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Carnaval em Madrid…

Se saudade matasse, Dagmar… eu estava mortinha da silva júnior!

Pois é… depois de seis anos sem o Carnaval pernambucano, o coração já não aguentava mais! Por dois anos eu fiz uma festa à fantasia em minha casa e deu para enganar a ânsia. Mas o Carnaval das ruas é a marca registrada de Pernambuco e isso não dava para fazer em casa.
Agora que eu sou novamente urbana… tinha que dar um jeito.

E lá fui eu, com um grupo de brasileiros animados, cruzar as ruas de Madrid.
Brasileiros vindos de todas as regiões do país, cada um cantando e batucando as suas saudades… e todos numa irmandade só.  Brasil! Brasil! Brasil!
Brasileiros... marginais do desfile
Carnaval em Madrid é patético… mas a gente nem quis saber.
Aproveitando um desfile oficial da Prefeitura, onde não foi possível participar, os brasileiros não desistiram da alegria e, com alguns intrumentos e muita vontade de brincar, cada um com sua máscara, seu chapéu, seu sorriso e sua vontade de confraternizar saiu convocando as gentes das calçadas para todo mundo poder sambar!
E tome marchinhas, sambinhas e batuques…
Voltei para casa, depois de três horas dançando e cantando, muito mais leve.
Valeu!
Sobrevivi a mais um ano!

E nada como cantar meu frevo canção pernambucano!
Minha máscara nova
Quem tem saudade
Não está sozinho,
Tem o carinho, da recordação…
Por isso quando estou
Mais isolado
Estou bem acompanhado
Com você no coração…
Uma sorriso, uma frase, uma flor,
Tudo é você na imaginação..
Serpentina ou confete…
Carnaval de amor…
Tudo é você no coração…
Você existe
Como um anjo de bondade
E me acompanha
Neste frevo de saudade
Lá Lá Lá Lá… etc.

 

Frevo da Saudade –
(Nelson Ferreira – Aldemar Paiva)

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Catando a poesia deitada no chão…

Em Madrid há gente que mora nas ruas, como em todas as cidades grandes.
Gente que, por algum motivo – ou por vários, abandonou a vida que tinha… ou foi abandonada por ela.

Gente que dorme entre caixas de papelão, portadas de edifícios ou abrigos da prefeitura.

Eu vejo alguns, de vez em quando…

…mas esse era diferente.
Madrid-2009

Ele escolheu a calçada do Teatro Real de Madrid como cama, suas grades como armário… e um livro como companheiro na fria manhã de Inverno.
Um livro de páginas amareladas e sem capa… um livro!

Eu passo rente à sua manta azul, uma e outra vez, com uma vontade imensa de abordá-lo.
Queria perguntar quem é, de onde vem, o que houve para que esteja aí, entregue a intempérie ?
Queria dar-lhe algum dinheiro para o café, o pão, o leite.
Mas ele não parece um mendigo.
Vejo de soslaio uma barba grisalha, limpa e bem cortada… a mão que sustenta o livro aberto, também limpa.
Tive vergonha de incomodá-lo.

 

Faz mais de uma semana que penso nele…

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Saindo da toca…

recoletos-madrid
A foto mostra meu café favorito, Café Recoletos, no centro de Madrid, adornado como uma noiva. A fantástica nevada foi um presente da natureza neste nove de Janeiro e eu estava lá… caminhando sob a neve e tomando um café quentinho por trás dessas maravilhosas vidraças bem no meio do Paseo Recoletos. Bárbaro!
……………………………………………….
A todos que vieram aqui e deixaram seus recados, obrigada. Aos que vieram e não deixaram nada eu também agradeço porque esse fluxo, mesmo durante um abandono tão grande, me incita a voltar.
Queridos, de vez em quando o blog sai de férias, ou inverna, dorme. Mas não morre. Desta vez ele passou dos limites e quase morreu. Graças a voces e suas mensagens carinhosas ele sobreviveu. Obrigada pela paciência.
Aos novos vistantes quero registrar também meu muito obrigada. Já os visitarei… me aguardem.
Beijos de Feliz Ano Novo!
Voltei.

