Cicatrizes da Mirada

El Soldadito de Plomo


Um bar e cafeteria lindo em Cartagena! Cada cantinho uma descoberta.A mesa pode ser uma maleta antiga e o sofá uma banheira cortada cheia de almofadas ou a mesa pode ser uma janela velha, aproveitada de alguma antiga construção demolida. São muitas em Cartagena. Os sobrados antigos e mal conservados são derrubados e ficam apenas as fachadas, para manterem o desenho original do edifício. 

Também são do brechó as diferentes cadeiras e poltronas do bar, dando a impressão de que a gente está em algum lugar do passado de alguém. 

A música é excelente. Oh! adorei a música. Muitas me lembraram  também o meu passado. Engraçado isso. Meu passado é todo musicado! Hahaha…E eu adoro isso.

 

Pois então… Como eu dizia, encontrei esse cantinho gostoso. Um lugar para tomar chá gelado de granada ou de framboesa e conversar baixinho. Onde tudo é diferente de tudo, mas cada tudo tem algo que a gente reconhece rebuscando na memória. Talvez da casa de um tia, da avó cheirosa, da casa do engenho da bisavó meio índia. Mas também da casa do avô meio alemão, da avó meio portuguesa.

Presente escondido numa esquina escondida dessa pequena cidade espanhola, a cafeteria – bar serve doces delicados, feitos em casa, chás gelados ou quentes, gin tônica com cardamomo, whiskinho, etc.  Ainda vou descobrir sua carta de ofertas, pouco a pouco. O inverno aí deve ser delicioso!

Me conquistou. Será meu lugar a partir de ontem.

Se chama El Soldadito de Plomo.

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Pueblos da Espanha.

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Uma das delícias de viver na Espanha é viajar pelos pequenos pueblos espalhados pelas suas montanhas ou banhados pelas águas dos seus dois mares. A costa Este, pelo Mediterrâneo. As costas Oeste e Norte, pelo Atlântico.
Sinto-me uma privilegiada por poder desfrutar, sem gastar muito dinheiro, dessas pequenas pérolas que a gente encontra por qualquer estrada que escolha.
Pois é…foi assim que conheci um lugar chamado Mojácar, quase por acaso.
Fomos visitar uma prima na província de Almeria, Andaluzia, e ela nos sugeriu passar o dia em Mojácar, já que no final do verão não há mais tanta gente apinhada nos bares e hotéis nem nas lojas e restaurantes. Muito mais gostoso para passear, conhecer os recantos bucólicos e passar bem sem a agonia causada pelo excessivo calor e demasiada gente. O outro lado da moeda é que as lojas fecham para la siesta. E essa é uma hora larga. Fecham as 13:30hs e só abrem as 17:00hs.
Bom, isso é normal nos pueblos, pois as pessoas comem em casa e o sol não ajuda o cliente a se aventurar pelas ruas… exceto os vermelhos e asssados turistas que se deleitam com o sol inclemente a qualquer hora do dia.
Para quem gosta de feiras de antiguidades, é só ir aos domingos e se deleitar com uma enorme quantidade de bugigangas, roupas, objetos de corda, cestos…
Eu adoro.
mojacar-puebloO centro histórico é lindo, repleto de ruazinhas estreitas e escarpadas, cheias de escadinhas e recantos encantadores.  Há também marcas e lendas de batalhas entre os vários povos que já  dominaram a região. E naturalmente, um castelo. Um Pueblo com castelo é muito mais interessante.
Foi povoada por Fenícios, Cartagineses, Romanos, Suevos, Vândalos, Alanos, Visigodos, Árabes.  Tem de tudo nos museus desta região e muita , muita história! Mas  não se engane, quando a gente vai descendo a costa em direção às praias, vê a modernidade invadindo tudo. Condomínios e hotéis caros, bares, restaurantes, chiringuitos e as maravilhosas areias brancas cheias de turistas tardios, justo aquela gente que eu falei acima, os bronzeados povos do norte da Europa, com seus cabelos vermelhos ou quase brancos.
Tem gente que reclama do excesso de turistas. A mim não incomodam. Se eu fosse eles estaria justamente aqui, tomando uma cerveja e muito sol. Na verdade, eu já não gosto de levar sol, sempre uso chapéu  até quando entro na água. Mas os coitados, passam quase o ano inteiro no frio e na sombra e quando chega o verão ficam alucinados com a luz e o céu da Espanha, seus preços (muito mais baratos do que em seus países), sua gente mais aberta, mais amigável e risonha, suas ruas repletas de  tesouros interessantes a descobrir, artesanatos ou joias em prata e ouro, cerâmicas coloridas ou espadas e outros objetos medievais , obras de arte e música flamenca.
É bom que venham, geram muitos empregos e deixam muito dinheiro.
A Espanha é fascinante para todos, inclusive para os espanhóis. É fácil encontrar pelos pueblos uma quantidade muito importante de turistas internos.
Mojácar tem marcas e cicatrizes que vem desde a pre-história. Foram encontrados muitos objetos que testificam a presença de Neandertais nas cavernas da região. Há muitas por toda parte que provam essa teoria, com inúmeros objetos descobertos de todas as “idades”. Mas eu, neste blog, não pretendo me meter a contar sua história detalhada. Gosto mais de mostrar seu encanto, seus cheiros, suas comidas… uma ou outra lenda, que dá gosto e cor ao lugar.
Uma lenda de Mojácar interessante é que eles dizem que Walt Disney é filho ilegítimo de uma lavadeira e um médico desta cidade lá pelo ano 1901. Que ela foi para os EUA e deu o filho em adoção. Eles sabem até o nome da criatura: José Guirao Zamora. Isso quer dizer que Walt se chamava Pepe. Que tal?
Existem umas histórias que eu gosto muito sobre um prefeito dos anos sessenta, que encontrando a cidade destroçada e sem dinheiro, começou a oferecer às pessoas casas semi destruídas, negócios quase sem impostos, etc. Isso atraiu gente interessada em viver perto do mar e longe das grandes cidades. Pintores, poetas, escritores, intelectuais e negociantes com vontade de investir pouco e ter um lugar com charme e história para viver e criar seus filhos.
A cidade começou a renascer das cinzas e a atrair o turismo, que trouxe mais hotéis e mais negócios. Desde então as casas que se penduram na colina onde se ancla a cidade velha estão todas pintadinhas de branco, como quase todos os pueblos bonitos de Andaluzia e muito bem recuperadas. Desde a estrada já se vê a beleza que ela encerra… (claro, se você for condescendente com alguns feios hotéis que a toda custa querem estragar a paisagem).
indaloUma outra coisa interessante do lugar é seu símbolo. Uma figura rupestre, encontrada em uma das cavernas próximas ao lugar, chamada Índalo. É representada por uma figura humana com os braços e pernas abertos que sustenta um arco sobre sua cabeça. As figuras datam de 8500–3500 a. C. e foram declaradas “Patrimonio da Humanidade” pela UNESCO em 1998. Ainda não existe uma clareza sobre seu significado mas se estuda a criatura como um ser em comunhão com o céu e a terra. O círculo sendo considerado um arco íris, provocado pela chuva e o sol. Assim, o Índalo é considerado um amuleto que protege as casas das tempestades e as pessoas do mal olhado.
Essa figura foi encontrada em vários outras escavações arqueológicas pelo mundo afora, de forma que parece ser algum semideus, dizem. Poderia também ser apenas um homem com um arco, mas sem flecha de que valeria?
Hoje ele já é o simbolo de toda Almeria. É bem bonitinho. Os turistas gostam. Neste  link se pode ver umas fotos muito boas.
A outra coisa que adorei do lugar foi a comida. Estivemos em um restaurante familiar, bem na descida da rua que vai dar na praça principal. Comemos de maravilha. Camarão ao Curry, Cuscuz Marroquino, Paella… tudo fantástico. Não me lembro do nome do restaurante, mas vou tentar encontrar. Vale a pena.
Como quase todos os negócios turísticos, eles fecham no inverno e abrem de Maio a Outubro. Trabalham muitíssimo no verão… e podem se dar o luxo de descansar no inverno.
Quando você for visitar Mojácar, não desista da ideia ao vê-la pendurada na colina. Na primeira ladeira tem um elevador que deixa a gente bem no alto… e a vista vale a pena. O vento, a luz, os ruídos do passado espalhados pelo vale… fique um pouco ali, quieto, escutando e imaginando os povos que o habitaram…
Vá por mim.
Bem capaz de você querer ficar por lá mais tempo.
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Duas cidades com almas distintas.

Las_Ramblas-BarcelonaBarcelona não foi feita para días de chuva. O céu sempre azul e a brisa quase sempre fresca da Primavera mal acostuma a gente. Barcelona quer sol e mar. Quer as Ramblas cheias de gente colorida, pintores e mímicos, de flores e terraços cobertos de lona, de meses cheias de sangría e cervejas.

Aquí na Espanha a melhor cidade para a chuva é Santiago de Compostela. Lembro que minha primeira vez diante da belíssima catedral de Santiago foi com um guarda chuva negro numa mão e o coração na outra.
Esperamos que a meteorologia avisasse da chuva para poder ir.
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Depois de andar pelas ruas estreitas e sair no pátio diante da igreja, entendi. O cheiro da cidade é de musgo, os muros de pedra parecem chorar de saudades do passado. Aliás, Santiago de Compostela é o passado cristalizado no presente. As árvores bailam ao som da música antiga e do vento… e o peregrinos se transportam para um mundo inimaginável de emoção. Talvez pelo cansaço das largas caminhadas misturado com esse desejo de fé no divino que nos persegue, ali todos parecem gente do bem, gente que ama o próximo e segue as normas cristãs…
Impossível não se deixar levar pela aura de espiritualidade que paira sobre a cidade e mais quando chove.
Aquí não, aquí a chuva não chora, não chama o passado, não molha o coração.

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Pirineus aragoneses.

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A fronteira entre a Espanha e a França é marcada por uma larga e famosa cadeia de montanhas: Os Pirineus.
E quase no meio destas montanhas está Jaca.Foi aí que passei alguns dias das minhas férias…
E não riam quando falo em férias, só porque estou desempregada. Uma coisa nada tem a ver com a outra!
Sair de casa sem hora para nada, sem saber onde, nem o que iria comer, andar perambulando pelas ruas, um mapa nas mãos em busca de coisas belas…e ainda mais, nas montanhas dos Pirineus Aragoneses… isso é igual a férias.
Estar em casa, lavando e passando roupas, lutando bravamente com as aranhas, limpando e guardando coisas… isso é igual a estar desempregada…
Entenderam?
Pois é…

Jaca, España

Jaca, España


Jaca fica em plena rota do Caminho de Santiago. É uma cidade cuja história remonta ao primeiro milênio ANTES de Cristo. Seus primeiros habitantes eram pastores e guerreiros. Dormiam no chão e em covas dentro das pedras, comiam carne de cabra, bebiam algo semelhante à cerveja e bailavam ao som de flautas. As escavações arqueológicas confirmam restos de cerâmica, espadas e instrumentos musicais correspondentes ao século II a.C.
Os romanos, no ano 194 a.C, invadiram e conquistaram Jaca com uma armadilha. Puseram um tradicional inimigo, o povo sussetano , diante de suas muralhas e quando os jacetanos saíram para lutar com eles, foram surpreendidos pelos exércitos romanos.
Muito tempo depois, já no século X, uma Jaca empobrecida, de muros caídos, foi anexada aos domínios de um conde aragonês e a partir daí voltou a desenvolver-se, chegando a ser capital do reino e residência dos Reis Aragoneses durante largas temporadas.

Jaca é uma cidade simples e tranquila… e sua maior riqueza é a sua localização. É ponto de partida de caminhos que levam a pequenos e belíssimos povoados, que ainda conservam suas ruas e casas no estilo medieval, suas igrejas românicas, suas tradições culturais e uma gastronomia fascinante.
As trilhas que levam à Garganta do Diabo são procuradas por toda gente, jovens e não tão jovens, para esportes de risco… que eu gosto de ver, mas não tenho a menor vontade de fazer…
Só de olhar de cima para o que as pessoas faziam entre as grandes frestas abertas nas montanhas, sentia um nó no umbigo. Acho que minha adrenalina é muito sensível para divertir-me com esses programas. Minha índole é mais contemplativa e meu lado Rambo um tanto atrofiado.

Pirineus

Pirineus


Preferi buscar um lugar na sombra, deitar numa pedra fria, numa das margens do rio, onde havia uma grande árvore quase deitada sobre as águas… e tranquilamente escutar o ruído magnífico que fazem enquanto escorrem com força entre pedras de todos os tamanhos.
Depois, comer uma ” bocata” de atum com tomate, e litros de água fresca, para suportar a volta sob o sol inclemente, nas pequenas e tortuosas trilhas que sobem e descem em torno das enormes ” peñas”( rochedos), sem misericórdia para a minha falta de preparo físico.
Rutas

Rutas


O caminho é belíssimo, pois costea toda a garganta, acompanhando os passos com barulho de água corrente e cheiro de mato…
Sofri um pouco… mas gostei muito.

Uma observação imprescindível à beleza de todos os lugares que visitei: a limpeza.
Nada de lixo pelas trilhas…NADA!
Águas limpíssimas, fontes de água potável por toda parte, onde os caminhantes podem encher suas garrafas sem medo.
Sinalizações precisas para aqueles que estão à caminho de Santiago de Compostela, ou apenas querendo conhecer suas paragens, seus miradores, sua flora e sua fauna.

Puente de la Reina

Puente de la Reina


Jaca fica justo na rota de Santiago.
E em Puente de la Reina, um povoado perto da cidade, muitos caminhantes se encontram, em direção a região de Navarra.

A via de peregrinação até Santiago de Compostela colocava em comunicação toda a Europa e converteu a arte românica na primeira “arte internacional”.
A Catedral de Jaca é considerada um dos monumentos mais importantes da arte românica espanhola. Espelha o intercâmbio dessas pessoas, produtos e idéias, em um momento histórico preciso em que os reinos cristãos espanhóis lutavam contra a invasão muçulmana e avançavam lentamente desde a montanha até o vale, deixando ao seu passo testemunhos de uma fé católica restabelecida.

Catedral

Catedral


O que mais me surpreendeu nela foi que o coro e o órgão estão por trás do altar maior, em vez de estar no centro da nave principal.

Nas dependências do claustro pude visitar o Museu Diocesano de Jaca , considerado pelos experts como a “capilla sixtina de la pintura românica”.
E é absolutamente impressionante.

Os murais de frescos de várias pequenas igrejas da região, assim como suas imagens datadas dos séculos XI, XII e XIII , foram transportados para o museu, a fim de protege-los dos saques e da espoliação do patrimônio espanhol.

Uma das salas compreende a História da Humanidade, desde a criação de Adão e Eva até o sacrifício de seu redentor.
É de tirar o fôlego…

Muitas de suas figuras estão deterioradas e as partes vazias não são “restauradas” para não parecerem uma maquiagem. O que permanece visível tem mais de mil anos e isso vale a preservação de seu estado atual.

Museu Diosesano de Jaca

Museu Diosesano de Jaca

Um dos tesouros de Jaca é “La Ciudadela.” Um castelo-fortaleza que protegia o Reino de Aragon do assédio francês, construído entre os séculos XVI e XVII .
Contava com hortas e água abundante, de forma que podia considerar-se autônomo por muito tempo caso precisasse defender a cidade e a região. Tem a forma de um pentágono, com fosso e tudo. Atualmente o fosso é habitado por cervos.

