prazer e a honra de ter alguns fiéis amigos nesse universo virtual, mesmo já tendo trocado três vezes de endereço.
Agora, coitados, estão relendo posts antigos, talvez pela terceira vez, e ainda assim, delicadamente deixando seus pequenos comentários.
Agradeço muití­ssimo a paciência e o carinho que demonstram com este gesto.
Tenho já uma vasta lista de blogs linkados aí­ ao lado, todos deliciosos de serem lidos,e espero ter contribuí­do para que os donos deles também sejam visitados por aqueles que vem aqui.
Mas hoje eu quero dar um flash especial a Manoel Carlos e seu Agrestino. O melhor blog do “meu” universo blogueiro.
Manoel escreve como quem conversa com a gente sobre qualquer assunto, atual ou do passado. Conta histórias de suas andanças, fala de literatura, polí­tica, linguagem, amor, saudades.
Nunca escutei a sua voz, mas tenho a impressão que é grave e tranqüila como a voz de quem tem paz interior. Nunca escutei seu sorriso mas posso senti-lo nas histórias bem humoradas que conta sobre o Nordeste brasileiro. Nunca vi seu olhar, mas o imagino embaçado de saudades quando fala de antigos amigos que conquistou pelo mundo a fora, em Portugal, Moçambique, Rio de Janeiro, Pernambuco, Rio Grande do Norte…
Nunca estive pessoalmente com ele, mas pude sentir seu abraço em muitas das vezes em que deixou aqui seus recados.
O blog de Manoel é como ir ao um bar de pueblo. Aquele que a gente pode ir durante toda a vida que sempre vai encontrá-lo disposto a cantarolar um sambinha, um frevo, recitar um poema lindo e quase desconhecido, provar com ele um gosto antigo de infância, reconhecer perfumes, escutar boas histórias.
Manoel é amigo fiel de pessoas e feitos. Nunca deixa de homenagear personagens que admira. Nunca deixa de comentar fatos importantes. Toma posição. Opina. Avalia.Indica bons blogs, bons artigos.
Mas seu tom nunca é o de um dono da verdade. Seu tom é sempre o de quem sabe – e gosta – de compartilhar suas idéias.
………………………………………….
Outro blog fantástico é o de Maria, a Digressiva Maria.
Suas digressões me fascinam. Ela escreve como quem borda, com as palavras, lindas peças de linho. Às vezes, um vestido de festa. Outras, uma manta de rotos retalhos, imensa, como aquela que acompanhou Tita ao hospital no filme Como Água Para Chocolate. Imagino, às vezes, Maria bordando sua colcha com os pedaços de suas muitas dores nas noites de fria solidão da alma, escolhendo as letras com cuidado, para não perder nenhum ponto necessário à compreensão de seus sentimentos.
Maria é mestre nos desenhos possí­veis da alma. Ela e sua escrita se entregam uma à outra como amantes.
Umas vezes são cruéis, descarnando uma à outra de seus segredos… Outras, podem ser doces cúmplices de inimagináveis mistérios…
Maria e sua escrita formam uma belí­ssima mulher! E seu blog é um presente para quem a visita.
………………………………………….

Uma nova descoberta é Marpessa, do Casa dos Espelhos. Ainda estou descobrindo seus textos e já estou perdidamente enamorada por eles. No blog, trechos de Julio Cortázar, Hilda Hilst, Henry Miller, Paulo Mendes Campos se entrelaçam com seus próprios escritos.
Acho que poucos o descobriram, pois vi raros comentários.
Mas enquanto lia seus escritos (ou seus transcritos) já sabia que estava atrapada pela página. É quase como entrar numa sala de cinema, escura e vazia de outros espectadores, para ver pequenas peças de arte pura.
Dá vontade de aplaudir em silêncio…
Infelizmente tenho pouco tempo disponí­vel diante do micro e não posso demorar o quanto eu gostaria para visitar todos os blogs que eu gosto com a constância que eles merecem, e ainda descobrir novos.
Minha conexão ainda é jurássica, por linha telefônica que sequer é só minha. Assim, muitos outros blogs que eu gostaria de comentar aqui vão ficar para um outro post.
Perdoem-me…
Convido-os a visitarem estes, por enquanto!