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Rosas, rosas, rosas…

Rosas formosas se espalham por Madrid.
Em cada jardim, cada praça, elas se mostram, simplesmente espetaculares, na mais gloriosa festa da natureza: a Primavera.
Não lhes importam que as águas das torrenciais chuvas dos últimos dias tenham inundado as ruas, os túneis, as garagens subterrâneas e tenham alimentado – com gosto e vontade – os imensos buracos cavados pelos obreiros municipais e transformado a cidade num enorme campo cheio de poços de água e lama.
Não lhes importam nada disso…
Elas aproveitam a confusão e pintam as folhas com novo verde, afiam discretamente os espinhos, suspiram com feminilidade… e amanhecem no dia seguinte, bem ali ao lado, na encosta de uma estrada, na cerca de um parque, nas rotondas, nas varandas das buhardillas, nos jardins dos museus, nas praças… lindas, radiantes, sedosas, magníficas em suas cores, cada uma escolhida com cuidado na vagarosa toilete matinal.
Umas ainda mantém, penduradas nas pétalas, as gotas de orvalho que roubaram da névoa que na madrugada cobriu a cidade…
Acho que durante as noites de chuva elas mergulham na terra, deitam sob mantos de folhas perfumadas e dormem como deusas surdas. Nem percebem a tromba d´água, as sirenas dos bombeiros, os prantos dos que perdem o rumo e o prumo em noites de tempestade.
Elas apenas descansam. E isso é absolutamente necessário, ninguém discute. Dormem em um leito verde e mágico só para que, ao dia seguinte, quando despertem, todos os desesperados, sobreviventes dos assustadores relâmpagos e escandalosos trovãos que os deuses cuspiram sem dó sobre a cidade indefesa, possam recuperar o juizo, a ternura, o desejo de viver e serem felizes apenas ao vê-las.
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Psit um :
Nem só de amapolas vive meu coração na Primavera. Para um boa crise de ego, nada melhor que um largo passeio entre as rosas de Madrid !
Psit de novo!
Perdoem mais um vez o abandono!
Crises de ego são poderosas, intimidam, paralisam. Cada movimento abre feridas do passado. Recomendo um passeio entre as rosas, amapolas, margaridas… o que estiver ao alcance de cada um…
Ah, psit again:
Vou responder a todos os comentários… vocês arrasaram!
Também pudera, com um texto assim como o do post passado! Já soube que ninguém sabe quem o escreveu, o que não diminui em nada a força de sua poesia.

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E Haja Saudade…

De vez em quando o Brasil se esquece – ou finge que esquece – que anda enfermo, ferido, magoado, perdido de sonhos e esperanças e me envia ventos perfumados, brisas sonoras, beijos com gosto de caldo de cana gelado.

Amigos me presenteiam com seus poemas, romances, músicas, notícias sem siglas, sem sangue, sem vergonhas e humilhações… só saudades em cartas escritas a mão, como antigamente, com direito a envelope e selo carimbado…
É mel direto no coração!
Eu deixo que me mimem.
As dores e medos já vem sozinhos, em largas golfadas de enxofre expelidas pelos noticiários, internet, jornais e televisão. Delas, nem aqui no meu monte de coelhos e raposas, eu escapo.
Desde que morri e renasci, entretanto, deixo que – apesar de tudo, seja o que for esse tudo – me mimem.

Pois sim…
Desta vez a dose de mel foi grande demais. Uma amiga brasileira, que vive há muitos anos em Madrid e que eu só descobri por acaso no ano passado, deu-nos convites para a estréia de um filme. “Vinicius de Moraes: Quem Pagará o Enterro e as Flores Se Eu Me Morrer de Amores”, de Miguel Faria Jr.

Fui.
Borboletinhas fazendo “fruf-fruf” na boca do estômago…

Sentada numa das poltronas do clássico Cine Avenida, na Gran Via, meu coração derretido cantava em silêncio cada canção de Vinícius, meus olhos úmidos comiam cada paisagem do Rio de Janeiro, meus ouvidos guardavam cada depoimento de seus amigos, parceiros, parentes, – ai, Chico…meus sais! Vem sorrir lindo assim aqui, vem! – minha alma reconhecia cada poema declamado.
A cada lembrança, uma saudade dos tempos… deles e meus.
Vinícius foi meu primeiro poeta. Cresci com seus livros agarrados no peito e sabia muitos dos seus poemas de memória. Cantei todas as suas músicas, por toda a minha vida…
Amei para sempre, antes de saber que o para sempre, sempre acaba. Mas aprendi também que o amor vivido, se foi amor, não morre, só adormece. A gente guarda ele ali, num cantinho da memória. Ele desencarna… mas não desaparece. Amores vividos jamais a gente esquece. E isso deve ser a eternidade…
Em um 9 de julho chorei sua morte como a de um amigo querido. Depois, passei um tempo sem poder ouvi-lo ou ler a sua obra. Dava um nó no meio do estômago e a melancolia enchia minha alma.
Aos poucos a dor foi dando lugar a uma linda e gostosa nostalgia… até que nunca mais se separou delas.
Hoje, quando leio ou escuto Vinícius, sinto mais do que um simples admiração pela sua obra. Sua poesia e sua música estão irremediavelmente entramadas com minha vida, desde a infância.