O paradoxo é que única vez que entrou numa batalha foi durante a Guerra da Independência, com os franceses dentro e os espanhóis fora de suas muralhas.

Essa é uma história interessante, que contarei só um pedacinho. Quando Napoleão queria invadir Portugal , pediu permissão para passar pela Espanha com suas tropas… e ficaram. Invadiram e tomaram a Espanha e nomearam José I, irmão do Imperador francês, como Rei da Espanha…
Graciosos, os franceses, não?

Ciudadela

Ciudadela


Bom… atualmente a Cidadela funciona como quartel e permite a visitação em parte de suas dependências….com hora marcada e guia específico, naturalmente.
À noite e iluminada ela é mais linda que de dia…

Há ainda uma outra antiga fortaleza, no alto de uma montanha, chamado Fuerte de Rapitán. Atualmente foi convertido de ponto defensivo em salão de luxo para visitantes ilustres, desde os Reis da Espanha a Presidentes. E guarda o Museu de Miniaturas Militares , uma das exposições de soldadinhos de chumbo mais importantes do mundo. Não pude vê-la, pois estava sendo transladada para a Cidadela.

Rapitan

Rapitan


Mas pude assistir desde o alto de suas muralhas a um concerto de jazz, com uma banda importada diretamente das ruas de New Orleans , tomando um whiskinho e cantando a todo pulmão… pois esta subida eu fiz de ônibus, já que os carros são proibidos de subir pela escarpada montanha e sua estreita e sinuosa estrada…

Enquanto cantava e respirava o ar puro das montanhas pensava nas voltas que a vida dá… e no inusitado que é para mim estar vivendo e podendo apreciar as belezas deste país.

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Cicatrizes da Mirada

Queridos, um dia desses eu descobri que um amigo virtual, que vive em Petrópolis, no Brasil, havia guardado num arquivo, meus primeiros posts, escritos em 2003. Ele teve a delicadeza de me enviar um CD para que eu não os perdesse para sempre. Não é lindo isso? Não é maravilhoso esse laço que nos envolve através da escrita?

Para meu desfrute pessoal, vou guardá-los aqui e talvez compartilhá-los com novos leitores.

O blog começou como Impressões depois passou a ser Cicatrizes da Mirada. Esse é meu primeiro post.

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Meus amigos.

Encontrei uma forma de repartir com vocês minhas impressões sobre a experiência maravilhosa que estou vivendo. Descobri o mundo dos blogs!

A Espanha surpreende em cada esquina…

Eu vou tentar escrever sobre as cidades, os museus, as histórias, a culinária… quer dizer, sobre o que me der vontade.
É mais ou menos como um e-mail coletivo!

Espero que gostem!

 
Quinta-feira, Março 27, 2003

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Duas pérolas…

Um sábado destes, saí pela manhã brillante de Barcelona, sem nenhum objetivo além de respirar o ar fresco entre as ruas estreitas do bairro gótico, observar a diversidade da fauna humana que cruza suas calçadas… sentir o pulsar de seus corações, quase todos enamorados pela cidade.
Quer programa melhor?
Pois sim.
Garimpar as pérolas que guardam as esquinas de pedras ancestrais de seus palácios e igrejas.
Concerto ao ar livre em BarcelonaEm uma delas, encontrei um grupo de pessoas que cercava um músico cego. A voz da criatura se elevava sobre um centenar de cabeças e cantava maravilhosamente as antigas canções de toda a minha vida. Sentei num canto perto e fique ali, não sei  por quanto tempo, mas fiquei com ele, seu concerto e minha história. Que sensação tão boa de felicidade! Eu sorria sozinha.
Diante de mim havia um homem que, de olhos fechados, vivia cada música, estalando os dedos e movendo levemente a cabeça no ritmo de cada canção. Entre uma e outra canção, as pessoas mudavam, umas saíam aplaudindo, outras paravam, adiando um pouco a chegada ao seu destino. Umas poucas, como eu e o sujeito dos olhos fechados, estavam sem destino certo, entregues a cada descoberta, sem nenhuma vontade de perder o espetáculo inteiro. Ficamos até que o homem começou a guardar sua guitarra. Comprei seu disco. Chama-se Aaron Lordson. Foi uma boa idéia. Escuto-o agora e sorrio levemente sentindo outra vez o perfume do vento marítimo de Barcelona, experimentando outra vez a sensação de felicidade singular que aquele momento me trouxe.
Arias de óperas nas calçadas de BArcelonaAndei mais um pouco, tentando perder-me o mais possível pelos belíssimos becos cheios de varandas floridas, quando outra pérola me fez parar. Especialíssima! E esta estava praticamente sozinha. Um senhora linda, com um cabelo preso num coque antigo, cantava arias de ópera sobre um balcão elevado da calçada de um palácio. Ao seu lado, uma cadeira com una cestinha para as moedas e um cartaz que dizia “Aulas de Canto Clássico, fone tal e tal” .
A senhora já não tinha tanta força na voz para os tons mais altos e então entrecortava-os com classe e doçura. Uma emoção funda me invadiu. Quase chorei… Que presente!
Então sentei do lado oposto da calçada e deixei que ela cantasse Mimi, de La Bohème, para mim, enquanto os passantes, turistas apressadinhos com seus mapas na mão, evitavam parar para não precisar colocar uma moeda em sua cestinha.
Pedi licença para fazer a foto e deixei minha moeda, agradecida e enfeitiçada pela sua beleza.
Precisava guardar esse momento para compartilhar aqui. Depois de tanto tempo sem computador e sem Internet decente, seria uma boa reentrada em cena. Ou não?
Ps: Olha só o que encontrei no iutubi. Hohoho! Ela se chama Pilar Rodrigues.

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A Ria de Vigo…um colírio!


Às vezes a semana nos dá de presente uma vista assim.
Quem dera fosse mais frequente.
O casamento de um amigo nos levou à Galícia.
O ganho extra foi aproveitar, por dois dias, o verde perfumado dos montes, as rias que se podem ver desde a estrada como se fossem dedos marítimos que penetram a terra galega levando os frutos do mar até a porta dos habitantes.
Além do mais, poder provar a comida saborosa e escutar o sotaque gostoso dos galegos.
A gente volta renovada… pena que é tão longe e não se possa ir sempre e sempre!
Eu adoro Madrid… mas sinto uma falta do mar!

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Sonhar é preciso…

Dizem que o universo conspira a favor dos nossos sonhos e cada vez estou mais segura de que isso é a pura verdade.
Eu tenho muitas histórias para contar sobre essas “conspirações” em minha vida, inclusive a maior de todas que é o motivo pelo qual vim parar na Espanha.

Mas, uma coisa é preciso avisar: os sonhos tem que ser compartilhados. Isto significa que eles precisam ser materializados na fala ou pelo menos na escrita. Nada de guardar os sonhos dentro da cabecinha. Eles precisam passear por aí, respirar ar puro… contaminar o planeta com a sua força, espalhar-se pelo cosmos.
Não é necessário que a gente saia contando para todas as pessoas… mas algo do mundo precisa saber que eles existem para que a energia se expanda.
Então… de vez em quando me lembro que é preciso continuar sonhando em voz alta, sempre, sempre. Há um universo a espera, a escuta! Ele tem provado uma e uma outra vez que é assim!
Isso aqui está parecendo livro de auto ajuda americano… mas não é.
Pois sim.
Isso tudo só para contar o que significou para mim o que aconteceu no início deste mês. Estive em Frankfurt, na Alemanha. Fui para assistir um concerto da Orquestra Sinfônica da Radio de Frankfurt, dirigida atualmente pelo diretor Paarvo Järvi, um discípulo de Leonard Bernstein. A famosa orquestra se apresentava com o Orfeon Donostiarra, um coral espanhol fantástico formado por quase cem homens e mulheres bascos. Além disso, duas excelentes solistas, Nathalie Dessay (soprano) y Alice Coote (mezzosoprano), completavam o espetáculo.
O repertório era a Sinfonía nº 2, “Resurreção” de Mahler.
Respire!
Eu mal podia respirar!
Desde o ano passado planejávamos uma viagem à Frankfurt para visitar o jovem músico da família, meu enteado. Ele conseguiu, com seus 25 anos, o que muitos músicos maduros tentaram e não conseguiram: a vaga de solista de oboé nessa prestigiosa orquestra europeia.
Uma vaga que não era preenchida nos últimos 5 anos, embora a orquestra estivesse sempre avaliando candidatos. Agora ele está nos últimos meses de experiência e anda precisando de uns mimos para aguentar a pressão que tem recebido da orquestra.
Queríamos organizar a visita, mas com a mudança de casa, o final do ano com hóspedes, os parcos recursos depois de tantos gastos, etc, etc… fomos deixando passar o tempo.
Mas, por obra e graça do… universo conspirador, estivemos falando desse sonho mais uma vez na segunda feira passada. Sabíamos sobre as datas do concerto, mas as condições do momento não estavam muito propícias para gastos extras.
Passamos a noite da segunda feira falando sobre a maravilha que seria poder estar lá… e vai e vem… e vem e vai….
Bueno, na quarta feira, abri meu correio eletrônico e começei a apagar os spams de sempre. Entre eles uma página de ofertas de viagens, pois se não tenho qualquer possibilidade, nem abro as propostas.
Tóin. Parei com o click do mouse no ar. A oferta era assim: “Vá a Frankfurt por 30 euros”. Heim?
Entrei na página e era isso mesmo, 60 eurozinhos, ida e volta. Sem pensar comecei a fazer os cálculos, casa grátis, comida baratinha e gostosa ( cerveja e salsicha hahahahha…), convites gratis para o concerto. Perfeito!
Mais facilidades que isso impossível!
Telefonei para meu pirata ( o pai da criatura, que baba de vontade de vê-lo tocar numa orquestra como esta ) e em dez segundos estava resolvido: vamos!
Pois fomos…
Na quinta feira estávamos voando para Frankfurt.
Passamos a noite passeando por Berguerstrasse, uma rua movimentadíssima, com bares e restaurantes rodeados por plantas e flores, as cadeirinhas nas calçadas, muita gente andando de bicicleta, um ar de tranquila satisfação na cara das pessoas… um clima primaveril delicioso! Que encanto!
Ao final desta rua encontramos um pequeno parque chinês, com flores de cores incríveis!

Até aí… tudo bem tranquilinho. A coisa começou a complicar quando quisemos comer e recordamos, “de repente não mais que de repente”, que as coisas ali estão escritas em Alemão e, na maioria das vezes, sem tradução para o Inglês.
Descobrimos uma lanchonete gostosa para comer as famosas salsichas que eu adoro. Como pedi-las olhando o menu sem fotos?
Arrisquei de primeira: “¿Hablas Español?” Perguntei sorrindo ao rapaz que me atendeu. “Un poquito”. Respondeu-me, divertido e simpático.
Pronto. Resolvido o problema. Nos próximos minutos trocamos muitos gestos entremeados por palavras soltas de Espanhol, Inglês e Alemão ( só ele, claro! ) e consegui minhas salsichas, de dois tipos diferentes, com os molhos desejados e duas cervejas muito gostosas. Total: 10 euros.
Feliz. Feliz.
Tive a sorte, inclusive, de conseguir falar em Português num restaurante italiano, pois o garçom falou de futebol e quando soube que eu era do Brasil começou a expressar-se perfeitamente em nosso idioma… Hohoho! Ele disse que havia dividido um apartamento com brasileiros e por isso sabia falar Português.
Então, sempre que eu podia testava se o garçom falava algo de Espanhol, ou de Inglês ( mais fácil ), mas na maioria das vezes não foi necessário o exercício da mímica porque estávamos acompanhados por nosso querido músico, que já domina o Alemão.
Na sexta feira conhecemos o centro histórico.
Existem algumas construções que guardam o estilo anterior à Segunda Guerra Mundial, mas a destruição da cidade pelos bombardeios foi quase total. Quatro casitas de nada sobreviveram e foram restauradas, mantendo o clima de Alemania do início do século passado. O resto é novinho em folha.
Alguns arranha céus criam no horizonte um contorno moderno de espelhos e sombras. Mas eu não gosto de arranha céus… mesmo os bonitos.
Subi em um deles para ver a cidade lá de cima. Tá. Normal. Não foi lá grande coisa. Gosto mesmo é dos bairros cheios de árvores e casas antigas, pracinhas com fontes e chafarizes, beira de rio, parques…
E realmente aí foi possível encontrar, restauradas, casas e edifícios lindos.
Então aproveitamos para passear pela beira do rio, tomar mais uma cervejinha em um lindo bar montado numa barca e ver os patos, as embarcações a remo, a bicicleta-cervejaria manejada por jovens cheios de alegria e cerveja ( funciona como um balcão com um grifo de cerveja onde os jovens pedalam e bebem ao mesmo tempo circulando entre uma ponte e outra da cidade).
E… finalmente, na sexta feira à noite nos dirigimos emocionados para o concerto no Alte Oper de Frankfurt, o antigo Teatro de Ópera, quase totalmente destruído pelos bombardeos e recuperado, graças a campanha cidadana contrária a sua demolição, numa obra que durou quase trinta anos.
As pessoas que lutaram por isso podem estar orgulhosas de sua façanha. O edifício é precioso.
A sinfonia de Mahler abarca a alegría de viver, a união com a natureza, o medo existencial, a confiança e as visões do além. Mahler levou seis anos para completar a composição, que foi interpretada completa pela primeira vez pela Filarmônica de Berlim em 1895.
É simplesmente fantástica!
O primero de seus cinco movimentos, composto em 1888, teve durante algunos anos una existência independente como poema sinfônico. No verão de 1892 Mahler acabou o segundo, terceiro e quarto movimento mas ainda faltava o final que ele queria que fosse apoteótico. Para imprimir mais grandiosidade ele incorporou a parte coral, como Beethoven em sua Nona Sinfonia.
Durante o funeral de um famoso diretor, Hans von Bülow, em 1894, Mahler se inspirou para a conclusão da sua sinfonia, compondo o Juízo Final e a Ressurreição cantados por um coro que representa os santos e bem-aventurados.
O Orfeón Donostiarra é especialista nos pianíssimos e altos necessários para interpretar a peça.
E a solistas convidadas eram simplesmente fantásticas!
Quase duas de horas de concerto, sem parar nem para respirar.
Eu não sei como contar isso, mas imaginem 100 vozes de coro cantando e mais de 120 músicos tocando, às vezes ao mesmo tempo.
A Segunda Sinfonia de Mahler tem momentos de uma doçura encantadora, por exemplo, quando a voz da soprano “conversa” com o oboé. E tem também momentos de grandiosidade alucinante, quando a percursão soa como trovões e todos os demais instrumentos soam ao mesmo tempo.
É surpreendente quando o maestro dirige um som de metais que vem de fora do recinto e quando esses sons começam a mesclar-se com os sons dos instrumentos dentro do palco.
É de tirar o fôlego.
Ficamos imóveis até que os aplausos explodiram. Nem sei por quanto tempo aplaudimos de pé. Eu estava em transe… e nem me recordo de quantas vezes o diretor e as sopranos entraram e saíram do palco.
Bom… só me lembro que em algum momento eu me dei conta de que sonhara tanto poder estar pessoalmente num concerto como esse! E que antes de viver na Europa, enquanto vivia na casa do Poço da Panela escutando os maravilhosos discos de música clássica do Lorde, quando sequer podia dar-me ao luxo de ter um sonho assim, sonhava o sonho dele… acompanhando divertida e fascinada seus movimentos de mãos e imaginária batuta.
Meu pai sonhava dirigir todas as orquestras do mundo. E ele fazia isso muitas vezes, em pé, bem no meio de seu gabinete… com os olhos meio cerrados enquanto os auto falantes do som, em sua máxima potência, derramavam música pelo ar. Sua plateia, composta por 4 pessoas, minha mãe e seus três rebentos, também aplaudia de pé.
Uhaaóoooo! Bravo! Bravo!
Ele sempre tinha que trocar os auto falantes, que nunca suportavam o volume em que escutava os movimentos mais violentos das suas sinfonias e óperas mais queridas.
A sorte é que sem vizinhos, além das árvores e do rio, não havia quem se queixasse do barulho e podíamos “assistir” seus concertos a qualquer hora do dia ou da noite.
Pois sim… enquanto aplaudíamos diretor e orquestra em Frankfurt, com especial carinho ao excelente músico da família, José Luís, o solista de oboé que parecia brilhar entre tantos outros músicos justamente porque seu pai estava ali para homenageá-lo, aproveitei… e também dediquei a noite ao Lorde, meu pai.
E quis, no fundo do meu coração, que realmente existisse outra dimensão nos estágios de vida e que ele pudesse saber-ver-estar-ouvir-sentir tudo naquela noite através de mim.
Sábado acordamos em estado de graça. Passeamos todo o dia pela cidade e decidimos ficar em casa à noite, cozinhar algo e botar a conversa em dia relaxadamente.
Pois foi outra boa decisão. Choveu cântaros e relâmpagos iluminaram a cidade. Uma delícia escutar música em casa e conversar intimidades…
Domingo, pé de cachimbo, areia fina, bate no sino… caminhar pelas ruas, entrar nas igrejas, umas cervejinhas aqui, comida japonesa ali, fazer as malas e voltar para casa.
Madrid estava igual… nem percebeu que fugimos.
Agora ando tirando uns sonhos antigos do baú. Estou querendo assistir em concerto, ao vivo, Carmina Burana. Só não escolhi ainda onde.
Mas já comecei a soprar para os ventos…
Ps: Soube agorinha mesmo, vejam só… “O Alte Oper de Frankfurt é o antigo teatro de ópera da cidade, um edifício carregado de história desde que se inaugurou em 1880 com a presença do kaiser Guillermo II. Nele se produziu a estreia mundial de Carmina Burana, de Carl Orff, em 1937.
Ho Ho Ho…