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Extra Large…

Eu andava lutando com a balança como um bicho!
Manso.
Não é muito fácil ganhar essa luta na vida que venho levando. As comidas, as bebidas, o amor completo, a maturidade do corpo e do espí­rito, a paz instalada na alma, engordam!
O frio por nove meses do ano e as roupas belí­ssimas de inverno, outono e primavera madrilenhos escondem as dobrinhas como amigas condescendentes.
Mas aí­, chega o verão… e cadê o biquí­ni que não cobre mais nada?
Cadê as bermudas de algodão que, inimigas mortais de uma cintura mais redonda e quadris mais largos, mostram com sarcasmo que seu corpo não mais as merecem?
As blusinhas diáfanas e sem mangas saem do guarda roupa para o corpo por mais ou menos dois minutos e se acumulam sobre a cama, incômodas, ridí­culas e imprestáveis!
As únicas amigas de verdade são as camisetas e os jeans! Esses nunca me abandonarão! Mas como ir à praia assim?
Não se deprima! Digo a mim mesma rapidamente. Vá às compras! Todas as mulheres do mundo saem às compras no verão, ou não?
Sim. Todas.
Mas aí­ eu descobri que agora eu não sou mais M – de Mulher Maravilhosa – ou G de Grande e Gostosa, para as roupas que devem ser mais folgadas e soltas. Eu agora eu sou EX de Extra (enorme) Mulher.
Que humilhação! Foi meu primeiro pensamento.
Mas peraí­! Não se deprima. Compre só umas coisinhas e assim que começar o inverno as dobrinhas vão ver com quantos paus se faz uma canoa. Isto é, como se costura a boca! Disse-me mais rapidamente ainda. Animador. Às compras!
Até que descobri o pior. O significado implí­cito no tal EX.
Leia-se EX MULHER!
Mulheres Extra Grandes não têm direito às roupas modernas e femininas. Elas tem que vestir umas batas sem forma alguma, com cores asquerosas, flores imensas ou bolinhas minúsculas!
E as bermudas? Um nojo!
Os modelitos são desenhados para “senhouras” de quinta idade, do iní­cio do século passado.
Pois é…
Aqui para nós, as mulheres maduras da nossa época são muderrrnas, têm um gosto jovial, querem sentir-se femininas e sexy! Incluindo as gordinhas!
O que faz a indústria da moda pensar que as Extra não podem estar bonitas e bem vestidas?!
Vou contar sobre as compras…
As lojas de departamento, as redes conhecidas de roupas com preços mais acessí­veis ao bolso da população classe média, vendiam coisas lindas e maravilhosas!
Dava água na boca ver! Dava vontade de comprar e vestir na hora!
Mas, quando eu escolhi algumas delas e procurei meu tamanho, capoft!
Deu vontade de chorar, de morrer, de me internar num SPA, de fazer uma cirurgia de estômago!
A maior peça G vestia minha filha, que tem 20 anos e pesa 54 quilinhos bem distribuí­dos. Em to-da a lo-ja não havia absolutamente nada (que eu gostasse) que desse em mim.
Nem na loja ao lado. Nem em todo o centro comercial!
Só jovens magras tem o direito de comprar coisas bonitas e de bom preço?
Não, assim eu estaria mentindo. Existem umas duas ou três lojas especialmente para as mais maduras. Coisas hor-ro-ro-sas!
Nem minha avó se vestia assim!
A mãe do Lorde tinha costureira particular que ia em casa e fazia seus elegantes conjuntos, que ela estreava com orgulho nas missas de domingo e nos chás com as amigas. Não era gorda, mas era grande, alta e de fartos seios.
Aí­… tchan- rãaannn… uma das “vendedouras” bem intencionada (?), provavelmente filha de alguma inimiga que eu nem sabia que tinha, me indicou uma loja para Tamanhos Grandes. Leia-se GORDAS.
Como assim?
Assim. As medidas vão de EX a EXXXXX…
Isso. Exxxxxxx-mulher! E rica!
São roupas realmente “maiores” ou absurdamente enooormes.
Algumas belí­ssimas, elegantí­ssimas e TODAS carí­ssimas!
E a moda praia? Aquelas calçolas não se pode chamar de biquinis. Juro!
Comecei a rir meio histérica, com lágrimas nos olhos e vontade de não comer NUNCA MAIS!
Depois de mais de três horas de tortura, voltei para casa com ódio de mim, do meu corpo e da minha idade!
– Peraí­! Quando eu tinha 20 anos e 54 quilos bem distribuí­dos, vestia 38. P – de pedaço de mal caminho!E minha filha aqui já veste, com o mesmo peso, M ou G dependendo da marca. Algumas blusas minhas, de alguns poucos anos atrás, ela já veste e com bom caimento.
Eu heim!
Acho que a indústria da moda está pregando uma boa peça nas mulheres. Diminuem o tamanho das roupas, tascam o mesmo número de manequim, e cobram muito mais caro! I
sso mesmo! Elas gastam menos e cobram mais. Sem falar que “de quebra” nos vendem uma imagem de “fora do padrão”.
Assim o mercado de diet, light, SPA, lipoaspiração, mesoterapia, cirurgia plástica, medicamentos e fórmulas mágicas para emagrecer enriquece às custas da nossa auto estima!
As tabelas de peso-altura-idade diminuí­ram seus escores. As indústrias medico-farmacêutica-estética dizem que quem estiver acima delas morre antes, é infeliz, é feio, é pouco desejável. É um doente!
Estive num check up dia destes. Nunca estive tão saudável. E, fazendo um balanço da vida, nunca estive tão feliz, tão amada e desejada e tão arredondadamente madura, calma e em harmonia com universo.
É verdade que adquiri uns quilinhos extras desde que vim morar na Espanha. Bem amada, bem alimentada e nenhum stress por ter que dormir tarde e acordar cedo, tomar um café correndo, enfrentar um trânsito insuportável, reuniões improdutivas, trabalhar e trabalhar, estudar, estudar e estudar, correr para almoçar contando as calorias, correr para pagar as contas, correr para ir ao supermercado…correr para chegar à tempo na Universidade e dar aulas de três horas e meia seguidas a um bando de alunos de pós-graduação, cansados de correr nas suas cotidianas maratonas…
Aqui tenho mais tempo para ler, escutar música, aprender a cozinhar, visitar museus e cidades lindas. Tenho tempo de pensar no que fui e no que quero ser daqui por diante.
Não sabia que podia ser tão bom viver sem stress. O tempo que a burocracia leva para validar meus papéis de gente neste paí­s me obriga a exercitar a paciência, a tolerância… e principalmente, a encontrar prazer nas pequenas aprendizagens desta nova vida. O trabalho já virá…
Se eu escolhesse o desespero, poderia estar arrancando os cabelos por estar levando essa vida “improdutiva” e “inútil.” Mas eu escolhi ser feliz. E isso faz uma enorme diferença em meu estado de espí­rito.
Não que eu não fosse feliz antes. O trabalho e a correria eram a única forma de felicidade que eu conhecia. Então eu era…
Hum.. mais ou menos.
Na verdade, sofria de uma presença constante de uma falta… como se não soubesse de mim o mais importante. Tinha um lado meio triste que de vez em quando se instalava. Uma sensação de solidão incurável, uma melancolia. Antes isso me angustiava. Agora não. Quando o momento triste vem, deixo que se instale, diga a que veio e se vá. Manso. Assim. E solidão eu não sinto mais, apesar das saudades.
E estão querendo me estressar com uns mí­seros quilinhos a mais!
Nipes nada!
Acabei indo ao mercadillo, que eu nem sabia que existia. Leia-se uma feira. Só que não vende comida. São dezenas de barracas de roupas e sapatos, objetos de decoração, tem de um tudo. Ali encontrei roupas para o meu verão de gordinha. Comprei três bermudas e três blusas de algodão, uma saia e outras cositas mais.
Tudo EX, é claro! Mas lindinhas, modernas, joviais. E por um terço do preço das lojas para as grandes e ricas mulheres!
Parece que pobres podem ser gordas ou arredondadas, mas felizes e bem vestidas. As ricas também!
Por sinal, vi um bocado de madame pela feira. De óculos escuros e lenço, disfarçadas de pobres. Os carros parados no estacionamento são chiquérrimos, o que entrega de bandeja que as dondocas ocludas de pobres não têm nada. São só mais espertas que as outras.
Pois vejam o que saiu na publicação semanal do El Mundo.
Ho ho ho…
Deus é bom pra mim!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

*Reportagem capa do Magazine El Mundo
A gorda está melhor de saúde, mas quanto à auto estima…quem sabe?

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Voz no Vento…

Abriu a janela lentamente, com um esforço brutal, temendo debruçar-se e não resistir ao chamado do vento. Acendeu um cigarro… para ganhar tempo.
Debruçou-se, apesar do medo.
Quanto tempo dura um cigarro? Quanto tempo ele retirava de sua vida?
Aquele durou o suficiente para mostrar-lhe uma cena: muitos andares abaixo do seu apartamento, decorado com cuidado e bom gosto, estava a favela. Assim era aquele bairro. Os edifícios de 15 andares colados com pequenas “manchas” de barracos.
No quintal de um deles, uma mulher dobrava o corpo diante da bacia prateada pelo sol. Vestia blusa sem mangas, decotada, vermelho-paixão. A saia estampada entrava por entre as pernas entreabertas. Os pés descalços – unhas pintadas de rubro – eram duas fortes patas de águia prendendo a mulher ao chão.
A seu lado, a lata enferrujada cheia de água. A mulher jogava água na bacia e esfregava a roupa ensaboada por uma daquelas antigas barras de sabão amarelo. Cantava com voz suave, que subia sem barreiras até as últimas janelas do edifício.
Que música era aquela? Parecia uma canção de ninar.
Como podia cantar tão bonito se estava cercada de tamanha pobreza? Como podia ser doce e feliz a voz que vinha de uma garganta sufocada em um corpo encarcerado no pequeno quintal de terra batida, entrincheirado pelos arranha-céus?
Ela nunca olhava para baixo – a pequena favela era feia e triste.
Ela só olhava para o longe, para o lindo horizonte embaçado pela névoa do dia e enfeitado de falsas estrelas coloridas, à noite.
Era bonito…
Talvez apenas porque era longe… T

Talvez por ali ela pudesse escapar para longe deste insensato mundo.
A voz da mulher abriu uma fenda na névoa do seu olhar.
O que era mais insensato: ela e sua tristeza sem nome, sua vontade de fugir sem saber para onde?
Ela e suas impossibilidades de escapar da auto-compaixão?
Ela e sua atração mórbida e medrosa pela loucura ou pela morte?
Para onde a levariam?

Ninguém que seguiu um desses caminhos provou que havia sensatez neles.
Quem já voltou da loucura não recorda lógica alguma nela. O mundo não foi melhor para si, nem para os outros que lhe rodeavam.
E quem disse que voltou da morte, por algum acidente inexplicável de apego à vida, encontrou nesta mais razão de ser que na outra, apesar de seu túnel de luz calma e tranquila.
Fechou os olhos e deixou a voz e o vento acariciarem seu rosto como um gesto, secarem as suas lágrimas como um beijo. Que estranho momento foi aquele! Tão pouco durou … mas ofereceu-lhe uma outra forma de ver a própria vida.
Ela não estava louca – nem morta.
Estava viva e podia escolher ser feliz.
Fechou a janela, abriu a porta do apartamento e saiu…

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O Lorde e a Moça…

O Lorde adorava fazer compras. Mas não as compras de lojas, em companhia de sua Princesa. Essas não. Ele detestava o entrar e sair de portas, as vitrines iluminadas, a profusão de ofertas, as remarcações. E menos ainda acompanhando uma indecisa esposa que buscava sempre um não-sei-o-que, quase nunca encontrado. Além do mais a Princesa, como já disse aqui, era plebéia. Buscava unir ao não-sei-o-que que buscava o preço mais barato. O Lorde não ia nem amarrado.