Elas provocam-me sentimentos mais íntimos, como se soubessem e dissessem muitas coisas de mim.
Faz-me sentir esse leve rufar de asas de mariposa no coração, respirar um perfume de adolescência que se espalha pelo ar, junto com vagos traços de rostos de antigos namorados, nomes e caras de amigos perdidos pelo tempo, casas, árvores, praias, assobios de meu pai e seu jeito de lorde… mares mansos e verdes… os sorrisos lindos da minha mãe e seus ares de menina e princesa!
Um tudo de cor e alegria invade minha alma e minha cara vira “tela de cinema”.
Se algum-alguém tivesse a capacidade ou o dom para assistir meu filme, veria que belas imagens…

Mas não… parece que ele passa só pelo lado de dentro.
É por isso que eu venho aqui e escrevo.
………………………………….

Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: — Nunca fez mal…
Quem, bêbado, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: — Rei morto, rei posto…
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: — Foi um doido amigo…
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cal?
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançara um punhado de sal
Na minha cova de cimento?

Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: — Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: — Não há de ser nada…
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?
Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?

Vinícius de Moraes
Rio, 1950
……………………………………………
Ninguém, meu velho e querido amigo.
Mas prometo não deixar-lhe morrer…

Ensinarei suas músicas aos meus filhos e netos, escutaremos juntos pelas madrugadas, presentearei seus livros aos amigos, e com eles rememorarei seus poemas em noites de grandes luas.
Estreitarei você no peito até o infinito.

…eternamente sua enamorada.

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Vozes Remotas…

Passei o dia com uma vibração dentro do peito. Fiz o que nunca faço: logo pela manhã elegi a roupa que pretendia usar à noite e, como a criança obediente que fui, deixei-a sobre a cama com zelo. Assim gostava de fazer a minha mãe,a Princesa. Eu, que jamais gostei de escolher a roupa antes da hora de vestir-me, estranhei.
Andei pela casa como suspensa numa nuvem antiga e reconhecida. Cuidei das plantas sem conversar com elas, deixando que os sons remotos das vozes perdidas ecoassem na minha memória. Engoli o almoço sem sentir seu sabor. Parecia… por momentos, estar de volta à lugares e idades distintas. Faço isso muitas vezes na minha vida.
Acho que não tenho muito delimitado essa coisa de passado, presente e futuro. Vivo e re-vivo e pré-vivo sentimentos e sensações com a memória e a imaginação frequentemente.
Ontem o tempo oscilava entre presente e passado a cada larga hora do dia…
Há anos que eu não sentia um dia passar tão devagar!

Sobre a mesa do gabinete, uma página impressa recordava o motivo de minha inquietude. Registrava que tínhamos entradas para a ópera em Madrid. La Bohème, de Puccini.
(Clique aqui e escute a ária Si, me chiamano Mimi , com Maria Callas. Também pode escutar Che gelida manina, com Pavarotti, na mesma página do site El Poder de La Palabra, cujo link eu indico aí ao lado.)
Então… minha primeira vez no Teatro Real de Madrid. E também minha primeira vez numa ópera ao vivo e a cores.E logo La Bohème! Emocionante demais! Mais do que se possa imaginar.
Apesar de ser minha estreia numa apresentação desse tipo, a emoção maior não era apenas por isso. Era algo mais visceral.
Eu nasci escutando ópera. Esta era uma das grandes paixões do Lorde. E La Bohème uma de suas prediletas.
Recordo, mais com a memória dos sentimentos que com a memória da razão, estar entre seus braços numa das muitas noites de brumas da casa do Poço da Panela, escutando Mimi em seus primeiros instantes de enamoramento…
“Mi chiamano Mimì,
ma il mio nome è Lucia.
La storia mia è breve.
A tela o a seta
ricamo in casa e fuori… “