Acho que pode ser lá mesmo. Já vou conferir a programação!
Esse universo!

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Barcelona

Esse post sobre Barcelona é uma mistura de posts passados. Resolvi publicá-los aqui depois que Roseane, do blog Pavulagem da Ro, pediu-me um toque sobre a cidade, já que ela vai estar ali por uma semana.
Encontrei esses posts em um dos meus arquivos do Cicatrizes da Mirada.
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Sonhei por anos a fio estar em Barcelona com olhos-de mar-azul. Um sonho que parecia impossível enquanto escrevia-lhe cartas e e-mails. Agora que estava na hora de transformá-lo em realidade….eu queria mais.
Os seres humanos são assim, não é?
Ou isso é prerrogativa das mulheres?

Queria estar maravilhosa. Então, resolvi emagrecer uns poucos quilos e caber mais folgada no pretinho básico.
Pois sim… nem rezando pelo sangue de Cristo!
A viagem pelos Pirineus Aragoneses, uma semana antes de chegar à Barcelona, arrasaram com a minha “já-muito-fraca-força-de-vontade”.
As tentações eram constantes pois a gastronomia aragonesa é fantástica. As tapas do Bar Pau, na cidade de Jaca, os vinhos, os queijos de Anso (um pequeno pueblo pelo qual me apaixonei perdidamente), que maravilha!

Apesar de ter caminhado bastante, não perdi uma miserável grama.
“Antigamente se creia que las setas eran producto de la union de un rayo de sol y uma gota de rocío”. Isso dizia o cartaz do bar. Um bonito dito popular!
“Antigamente se acreditava que os cogumelos eram produto da união de um raio de sol e uma gota de orvalho”. E esse era o estímulo para que provássemos o mais variado cardápio de cogumelos da região. E com eles, os queijos artesanais e os pães caseiros… era impossível beber água. Era necessário um bom vinho.
E lá vinha o vinho!
Ah… e esqueci de dizer que antes da viagem, já pensando em Barcelona, fui mexer nos cabelos, claro. Qual era a estratégia mais conhecida de todas as mulheres para melhorar a auto-estima, antes do silicone e da lipoaspiração? Ir ao cabeleireiro e mudar o corte ou a cor dos cabelos, certo? Fui… eu não aprendo nunca!
Não entendo por que TODAS as mulheres conseguem um tom acobreado nos cabelos castanhos, mas os meus sempre saem cor-de-rosa, assim meio da cor do mercúrio cromo, assim meio da cor do ridículo!
Mesmo que eu tenha pedido sinceramente, em meu Espanhol claudicante, que as mechas fossem discretas e apontado para a menos espalhafatosa do cardápio, não escapei.
Pois bem…
Depois de uma semana em Jaca, caminhando sob o sol e tomando vários banhos de piscina, a cor das mechas passou do rosa-cromo ao amarelo-ovo-queimado…
A piscina é um dos instrumentos mais recomendados para destruir qualquer cabelo, mas eu seria mais louca se recusasse os prazeres da água com aquele calor!
Resolvi relevar a aparência e aproveitar o passeio. “Tudo dependeria dos meus modelos mentais.” Pensei muito zen.
E Barcelona chegando…
Quando estávamos à caminho da cidade eu ainda estava com idéias de felicidade. Mas a onda de calor chegou ao seu auge e, além de matar pessoas, não me deixou nem pensar…

Ao sair de casa pela manhã, em direção à Casa Batló, já estava suada até na sola dos pés.
E, a medida que caminhava e caminhava e caminhava, a roupa ia grudando na pele, o cabelo arrepiando como o de uma bruxa…e eu só queria um banho, dois banhos, três banhos… queria viver debaixo da ducha para sempre!
A roupa colada no corpo, o cabelo preso num rabo de cavalo e o cansaço extra que o calor emprestava a qualquer movimento, arruinaram com meu humor. Meus modelos mentais zen se transformaram em asas negras flutuando diante dos olhos e escurecendo, contra a minha vontade, momentos que poderiam ter sido magníficos.
Assim, sonhei com Barcelona no outono, no inverno, em qualquer outro momento do ano e de meu astral… mas eu queria sair dali imediatamente. Pensei nisso e logo veio uma lembrança astrológica. Isso! Estava a um mês do meu aniversário… claro!
Além de toda a onda de calor que invadiu a Espanha, estava em pleno INFERNO ASTRAL!!!!
Inferno. Inferno. Inferno. Só de pensar na palavra já me sentia queimar de dentro para fora. Ufa! Isso. Foi isso, claro!
Havia um inferno fora e outro dentro de mim! Não sou fã de astrologia, mas queria uma explicação… qualquer uma!
Bom, em alguns momentos de ferrenho esforço para controlar meu humor da cor de carvão e aproveitar as cores de Gaudí, pensava em meus amigos, em como gostaria de mostrar a todos as imagens que consegui guardar, como a incrível Casa Batlló e seu telhado dragão, suas chaminés de máscaras. Lindo! Parece uma casa construída pelas ondas do mar…
Vale a pena visitá-lo!
Antes era um edifício residencial, fechado ao público. Mas hoje é uma espaço para eventos absolutamente espetacular.
Adoro tudo o que Gaudí fez!
E fui , pela segunda vez, ver ao vivo e a cores a Catedral de la Sagrada Família.
Para aguentar o calor, comprei um leque que vendiam diante da fila quilométrica, sob um sol de lascar o crânio. Impossível resistir. Comprei o maior de todos.
Sacudi minha discreta comprinha diante do rosto por todo o dia, sem saber que estava “falando”. Quando descobri sua linguagem, o danado dormiu dentro da bolsa a maior parte do tempo.
Imaginem que mensagem eu poderia enviar com um leque negro e rendado, enorme, os cabelos daquela cor e a blusa grudada no peito? É uma pena que o post sobre a linguagem dos leques tenha se perdido por aí… quem sabe o encontro também nos muitos cds de arquivos que tenho!

Voltando então à Sagrada Família.
Iniciada em 1882 pelo arquiteto Francisco de Paula del Villar, o projeto era o de uma igreja neogótica.
Em 1883 Gaudí se encarregou em dar continuidade à construção. A partir de seus esboços sobre a forma geral do edifício, o arquiteto foi improvisando a sua construção e criando à medida que avançava o projeto. Ele dizia que a igreja tinha o espírito gótico, mas na sua própria linguagem.
Dizem que ele evoluía enquanto a construía e vice versa.
A obra era sua obsessão. Em seus últimos anos de vida, morava dentro da construção e só saía de lá para conseguir dinheiro e continuar o trabalho.
A fachada atual da Sagrada Família é apenas uma das quatro torres projetadas, e a obra continua ninguém sabe até quando. Totalmente construída com doações, ela avança lentamente.
Não creio que eu viva para vê-la terminada.
A Catedral de Gaudí é alucinante!
Quando a vi pela primeira vez, em 1994, havia menos torres e portas de entrada construídas. Creio ter visto apenas a Puerta de La Natividad. Mas agora boa parte do projeto inicial já está em estado avançado de construção.
A Puerta de La Passion conta com esculturas modernas, de Subirachs, inspiradas na obra de Gaudí que vimos depois, nas chaminés de La Pedreira ou Casa Milá.
Uma das caracteríscas mais marcantes de Gaudí é a utilização de formas orgânicas em seus projetos. Suas colunas parecem galhos de árvores. Suas esculturas de ferro forjado mostram curvas e desenhos que parecem vivos. Seus telhados parecem sair de um conto de fadas ou bruxas… são cheios de máscaras imensas.

A Casa Milá ( ou La Pedreira, como era chamado o edifício pelos antigos habitantes de Barcelona, que o consideravam feio ) é um prédio habitado, mas que pode ser visitado.
É impressionante o que foi capaz de criar o famoso arquiteto naqueles tempos, e admirável que tenham permitido suas inovações.
O pátio, as escadas, a cobertura com suas chaminés-esculturas e um apartamento completo, que foi comprado por um banco e decorado à moda art-deco do princípio do século, estão abertos ao público e valem a fila e o preço.
Eu gosto dele. Parece uma duna molhada, ou um conjunto de cavernas escavadas numa montanha… e quanto mais a gente olha, mas vê coisas!
E, detalhe importante, tem AR CONDICIONADO, meu maior objeto de desejo naqueles dias…
A Catedral de Barcelona, de estilo gótico, além de ser maravilhosa em si mesma, tem um encanto extraordinário, para os catalãos: um Cristo negro. O Cristo de Lepanto.
Segundo conta a tradição, ele estava na galera que levava Don Juan de Áustria, irmão bastardo do Rei Felipe II, durante a famosa Batalha de Lepanto contra os turcos, no século XVI. Falei nesta batalha quando contei sobre a vida de Miguel de Cervantes. Ele também estava lá.

O Cristo é especialmente reverenciado em toda a Espanha e mais ainda na Cataluña.
O coro da catedral, de madeira escura e trabalhadíssimo é alucinante. Pode-se passar horas descobrindo os detalhes esculpidos em suas cadeiras e tronos.
Sempre há muita gente visitando as belíssimas catedrais espanholas e eu, às vezes, queria esses lugares só para mim, pelo menos por uns minutos.
Queria não ter que escutar gente conversando, piscando flashes por toda parte, correndo de um lado para outro sem ver nada.
Queria não ver grupos de pessoas absolutamente desinteressadas no que estão vendo, mas seguindo seus guias muitíssimo interessadas em levar a maior quantidade de fotografias possíveis, mais ainda se forem dos lugares onde é proibido fotografar.
Eu saio do sério com esta gente! Tenho vontade de expulsá-los do templo, como fez Cristo com os comerciantes em sua época. Juro!
Onde estão minha bondade e compaixão?! Tóin!
Eles tem tanto direito de estarem ali quanto eu.
Outra visita que não se pode perder é à Igreja Santa Maria del Mar. Uma igreja também muito linda.
Ela alberga a Virgem Del Mar, padroeira das gentes de todos os mares.
E eu, enamorada por um pirata mediterrâneo, adorei ficar ali, protegida do sol, sentindo um frescor que vinha das pedras antigas, do teto altíssimo, da paz que os templos me dão…

Não sou religiosa mas sinto um encantamento enorme pelos templos. Eles realmente são construídos para propiciar essa sensação de colo macio, de conforto.
Nunca deixo de visitar as igrejas, as mesquitas, as sinagogas… não só pela arquitetura e história, mas também pelo que transmitem de acolhimento.
Quando você estiver viajando por qualquer lugar, na hora do grande frio ou do grande calor, não insista em bater pernas pelas ruas… busque um templo e fique lá por um tempo. E a melhor hora é quando está todo mundo nos restaurantes comendo e fazendo barulho.
Essa é a hora de estar quase sós num templo. Vá por mim…
Ano passado li uma novela muito boa, inspirada na construção desta igreja: Catedral del Mar, de Idelfonso Falcones. Se estiver traduzida para o Português, leiam. Além da trama excelente passada na época medieval, muito se fica conhecendo sobre fatos históricos reais da Cataluña.

Um programa imperdível de Barcelona é o Museu Picasso , que ocupa cinco palácios dos séculos XIII e XIV.
Conta com desenhos e pinturas de seus primeiros anos, além de cerâmicas e esculturas. Assim podemos entender melhor porque ele experimentou tantas mudanças na longa vida de artista.
Imagino que, pintando como pintava aos 14 anos, era impossível fazer o mesmo durante os 78 que lhe restavam de vida… tinha que inovar ou morrer de tédio!

Na porta do museu, um sujeito posava com os turistas fantasiado do quadro, O Arlequim Cubista, cuja orelha era um nariz. Perfeito!

Infelizmente não tenho a foto!
As Ramblas “do Planeta”, como diria Caetano é um lugar incrível. Ali acontece tudo. Na primeira vez que estive ali fiz questão de provar a orchata de chufas, que detestei. Pedi só por causa da música. Nunca mais!

As Ramblas são palco de todos os mímicos de Barcelona. Bailarinas, palhaços, princesas, Colombos, índios de arco e flecha, todos imóveis até que se jogue um moeda. Então eles se movem e agradecem. Um alegria para as crianças e os japoneses…

Eu gosto mais dos músicos. Sempre há músicos fantásticos nas ruas de Barcelona. Mas o melhor das Ramblas desta vez foi entrar no Mercado La Boqueria. Montanhas de frutas e especiarias. Verdadeiros quadros – ao vivo – de cor e alegria. Não resisti às amoras

Encontramos um pequeno bar de tapas e cerveja dentro do mercado. Comemos choquitos ( um molusco) e aspargos verdes a la plancha e dois litros de cerveja… que delícia! Ai!
Vou aproveitar para explicar o que é uma tapa.