Quando ele queria comprar alguma roupa, coisa que fazia uma vez por ano, no máximo duas, ia sempre à sua loja predileta, a Montreal. Não comparava preços. Escolhia as camisas e calças de linho, sapatos mocassins de couro marrom e preto, quase iguais. Lenços brancos e cuecas brancas, sem concessões a qualquer modernidade. Enquanto escolhia, tomava um whiskezinho e um café com o amigo e dono da loja. Só comprava lá. Sempre na mesma loja, sempre as mesmas cores. Bege, branco, azul claro. Tudo muito chic e, ao mesmo tempo, com um certo descontraimento. Os ternos ele mandava fazer com um alfaiate conhecido desde sua juventude. O nome está na ponta da lí­ngua, mas já espremi a memória até a exaustão e não consegui lembrar-me. Deixa para lá… não tem mesmo importância. Ele detestava os ternos e com toda a razão. Usar paletó e gravata em Recife era um suicí­dio, principalmente numa época em que ar condicionado no carro era ficção cientí­fica! Só os usava para situações muito especí­ficas. Mas ele era um Lorde. E o que vestia lhe caia como um traje de gala. Seu passo lento e elegante lhe emprestava um charme de dandy. Pois sim…O dandy aí­ gostava mesmo era das compras de comida e especiarias. A Casa dos Frios era sua perdição. Ali comprava espécies, caviar, vinhos, queijos que minha mãe detestava porque fediam terrivelmente e empestavam a geladeira. Ele ria… E o paradoxo é que ele adorava as feiras. Muito antes do advento do supermercado, a feira era dele. Minha mãe nem ia. A Princesa era plebéia mas não suportava a bagunça dos cheiros, a cacofonia de gritos, a variedade de “quanto-vale-e-quanto-pesa?” da feira. Ela fazia a lista do que precisava e ele saia com cara de quem ia fazer o programa mais delicioso do mundo. E fazia a farra! Comprava duzentas coisas que não estavam na lista. Voltava com o carro entupido de um tudo. Peixes enrolados em jornais, cordas de caranguejos (vivos!), carne para um batalhão, frutas para abrir uma banca e vender na porta de casa. Além das permanentes: laranjas, tangerinas, bananas, maracujás, melancia… trazia também as frutas especiais que nós adorávamos: jabuticabas, jaca, pinhas, graviola, pitombas, pitangas, ingá… (tipicamente nordestina a frutinha gelada que saia da vagem verde era um manjá que esperávamos com disposição para a briga.) O dia da feira era uma festa de cores e sabores. Ele tinha seus “fregueses” cativos nas bancas das feiras. E comprava acomodado num ou noutro banco de madeira, servido de um caju amarelo e suculento acompanhado de uma aguardente “especial” para os clientes especiais. Eu recordo que adorava ir com ele à feira e passar um tempo “pajeada” por alguma filha de freguês, passeando fascinada entre as bruxas de pano, as bonequinhas de corda, a mobilia de barro ou madeira para toda uma casa de menina. Quando eu voltava, trazia sempre alguma coisa na mão e a cara de pidona. Ele dava e eu explodia de feliz. Belas lembranças essas… Então… O Lorde estava acostumado a ser atendido com carinho e consideração. E ele correspondia tratando todo mundo com atenção e cordialidade. Elogiava as moças, chamava os velhos de camaradas, tomava cerveja com os feirantes, a quem chamava pelo nome ou apelido. Era um tal de Zeca para cá, Biu para lá, Tonho, Piaba, Joelho… Em troca todos o tratavam de “doutor”. Os “fregueses” traziam-lhe o melhor coentro e cebolinho, o melhor alface, os tomates mais vermelhos, as melhores frutas de suas bancas. Contavam-lhe histórias e piadas. O Lorde se divertia tanto na feira quanto com seus amigos arquitetos e intelectuais. Ou mais! Depois veio o supermercado. Ele relutou até que finalmente convenceu-se a freqüentá-lo. Ainda levava a lista feita por minha mãe no bolso, mas voltava com o que tinha de novo nas ofertas das prateleiras. Sua alegria era trazer as novidades. Mas agora era diferente. Seu prazer já não era o mesmo. O atendimento era despersonalizado. Ele ia lá e pegava as bandejas de um tudo já prontas. E ninguém para atender. Nem banquinho de madeira, nem caju com cachaça. Um dia, enquanto ele passava as compras no caixa, a moça de cara feia e muda como uma porta, não esticava o braço para pegar nenhuma mercadoria. Ainda não existiam as esteiras móveis e ele ia empilhando as coisas umas sobre as outras no pequeno espaço diante da caixa. A moça esperava até que ele lhe entregasse na mão cada í­tem, com cara retorcida de mal humor e desprezo. Meu pai tranqüilamente fez o que ela esperava. Foi passando í­tem por í­tem. Quando terminou o último pacote, ele pagou, guardou o troco no bolso com sua calma de sempre e soltou: – Eu sei por que a senhora é assim. – Como? A moça o desafiou com cara de nojo e surpresa. – Assim tão mal humorada. A senhora além de muito feia e sem peito, tem bigode. Deve ser muito difícil sorrir e ser bem humorada.

Rindo ele afastou-se em seu passo de gato lento, deixando a mulher pasma e sem resposta. Agora ela estava ainda mais feia. Roxa e bufando de raiva, mais parecia um porco bravo! O Lorde voltou muitas vezes à feira. E só ia ao supermercado uma vez por mês, para as compras de secos e enlatados. Frutas, verduras, caranguejos, peixes enrolados no jornal continuaram a chegar em nossa casa trazidos por um Lorde nordestino, com os olhos verdes brilhando e a cara de feliz, cheirando a caju e a cachaça. *Lord Ribblesdale – John Singer Sargent. **Mulher com os Braços Cruzados – Pablo Ruiz Picasso.

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O Lorde e Seus Ví­cios…

O Lorde fumava. De tudo. Cigarros, cachimbo, charutos. Era um fumante inveterado, desses que desperta no meio da noite para acender um cigarro. Uma vez dormiu com um entre os dedos e quase provocou um incêndio na cama.
Era seu ví­cio incontrolável. Fumava Hollywood sem filtro, charutos importados de Havana e fumos ingleses like Half&Half.
Além do prazer que sentia em fumar, tinha verdadeira adoração por seus cachimbos importados. Passava horas limpando-os. Tinha até mesmo uma caixinha de instrumentos especiais para a tarefa. Era como um ritual que executava com paciência e cuidado, cantarolando os Cantos Gregorianos ou as Cantatas de Bach, nos domingos de chuva pesada e caudalosa que Casa Forte nos dava de presente.
Eu gostava da imagem que via. Tanto que guardo-a até hoje na lembrança. A música, o janelão aberto para o grande sí­tio de árvores centenárias, o braço do rio Capibaribe colado no muro, coberto por baronesas enormes. E a figura de meu pai, recortada nessa paisagem, imerso em suas paixões. A música, os livros e o tabaco.
Até muito tempo após sua morte, o gabinete tinha o cheiro do Lorde. E, apesar do que possam pensar, ele não cheirava mal. Cheirava a um Lorde. Um mistura de colônia inglesa, linho, tabaco e conhaque. Um cheiro que ” sinto” ainda, basta recordar de sua figura única.
Ele tinha uma coleção de cinzeiros espalhada pela casa digna de museu. Vinham de todos os paí­ses que havia visitado, de todos os hotéis onde havia se hospedado, de quase todos os restaurantes onde havia comido. Era um Lorde, mas adorava roubar cinzeiros. Tinha-os de madeira, chumbo, cobre, cristal, cerâmica, louça,porcelana…
Nenhum deles era enfeite. Usava todos. E a maioria tinha história.