Não que eu soubesse o que estava dizendo aquela voz tão extraordinária, era muito pequena, mas sentia que seu encanto e beleza se espalhavam por sobre nós e a casa, avançavam como uma onda por sobre as baronesas que cobriam o braço do rio e iam enfeitiçar as árvores centenárias da outra margem. Quem sabe estavam os seres encantados que viviam nas matas também fascinados como eu?
Depois, muitas foram as vezes que escutei Mimi e Rodolfo recitarem seu amor e desventuras… aí eu já sabia o que diziam e o prazer só aumentou.
Acho que já disse que a herança mais bonita que recebi de meu pai foi o amor pela música. E foi através dessa herança que eu “reabilitei” a minha relação com ele.
O Lorde era uma criatura fora de série. Podia ser o sujeito mais sensível do mundo para umas coisas e o mais rude para outras. Era dono de uma inteligência e sensibilidade privilegiadas, mas como pai não foi nada competente. Amava com muita crueldade. Quem sabe um dia eu fale sobre esse aspecto de nossa relação. Agora não creio que valha a pena.
Muitos anos depois de sua morte, resolvi rememorar apenas seus momentos suaves… embora, de vez em quando, os outros ressurjam das brumas e venham sombrear recordações de minha infância e juventude.
Ontem ele estava lindo, com seus verdes olhos molhados de emoção assistindo La Bohème comigo.

Antes, como para preparar-nos, levei-o dentro do peito para a bela praça diante do Palácio Real de Madrid. Sentamos na antiquíssima ” terraza “ do Café Oriente e tomamos um café com Drambuí e sorvete como sei que ele amaria, enquanto olhávamos as pessoas que chegavam para a função.
(Adoro olhar as roupas, sapatos, abrigos… Para mim já faz parte do “evento” observar como estão vestidas as pessoas. E mais, eu ainda crio histórias para elas… mas isso dá outro post sobre manias.Já descobri que mantenho algumas das antigas, só que tinha esquecido delas.)
Pois sim…

O coração batia forte quando entramos no teatro e buscamos nossos assentos. Quando a cortina abriu e a orquestra executou os primeiros acordes, temi deixar-me levar pela irritação por ter comprado lugares em um dos camarotes laterais, caros demais para uma visão tão reduzida. ( Como se atrevem?)
Mas depois, levantando-me muitas vezes, contando com a paciência amorosa de Pepe e o próprio cuidado da produção que fez com que os personagens se movessem por ambos lados do cenário, numa primorosa recriação da buhardilla parisiense ou da antiga rua do quartier latin francês de 1840 relaxei e aproveitei. E aos poucos, principalmente pela força da representação e da música, entrei em transe.
Tomei nos braços a minha lembrança daqueles belos momentos de intimidade com meu pai e desejei de todo coração que ele e minha mãe pudessem estar mesmo ali comigo e com Pepe. E, se não… imaginar que eles podiam assistir nossa ópera favorita através de meus olhos e de minha saudade.
A atuação da companhia foi deslumbrante!
E eu chorei feliz, como estava previsto, com o lenço branco de olhos-de-mar-azul em volta do nariz para não fazer barulho.
Assim, foi com o coração cheio de suave alegria e um toque de agradável nostalgia que brindei com Pepe, no hall do teatro durante um dos intervalos, ao sabor de uma bela taça de cava espanhol, à memória do Lorde e da Princesa, que infelizmente ele não conheceu.
Dediquei a eles minha estreia.
Sim, porque essa foi só a minha primeira vez. Tenho certeza que virão outras.
Pretendo, um dia, se Deus ajudar, ir ao Festival de Ópera de Verona.
E Deus gosta de mim. Eu sei.

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Pensando em Garcia Marquez…

“Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía recordaria aquela tarde remota em que seu pai o levou a conhecer o gelo.

Macondo era então uma aldeia de vinte casas de taipa construídas à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos.
O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las havia que apontá-las com o dedo.”

E eu, longe da minha Macondo, de seus cheiros de começo de vida, seus meninos cinzentos e descalços, o barulho dos batuques nas latas, a “La Ursa quer dinheiro, quem não der é pirangueiro”…o calor úmido das margens do rio Capibaribe, os risos, o tum-tum do coração no ritmo das latas… as pedras portuguesas no chão quente do Poço da Panela…

Quanto tempo ?
Agora olha eu aqui… apontando com o dedo para algumas coisas em meu novo Macondo: CLIMA DE CARNAVAL = NEVE
*Foto: no jardim de casa.