Nada de violência, meus queridos, é só um petisco qualquer. Pode ser uma fatia de pão com tomate e presunto crú ou um pratinho de azeitonas, ou de mariscos, ou batatas bravas, salada russa…ou… ou….
A variedade é infinita e deliciosa, e o tamanho também. Tem bares que servem tapas que são verdadeiras porções, generosas no tamanho e no preço! A maioria das vezes nem se cobram as tapas… são presentes do bar. Cada bebida que se pede, eles servem uma tapa.
O nome tem a seguinte história: há muitos anos, uma lei obrigava os donos de bares que serviam bebidas alcólicas a dar um pequeno petisco para que os clientes não ficassem muito bêbados.
Já que na maioria dos bares, os espanhóis bebem em pé, junto ao balcão, o bocadito era servido em um prato pequeno que cobria o copo, como uma tampa.
(tapa em Espanhol)
O costume permanece até hoje.
Os espanhóis nunca saem para beber num único lugar. Eles tomam uma cervejinha aqui, pagam e saem… vão para outro bar, e outro … e outro… e assim saem de bar em bar. Só pagam a bebida e comem de graça. Ho, ho, ho…
Mas é preciso tomar cuidado, pois nem todos os bares servem tapas e nem todos são gratuitos. Por isso é bom saber antes!
Bueno, aprendi rapidinho o costume. E me encanta. Aproveitei todas cervejas e tapas de Barcelona. O pretinho básico que fosse ao inferno, ou ao fundo da mala já que no inferno estava eu!
Elegi uma saia e uma camiseta de algodão para a festa de aniversário de minha prima Paula, que trouxe os amigos de Londres para a “festa” e lá fomos nós para o Club Havana, na Barceloneta, comer, beber e dançar. Mesa reservada com antecedência.
Surpresa!! O ar condicionado era ótimo! No salão principal…
Nos reservaram uma mesa no salão lateral, sem ar… nem condicionado, nem natural. Uma estufa!
Reagimos revoltados ao “dar de ombros” do garçom e na cara de pau sentamos em outra mesa, que também estava reservada…
Mas quem disse que eles podiam ter ar e nós não?
Ao final, descemos para dançar. Escolhemos outra mesa, pois aí já não havia reservas, era de quem chegasse primeiro. Pedimos as bebidas, dispostos a curtir o melhor do Havana Club, a dança cubana!
De repente, percebi que a cada componente da nossa mesa que se levantava para dançar, sentavam desconhecidos com seus copos, como se fosse a coisa mais comum do mundo tomarem nossos lugares. Assim, quando as pessoas de nosso grupo voltavam do salão, já não tinham suas cadeiras. Como assim?
Assim. E pronto.
Ficamos entulhados num canto mínimo, com duas cadeiras para 11 pessoas, incomodando os novos donos da NOSSA mesa. Uma multidão chegando… e o ar condicionado acabando.
Tá bom. Tá bom…
“Modelos mentais, paradigmas…” pensei… “Que bobagem! Divirta-se…”
Tentei… Juro! E estava quase conseguindo, ajudada pela bebida fresca e a dança divertida comandada pelo cubano… mas quando saímos de lá e tivemos que passar mais de 1 hora para conseguir um taxi, a mais de 30 graus, às 3 da madrugada, andando de um lado para outro e tendo que quase lutar com os espertos que se atiravam pela porta do carro que nós tentávamos parar, o mal humor voltou com vontade de ficar.
Então… comecei a odiar Barcelona!


Às 4 da manhã, em casa, pensei que estaria finalmente livre da estufa.
Tomei uma longa ducha e deitei de frente para um ventilador lindo, fininho e vertical.
Isso, ele era apenas isso. Decorativo.
Tinha umas luzinhas de azul neón como olhos de extra terrestres no meio do escuro e soprava com uma elegância…
Pfussss…pfussss…
Ventilar que é bom, nipes nada!
Cadê meu leque???!!!
Não deu para dormir… e o dia seguinte já estava ali.
Nem imaginem minha cara de bom humor durante o café da manhã.
Mas como desistir de tudo ?!
Havia Paula e queríamos mostrar a ela o melhor da cidade.
Fomos ver o Palácio da Música. Bárbaro! Umas cores, uns desenhos!
Mas não pudemos entrar. Estava fechado, para reformas. Valeu ver pelo menos a fachada e comprar os postais.
Acho que o calor trouxe à Barcelona um forum de bruxas!
Ou foi o contrário?!

 
Então…
Para escapar do forno que estava mergulhada a cidade, um templo ou um museu são as pedidas mais refrescantes. E decidimos pegar a estrada e ir ao Museu – Teatro Gala-Dalí, em Figueres. Fora de Barcelona.
Parece que todo mundo teve a mesma idéia. Depois de uma hora e meia na fila, ao sol, e muito sorvete de limão, finalmente entramos para ver a genialidade do artista.

É impressionante! Desenhos, esculturas, pinturas, frescos nos tetos, composições artísticas muito loucas… valem o sacrifício da fila, embora para o meu gosto, o museu guarde muitas extravagâncias do artista e não os seus melhores trabalhos. Um dos que mais chamam a atenção é um enorme quadro onde se vê o ex-presidente americano Lincoln. Olhando por um “catalejo”, se pode ver os detalhes do quadro e o corpo desnudo de Gala, sua mulher, debruçada sobre uma janela. Também impressiona o fresco do teto de uma das salas do museu, em que Dalí e Gala sobem para o céu.Ou o trabalho que representa a famosa Mae West, com um sofá em forma de boca e uma lareira em forma de nariz.Subindo umas pequenas escadas, o expectador pode ver, em composição com as cortinas, o rosto da atriz.Duvidoso gosto artístico, mas sem dúvida, criativo.

O museu não é só composto de obras provocativas. Dalí era um gênio da pintura e do desenho. Era um show de técnica. Mas ele adorava provocar e viveu o bastante para expressar todos os fantasmas de seu inconsciente, além das mirabolantes expressões de um ego fenomenal.
No dia seguinte desisti das cidades e pedi, pelo amor de deus, um parque. Vento, sombras… AR!
Então fomos ao Parque Güell, idealizado por Gaudí. É lindo… e fresco. Fiquei um tempo escutando um artista que tocava a guitarra espanhola, sob uma sombra deliciosa, cercada de colunas lindas… e senti-me mais feliz. Muito mais feliz…
Vi um dragão colorido sobre uma fonte de água fresca, e me apaixonei por ele. Trouxe uma réplica pequenita para meu invernadeiro. Adoro olhar para ela, pequena e encantadoramente colorida. O dragão é um dos símbolos da cidade de Barcelona. Por todas as lojas de suvenirs ele está, em todos os tamanhos e materiais.

Os bancos do parque, anatômicamente desenhados para aproximar as pessoas e facilitar a comunicação são decorados com pedacinhos de cerâmica de todas as cores e proporcionam ao visitante uma vista maravilhosa da cidade.
Não levem em conta meu humor, expressado tão enfaticamente aqui. Barcelona não teve culpa. A cidade é fantástica, mas estava sob o efeito de uma das maiores ondas de calor que assolou a Europa. Só sugiro aos viajantes que não escolham o mês de Agosto para estarem ali, se puderem.
A umidade do ar, a quantidade de gente nas filas, o sol de derreter os neurônios… é desesperador, pelo menos para mim.
Na volta do parque, um passeio pelo Porto Olímpico, a vista dos barcos à vela e navios de cruzeiro, branquíssimos e enormes, as pessoas de todo o mundo passeando pelas lojas, bares e restaurantes , a praia repleta de banhistas, os topless de todas as idades e tamanhos, e muitas paradas para uma cerveja ou um sorvete ou uma água pelo amor de Deus!
Isso tem que ser muito mais gostoso no Outono ou na Primavera, disso não tenho dúvidas!
No verão os sol só desaparece às 10:00 horas da noite. É um dia largo demais!
Eu já estava querendo a noite, a brisa… os terraços frescos.

Mas desta vez, nem de noite havia brisa. Era o inferno, de verdade!

Então… caminhando e caminhando, dei de cara com a Séphora, uma famosa loja de perfumes. Quase um supermercado de vidrinhos maravilhosamente cheirosos! É de enlouquecer entrar nessa loja.
Agora, meu presente de Barcelona foi a Happy Books. Uma livraria especial, com preços super especiais. Fiquei louca, babando como um cãozinho sedento com tantas ofertas!
Comprei um exemplar de História da Arte, ricamente ilustrado e encapado em caixa e fita de seda, por míseros €15,00, quando qualquer publicação deste quilate vale de €70 a €90 , por baixo!
Voltei “happy woman” para Santorcaz, com meu dragãozinho e meu livro debaixo do braço.
E voltar lá só em Novembro, com frio, se Deus quiser!
Pois, desta vez, nem pensei em dançar a Sardana diante da Catedral.
Quando estive ali, na Primavera de 94, tive o prazer de dançar o baile mais característico da Cataluña… e que eu morro de vontade de repetir.
Desta vez sequer pude ver o enorme grupo de pessoas rodando com as sapatilhas de lona e os braços erguidos, num grande círculo humano a “ciranda” espanhola.
E também não pude escutar um violinista ensaiando suas partituras no átrio em frente a Torre Antiga, no coração do bairro gótico dessa cidade encantada…
Com aquele calor, só turistas estavam nas ruas.
Mas eu volto lá… ah! se volto!
Belo lugar… belíssimo!

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Derviches, um belíssimo espetáculo.

Derviches girando
Ano passado, durante a Expo 2008, em Zaragoza, tive a oportunidade de assistir um espetáculo interessantíssimo.
Soubemos, por uma amiga turca que estava trabalhando ali, que haveria uma apresentação dos Derviches, promovido pelo Ministério de Cultura da República da Turquia, em um auditório da feira internacional. Nos interessamos muito e nossa amiga nos conseguiu os convites. Não era algo que se pudesse comprar na bilheteria, as pessoas tinham que ser convidadas.
Agradecemos mutíssimo a Feyza pelo carinho e consideração, afinal chegamos de última hora e ainda saímos com um presentão destes.
Há muito tempo que eu tinha escrito, no meu Docs Google, um incipiente post sobre os Derviches, mas o texto estava precisando de ajustes, alguma boa pesquisa de fotos, uma re-leitura do folder
Depois esqueci. Com a mudança para a Cesta de Gatos perdi a memória.
Acho que agora ele sai do forno!
Havia ouvido falar sobre os Derviches alguma vez pela vida afora, mas não tinha nem a mais remota ideia de um dia poder assistir ao vivo a esse ritual religioso do Islam.
Não sei se vou conseguir explicar como foi a minha experiência, mas tive a sorte de encontrar no YouTube vários vídeos muito bons sobre eles.
Não era permitido gravar o espetáculo de Zaragoza e só pude tirar uma foto, sem flash, que nem saiu muito boa, porque eu não quis dar uma de turista chata. Também foi bom ter guardado o folder, de onde tirei todas as informações que pude para uma noção breve dos simbolismos presentes no ritual.

Tudo o que pude ver na Expo2008 de Zaragoza foi uma apresentação do Cirque du Solei, visitar alguns pavilhões mais ou menos interessantes sobre os projetos hídricos de vários países, e algumas apresentações musicais. .
Estive na feira por dois dias. As filas eram homéricas e não pude entrar em muitos pavilhões. Para ser sincera fiquei um pouco decepcionada. E talvez por isso não tenha escrito nada na época.
Então…
Decidi só escrever sobre o que mais me impressionou, pela beleza e também pelo inusitado e inesperado programa: a apresentação dos Derviches Dançantes Turcos, apesar deles não terem nada que ver com a água do planeta.
Aposto que há uma centena de posts sobre a Expo2008, se alguém quiser aprofundar o assunto. Acho que vou publicar uma das fotos, só para deixar o registro.

Em primeiro lugar me impressionou o silêncio do público, mesmo antes de começar o espetáculo. Um silêncio respeitoso e solene, incluso nos grupos de jovens que estavam presentes. Afinal aquilo não seria um “show” e sim uma expressão tradicional da cultura e religião de um povo.
Músicos
Primeiro houve uma apresentação do Conjunto de Música Tradicional de Istambul. Um grupo de músicos apoiado pelo Ministério de Cultura da Turquia para investigar e estudar a antiga música clássica turca, principalmente a Sufi. E incentivar, através de suas apresentações dentro de suas fronteiras e em palcos internacionais, a passagem para os jovens do conjunto de valores históricos e culturais de seus ancestrais.
Eles começaram a tocar e cantar… e o espírito da música começou a preencher o auditório de uma forma que parecia querer transportar-nos para a Turquia. Relaxei e me deixei levar.
Depois disso houve um pequeno intervalo antes que começasse a dança propriamente dita. Foi o tempo de ler um pouco para tentar entender os movimentos dos dançarinos.
A cerimônia da dança sagrada chama-se Sema.

Primeiro entram os cantores e músicos e se posicionam ao fundo da sala. Os músicos tocam instrumentos completamente distintos aos nossos. São flautas, intrumentos de cordas e de percussão medievais. O conjunto formado por eles, a luz, as cores, as vestimentas… o silêncio em torno de tudo já é um exercício de concentração.
Logo em seguida os dançarinos entram, com seus trajes claros e rodados cobertos por uma longa capa negra. Eles reverenciam o posto vermelho*, cruzam os braços sobre o peito com a mão esquerda apoiada sobre o ombro direito e a mão direita no ombro esquerdo, a posição de humildade.
Então, um a um, eles sentam numa pele de cordeiro branca à direita dos músicos. Tudo muito lentamente…
Posto vermelho é uma pele de cordeiro tingida de rubro que está à esquerda da sala e que será utilizada pelo Shaikh, o homem que sabe. A cor vermelha da pele simboliza a manifestação de Deus ao homem e o Shaikh representa o venerável Mevlana, um dos maiores líderes espirituais e também poeta, inspirador da Ordem Sufi Mavlevi, uma corrente espiritual mística do Islam.
Há, entre o posto vermelho e o setor dos músicos, uma linha imaginária que só o Shaikh, que conhece o caminho da realidade divina, pisa. Esta linha se chama o Equador e separa a sala do Sema em duas partes: o lado direito, descendente, é o reino material, e o lado esquerdo, ascendente, o reino espiritual.
Quando ele entra na sala dirige-se pausadamente ao posto vermelho, senta-se e todos começam a recitar o Naat, um poema que expressa amor e respeito pelo profeta Mohamed.
Depois há uma mudança da música e dos golpes de tambores, o Peshrev, na qual os dançarinos golpeiam o solo com as mão e se levantam, simbolizando que tudo existe por mandado de Alá, ao mesmo tempo que representam o morto levantando-se da tumba.
Eles dão três voltas em círculo pela sala que simbolizam a ascensão desde o reino do material ao reino do espiritual. As três voltas representam os três níveis do conhecimento que se conhecem nos ensinamentos sufies : saber, ver e chegar a ser.
Essa parte do ritual mostra que só se pode alcançar a Verdade e a Realidade confiando em um guia que conheça o caminho.
Quando os dançarinos e o Shaikh passam pelo posto vermelho se saúdam um ao outro com uma reverência de humildade que expressa a saudação de um irmão a outro irmão, de uma alma a outra alma.
Durante a saudação eles colocam a mão direita no coração sob a capa e os pés se cruzam com os dedos direitos sobre os dedos esquerdos.
Eles fazem isso nos dois lados do Equador. Finalmente, o Shaikh se põe em seu lugar, no posto vermelho, e essa parte do ritual, o Ciclo do Sultão Valed termina.