A melhor de todas foi a que lhe aconteceu num restaurante tradicional de Recife. Um desses restaurantes finos, cheio de frescuras, como ele gostava.
Depois de comer com um grupo de amigos, foi servido o café, os licores e conhaques e meu pai sacou da caixinha de couro um de seus perfumados charutos. O maitre trouxe um cinzeiro lindo, com a marca do restaurante. Pronto. Esse estava morto. Mais um fadado a fazer parte de sua coleção.
Depois de pagarem a conta, quando meu pai já se dirigia para a porta, com o cinzeiro dentro do bolso do paletó, o maitre se aproximou com um embrulho na mão.
– Com sua licença, doutor. Leve esse que está limpo.
– Como? Meu pai perguntou, surpreso.
– O cinzeiro, doutor. Esse aqui está limpo. E mostrou o embrulho bem arrumado em um guardanapo de papel.
O Lorde avermelhou de constrangimento. Mas não se encolheu. E com sua voz grave e séria, perguntou:
– Você quer estragar minha coleção é, rapaz?
Aí­ foi o maitre quem ficou surpreso.
– Como doutor?
– Minha coleção é de cinzeiros roubados, rapaz. Não doados. Roubados, entendeu?
– Sim senhor… entendi senhor.
E meu pai saiu do restaurante com seu passo londrino, de cabeça erguida, como se o ofendido tivesse sido ele.
Voltou ao mesmo restaurante inúmeras vezes. O maitre sempre o recebia com um sorriso cúmplice de velhos amigos, donos do mesmo segredo. E eram.

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O Lorde e a Princesa…

Parece brincadeira, mas não é. Meu pai achava mesmo que sua mulher era uma princesa. E que ela deveria viver numa torre, para evitar desgraças no reino com a sua extraordinária beleza. Por isso, ele construiu uma. Não era alta e de pedra como as de contos d´antanho, mas era rodeada de densa floresta.
Não creio que escondê-la fosse a intenção da casa, claro. Mas ajudava bastante a manter o isolamento da famí­lia.
Minha mãe a adorava, mas queixava-se por passar semanas sem ver uma alma viva passar. Sempre esperou que sua casa fosse apenas a primeira de muitas que viriam depois. Nunca vieram.
Ele não. Ele torcia para que não viesse ninguém. Adorava o mato, o silêncio, o espaço. Adorava que seus irmãos e amigos perguntassem, horrorizados, como tinham coragem de viver ali, longe de tudo.
“Tudo o que?” Perguntava o Lorde com voz grave e condescendente, como se dissesse “que pobre de espí­rito, coitado.” E levava os assustados visitantes pelos sendeiros de sua “propriedade-quase-rural”.
Plantava uma horta no quintal, que adulava quase todos os dias. Criava um cachorro negro e enorme com quem brincava de jogar os sapatos na noite escura, para que os encontrasse e trouxesse-os de volta, depositando-os delicadamente diante de seu trono de vime, no terraço mal iluminado por lamparinas de ferro. Inveriavelmente ele escutava alguma peça de música clássica nas maiores alturas. Era bom não ter vizinhos.
Na verdade, ele estava certo. Era melhor assim. A casa era de sonhos! Vaga-lumes enfeitavam o jardim como pequenas estrelas ao alcance da mão. Grilos e sapos faziam a festa todas as noites. E durante o dia, o sol nunca esquentava muito no Poço da Panela porque as árvores não deixavam. Sopravam seu perfume úmido e verde por todo o bairro.
Em nossa casa mais… pois o jardim era de grama e roseiras e jasmins e árvores frutí­feras. Jambeiros imensos, azeitonas pretas centenárias, palmeiras de toda a vida. E ainda possuía os canários, sabiás, patativas e galos de campina, que faziam seus concertos com exclusividade para o Lorde e sua Princesa. Nada de gaiolas… criava todos soltos, com acesso livre às terrinas de barro para água e pequenos grãozinhos de comida espalhados por toda parte.
A casa era idolatrada pelos dois. Mas…a Princesa tinha gostos plebeus. Adorava arrumá-la e mudar tudo de lugar. O Lorde ficava louco. Ela ria.
Ele dizia que ela não precisava fazer aquele serviço. Mas ela gostava e trabalhava com prazer e alegria.
Arquiteto de profissão e Lorde por personalidade, meu pai escolhia com cuidado cores e objetos. Um quadro ali, cujo vermelho dava um toque de luz sobre o cinza dos sofás de couro camurçado, um espelho acolá, que dava a sensação de maior espaço…
Minha mãe vinha e botava o sofá do outro lado, embaixo da janela. Pegava o quadro e levava para a outra sala. Pendurava-o sobre a mesinha do telefone.
Ele ficava louco. Ela ria.
Não que ela não concordasse com seu gosto, mas é que tinha faniquito para mexer e mudar as coisas. Cada vez que limpava um cômodo, queria mudar tudo. Era impossí­vel para ela viver num lugar que fosse igualzinho por toda a vida. Assim, de vez em quando, encostava minha cama na parede e eu, acordando à noite para ir ao banheiro e querendo sair pelo lado de sempre… tóin! metia a cara numa parede desconhecida. Gritava de pânico. Por segundos achava que era um pesadelo… ou que estava prisioneira em alguma masmorra! (ah, Freud!)
Ele implorava para que ela respeitasse pelo menos seu escritório. Pois sim… ela respeitava. Quase nunca o limpava. Qual era a graça de limpar e não poder mudar as coisas daqui-prali ?
Hunf!
Assim, as coisas do Lorde, suas caixas de ébano e marfim, suas esculturas africanas, suas réguas de todos os tamanhos e formas, suas canetas de nankin, ele e só ele manuseava.
Mantinha centenas de livros e discos espalhados nas estantes, cadeiras e bancos; rolos e rolos de projetos dormitavam sobre a enorme mesa de desenho. Ele era assim.
O engraçado é que ela era muito organizada e sabia onde estava cada um dos objetos da casa. Ele era extremamente desorganizado e misturava tudo nas gavetas. Mas estavam onde ele queria que estivessem: na sua bagunça.
Só que…quando queriam uma conta a pagar ou algum documento importante, ela era requisitada para procurar nas coisas dele. Ele nunca sabia onde havia guardado. Ela dizia que aquele lugar parecia um ninho de bicho. Às vezes, nunca encontravam o “objeto da busca”.
Ela ficava louca. Ele ria.
Mas o Lorde e a Princesa amavam-se como nenhum outro casal que eu conheci.
Se entendiam por telepatia.
Ela fazia a lista das compras e esquecia de pedir alho. Quando descobria, falava em voz alta na cozinha, e ele “escutava” lá no supermercado. Quando ele chegava dizia ” Você esqueceu de botar alho na lista, quando já estava no caixa, pensei que podia não ter e fui buscar.”
Ela dizia que tinha mandando a “mensagem”.
Quando ele chegava com um presente, que nunca precisava de data certa para chegar, testava ” Adivinha o que eu trouxe para você?” Podia se um livro, uma camisola, uma jóia. Invariavelmente ela acertava, a danada.
Um vez ele esqueceu o presente no carro. Quando estávamos jantando, ela disse “E meu presente? Está no carro? É um relógio?” Era.
Ele ficava louco. Ela ria.
Um dia tiramos a prova dos nove. Ela lia seus pensamentos! Estávamos no terraço da casa da praia e ele lá longe, pescando, com um copo de cerveja na mão e sem camisa – ele sempre esquecia a lordice no Janga. Aí ela riu e disse só para nós ” Ele vai trocar o copo de mão e coçar o umbigo.” E foi exatamente o que ele fez.
Hahaha…saí­mos correndo para contar-lhe que ela estava lendo seus pensamentos.
Ele ficava louco. Ela ria.