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Coluna Social…


Pois sim…
O Milton Ribeiro e a Cláudia chegaram e partiram num mísero piscar de olhos.
Enquanto eles desayunavam o Museo del Prado, desde as nove da manhã, com direito ao melhor de Velazquez e Goya, belos Bosch, Ruben, Ribera, Caravaggio, etc, nós conseguíamos evitar a hora punta e entrar em paz em Madrid.
O encontro foi pontual. Às 11:30 na porta norte do museu.
Segundo eles, duas funcionárias apontaram para direções contrárias ao serem perguntadas onde ficava a bendita porta. Vai ver elas tiveram a mesma professora de geografia que eu tive na infância. A freirinha ensinou-me que o norte era na minha frente, o sul atrás, leste à direita e oeste à esquerda.
Ora… simples, tonta! Não é?
Ainda morro de rir quando lembro que qualquer que fosse a minha posição eu achava que o norte estava sempre diante de mim! Rá!
Bueno… eles a encontraram ( a porta ) e nós também. (Foto do Milton num antigo sebo de livros)
A idéia era conhecer-nos caminhando entre as ruas e praças, tomando umas copas e provando umas tapas, até a hora em que eles voltassem ao aeroporto, com Roma como destino principal.
Madrid era só um pit stop.
E foi assim.

Depois de conseguirmos calçar a Cláudia, que veio com os pés prisioneiros e sufocados por uns belos e negros sapatos de salto e bico finos, torturantes e demolidores de qualquer tentativa de felicidade, ( minha especialidade em outras épocas e viagens) aproveitamos a beleza da cidade à pé, com sol e frio.
Delícia de dia!
( Foto na janela de uma Taberna ao lado da Plaza Mayor)
Entre a Puerta del Sol, Plaza Mayor, Plaza del Oriente e Palácio Real, caminhamos tranquilos e escutamos os músicos que tocavam nas ruas, entramos em antigos e tradicionais Tabernas, Cafeterias e Mesons de Madrid para uma conversa amena e agradável e as deliciosas tapas e vinhos espanhóis.
O cardápio madrileño é variadíssimo, mas ficamos entre pato defumado com queijo de cabra, salmão, jamón ibérico, lomo de cerdo, morcilla de burgos com setas, pães chapata e vinhos Rioja …. ufa! e batemos um papo tão descontraído e gostoso que nem sentimos o tempo passar.
Eles me trouxeram uma camiseta Verbeat ( objeto de desejo disputado quase no tapa aí no Brasil ), A Paixão Segundo São Mateus e As Suites para Violoncelo, de Bach (bárbaros!), um Aurélio virtual ( necessário e imprescindível para mim) e o livro manchete do momento na blogosfera, o Blog de Papel ( esse merece um post à parte).
Imaginaram minha cara de felicidade? HEiM?!
Pois sim… a-d-o-r-e-i !
À Milton dei um disco ( O Souk – Ethnic Fusion, de Tarifa ) que nem sei se ele vai gostar pois é uma proposta meio diferente do que ele costuma ouvir, mas à Cláudia dei um livro com as 100 Melhores Tapas Espanholas.
Esse com certeza ambos vão adorar!
Aí acabou o tempo.
Só deu para isso mesmo. Mas já valeu como primeiro contato pessoal.
Nós dizíamos isso a três por quatro, entre muitos abraços: “Que bom estarmos juntos aqui!”
Depois de uma curta volta de carro por Cibeles e outros monumentos, deixamos um Milton com cara de relaxado, quase adormecido, na porta do aeroporto às seis da tarde.
E uma Cláudia disposta a viajar com os confortáveis tênis comprados na Calle Preciados e relegar os belos e finos saltos à mochila de mão.
Ninguém merece ir sofrendo e infeliz à Roma.
Muito menos uma mulher cheia de graça e energia como ela. ( Foto na Meson De La Cava)
Aí…entrou por uma perna de pinto… saiu pela perna de pato…

E o Rei mandou dizer… Voltem!