No momento seguinte os dançarinos se despojam de suas capas negras e se mostram com seus trajes claros, simbolizando o nascimento espiritual. Permanecem erguidos com os braços cruzados entre ombros enquanto o mestre de dança, o Semazenbashi, se dirige ao Shaikh e pede permissão para começar o Sema. Os dançarinos o acompanham nas saudações.
Aí já fazia um tempo que não recordo, mas que era muito grande, que estávamos assistindo, hipnotizados pela música e os lentos movimentos do grupo.
E só agora é que realmente a dança ia começar.
Quando o Shaikh dá permissão, os dançarinos passam um a um diante dele e beijam sua mão direita. Ele, por sua vez, beija a copa de seus chapéus e dá início ao Sema.

Os dançarinos estendem os braços com a palma da mão esquerda para baixo, os olhos entornados olhando fixamente o polegar esquerdo. Esta postura simboliza a justa distribuição entre os demais do que se recebe de Deus. Conforme eles giram da direita para a esquerda, os dançarinos repetem interiormente a cada volta Al-La enquanto o mestre de dança se move em torno da arena, dirigindo os dançarinos.
Esta parte do Sema, o Primeiro Selam é o nível da Justiça Divina no Sufismo, que quer dizer o nascer para a Realidade através do conhecimento, onde o ser humano se faz consciente da Grandeza do Criador e de sua própria condição de servo.
A medida que este Selam termina, o Shaikh avança para frente, recita as súplicas e anuncia sua permissão para o próximo Selam.
Quando o último dançarino começa a girar, ele troca humildes sinais de reverência com o mestre de dança e regressa à pele de cordeiro vermelha.
O Segundo Selam tem um ritmo mais lento, uma música que leva à contemplação. Os dançarinos saúdam o Shaikh mas começam a girar imediatamente depois, sem beijar sua mão. Este estágio da dança simboliza um estado de assombro reverencial ao presenciar o poder de Alá manifestado na grandeza e harmonia da criação.

O Terceiro Selam começa e termina com três ritmos distintos: o primeiro de 28 golpes de percussão, o segundo de 10 golpes e o terceiro de 6, levando a dança a uma cadência cada vez mais acelerada, incrementando a tensão da música.
Esse momento reflete o nível da Verdade e da Realidade, onde reverência e obrigação se convertem em amor e o intelecto se sacrifica em função do amor. É a submissão total, a união com Alá.
… Neste momento a gente, que assiste em silêncio, já está em uma espécie de transe…
O tempo em que eles permanecem girando, a música, as roupas, a meia luz…
Já faz tanto tempo que estamos ali…
Algumas senhoras se levantam e deixam o auditório. Creio que elas não suportaram a tensão…
O Quarto Selam tem um ritmo lento, como se tivessem sido todos arrancados do ritmo intoxicante do Selam anterior e estivessem a sós com a Realidade.
Os dançarinos começam a girar em torno de si mesmos, permanecendo em seu lugar.
O Shaikh e o mestre de dança se unem a este Sema e giram, mas eles não se despojam de suas túnicas negras. Eles agarram a túnica com a mão esquerda a altura da cintura e a parte de cima da túnica com a mão direita, abrindo-a ligeiramente enquanto giram sobre si mesmos.
Aqui se expressa a contemplação da viagem espiritual, onde, feliz com seu destino, o ser humano volta à obrigação para a qual foi criado, a saber, sua condição de servo.
Ao final deste Selam os músicos tocam peças com ritmos frenéticos, como se escutou no final do Terceiro Selam.
Depois se ouve um solo, onde afinal os corações acelerados e exuberantes por haverem alcançado a condição de servos, logram a calma gradualmente.
Quando o Shaikh volta ao posto vermelho, a música cessa e começa a recitação do Nobre Corão.
Enquanto se recita o Corão, os Derviches Dançantes param o Sema, retirando-se para o borde da pele de cordeiro branca e sentam-se. Um deles comprova se todos levam suas capas negras.
Depois de finalizar a recitação do Corão, eles todos rezam em seus interiores uma Sura de Fatiha e se levantam. Finalizam este estágio com a expressão “Hu” que todos dizem com intonação de voz profunda.
Os dançarinos fazem uma reverência ao Shaikh no posto vermelho e saem em um estado de sossego, humildade, sigilo e calma.
Duas horas e meia depois de entrarmos aí, somos uns seres distintos.
Os que não suportaram se foram. Os que ficaram sairam ainda em silêncio… com um sentimento de assombro e encantamento.
É impressionante a quantidade de rituais religiosos pelo planeta, cada um com sua história e seus simbolismos.
Eu gosto de rituais… desde que não sejam malvados.
E este, além de impressionante… é lindo!

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Zaragoza II

Da seguinte vez que estive em Zaragoza já pude dedicar-me ao rio… e por algum tempo fiquei perto dele, escutando sua música e suas histórias.
Gosto de descobrir as lendas que vivem entranhadas nas cidades.
arca de noé
O rio Ebro tem muitas.
Numa delas, estudiosos bíblicos garantem que ele foi a via que seguiu Tubal, neto de Noé, depois do grande dilúvio.
Dizem que, quando se pode pisar terra firme, Tubal foi fundando colônias ao longo do Ebro.
Zaragoza é uma dentre tantas outras.

Além disso, são inúmeras as aparições de imagens católicas flutuando sobre suas águas: Nuestra Señora de la Ola, Santa Madrona, Santa Paulina, Santa Susana ou Santa María de la Muela.

Eu gostei da história do sino. Vou contar…
Uma vez apareceu um sino sobre as águas do rio, navegando contra a corrente. Foi retirado e colocado na igreja de San Nicolás, na capital aragonesa. Dizem que desde então ele tocava sozinho para anunciar grandes tragédias.
Prometi ir vê-lo… e mais uma vez não me deu tempo. Terei que voltar.
Só não quero que ele soe enquanto eu estiver ali. Ho ho ho!
A Ponte Romana também tem suas histórias e conta com a ajuda da crença popular para mantê-las vivas.

Dizem que junto a terceira arcada, perto da margem da Basílica del Pilar, há um temido poço, sem fundo “conhecido”, chamado Pozo de San Lázaro.

Ele traga para sempre os pobres desgraçados que caem aí. É, inclusive, o lugar eleito pelos suicidas para darem fim às suas vidas.

Contam os ventos que um casal de namorados afundou nele, unidos pelos pescoços atados com o mesmo lenço de quadros, o conhecido e tradicional “cachirulo zaragozano” e que seus corpos jamais foram encontrados.


Mas ela também nos conta seus dias de lutas pela liberdade de seu povo. Grandes batalhas foram travadas em Zaragoza.
Mas eu não gosto de falar em guerras. Ponto.
É bela, a ponte. Belíssima!
Também é bela a Catedral de Zaragoza. Consagrada a Cristo, el Salvador, o templo é um caso de amor da cidade. E eu entendo esse amor perfeitamente.

La Seo foi construída sobre o mesmo local onde havia um dos mais importante templos romanos de Hispânia. Com a queda do Império Romano e a chegada dos visigodos, o templo pagão foi transformado em cristão e consagrado a San Vicente.
Mas este período durou pouco e o local foi logo substituído por uma mesquita muçulmana, após a invasão árabe à Península Ibérica.
Acho que já falei isso aqui. A desculpa era que aquele lugar simbolizava uma terra sagrada, mas na minha opinião o verdadeiro motivo era tentar “apagar” a religião e a cultura passada, destruindo os seus lugares de reunião e culto.
Uma pena para a arte.
De vez em quando, durante alguma reforma, ainda se encontram peças de uma dessas antigas construções.
Nesta tivemos sorte, pois muito dos belos traços mudejar, isto é, o estilo utilizado nas mesquitas, permanece nos muros, entradas e tetos… e graças ao bom senso de alguns construtores continuam a enfeitiçar os visitantes da Catedral del Salvador.

La Seo, como é chamada, é um conjunto arquitetônico impressionante!
Esteve fechada ao público por muitos anos, devido a uma dessas reformas onde os achados arqueológicos exigem a presença, não de simples pedreiros e sim de renomados especialistas que custam muito caro e levam uma eternidade soprando pozinhos e passando pincéis por mil anos de pedrinhas.
Um trabalho encantador, diga-se de passagem.
A história da construção deste templo é enorme e se remonta ao ano 1140. Nem pretendo contá-la aqui. Deixo a missão para outros.

Acho interessante saber a história de uma construção, mas geralmente esqueço os nomes e datas, os tipos de arcadas, etc. Esse tipo de relato é mais importante para arquitetos, estudantes de arte e por aí.
Eu sou só amante.
Procuro ler sobre ela “in loco”, durante a visita. Vou lendo e acompanhando com os olhos o que me explicam os textos. É diferente de ler aqui.
Essa história a gente vai “sentindo” e aprendendo a medida que vai visitando, muitas e muitas vezes, suas naves e capelas e, pouco a pouco reconhecendo os estilos ( românico, mudejar, gótico, renascentista e barroco ) que convivem naquele templo.
É incrível ver essas mudanças na construção, de acordo com a moda do século, o dinheiro investido, a intenção de deslumbrar dos arquitetos e dos responsáveis pela obra.
Cimborrio de La Seo ( interior )
La Seo é uma verdadeira aula de arquitetura sacra. Para qualquer lugar que se olhe a gente aprende.
Gostei principalmente das capelas de alabastro, repletas de translúcidas figuras que parecem roubar a alma do artista para dentro dos corpos esculpidos.
Mas deslumbrei também com os tetos, lindos como este.
E então, vale a pena ficar aí dentro por umas duas horas, não é?
Depois disso tudo… o melhor é parar, respirar fundo e sair agradecido por ter podido estar ali.
Ir descansar na praça ou entrar em algum bar de tapas para comer qualquer das muitas delícias de Aragón é uma excelente ideia.
Nada de sair correndo para ver outra igreja ou outro monumento. É preciso parar, deixar que ela se implante em sua memória.
Aproveite o relax para saborear o jamon de-li-ci-o-so, o vinho tinto, os caracoles, as migas, o cabrito…
O bom é que em Zaragoza, como em toda a Espanha “se come de maravilha!”
Quem sabe vale a pena trazer uma receitinha de novo… faz tanto tempo que não publico algo de comer por aqui!
Ah.. mas antes tenho que escrever sobre a Expo2008. Não, não pretendo contar como foi a exposição, depois de tanto tempo. Dela o que mais recordo são as filas intermináveis e que quase morri de calor!
Quero contar sobre um acontecimento especial que tive a oportunidade de presenciar quando estive ali.
Estou escrevendo sobre isso.
No próximo post.

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Zaragoza.


Eu tenho uma cunhada que vive nesta linda cidade.
É uma pena que a gente não aproveite mais sua proximidade com Madrid para visitá-la mais amiúde. São coisas que passam, quando a gente se deixa tragar pela rotina dos dias e dos compromissos sociais.
Quando eu vivia no monte e não conhecia ninguém por aqui, viajava mais.
Tudo tem seu preço…

Zaragoza ( a pronúncia do nome é linda, linguodental… eu gosto ) é uma das mais antigas cidades da Espanha e fica a apenas duas horas de Madrid, de carro.
Vale a pena visitá-la.
Além de bela, tem muito o que contar sobre a história da Espanha, pois foi um importante centro político e cultural da Península Ibérica durante várias civilizações.
Quando habitada pelos íberos, chamava-se Salduba. Quando entraram os romanos, foi transformada por César Augusto em uma colônia militar e chamou-se Césaraugusta. Quando chegaram os árabes, rebatizaram-na com o nome de Sarakosta e finalmente, quando voltaram os cristãos, Zaragoza. Mais bonito, heim?!
Em qualquer destas circusntâncias, ela foi importante.

Às margens do rio Ebro, a cidade mostra o perfil fidalgo de seus palácios e casario, sua catedral e igrejas, com orgulho e paixão. E eu, com meu enamoramento incurável pelos rios e pontes, poderia ficar um dia diante deste… ouvindo seus cantos e prantos, reconhecendo as músicas que todos os rios conhecem e sabem cantar.
Mas, quando a gente não está sozinho tem que acompanhar os passos e as ânsias dos moradores, que querem mostrar tudo de uma só vez. E para muitos, mostrar os monumentos é mais importante do que mostrar o rio. Não sabem que vivi quase toda a minha vida em cumplicidade com um deles… e que isso ajudou a construir minha sensibilidade.
Assim, segui meus guias na minha primeira visita, uns anos atrás, mas internamente prometi voltar lá, só para sentar perto do rio, render minha homenagem a ele… ouvi-lo. Escutar o ruídos guardados na ponte romana, seus ecos e suas lendas misturados ao barulho constante da água que corre.
Voltei em Setembro, para ver a Expo Zaragoza 2008, uma exposição mundial justamente sobre a água do planeta e fiquei encantada com as obras de recuperação das margens do Ebro. Parece que o povo redescobriu o rio.
Mas isso eu conto depois, pois quero aproveitar o post e recuperar algo do vi na primeira visita, principalmente as fotos, que são lindas.
Então…
Abandonei o rio e ao dobrar uma esquina e atravessar uma cortina de vento, dei de cara com uma enorme praça. A maior de toda a Espanha. E fiquei muda com a beleza da Plaza del Pilar.
Caminhar lentamente pela praça é uma delícia, tudo em volta é lindo.

Naquele dia só pude visitar a Basílica del Pilar e depois descansar um pouco na praça admirando suas fontes e esculturas.
A Basílica del Pilar é consagrada a uma virgem que, segundo contam, apareceu ao Apóstolo Santiago, 40 anos depois da morte de Cristo. Era uma figura pequena mas possuía uma aura extremamente brilhante e estava sobre um “pilar”. Quando desapareceu deixou o pilar para que Santiago construísse aí um templo que fosse um símbolo da fé aragonesa.
Li em algum lugar que foi a mãe de Cristo, em carne e osso, que veio de Jarusalém para incentivar o trabalho do Apóstolo que evangelizava por essas terras. E que o pilar presenteado por ela serviria de pedra fundamental para a construção do primeiro templo marianista da cristandade.
Aposto que se for lendo mais por aí aparecem mais explicações.
Não importa… não conheço nenhuma história contada duas vezes que seja a mesma. Imaginem depois de quase dois mil anos!
Hoje, a imagem da Virgem del Pilar, esculpida em madeira, repousa sobre um pilar de jaspe de 2 metros de altura.
Sua capela, de estilo neoclássico, é impressionante e a adoração de seus fiéis também. A cada hora se reza uma missa. E está sempre lotada.
Por trás do altar está seu camarim, suas jóias e seus mantos. Pinturas de Goya adornam o teto e peças de ouro e prata seu altar.
E sabem qual é o nome de mulher mais comum nesta cidade?
Tá. Eu sabia que era fácil.
Basílica del Pilar-Cúpulas de cerâmica
O primeiro templo foi construído para substituir um templo visigótico e foi destruído por um incêndio no ano de 1434, do qual salvou-se – por milagre – a imagem da Virgem. Durante o século XVI foi restaurado e novamente derrubado no século XVII, para dar lugar a atual construção.
A Basílica é absolutamente grandiosa.
Por fora se vê as dez cúpulas de azulejos coloridos, a cúpula central e as quatro torres.
Por dentro as enormes colunas, os tetos abobadados, o coro e seus tronos trabalhados, o antigo órgão…
Basílica del Pilar- Interior

E a gente perde o fôlego diante do Altar Maior.
Esculpido em alabastro por Damián Forment a princípios do século XVI é uma das poucos obras que se conservam da antiga igreja gótica.
Fiquei muda outra vez. O alabastro dá uma sensação de transparência… e parece que a gente pode, ao tocar na pedra, atravessá-la… sentir a vida por dentro da obra.
A cor é extraordinária, porque absorve a luz e depois espalha-a por todo o recinto.
Bárbaro!