Um dia, numa das muitas alterações nos móveis da casa, inundada inúmeras vezes pelo rio Capibaribe, o Lorde, maquiavélicamente, mandou construir camas cujos espelhos eram chumbados na parede. Todas.
E também fez armários de concreto. E mesas de madeira maciça, pesadí­ssimas. Impossí­veis de serem mudados de lugar como ela gostava.
Por mais bonitos que fossem, ela perdeu o gosto e a alegria. Aos poucos foi deixando de arrumar, de botar flores, de rir.
Ele ficou louco quando viu que a casa era muito mais bonita antes… só porque ela ria.
Quando percebeu que não valeu a troca, era tarde…
*Still Life With a Cupboard – Carmen Laffn

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Para Viver Todas As Estações…( 10· Cap )

Assim foi…
Durante os maravilhosos dias de um verão espanhol, com uma mala desaparecida e sem ter o que vestir, um cabelo cor de mercuriocromo fashion e a pele coçando loucamente pelo clima seco de Madri, eu sabia que era dentro daqueles olhos que eu queria estar pelo resto dos meus dias.
Só não sabia se havia conseguido convencer o dono deles que eu era um pouquinho melhor do que ele estava vendo…
A pergunta era: “E agora?”
E desta vez eu tinha que fazê-la.
Ensaiei mil vezes diante do espelho do banheiro, em tons diversos: casual, direto e firme, doce, sexy. Cabelo preso, cabelo solto. ( Miséria de cabelo!!!) Rindo ou séria.
E onde? E quando? Na hora da cama? Da mesa? Do banho? Em Salamanca? Toledo, Ávila, Segóvia? Enquanto eu treinava, o tempo passava. E dos trinta e quatro dias eu gastei mais de vinte treinando. E algumas noites também.
Levantava da cama e ia fumar um cigarro no sofá da sala prometendo a mim mesma perguntar-lhe no dia seguinte, à primeira hora…
Era uma mulher ou um prato de papa?
Coragem mulher!!!
Papa… Eu era um prato de papa.
Passava horas confabulando comigo mesma e pensando que homens e mulheres têm ritmos distintos, formas diferentes de encarar a vida. Homens usam as palavras com economia, pensam que a gente já sabe o que eles sentem, só porque nos abraçam com paixão.
E pensava também que nós mulheres gostamos de es-cla-re-cer tudo com explicações, em longas conversas. Queremos controlar passado, presente e futuro. Queremos entrar na mente do sujeito e descobrir cada detalhe de seus pensamentos.
Eu tinha que mudar isso. Tinha que ser prática. Tinha que esquecer por alguns minutos que estava irremediavelmente apaixonada, com surtos de adolescente do século XVIII, imaginando que a criatura iria se ajoelhar aos meus pés e pedir minha mão em casamento.
– Não… não…nãoooo… era um mulher madura, separada, vivida e sofrida, independente (exceto para matar baratas!) e livre. Se tudo aquilo não fosse adiante, teria valido cada segundo. Muito mais do que qualquer outra história que tinha vivido antes.
Mas custava perguntar? Era só para saber o que faria do resto dos meus dias…
Se tudo aquilo que viví­amos iria se transformar num mundo de lembranças para guardar no baú das saudades…
Onde estava o meu lado “prático”? Perdido na mala?
Um dia ela saiu. A pergunta. Saiu sozinha, escapou da boca pulando pela sala, nem sei com que tom:
– E agora?
– Que?
– E agora nós dois?
– Que?
Engasguei. Uuui que medo! Lá vai…
– Que faremos agora com nós dois? Perguntei com uma voz que nem parecia minha.
– Vamos viver juntos, quando você puder vir. Eu agora não posso ir. Ele disse.
– Viver-viver? Juntos? Eu miei.
– Sim.
– Quando?
– Quando você quiser. Ele disse rindo. Sim, com aquele sorriso!
– Sim? (De onde eu tirei essa voz idiota?)
Tun-tun-tun… taquicardia!
Eu já derretendo por dentro, fogos de artifí­cio explodindo dentro do umbigo.
– Sim, vai ter coragem? Ele, sério.
– Vou.
Sim.. sim… sim!
Eu não sou um prato de papa! Pensei, surtando de novo e com um sorriso idiota, de filme idiota, de comédia idiota americana, pregado na cara de idiota.
– Venho no final do ano. Eu disse. Minha voz de verdade voltando. Firme e forte.
Sem joelhos, sem pulmões, sem estômago… tomada por uma onda explosiva de alegria absoluta. Mas firme e segura. E só aí­ me dei conta das muitas vezes em que ele me mostrava um lugar, uma cidade, um museu e dizia que quando eu voltasse, terí­amos mais tempo para tudo. Eu estava tão dentro de meu medo que não escutava como um projeto de viver juntos, e sim como leve alusão a voltar a ver-nos, quando desse e se desse.
Dali por diante os dias foram leves, cheios de planos . Esqueci os cabelos, as roupas, a pele irritada e seca. Esqueci tudo o que teria que deixar para começar uma vida nova em outro paí­s: famí­lia, amigos, casa e trabalho. E fui ser feliz pelos dias a fora.
Cantava por dentro as canções de Violeta Parra..”Gracias a la vida, que me ha dado tanto…” ou “Volver a los 17, después de vivir un siglo…”
Mas ainda não sabia o que era deixar, até voltar ao Brasil e começar a despedir-me desse tudo.
Não foi tão fácil quanto eu pensava. Aliás, eu não pensava que seria fácil, mas não imaginava que seria tão difí­cil.
Voltei com a certeza de que tinha tomado uma das mais importantes decisões da minha vida e que estava escolhendo o amor. Tinha que valer a pena!
Ao chegar em Recife, como não podia deixar de ser, pois os aeroportos me adoram, a mala remanescente, a única, também desapareceu.
– Heim? O que? Inacreditável. Um raio não pode cair duas vezes no mesmo lugar!
– É?
Pois sim… não era UM raio, eram DOIS. E sim, duas malas podem desaparecer numa mesma viagem. Principalmente se forem as minhas!
A segunda mala, com minhas últimas roupinhas, sumiu entre Portugal e Brasil.
Virei uma leoa feroz e ataquei com sanha de sangue o funcionário da companhia aérea. Ele me deu um formulário para preencher, igualzinho ao de Madrid, prometendo levá-la em minha casa assim que a maleta aparecesse. Perguntei se ele queria que eu acreditasse nesse conto do vigário e prometi, cuspindo ódio e frustração, que iria processar a sua empresa.
Entrei em casa chorando as lágrimas presas desde 9 horas de vôo, com a bolsa e os malditos sapatos vermelhos quem mandou escolher os miseráveis de novo – que a partir daquele dia foram viver no fundo do armário, com a culpa de tudo. Nunca mais vesti os desgraçados!
Diz uma amiga minha que tem roupa que traz “mala suerte”. Achei que eram os sapatos. Nunca mais me fantasiaria de Dorothy!
A segunda mala pareceu um dia depois, mas a primeira escafedeu-se de verdade! A raiva foi tanta que decidi procurar o gerente da empresa e avisar que iria processá-los se não me indenizassem de imediato. Fiz uma lista de tudo o que tinha na mala, com preços (das melhores lojas, claro!) incluí­dos. Em cinco, CINCO… apenas cinco dias a mala, que estava em Madrid, devidamente etiquetada com meu nome e endereço, apareceu.
O gerente ficou tão indignado com a negligência de seus funcionários que me pagou os $100 que deveriam ter-me dado nas primeiras 24 horas do desaparecimento e me ofereceu como indenização uma passagem de ida e volta para a Espanha, “se eu aceitasse, naturalmente.”
Ho ho ho… sim, sim, sim. Para o final do ano.
Para mim era melhor e mais rápido que uma ação judicial.
Em três meses consegui que um colega me substituí­sse nas consultorias, embalei meu passado em caixas enormes, sofrendo a cada livro que não podia trazer, a cada objeto que havia pertencido ao Lorde, a cada quadro que pintara a Princesa em seus tempos de jovem aspirante a artista, suas peças de cerâmica, seus santos de madeira…
Minha história inteira foi selecionada em o que guardar, o que levar, o que jogar fora. E minha história incluí­a outras histórias, anteriores a mim, anteriores a minha memória. Objetos, fotografias, quadros e livros que foram de meus avós. Móveis que foram de meus bisavós…
Não era um exercí­cio muito fácil de fazer. Mas era necessário.
Assim, embalei o que não foi possí­vel me desprender, emprestei ou presenteei o resto que não podia trazer e trouxe a essência da essência da essência dos meus anos. Minhas máscaras venezianas, duas luminárias e dois quadros da Princesa, uma estatueta de marfim do Lorde, seus cachimbos, fotografias de famí­lia, alguns poucos livros (pouquí­ssimos, ai meu Deus!) e todos os meus quatrocentos e sessenta e dois CDs. Todos. Cada mala vinha recheada de CDs, sem as capas plásticas, mas envolvidos nos libretos de papel. Isso eu não podia deixar de forma alguma. Cada vez que arrumava as malas, me aparecia uma coisa a mais para tirar… e outra para entrar. Um verdadeiro inferno!
Finalmente, com quatro malas grandes, duas mochilas e a permissão para bagagem extraordinária assinada pelo meu amigo gerente, cheguei ao aeroporto de Recife triunfante! Vestida para o inverno madrilenho, cabelos escovados, castanhos e normais, botas antigas, negras e discretí­ssimas. Despedi-me da famí­lia e amigos mais í­ntimos e tomei o avião para o começo de uma nova fase na minha vida. Sem choro nem velas! Estava feliz e segura de que tudo ia dar certo… tinha que dar certo!
Para coroar o momento, na hora de embarcar, ganhei um upgrade para viajar em primeira classe, com direito a champanha e jantar especial.
Uau!!! Agora sim…os aeroportos estavam aprendendo a gostar de mim!
Desci em Madrid confiante e feliz…Todas as malas chegaram comigo… Ele estava no portão certo, esperando-me com seu olhar-de-mar-azul e o sorriso de derreter iceberg…
-Por fim!
Perfeito!
Parece que não…De repente notei que meu andar estava capengando…como assim?
Assim. Olhei para o chão notei pedacinhos de borracha num rastro negro que vinha atrás de mim. As antigas botas que eu havia escolhido para usar sem sustos naquela viagem estavam se desfazendo a cada passo que eu dava. O salto de uma delas já estava totalmente esfarelado e o outro estava começando o mesmo processo de esfacelamento! Tanto tempo sem usá-las e agora queriam me matar de vergonha!
Ele me olhou e soltou uma estrondosa gargalhada…Bingo!
Era mesmo essa a mulher que ele esperava para começar a dividir seu mundo e seus dias.
No mí­nimo eu lhe faria rir.
Sorri também e continuei em frente.
Ninguém viu… Ninguém.