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Um Verão em Madrid…

Uma semana de turista…no verão madrileño!
Parece muito bom, mas… nem tanto.
Pois sim… receber visitas com vontade de conhecer Madrid nesta época é um tanto desgastante. Não para eles, claro. Estão loucos para ver tudo e isso significa não parar um instante. Não querem perder tempo!

Para quem vive aqui e já conhece muitos dos lugares emblemáticos da cidade, sair sob um sol a pino pela Plaza Mayor e adjacencias, sorrindo e parando para tirar fotos é quase como fazer uma penitência.
Assim, já aviso aos meus amigos, quando eles vêm visitar-me nesta época, que escolheremos lugares mais frescos para passear.
Aliás, o ideal é que não escolham o verão para conhecerem Madrid.
A primavera, seguida pelo outono, são as estações do ano mais propícias para aproveitar tudo o que a cidade e suas imediações oferecem em termos culturais e gastronômicos, sob um clima delicioso! Fresco, mas não frio. Ou cálido, mas não quente.
Naturalmente, durante o verão madrilenho há menos trânsito, mais lugares para estacionar e muito para se ver e fazer. Mas o calor é sufocante e o sol só abandona a cidade depois que se cansa… lá para muito depois das nove da noite.
Não é a toa que os habitantes da cidade fogem durante o mês de agosto em busca das praias, por mais cheias que estas estejam. E se não conseguem um lugarzinho ao sol diante de um mar refrescante, sobem as montanhas e se deleitam em pequenos “pueblos” de clima mais ameno. Na cidade ficam os que não podem sair de jeito nenhum… e os turistas.
Como sou uma eterna turista na Espanha, já conheço as malícias de cada estação. E para o verão já fiz minha cartilha.
Uma de suas regras é que nas horas de muito sol e calor visito um museu, uma catedral ou um palácio.Nas horas mais frescas, os monumentos ao ar livre, as praças, as ruas.


Outra dica é não comer demasiado. Jamais almoçar. Os bares e restaurantes espanhóis são especialistas em tapas. Deliciosos bocadinhos de tudo: frutos do mar, tortilhas de batatas, pinchos de carne ou peixe, saladas. Existem tapas para todos os gostos. São baratas, matam a fome e servem como pequenos descansos entre um lugar e outro. Acompanhadas de vino-verano, cervejas ou granizados, são leves e refrescantes.
Se a gente pára e almoça, depois dá uma preguiça, um sono, uma vontade de desaparecer embaixo da primeira árvore que ofereça meio metro de sombra.
Mais uma das minhas regras: se eu estiver perto de casa ou do hotel, procuro sair perto das seis da tarde. Dá tempo de ver tudo ( igrejas, museus, etc) nos horários em que ainda há muito sol, pois todos abrem até mais tarde durante o verão. E depois, quando saio às ruas, já há um sol mais amoroso e a luz do entardecer é fantástica para as fotos.
O passeio fica mais agradável… e o sol ainda presenteia a gente com seu lento ritual diário de esconder-se, rubro e cansado, por trás das colinas.
Os terraços já estão com suas mesinhas convidativas cheias de gente tomando suas copas, cafés ou chás gelados.
As coisas e pessoas ganham uma dimensão distinta durante o anoitecer. As sombras das altas casas de belas buardilhas tornam-se alongadas e deformes e enfeitam as ruas… O vento acorda de la siesta (que ele nem é bobo nem nada) e sopra levemente sobre saias leves e calças folgadas de algodão, típicas vestimentas do verão espanhol.
O cansaço é muito menor e o prazer muito maior.
Já faz tempo que desisti de ser uma turista que quer vê TUDO em dois dias. Ou fico mais dias… ou vejo muito menos, mas com muito mais sabor.


E por falar em prazer e sabor fui assistir uma Antologia de Zarzuelas, na Plaza de Toros de Madrid.
Adorei.
A Zarzuela é uma opereta típica espanhola. Eu nunca havia visto nenhuma e fiquei encantada com a qualidade de seus intérpretes, coros e balés. As castanholas e os sapateados são marca registrada da Espanha em todos os tempos. Pena que não estávamos em um teatro de verdade. A Plaza é grande demais para uma apresentação teatral desse porte.
Mas valeu como primeira experiência.
A música que está tocando agora no blog é de uma das Zarzuelas mais conhecidas. Chama-se La Verbena de la Paloma.
Se um dia vierem à Espanha, não percam um espetáculo assim.
E recordem de mim…Vale?

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