Não posso dizer nada, nem é necessário…
A música ambiente era um canto gregoriano suave e persuasivo, aturdindo a gente como um mantra.
É incrível o que se pode sentir num templo como este.

Dá vontade de rezar, chorar, meditar.
Dá vontade até de ir para o céu… se ele for assim tão artístico.
Acho que esta é uma das intenções dos templos. E conseguem, viu!
A gente sai com vontade de ficar.

 

Lá fora o rio cantava e a praça encantava com seus pombos, suas crianças coloridas, seus velhos de guarda chuva, sua atmosfera de vida terrena… tão artística quanto…
Mas parece que a gente leva a música dentro do coração e ela continua soando, soando…trazendo com ela um silêncio que abafa os ruídos da rua.

 

Fiquei por ali, sentindo o vento e aproveitando a paz que havia se instalado por debaixo da pele.
Parece que quando a gente se sente assim, o mundo inteiro fica mais bonito.

* As fotos são retiradas da Internet, mas podem ser vistas em tamanho maior dando um click sobre elas.

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Semana Santa em España

A primeira vez que vi uma procissão de Semana Santa na Espanha fiquei muito impressionada. Na época, escrevi para o blog Cicatrizes da Mirada. Estávamos em 2003 e meu blog tinha mais ou menos um mês.
Não havíamos podido viajar até a Andaluzia ( região famosa pelos espetáculos sacros durante essa época ) e assistimos as procissões de Alcalá de Henares, a cidade mais próxima ao “pueblo” onde eu morava. Fiquei absolutamente encantada!
A cidade estava toda apagada, as luzes das velas jogando tons amarelados sobre os muros antigos da muralha, as sombras dos penitentes, encapuzados e vestidos com longos hábitos e capas com as cores de sua confraria, projetando-se pelas ruas. O silêncio apenas interrompido pelos sons dos tambores.
Tum-tum…tum-tum!
Sob os hábitos e os capuzes que os igualavam em forma e altura, os penitentes tinham visíveis apenas os olhos e os pés, muitos deles descalços, com grossas correntes prendidas nos tornozelos que arranhavam o asfalto num ruído mórbido… srenckmm…srenckmmm… lentamente e repetidamente….o mesmo ruído… Apesar de nossa presença, eles iam caminhando compenetrados, cumprindo suas penitências.
No começo foi dando em mim um estado de letargia…
A respiração parecia seguir o mesmo passo lento de todos… e depois era como se voltássemos no tempo… não estávamos mais aqui, no início do século XXI e sim em algum lugar de um passado sem data, sem tempo, sem hora.
Por um tempo indefinido a procissão passou… lenta, pacientemente…e meu coração quase parou.

Eu não sou religiosa, mas respeito as crenças alheias. Gosto dos rituais litúrgicos e adoro a música sacra. Ficar em silêncio numa hora dessas é um sinal de cuidado e consideração, mesmo se as pessoas que estejam ali assistindo não tenham qualquer devoção católica.
Mas este silêncio todo, descobri depois, era fruto de um comportamento regional. Em Castilla as procissões são mais formais, mais solenes, mais medievais.
Em Andaluzia todo mundo fala, ri, joga flores e elogios às suas imagens. Se por um lado essa abertura toda é bonita… por outro dá lugar a que muita gente que está ali nem se preocupe com a procissão, converse em voz alta, grite ao telefone bem no pé do seu ouvido, fume na sua cara e beba em latas que joga pelo chão durante o desfile e, para mim, isso desvirtua o ato religioso, desrespeita o fiel e desprestigia o espetáculo.
Na minha opinião a Semana Santa da Espanha é um evento mais do que religioso. É um evento estético. É uma expressão da arte sacra. E já compreendi que esta arte faz parte da pele e do sangue deste povo.
Por uma semana completa, a Espanha inteira é um grande palco por onde desfilam as tradições católicas. Cada pequeno pueblo tem seu Cristo, sua Virgem especial.
As procissões serpenteiam pelas ruas das grandes e pequenas cidades, dia e noite, como um rosário de contas coloridas, cada uma com suas características próprias. Cada uma é única.
Essas fotos acima foram feitas em Tarifa, ao sul da Andaluzia. Ali também as pessoas não se cortam em conversar durante o cortejo ou andar por entre os penitentes, como se eles não estivessem ali.
Isso me incomodou muitíssimo.
De qualquer forma, em Tarifa, as confrarias também não se importam. Jamais vi algum penitente ou organizador impedir o passeio desrespeitoso por entre suas alas. Todas as noites da semana saem de suas igrejas e desfilam pelos becos estreitos, enfrentando o vento, o frio e o descaso da grande maioria de seus assistentes, insistindo em manter o clima de compenetração, que é quase impossível.
Desta vez eu tive pena deles . Tanto esforço, tanto sacrifício para que as pessoas passeassem por entre os círios, tropeçando em seus nazarenos, indiferentes ao seu significado.
Tarifa se enche de turistas de praia, a maioria jovens e estrangeiros. Eu entendo que não se interessem, mas bem que podiam passar por outra rua… que custa?
Meu cunhado e minhas sobrinhas participaram de duas procissões. Fiquei com um pena deles!
Mas…de qualquer forma, assistir o espetáculo sempre vale a pena. É preciso ter paciência, buscar um bom cantinho, num rua com menos movimento e exercitar a benevolência e a compaixão.
Bueno… é preciso também saber onde ir. Se quiser mais recolhimento é melhor não ir à Andaluzia.

Málaga, Cádiz, Salamanca, Ávila, Segóvia,Toledo…. todas as cidades tem seus rituais.
Zamora desfila em absoluto silêncio e quando canta é um mísere gregoriano. Lindíssimo!
Sevilla grita, chora e aplaude. Emocionante também!
Cada um com seu estilo e sua tradição.
Em qualquer lugar do país há um espetáculo imperdível, pode apostar. Por minha vontade eu iria cada ano a uma região.
Os Pasos são obras, em sua maioria, de madeira e metal. Sobre eles vai uma imagem de Virgem ou de Cristo que representam uma das muitas confrarias de uma igreja da cidade.
As Virgens são lindas, todas cobertas com rendas renascentistas e espetaculares mantos bordados, com suas lágrimas de cristal transparente, rodeadas de luzes ou velas. A gente arrepia só em vê-las passar, sofrendo todos os dias a morte de seu filho.
A mais famosa delas é a Macarena, de Sevilla.
Há lindos cantos e poesias em sua homenagem e quando ela desfila a cidade inteira está nas ruas por toda a noite. Gritam seu nome entre lágrimas: “Guapa! Guapa!” (Bela, bela!)
Os Cristos morrem em suas cruzes, pedindo ao povo que recordem sua dor.

Por baixo disso tudo, homens e mulheres vestidos com roupas reforçadas por turbantes e peças alcochoadas, levam sobre os ombros o peso de mais de mil quilos.
São os costaleiros, tradicionais em toda a Espanha. Poucas são as procissões que utilizam rodas em seus Pasos.
É belíssimo ver como se movem mais de duzentos pares de pés, dentro de suas sapatilhas de esparto, ao mesmo passo, ao mesmo ritmo, balançando-se levemente para fazer mecer o Paso e sua imagem querida.
Sobem e descem encostas, metem-se em ruas tão estreitas que pensamos que será impossível vencer o desafio, dobram-se sobre os joelhos quando precisam desviar de alguma construção mais baixa ou passar por uma porta impossível e seguem bailando, como se não sentissem o peso que carregam por muitas horas… às vezes por toda uma noite.
O Cristo ou a Virgem balançam no alto, como se viessem levitando sobre as cabeças dos fiéis. Uma mudança de ritmo da música é acompanhado por uma mudança de ritmo nos passos dos que os carregam…
Uma coisa linda! De arrepiar todos os pelinhos do corpo…
Algumas dessas imagens são obras de arte que tem um valor incalculável, além de muitas histórias, mas isso não importa muito. O simbolismo que representam é o mais valioso…
De repente, o Paso para. E de uma sacada uma mulher começa a cantar, à capela… sem música alguma que a acompanhe. É uma Saeta. Uma prece triste e ardorosa, bem ao estilo espanhol, como uma canção flamenca.
E nesse momento, os pelinhos do corpo parecem saltar para fora…
Parece, por instantes, que as gentes que desfilam e as que assistem vão, finalmente, obedecer o mais importante ensinamento de Jesus Cristo: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei”.
E eu, mesmo não sendo religiosa, agnóstica por falta de convicção, me emociono até as lágrimas…
E rezo… para que toda aquela gente que baila e canta ao seu senhor e senhora seja benevolente consigo mesma, com o próximo e também com o distante… que a compaixão seja uma prática, mais que uma canção…

*Diana Navarro é uma conhecida cantora espanhola. Amei encontrar este vídeo no iutube.
É uma maravilha poder contar com esta ajudazinha.
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Carnaval Andaluz…

Pois é…
Cadiz Este é um pátio de Cádiz, na Andaluzia, sul da Espanha, todo enfeitado para participar de um concurso de pátios promovido pela prefeitura.
Não parece uma casa de Olinda? Heim? Heim?
Parece sim.
Essas são as cores das minhas saudades.
Então…
Como o Carnaval está dentro do meu sangue, fui atrás dele, mesmo fora das datas.
Estou acostumada a isso.
No Recife e em Olinda, quer dizer, em Pernambuco inteiro, o Carnaval dura muito mais do que os quatro dias oficiais.
Se bem recordo – e eu recordo tantas coisas – ele dura quase dois meses. Vai desde o Reveillon até umas duas semanas depois da quarta feira de cinzas.
Claro, é preciso conhecê-lo a fundo para encontrar suas mais recônditas manifestações. Cada cidadezinha, cada bairro tem suas pérolas.
Eu me gabo de conhecer a muitas delas, principalmente as de Casa Forte e do Poço da Panela.
Se as pérolas começam a ser cultivadas muito antes de estarem lindas, com o Carnaval acontece o mesmo.
A gente ajuda a cultivá-lo indo aos ensaios dos blocos.
Que delícia ir aos ensaios do Bloco da Saudade, do Lili Nem Sempre Toca Flauta, dos Maracatús, do Vassourinhas, do Elefante de Olinda
O ritmo dos tambores,os metais das orquestras, as letras das músicas vão enchendo a gente por dentro… e vai ficando impossível não ser feliz! Mesmo sofrendo um pouquinho para acordar e ir trabalhar no dia seguinte. Todo ano o mesmo. A gente sabe que sofre, mas não resiste.
” Nóis sofre, mas nóis goza” já dizia o nome do antigo bloco de Carnaval que saía da legendária livraria recifence, O Livro 7.
Ai, que saudade!
Outro dia recebi de uma amiga um e-mail divulgando um bloco novo : “O Piano.”
O grupo se encontra para ensaiar num pátio por trás da rua da Imperatriz e, durante o Domingo, enquanto o Carnaval explode lá fora, a turma fantasiada se prepara aí para sair, enquanto canta hinos e canções populares. Lindo!
O outro bloco chama-se “Cinza das Horas” e sai do mesmo local.Vão cantando músicas deliciosas, inclusive valsas. E levam as cinzas, das horas, do Carnaval… para jogar no Rio Capibaribe.
Arrepiei só de imaginar, mesmo de longe!
Claro que vou encontrá-los, mal pise em minha cidade durante a época carnavalesca.
TT
Além disso, o mais maravilhoso é aquele onde TODOS os amigos estão ( nada melhor do que estar entre amigos ) e que já tem dois anos de total sucesso no antigo bairro do Recife.
Chama-se “TT Quer Ser Baliza.”
Um bloco que eu tenho a honra de ter participado da criação, da semente e do primitivo desfile na Barra de Serinhahém, muitos anos atrás.
Uma história que eu ainda vou contar aqui.
Este ano o desfile foi um arraso. Recebi as fotos e quase choro… de rir!
Por aqui, o que restou-me foi pegar um trem em Madrid durante o final de semana passado e descer em Cádiz com toda a vontade de viver um triz de Carnaval que fosse.
E foi só isso, um triz.
Carnaval de Cádiz
Na noite da sexta feira jantamos num restaurante chamado El Faro, o mais famoso da cidade, por onde passam os grupos vencedores de concursos organizados pela prefeitura.
Jantar aí nesses dias carnavalescos é quase impossível, mas um amigo conseguiu mexer uns pauzinhos para reservar uma boa mesa.
Valeu! Passei uma noite gostosíssima.
Além de um delicioso bacalhau ao pil-pil, pude assistir a todos os grupos que se apresentaram, cantando e tocando seus parcos instrumentos a menos de dois metros.
Eles só usam tambores e violões. E, para ajudar, uma espécie de apito que emite um som rachado muito engraçado e muito diferente do nosso apito brasileiro.
As canções são sempre divertidas e inteligentes, mas é preciso conhecer um pouco as circunstâncias do país e alguns de seus famosos, sempre utilizados na hora de fazer as comparações ou imitaçõoes mímicas.
Ás três da manhã tentamos dar um volta pela cidade, mas foi impossível. As ruas estavam entupidas de gente e pelo chão, sacos de bebidas e refrigerantes espalhados num imenso ” garrafonaço”.
O que vi é que sem música para dançar a turma não tem como gastar o que bebe.
A essa hora estava todo mundo com cara de louco e um grupo de coro que tentava cantar em uma das esquinas nem era escutado, nem ninguém prestava atenção aos pobres coitados.
Triste.
Não gostei.
Coro em Porto Real, Cádiz
Mas no sábado, por causa da chuva, decidimos não voltar ao centro de Cádiz e aproveitar um baile de fantasia na pequena cidade de Porto Real.
Aí foi bom.
Diverti-me bastante com a criatividade das pessoas e todo mundo parava para escutar o grupo de coro que atravessava a cidade.
Era só um, mas estava bom.
As famílias estavam completas nas ruas.
Grupos com fantasias iguais, música num palco armado na praça e muita alegria.
Havia muita criança fantasiada, até os bebês nos carrinhos tinham suas fantasias. Parecia uma concentração do Eu Acho é Pouquinho de Olinda ( Claro, salvando as diferenças climáticas entre o verão pernambucano e o inverno espanhol, além do tipo de música que escutam aqui… ó Deus! Como sobrevivo!? )
Anhãn. Sobrevivo.
A música que partia do palco era de uma pobreza carnavalesca inacreditável. Sinto dizer.
Fiquei imaginando levar um CD da Orquestra Spokfrevo de Pernambuco e pedir à organização do evento para soltá-lo na praça, bem alto. Duvido que o povo ficasse quieto.
Tive outra ideia também. ( Nada como a crise para a criatividade surgir assim do nadica de nada. HoHoHO! ) Pensei em botar meu MP4 tocando minhas músicas dentro do ouvido enquanto eles escutavam ” aquilo”. Só fiquei preocupada com o que pensariam os que me vissem pulando o hino do Vassorinhas ou do Ceroulas no meio da praça.
 Porto Real, Cádiz
Não sou muito de frevar, até porque meu joelhinho querido não gosta nada, mas o dançar as músicas do Carnaval brasileiro é algo que vem de dentro da alma. Quem escuta não pode ficar parado. Nem que seja um leve balanço ao som de uma marchinha dos anos 50, todo mundo se mexe.
Não. Eles não se mexiam. Só as duas velhinhas ali deram show de animação e dançaram o tempo todo. O resto passeava… só passeava.
Eu bem que tentei… juro que tentei.
Ano que vem, se não estiver em Pernambuco, vou organizar um Carnaval em Madrid e outro em Porto Real. Vou caprichar umas festas de arromba!
Ah, sim. Eu vou.