* O Mundo Em Nossas Mãos

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Nua No Verão Europeu… ( 9·Cap )

Aeroporto dos Guararapes. Recife, julho de 2002.
Passagem na mão, duas pequenas malas, cuidadosamente arrumadas para viver meus trinta e quatro dias de amor.Trintaaaa-eeee-quaaaatro! Vou morrer! Pensei, tentando acalmar o “bichinho” que me comia o estômago.
Nas cartas que trocamos, mil planos de passeios. Conhecer Toledo, Ávila, Salamanca, Segóvia, Burgos, Valladolid. Vasculhar todas as paredes do Prado. Bicicletar pela Ruta Verde. Muito banho de piscina nas noites do verão madrilenho…vinhos, velas, música, e amar…
Amar muitooooo!!!
Desta vez eu estava disposta a marcar território. Deixar minhas pegadas por todos os cantos. Fazer-me inolvidável! Queria que se viciasse em mim…
Desta vez eu estava disposta a perguntar: “E agora?”
Pois então…
Três dias antes havia tentado ficar mais bonita. Fui cortar o cabelo, é claro! O cabeleireiro é o lugar mais procurado pelas mulheres nos dias de tensão insuportável. O resultado nem sempre é satisfatório. Eles se aproveitam da sua cara de desespero e prometem transformar-lhe na Top Model mais espetacular da face da terra! E você, como boa histérica, concorda! Não deu outra. Saí­ da sessão terapêutica chinfrim com o cabelo mais curto do que desejava, liso como o de uma japonesa e com mechas da cor de mercúrio cromo. Fashion!!!
Ele iria levar um baita susto.
Tudo bem. Eu diria que sou muitas mulheres numa só. Não. Clichê demais. Diria a verdade e pronto. Agora não podia voltar atrás!
Cada vez que passava por um espelho, olhava para a desconhecida que sorria para mim e pensava: “Que merda!”
Se eu sorria é porque estava bem. Tudo bem. Vai dar tudo certo. Um simples cabelinho cor-de-rosa alaranjado não iria me impedir de aproveitar cada segundo dos trintaaaaaaeeeequatrooooo dias que tinha pela frente!
“Mas que merda!” Passei dois dias lavando a cabeça a cada três horas, para ver se melhorava um pouquinho. Melhorou. Metade da tinta ficou na toalha.
E o dia chegou.
A viagem foi interminável. Saí­a de Recife às 20:45 e chegava em Madrid às 13:30 do dia seguinte. Sem fumar! Classe turista, o que significa também, sem dormir!
Aeroporto de Madrid. O “bichinho” nervoso já tinha comido o estômago, o fí­gado e estava gostosamente mastigando meu intestino…
E tome andar…esteira rolante para cá, esteira rolante para lá, e sobe aqui e desce ali… seguindo todo mundo. Elegantí­ssima no meu terninho grafite, blusa vermelha de gola alta (para combinar com os cabelos) e lindí­ssimos sapatos novos, de saltos perfeitos. Vermelhos também.
Estava bonita, pensei. Mulher apaixonada está sempre bonita.
Agora as malas e pronto! “Viver e não ter a vergonha de ser feliz…” Cantava o bichinho come-come dentro de mim.
As malas. Cadê minhas malas?
Todo mundo pegando as malas e nada das minhas. Esperei. Esperei. Esperei. Finalmente, apareceu uma delas. Suspirei de alí­vio. Agora vai aparecer a outra e pronto. Tudo certo.
Não apareceu. Esperei mais. Nada. Todo mundo foi embora e eu fiquei ali, não acreditando que sumira uma das malas.
Por que os aeroportos fazem essas coisas comigo?
Resolvi ir lá fora e dizer a ele que…(?)
Ele? Que ele?
Onde estava ele??
Não estava lá. Como assim?? Atrasado. Só estava atrasado, pensei positivo.
Voltei para a esteira das malas. Nada.
No balcão da companhia me deram um papel para preencher. Disseram que por causa da escala em Lisboa, provavelmente a mala viria em outro vôo. Podia ir tranqüila que eles a levariam em casa. Dei o endereço e saí­ da sala, preocupada com a minha demora em aparecer. Ele não estava. Esperei. Esperei. Esperei. Ele não apareceu.
O bichinho que acabava de mastigar o último pedaço do meu intestino teve um ataque de indigestão e procurei um banheiro urgente! Esteira rolante para lá, esteira rolante para cá, vira a esquerda, depois a direita. Vou morrer aqui! Desesperei.
Quando voltei para o portão de desembarque e percebi que ele não iria aparecer, resolvi tomar uma providência. Ligar para o celular e perguntar o que estava acontecendo. Simples não?
Não. Eu não tinha moedas. Onde trocar dinheiro?
Esteira para lá, esteira para cá, direita, esquerda, uma cafeteria. Tomei uma água, que eu não arriscaria nem uma coca-cola com aquele bichinho nervoso dentro de mim, e com o troco telefonei. Ele estava diante de outro portão de desembarque há quase uma hora. Lá estava, no painel, o número do meu vôo, mas por erro do aeroporto eu saí­ pelo 6 doméstico e ele me esperava no 2 internacional. Se conhecem o aeroporto de Madrid devem imaginar as distâncias.
Pois, finalmente nos encontramos, rindo de tudo… como fazem os apaixonados. Contanto que estejam juntos, o resto é resto. Ou não?
Mais ou menos…
A mala desaparecida era a maior. Nela estavam os tênis, os biquí­nis, shorts e camisetas. Todos os cintos, sapatos e bolsas, os presentes, as camisolas lindí­ssimas, as bijuterias, os lenços coloridos.
E toda a roupa í­ntima.Toda.
Isto quer dizer que fiquei com os vestidos, calças compridas e blusas que estavam na mala menor.
Esqueci a cor dos cabelos. Agora o problema era trágico! Que idéia a minha de viajar com sapatos de salto e vermelhos! Eles só combinavam com o terninho e com a roupa de noite.
E para ficar em casa, andar pelas ruas da cidade, bicicletar? De saltos?
Também não tinha o que vestir, nem podia ir à piscina sem biquí­ni, sem sandália. Nem podia vestir verde ou azul… como combinar tudo com VERMELHO!!!??? E não tinha nem uma mí­sera calcinha para trocar!
“E agora?” Perguntei, em amplo sentido.