Esse grupo estava graciosíssimo fantasiado de TAXI.
E eu acho que também já pilotei o melhor TAXI de Olinda e Recife. Era a fantasia da minha amiga querida, a TT que queria ser baliza… e conseguiu…

 
Claro, ela sempre consegue tudo o que deseja. Seus amigos lhe ajudam a realizar seus desejos.

 
Jamais esquecerei os passeios que eu dava por Olinda pendurada no TAXI dela .
Também lembrei muito da minha amiga Cacau, a colorida amapola recifence e suas flores amadas quando vi o jarro metido na cabeça de um sujeito.
Queria que ela estivesse comigo.

 

Que também desse risadas com a sua boca imensa pintada de vermelho sangue!

 

Esse é o grande segredo do Carnaval perfeito.
Além da música, da alegria e da criatividade… a boa companhia. Meus queridos e amados acompanhantes em Cádiz bem que precisavam ver como se brinca um Carnaval.
Já veremos o que fazer ano que vem!
Temos que começar a criar as pérolas JÁ!

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Carnaval em Madrid…

Se saudade matasse, Dagmar… eu estava mortinha da silva júnior!

Pois é… depois de seis anos sem o Carnaval pernambucano, o coração já não aguentava mais! Por dois anos eu fiz uma festa à fantasia em minha casa e deu para enganar a ânsia. Mas o Carnaval das ruas é a marca registrada de Pernambuco e isso não dava para fazer em casa.
Agora que eu sou novamente urbana… tinha que dar um jeito.

E lá fui eu, com um grupo de brasileiros animados, cruzar as ruas de Madrid.
Brasileiros vindos de todas as regiões do país, cada um cantando e batucando as suas saudades… e todos numa irmandade só.  Brasil! Brasil! Brasil!
Brasileiros... marginais do desfile
Carnaval em Madrid é patético… mas a gente nem quis saber.
Aproveitando um desfile oficial da Prefeitura, onde não foi possível participar, os brasileiros não desistiram da alegria e, com alguns intrumentos e muita vontade de brincar, cada um com sua máscara, seu chapéu, seu sorriso e sua vontade de confraternizar saiu convocando as gentes das calçadas para todo mundo poder sambar!
E tome marchinhas, sambinhas e batuques…
Voltei para casa, depois de três horas dançando e cantando, muito mais leve.
Valeu!
Sobrevivi a mais um ano!

E nada como cantar meu frevo canção pernambucano!
Minha máscara nova
Quem tem saudade
Não está sozinho,
Tem o carinho, da recordação…
Por isso quando estou
Mais isolado
Estou bem acompanhado
Com você no coração…
Uma sorriso, uma frase, uma flor,
Tudo é você na imaginação..
Serpentina ou confete…
Carnaval de amor…
Tudo é você no coração…
Você existe
Como um anjo de bondade
E me acompanha
Neste frevo de saudade
Lá Lá Lá Lá… etc.

 

Frevo da Saudade –
(Nelson Ferreira – Aldemar Paiva)

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Saindo da toca…

recoletos-madrid
A foto mostra meu café favorito, Café Recoletos, no centro de Madrid, adornado como uma noiva. A fantástica nevada foi um presente da natureza neste nove de Janeiro e eu estava lá… caminhando sob a neve e tomando um café quentinho por trás dessas maravilhosas vidraças bem no meio do Paseo Recoletos. Bárbaro!
……………………………………………….
A todos que vieram aqui e deixaram seus recados, obrigada. Aos que vieram e não deixaram nada eu também agradeço porque esse fluxo, mesmo durante um abandono tão grande, me incita a voltar.
Queridos, de vez em quando o blog sai de férias, ou inverna, dorme. Mas não morre. Desta vez ele passou dos limites e quase morreu. Graças a voces e suas mensagens carinhosas ele sobreviveu. Obrigada pela paciência.
Aos novos vistantes quero registrar também meu muito obrigada. Já os visitarei… me aguardem.
Beijos de Feliz Ano Novo!
Voltei.

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Mudaram as Estações…

Passou. Já passou. Tudo passa…
O inferno astral existe, aviso. Mas passa…
Meu tempo de viver aqui no paraíso também acabou. Estou de mudança para o centro de Madrid. Uma mudança que de tanto ser adiada, cada vez está mais desejada!
É verdade, preparei meu espírito para sair daqui na primeira semana de Setembro, mas não pôde ser. Nem na segunda… nem na terceira… nem em todo Setembro.
O verão acabou… e o outono vem se insinuando entre as frestas das árvores, com uns dias nublados e um friozinho nas pontas do dia. Pela manhã a bruma envolve a casa , o frio gela os lençois da cama, eu procuro abraçar umas costas quentinhas e, desde o limbo do quase-desperta-quase-dormida, tomo total e absoluta consciência da felicidade e da sorte.
Depois, durante o dia, a boa sensação se esvai quando uma atmosfera abafada e úmida toma conta da casa, fazendo pesada a solidão e o silêncio de um lugar já com cara de passado… até que o sol se deita. Então o frio volta… e com ele meu abraço quentinho e a deliciosa companhia a que me acostumei nesses seis anos de Espanha.

Hoje, o último pedaço de Setembro se esvai nas brumas de um dia que não faz sol nem chove…só abafa.
A casa vai, pouco à pouco, se transformando numa coisa amorfa, que nem é mais a que eu encontrei quando vim viver aqui, nem mantém a aura que tinha até menos de um mês atrás.

Algumas plantas eu já presenteei. As redes eu já enrolei, as luminárias de latão que eu trouxe do Brasil já estão desencaixadas de seus nichos e guardei cuidadosamente alguns objetos, pois não quero arriscar que alguma outra pessoa os embalem sem suspeitar de seus significados.
Minha casa- Don Quijote y Sancho Panza
Meus marionetes de madeira, Don Quixote e Sancho Pança , comprados numa deliciosa viagem à Zamora já não pendem da estante de livros da sala, nem o lindo Caboclo de Lança pernambucano guarda os meus DVD´s de música brasileira.
Os instrumentos musicais estão numa caixinha à parte. Nem posso imaginar um sujeito que faz mudanças tendo a paciência e o amor necessários para com minúsculos violinos de madeira, delicadas flautas e trombones de mentira.
Também não confiaria a desconhecidos a sopeira que foi da minha mãe ou uma escultura de ébano e marfim que foi do Lorde.
Para eles o valor da sopeira é algo que o seguro cobre. Para mim não há dinheiro que pague.
Minha casa-instrumentos musicais
Muitas vezes me lembrei de uma carioca que estava interessada em comprar meu apartamento em Recife, justamente quando eu estava tentando enfiar minha vida em quatro malas.
Quando ela soube que eu pretendia vir viver na Espanha deu-me um conselho valioso. Ela disse: “deixe as roupas e sapatos…disso leve apenas o indispensável. Mas escolha algumas coisas significativas na sua história e meta-as na sua bagagem como for. Esses serão seus referenciais, são insubstituíveis. As roupas a gente compra novas, mas a história não. ”
Foi o que fiz.
Desfiz-me de metade das roupas das malas e trouxe quadros, livros, objetos, fotografias. Poucos, mas importantes.
E não me arrependi, nunca!
Uso o mesmo conselho agora. Enquanto escolho o que vai e o que fica, removo seis anos de vida na Espanha. Esvazio gavetas, estantes, armários… encho sacos de plástico negro com roupas que já não nos servem, encontro coisas perdidas, descubro porcarias tão bem guardadas que nem me lembrava que ainda existiam.
Mudo móveis de lá para cá, organizo caixas… e as espalho por toda parte. Quem disse que é fácil organizar caixas de história?
Sei que a mudança vai ser boa para nós. Adoro a ideia de investigar e conhecer Madrid como habitante de suas ruas e não apenas como visitante em dias de passeio.
Sei que sair de uma casa maravilhosa como essa para ocupar um dois quartos minúsculo exige praticidade e organização na hora de escolher o que vai, mas já me conheço de outros Carnavais. Sou capaz de adaptar-me a uma cesta de gato.
O problema é só a nostalgia que me acompanha no momento da “passagem” de um estado para outro. Fico com saudade antecipada do canto dos rouxinóis enamorados na janela do quarto, da enorme lua dos campos, das amapolas que invadem todos os cantinhos onde há verde e pintam de vermelho a vida e enchem os meus sorrisos de felicidade. Elas me animam, me encantam, me fazem rir no meio da rua e falar com elas, como louca. Velha e louca, eu fiquei aqui.
Minha casa-um esquilo
Sinto uma saudade das noites diante da lareira, com música bem alta e um bom vinho! De sair para o jardim enrolada na manta de lã para ver um eclipse ou apenas para buscar as constelações do hemisfério norte, as velhas estrelas de meu novo céu.
Na cidade a gente tem cinema, teatro, bares e restaurantes… mas nadica de estrelas.
Lá a gente tem transportes rápidos e fáceis, pessoas por toda parte, muito para observar, muito o que explorar… mas nada de raposas esquivas pelos sendeiros ou rubros esquilos engraçados buscando nozes no meu jardim , nada de velhas senhoras coelhas entrando pelo portão, sempre aberto, em busca de algo para seu café da manhã… e menos esse silêncio que acompanha um por de sol diferente a cada entardecer.
O campo tem uns encantos que só quem vive nele tem tempo de descobrir…
Quando cheguei, era pleno Inverno. Lindíssimo inverno. Pouco a pouco fui reconhecendo cenas em “deja vú” de antigos sonhos infantis. Enquanto descansava sob os prunos, fazia um bolo escutando ópera ou lia diante da lareira, parecia que já havia vivido isso em algum outro momento da minha vida. Nunquinha da silva tive tempo de viver isso. Mas creio que tive tempo de sonhar nos escondidos dos desejos impossíveis. Descobri aqui que estava no lugar certo, na hora certa, fazendo o que queria estar fazendo… por dias e dias. Isso me deu uma serenidade feliz impressionante.

Acho que foi fantástico ter podido estar aqui esse tempo, consolidar minhas escolhas, amadurecer a relação de amor com meu pirata, conhecê-lo melhor e fazer-me conhecer ao vivo e a cores, sem pressa.
Agora chegou a hora de sair do ninho do monte e ir viver no meio do mundo. De aventurar por uma cidade que promete ser encantadora… mesmo sem lareira, sem cheiro de mato e sem amapolas.
Aprenderei a admirar as luzes das maravilhosas fontes, as fachadas neoclássicas de seus edifícios, os ruídos das crianças em seus inúmeros parques, os concertos de música clássica, as peças de teatro, os cinemas espalhados por toda parte… as cafeterias, os bares de tapa…a confusão de gente de todas as raças cruzando as belas ruas e bulevares da cidade.
Faltam apenas 17 dias…
A lá vou eu arrumar mais uma caixinha…

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Praia com névoa!

Névoa na Praia dos Lances
Névoa na Praia dos Lances.
Vinda do nordeste do Brasil, jamais imaginei a beleza de ir à praia com uma névoa dessas…
A semana passada a Praia dos Lances, em Tarifa, estava imersa numa bruma esbranquiçada e apesar disso em sua orla estavam as crianças jogando, os jovens em suas pranchas…e eu com a câmara na mão, rindo. Durou quase uma hora.
Coisa mais linda e feliz estar ali naquele momento!

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Enamorada por Córdoba…

Mas uma vez estive em Córdoba. E mais um vez me enamorei pela cidade. Sempre acontece…
Há tempos atrás escrevi em outro blog algo sobre esta linda cidade espanhola e tive o enorme prazer de haver incentivado, com minhas impressões, alguns brasileiros a quererem conhecê-la. Nenhum deles se arrependeu. Inclusive, sempre que pude, acompanhei amigos e lhes mostrei o que me havia cativado.
Vou aproveitar um pouco dos meus arquivos de texto e de fotos e acrescentar algumas novas experiências, principalmente as gastronômicas. Desde que estou aqui, muita coisa aprendi sobre os sabores mediterrâneos. A comida em Córdoba, como em toda Andaluzia, é um importante atrativo. Além de maravilhosa, tem preços muitíssimo mais baratos que em Madrid.

Então…
Um mísero final de semana sempre é insuficiente para aproveitar toda a riqueza cultural de uma cidade, mas é o bastante para atiçar a curiosidade sobre ela. E também é assim com Córdoba e os diferentes povos e culturas que a habitaram. Só para dar um gostinho de quero ver, há registros dessas passagens desde mais de 3 mil anos atrás e um museu arqueológico interessantíssimo para ser visitado.