Passamos dois dias inteiros em casa. Esperando a mala aparecer e aproveitando para conhecer-nos melhor. Muito melhor!
Mas, e os planos? E Toledo? E o Prado? E a Espanha???
Ligava para o aeroporto mil vezes, e mil vezes a mesma resposta. Nada. A Tap culpava a Ibéria e vice-versa. Nenhuma das duas me deu os cem dólares que eu tinha direito (e nem sabia disso). Falavam numa indenização se a mala não aparecesse em até três meses.
Heim!!?? TRÊS meses?
A mala nunca apareceu. O verão da Europa à noite é frio e eu usava sua jaqueta para sair e que me cobria até o joelho. Fashion!
Em casa, sua sandália tamanho 42, seu short “modelito” europeu, isto é samba-canção, e camisetas brancas tamanho 48. As Top Model morreriam de inveja!
Tivemos que comprar um biquí­ni. Já viram o fundo de um biquí­ni europeu? Tipo saco frouxo na bunda, e alto até o meio das costas? Comprar também umas calcinhas e sutiãs simplezinhos, pois que um euro valia quase quatro reais (que absurdo!) Um sapato e uma bolsa (quanto???) Um tênis e duas camisetas. Alisei.
Zero acessório. Zero bijuterias, lenços, cintos…
Se eu queria impressionar meu namorado com as maravilhosas roupas que levava, puft!
Mas se queria ser inolvidável, BINGO!
* Maletas – J. Enrique Gonzalez

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Síndrome de Moêma…( 8· Cap )

Eu não podia mais olhar o mar de Olinda, sem desejar irracionalmente entrar por ele e nadar. Cruzar a linha do horizonte…
Eu estava com a Sí­ndrome de Moêma, a í­ndia que nadou atrás do barco de seu amado até desaparecer nas águas profundas do oceano. Romântico demais. Mas nem nadar eu sabia!
O que me dava esse surto romântico não era o aeroporto… era o mar. Talvez porque ele era do mar. Talvez porque o aeroporto era o real e eu ainda via aqueles nove dias como um sonho.
Mesmo sendo ridí­culo, surtei como Moêma.
Aquele homem tinha essa capacidade. Desde a primeira noite, desde a festa do barco. Me tirava do sério. Sua presença causava profundas alterações no meu equilí­brio mental e físico!
E sua ausência?
Fiquei igual a música do Dorival. “Pobre Rosinha de Chica, que era bonita, agora parece que endoideceu… Vive na beira da praia, olhando pras ondas, dizendo baixinho…”
Sei lá o que eu dizia! Falava com o vento…

Depois daqueles nove dias de vida intensa, cada segundo mil dias, cada dia mil vidas, voltar ao todo dia de sempre não estava sendo fácil.
Eu não estava infeliz, não estava com fome, não tinha sede, não tinha sono, nem calor, nem frio, nem medo. Não tinha angústia. E me faltava tudo.
Faltava ele. Faltava eu em mim. Mas não estava deprimida, nem triste. O que eu sentia só tinha um nome: Saudade.
Muita. Toda. Dele e de mim. De sua presença na cama, na rede, na mesa. E da mulher que eu pude ser ao seu lado. Uma mulher há muito esquecida.
Vai passar, pensei. Vai passar. Um dia passa…Como tudo na vida.
O que tinha que fazer era guardar na lembrança. Seria uma história boa de contar…
Mas todo dia era dia de lembrar. Nunca consegui guardar.
Sentia saudade. Muita. Toda.
E assim o tempo foi passando. Como diz a Maria…Dia sim e o outro também, o tempo acontecia.
Continuávamos trocando e-mails quase diários, mas o mundo saiu do lugar. Agora o que era estar perto não era mais o de antes. Queria o cheiro, a voz, a textura da pele e dos pêlos. Tinha sede dos beijos, fome do corpo. Sonhava coisas, dormia acordada.
Angústia? Não sentia. O que tinha era saudade. Muita e toda.
Um mês depois tive dengue. Todos os dias vinham me tirar o sangue, e as plaquetas caiam mais e mais. O médico quis internar-me num hospital. Morriam pessoas ali…tive medo. E se eu não saí­sse de lá? E se eu morresse lá? Pedi mais um dia.
Fiquei ali deitada, sem poder fazer absolutamente nada. Nem andar, nem trabalhar, nem ler, nem ver televisão, nem escrever no computador, nem nada de nada… só podia pensar. E entendi outra lição de minha mãe, que curiosamente chamava-se Moêma, e sua morte imóvel e cruel: “O tempo não espera. A vida não espera”.
Que nadar que nada, sua burra! Você tem que voar!

Não podia mais esperar que as coisas acontecessem para mim. Precisava fazê-las acontecer.
Telefonei e perguntei: “Eu vou. Você quer?”
E prendi a respiração!
Sim, ele queria. Sim, sim… SIM!
Estava igual a mim. Como um “zumbi”, ele disse.
Quase caí­ da cama de felicidade. Nem pular eu podia.
De agenda na mão buscamos as possí­veis datas. Semana Santa seria a mais perto, mas terí­amos somente oito dias. E em Julho, trinta e quatro.
Trin-ta-eeeeee-quaaaaa-tro! Deslizei macio para o chão como um gato…
Assim. Seria mais uma vez no verão, desta vez do outro lado do oceano. Um verão espanhol.
O universo estava outra vez coordenado.
E eu fiquei ali pensando que o chão era uma nuvem… parecia nuvem.
Com um plano desses para viver, as plaquetas subiram no dia seguinte. E no outro. E no outro mais. E mais…
Eu sabia que iria demorar ainda quatro meses, mas isso fazia parte de Ítaca. Planejar uma viagem é viajar.
E eu já estava fazendo as malas.
Essa história ainda se tornaria boa de contar…
*Muchacha en La Ventana – Salvador Dalí­

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Desaprendendo a Ser Só…( 7·Cap )

Nove dias para viver um sonho de muitos anos. Sem chuva ou com ela.
Assim, resolvi aproveitar a casa que minha amiga havia me emprestado por uns dias e que fica em Toquinho, uma praia do municí­pio de Ipojuca, ao sul de Recife. De passagem, poderí­amos comer em Porto de Galinhas, num restaurante que eu adoro, chamado Beijupirá.
Ah! Que dias… Nem sei se dá para contá-los.
O restaurante é naturalmente decorado com buganvilhas de todas as cores, velas enormes aos pés das árvores para as belas e românticas noites do verão nordestino… redes por toda a varanda, mesas coloridas por toalhas pintadas à mão. Serviço de primeira, na arte e no sabor. Daiquiris de todas as frutas nordestinas, peixes e mariscos cozidos com molhos de manga, maracujá, castanhas, canela…um bom gosto nas cores e nas formas. Lindo!
Depois, a casa de Toquinho…
Dentro de um condomí­nio, a casa fica entre o rio e o mar. Rodeada por um gramado verdí­ssimo e flores tropicais, na frente uma pequena piscina, terraços amplos e bem decorados, quartos com ar-condicionado, duchas de água quente, camas mais que confortáveis. Tudo com um bom gosto de detalhes nos objetos, quadros, colchas de cama, armários…
A casa é um paraí­so dentro de um paraí­so. Tem tudo o que a gente precisa. Do trivial à sofisticada maquina de café expresso. Todos os utensí­lios necessários para pintar e bordar na cozinha. Meu desespero é que não sabia nem pintar nem bordar… e cozinhar? Nem se fale!
Mas ele já estava avisado! O cozinheiro estava eleito por unanimidade de (dois) votos.
E na sala uma porta enorme sempre aberta de frente para um mar verde e lindo, uma praia quase deserta para passear. Chalé dez estrelas…
Minha amiga pressurosa já havia dado as ordens e estava tudo pronto, aberto e limpo quando chegamos…
Pois aí­ ficamos por quatro dos nove dias que tí­nhamos. Não deu para sair antes. É difí­cil deixar o paraí­so…Passamos ali a noite de Ano Novo, apesar dos muitos convites que eu tinha para Reveillon em Boa Viagem e festas entre amigos. Preferimos a paz de Toquinho. A sós!
E neste dia e nesta noite, o sol e a lua cheia ganharam a batalha com a chuva e nos deram uma piscina de água fresca de dia e prateada e morna à noite. Passamos horas misturando nossos idiomas, escutando a música, comendo tudo o que os meninos nativos, com suas bacias sobre a cabeça, nos ofereciam por cima do muro. Patolas de caranguejo, ostras frescas, camarões…
E à noite, acendemos todas as velas da casa, fizemos uma ceia fria, brindamos ao novo ano.
Uma emoção estar ali, vivendo uma noite como aquela! Que presente da vida! Para não esquecer jamais!
E tome felicidade embalsamando o planeta! Inesquecí­vel e inenarrável…
Quatro dias que pareceram uma ficção romântica. Nunca pensei ser possí­vel vivê-los de verdade.
Mas ainda tí­nhamos 5 dias! E nesses eu queria mostrar minhas cidades: Recife e Olinda.
Chovia a cântaros, mas não nos acovardamos. Em Olinda comemos no maravilhoso Oficina do Sabor, dançamos e ouvimos jazz ao vivo no Uruguai Club, um casarão antigo totalmente restaurado e decorado numas das milhares de ladeiras da cidade histórica. Comemos tapioca e queijo assado na brasa, no alto da Sé. Visitamos o Museu de Mamulengos, o Mercado da Ribeira, as lojas de artesanatos e talhas de madeira, passeamos pelo casco histórico da cidade e suas dezenas de igrejas. Afundamos nos sorvetes de pinha, pitanga, cajá, graviola e maracujá, na melhor sorveteria do mundo! Trocamos os sabores entre beijos e risadas de loucos, como uma das minhas cartas prometia.
Em Recife era imprescindí­vel mostrar meu berço, o Poço da Panela e Casa Forte, meu baobá, os casarões da Estrada Real do Poço,minha antiga casa, o rio que gostava de ler, ouvir a batucada das crianças que se preparavam para o Carnaval do Poço. Comer bacalhau e agulha frita com cerveja no bar da Beata, que nem é bar nem ela é beata e que fica no beco sem calçamento por trás da igrejinha branca onde mora meu pai … Rir e conversar com ela, uma senhora de brancos cabelos que vive descalça, com seus pés de unhas pintadas de rubro, a boca quase sem dentes porque ela diz que tem nojo dos postiços. E que só abre o ” bar” e bota a mesa no meio da rua para quem ela gosta… Quando chega quem ela não gosta, guarda a mesa e “fecha” o bar.
Mas comigo ela vem e senta, dentro de seu vestidinho de flores miúdas, e conta antigas histórias do bairro e do marido, morto numa das enchentes do rio…
E tomar café e licor na casa dos amigos… e depois ir escutar coros e música clássica na casa de meu irmão.
Provar uma caipirosca de limão no Capibar e interpretar as histórias que conta o lixo, catado do rio por seu dono e que exposto na balsa de madeira ancorada, impressiona como prova da nossa falta de consciência e cidadania. E sentar no Bistrô Rodin, na Praça de Casa Forte, para comer crepe… e no Café Burle Marx para tomar um whisky e escutar as músicas especiais que seu dono escolhe a dedo. E enquanto isso contar as histórias que eu dividi com as enormes árvores, companheiras de minha infância e adolescência, no caminho diário para o colégio das freiras francesas.
Visitar o ateliê de Brennand, na Várzea, e embobecer diante de suas esculturas e os antigos fornos onde fabricava suas peças, únicas no planeta. Atravessar todas as pontes do centro da cidade, entrar no antigo mercado de São José e andar entre as muitas tendas de redes e artigos de cordas, os santos macumbeiros e católicos, mostrar os cheiros que me traziam a infância de volta e a saudade da mão macia de minha avó…
E depois ir ver o mar do Pina e suas crianças pulando dos barcos de pescadores, e beber a caipirosca nevada mais saborosa da cidade, empoleirados no Biruta Bar, um bar de madeira e palha plantado na areia da praia…
De vez em quando percebí­amos que chovia… mas o mundo em Recife não parava por isso. Nem a praia… nem o Bargaço, lotado de gente para comer suas peixadas e moquecas de lagosta e camarões… Nem o antigo Bairro do Recife, com seus bares e restaurantes cheios de gente, seus edifí­cios barrocos e casarões coloniais.
Ali entramos no Café Cordel, para um café com licor acompanhados por música e literatura de cordel pernambucanos…
Nem o Tio Pepe, com suas tábuas de carnes ou peixes assadas na “chapa” com macaxeira e seu doce de leite “doido”, servido com gotas de brandy…
Nem as barracas que vendem água de coco diante da praia de Boa Viagem.
A chuva não impediu nada do que eu queria compartilhar, exceto um bom banho de sol deitados nas cadeiras da praia, tomando a cervejinha gelada de Pêu, o sujeito mais simpático dos milhares que se espalham pela orla.
As tempestades e nuvens negras não escureceram meu coração embriagado e luminoso de paixão… nem diminuí­ram a alegria que impregnava meu sangue de calor e que me fez dançar na varanda do casarão de Olinda, sob a chuva diluviana que caí­a morna sobre a cidade…
Chuva tão deliciosa que meu namorado-de-nove-dias, meu destino-de-quase-sete anos, acabando de sair da ducha não resistiu ao chamado e mergulhou no melhor banho de céu que já tomamos na vida…
Nove dias… tí­nhamos só nove dias.
Como viver depois? Eu não queria nem pensar…
Multipliquei os minutos, os segundos…aproveitei cada momento de fala e de silêncio cúmplices, fotografei na memória cada movimento de mãos, cada sorriso. Guardei sob a pele cada carí­cia.Gravei na alma as conversas dentro da rede do salão, as músicas que escolhí­amos ouvir durante o café da manhã…o carinho dos olhares, os cheiros, o dormir abraçados de pernas entrelaçadas, os bom dias, os boa noites, o amor feito com amor, que é a melhor forma de amar…
Como foi possí­vel estar sem isso por tanto tempo da vida?
Não queria pensar… não ia pensar…
Queria parar o tempo, desligar o resto do mundo. Queria virar sereia dentro de seu olhar de mar azul e viver dentro dele para sempre…
Mas para sempre não existe… e o dia chegou.
Meus olhos já se despedindo de cada movimento seu, meu olfato de seu cheiro, minhas mãos de sua pele…
Foram só nove dias… e meus olhos desacostumaram de ser sozinhos, meu coração esqueceu que estava há anos guardado em seus limites, meu corpo desaprendeu a viver sem ser amado.
Em nove dias. Só nove… meu corpo e minha alma esqueceram o que era solidão.
Tantos anos para acostumá-los e em nove dias haviam esquecido tudo.
Não sabiam mais… não queriam mais aprender. Estava perdida!
Mas valeu a pena…

 

Sem chorar e sem gritar escolhi calmamente uma roupa, um sapato, uma bolsa, um batom.
Fechamos lentamente a maleta e voltamos ao aeroporto. As longas conversas amordaçadas no silêncio da saudade antecipada…
Ninguém perguntou “e agora?”
E desta vez o voo não atrasou.
O sol do verão de Pernambuco voltou brilhante e caloroso nos dias que se seguiram a sua partida. E as minhas lindas cidades se vestiram de risos e cores…
Agora só meus olhos estavam molhados e escuros…

 

 

 

 

Foto:Bendition-Júlio Romero de Torres

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