A geografia foi fundamental em sua história, tanto nas épocas de glórias quanto na sua decadência.
Córdoba está no vale de um dos mais importantes rios espanhóis, o Guadalquivir, no sudoeste da Espanha, na Andaluzia. Conquistada pelos romanos em 152 a.C, foi transformada num importante centro cultural. Depois, foi ocupada pelos vândalos, visigodos, bizantinos e muçulmanos. E por falar nisso, vou contar uma historinha interessante.
Uma vez meu pirata estava visitando um país centro-americano, durante as comemorações dos 500 anos do descobrimento da América, quando foi abordado por uma mulher, esposa de um político importante. A criatura aproximou-se e com cara de desprezo disse-lhe que odiava os espanhóis porque eles haviam invadido e saqueado seu país. Ele respondeu com tranquilidade e aquele sorriso que lhe caracteriza: ” A senhora teve sorte. Seu país só foi invadido por um povo. O meu foi invadido e saqueado por tantos, que já perdemos a conta.Se fôssemos odiar a todos…”
A mulher emudeceu e saiu de mansinho. Só conseguiu demonstrar sua ignorância sobre a história europeia daqueles tempos, além da falta de educação e diplomacia, naturalmente.
Bom, voltando a Córdoba…
Durante a ocupação muçulmana na Espanha, a partir do século VIII, a cidade se converteu em capital de Al-Andaluz, a mais importante do ocidente, tanto pela sua população como pelo seu elevado nível cultural. E muitas coisas aconteceram em torno e a partir dela, até que no século XIII o rei Fernando III, o Santo reconquistou-a para seu católico reinado espanhol.
Uma pena para a riqueza cultural da cidade, é preciso reconhecer. Depois de reconquistada, Córdoba foi convertida em reduto militar por sua importância estratégica e sua população civil, formada por árabes, judeus e cristãos foi quase que totalmente evacuada, o que levou a cidade à decadência pelos séculos seguintes.
Seus monumentos e palácios espetaculares, como a Medina Azhara, construídos durante os séculos de ocupação muçulmana, foram ocupados com objetivos militares e depois destruídos e saqueados, até serem reduzidos às ruínas que são atualmente…
O antigo Alcazar dos reis foi transformado em quartel e depois em prisão. Afortunadamente, hoje é um bonito museu.
E, para culminar a desgraça, a cidade inteira foi saqueada pelos franceses em 1808. Só não levaram para a França o que a população conseguiu esconder de seus tesouros e obras de arte.
Bendición ( Júlio Romero de Torres)
Dizia Federico Garcia Lorca, o grande poeta espanhol, que Córdoba era uma cidade melancólica. Esta melancolia o pintor cordobes Júlio Romero de Torres registrou magistralmente nas fisionomias de suas musas, de tristes e molhados olhos negros.
Para mim não há nada melhor que a arte para ilustrar qualquer história…escolhi dois de seus quadros que eu mais gosto para o painel.
Adorei visitar o museu do artista. Uma visita imperdível para quem estiver na cidade com um pouco mais de tempo.
Mas Córdoba não é só seu passado histórico… ela também está renascendo das cinzas em modernas áreas e bem decorados espaços públicos. Está se transformando numa cidade mais completa, com ambientes adoráveis, bem cuidada, cheia de hotéis novos e bonitos, passeios arborizados, bares de copas bem transados, terrazas com sofás na calçada e luminárias árabes lindíssimas que podem transformar a noite num sonho romântico…
A música também ilustra lindamente um lugar. E na minha memória ficará para sempre a noite em que jovens trovadores de uma de suas universidades se reuniram numa calçada, diante da taverna em que eu estava e cantaram para mim. Arrepiei. Foi emocionante.
Pregadas em suas capas estavam as dezenas de fitas coloridas bordadas pelas amadas ou amigas e os brasões das universidades por onde já passaram a cantar suas tradicionais canções. Era uma Tuna, uma tradição em quase todas as universidades europeias. Eu adoro!
Desta última vez, semana passada, estive em Córdoba para assistir o casamento de um sobrinho. Seus irmãos e amigos não perderam a oportunidade de presentear os noivos com uma apresentação. O “muchacho das panderetas” é um dos meus novos sobrinhos e irmão do noivo. Fiquei alucinada com a dança dele.
Voltando ao passado…

Para quem gosta de mergulhos na história, a cidade conserva ainda restos abundantes da ocupação romana e muito mais da muçulmana, embora jamais tenha recuperado a pujante vida cultural dos séculos passados. De vez em quando a gente se depara com alguma ruína romana que emerge numa escavação qualquer de alguma obra bem no centro da cidade. Não pensem que é coisa pequena, não… são colunas impressionantes!
Mas minha predileção é justamente a Juderia. Adoro o bairro judeu. Adoro as casas e as ruas estreitas. Adoro visitar as lojinhas passeando com tempo e paciência, aproveitando o tempo, sem correr para nada.
Por entre os muros altos e varandas coloridas pelas flores, a gente vai viajando no tempo.
Descobri que as ruas são assim estreitas como uma forma de se protegerem dos excessos de frio ou calor. Durante o inverno, os muros guardam um pouco do calor do sol e evitam as correntes de ar frio. E durante o verão criam sombras protetoras.
As casas em estilo árabe mesclam-se com a Juderia e a gente não sabe mais onde acaba um bairro e começa o outro. São quase todas brancas, com grandes ou pequenos pátios centrais, onde há uma profusão de plantas e vasos coloridos e, invariavelmente, um poço. Funcionando, lindo… Com a ajuda deles os moradores mantêm suas casas decoradas, além de frescas e alegres durante todo o ano.
É comum encontrar casas de chá decoradas com peças árabes, mesinhas baixas cercadas por banquetas de couro trabalhado onde descansam bandejas de metal com serviços de chá de fina delicadeza, com seus desenhos florais e cores diversas.
Nunca deixo passar a oportunidade de entrar e provar algumas das variedades dos chás e doces.
Tomar chá é um costume que permanece forte entre os cordobeses.
As “teterias” também funcionam para uma descansada breve depois de comer… é um lugar fantástico para escapar do sol e relaxar antes de voltar para a rua.

Os banhos públicos voltaram a funcionar e estão na moda atualmente. Existem casas de banho maravilhosas, onde se pode relaxar em piscinas térmicas com direito a massagens com óleos perfumados, em ambientes com cheiro a incensos exóticos ao som de uma doce canção do médio oriente e a visão de uma linda cordobesa bailando a dança do ventre. Ainda não foi desta vez que provei os banhos, mas será da próxima. Garanto!
Como eu não tinha tempo para estar pela rua e o calor era tanto, decidi não gastar as energias antes de ir ao casamento montada em uns saltos vermelhos que só de olhar já me assustavam. Fiquei na piscina do hotel, relaxando e descansando enquanto os jovens iam visitar a Mesquita. Este sim… é um passeio imperdível para quem não conhece. O monumento mais importante e encantador de Córdoba.
Iniciada por Abd al-Rahman I em 780 d.C. a Mesquita foi o primeiro monumento de todo o ocidente islâmico.

Sua construção inicial foi ficando pequena para a quantidade de fiéis e, durante os séculos seguintes, foi ampliada pelo menos quatro vezes. Em cada uma delas, principalmente na terceira, uma decoração mais esmerada, mais espetacular. Assim, a Mesquita conta atualmente com uma variedade de estilos e materiais, de acordo com o tempo em que foi construída ou reformada.

No retângulo original, as colunas são romanas e visigodas, aproveitadas de antigas construções anteriores ao poderio do Califa.
Nas ampliações posteriores podemos apreciar uma seqüencia alternada de colunas de mármore azul e rosa, que levam ao Mihrab , e que fazem a gente respirar fundo várias vezes, para aguentar a emoção que cresce dentro do coração.
O Mihrab é o oratório e todo o caminho até ele é de uma beleza espetacular. (Não deixem de ver outra vez o painel de fotos depois de ler ese texto.)
As mulheres não podiam rezar nesse espaço. Aliás, elas nem podiam entrar na Mesquita propriamente dita. Só podiam rezar numa parte construída no Pátio de Los Naranjos , na entrada do templo, e reservada para elas. O grande centro do retângulo era destinado apenas às orações masculinas.
Hum… as religiões são engraçadas. Quase todos os preconceitos de gênero vem delas.
Gostei de ficar um tempo no pátio. As laranjas são amargas e não servem para comer mas emprestam ao ambiente um colorido fantástico! E um perfume!
Os árabes não cultuam imagens e assim sua arte religiosa consiste de motivos florais ou de arabescos, textos sagrados, etc. Sempre fico embasbacada com a perícia dos artesãos mozárabes nas portas desenhadas, nos tetos de madeira e gesso trabalhados, nos pórticos do Mihrab e do tesouro.
A luz que entra suavemente pelas janelas no alto e dão um toque de ouro e sombras aos recantos da mesquita. Um coisa impossível de descrever.
E aí… a Espanha cristã, quando reconquistou seus territórios, resolveu construir uma Catedral dentro da Mesquita. Derrubar parte do templo islâmico mais antigo e singular do ocidente, para elevar um templo cristão.
Pelo amor de Deus! O tal sujeito que teve essa ” brilhante” ideia não podia aguentar tanta beleza noutra crença?
Não, parece que não. Além de acreditarem ser aquele solo sagrado, não podiam deixar o símbolo de uma religião que não fosse a cristã dominando a paisagem da cidade.
A Catedral foi construída dentro da Mesquita.
Sorte que uma alma sensível àquela arte aproveitasse parte do templo islâmico como decoração do templo cristão.
Eu soube que aconteceu até uma manifestação pública do conselho de Córdoba , na época, pregando nas ruas e praças da cidade a pena de morte para os pedreiros, carpinteiros e peões que aceitassem o contrato para trabalharem na demolição da Mesquita.
Mas, deixando as crenças de lado, a arte que podemos contemplar no templo misto é o que vale, seja qual for a religião do visitante.

A Catedral é espetacular.

As capelas, o coro, o altar maior… tudo construído com esmero para superar a beleza da Mesquita… embora, na minha opinião, o que restou do templo muçulmano é o que empresta à Catedral de Córdoba seu singular encanto.

Ninguém sai incólume a tanta formosura.

Ps: Algumas fotos foram retiradas da Internet com a intenção de ilustrar o texto.Se alguém se sentir malcom isso, avise-me.

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Avistando África… desde Tarifa.


* Escrevi este post nos últimos dias de Abril. Mas só pude publicar agora.

Estou em Tarifa. Um privilégio, eu sei. Todos aí em plena jornada de trabalho e eu aqui, nesse maravilhoso rincão do planeta, aproveitando esses mares e a extraordinária luz do pueblo mais meridional da Europa enquanto assisto a recuperação do tornozelo quebrado do meu pirata, depois de mais de um mês imobilizado num gesso até o meio da perna.
Saímos todos os dias pela manhã para andar à beira mar na Playa de los Lances de forma a fortalecer a articulação e restituir à musculatura da sua perna direita a flexibilidade de sempre.
Não há ninguém na praia a essa horas, a água dói de tão gelada, o vento sopra sem piedade, uivando como um lobo assustado. As gaivotas, que em outras circunstâncias pousam na areia molhada em busca de pequenas delicias, tampouco são muitas por aqui. Uma ou outra mais atrevida arrisca planar sobre nossas cabeças mas logo desiste do esforço se vai para a Isla de las Palomas, ligada ao povoado por um estreito caminho de pedras que tem o Mar Mediterrâneo de um lado e o Oceano Atlântico do outro ou seguem para a Punta del Santo, bem na entrada do pequeno porto.
Além delas e de nós na paradisíaca paisagem apenas os grandes navios que cruzam o Estreito de Gibraltar, a beleza do brilho prateado do sol sobre a água encrespada e, sob nossos pés, as espetaculares correntes de areia fina que deslizam pelo solo até o mar empurradas por rachas de um vento infernal.
Aqui o vento tem o protagonismo que merece. Ninguém sai de casa sem informar-se sobre ele. E quem está pelas ruas não tem assunto melhor que esse para começar uma boa conversa de pé na esquina. Com o sotaque cantadinho, como o dos pernambucanos, o tarifenho cumprimenta com um ” ái…el levante parece que afloja esa tarde” e outro responde “ná…parece que vá seguir hasta maña…” Eles não terminam as palavras, nunca. Se é para dizer nada dizem ; todo, dizem cansado é cansao, e pronunciar o S é quase impossível. Fastidiado é faftidiao…e por aí vai.
É preciso uma atenção redobrada para entendê-los, tanto na pronúncia quanto no vocabulário, enquanto contam sobre os ventos que assolam a cidade.
O fato de ser poente ou levante faz uma enorme diferença, mas a violência com que o vento sopra é que dá as ordens. Um levante muito forte pode deixar todo mundo dentro de casa. Os barcos pesqueiros não saem ao mar. E se dura demasiado tempo as pessoas tem dores de cabeça, enjôos, mal humor.
Mas cuidado! um poente forte é muito pior. Além de causarem todos os outros efeitos, a intensidade dele e o tempo que perdura, dizem, pode levar à loucura.
Pois deve ser verdade…
Eu fico quase louca com ambos. Agora é levante, dos medianamente fortes. A areia entra pelos buracos da minha cara, o cabelo dá nós impossíveis de desfazer, uma irritação na boca do estômago, uma vontade de não-sei-o-quê.
Sair de casa é enfrentar o vento e perder a batalha. Ficar em casa é pior.
Minha sogra fecha todas as portas e janelas, a pressão atmosférica oprime minha cabeça e meu peito, fico sem lugar e sem vez. Na televisão os programas variam de novelas a novelas, de novelas a novelas ( ela assiste todas ) e os filmes de fim de noite já passaram milhares de vezes. O novo livro que eu trouxe ainda não me atracou, a Internet não funciona…Murakami já acabou! ( Por sinal, amei o Tokio Blues).
Prefiro sair por aí. Enrolo um lenço na cabeça, como as muçulmanas, óculos escuros, jeans e tenis. Vaya figurinha! Se vou a favor, o vento me ajuda . Se é para ir contra ele, custa viu! Mas eu vou.
Descobri um cyber legal. Vende cadernos maravilhosos, agendas lindas, livros, lápis, canetas, papéis de carta, envelopes…tenho que me conter para não arrasar de comprar, sou fanática por tudo isso. Ah… e dez computadores em WiFi. Yesss! Esse seria um negócio que eu gostaria de levar.
A “fauna” tarifenha que frequenta o lugar já seria um boa distração. Cada figura! Ficaria ali mais do que o necessario, desde que não tivesse que pagar por minuto…
Entoncesss… me voy. Só de pensar em voltar para a casa fechada a cal e canto, com o vento silvando como louco pelas frestas da janela, sigo andando pelos becos do pueblo, entrando em todas as lojas, futucando os belíssimos anéis de prata, os braceletes coloridos, as roupas alternativas que eu adoro.
Em Tarifa ninguém se veste como em sua própria cidade. Aqui todo mundo veste como em Porto de Galinhas, com a diferença de mais um poquinho de frio. Acho que os dois pueblos têm a mesma característica. Gente de toda parte vive aqui. Gente de toda parte passa por aqui. Isso altera muito a personalidade do lugar e ele vai ganhando um jeito próprio de ser, falar e vestir. Gente que faz tranças rastafari no cabelo, que usa roupas coloridas, rendas de algodão, sandálias de couro com desenhos originais e tecidos rústicos, pedras artesanais. Gente com cara de gringo , vestido de qualquer jeito caminha por todos os becos, por toda parte, mas que importa? A cidade vive disso. Dos campeonatos de kitesurf, windsurf, cinema africano, música flamenca.
Algumas marcas de roupas nascidas aqui são famosas por toda a Espanha.
Gosto das camisetas da El Niño ( originalmente moda masculina e agora, devido ao imenso sucesso , unisex ) e da moda divertida da Mala Mujer, mas esta … tcs.tcs…só é divertida para jovens magras. Como sempre, as prendas sao fabricada para as sílfides e além disso as que podem mostrar a barriga. Tudo coladjinha e curtchinha, tá! . Tamanho G é 40 de largura e 38 de altura. Tóin! Tem graça não, viu!
Bueno… também são um tanto caras. Parei numa vitrina para ver uma túnicazinha leve de algodão, mas quando vi que custava 91 euros, desisti. Resmunguei um comentário para mim mesma… “noventa-e-um euros, vaya!” e a dona, que estava por perto escutou. Com prepotência e cara feia me encarou dizendo que “dentro tinha coisas mais caras”… hahaha!
Sorri para ela. Tá bom, mujer. Que fique com tudjin
Tarifa é tão linda, que basta que o vento relaxe para o bom humor me acompanhe a toda parte!

O que se pode fazer? Comprar uma shilaba ( túnica árabe ) dessas largas e gostosas de vestir. São lindas e custam entre vinte a trinta e cinco euros…
Vou fazer isso da próxima vez.
* Mais sobre Tarifa AQUI

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